A Nigéria e o Brasil

José Horta Manzano

Chegou a notícia em pleno Corpus Christi: o parlamento nigeriano acaba de votar uma lei que incrimina toda atitude que possa, de perto ou de longe, indicar simpatia pela homossexualidade. Casamento, relacionamento amoroso, adesão a grupo de direitos homossexuais, vai tudo para o mesmo saco. Não é mais contravenção. Não é mais delito. A partir de agora, é crime, e como tal será tratado todo e qualquer comportamento desse tipo. Veja aqui e aqui.

Pode-se apreciar ou não essa legislação. Fora da Nigéria, a cada um é permitido aplaudir de pé ou execrar o caminho escolhido pelas autoridades daquele país. Mas um mérito não se lhes pode negar: a clareza. Naquelas paragens, aquele que andar fora da linha sabe o risco que está correndo.Interligne 36

Enquanto isso, numa certa República sul-americana muito conhecida nossa, continuamos tergiversando. Em nosso País, as coisas não primam pela clareza. O que parece nem sempre é. O que não parece pode até ser.

Nosso Executivo pouco executa. Por meio de medidas provisórias, tenta, atabalhoadamente, legislar. Age de afogadilho, no dia a dia.

Nosso Legislativo se desobriga de legislar sobre matérias polêmicas. Deixa que outros tomem a iniciativa. Esperneia, faz biquinho, mas acaba dizendo amém aos ditames do Executivo.Bagues 3

Nosso Judiciário navega frequentemente em águas turvas. Volta e meia é chamado a dirimir conflitos para os quais não há base legal clara. Pouco a pouco, estamo-nos tornando um país onde a jurisprudência se substitui à lei inexistente.

É tudo muito estranho. Se considerarmos as nações cujo parlamento já deu embasamento legal definido a uniões homossexuais e adicionarmos aquelas que decretaram sua ilegalidade, o total já ultrapassa 30 países. Cada um é livre de estar ou não de acordo com esta ou com aquela decisão, mas o importante é que a lei foi votada.

E o Brasil liberal, tolerante, amigo, simpático, tropical, acolhedor, jeitoso, boa-pinta, ensolarado, emergente, prafrentex? Será que ainda pretende continuar muito tempo em cima do muro?

Cáspite! Que seja sim ou que seja não, mas legislar é preciso. Está ficando feio.

Miscelânea 03

José Horta Manzano

Descaso
Em seu blogue, Diego Zanchetta alerta os distraídos dirigentes da cidade de São Paulo para o fato de a bandeira brasileira desfraldada justamente na ultrasimbólica Praça da Bandeira estar degradada, com um rasgo velho de três meses.

Bandeira Brasil rasgada

Bandeira Brasil rasgada

Para quem não conhece, explico que a praça e sua bandeira monumental podem ser avistadas tanto do prédio da Prefeitura quanto da Câmara Municipal. Os ocupantes atuais desses dois mui oficiais imóveis não podem alegar ignorância.

Com certeza estarão todos por demais absortos por seus negócios pessoais, sem tempo a perder com essas picuinhas.

Interligne 24

De mal a pior
Para quem esteve estes últimos dias passeando na Groenlândia, informo que, na sexta-feira 24 de maio, a presidência de nossa República foi exercida pelo senhor Renan Calheiros.

Os que votaram no coronel devem estar felizes. De qualquer maneira, ninguém pode reclamar. O presidente do Senado foi escolhido por seus pares. Afora os suplentes, todos os senadores foram eleitos por nós. Ou não?

Interligne 24

Arrombada a porta, põe-se a tranca
Quinta-feira passada um incêndio pavoroso irrompeu numa distribuidora de petróleo estabelecida num bairro residencial(!) de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Uma jornada inteira de trabalho não foi suficiente para que os bombeiros dessem cabo das chamas. O sinistro alastrou-se por residências próximas. Uma pessoa perdeu a vida.

Depois da catástrofe, o Secretário Estadual do Meio Ambiente do RJ declarou que a empresa não tinha licença para funcionar.

É compreensível que um camelô, que carrega sua empresa numa sacola, monte sua banquinha sem autorização, numa esquina qualquer, enquanto o rapa não aparece. Mas… uma distribuidora de petróleo?

Fica no ar a pergunta: se uma distribuidora de petróleo pode operar sem a devida autorização, para que serve uma instituição com o pomposo nome de Secretaria Estadual do Meio Ambiente? Não é mais que um cabide de empregos?

Interligne 24

Argentinização
Esta semana a imprensa deu uma notícia inquietante sobre a inflação. A Folha de São Paulo intitulou a matéria «Prévia da inflação oficial desacelera em maio para 0,46%, diz IBGE».

Previsão de inflação

Previsão de inflação

De que estou reclamando? Se a inflação dá sinais de baixar, por que o descontentamento?

Está nas entrelinhas, meu amigo. O que me perturba é a palavra oficial, presente no título e no corpo do texto. Quando se fala em «inflação oficial», subentende-se que exista uma outra, não oficial.

Estaremos voltando ao inferno dos anos 1980 e 1990? Dizem alguns que a Argentina é o Brasil amanhã.

Interligne 24

A frase do dia – 03

«Segundo o diretor do Instituto Nacional de Estatísticas (da Venezuela), Elias Ejuri, a demanda de papel higiênico cresceu nos últimos anos porque, graças à revolução bolivariana, “as pessoas estão comendo mais”. Nem o Indec argentino, encarregado de maquiar a inflação, se tem mostrado tão criativo.»

Rolf Kuntz in Estadão
in Estadão, 25 maio 2013
Link aquiInterligne 2

Bismarck tinha razão

José Horta Manzano

Leis & salsichas
Atribui-se ao homem político alemão Otto von Bismarck (1815-1898) uma citação que, traduzida em tupiniquim, fica mais ou menos assim: «Se a humanidade soubesse como são feitas as salsichas e as leis, teria pesadelos à noite».Salsicha

Cento e cinquenta anos depois do prussiano, Geraldo Alckmin (1952-), governador de São Paulo, acaba de dizer a mesma coisa. Usou palavras mais duras, mas a constatação é a mesma. Foi bem mais contundente que Bismarck.

Segundo reportagem da Folha de São Paulo, o governador disse: «O povo não sabe de um décimo do que se passa contra ele próprio, se não, ia faltar guilhotina para a Bastilha, para cortar a cabeça de tanta gente que explora esse (sic) sofrido povo brasileiro».

Por aí se vê que, lá como cá, ontem como hoje, pouca coisa mudou nas práticas políticas.

Interligne 3b
Não é nem deixa de ser
A França foi o 14° país a instituir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. «Foi longe demais!», dizem uns. «Já estava passando da hora!», reclamam outros. Os dois campos têm razão.

Como já comentei neste mesmo espaço algum tempo atrás, não é a formalização do casamento, em si, que atrapalha tanto assim. É a autorização da adoção, que entrou embutida de contrabando no novo texto legal francês.

Por isso ― na minha opinião pessoal ― têm razão os que consideram que a lei extrapolou ao incluir a adoção plena. Têm também razão os que acham que o reconhecimento da união homoafetiva já não veio sem tempo.

Enquanto isso… enquanto isso, numa certa República que conhecemos bem, tergiversa-se. Na falta de um texto completo, abrangente, definitivo, claro, o brasileiro tem de recorrer a jeitinhos. Um remendo aqui, uma resolução ali, um decretozinho acolá. O CFM se mete, a OAB dá seus palpites, até o STF entra na dança. Já os congressistas, que foram justamente eleitos para fabricar leis, não estão fazendo seu trabalho.Justiça

Situações esdrúxulas se criam. Inseminação artificial pode. Adoção pode. Barriga de aluguel pode. Quanto a casamento, depende. Tem de encontrar um cartório de boa vontade. E um bom advogado em caso de contestação. Na falta de lei clara, conquistam-se direitos no grito, na marra, na valentona, na Justiça. Ora, o poder judiciário foi concebido para julgar na base da legislação existente, não para criar leis.

