Sai do teu sono devagar

José Horta Manzano

A cidade do Rio de Janeiro, além de ser afamada pela beleza de sua exuberante natureza, é mundialmente lembrada por suas praias de areia fina. Quem diz praia, diz calor. Os registros meteorológicos trintenais da cidade, compilados entre 1961 e 1990, atestam que temperaturas de 40° (ou mais) já chegaram a ser registradas em todos os meses do ano, com a honrosa exceção de junho. No sexto mês do ano, a máxima registrada durante esses 30 anos não passou de 39°.

Essa tropicalidade toda convida a uma comida leve e fresquinha, acompanhada por uma bebida gelada sorvida num canudinho. Ou não? Pois parece que não. O restaurante mais badalado da cidade leva o estranho nome de Antiquarius. Para quem procura refeição fresca, não é um nome atraente.

Falando em comida fresca, a imprensa noticiou que, na noite de 6 de agosto, o Procon carioca fez uma batida de caráter sanitário em alguns dos mais conceituados restaurantes da cidade. Era a Operação Ratatouille, em alusão ao prato provençal e também ao filme de animação homônimo.

Nosso Antiquarius ― assim como outros conceituados restaurantes ― foram inspecionados. Escândalo! Quilos e mais quilos de alimentos com data de validade vencida foram pilhados. Como é que pode?

Restaurante Antiquarius, Rio de Janeiro by Lalo de Almeida, NYT

Restaurante Antiquarius, Rio de Janeiro
by Lalo de Almeida, NYT

Bem, alguma desculpa sempre se arruma. Para um dos gêneros incriminados, o Antiquarius informou que já não constava mais do cardápio fazia um ano. Ora, se já não é servido, por que razão ocupava espaço na geladeira?

Tivesse algo parecido acontecido em outros lugares do mundo, a onda de choque teria sido bem mais intensa. Em Paris, Londres ou Nova York, um restaurante acusado de servir comida suspeita pode fazer uma cruz sobre sua reputação. Não se levantará nunca mais. Não sei como os cariocas endinheirados encaram a situação. Evitarão essas estalagens suspeitas? Ou passarão por cima e se arriscarão a pagar elevadas quantias para encomendar pratos pra lá de duvidosos?

Rato

Rato

No Brasil, a avalanche de irregularidades e de casos escabrosos é tamanha, que um escândalo ofusca o anterior. Passados uns poucos dias, já ninguém se lembra.

No entanto, o caso dos restaurantes cariocas apanhados de calça na mão não escapou ao respeitado New York Times. Numa crítica azeda, o correspondente do jornal no Rio de Janeiro destaca o fato de o Antiquarius ostentar decoração de falso estilo fazenda antiga. E sublinha que um bacalhau ensopado custa ali 68 dólares(!).

O Rio anda na berlinda estes últimos tempos. Entre a copinha, a visita de Papa Francisco, a copona e os Jogos Olímpicos, a cidade está sendo examinada com lupa. E continuará assim até 2016.

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Vaia

José Horta Manzano

Levar uma vaia, taí uma coisa desagradável. Ninguém deseja isso nem a seu pior inimigo. Isto é… bem… hããã… é melhor mudar de parágrafo.

Desagradável ou não, ela está na moda mas ninguém quer saber de enfrentá-la. Todos fogem, uns discretamente, outros na caradura.

Nossa presidente, escaldada pelos apupos de que foi alvo na cerimônia de abertura, anunciou, num primeiro momento, que pretendia peitar a multidão e se apresentar na final da copinha destemidamente in personam. Com os acontecimentos quentes que se seguiram àquele dia, ela mudou logo de ideia. Pelo menos, teve o mérito de ser clara: disse que tinha decido não ir. E pronto.

Vaia

Vaia

Já um antigo presidente, escaldado meia dúzia de anos atrás quando dos Jogos Panamericanos, esgueirou-se como pôde. Mandou-se para a África. Preferiu guardar uma respeitosa distância de 10 mil quilômetros dos estádios ― que hoje têm o sugestivo nome de «arenas».

Os torcedores hão de ter sentido muita falta do antigo mandatário. Logo ele, que tinha batalhado tanto para que esse torneio se realizasse em território nacional… É realmente uma pena que obrigações imperativas o tenham retido tão longe do carinho do povo que tanto o adora. Uma pena.

Outros mandarins valeram-se de, digamos assim, «malfeitos» para estar presentes. Para chegar ao Rio de Janeiro, requisicionaram avião da FAB, que ninguém é de ferro. Discretos,  confundiram-se com a multidão, julgando-se assim a salvo de olhares indiscretos. Tiveram de aprender de forma brutal que, nos dias de hoje, está cada vez mais difícil passar despercebido.

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Etimologia

Vaia é termo que utilizamos para demonstrar desagrado com o desempenho de um artista no palco. Accessoriamente, costuma-se vaiar para mostrar descontentamento com a simples presença de determinada pessoa em determinado lugar.

Dificilmente alguém vaia sozinho. É mais comum que vaias partam de uma multidão ou, pelo menos, de um grupo consistente. É mostra de desagrado coletivo, bem mais temível que o aborrecimento de um indivíduo só. O antigo palco vem sendo substituído por «arenas» e por telões. Sinal dos tempos.

