Castro em Paris

José Horta Manzano

Quando veio a público, a notícia da construção do porto de Mariel (Cuba), financiada pelo BNDES, levantou muita poeira. Afinal, o custo da obra atingia a cifra respeitável de um bilhão de dólares. Pior que isso, parte do investimento estava sendo feita a fundo perdido, ou seja, era um presente do Brasil. Frise-se que o verdadeiro financiador, o contribuinte brasileiro, nunca foi consultado.

À época, muitos denunciaram a impropriedade da ajuda. Com tantos problemas internos, não tinha cabimento destinar todos aqueles milhões ao desenvolvimento de um país estrangeiro em detrimento das incontáveis necessidades de nosso próprio povo.

Porto de Mariel, Cuba

Porto de Mariel, Cuba

Imaginou-se que a decisão do governo brasileiro só podia decorrer da simpatia de nossos dirigentes pelo regime dos bondosos irmãos Castro. O tempo passou, o assunto saiu de foco e tudo acabou ficando por isso mesmo.

Depois que a operação Lava a Jato revelou a cascata de escândalos que conhecemos todos, vale lançar um olhar atualizado ao caso do financiamento de Mariel. Não é descabido cogitar sobre o verdadeiro propósito do “presente” oferecido à ilha caribenha.

Se a Petrobrás, que fica ali na esquina, foi espoliada na surdina, quem garante que os milhões despachados à ilha distante não terão servido a finalidades menos confessáveis? Quem pode afiançar que a bolada não terá ido parar em cofres que nada têm a ver com o porto cubano? Fica no ar a pergunta. Um dia ‒ talvez nem demore muito ‒ saberemos a verdade.

François Hollande 9Señor Raúl Castro, primeiro-irmão e dirigente atual da República de Cuba está em Paris. É a primeira visita oficial de um presidente cubano à França desde que os Castros tomaram o poder, 55 anos atrás. O anúncio da abolição do embargo comercial aguçou o apetite de muita gente.

Se a intenção do Brasil, ao contribuir precocemente para o desenvolvimento da ilha, tivesse sido de estar entre os primeiros beneficiários da abertura que se anuncia, a manobra teria sido pouco eficaz. Cuba prefere, naturalmente, relacionar-se com quem tem mais dinheiro e melhor tecnologia. É natural.

No entanto, se a hipótese que levantei estiver correta, os que nos dirigem já terão recebido seu quinhão. Com isso, devem estar satisfeitos. Eles, com certeza. O Estado brasileiro, nem tanto.

Roubos & roubos

José Horta Manzano

Data venia, vou tomar emprestado um dos bordões em que dona Dilma mais se apoia: estou estarrecido! Logo mais, digo por quê.

O Enem, exame nacional unificado nos moldes em que hoje é organizado, não existia quando terminei a escola média. Merenda escolar tampouco havia. E a ninguém viria a ideia de chamar a professora de tia. Os códigos de urbanidade exigiam demonstração de apreço.

Estudante 2Das três diferenças que mencionei, uma foi negativa mas duas assinalam avanço. Não sei se as regras do politicamente correto ensinam a chamar professora de tia. Seja como for, ressinto como familiaridade exagerada ou até como falta de respeito. As outras duas mudanças ‒ Enem e merenda escolar ‒ me parecem passos na boa direção.

Outro dia saíram os resultados da prova de redação do Enem 2015. Mais de cinquenta mil candidatos levaram nota zero. Pronto, chegou a hora de empregar o mote de nossa presidente: é de estarrecer! São dezenas de milhares de postulantes que, ao cabo de uma dúzia de anos de estudo, não conseguem se exprimir por escrito na língua oficial. E tem mais: o total divulgado não inclui os que, embora tenham comparecido, devolveram uma folha em branco.

Estudante 4As copiosas roubalheiras que nos vêm empobrecendo têm, em teoria, solução. Controles mais severos do dinheiro que passa de mão em mão tendem a cercear a malandragem. O iletrismo ‒ pra não dizer analfabetismo ‒ de jovens que chegam às portas do ensino superior é muitíssimo mais grave.

Para complementar a informação, constato que 75% dos candidatos ‒ três em cada quatro ‒ não passou de 60% de aproveitamento. Refiro-me aos que obtiveram menos de 600 pontos, marca sofrível.

Assalto à Petrobás e a outras estatais rouba dinheiro, mas dinheiro se repõe. Já o miserável nível de ensino rouba o futuro de muita gente. É irremediável, não dá pra repor. A Pátria Educadora ainda não está mostrando resultados.

Falam de nós – 16

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

A colheita da semana é magra. As manchetes que mencionam o nome de nosso país foram, como de hábito, desalentadoras. Aqui estão algumas, de cinco diferentes países.

Gang of Kids
Reportagem do site Yahoo dedicado a viagens e viajantes está longe de encorajar turistas a visitar o Brasil em geral e o Rio de Janeiro em particular. Traz um vídeo de 40 segundos, presumivelmente produzido pela empresa Globo, em que uma impressionante sequência de assaltos é praticada à luz do dia em pleno centro da cidade.

Quem convive diariamente com situações como essas não se espanta. Mas duvido que um estrangeiro, depois de assistir a essas imagens, persevere no projeto de visitar o Brasil.

Assalto 9Carestia alastrante
O austríaco Der Standard dá informação sobre a «transbordante» inflação, que ultrapassou dez por cento em 2015. Entre as causas, são destacadas as «suntuosas» despesas do governo.