Fica difícil entender por que o parlamento brasileiro, tão rápido no gatilho quando se trata de reconhecer direitos de outras minorias, não legiferou até hoje com relação a essa realidade social.

Talvez seja influência das salsichas de Bismarck. Em outras palavras, os deputados devem ter avaliado que, se votarem uma lei autorizando claramente a união homossexual, perigam perder votos de adeptos de seitas neopentecostais.

Entre o bem de uma categoria de cidadãos e os votos de outra, ficam com os votos.

Dar a mão a quem precisa

José Horta Manzano

Repercutindo reportagem publicada pela revista Época em 7 de maio, o Estadão informa que o governo do Estado de São Paulo está terminando de embrulhar um novo pacote de auxílio aos drogados.

Coisa rara no Brasil de hoje, a ajuda é bem maior que uma migalha eleitoreira. O montante alocado a cada caso ― de 1350 reais mensais ― dissipa eventuais dúvidas nesse sentido.

Não conheço os pormenores do programa, mas, em princípio, não posso deixar de aplaudir a iniciativa. Costumo dizer que o grau de civilização de uma sociedade se mede pela atenção que ela dispensa aos mais frágeis de seus membros.

Um detalhe, no entanto, me deixa surpreso. É o fato de a nova bolsa ser representada por um montante fixo. Pior que isso é o fato de ela não ser entregue ao interessado, mas à sua família, e em dinheiro. Que seja moeda corrente ou cartão de crédito, sempre dinheiro é.Interligne 3a

Embora possa parecer inacreditável, na Suíça também existe pobreza. Não falo de miséria, gente dormindo nas calçadas, crianças barrigudinhas na beira da estrada. Falo de gente, principalmente pessoas idosas, cuja pensão não dá para satisfazer todas as necessidades.

Que faz a sociedade em casos assim? Deixa que morram à míngua, que não se cuidem, que não se vistam, que não se tratem? Não seria civilizado. Quando um cidadão se dá conta de que ― por motivo de desemprego, velhice, doença ― não está conseguindo cumprir seus compromissos financeiros, tem o direito de pedir ajuda às autoridades.Dar a mão

É um passo que a maioria dos suíços hesita muito em dar. Sentem-se envergonhados de ter de pedir ajuda à sociedade. Caso vençam a barreira do recato, o caso será tratado individualmente. Não há uma alocação fixa. Cada caso é um caso.

O cidadão dará os detalhes de sua situação financeira. Quanto recebe de pensão ou de salário, quanto paga de aluguel, de seguro e de outros encargos. Os assistentes sociais estudarão o caso e, de comum acordo com o interessado, chegarão a um acerto. O dinheiro público pagará uma parte das contas do requerente.

Jamais lhe darão dinheiro, nem sob forma de cartão de crédito nem, muito menos, em moeda corrente. O serviço de assistência social assumirá o pagamento do aluguel, do seguro de saúde, ou do que for acertado. O assistido não verá a cor do dinheiro, que sairá diretamente dos cofres públicos para a conta do senhorio, da companhia de seguros ou de quem for o beneficiário. Não há limite máximo para a ajuda. O valor de um aluguel numa cidade importante pode ser muito mais elevado que em uma pequena localidade. Portanto, não seria justo nem normal estabelecer um montante fixo. Como preconizava Marx, cada um deve receber conforme suas necessidades.Interligne 3a

Voltemos à bolsa crack paulista. (Deixando a hipocrisia de lado, a apelação é cruel mas explícita.) Não me parece que entregar dinheiro à família de viciados seja a melhor solução. Quem garante que esse dinheiro será suficiente? Quem garante que será realmente usado para a função a que se destina? Como procederão no caso de adictos sem família?

Fica a impressão de que, por detrás da boa intenção das autoridades, há uma forte dose de descaso. É como se dissessem: «Ó, tomem aqui o dinheiro e sumam. Vão cuidar desse infeliz, que nós não temos tempo nem paciência pra essas coisas».

Sei não. Acho que, se é para fazer, que se faça benfeito. Usar o dinheiro do contribuinte para fazer as coisas pela metade e torcer para que a família de cada assistido tenha o bom-senso de segurar a peteca e não deixá-la cair me parece uma meia solução. Não vai até o fim.

Será que estou pedindo demais?

Senzalas francesas

José Horta Manzano

Quando, em 1830, os franceses se apossaram do território norte-africano que hoje se chama Argélia, estavam selando o destino da França. Ad vitam æternam.

Quando, a partir do século XVI, os brasileiros(*) e outros plantadores de cana decidiram ir buscar mão de obra gratuita na África, estavam selando o destino do Brasil. Ad vitam æternam.Interligne 3d

A independência da Argélia, reconhecida em 1962, provocou uma descolonização a toque de caixa. Um milhão de franceses oriundos da metrópole tiveram de ser repatriados em regime de urgência, deixando para trás tudo o que possuíam.Torre Eiffel

Essa chegada súbita e maciça dos retornados não teve grande impacto na metrópole. Os anos 60, 70 e 80 foram, na Europa ocidental, décadas de prosperidade. Fechavam-se as últimas cicatrizes da guerra e construía-se e reconstruía-se em ritmo acelerado. Centrais nucleares, aviões supersônicos, construção civil, estradas ― tudo isso exigia mão de obra.

Grandes contingentes de norte-africanos, especialmente argelinos, foram trazidos. Faziam o trabalho mais humilde, justamente aquele que os franceses não queriam mais fazer.

Embora fossem remunerados ― uma situação bem diferente da dos africanos levados à força para o Brasil ―, foram propositadamente apartados do resto da população. Grandes conjuntos de imóveis especialmente destinados aos imigrantes argelinos, tunisinos e marroquinos foram construídos na periferia das cidades.

Cada conjunto dispunha de comércio de base, como as superquadras da Brasília dos anos 60. A intenção era conter os novos imigrantes dentro do espaço que lhes era destinado, concentrá-los, coibir sua interpenetração com a boa sociedade. Os conjuntos habitacionais exerciam ― exercem até hoje ― o papel da senzala conhecida dos brasileiros. Todos juntos, sim, mas… vocês lá e nós cá.Interligne 3d

A vida dá voltas. O boom dos anos dourados arrefeceu. Os descendentes de imigrantes progrediram. Se alguns, é verdade, descambaram para a criminalidade, a droga e outros tráficos, muitos seguiram trilha melhor. Estudaram, se esforçaram, não se conformaram em continuar no baixo patamar social em que haviam nascido.

Abandonados à própria sorte, os habitantes dessas cités não têm a vida fácil. Estigmatizados pela cor de sua pele, pelo aspecto físico ou pelo sobrenome, às vezes até pelo prenome que denota origem norte-africana, são usados, especialmente por partidos de extrema direita, como bodes expiatórios. Todos os males nacionais lhes são atribuídos.

Costuma-se dizer que, entre dois currículos de categoria semelhante, um dos quais tenha sido mandado pelo candidato Mohamed Sahraoui enquanto o outro esteja louvando as qualidades de Jean Martin, o selecionador tenderá a preferir Jean. Talvez nem mesmo chegue a propor entrevista a Mohamed.

Para remediar esse problema, tem-se falado com muita insistência em instituir currículos anônimos. Sem se deixar influenciar por preconceitos de origem étnica, o selecionador julgaria os méritos e as qualidades de seus candidatos e chamaria para entrevista os que lhe parecessem convir. Se o sistema ainda não foi adotado, é por dificuldades práticas. Mais dia, menos dia, será instituído.Interligne 3d

Um editorial do Estadão de domingo 5 de maio nos traz uma boa análise de uma inacreditável situação. O perfil que cada pesquisador mantém no incontornável Currículo Lattes, verdadeira instituição conhecida por todos os cientistas brasileiros e respeitada por todos eles, deverá obrigatoriamente trazer a raça ou a cor de pele de cada acadêmico(!).Moulin rouge

Se não tivesse saído no Estadão, seria de duvidar da veracidade da história. Com que então, os que vêm tomando essas decisões estes últimos tempos acreditam mesmo que a melhor maneira de atenuar preconceito racial é oficializar a compartimentação dos cidadãos em etnias distintas e conferir a cada uma direitos diferentes das demais? Combate-se uma discriminação lançando mão de outra? Para compensar os maus tratos de que foram vítima os tataravós de certos cidadãos, discriminam-se os tataranetos dos algozes de séculos atrás? Tudo isso atropela o bom-senso.

