Quem escreverá a história do que poderia ter sido?

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Um de meus professores de psicanálise defendia a tese de que todas as pendengas judiciais que se arrastam indefinidamente são fruto não de um pretenso desequilíbrio de poder, mas sim de um desbalanceamento de satisfação. Embora fácil de entender, essa formulação me era difícil de aceitar. Transpondo para palavras mais simples, o que ele propunha era que, se estou satisfeita com minha cota de benefícios ou privilégios, não há razão para reivindicar aumento da minha parcela, nem contestar o tamanho das parcelas alheias.

Conhecendo os paradoxos da natureza humana, eternamente desejante, eu me esforçava por identificar alguma exceção que me permitisse ir mais fundo na compreensão da proposta, mas nunca encontrei nenhuma. Hoje, às voltas com a angústia de lidar com uma espécie de versão apocalíptica da “Escolha de Sofia” na disputa presidencial, achei por bem ir direto à fonte e reler trechos da obra do próprio Sigmund Freud.

Para minha satisfação, encontrei menção a certos fatores da psicologia de massas que podem ajudar a compreender melhor os motivos de tanta virulência na campanha. Para começar, Freud analisa a diferença entre grupos naturais ‒ isto é, aqueles que se formam espontaneamente em torno de objetivos comuns ou defesa contra inimigos comuns ‒ e os grupos que são formados de fora para dentro, a partir de um propósito ao qual se deve aderir e jurar obediência, aos quais ele dá o nome de grupos artificiais. Dentre estes últimos, ele destaca os mais emblemáticos: o exército e a igreja.

Nos dois casos, argumenta Freud, porque a adesão a esses grupos nem sempre é espontânea, torna-se necessário criar alguma forma de sanção para impedir que o grupo se desintegre caso aconteça alguma dissensão. Se uma contestação dos princípios fundadores do grupo é levantada, é preciso evitar que ela se alastre internamente e ameace a credibilidade ou continuidade da própria instituição. Traduzindo para a linguagem do Capitão Nascimento, o insubordinado tem de lembrar que entrou para a tropa porque quis e, se não aguenta mais carregar o fardo da disciplina interna, tem de “pedir para sair”. A punição prevista em tais casos – tanto para hereges quanto para traidores da pátria ‒ é, assim, a expulsão compulsória.

Outra característica comum é que esses grupos são estruturados como uma família, na qual seu chefe supremo – Cristo, para a igreja católica, e o comandante em chefe, no caso do exército – é apresentado como um pai amantíssimo, que distribui cotas iguais de afeto para cada um de seus filhos. Sua autoridade moral tem por base a crença de que não há um filho melhor que outro, mais próximo ou mais merecedor do amor do pai. Se isso fosse sugerido, ainda que implicitamente, o resultado seria a decretação de sangrentas lutas fratricidas. Isso porque é o amor equânime do chefe da família que serve de espelho e cimento para a construção de laços de solidariedade entre seus membros.

Sabemos todos que, na última década e meia, teve início, por iniciativa do governo federal, a implementação de uma estratégia explícita de conceder parcelas maiores de benefícios a alguns segmentos sociais, sob a alegação de combater distorções históricas. Aos que passaram a se indispor com o projeto de justiça social, o governo apresentava como única resposta o argumento de que tais protestos eram simples derivativo da cupidez, ganância e insensibilidade das elites para com seus “irmãos” desfavorecidos. Tal qual a incompreensão e o desapontamento do filho que se manteve sempre ao lado do pai, descritos na parábola do filho pródigo. Enquanto a economia crescia – e, com ela, se mantinha a satisfação dos estratos sociais mais altos – o sapo foi engolido, mesmo a contragosto. Um inevitável ressentimento aflorou, porém, quando essa mesma elite foi chamada a pagar a conta do desequilíbrio fiscal. A insuportável mensagem passada naquele momento era a de que havia uma classe especial de filhos a quem o pai ‒ antes símbolo por excelência do amor democrático e incondicional – adulava, dizendo ser mais merecedora de seu afeto. Não é necessário se estender na análise das consequências da estratégia. Elas estão registradas a ferro e a fogo na história nacional e na memória afetiva de cada um.

Fernando Pessoa: “Quem escreverá a história do que poderia ter sido?”

Em paralelo e aproximadamente no mesmo período, ganhou vulto no território nacional um novo credo religioso. Tímido de início, o movimento sofreu uma expansão geométrica ao propor que o reino de Deus não se conquista necessariamente apenas depois da morte, mas pode ser usufruído no aqui e agora. As dádivas divinas também foram logo redefinidas: se antes o fiel tinha de aceitar passar por um vale de lágrimas antes de conquistar a vida eterna, agora já lhe era possível encontrar a bem-aventurança logo ali na esquina, com a compra da casa própria, carro, emprego mais bem remunerado, etc. Na tentativa de reafirmar a origem divina de Cristo, desconstruiu-se sua frágil condição humana. Já não era mais necessário fazer menção à virgindade da mãe ou à ira contra os mercadores do templo. Se não está claro que o verbo divino se fez carne, habitou entre nós e sofreu os mesmos percalços, perde também valor de mercado a ideia central do cristianismo de amar o próximo como a si mesmo.

