Apostasia

José Horta Manzano

É de conhecimento público que o capitão que nos governa não costuma se comover com os sentimentos alheios. Dependesse dele, nunca se meteria num culto religioso, fosse de que natureza fosse. Nem igreja, nem templo, nem mesquita, nem sinagoga, nem terreiro. Seu modo de funcionar é conhecido: “Quem quiser, que vá. Eu já disse que não sou coveiro. Estou acima dessa ralé. Não vou me vacinar, e pronto!”.

O homem dificilmente confessará, de viva voz, que não está nem aí para o sentimento dos outros. Mas os seus feitos e gestos são explícitos e o condenam.

Em 12 de outubro, dia da Padroeira do Brasil, ele esteve em Aparecida. Por vontade própria, certamente não teria ido – não comparece nem a enterro de amigo, imagine só. Há de ter sido aconselhado.

Quando se mete nesses lugares, no entanto, sua falta de naturalidade salta aos olhos. Vê-se que o presidente está ali forçado, de cara amarrada, com medo de vaia (que, aliás, recebeu), receoso das palavras que o bispo vai dirigir aos fiéis. É a figura do peixe fora d’água, a imagem de quem está ali apenas pra cumprir tabela.

Diferentemente do camaleônico Lula, Bolsonaro é péssimo ator. Seus passos forçados produzem o efeito contrário ao que ele desejaria. A falta de naturalidade de quem não está habituado a frequentar esses lugares depõe contra ele. A visita a Aparecida chocou os evangélicos, assim como o batismo no Jordão chocou os católicos. Afinal, que pito toca esse homem? A tartufice do personagem fica evidente.

Para espanto de muita gente, o capitão ousou comungar. Terá sido (mal) aconselhado. Abalou cristãos e ateus. Quem se lembra das aulas de catecismo sabe que era impossível ele estar em condições de comungar. Vamos ver por quê.

Pra começar, que é a comunhão? No catolicismo, é o sinal público dado pelos irmãos de fé, aqueles que aceitam as imposições da religião. Ovelha desgarrada não tem direito a receber a comunhão, a não ser que se arrependa do desgarramento, confesse o pecado, renegue o descaminho e volte ao rebanho com a firme intenção de não voltar a se perder.

Todos sabem que o capitão, anos atrás, se fez batizar no âmbito de outra fé, num rito neopentecostal, com direito a mergulho nas águas do Rio Jordão, tudo testemunhado por fotografia. Não foi desvario de uma noite de verão. Faz pouco tempo, ele reafirmou seu pertencimento ao neopentecostalismo ao fazer-se abençoar, contrito e de joelhos, diante de um autossagrado bispo, dono de poder e muito dinheiro.

Para voltar à comunidade católica, ele teria de repudiar o (re)batismo do Jordão e renegar a fé que ostenta publicamente. Não o tendo feito, católico já não é. Não sendo católico, não tem direito a receber os sacramentos – entre eles, a comunhão. A excomunhão é o castigo reservado às ovelhas que se desgarram por decisão própria. Bolsonaro está excomungado. O que se viu em Aparecida, portanto, não passa de impostura. Esse indivíduo não pertence ao rebanho. Nos tempos de antigamente, não teria direito nem a uma sepultura na ala principal do cemitério; seria enterrado num puxadinho reservado aos suicidados e aos incréus.

A hipótese de ter se reconvertido às escondidas também não se sustenta. Ainda que o tivesse feito, teria de passar pela casa confessionário, que não há como escapar. Se tivesse contado ao sacerdote os horrores que vem cometendo desde que assumiu a Presidência, só teria recebido a absolvição depois de pagar a tarifa imposta pelo prelado.

Para gente normal, dois pai-nossos e três ave-marias resolvem o problema e põem o fiel de novo em estado de graça. Já com Bolsonaro, o caso é mais sério. Se ele contasse tudo o que tem feito, a penitência seria longa, mais longa que um dia sem comida. O capitão estaria até hoje dando volta a pé em torno dos palácios em que mora, terço na mão, a contar os passos e a recitar os milhares de pai-nossos que lhe teriam sido impostos como pedágio.

Tirando o dia em que foi filmado correndo atrás de uma ema com uma caixa de cloroquina na mão, ninguém jamais o viu dar voltas em torno do palácio. Tampouco consta que tenha enrolado um terço na mão direita a fim de contabilizar os pai-nossos. Portanto, não se confessou. Se se confessou, não contou todos os pecados. Se contou todos os pecados, não cumpriu a penitência. Em qualquer hipótese, não tinha o direito de comungar.