Mas o mundo gira. Por mais que isso atrapalhe os planos dos racistas brasileiros ― que preferem pudicamente ser chamados de racialistas ― a miscigenação da população continuará. Dentro de muito pouco tempo, não brancos (pretos e pardos) serão maioria, se é que isso já não aconteceu. E aí, como ficamos? Estabeleceremos quotas para a minoria eurodescendente?

Ao invés de olhar para o próprio umbigo e dar tiros em seu próprio pé, esses novos racistas deveriam estudar soluções encontradas por outros países que enfrentam o mesmo problema. Não basta ir a Paris só para subir à Tour Eiffel e assistir a um espetáculo no Moulin Rouge. Há que aproveitar para aprender com a experiência dos outros.

Um pouco de humildade não faz mal a ninguém.

.

(*) O termo brasileiros é utilizado aqui na sua acepção original de comerciantes de pau-brasil.

Ai, que sede!

José Horta Manzano

Você sabia?

Até os anos 1880, os habitantes da cidade de São Paulo não sabiam o que era água encanada. As famílias abasteciam seus lares com água de diversos tanques naturais. Os mais abastados mandavam lá seus escravos mais fortes, que voltavam carregando pesados cântaros à força dos braços. Havia também quem fizesse vir o precioso líquido no lombo de burros. Era tarefa praticamente quotidiana. Fazia parte da rotina da cidadezinha de então.

Os tanques eram vários. O clima tropical da cidade sempre trouxe muita chuva. E a natureza, sábia, providenciou vias de drenagem. Em certos baixios, a água se acumulava e formava tanques naturais. Era nesses reservatórios que se ia buscar a água necessária ao consumo doméstico.

O ponto de colheita mais próximo do centro da cidade sempre foi o próprio rio Tamanduateí, aonde se chegava descendo a ladeira do Carmo. À medida que o pequeno burgo se expandiu e transpôs o vale do Anhangabaú, outros pontos de apanha foram sendo utilizados.

Entre eles, havia o tanque do Ribeirão Saracura, de bom tamanho. Ficava aproximadamente onde hoje se situa a Praça 14 bis, na Avenida 9 de Julho. Chegava-se lá subindo a rua de Santo Antônio.

Outro reservatório ficava nas imediações do atual Largo do Arouche, onde hoje estão as ruas Bento Freitas e Rego Freitas. Um outro muito concorrido era o Tanque do Zuniga(*), localizado no atual Largo do Paissandu.

A Fonte Monumental em 1928 Acervo do Arquivo Histórico de São Paulo/

A Fonte Monumental em 1928
Acervo do Arquivo Histórico de São Paulo/

Clique na imagem para ampliar

Mais um tanque se encontrava na atual Avenida Pacaembu, na altura das ruas Traipu, Veiga Filho e Tupi, não longe do Hospital Samaritano. Dado que o arruamento do Pacaembu foi tardio, a planta de São Paulo de 1913 ainda assinala esse alagado.

Com a instalação da Companhia Cantareira, criada para trazer água limpa e levar águas servidas, os antigos tanques passaram a ser menos e menos utilizados. Por inúteis, foram aos poucos sendo secados, aterrados e esquecidos.

Preocupada em matar a sede dos passantes e, naturalmente, em embelezar a cidade, a prefeitura mandou instalar fontes. Unia-se, assim, o útil ao agradável. No começo do século, inauguraram-se, entre outras, a fonte da Ladeira do Piques (rua Quirino de Andrade) e a Fonte Monumental, na atual praça Júlio Mesquita.

Naqueles tempos civilizados, tanto essas duas como todos os chafarizes da cidade eram, naturalmente, abertos ao público. Podiam ser admirados e, claro, utilizados por todos os que estivessem com sede. Bons tempos.

Um artigo de Edison Veiga, publicado em seu blogue alojado no Estadão, nos informa que, após oito meses fechada para obras, está sendo reinaugurada a Fonte Monumental.

A obra é exatamente conforme ao original com acréscimo de um detalhe: pode ser admirada de longe, mas uma proteção de vidro impede os passantes de se aproximarem. A prefeitura prefere não correr o risco de ver de novo o ponto d’água transformado em mictório público.

Deve ser isso o progresso.

.

(*) Existe o sobrenome vasco Zúñiga (pronunciado com acento no U). É bem provável que aquela gleba tenha pertencido a algum oriundo de Bilbao, San Sebastián ou Vitoria.

Reeleição

José Horta Manzano

Desde que o mundo é mundo, os que têm acesso a uma posição de mando não costumam desgostar da situação. Alguns poucos, mais desprendidos, não oferecem grande resistência quando soa a hora de descer do trono. A maioria, no entanto, não desencarna tão facilmente.

Jogadas limpas, jogadas sujas, jogadas de bastidores, tudo vale para se segurar. «É dando que se recebe», máxima reservada até faz pouco tempo aos pios frades franciscanos, vem-se impondo como princípio basilar e desabrido da política nacional.

Ainda recentemente nossa presidente deixou de lado todo pudor para afirmar-se capaz de «fazer o diabo» a fim de reeleger-se. Que ninguém duvide. Discursos antecipados, casuísmos, dossiês, tudo vale. Ganhará a guerra aquele que tiver maior habilidade na hora de puxar o tapete e derrubar, assim, o adversário.

Tudo isso faz parte da natureza humana, não é invenção recente. O que tem mudado de uns dez anos para cá não é o fundo, mas a forma. As lutas que, dado seu caráter nebuloso, se chamavam justamente intestinas tornaram-se verdadeiras batalhas campais. Tudo é feito às claras, à vista de todos, desavergonhadamente. Já que ninguém parece se ofuscar, por que esconder, não é mesmo? E alguns ainda ousam chamar esse esparramo de transparência…

Urna 2

O senador Aécio Neves, dado como candidato à candidatura à presidência da República, acaba de lançar uma ideia requentada. Propõe a extinção da possibilidade de reeleição de ocupantes de cargos executivos. Para compensar, o mandato atual de 4 anos seria espichado. Presidente, governadores e prefeitos passariam a ser eleitos para um período de 5 anos.

Não é propriamente uma ideia revolucionária. O instituto da reeleição é recente no Brasil. Cento e vinte anos atrás, os pais da República, num rasgo de visão, já tinham intuído o que se confirmaria mais de um século depois. Temiam que os futuros eleitos se valessem, para reeleger-se, do poder que lhes conferia a máquina pública. Daí terem optado por não permitir a reeleição.

Ressuscitar a visão antiga não me parece, em princípio, má ideia. Estes últimos anos, nosso País tem pendido perigosamente para esquemas populistas. Não nos ajuda, tampouco, a proximidade geográfica e ideológica com nações sul-americanas cujos mandachuvas não pedem outra coisa senão agarrar-se indefinidamente a seus cargos.

A experiência destes últimos tempos tende a provar que o tempo de permanência no governo não melhora a qualidade de seus titulares. O bom-senso manda trocar de chefe com maior frequência. No entanto, visto o balcão de negócios em que se transformou o Congresso, a ideia do senador não tem lá muita chance de prosperar. É pena.

Não acredito que a proibição da reeleição resolvesse, como por encanto, todos os problemas nacionais. Mas já seria um bom começo. Pelo menos, presidentes estariam dispensados de «fazer o diabo» para garantir permanência no cargo.