Embora não se note à primeira vista, vaia é palavra de origem onomatopaica, daquelas que tentam imitar o som original. Aliás, várias outras línguas se valem de onomatopeia para dar nome à vaia.

Os ingleses dizem to boo e os franceses huer. Os espanhois preferiram abuchar, derivado do grito com que chamavam falcões amestrados.

Vaia

Vaia

Os italianos não seguiram a norma. Preferem dizer fischiare, assobiar. Os alemães vão pelo mesmo caminho quando dizem auspfeifen, assobiar.

Mas a raiz de nossa vaia não está plantada em terras brasileiras nem tampouco lusas. Vem de mais longe.

O italiano moderno guarda o termo baia (báia), derivado do verbo baiare, já obsoleto. Usa-se sobretudo na expressão «dare la baia» a alguém, com o sentido de zombar dessa pessoa.

O francês costumava usava o termo baie com o sentido de engodo, enganação. A palavra caiu em desuso há mais de 100 anos.

A hipótese mais provável da origem de nossa vaia é uma onomatopeia, uma imitação do uivo dos cães. É parente do italiano abbaiare e do francês aboyer, ambos significando ladrar.

Políticos não temem a lei, mas abominam a vaia. Vamos em frente, brava gente: povo que vaia unido chega lá!

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Acabou a copinha

José Horta Manzano

Pois é, a seleção brasileira de futebol levantou a copinha! Foi um triunfo saboroso justamente porque não era esperado. Até o mês passado, nosso País estava em 22° lugar na classificação da Fifa. Até a Suíça estava (bem) à frente.

Ok, vocês me dirão que não se pode botar muita fé no que vem da Fifa. Uma instituição que lida com rios de dinheiro torna-se, paradoxalmente, vulnerável. É, por conseguinte, susceptível a sucumbir a certas distorções.

Seja como for, todos convirão que ninguém esperava que o Brasil chegasse à final. Muito menos que vencesse o jogo. Um jornalista chegou a escrever que a seleção nacional era o azarão da copinha. Daí a (grata) surpresa com o resultado final, incontestável.

Copa das Confederações

Copa das Confederações

O povo compareceu em massa, num Maracanã festivo e tingido de amarelo. Ninguém estranhou muito a ausência de dona Dilma na cerimônia de encerramento do torneio. A vaia monumental não era uma probabilidade, mas uma certeza absoluta. Acho que ela fez bem em não ir ― dos males, o menor.

Já uma coisa me intrigou: a ausência de nosso messias, homem sabidamente chegado às coisas do futebol. Logo ele, que trabalhou tanto pela conquista do direito de sediar a copinha e a copona. Logo ele, homem notoriamente venerado e aclamado pelo povo entusiasta. Logo ele, sempre preocupado em preservar a esplêndida herança que deixou ao País. Logo ele, arroz de festa de todos os momentos de glória nacional. Logo ele, que, sólido e altruísta, jamais abandonou nenhum companheiro nem pulou do barco nas horas difíceis.

Dizem que estava na África. O compromisso na Etiópia ― país que constitui, como sabemos todos, pedra angular na pauta de relações exteriores do Brasil ― era, de certeza, mais importante do que trivialidades futebolisticas.

Sejam louvados o desapego e a abnegação de nosso intrépido e visionário estadista. Muitos anos se passarão antes que apareça no Brasil um outro com as mesmas qualidades.

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Hino
Hoje é dia de ouvir o Hino Nacional. E de pé, faz favor! Se você mora no Brasil ― e é madrugador ― procure sintonizar a Rádio Cultura FM de São Paulo. Para hoje, não dá mais. Mas diariamente, pouco antes das 6h da manhã, vai ao ar uma excelente versão do hino, com banda e coro. Para quem aprecia, é um deleite.

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Desrespeito
Por imposição da Fifa ― sempre ela! ―, a execução dos hinos nacionais não pode exceder um minuto e meio. Para a maioria deles, não há problema. São curtos e cabem perfeitamente no tempo fixado. É o caso da Alemanha, dos EUA, da França, da Itália, do Reino Unido.

Nosso belo cântico oficial, saído direto de um teatro de ópera de Rossini, como já li em algum lugar, não se ajusta ao figurino estabelecido. Um pouco mais longo, vai além de dois minutos. A Fifa não hesitou: amputou-lhe um naco.

Em pelo menos duas ocasiões durante essa copinha, a multidão presente no estádio passou por cima da injunção dos cartolas. Continuou cantando o hino a cappella até o fim da primeira parte. Fato nunca visto antes, foi ressaltado até pelo comentarista da televisão suíça.

Que se aceitem certas exigências da federação internacional de futebol, é inevitável. Mas não se pode admitir que o hino ― um dos símbolos da nação, segundo nossa Constituição ― seja executado pela metade e em andamento mais rápido que a norma. E há mais: que isso ocorra em território nacional com a complacência das autoridades e na presença de pelo menos um ministro da República. Por ironia, justamente aquele que apresentou, faz anos, um projeto de lei ultranacionalista visando a blindar a língua falada no Brasil contra influências estrangeiras.

Como o mundo dá voltas!