Karneval der Korruption
Carnaval da Corrupção. Com esse título, o alemão Frankfurter Rundschau conta que a temática da próxima festa nacional brasileira de facto ‒ o Carnaval ‒ será a corrupção sob todos os aspectos. Máscaras, marchinhas, carros alegóricos farão parte dos festejos. Até ‘o japonês da Federal’ é mencionado.

Carnaval 12Queda livre
Brasil em queda livre ‒ é manchete do Neue Zürcher Zeitung, jornal suíço de referência. O longo artigo pinta, com tintas vivas e realistas, a atual situação do Brasil. Fala de tudo: corrupção, rebaixamento por agências de classificação de risco, falências, desemprego, inflação, troca de ministros, catástrofe ambiental, Jogos Olímpicos.

Para rematar com olhar optimista, o articulista observa que a desvalorização do real pode representar excelente oportunidade para os exportadores brasileiros que forem rápidos no gatilho.

Dragon 1Decaída
“Brasile: dalla gloria dei Brics al terzo mondo.” Brasil: da gloria do Brics ao Terceiro Mundo. É o que constata artigo alojado no italiano Corriere della Sera. Pessimista, dá uma imagem bastante crua do momento brasileiro. Fala de uma presidente que passa o tempo a defender-se do impeachment. Lembra que o partido atualmente no poder está envolvido em escândalos sem fim, cujo denominador comum é o financiamento ilícito de campanhas acompanhado por enriquecimento pessoal de líderes. Menciona estatais saqueadas que se encontram em estado terminal.

Num escárnio, termina perguntando se Deus seria mesmo brasileiro, como dizem. A dúvida fica no ar.

Brasil longe do terror

José Horta Manzano

No fim de semana passado, quando participava de reunião multinacional na Turquia, dona Dilma foi questionada sobre o risco de ataque terrorista ao Brasil durante os Jogos Olímpicos de 2016. A pergunta fazia sentido, dado que Paris acabava de sofrer mortífero atentado.

Dilma 1Dilma respondeu um tanto evasivamente, sem muita convicção, como se a pergunta a tivesse irritado: «não estamos muito preocupados com a possibilidade de atos terroristas no Brasil, uma vez que estamos muito longe». Soou distante e não convenceu.

Dias mais tarde, ao dar-se conta de que a afirmação da presidente não havia tranquilizado ninguém, o Planalto incumbiu o ministro da Justiça de serenar a plateia. Com cara de sério, ele cumpriu o contrato. Não sei se todos acreditaram. Em todo caso, o mui oficial portal Cuba Debate – aquele que publica as Reflexiones de Fidel – repercutiu a fala do ministro. Segundo o figurão, o Brasil «está totalmente preparado para garantir a segurança nos Jogos Olímpicos».

Menos romântico e mais próximo da realidade, o jornal O Globo trouxe, no sábado 21 de novembro, interessante artigo sobre ataques terroristas recenseados de 1970 até nossos dias. Uma análise mais atenta indica que o Brasil não está assim tão “longe” como imagina dona Dilma.

Ataques terroristas de 2000 a 2014 Crédito: Jornal O Globo

Ataques terroristas de 2000 a 2014
Crédito: Jornal O Globo

Entre 2000 e 2014, nosso país registrou nada menos que 17 ações terroristas, mais de uma por ano. É verdade que estamos longe do impressionante total de quinze mil atentados ocorridos no Iraque ou dos dez mil do Paquistão. Assim mesmo, constatamos que o Brasil foi alvo de mais atentados do que países teoricamente mais expostos como: Marrocos (12), Croácia (11), Sérvia (11), Portugal (2), Romênia (1) e Polônia (1).

Assalto 5Se, a esses atos reconhecidamente terroristas, acrescentarmos nossos costumeiros arrastões, sequestros-relâmpago, assaltos à mão armada & companhia, ultrapassamos Afeganistão e Paquistão com um pé nas costas. Sem contar os «malfeitos» do andar de cima naturalmente.

Brasil… longe do terror?

Corrupto no bolso

José Horta Manzano

Você sabia?

Nem tudo está perdido. O recém-nomeado superintendente regional da Polícia Federal no Estado de São Paulo é membro da mesma corrente de pensamento seguida pelo juíz federal Moro, do Paraná.

Em entrevista ao Estadão, foi simples e direto: «É pegar corrupto no bolso», ou seja, o confisco das posses dos assaltantes do dinheiro público é pra lá de eficiente no combate a organizações criminosas que compõem as máfias brasileiras.

Disney RossetiUm mês de carceragem, tornozeleira, prisão domiciliar não bastam. Assim como a cupidez foi o motor dos larápios, a prevenção reside na perspectiva de perder tudo o que roubaram. E, por cima disso, ainda pagar multa pesada, proporcional ao valor surrupiado.

Execração pública não dissuade cara de pau. Os sem-vergonha são gente sem vergonha. Estamos cansados de ver políticos cassados – ou que renunciaram ao mandato para fugir à cassação – voltarem à ativa, cara limpa e sorridente, como anjinhos recém-escorregados de uma nuvem.

Apesar da pouca idade, o novo superintendente já acumulou experiência no ramo. Estes dois últimos anos, funcionou como adido policial junto à embaixada do Brasil na Itália. Além de participar do caso Pizzolato, teve ocasião de entrar em contacto com a experiência da polícia antimáfia daquele país. Uma escola e tanto!