De vento

José Horta Manzano

Quais são as grandes firmas alemãs? Qualquer um será capaz de recitar uma meia dúzia de nomes, de Mercedes-Benz a Bayer, passando por Hoechst, Lufthansa & companhia. E as grandes da França, quais são? Sem dúvida, Renault, Peugeot, L’Oréal e Vuitton estão entre elas. E na Itália, quem são as grandes? E nos Estados Unidos? E no Japão? Todos conseguiremos desfiar, sem dificuldade, uns 10 ou 20 grandes nomes.

Agora vamos mudar de registro. Vamos parar, por um momento, de fazer perguntas retóricas. Façamos uma pergunta séria. Alguém acredita que a grandeza e a riqueza desses países se baseia nessas 10 ou 20 firmas gigantescas? Se acredita, está iludido.Construção 2

Sem menosprezar a importância das grandes firmas, a força maior da França, da Alemanha, da Itália e dos outros países altamente desenvolvidos não reside unicamente nessas marcas mundialmente conhecidas. Longe disso.

O combustível que move as economias mais avançadas ― sem prescindir de conglomerados gigantescos, evidentemente ― é representado pela pequenas e médias empresas. A Câmara de Comércio Alemã nos informa que, só na região de São Paulo, estão implantadas mais de 800 firmas alemãs. Oitocentas! De origem francesa, são quase 500. Para completar o quadro, temos milhares de sociedades de origem americana, centenas de japonesas, italianas, suecas, espanholas, canadenses e até portuguesas.

Até aqui, só falamos de empresas que, mesmo sem ser enormes, têm cacife para se estabelecer no exterior. Se adicionarmos as menores, as que (ainda) não abriram sucursais no Brasil, a calculadora periga explodir. São milhares e milhares de Firmen, de sociétés, de ditte, de compañias, de bolagen. São elas que marcam o compasso e conferem dinamismo e diversidade à economia de seus respectivos países.

Crédito: Irina Tischenko

Crédito: Irina Tischenko

O Estadão de 22 de abril traz uma excelente reportagem sobre o BNDES, assinada por três colaboradores. E incrementada com uma entrevista com Luciano Coutinho, presidente do banco.

O texto deixa bem claras as diretivas que foram dadas àquela instituição seis anos atrás, durante a gestão do então presidente da República. A meta era fazer o que necessário fosse para elevar uma meia dúzia de empresas nacionais à categoria de «campeãs».

Se considerarmos que nossos mandachuvas vêm dando maior importância a ações de marketing político do que a diretivas de longo prazo, faz sentido. A embalagem tornou-se mais importante que o conteúdo. Nossos ingênuos dirigentes acreditaram que, se pudéssemos mostrar ao mundo algumas empresas «campeãs», a cortina de fumaça encobriria as mazelas que se ocultam por detrás.

Na mesma linha de pensamento, o governo brasileiro fez das tripas coração para conseguir acolher os Jogos Olímpicos e a fase final da Copa do Mundo. Se esses grandiosos eventos pudessem coincidir com a eclosão de firmas brasileiras gigantescas, o milagre da transfiguração imediata estaria completo. Daríamos ao mundo a impressão de um País rico, dinâmico, feliz, digno de admiração.Construção 1

Na entrevista concedida ao Estadão, o presidente do BNDES reconhece ― ainda que com meias palavras ― que o potencial de nossas maiores empresas ainda não lhes permite galgar os degraus da fama planetária. Para quem tiver preguiça de ler a entrevista inteira, recomendo dar uma olhada na 13a. pergunta feita pelos repórteres. E, naturalmente, na resposta do entrevistado.

Quanto aos JOs e à Copa-14, continuamos torcendo para que os que aqui vierem não se assustem demais com a realidade que encontrarão. Mas não se pode garantir. Milagre, ninguém faz.

E pensar que, enquanto os amigos do rei podem contar com o apoio e os préstimos de nosso principal banco de fomento, tantos pequenos empresários brasileiros sofrem o inferno de uma burocracia sufocante e de nossos impostos escorchantes.

Dá muita pena ver tanto potencial desperdiçado. Não me cansarei nunca de repetir que, para construir um edifício sólido, há que fincar alicerces robustos. Não se começa pelo telhado.

Saco vazio não para em pé. Não se vive de vento nem de aparência.

Golpe

José Horta Manzano

Um dos senadores pelo Estado de Minas Gerais, Aécio Neves, participou de uma reunião, um congresso político na cidade de Santos (SP) no dia 4 de abril.

Num dado momento, escapou-lhe a palavra revolução para designar os acontecimentos de 31 de março de 1964. Foi um deus nos acuda. Foi pior do que se tivesse dado um chute na santa.

Jornalistas excitados vieram tomar satisfação. O senador virou-se como pôde para se safar da saia justa. Veja o que noticiaram o Estadão e a Folha de São Paulo.

Em 1964, fui «testemunha ocular da história» ― como rezava o chavão do falecido Repórter Esso, o jornal televisivo da época. Posso garantir-lhes que todos, sem exceção, chamaram o movimento militar de revolução. Não me lembro de ter lido ou ouvido, naqueles dias, que uma ditadura havia sido instalada no Brasil. Ela se enraizou depois.

Marechal Deodoro

Curiosamente, um outro trecho da fala do senador passou despercebido. Como aprendemos todos, convém dizer que, em 15 de novembro de 1889, Deodoro da Fonseca proclamou a República. Qualquer aluno da escola elementar sabe disso. E repetirá a expressão pelo resto da vida.

Não precisa ser nenhum profundo conhecedor da História pátria para se dar conta de que o termo proclamação, de aparência inocente, disfarça uma verdade bem menos gloriosa. Naquela manhã de 1889, Deodoro foi a ponta de lança de um golpe traiçoeiro. O Marechal foi o braço armado de uma insurreição urdida e apoiada por militares e civis.

O regime monárquico foi derrubado, e a família imperial, banida. Anos se passaram antes que um civil voltasse a tomar as rédeas do País.

.:oOo:.

Qual é a razão de tudo isso? É simples: a História é escrita pelos vencedores.

Enquanto durou o regime instaurado em 64, fomos ensinados a chamar os acontecimentos de 31 de março de revolução. Não foi senão depois que o regime se extinguiu que passamos a falar em golpe de estado.

Dado que a monarquia nunca mais foi restaurada, continuamos a escamotear o termo golpe e a nos valer do eufemístico proclamação.

Deveríamos deixar a hipocrisia de lado e dar aos bois seus verdadeiros nomes. Tanto em 1889 quanto em 1964, o que aconteceu foi a derrubada de um regime. Na marra, pela força. Portanto, ambos fazem plenamente jus à denominação de golpe de estado.

Mas cada um é, evidentemente, livre de usar a palavra que lhe parecer mais adequada.

A Casa do povo

José Horta Manzano

Na mesma tônica de meu artigo de ontem sobre as travessuras do deputado Feliciano― aquele que se diz pastor de ovelhas ― a edição online do Estadão de 4 de abril publicou a visão de dois especialistas, professores de Administração Pública da FGV.

Melhor do que comentá-la será transcrevê-la.

Congresso

Câmara deixa de ser a Casa do povo

por Fernando Luiz Abrucio e Marco Antonio Carvalho Teixeira (*)

A Comissão de Direitos Humanos da Câmara ganhou notoriedade após o imbróglio causado pela eleição de seu novo presidente, o deputado Marco Feliciano (PSC-SP). Historicamente, é uma das comissões que mais se relacionam com a sociedade, seja em temas vinculados a minorias, seja em questões mais gerais, como o debate sobre a Comissão da Verdade. De forma surpreendente, Feliciano definiu, com apoio da maioria de seus colegas, que a comissão só terá reuniões fechadas ao público. Em poucas palavras, o povo está proibido de frequentar a Casa que lhe pertence, o Congresso.