É caso de apostasia. Na Idade Média, seria mandado para a fogueira. Neste século 21, mais maneiro, vai espernear até o fim do mandato. No exato momento em que passar a faixa, perderá a imunidade e descerá a rampa para entrar direto no camburão que estará esperando por ele. Com destino à Papuda e sem o perdão da Padroeira. A danação terrestre e a celeste chegarão juntas.

Observação
Algo me diz que a visita do presidente a Aparecida mais botou pra correr que arrebanhou fiéis. O capitão perdeu mais do que ganhou. Melhor seria que não tivesse comparecido. Uma visita de cortesia ainda vá; mas… comungar? Não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo.

Romaria

A basílica de Santiago de Compostela

José Horta Manzano

Na tradição cristã, São Tiago Maior foi um dos doze apóstolos de Jesus, um dos mais chegados ao Mestre. Nasceu nas terras áridas da Palestina, região onde viria a ser martirizado com pouco mais de quarenta anos de idade. Conta a lenda que teria vivido alguns anos espalhando a nova fé na Hispania – a atual Espanha, então província romana. Morto o apóstolo, seguidores dedicados teriam carregado seus despojos para enterrá-los na região onde ele havia passado grande parte da vida e onde posteriormente se formou uma cidade que leva seu nome: Santiago de Compostela (Galiza, Espanha).

No centro da cidade, ergue-se monumental catedral onde estão custodiadas relíquias do santo. Faz mais de um milênio que a devoção por São Tiago é forte entre os cristãos europeus. Já na época de Carlos Magno, no século 9°, havia gente que se abalava de muito longe numa peregrinação que podia levar meses, para chegar à Galiza e recolher-se junto às relíquias do santo. Dirigentes europeus incentivavam essa devoção, principalmente numa época em que a expansão islâmica ameaçava o continente. Um povo coeso e aglutinado em torno da fé é poderosa arma para enfrentar invasões – já conjecturavam os antigos.

A tradição da visita ritual a Santiago de Compostela nunca esmoreceu. Até hoje, no século materialista em que vivemos, muitos e muitos romeiros(*) fazem a peregrinação. Há quem faça uma vez na vida, há quem aprecie refazer o percurso várias vezes. As estatísticas indicam a chegada de mais de 300 mil peregrinos todos os anos, metade deles vindos do estrangeiro. São espanhóis, portugueses, franceses, alemães, suíços, belgas. Pode-se cruzar até com algum inglês ou irlandês ou até com um polonês ou lituano.

Nem todos fazem o percurso inteirinho a pé, como manda a tradição medieval. Esse exercício de milhares de quilômetros na força das pernas não é pra qualquer um. Muitos, seja por falta de tempo, seja por impossibilidade física, percorrem a maior parte do caminho de carro. Em seguida, deixam o veículo e terminam o percurso com uma caminhada de 5km ou 10km, dependendo da disposição, do tempo e dos calos de cada um. Há também quem faça o percurso inteiro de bicicleta. Os romeiros são, na maioria, jovens – gente que está pelos vinte e poucos ou trinta e poucos anos.

Caminhos, há muitos, todos balizados. Há rotas que partem de longe – Alemanha, Áustria, Suíça, Inglaterra – mas todas atravessam necessariamente a França e, naturalmente, boa parte da Espanha. As estradinhas são caminhos vicinais, estreitos, por onde se consegue circular a pé ou de bicicleta. Pode-se ver, aqui e ali, algum veículo agrícola em seu trabalho habitual. Nada de automóveis, muito menos caminhões. As rotas são sinalizadas por placas que portam o símbolo dos Caminhos de Santiago.

Ao longo do percurso, há albergues simples, especializados no atendimento de peregrinos. Dotados de beliches, oferecem pousada em amplos dormitórios concebidos para várias pessoas. A refeição da noite é servida em mesas comunitárias. Tudo isso é proposto a preços módicos. As romarias se espalham pelo ano todo, com especial concentração de abril a outubro, os meses em que a temperatura não é tão baixa.

Para os que têm a intenção de caminhar somente os 5km ou 10km finais, há grandes áreas em que o automóvel pode ser estacionado durante vários dias gratuitamente. É a maneira que as autoridades encontraram para desafogar o tráfego na cidade de Santiago, que, não fosse isso, seria infernal.