Quero aproveitar o ensejo pra compartilhar uma curiosidade com o distinto leitor. O novo superintendente chama-se Disney Rosseti. São duas palavras de grafia distorcida.

O sobrenome italiano, bastante comum, deveria escrever-se Rossetti, com dois tt. Tal nome indica que, lá pelo século 13 ou 14, quando sobrenomes começaram a ser atribuídos, o patriarca da família era ruivo. Rosso (= vermelho), rossetto (vermelhinho), rossetti (os vermelhinhos). Um tê se perdeu quando a família chegou ao Brasil.

Isigny-sur-mer, Normandia, França

Isigny-sur-mer, Normandia, França

O prenome – pra lá de original – lembra Walt Disney, o idealizador de simpáticos personagens que povoaram nossa infância. Você sabia que, apesar da aparência britânica, Disney tem origem francesa?

Pois é, vem da Normandia, norte da França. Nada mais é que a grafia inglesa – um pouco arrevesada – do francês d’Isigny (= de Isigny). Quem leva esse sobrenome há de ter tido, centenas de anos atrás, um antepassado originário da graciosa cidadezinha francesa de Isigny-sur-mer, situada à beira do Canal da Mancha, bem em frente à Grã-Bretanha.

A elite pensante e o descaso com a violência

Guy Franco (*)

Assalto 7Antes dos meus 10 anos de idade, minha casa foi invadida duas vezes. Coisa que nunca me esqueço, os bandidos gritando com meus avós, querendo dinheiro, eletrônicos, a Variant marrom do meu vô – e eu no meu quarto me torturando sem poder fazer nada. Nas semanas seguintes, acordava no meio da noite com qualquer barulho e via na sombra das árvores, através das cortinas, a forma de pessoas invadindo a casa.

O tempo passou, comecei a andar de ônibus sozinho. Entre os 13 e os 17, fui assaltado pelo menos cinco vezes. Já fui assaltado na rua e em ônibus, em grupo e sozinho, indo e voltando da escola, por drogados, por menores – quase sempre por menores. Me levaram dinheiro, passes e um boné. No tempo em que eu estudava, bastava que moleques passassem por baixo da roleta do ônibus para a viagem deixar de ser tranquila. O cobrador nada fazia.

Assalto 6Aos 20, no caminho do trabalho, dois sujeitos numa moto me roubaram. Eles queriam a minha mochila. Um olhava para o outro e dizia: “mata ele, mata ele”. Eu me lembro do desespero da minha mãe, que estava comigo. Desde então, não posso ver moto com passageiro na garupa perto de mim. O frio na espinha é inevitável.

Depois disso, ainda fui assaltado mais algumas vezes: me levaram celulares, documentos e quase me roubaram uma câmera de vídeo. Por sorte, só apanhei uma vez, de marginais, perto de estação de metrô. Tendo sofrido tantos assaltos, sou sensível à questão da violência. E observo que é assim com muita gente, principalmente com quem já passou por algo parecido.

by Élcio "Edra" D.R.Amorim desenhista mineiro

by Élcio “Edra” D.R.Amorim
desenhista mineiro

Assalto 8Estatisticamente, uma pessoa está sofrendo algum tipo de violência neste instante em algum ponto do país. Até antes do almoço, mais de 70 terão sido assassinadas. Enquanto isso, a elite bem pensante está mais preocupada em atacar quem não limpa a própria privada. Intelectual adora falar mal dos bravos cidadãos da classe média e se cala sobre a violência sofrida por gente como você e eu.

Daí a vergonha que tenho de abrir o jornal para ler a elite pensante. Não moro no Jardim Paulista, no Leblon ou no bairro chique do cartunista engajado, onde o risco de ser roubado e assassinado é oito vezes menor do que em Americanópolis.

Assalto 5O descaso é uma afronta a quem vive com medo da violência. Fingir que nada acontece é o tema preferido de nossa elite intelectual. O país tem os índices de criminalidade mais grotescos do mundo. A elite intelectual, no entanto, não gosta que se lembre disso. Qualquer proposta mais dura que apareça contra a violência passa por fascismo – isso quando não cai no papo ridículo de que o bandido é a vitima ou que punição não resolve nada. Aí é melhor sair de perto mesmo.

Eu me disponho a não discutir com quem ignora os índices de violência do país. Assaltos? Estupros? Homicídios? O importante é fazer bonito entre os leitores All Star e discutir o uso de linguagem ofensiva em programas humorísticos.

(*) Guy Franco mantém blogue alojado no Yahoo.

Perfil e círculos

José Horta Manzano

Photo de profil 3Sou do tempo em que a gente, quando saía de férias, dava um jeito de evitar dar muita bandeira. Para despistar, cada um tinha seu método. Era imprescindível pedir a algum vizinho que esvaziasse a caixa de cartas a cada dois ou três dias. Caixa cheia dá na vista e assinala ausência de moradores.

Outra providência era instalar um temporizador que acendesse lâmpadas durante determinados períodos e – essa também era boa – botasse o rádio pra tocar a certas horas do dia. Luz e flashes intermitentes de tevê refletidos na parede também eram boa pedida.

Em resumo: fazia-se o possível para evitar que desconhecidos mal-intencionados se inteirassem da ausência e aproveitassem para assaltar a residência.

Photo de profil 2O mundo mudou. Mantenho respeitosa distância de redes sociais. Quando me perguntaram um dia se eu tinha «foto de perfil», imaginei que me estivessem falando daqueles retratos tirados de prisioneiros que dão entrada na carceragem: de frente e de perfil, e com escala graduada como pano de fundo.