Essa decisão esdrúxula deriva da reação negativa à eleição do deputado. Motivo: suas posições públicas polêmicas sobre os direitos das minorias. Desde então, Feliciano não conseguiu realizar, até o fim, uma única reunião da comissão e viu proliferar uma grande mobilização pública contrária à sua permanência.

Impedir a entrada de pessoas que não sejam deputados, servidores e profissionais da imprensa, para assim garantir os trabalhos do colegiado, vai aumentar ainda mais o isolamento de Feliciano. Só que agora não apenas ele será bombardeado pela opinião pública, como a própria instituição congressual estará na berlinda. A partir de agora, o custo político não ficará apenas na conta do deputado do PSC, sendo dividida com todos os seus colegas. Em poucas palavras, o problema deixou de ser pessoal e se tornou institucional.

As principais críticas que o Congresso sofre dizem respeito ao comportamento ético de seus integrantes. Mesmo nesse cenário geralmente negativo, nunca a Câmara deixou de ser a Casa do povo. Esse perigoso passo parece ter sido dado pelo pastor Feliciano.

(*) Professores e coordenadores do curso de Administração Pública da FGV, SP.

A democracia direta

José Horta Manzano

Você, sozinho, pode mudar a lei?

Sinto decepcioná-lo. Na imensa maioria dos países, você não tem nem sombra desse direito. Pode querer ou deixar de querer, pode até espernear que não vai adiantar. Quem faz a lei não é você. Nem eu.

Nos países democráticos, a atribuição de fazer, desfazer ou modificar leis é atributo dos representantes do povo. Que se chame congresso, assembleia, dieta, duma, câmara, incumbe a seus integrantes legislar. Com algumas escassas exceções.

.:oOo:.

A Suíça mantém, com bastante orgulho, uma democracia sui generis. É um sistema à primeira vista arcaico, resquício dos primórdios da expressão da vontade popular. Mas permanece vivo, firme, forte e atuante.

O povo elege, naturalmente, seus representantes, como na maioria dos países. O poder legislativo é bicameral, composto por dois agrupamentos de eleitos. Uma lei, para entrar em vigor, tem antes de ser validada por ambas as instituições. Exatamente como no Brasil, nos EUA, na França, na Alemanha, na Itália.

Até aí, morreu o Neves, como se costuma(va) dizer. A particularidade vem agora: a Confederação Helvética, nome pomposo e mui oficial do país, reconhece o princípio da democracia direta. Que vem a ser isso?

Qualquer cidadão ― digo bem: qualquer cidadão ― tem o direito de lançar uma iniciativa constitucional. Pode propor um novo artigo para a Constituição, a modificação de um já existente ou até a abolição pura e simples de algum que não lhe convenha.Urna

E como é que funciona? Proponho hoje, e amanhã entra em vigor? Bem, não é assim tão simples. Para evitar uma avalanche de asneiras, o processo obedece a regras rigorosas, a seguir minuciosamente. Dependendo do teor da proposição, a lei fixa um número mínimo de apoiadores. O indivíduo que quiser alterar a Constituição terá de provar que sua proposta está sendo apoiada por uma determinada quantidade de cidadãos.

Para apresentar essa prova, o proponente terá de colher assinaturas. Distribuirá listas, frequentará feiras livres, fará comícios, solicitará ajuda de simpatizantes, concederá entrevistas. O importante é que consiga o número necessário de assinaturas dentro de um prazo determinado.

Terminada a colheita de adesões, apresentará as listas às autoridades federais. As assinaturas serão verificadas uma por uma. Se o número mínimo tiver sido alcançado dentro do prazo estipulado, a iniciativa terá tido sucesso. A população do país será então convocada para um plebiscito. Caso a maioria dos votantes seja a favor da proposta, a Constituição do país será alterada.

Pronto, está aí, de forma bastante resumida, o funcionamento da democracia direta. Embora seja teoricamente possível, dificilmente um solitário e desconhecido indivíduo conseguirá divulgar sua ideia e obter o número necessário de apoiadores. Mas a possibilidade está teoricamente aberta a todos. É de lei.

.:oOo:.

A lei brasileira não concede a um cidadão qualquer a possibilidade de propor alterações na Constituição. O poder de requerer mudanças é reservado a um círculo restrito de entidades. Entre elas, o Senado Federal, a Câmara dos Deputados, governadores, partidos políticos. Sindicatos até.

Um artigo do Estadão nos dá conta de que a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados acaba de aprovar uma proposta de emenda à Constituição Federal. Fizeram, em algumas horas, o que demandaria meses de campanha, caso estivessem sob a lei suíça.

A Comissão de deputados propõe que o poder de requerer modificações na Constituição seja estendido a entidades religiosas. Mais que espantoso, esse alargamento abre precedente inquietante.

Das duas uma: ou mantemos nosso sistema de democracia indireta, em que somente os representantes eleitos pelo povo têm o poder de mexer na lei, ou instituímos logo a democracia direta. Ficar assim, meio cá, meio lá, não vai dar certo.

Não convém abrir a caixa de Pandora, que nunca se sabe o que pode sair lá de dentro. Com todo o respeito que tenho por instituições, agremiações, associações, organizações e sociedades, receio que, num futuro próximo, outros grupos possam ser agregados à elite que detém hoje o poder de bulir na Constituição de nossa República Federativa. Bem mais útil e certeiro seria a adoção do voto distrital para eleições legislativas.

O País já está suficientemente bagunçado. Não vejo necessidade de alargar os limites da «elite» legislativa. Interesses setoriais não deveriam ser tão levianamente acolhidos.

Perigo à vista.

Burocracia intimidante

José Horta Manzano

Um dia, já faz um bocado de anos, resolvi me estabelecer por conta própria, aqui na Suíça. Conhecedor da via crucis que a criação de uma empresa representa no Brasil, procurei me informar sobre o caminho a seguir.

Telefonei à autoridade competente e contei o que pretendia fazer.

Meu interlocutor me perguntou:
«É uma firma individual, só no seu nome?».

E eu:
«Sim, sou só eu».

A resposta veio rápida:
«Nada!».

Não entendi. Insisti:
«Como assim, nada? Não tenho de fazer nada?».

E o funcionário repetiu:
«Nada, não, senhor. Comece a exercer sua atividade e, chegando ao final do ano, inclua seus ganhos na sua declaração de renda».

Acostumado com a burocracia massacrante que atormenta todo pequeno empresário brasileiro, levei algum tempo para me dar plenamente conta. Acabei descobrindo que era verdade mesmo. Não há formalidade nenhuma para quem quiser montar uma pequena empresa individual na Suíça. Que comece a trabalhar. Depois, veremos.

Contador

É evidente que isso vale para uma microempresa. Quisesse eu fundar uma sociedade anônima, a conversa seria outra. Uma pequena empresa suíça cujo faturamento anual se situe abaixo de 75 mil francos (180 mil reais) não estará nem sujeita ao recolhimento do IVA (imposto sobre valor agregado).

Chegando ao final do primeiro exercício, o microempresário declarará quanto vendeu, quanto gastou e quanto lhe sobrou. A partir daí, algumas pequenas taxas municipais lhe serão cobradas. Umas são baseadas no total das vendas, outras são calculadas sobre o aluguel pago. Afora isso, o lucro será adicionado a outros ganhos eventuais do microempresário. E o total será inscrito na declaração anual que cada cidadão tem de apresentar.

À medida que a pequena empresa for crescendo, é provável que contrate funcionários. Terá então de seguir as normas trabalhistas, que por aqui são bastante leves. Deverá recolher uma porcentagem da massa salarial anual e repassá-la ao equivalente helvético do INSS.

Quanto maior se for tornando a empresa, mais complexo se tornará o tratamento fiscal e trabalhista. É natural. Mas aí já são outros quinhentos. Parte-se do princípio que uma firma de maior porte tem melhores condições de gerir suas contas. Não se podem exigir os mesmos malabarismos do pequeno autônomo que se lança por conta própria. Ninguém é obrigado a recorrer a contador nem a despachante. Quem souber, cuida de sua contabilidade sozinho. Despachante é função desconhecida, que nem tradução tem.

