Tráfego pesado

José Horta Manzano

A Ponte Velha (Ponte Vecchio), de Firenze, foi erguida no ano de 1345, faz quase sete séculos. E está lá até hoje, galharda e elegante, o que é normal. De fato, não é corriqueiro ver ponte cair. Ninguém imagina que a ponte medieval que liga as duas margens do Rio Arno possa desmoronar assim, de uma hora pra outra.

Faz uns dias, a pista de um viaduto paulistano afundou bem na junção de duas placas de concreto. O sinistro criou um degrau na pista. Esse desnível, além de ameaçar derrubar o viaduto sobre os trens que circulam mais abaixo, impossibilita o trânsito de veículos.

Chamada Estadão, 20 nov° 2018

Este blogueiro é do tempo em que trânsito significava tráfego, passagem, movimento de pessoas ou de veículos, o ato de atravessar ou de circular. No entanto, dado que o trânsito de veículos nas desorganizadas megalópoles brasileiras costuma ser lento e encrencado, o significado da palavra evoluiu. Hoje em dia, trânsito deixou de ser palavra neutra, sem qualificação. Passou a ser sinônimo de tráfego pesado.

O jovem estagiário do jornal responsável pelas chamadas não conheceu a época em que o trânsito, conhecido então como tráfego, era pacato. Para o jovem, trânsito é engarrafado por natureza. Daí o título esquisito que informa que vias estão abertas à circulação «para evitar trânsito», quando um incauto imaginaria o contrário, isto é, que as vias tivessem sido abertas justamente «para facilitar o trânsito» e não para evitá-lo. É conversando que a gente se entende.

Pró-memória urgente

Carlos Maurício Mantiqueira

Aos que creem na vitória do bem contra o mal, eis aqui o manual.

Lembre aos políticos que eles também podem ser vítimas:

Interligne vertical 11ade uma queda – pior que a de viaduto feito às pressas;

de falta de socorro médico porque não há hospitais de qualidade;

de bala perdida no meio de um arrastão;

de depredação, sem aviso prévio, do local onde se encontram;

de sede provocada pela falta de planejamento das autoridades medíocres que permitiram a transformação de rios em esgotos a céu aberto.

Lembre aos juízes que eles também podem ser vítimas de assaltos, de invasões e de violências – incluindo outros arbítrios praticados pelo Estado. Se continuarem julgando contra a letra da Lei, eles deixarão a seus descendentes uma terra de ninguém, zona liberada ao apetite do poderoso de então.

Lembre aos jovens:

Interligne vertical 11aque um dia ficarão velhos;

que, se emigrarem, serão sempre estrangeiros em terra onde não têm raízes;

que tatuagem não sai;

que o álcool e as drogas os ajudam a morrer mais cedo.

Lembre aos banqueiros que são apenas parasitas: lucram emprestando, a juros altos e taxas absurdas, o dinheiro dos outros – não o deles.

Lembrem-se todos: os mais opulentos, corruptos e ladrões servirão de pasto a regimes justos, idealistas, não corrompíveis, que façam respeitar a autoridade.

O faroeste e o desleixo

José Horta Manzano

Todos soubemos do inacreditável acidente de tráfego ocorrido no Rio de Janeiro, faz alguns dias, quando um ônibus de transporte municipal caiu de um viaduto e estatelou-se na avenida, dez metros abaixo.

Num primeiro momento, imaginamos que tivesse havido falha mecânica no veículo ou, nunca se sabe, que o motorista se encontrasse sob efeito de alguma droga ― lícita ou não.

Não era nada disso. A assustadora ocorrência tinha sido consequência de uma disputa entre o condutor e um dos passageiros. A tapas, socos e pontapés, como manda o figurino atual. Matar ou morrer deixou de ser mote de filme de faroeste para compor a paisagem urbana corriqueira de nossas metrópoles.

Sete cidadãos inocentes morreram? E daí? Se em São Paulo um universitário pôde decepar o braço de um ciclista e atirá-lo a um riacho poluído, por que razão não poderia um outro estudante ― universitário! ― expor os ocupantes de um coletivo à morte?

Nesta quinta-feira saiu a notícia de que a empresa de transporte foi sancionada com multa pesada. Tarde demais. De qualquer maneira, o veículo precipitado no vazio já acumulava 47 multas nos últimos 5 anos. A reportagem não esclarece se as multas antigas haviam sido pagas. Talvez sim, talvez não. Cada um é livre de formar sua própria opinião.

Por detrás da barbaridade do acontecido, um fato me chama a atenção. Sabe-se agora que o veículo estava em falta com a vistoria anual obrigatória. Circulava, pois, em perfeita irregularidade havia, pelo menos, três meses. Talvez mais. E tudo bem. Poderia ter continuado assim por meses, anos, sabe-se lá.

Ônibus

Para que servem as autoridades de controle do tráfego? São como enfeites de árvore de Natal, que se mostram durante duas ou três semanas por ano, para em seguida cochilar numa caixa de papelão esquecida no porão?

A atual parafernália informática permite às autoridades acompanhar, dia a dia, a conformidade de todos os veículos sob sua jurisdição. Ao que tudo indica, não o fazem. Se não cumprem a obrigação maior, que é a de zelar pela segurança dos usuários dos meios de transporte, é sinal de que se tornaram inúteis. Para que servirão além de se terem tornado simples cabides de empregos?

Não se deve chutar cão morto nem atirar em cadáver. Mas fica a indignação. E a pergunta: quem merecia ser multado? A empresa de ônibus ou a administração que deveria cuidar do transporte coletivo na cidade?

Que se possa perder o rastro de um ou outro veículo particular, seja porque seu proprietário se mudou sem avisar ou por outro motivo qualquer, ainda dá, mal e mal, para explicar. Não elimina a responsabilidade da autoridade, mas suaviza sua culpa.