Embora, pessoalmente, não me sinta atraído por círculos, rodas, clubes & afins, entendo que outras cabeças possam emitir outras sentenças. Muita gente gosta de relatar pequenos fatos do quotidiano – o que fez, o que pretende fazer, o que comeu, onde esteve, com quem conversou. Por que não? Se um tem prazer em contar e outro gosta de ficar sabendo, onde está o mal?

Pois o mal está no excesso. Já houve casos de gente que, descuidadamente, deixou vazar a informação de que estaria de viagem de tal a tal dia. Propagada, a notícia chegou a ouvidos de integridade duvidosa. Foi como entregar à raposa a chave do galinheiro. Sabendo que não perigavam ser surpreendidos pela chegada inopinada do morador, ladrões deitaram e rolaram.

by Gilberto César Terra, desenhista mineiro

by Gilberto César Terra, desenhista mineiro

«Do que a mão esquerda faz, a direita não precisa ficar sabendo.» Mesmo afastado do conceito original bíblico, o ditado serve para ilustrar o caso de hoje. Serve também em outras ocasiões. Em boca fechada, não entra mosca.

Falam de nós – 8

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Maracana hotelNo Maracanã
«Une nuit à Maracana»Uma noite no Maracanã. O site francês de informação 20 Minutes traz notícia de concurso realizado por uma agência de turismo. O prêmio é uma noite no Estádio do Maracanã. Uma suite de luxo será instalada para abrigar o vencedor.

As Olimpíadas vêm aí
«Violencia en Brasil: peligrosa antesala para los Juegos Olímpicos 2016»Violência no Brasil: perigosa antessala para as Olimpíadas de 2016. Foi manchete do portal informativo chileno T13. Mostra a preocupação que aflige atletas e dirigentes do mundo inteiro à vista da criminalidade enraizada em nosso País.

China imperadorBrasil colônia
«Chinese ‘economic colonisation’ of Brazil continues»Continua a ‘colonização econômica’ chinesa do Brasil. É com esse título que o jornal britânico The Independent relata o investimento de 50 bilhões de dólares que a China prevê fazer dentro em breve em nosso País.

Criança 1Fertilidade
«Brasilianische Mutter bekommt mit 51 Jahren ihr 21. Kind»Mãe brasileira dá à luz, com 51 anos, seu 21° filho. Manchete do portal alemão RP-Online sobre a extraordinária notícia da mulher sergipana que põe no mundo mais um brasileirinho.

Dilma 9Rivalidade
«Rousseff’s main ally eyes Brazil’s presidency in 2018»O principal aliado de Dilma de olho na presidência do Brasil em 2018. Com esse título, o portal noticioso Arab News, da Arábia Saudita, informa que o PMDB já não disfarça suas pretensões ao trono presidencial.

Criminalidade
«Despite firearm restrictions, gun violence kills five people every hour in Brazil»Apesar de restrição de armas de fogo, violência armada mata cinco pessoas por hora no Brasil. O portal Vice News relata o aumento alarmante da criminalidade em terras de Pindorama.

Crédito: Kopelnitsky, EUA

Crédito: Kopelnitsky, EUA

Imodéstia
«Conmigo y com Neymar juntos, Brasil habría ganado el Mundial»Comigo e Neymar juntos, o Brasil teria ganhado a Copa. É com essa tirada pouco modesta que Pep Guardiola se manifestou estes dias. Guardiola, que já foi técnico do Barça, comanda atualmente o Bayern Munique. Saiu no portal espanhol Mundo Deportivo.

Onibus 5Assalto por engano
«Asaltan bus que transportaba a hinchas de Guaraní en Brasil»No Brasil, assaltado ônibus que levava torcedores do Guarani. O jornal paraguaio Ultima Hora dá assim a notícia de assalto sofrido por torcedores nas cercanias de Maringá (PR). Os bandidos, imaginando que o coletivo trazia sacoleiros, estavam mais era de olho na mercadoria.

Tiro ao Álvaro

José Horta Manzano

Interligne vertical 14«Na rua Dr. Sebastião Pereira, foi visitada ao escurecer do dia 10 a casa onde reside uma familia numerosa, mas que naquella occasião se achava ausente quasi toda.

Pessoa da casa, vendo duas cabeças assomarem para fóra do nivel do muro, desfechou um tiro de revólver, que fez em cacarecos uma telha e nada mais.»

Interligne 18e

Deu no Correio Paulistano de 12 de março de 1891, quase 125 anos atrás.

Para quem acredita que agressividade e violência sejam novidade, está aí a prova de que o mal é bem mais antigo. Por duas «cabeças assomadas» atirava-se sem aviso prévio.

Persistente, o faroeste continua vivo e forte!

Vem de cima

José Horta Manzano

Cachorro 13Desde pequenino, a gente ouve dizer que o exemplo vem de cima. É pura verdade. Assim como a criança se molda imitando os adultos, a sociedade se norteia pelo exemplo de seus líderes. É lógica da qual não dá pra escapar.

O cão rosna para afastar quem ousar se aproximar dele na hora da comida. Por natureza, o homem também é egoísta. Se se deixar dominar pelo instinto, não há de se comportar de modo diferente. Não somos espontaneamente altruístas – muito pelo contrário. «Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro.»