Andei lendo o escrito de Adriane Silveira, publicado no Blog do Empreendedor, alojado no Estadão. Fiquei abismado. É difícil entender por que, raios, se criam tantos obstáculos para dificultar os que têm ânimo, energia e um pequeno capital para se lançar. A impressão que fica é de que, no Brasil, todo cidadão é suspeito de desonestidade até que prove o contrário.

Quem é que ganha com isso?

O candidato a empresário não será. Muita gente boa deve ter desistido no meio do caminho. Garra de empreendedor não rima necessariamente com fôlego para enfrentar burocracia pesada.

O País também perde. O incrível emaranhado de exigências inibe a microempresa nascente. E pensar que ela poderia até evoluir, criar empregos, contribuir para a dinâmica econômica. É desolador.

Por que esses entraves? Se alguém tiver a resposta, que me explique. Sinceramente, não consigo entender. A impressão que fica é a de que as autoridades fazem o que podem para inibir a livre iniciativa.

Quem planta vento, colhe tempestade. Essa multiplicação de entraves tem efeito perverso: gera miniempreendedores informais, que agirão fora da legalidade. E que, naturalmente, escaparão ao imposto.

Parece-me que as autoridades fiscais brasileiras estão observando o mundo pelo lado errado do binóculo. Estão enxergando tudo muito pequeno. Que deixem a cada um a liberdade de criar, de empreender. No meu entender, autoridades estão aí para fiscalizar a posteriori, não para coibir a priori.

.:oOo:.

Nota: Na Suíça, salvo no caso de sociedades anônimas, o balanço anual que se apresenta ao fisco não precisa ser assinado por um contador. Há normas para demonstrar as contas. Desde que elas sejam respeitadas, o responsável pode prescindir de um contador. Ele mesmo assinará o balanço e, se for o caso, responderá pessoalmente por eventuais irregularidades.

Vexame anunciado

José Horta Manzano

Quanto mais importante for a pessoa, maior será o respeito com que a tratarão. Uma pessoa importante é vista como modelo. É às vezes até seguida como guru.

Como se costuma dizer, não existe almoço grátis: tudo tem sua contrapartida. O figurão importante tem de retribuir a deferência com que é tratado. Tem de dar o bom exemplo, mostrar o caminho certo a seus seguidores. Desgraçadamente, não é sempre assim que acontece.

Estádio Maracanã

Estádio Maracanã

A presidência da República é, sem sombra de dúvida, um cargo elevado. Foi ocupado, até recentemente, por um personagem peculiar. Esperto, soube explorar ao máximo o espírito paternalista que rege nossos costumes. Distribuiu mimos, presentes e agrados aos que o rodeavam. Se deu bons exemplos e deixou um rastro de conduta ética… a História não registrou.

Em contrapartida de sua prodigalidade para com os mais chegados, pôde sempre contar com uma corte fiel, formada por gente que, ao sair da sala do chefe, suponho chegasse a caminhar para trás, a fim de nunca dar as costas ao pater familias. Viveu seus anos de glória cercado por uma corte de áulicos, todos de olho firme nas vantagens pessoais que pudessem auferir da proximidade com o rei.

A palavra de ordem era nunca contrariá-lo. Por mais asneiras que ele dissesse ou cometesse, era importante sempre concordar, elogiar e aplaudir. Assim foi quando, em sua ingenuidade, o antigo presidente fez o que pôde ― e até o que não devia ― para conseguir que o Brasil fosse designado como sede da Copa do Mundo de futebol de 2014. Deve ter-lhe soado como a coisa mais importante que poderia ocorrer em nosso País.

Recuso-me a acreditar que, entre os membros da corte, não houvesse alguns mais instruídos e mais realistas. Esses, justamente, devem ter-se dado conta de que imensos problemas nos esperavam. Hão de ter entendido que o empreendimento esbanjaria o dinheiro de um povo que já não possui muito. Podem até, sabe-se lá, ter percebido que aqueles bilhões todos poderiam ser mais bem empregados em aperfeiçoar nossa decrépita infraestrutura. Devem ter sentido que aquela dinheirama seria mais rentável se investida na Instrução Pública. Mas assim mesmo, ai!, aplaudiram a genial ideia do guia. Como é que ninguém tinha pensado nisso antes?

Só os tolos acreditaram que a organização de tal evento se faria sem trapalhadas, trambiques, erros e contratempos. Só por grande ignorância ou pesada má-fé poderia alguém acreditar que as coisas iam funcionar no Brasil da mesma maneira que costumam funcionar em país organizado. Sabemos que não é assim.

Um exemplo? Em 2011, um ano antes do início dos Jogos Olímpicos de 2012, Londres já estava dando os retoques finais à estrutura que ia receber o evento. Tudo estava praticamente pronto.

Estádio Corinthians

Estádio Corinthians

Em 2013, a um ano da Copa do Mundo e às portas da Copa das Confederações, a triste realidade tupiniquim vai-se encancarando. Estádios não ficarão prontos. Linhas de transporte expresso não foram construídas. A infraestrutura aeroportuária continua na mesma indigência dos tempos do “relaxa e goza”.

E pensar que esse investimento poderia ter sido destinado a elevar o nível do ensino público do País, melhor maneira de despachar para a lata de lixo da História o vexaminoso sistema de quotas.

Enquanto sonhamos com dias melhores, vamo-nos preparando para o fiasco. Aos olhos do mundo, passaremos do estatuto de republiqueta de bananas direto para o de ex-país emergente.

O Estadão nos dá conta do desastre que se prepara. Aqui.

A Folha de São Paulo vai pelo mesmo caminho. Aqui.

Cobranças e pedidos

José Horta Manzano

Papa Francisco foi entronizado. Uma situação bizarra, em que dois pontífices coexistem, um já aposentado e outro na ativa. Quem tem menos de 500 anos de vida ― e acredito que seja o caso de todos nós ― nunca viveu uma situação semelhante.

A História já registrou momentos confusos, quando dois homens reivindicavam o mesmo trono, ambos convictos de representar a autoridade suprema da Igreja. Cada um considerava o outro um antipapa. O cristianismo chegou até a conhecer três papas ao mesmo tempo. Mas isso já faz muito tempo, muito mesmo. O último capítulo desse cisma desenrolou-se há 600 anos.

Cada país, cada povo, cada religião, cada confraria, cada clube tem suas regras. Ainda que nenhum caso parecido tenha ocorrido nos últimos séculos, a doutrina da Igreja não impede o Sumo Pontífice de renunciar a seu cargo. As regras, portanto, não foram infringidas.

A cada função correspondem rituais que lhe são inerentes. Representar um grupo é encargo cerceado por normas explícitas. Até reis e dirigentes absolutistas costumavam respeitar uma certa liturgia. Caso algum detalhe do cerimonial não esteja escrito em papel quadriculado, vale o bom senso. Certas quebras de protocolo podem até ser divertidas e inócuas. Em geral, são aceitas de bom grado. Já outras transgressões pegam mal.Dilma e Cristina

Centenas de chefes de Estado, primeiros-ministros, presidentes e outras personalidades viajaram a Roma estes dias. Foram todos marcar presença. Coube a cada um deles levar a homenagem de seu país ao novo chefe do Estado do Vaticano. Cerca de 150 países enviaram representantes para a entronização do papa.

Não deveria passar de uma visita protocolar, algo como dar bom-dia ao vizinho. Muitas vezes, preocupados com nossos problemas quotidianos, não temos a menor vontade de saudar vizinho no elevador. Mas faz parte do jogo. Todo jogo tem suas regras.

Espantosamente, alguns dos visitantes ultrapassaram os limites fixados pelo protocolo. Por sorte, não foram muitos. Mas dois deles extrapolaram. São justamente pessoas importantes em seus respectivos países.