Com espanto e tristeza, leio a notícia do atropelamento mortal de quase meia dúzia de romeiros que se dirigiam a Aparecida na semana que precedeu o 12 de outubro. Tirando os jornais regionais, o assunto mereceu duas linhas na imprensa. Tenho dificuldade em entender o descaso. Eram gente! Estavam viajando do jeito que podiam, uns a pé, outros de bicicleta, uns pra pagar promessa, outros por pura devoção. Nenhum deles estava ali pra exigir fechamento do Congresso nem do STF. Eram brasileiros – pobres, como a grande maioria.

Por que foram atropelados? Porque circulavam por uma via expressa, em dia de chuva e pouca visibilidade. E por que faziam essa loucura? Porque não tinham outra opção. Ou iam por ali, ou desistiam de pagar a promessa.

Desde que uma imagem de N. Sra. da Conceição, enegrecida por longo período de imersão, foi pescada no Rio Paraíba do Sul, 300 anos atrás, a devoção popular foi crescendo, ao ponto de a Igreja fazer dela a Padroeira do país. Formado nas cercanias, o arraial cresceu e hoje se chama Aparecida. Abriga atualmente a maior basílica do Brasil, uma das mais amplas do mundo, que há de ter custado verdadeira fortuna.

Só que os peregrinos que preferem (ou que são obrigados a) se locomover à antiga foram esquecidos. Talvez eu esteja desatualizado, mas nunca ouvi falar dos Caminhos de Aparecida, assim como todo católico europeu conhece os Caminhos de Santiago. Pela complexidade – concepção, obtenção de autorizações, revestimento de caminhos – somente o poder público é capaz de encampar essa obra. Devia haver não um, mas vários caminhos que levassem romeiros a Aparecida. Tinham de partir do Rio, de São Paulo, do sul de Minas, de Campinas.

Somos um país de poucas tradições. A Igreja e os governos estaduais da região deveriam se unir para fomentar e dar corpo a esse costume popular. Se essas peregrinações não se tornam mais concorridas é justamente porque não é qualquer um que está disposto a arriscar a vida de bicicleta na Via Dutra.

Viajar de ônibus e fazer o caminho a pé não são a mesma coisa. Uma via pedregosa leva mais rápido ao céu.

(*) Romeiro, em princípio, é palavra que designa o peregrino que vai a Roma. Mas é costume estender seu sentido para todos os que vêm de longe para uma visita ritual a um lugar santificado.

A máquina do tempo

Esta é do Sensacionalista, o caderno de humor do jornal O Globo. E a continuação do texto é estricnina pura.

“Quem é que disse que a ciência no Brasil está morta (por overdose de cloroquina) e enterrada (numa cova rasa porque os cemitérios estão lotados)?

O presidente Jair Bolsonaro é concorrente fortíssimo para o Nobel de Física de 2021. Ele assombrou a comunidade científica internacional ao fazer o país voltar no tempo em 30 anos.

E não foi só. A inflação voltou a níveis de 27 anos atrás. Em alguns lugares, o país retrocedeu séculos, até uma época em que se cozinhava à lenha, religiões mandavam na política e se morria de doenças para as quais havia vacina.”

A Cruz Vermelha e a pirataria informática

Emblemas oficiais da Cruz Vermelha Internacional – ano de introdução

José Horta Manzano

O emblema da Cruz Vermelha é coisa séria. Introduzido em 1864 e confirmado por sucessivas convenções internacionais, a conhecida cruz de cor vermelha inscrita num quadrado de cor branca nada mais é que a bandeira suíça com as cores invertidas. O conjunto guarda as mesmas proporções da bandeira. Sua função é identificar, em zonas de conflito, os serviços sanitários e os sacerdotes militares, que estão lá para ajudar a quem precisa, pouco importando a cor do uniforme dos feridos.

Visto que a Suíça tem se mantido tradicionalmente neutra em conflitos, a bandeira com as cores invertidas foi escolhida com o propósito de sublinhar a neutralidade da Cruz Vermelha. Tanto na guerra quanto na paz, a organização se abstém de tomar partido por este ou por aquele lado.

Além da cruz propriamente dita, também é reconhecida oficialmente a Meia-Lua Vermelha (ou Crescente Vermelho). Utiliza-se em países de cultura maometana, onde a cruz pode ser percebida como símbolo imperialista. Outras regiões do mundo tentaram obter autorização para diferentes símbolos, mas o Comitê Internacional da Cruz Vermelha enxergou ali um risco de indesejável banalização do emblema.

Para resolver o problema de países que não desejassem utilizar nem cruz, nem meia-lua, o Comitê Internacional criou, em 2005, um terceiro emblema: o Cristal Vermelho – símbolo sem conotação religiosa. Ele é muito pouco utilizado, quase todos optando pela cruz ou pela meia-lua. A exceção é Israel, que, dentro de seu território, usa a estrela de Davi; em operações internacionais, ostenta o Cristal Vermelho.