Assalto 1A educação, a família, a escola, a sociedade e – mais importante ainda – os que estão no topo da pirâmide são os que ditam o ritmo e o tempo da valsa. Com pequenas variantes individuais, os cidadãos de determinada sociedade costumam agir e reagir de modo coerente e homogêneo.

Petrificado, leio que vítimas de um desastre ferroviário nos arrabaldes do Rio de Janeiro foram assaltadas enquanto aguardavam por socorro.

Já tinha ouvido falar em roubo de carga espalhada na estrada por motivo de colisão de veículos. Já tinha ouvido falar em saqueio a casas abandonadas por motivo de terremoto ou tsunami. Já tinha até ouvido falar em assalto a cidadãos presos no tráfego e impossibilitados de se defender.

Ambulância 1De agressão a vítimas de acidente, é a primeira vez que tenho notícia. Parece difícil que nossa sociedade descambe ainda mais baixo na escala da selvageria. Até brutamontes do Velho Oeste sabiam que não se atira em homem caído. Todo bandido sabe que tampouco se deve atirar em ambulância.

Assaltar vítimas de desgraça – infligindo-lhes, assim, duplo castigo – é covarde e ignóbil. É ato incompreensível num País cuja presidente afirmou, ainda outro dia, que seu governo é «o que mais tem combatido malfeitos».

Das duas, uma:

Interligne vertical 151) A correia de transmissão de valores, que deveria conduzir o exemplo do topo à base, está emperrada. Há que providenciar conserto urgente.

2) Ou então – o que é bem pior – a correia está, sim, funcionando. O comportamento abjecto dos que assaltaram vítimas de desastre é mero reflexo do comportamento dos inquilinos do andar de cima. Os valores do topo estão-se alastrando para a base. Meu pirão primeiro, companheiro!

O distinto leitor é livre de escolher a opção que lhe pareça mais adequada.

Brasil faminto

José Horta Manzano

Fome 1Época de Natal amolece os corações, é certo. Estas semanas que antecedem o 25, o correio traz bateladas de pedidos de socorro. Chegam envelopes com algum mimo dentro e um pedido de ajuda.

O mimo, em geral, é um calendariozinho ou um par de cartões de Natal. Algumas cartinhas são mais secas, sem mimo. Quanto ao pedido, há quem já especifique quanto quer – 20, 30, 40 dólares. Outros, mais recatados, preferem não sugerir montante e deixar a decisão ao bom grado do doador.

Fome 3Quem pede? A paleta é larga. Começa com grandes instituições como Unicef, Médicos sem Fronteira. Passa por ongs médias, daquelas que obram em favor de velhinhos, de enfermos, de incapacitados, de atletas desamparados, de dependentes químicos. E vai até pequenas e obscuras ongs. Tem até uma que, ano após ano, pede dinheiro para comprar livros para Ruanda. Imagino que a biblioteca já esteja alentada.

Entidades mais poderosas chegam a fazer anúncio por rádio e por televisão. Na rádio francesa, tenho ouvido diariamente o pedido de uma delas. Uma voz masculina dramática conta que acaba de chegar de uma viagem à Índia e ao Brasil, países onde foi testemunha de espetáculo triste de gente passando fome. Em seguida, dá as coordenadas para que cada ouvinte possa remeter seu dom.

Fome 5É constrangedor, mas a gente sabe que não é mentira. Nunca botei muita fé nesse partido que nos governa, mas imaginava que, como mínimo, os doze anos que passaram no comando fossem suficientes para erradicar a fome e a pobreza extrema. No entanto, continuamos a projetar ao mundo a imagem (verdadeira) de país faminto. Aos olhos dos estrangeiros, estamos em pé de igualdade com a Índia, veja você. Somos sócios do pouco invejável clube dos países onde se passa fome, onde disputamos lugar com a Etiópia, o Haiti, o Bangladesh.

E não me venham dizer que o saqueio da Petrobrás tem algo que ver com essa situação. Não tivesse sido surrupiado, o dinheiro da petroleira teria servido para outros fins, não para aplacar a fome dos desamparados.

Fome 4Por coincidência, saíram estes dias os resultado da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios. Diz lá que ¼ dos brasileiros ainda vive em estado de insegurança alimentar – são aqueles que não têm certeza de que vão ter suficiente pra comer no dia seguinte. Um em cada quatro, minha gente! Dentre eles, sete milhões de infelizes passam fome regularmente.

Fome 2É revoltante saber que, enquanto o pessoal do andar de cima assalta estatais em escala industrial, os humildes que os elegeram continuam descamisados, desdentados, desprezados, famintos. Pior que tudo: sem perspectiva de melhora.

No discurso em que festejou a reeleição, dona Dilma prometeu fazer melhor. Quem sabe vai dar um jeito de soerguer os desamparados, de dar-lhes um rumo na vida.

Você acredita? Nem eu.

Falam de nós – 3

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

A desgraça de uns…
Os danos causados pela seca que assola boa parte do território brasileiro não se resumem à falta d’água para consumo humano. A região cafeeira do Brasil, situada dentro da zona climaticamente perturbada, também se ressente do desregramento climático.

O Brasil é o maior produtor mundial de café. A safra 2014-2015 foi afetada pela ausência de chuva, fato que causou aumento de preço da rubiácea no mercado mundial. Prevê-se que a safra 2015-2016 vá pelo mesmo caminho.