Cristina Fernández de Kirchner, presidente da vizinha República Argentina, foi uma delas. Com uma das mãos, ofereceu ao homenageado uma cuia de chimarrão. Sem cerimônia, aproveitou para estender a outra mão com um pedido ao Papa Francisco: solicitou seu apoio no diferendo que a opõe ao Reino Unido a propósito das Ilhas Falkland/Malvinas. Por sorte (ou por pudor), os fotógrafos não registraram nenhum tapinha nas costas.

Foi como se a senhora Fernández de Kirchner dissesse: «Olhe aqui, Santidade, o senhor pode até ser papa, mas não deixa de ser argentino. Portanto, fique com esta cuia e me ajude a agregar aquele arquipélago ao nosso território. Meu futuro político depende disso». Que falta de classe! Pior ainda quando se sabe, pela imprensa do país hermano, que a convivência entre a “presidenta” e o então cardeal foi áspera.

Dilma Rousseff, presidente da República Federativa do Brasil, foi ainda mais longe. Não ousou dizer na cara do Papa Francisco o que queria, mas fez chegar-lhe um recado pelos jornalistas. Antes mesmo que o novo chefe da Igreja assumisse o cargo oficialmente, Dilma deu-lhe, por caminhos tortuosos, uma lição (não solicitada) sobre como conduzir o rebanho. Instou o novo pontífice a procurar compreender as «opções diferenciadas das pessoas»(sic).

.:oOo:.

Dizem que o poder inebria e que, às vezes, chega a cegar. Quando é exercido por pessoas pouco preparadas, a coisa é ainda pior. De um convidado para uma homenagem, espera-se que venha com os braços cheios de presentes e que se retire com as mãos vazias. Choradeira tem hora. Onde já se viu fazer pedidos públicos ao homenageado do dia? Tem cabimento dar-lhe lições de bem governar? O comportamento das duas senhoras foi ousado e grotesco. Deram, mais uma vez, mostra de absoluta falta de tacto. Há hora e lugar para tudo, mas elas não leram o manual.

A língua portuguesa tem muitas palavras em vias de extinção, por mera falta de uso. A atitude da chefe do Executivo de nosso País comprovou a obsolescência de um desses termos: recato. Faz muita falta a nossos mandachuvas.

Em castelhano, por acaso, a palavra é a mesma.

A intervenção

José Horta Manzano

Quem examinar um mapa do Oriente Médio atual, com seus países bem delimitados e desenhados em diferentes cores, dificilmente se dará conta de que aquela partilha territorial é criação totalmente artificial.

Desde tempos imemoriais, a extremidade leste do Mediterrâneo foi habitada. Para lá convergiram populações vindas de horizontes diversos, cada qual com sua língua, seus costumes, suas tradições, sua religião.

Seja pela fertilidade de alguns de seus vales, seja por razões religiosas, seja ainda por sede de poder econômico, muitos se interessaram por aquelas terras ― tanto gente miúda, quanto poderosos. Desde os sumérios e os hititas, muitos povos habitaram a região. Até mesmo os romanos estenderam seus domínios até lá, ao conquistarem a orla mediterrânea do Oriente Médio.

Após a débâcle de Roma, Constantinopla, a atual Istambul, tornou-se o centro de gravidade. Dali saíam as ordens e ali chegavam os impostos, que é o que mais interessava.

A partir do século X, levas de população turcomana provenientes da Ásia Central arribaram e fincaram pé no extremo leste da Anatólia, a península onde se assenta a Turquia atual. Era um povo aguerrido. Seus chefes tinham sede de expansão.

Em cinco séculos, conquistaram toda a Anatólia, tomaram Constantinopla, desbancaram o Império Romano do Oriente, subjugaram a península balcânica e chegaram às portas de Viena. O Oriente Médio, do Mar Negro ao Egito, da Arábia Saudita à Tunísia foi submetido a uma dominação turca que duraria 400 anos. Formou-se o longevo Império Otomano.

Império Otomano

Mas o mundo gira. Quando estourou a Grande Guerra, em 1914, o sultão de Constantinopla tomou uma decisão que levaria ao desaparecimento do império: aliou-se à Alemanha. Perderam a guerra. O Tratado de Sèvres (1920) e o Tratado de Lausanne (1923) sacramentaram o esfacelamento da velha potência e sua partilha entre os vencedores.

A região foi retalhada na prancheta pelos vencedores. Inglaterra e França, potências dominantes à época, decidiram quem ficaria com o quê. E desenharam o contorno dos novos países. Raças, religiões, costumes, línguas e tradições não foram a preocupação maior dos novos mandatários.

O resultado foi a criação de países artificiais. A Síria, o Iraque, a Jordânia, o Líbano abrigam populações heterogêneas, que pouco têm a ver entre si. Dentro das fronteiras nacionais coabitam inimigos históricos.

Se um simulacro de coesão subsistiu até nossos dias, foi porque cada um dos novos países foi governado com mão de ferro por ditaduras ou governos pra lá de autoritários. Foi uma calma de aparência, como a que se viu na  Iugoslávia de Tito, na Espanha de Franco, na Tchecoslováquia comunista.

Nós outros, que vivemos em nações mais uniformes e que desconhecemos tensões étnicas ou religiosas, temos dificuldade em entender a realidade daquela região. Em palavras mais chãs, temos a impressão de que todos são meio malucos por ali, que se agridem sem real motivo.

É um pouco mais complicado que isso. A Síria, como o Iraque e os vizinhos, abriga nações díspares. Um curdo da Síria deve sentir-se tão sírio quanto um escocês se sente inglês. Certos xiitas de Basra consideram-se tão iraquianos quanto certos bascos se consideram espanhóis. A região é uma verdadeira colcha de retalhos.

Estes dias, o presidente da França e o primeiro-ministro britânico ameaçaram fornecer armas aos oponentes do mandachuva sírio. À primeira vista, parece uma decisão justa. Se a ditadura pode, impunemente, massacrar seu próprio povo, por que razão não auxiliar os pequeninos a se defenderem?

Desgraçadamente, o problema não é assim tão simples. Se, por hipótese, o ditador for apeado do poder, quem tomará seu lugar? Qual das minorias sobrepujará as demais? Vamos simplesmente trocar uma ditadura por outra?

Longe de mim aprovar que velhos, mulheres e crianças sejam trucidados nessa guerra sem fim. Que o ditador abandone seu trono e vá curtir o resto de seus dias nalgum paraíso ― há sempre gente interessada em acolher endinheirados. Mas como ficará depois?

Não tenho a resposta, muito menos o poder de interferir. Não tenho muita fé, mas sempre resta um fio de esperança de que os grandes deste mundo estejam pensando nisso.

Como em 1918, são justamente a França e a Grã-Bretanha as potências que se dizem prontas a intervir. Que intervenham, pois, e que ponham fim ao massacre. E que redesenhem o mapa da região levando em conta, desta vez, o interesse das populações. Não será tarefa fácil.

.

Nota: Um artigo do Estadão de 17 de março, de autoria de Guilherme Russo, vem corroborar minha opinião. Quem se interessar vai encontrá-lo aqui.

O Ipiranga

José Horta Manzano

Os numerosos anos que já vivi me permitiram presenciar ou tomar conhecimento de muita coisa. Fatos raros, fatos corriqueiros. Acontecimentos bonitos, outros menos. Não me lembro de nenhuma ocorrência com as características do que se passou na madrugada de domingo na Avenida Paulista, em São Paulo.

Falo do ciclista atropelado. Meus leitores que moram no Brasil certamente sabem do que estou falando. Em atenção aos muitos que, como eu, vivem longe de Pindorama, deixo o endereço de duas páginas, uma do Estadão e outra da Folha de SP. Primeiro leiam aqui, em seguida aqui. Depois conversamos.

.:oOo:.