Que se negligencie a vistoria de ônibus utilizados diariamente por centenas de passageiros ― veículos estes que pertencem a empresas registradas, com endereço fixo e conhecido ― é inadmissível. Mormente num país que se orgulha de estar em via de «emergir».

Na Europa, as passagens de nível ― cruzamento de ferrovias com estradas ― costumam exibir um letreiro que diz «Cuidado! Um trem pode esconder um outro!». A tragédia do Rio de Janeiro responde à mesma lógica. Por detrás do faroeste urbano, patenteou-se o desleixo na verificação da boa manutenção dos veículos. Cuidado! Um acidente mortal pode esconder um desmazelo!

Concedo que o Departamento de Tráfego não foi concebido para aplacar a violência de cidadãos desequilibrados ― não é sua função. Com ou sem vistoria, o veículo se teria precipitado no vazio. Mas quantos veículos e quantas vidas terão ainda de ser sacrificadas até que as autoridades se deem conta de que estão lá justamente para fiscalizar e prevenir?

Rapaziada do Brás

Você sabia?

José Horta Manzano

Corria o ano de 1917 quando Alberto Marino (1902-1967) compôs uma valsa. Fosse hoje, é possível que tivesse inventado um rap, mas o gosto musical da época era outro. O autor tinha apenas 15 anos de idade (quinze!). Sua criação era despretensiosa, nem letra tinha. Veio-lhe assim como brotam os primeiros amores adolescentes.

Como bom descendente de italianos, Alberto tinha nascido e crescido no paulistano bairro do Brás, reduto de imigrantes peninsulares. Naqueles tempos, metade da população da cidade era estrangeira e, dessa metade, um vivente em cada dois era italiano. A composição recebeu o nome de Rapaziada do Brás, ou do «Braz», como se usava então.

Não se pode dizer que tenha estourado nas paradas de sucesso. (Para quem não conhece a velha expressão, traduzo para o moderno vernáculo: hit parade.) A primeira gravação, pelas mãos do próprio autor, não se faria senão uma dezena de anos mais tarde. Quanto à letra, só foi acrescentada 40 anos depois, criada pela pluma do próprio filho do compositor.

Pouco importa se estourou nas paradas ou não. A Rapaziada do Brás é lembrada até hoje, passado quase um século. Ficou na memória coletiva como um símbolo do passado da cidade.

Alberto Marino continuou sua carreira na música. Diplomou-se como violinista e, mais tarde, como compositor e regente. O que ele estava longe de imaginar é que, após seu falecimento em 1967, seu nome se elevaria a uma altura de… 30 metros. Não estou brincando: um viaduto foi batizado com seu nome, honraria que não é concedida a qualquer um.

            1950 Porteiras do BrásFlechas azuis: postes ainda existentes

1950 Porteiras do Brás
Flechas azuis: postes ainda existentes

Governantes, figurões da política, seus amigos e familiares transformam-se, muita vez ainda em vida(!), em nome de logradouro público. Já com músicos e maestros, o acontecimento é menos frequente.

Todos os que conheceram a cidade de São Paulo antes de meados dos anos 60, hão de ter visto, ou pelo menos ouvido falar, nas porteiras do Brás. Para os que pularam esse capítulo, conto.

Desde o último quartel do século XIX, estradas de ferro cortavam a cidade. Foram, em grande parte, responsáveis pelo acelerado progresso do acanhado burgo. Enquanto o tráfego urbano se restringia a pedestres, a carroças puxadas a burro e a um ou outro automóvel, as vias férreas não representavam grande empecilho. Quando passava um trem, os que tinham de atravessar para o outro lado esperavam. Sem pressa e orgulhosos que se sentiam com o sinal tangível de modernidade, ninguém reclamava.

Foi assim até meados dos anos 40. A partir de então, o aumento da população expandiu os limites urbanos. O tráfego de automóveis e de caminhões cresceu. A Zona Leste povoou-se rapida e densamente. Muitas fábricas se estabeleceram ao longo da ferrovia. No entanto, imperturbáveis, os trilhos continuaram no exato lugar onde haviam sido assentados.

           2010 Porteiras do BrásO prédio verde perdeu suas venezianas

2010 Porteiras do Brás
O prédio verde perdeu suas venezianas

Nos anos 50, as porteiras do Brás já tinham se tornado um dos maiores pesadelos da cidade. A frequência dos trens crescia e, à passagem de cada composição, as porteiras baixavam, represando o pesado tráfego da importante avenida Rangel Pestana.

Falava-se muito em resolver o problema. Entrava prefeito, saía prefeito, e nenhuma providência era tomada. Foi preciso esperar até o meio dos anos 60 para que, finalmente, durante a gestão do carioca Faria Lima, então prefeito de São Paulo, um viaduto fosse construído. Como presente à cidade ― que faz anos em 25 de janeiro ― a obra foi inaugurada dia 24 de janeiro de 1968.

 Eu já não estava mais no Brasil, mas imagino que deva ter sido uma festa. E um alívio para os que costumavam atravessar a linha férrea, fosse a pé, de carro ou de ônibus.

Este é um (raro) exemplo de obra pública de nome acertado. Quem mais poderia ter emprestado seu próprio nome a um viaduto que resolveu o angustiante problema das porteiras do Brás?

O desaparecimento das porteiras não nos trouxe de volta a poesia da antiga rapaziada do Brás. A de hoje já não faz mais serestas. Se as fizesse, teriam outro tempero. Sobrou, como consolo, a quase centenária composição. Ainda há de nos encantar por muito tempo.

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Se alguém quiser recordar a valsa, na voz de Francisco Petrônio, que clique aqui.

NOTA: Clique sobre as fotos para ampliá-las.