Café 2Quem ganha com isso são os demais países produtores. Entre eles, a Etiópia – mencionada em reportagem do Portal RFI (Radio France Internationale). Este ano, as exportações etíopes cresceram 6% em volume e 34% em valor justamente devido à valorização advinda da raridade do produto.

A Etiópia agradece a São Pedro.

Interligne 28aPiscina com suástica
A propagação da notícia da piscina catarinense azulejada com suástica ecoou mais fortemente em dois países: Alemanha e Israel. É compreensível.

Tanto o jornal israelense Haaretz quanto o alemão Bild deram destaque à bizarra notícia. (Já comentamos o assunto no posto Símbolos horizontais.)

Interligne 28aRapina
A palavra, que significa roubo praticado com violência, é pouco utilizada no Brasil. Preferimos assalto. Tanto faz, o crime é o mesmo.

Assalto 1O Corriere Adriatico, jornal regional da Itália, traz a notícia do susto pelo qual passaram dois médicos italianos em visita ao Brasil. Tinham vindo participar do Congresso Mundial de Alergologia, no Rio de Janeiro. Um miniônibus, lotado com médicos italianos, foi assaltado, logo na chegada ao Rio, no caminho do aeroporto ao hotel. Assalto cinematográfico, com direito a arma apontada para a cabeça do motorista. O guia levou uma coronhada, e os médicos foram aliviados de seus pertences de valor – dinheiro, cartão de crédito, celular, relógio.

Benvenuti in Brasile!

Interligne 28aOlho vivo, chineses!
O Portal China Daily relata a formação que está sendo oferecida a representantes de companhias chinesas que tencionam se instalar no Brasil. Há muitas firmas na fila. Um grupo brasileiro especializado em aconselhamento de investidores estrangeiros está encarregado de informar e formar os principiantes.

Chinês 2Entre as dicas, os chineses aprendem que, no Brasil, o cipoal legal é denso. É imprescindível que todo contrato seja examinado por advogados e fiscalistas antes do jamegão.

Os potenciais investidores são também alertados para falsas promessas feitas pelos Estados. São incitados a tomar extremo cuidado com bondades do tipo terreno grátis, favores fiscais, aluguéis a preços de pai pra filho. Podem cair em cilada.

Interligne 28a

Frase do dia — 210

«Está diminuto o espaço para o governo continuar a negar desconhecimento total dos fatos. A menos que considere adequado dizer ao mundo que o Brasil é dirigido por gente que se deixa ludibriar por bandidos com grande facilidade.»

Dora Kramer, discorrendo sobre os recentes desdobramentos do assalto à Petrobrás. Artigo publicado pelo Estadão em 15 nov° 2014.

O lado Steve Jobs de Dilma

Elio Gáspari (*)

Na sua biografia de Steve Jobs, Walter Isaacson mostra que o gênio da Apple operava com um “campo de distorção da realidade”. Um sujeito trazia uma ideia, ele dizia que era estupidez, e dias depois anunciava que tivera uma grande ideia, a mesma. Se uma ideia dele acabava em encrenca, era de outro. Jobs lidava à sua maneira com a verdade.

Maçã 2A doutora Dilma não é nenhum Jobs, mas confirmou que opera com um campo de distorção da realidade. Ao mesmo tempo que seu governo anunciava ter aceito o pedido de licença de Sergio Machado, presidente da Transpetro, soltava a informação de que ele não voltaria ao cargo. Claro, o afastamento do doutor fora uma exigência da empresa que audita as contas da Petrobrás. Desde setembro, sabia-se que ele estava no catálogo de percentagens mostrado pelo “amigo Paulinho” ao Ministério Público. Em áudio, ele informou que recebera de Machado um capilé de R$ 500 mil.

É comum que se disfarcem os defenestramentos de hierarcas, mas a doutora exagerou. E não foi só nesse caso. Durante os debates da campanha, disse duas vezes que “Paulinho” tinha sido demitido da diretoria da Petrobrás. Falso. Ele renunciou e foi elogiado pelo ministro Guido Mantega na ata que registrou seu desligamento.

Maçã 1Dois outros episódios mostram que a doutora opera temerariamente no campo de distorção da realidade. Em 2009, o repórter Luiz Maklouf Carvalho revelou que, apesar de ser apresentada oficialmente como doutora em Economia pela Unicamp, ela nunca recebera o título, pois não concluíra o curso.

Em setembro passado, ela repetiu: “fui para a cadeia por crime de opinião”. A jovem Dilma Rousseff foi para a cadeia por ter pertencido a duas organizações envolvidas em atos terroristas. O Comando de Libertação Nacional, que ajudou a fundar, dizia em seu programa que “o terrorismo, como execução (nas cidades e nos campos) dos esbirros da reação, deverá obedecer a um rígido critério político”. Com esse cuidado, em 1968, antes do AI-5, mataram um major alemão pensando que fosse um capitão boliviano.

Maçã 3Steve Jobs adaptava a realidade, mas mexia apenas com os interesses dos acionistas da Apple. A doutora governa um país de 202 milhões de habitantes.

(*) Excerto de artigo de Elio Gáspari publicado no Jornal O Globo, 9 nov° 2014. Para ler na íntegra, clique aqui.

Frase do dia — 199

«Um profundo exame histórico pode começar, se o PT perder. Se vencer, será preciso concentrar a energia na vigilância cotidiana e preservar alguma esperança no Brasil.

Vitoriosos depois do assalto à Petrobrás, os petistas logo estariam sonhando com o assalto aos céus.»