Não é, pois, de espantar que tanto fundamentalismo, fanatismo, irracionalismo, maniqueísmo, misoginia, homofobia e violência social a que temos assistido impotentes ao longo da campanha presidencial tenham advindo de uma articulação, inédita em nossa história política, entre uma força militar e uma força religiosa. Ambas exigindo submissão irrestrita à voz de comando, ambas proibindo interpretações descontextualizadas de seus discursos, ambas prometendo o alcance do paraíso na terra quando os infiéis forem finalmente esmagados.

Em resumo, estamos sendo chamados a escolher entre dois messias e dois soldados. O foco da esmagadora maioria do eleitorado não está, como seria de se esperar, na análise de seus poderes e fragilidades. O que se almeja explicitamente é conseguir bloquear o canto de sereia do outro. A insatisfação campeia dos dois lados: estamos clamando por uma parcela significativamente maior de benefícios para nossa turma e pela menor cota possível de privilégios para a outra.

Uma dica final para se livrar da angústia. Um de meus livros preferidos, escrito por um psicoterapeuta americano, leva o título “Se você encontrar o Buda na estrada, mate-o”. A mensagem é simples: o Buda não está do lado de fora. Se pararmos de perseguir profetas e gurus, vamos poder finalmente nos concentrar na espinhosa tarefa de alcançar a iluminação por conta própria.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A médica que dispensou o filho da petista

David Coimbra (*)

Médico 3Quando li a notícia sobre a médica que se recusou a atender uma criança porque a mãe dela era do PT, fiquei revoltado. «E o Juramento de Hipócrates?» ‒ pensei, olhando para o Leste, na direção de onde suponho se esparramem as ilhas gregas. «O que Esculápio, Hígia e Panaceia pensarão disso?»

Pior: o presidente do Sindicato dos Médicos, Paulo de Argollo Mendes, disse que a médica estava certa em se negar a prestar atendimento. «Por favor » ‒ ralhei, ainda pensando na ética da velha e sábia avó Grécia. «Mesmo que o paciente fosse Hitler, o médico não poderia recusar!»

Médico 2Continuei com minhas exclamações, até que entrevistamos o presidente do Sindicato, ontem, no Timeline da Gaúcha. Paulo de Argollo explicou que a médica não se negou a dar atendimento a uma emergência, nem veta petistas em geral, mas aquela em particular. O que ela fez foi solicitar aos pais da criança que trocassem de pediatra porque não aguentava mais a conversa deles durante as consultas.

Bem… Nesse ponto, comecei a entender a médica. É que todo sectário é um porre, seja qual for o dogma. Eles estão sempre prontos para a briga, e gente sempre pronta para a briga é extremamente aborrecida.

Reparem no atual slogan dos petistas: «Não vai ter golpe, vai ter luta». Luta? Contra quem eles vão lutar? Será guerra civil, é isso? Vai haver distribuição de armas nos diretórios do PT? Ou será só o exército do Stedile que vai para a frente de batalha?

Luta, luta, eles estão sempre em luta. José Dirceu é o «guerreiro do povo brasileiro», André Vargas desafia o STF erguendo o punho fechado, eles se acham Espártaco enfrentando as legiões de Crasso em defesa da liberdade dos escravos, Zapata liderando os camponeses contra a tirania de Porfírio Diaz, Marx aconselhando os proletários do mundo a se unirem. O sonho deles é travar a luta de classes. Combater o bom combate, como disse Paulo de Argollo.

Neltair "Santiago" Rebés Abreu, desenhista gaúcho

Neltair “Santiago” Rebés Abreu, desenhista gaúcho

Que babaquice!

Sim, existem explorados e exploradores, negros e brancos, ricos e pobres, empresários e proletários, sim, mas o mundo não está dividido apenas entre explorados e exploradores, negros e brancos, ricos e pobres, empresários e proletários. O mundo é mais sofisticado, a sociedade é mais complexa e o Brasil, felizmente, é mais variado e complicado do que qualquer fórmula maniqueísta.

Médico 4Antes era mais fácil: você era contra a ditadura ou a favor dela. Ponto. Agora é preciso pensar um pouco. Quem é contra o governo do PT não é necessariamente tucano, nem simpático a Bolsonaro, nem entusiasta do futuro governo Temer. Quem considera a bolsa família um bom programa não é necessariamente petista. Quem é contra o aparelhamento do Estado pelo governo não é necessariamente a favor do Estado mínimo. E quem é petista não é necessariamente um chato. Mas, neste momento de ânimos espinhados, há que reconhecer que os petistas se transformaram em pessoas especialmente chatas.

Se você se afasta de uma pessoa de quem não gosta, você está sendo saudável; se você se aproxima, procurando o confronto, você está com problemas sérios.

Uma médica não querer atender um paciente por ele ser de determinado partido ou ter determinada opinião é totalmente reprovável. Uma médica não querer atender um paciente que a incomoda é totalmente compreensível. Importunos de todo o mundo: vade retro!

(*) David Coimbra é jornalista e colunista do jornal Zero Hora, de Porto Alegre.