Ai, que sede!

José Horta Manzano

Você sabia?

Até os anos 1880, os habitantes da cidade de São Paulo não sabiam o que era água encanada. As famílias abasteciam seus lares com água de diversos tanques naturais. Os mais abastados mandavam lá seus escravos mais fortes, que voltavam carregando pesados cântaros à força dos braços. Havia também quem fizesse vir o precioso líquido no lombo de burros. Era tarefa praticamente quotidiana. Fazia parte da rotina da cidadezinha de então.

Os tanques eram vários. O clima tropical da cidade sempre trouxe muita chuva. E a natureza, sábia, providenciou vias de drenagem. Em certos baixios, a água se acumulava e formava tanques naturais. Era nesses reservatórios que se ia buscar a água necessária ao consumo doméstico.

O ponto de colheita mais próximo do centro da cidade sempre foi o próprio rio Tamanduateí, aonde se chegava descendo a ladeira do Carmo. À medida que o pequeno burgo se expandiu e transpôs o vale do Anhangabaú, outros pontos de apanha foram sendo utilizados.

Entre eles, havia o tanque do Ribeirão Saracura, de bom tamanho. Ficava aproximadamente onde hoje se situa a Praça 14 bis, na Avenida 9 de Julho. Chegava-se lá subindo a rua de Santo Antônio.

Outro reservatório ficava nas imediações do atual Largo do Arouche, onde hoje estão as ruas Bento Freitas e Rego Freitas. Um outro muito concorrido era o Tanque do Zuniga(*), localizado no atual Largo do Paissandu.

A Fonte Monumental em 1928 Acervo do Arquivo Histórico de São Paulo/

A Fonte Monumental em 1928
Acervo do Arquivo Histórico de São Paulo/

Clique na imagem para ampliar

Mais um tanque se encontrava na atual Avenida Pacaembu, na altura das ruas Traipu, Veiga Filho e Tupi, não longe do Hospital Samaritano. Dado que o arruamento do Pacaembu foi tardio, a planta de São Paulo de 1913 ainda assinala esse alagado.

Com a instalação da Companhia Cantareira, criada para trazer água limpa e levar águas servidas, os antigos tanques passaram a ser menos e menos utilizados. Por inúteis, foram aos poucos sendo secados, aterrados e esquecidos.

Preocupada em matar a sede dos passantes e, naturalmente, em embelezar a cidade, a prefeitura mandou instalar fontes. Unia-se, assim, o útil ao agradável. No começo do século, inauguraram-se, entre outras, a fonte da Ladeira do Piques (rua Quirino de Andrade) e a Fonte Monumental, na atual praça Júlio Mesquita.

Naqueles tempos civilizados, tanto essas duas como todos os chafarizes da cidade eram, naturalmente, abertos ao público. Podiam ser admirados e, claro, utilizados por todos os que estivessem com sede. Bons tempos.

Um artigo de Edison Veiga, publicado em seu blogue alojado no Estadão, nos informa que, após oito meses fechada para obras, está sendo reinaugurada a Fonte Monumental.

A obra é exatamente conforme ao original com acréscimo de um detalhe: pode ser admirada de longe, mas uma proteção de vidro impede os passantes de se aproximarem. A prefeitura prefere não correr o risco de ver de novo o ponto d’água transformado em mictório público.

Deve ser isso o progresso.

.

(*) Existe o sobrenome vasco Zúñiga (pronunciado com acento no U). É bem provável que aquela gleba tenha pertencido a algum oriundo de Bilbao, San Sebastián ou Vitoria.

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s