Fernando Gabeira, jornalista, em sua coluna no Estadão de 24 out° 2014.

Fuite orchestrée

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Dei de cara com Sigismeno hoje, logo de manhã. Nem bom-dia me deu. Foi direto ao ponto.

Segredo 5«Que bela fuite orchestrée, hein?»

«Fuite orchestrée, Sigismeno? Você agora deu pra falar francês?»

«Ora, você sabe muito bem o que é isso. É um vazamento arquitetado e controlado, uma variante da conhecida arte de entregar os anéis para salvar os dedos.»

«De que vazamento você está falando, Sigismeno?» ― provoquei.

«Sabe que você às vezes me irrita? O Brasil inteiro não fala de outra coisa, e lá vem você dando uma de ingênuo. Estou falando do vazamento de segredos sobre as traquinagens de que a nossa Petrobrás tem sido vítima. E não foi vazamento de petróleo, não…»

«Ah, aquele caso do prisioneiro que resolveu dedurar metade dos políticos brasileiros pra escapar da seringa?»

«Esse mesmo. Coisa de bandido de segunda classe, já se vê.»

«De segunda? Alguém que tramou tanta negociata? Por que você diz isso?»

Segredo 3«De segunda, sim, senhor. Bandido que se preza não sai por aí delatando comparsa. Entre delinquentes de verdade, malfeitor que denuncia cúmplice não costuma continuar vivo muito tempo. A bandidagem tem seu código de honra, sabia? Pode parecer estranho para nós, mas costuma ser mais respeitado que a maltratada Constituição desta nossa República.»

«Mas a história da fuite orchestrée, Sigismeno, que é que você quis dizer com isso?»

«Pois é o seguinte. Os do andar de cima, quase todos envolvidos nessa trambicagem, levaram susto e tomaram medo pânico quando o político encarcerado se propôs a soltar a língua.»

«É compreensível, Sigismeno. Quem não deve não teme. Já esse pessoal…»

«Pois é. Quando o homem começou a abrir o bico, os comparsas devem ter criado um COC, quero dizer, um Centro de Operação de Crise. Precisava decidir que caminho seguir pra salvar o que ainda pudesse ser salvo.»

«É, Sigismeno, faz sentido. Como são muita gente, convém tomar atitude concertada pra evitar sair cada um correndo pra um lado diferente.»

Segredo 6«Essa gente, sabe como é, passa por cima de regras, instituições, rituais. Não devem ter tido dificuldade pra ter acesso à transcrição da confissão já feita pelo prisioneiro. Deram-se logo conta de que era veneno puro. Pior: mais cedo ou mais tarde, ia chegar ao conhecimento do público. Alguma atitude tinha de ser tomada pra diminuir o impacto.»

«Impacto, impacto… Ô, Sigismeno, como é que se amortece impacto dessa magnitude, homem?»

«Escolhendo o momento mais propício, meu caro. Analise comigo. Estamos a um mês das eleições. Se deixassem o processo seguir seu caminho, era bem capaz de as revelações aparecerem na reta final, uma semana antes do dia de votar. Já imaginou a catástrofe?»

«É, seria demolidor.»

«Pois então. Foi por isso que organizaram essa fuite orchestrée, esse vazamento planejado. Já que tinha de vir à luz, que viesse imediatamente. Pelo menos, sobrava tempo pra apagar o incêndio e acalmar ânimos antes do dia do voto, entende?»

«Mas não teria sido melhor abafar os ‘malfeitos’?»

by Cláudio Spritzer, desenhista gaúcho

by Cláudio Spritzer, desenhista gaúcho

«Não ia dar. O assalto é colossal. Tem muita gente sabendo. A meu ver, tomaram a atitude adequada. Rasgaram e drenaram o furúnculo antes que a infecção se alastrasse. Foi coisa feita no capricho.»

«Assim mesmo, Sigismeno, não vão evitar que o monumental roubo respingue negativamente na reeleição da atual presidente.»

«Vai respingar, não resta dúvida. Mas os danos serão menores do que se a revelação tivesse ocorrido nas vésperas do pleito. Para você e para mim, roubo é roubo. Não são algumas semanas ou alguns meses que vão nos fazer mudar de ideia. Mas a massa dos votantes é mais volúvel, funciona de outro modo.»

Segredo 4«Nossa, Sigismeno, então você acha que nem uma rapina de bilhões ― do nosso dinheiro! ― vai alterar a percepção que o povo brasileiro tem do andar de cima?»

«Pode até contribuir, mas não vai convencer todo o mundo. Ao contrário, muitos sentem inveja dos que estão se lambuzando com dinheiro alheio.»

«Seja como for, os repórteres que descobriram o cambalacho fizeram bom jornalismo, você não acha, Sigismeno?»

«Sem dúvida. Mas foram, digamos assim, ‘ajudados’…»

Pró-memória urgente

Carlos Maurício Mantiqueira

Aos que creem na vitória do bem contra o mal, eis aqui o manual.

Lembre aos políticos que eles também podem ser vítimas:

Interligne vertical 11ade uma queda – pior que a de viaduto feito às pressas;

de falta de socorro médico porque não há hospitais de qualidade;

de bala perdida no meio de um arrastão;

de depredação, sem aviso prévio, do local onde se encontram;

de sede provocada pela falta de planejamento das autoridades medíocres que permitiram a transformação de rios em esgotos a céu aberto.