Já leram? Agora estamos todos a par. Não tenho nenhum detalhe a acrescentar, não sei mais do que aquilo que os jornais publicaram. E já é o suficiente. Tivesse um figurão político sofrido um atentado, tivesse uma grande estrela do cinema caído no Vesúvio, tivesse nevado em Manaus, nenhum desses acontecimentos teria provocado o choque que essa notícia me assestou.

Imaginaram a cena? Cinco horas da madrugada, um jovem volta da balada ao volante de seu carro. Não se sabe ainda por que razão, atropela um operário que, de bicicleta, seguia para seu emprego. A vítima tem seu braço arrancado ― sim, extirpado, desarraigado, separado do corpo. O membro fica agarrado ao para-brisa do automóvel. O motorista não se detém para prestar socorro à vítima desmembrada.

E não é só. O jovem universitário ― universitário! ― continua seu caminho com o braço sanguinolento teimosamente colado ao vidro dianteiro. Não lhe passa pela cabeça que todo braço é irrigado por artérias e que a vítima, que naquele momento se esvazia de seu sangue, há de estar precisando de ajuda. Não lhe ocorre que uma chamada de emergência pode ser feita de seu próprio celular. Não se preocupa nosso universitário em ao menos devolver à vítima o braço decepado.

Quem conhece a cidade de São Paulo sabe que, da Avenida Paulista até a Avenida Ricardo Jaffet, vão bem uns 15 minutos. Quando o tráfego está livre, naturalmente. Portanto, afaste-se a ideia de uma reação tresloucada, impensada, tomada sob momentânea e violenta emoção. O que nosso universitário fez foi, como se diz, de caso pensado. Pensado, pesado e arquitetado. Teve um bom quarto de hora para sopesar o que tinha feito e o que se preparava a fazer.

E o que fez? Parou seu veículo às margens do riacho Ipiranga ― sim, exatamente aquele do Hino Nacional ―, atirou lá o membro decepado e foi-se embora tranquilo, na certeza de nunca ser desmascarado.

Neandertal

Sabe-se que, 50 mil anos atrás, os Neandertais já tinham assimilado a noção de solidariedade. Quando a doença, um acidente, a velhice impedia que um deles continuasse a dar sua contribuição ao grupo, os demais o amparavam e provinham ao seu sustento. É uma das características que marcam a diferença entre humanos e animais. Há que reconhecer que algum resquício troglodita ainda resiste nas profundezas da alma.

O que ocorreu na Avenida Paulista às 5h da manhã deste domingo é para mim mais chocante e mais preocupante que todos os arrastões que entopem as páginas policiais de nossos jornais.

Mais do que se preocupar com dividendos de um hipotético pré-sal ou com o resultado de futuras eleições, nossos mandachuvas deveriam tomar a temperatura do desastre que a impunidade crônica está preparando para os que comandarão o país dentro de 20 anos.

De minha parte, não posso fazer grande coisa além de apontar o que me parece errado. Que aqueles que detêm o poder cumpram seu dever e façam o necessário. E urgentemente. A quase garantia de impunidade tem de ser erradicada da paisagem tupiniquim. O Brasil tem de voltar a ser um país normal. A continuar como está, nossos netos voltarão ao estado selvagem.

As margens do Ipiranga, que um dia foram plácidas, estão tingidas de sangue. De sangue e de vergonha. De 1822 para cá, elas já se tinham habituado a receber poluição e detritos, mas não estavam preparadas para dar guarida ao produto de atrocidade tão covarde.

Frustração 2

José Horta Manzano

Em artigo anterior, expus minha opinião sobre a coabitação Chávez-Lula. Disse eu que o quase ditador de nosso país vizinho tinha sido uma verdadeira pedra no sapato de nosso Lula nacional. Na verdade, Chávez barrou o caminho do Lula ao estrelato global.

Onde a maioria viu convivência pacífica ― até conivência ― eu não ressenti senão competição, animosidade e imensa tensão. O ego hiperinflado de cada um deles esbarrou no do outro.Lula e Chavez

Muitos articulistas chegaram à conclusão de que a quase ditadura da Venezuela foi benéfica para o Brasil. Vista pelo ângulo puramente econômico, é indiscutível que ela contribuiu para que alguns grandes empresários brasileiros conseguissem auferir lucros milionários. Já no que tange ao, digamos assim, “plano de carreira” de nosso guia, o regime bolivariano foi catastrófico. Puxou-lhe o tapete exíguo sobre o qual se equilibrava. Roubou-lhe o protagonismo.

Neste começo de século, por numerosas razões, o olhar dos europeus foi mais benevolente para com Chávez do que para com o Lula. O inegável carisma do sorridente caudilho venezuelano transmitia mais calor humano do que a frieza carrancuda de um Lula. Diferentemente do brasileiro, o venezuelano não representava um país pressentido como possível futuro concorrente econômico. Chávez se expunha por inteiro, transmitia uma impressão de sinceridade. Podia-se apreciá-lo ou não, mas o sentimento que ficava era o de que ele tinha uma cara só, coisa rara entre homens políticos.

O desaparecimento prematuro do mandachuva venezuelano só fez contribuir para imortalizá-lo. Como Gardel, Garcia Lorca, Noel Rosa e tantos outros que partiram cedo, ficará na memória como um homem relativamente jovem, vigoroso, cheio de boas intenções, que só não foi mais longe porque a ceifadeira o escolheu para uma colheita temporã.

Não sou o único a enxergar com os mesmos óculos. Artigo do Estadão de 7 de março cita uma entrevista concedida pelo britânico Richard Gott. Aqui vai um fragmento do texto:

Segundo o historiador britânico Richard Gott, especialista em América Latina, autor do livro À Sombra do Libertador – Hugo Chávez Frias e a transformação da Venezuela, em entrevista à BBC Brasil, Chávez “é um dos personagens mais importantes e significativos dos últimos cinquenta anos. Há poucos com seu calibre. No contexto latino-americano, é o mais interessante desde Fidel Castro.” (*)

Quem tiver curiosidade de ler o artigo integralmente, que se dirija diretamente à fonte.

.

(*) O grifo é meu.

Faute avouée

José Horta Manzano

Um repórter do Estadão foi destratado pelo presidente do STF. Quem pulou o capítulo pode se atualizar aqui.

É verdade, não cai bem. Aliás, cai muitíssimo mal que um homem culto, poliglota, maduro, experiente se abandone a explosões desse jaez. Certas frases podem até passar quando pronunciadas por um joão qualquer. Quando saídas da boca do maioral de um dos três poderes da República, a repercussão é, naturalmente, tonitruante.

Um provérbio árabe diz que «há três coisas que não se consegue trazer de volta: uma flecha lançada, uma ocasião perdida, uma palavra pronunciada».

Uma vez feita a besteira, restam três saídas.

A primeira é fingir-se de morto, expediente muito em voga no Brasil. Os que elegem essa via afirmam coisas do tipo: «Não é comigo, não tenho nada a ver com isso, eu não sabia de nada, não sei do que você está falando».

A segunda saída é minimizar o acontecido, solução também bastante utilizada. Neste caso, a argumentação se contrói com frases tais como: «Mas o que é isso? Eu não disse nada demais. Fiz o que qualquer um faria no meu lugar. Não vamos perder tempo com picuinhas. Não vejo por que tanta gritaria por tão pouco».Calar

A terceira foi aquela à qual recorreu nosso ministro. Reconheceu o excesso e pediu desculpa pelo erro.

Erros, cometemos todos. O que mostra o caráter de quem escorregou na maionese é o caminho que escolhe para se safar da enrascada.

O ministro Barbosa optou pela saída mais honrosa. Como dizem os franceses, «faute avouée est à moitié pardonnée», erro confessado já está meio perdoado.(*)

Escolheu o caminho certo. Mas, cá entre nós, quem tem temperamento explosivo deve se policiar. Há momentos em que calar é ouro. Ou não?

.

(*) O provérbio inglês correspondente é: “a fault confessed is half redressed”.