Lembre aos juízes que eles também podem ser vítimas de assaltos, de invasões e de violências – incluindo outros arbítrios praticados pelo Estado. Se continuarem julgando contra a letra da Lei, eles deixarão a seus descendentes uma terra de ninguém, zona liberada ao apetite do poderoso de então.

Lembre aos jovens:

Interligne vertical 11aque um dia ficarão velhos;

que, se emigrarem, serão sempre estrangeiros em terra onde não têm raízes;

que tatuagem não sai;

que o álcool e as drogas os ajudam a morrer mais cedo.

Lembre aos banqueiros que são apenas parasitas: lucram emprestando, a juros altos e taxas absurdas, o dinheiro dos outros – não o deles.

Lembrem-se todos: os mais opulentos, corruptos e ladrões servirão de pasto a regimes justos, idealistas, não corrompíveis, que façam respeitar a autoridade.

Conselhos aos turistas

José Horta Manzano

Nos anos 90, a coisa fervia pelos lados da Península Balcânica. Entre sérvios, croatas, bosnianos, a convivência ficou explosiva. Muito guerrearam, muitos mataram, muitos morreram.

Mãos ao alto 1Se, na época, um hipotético viajante tivesse de aventurar-se por aquelas bandas, convinha seguir rigorosas regras de sobrevivência em regiões de conflito. Assim mesmo, por mais obediente que fosse nosso aventuroso turista, regra nenhuma poderia salvá-lo de um míssil ou uma bomba.

A Guerra dos Bálcãs acabou. Hoje, não só a Albânia é uma festa (dixit Jorge Amado), mas toda a península. A Albânia, por sinal, com seus 3 milhões de habitantes, recebe 3 milhões de visitantes a cada ano. A Croácia, país de 4 milhões de almas, acolhe incríveis 10 milhões de turistas! Manuais de sobrevivência saíram de moda.

Oficialmente, o Brasil não está em guerra ― pelo menos no papel. No entanto, a situação de conflagração civil que castiga o país e se agrava ano após ano causa efeitos iguais aos de um conflito tradicional. Talvez até piores.

Numa guerra, pelo menos, há um inimigo declarado, o que facilita sua identificação. Num estado de quase-guerra, como é o caso brasileiro, a ameaça é difusa. O inimigo não ataca necessariamente com bazuca. O leque de armas é mais sutil, bem sortido, traiçoeiro. A ameaça pode vir de onde menos se espera.

Mãos ao alto 2Não é à toa que a Croácia, cujo território ardia inóspito 20 anos atrás, acolhe hoje o dobro de turistas que acolhemos nós no Brasil. Tenha-se em mente que o pequeno país balcânico tem área equivalente à do Estado da Paraíba.

A Suécia não passou pelas eliminatórias e não conseguiu se classificar para a fase final da «Copa das copas». Assim mesmo, alguns apreciadores do esporte decidiram viajar ao Brasil para assistir a alguns jogos. Estive lendo, horrorizado, as recomendações que o governo sueco dá a seus ousados súditos que se estejam dirigindo a nosso paraíso tropical.

Aqui está uma seleção dessas advertências.

Interligne vertical 11cConselhos de segurança

* A vigilância é sua melhor defesa. Procure saber onde você se encontra e preste atenção a toda modificação súbita na composição do grupo. Fique sempre junto a seu grupo ― quanto mais gente, melhor.

* Mulheres não devem viajar sozinhas sob nenhum pretexto.

* Não use transporte público, especialmente depois de escurecer. Viaje somente em táxis munidos de taxímetro. À noite, se estiver sozinho, o melhor mesmo é evitar andar de táxi.

* Não passeie na praia após o pôr do sol. Evite todo e qualquer lugar pouco frequentado.

* Escolha um hotel seguro. Nunca abra a porta do quarto antes de saber quem está batendo. Em caso de dúvida, confirme por telefone com a portaria antes de abrir.

* Seja cauteloso ao comer ou beber em lugares muito frequentados. Nunca aceite comida ou bebida de estranhos.

* Estelionatos e engodos são comuns: seja vigilante se um estranho tentar atrair sua atenção ou distraí-lo.

* Deixe documentos originais no cofre do hotel. Carregue uma cópia, se necessário.

* Planeje com bastante folga traslados entre hotel e aeroporto. Certos percursos são mais arriscados que outros.

* Nunca ofereça resistência a criminoso armado. Guarde a calma e entregue, sem hesitação, seus pertences. Evite olhá-lo nos olhos.

* Não dirija. Se não houver outro jeito, siga as regras de proteção contra assaltos e sequestros.

* ‘Arrastões’ são uma forma local de crime. Uma gangue pode, por exemplo, bloquear uma rua, uma loja, um bar ou um restaurante e roubar todos os que ficarem encurralados.

Francamente, um guia para intrépidos viajores de malas prontas para Cabul, Bagdá ou Damasco não seria muito diferente. Ou não?

Dá uma vergonha…

Frase do dia — 102

«O bairro é seguro (sic). A incidência de roubos é muito pequena naquela região.»(*)

Marcio G. Murari, titular da DIG ― Delegacia de Investigações Gerais, ao relatar um assalto praticado na casa paroquial de Franca (SP), em que quatro padres foram rendidos por quatro assaltantes que lhes surrupiaram pertences, dinheiro, celulares e automóvel. As vítimas foram, ainda por cima, ameaçadas de morte pelo facínoras. In Folha de São Paulo, 11 fev° 2014.

(*) Fica-se aqui a imaginar como será viver num bairro inseguro.