A pirataria informática é uma praga de nossos dias. Ataques cibernéticos ameaçam desde corporações gigantescas até pequenas empresas. O objetivo dos piratas atuais (em português, hackers) é tão torpe quanto o de seus predecessores de três séculos atrás: chantagear as vítimas ao ameaçar de divulgar os dados surrupiados, na intenção de extorquir-lhes importantes somas em dinheiro. É moderna versão do antigo “A bolsa ou a vida!”. Ninguém está a salvo, nem mesmo o solitário indivíduo que trabalha diante de seu computador.

À vista disso, o Movimento Internacional da Cruz Vermelha, sediado em Genebra, está preocupado. Desde meados do século 19, a organização cresceu e está hoje estabelecida em praticamente todos os países do globo. Já vão longe os tempos em que sua ação se limitava a cuidar de feridos nas batalhas. Seu raio de ação abrange hoje não somente socorros urgentes prestados sob o fogo dos canhões, mas cuidam também de minorar o sofrimento dos que sobrevivem aos conflitos.

Cuidam com especial atenção das populações mais carentes, fornecendo próteses para amputados (mãos, braços, pés), serviços hospitalares, banco de sangue. Têm também programas de combate a endemias e epidemias, prevenção de propagação de doenças infecciosas em países miseráveis, amparo à maternidade, à miséria e à velhice, ajuda em caso de catástrofes naturais – enfim um grande volume de ajuda aos que precisam.

Essas atividades fazem que a Cruz Vermelha detenha dados pessoais de boa parte daqueles que recebem algum tipo de ajuda, o que significa um montão de gente. O comitê central está em pleno trabalho de reflexão sobre a melhor maneira de proteger todos esses indivíduos contra eventual exposição de seus dados pessoais provocada por algum crapuloso ataque cibernético.

Para isso, várias soluções estão sendo estudadas, entre elas, a criação de uma “Cruz Vermelha virtual”, ou seja, um marcador informático que pudesse agir como a cruz estampada nas ambulâncias que transportam feridos em campo de batalha. Buscam algo que fizesse saber a um eventual hacker que ele está a ponto de ultrapassar o limite de um território protegido e inviolável.

Considerando a enormidade das ramificações com que conta a Cruz Vermelha, o trabalho é gigantesco. Se estão fazendo isso, é porque ainda acreditam que um pirata, por mais pirata que seja, tira o chapéu quando entra na igreja. Em outras palavras: respeita o que tem de ser respeitado. Afinal, o emblema da cruz vermelha e o da meia-lua vermelha indicam aquilo que não deve ser violado.

Sabendo que, no Brasil, bandidos assaltam hospital, invadem delegacia, roubam merenda escolar e afanam placa de túmulo, fico com um pé atrás. Desejo pleno sucesso ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha, mas acredito que, na escala de valores da bandidagem, a ganância fala mais alto que a ética.

Somos todos migrantes

Eduardo Affonso (*)

Existimos porque o Homo sapiens deixou a África e ganhou o mundo. Não havia, então, postos de fronteira, fossos, muros, passaportes. O ser humano circulava como ainda hoje fazem as outras espécies. Seguia adiante porque via um horizonte, e uma alternativa além dele.

Chegamos a novos continentes, movidos pelas mesmas esperanças com que hoje milhares de refugiados se lançam ao Mediterrâneo, cruzam a selva, atravessam rios e desertos: para sobreviver, escapar à dor, reconstruir a vida.

Fugimos – toda migração é fuga – das cheias e da escassez, do fogo e do frio, da falta de perspectivas, da intolerância.

E, ainda assim, migrantes congênitos, demos de inventar barreiras, fronteiras e privilégios. De nos julgar senhores de uma terra prometida por nós a nós mesmos. Uma terra que acreditamos nossa apenas por havermos migrado antes dos que querem migrar agora. Ou – pior – depois de haver expulsado (ou exterminado) os que aqui estavam antes de chegarmos.

(Minha bisavó atravessou o Atlântico, grávida, num navio. Os sobrenomes que carrego no sangue – Raposo, Medeiros, Magalhães, Souza, Silva, Costa, Coelho, Carvalho, Lopes, Faria, Vianna, Leal, Jacó – contam a história de muitos adeuses, embarques, chegadas, recomeços.)

Quantos de nós não pensaram em refazer a vida num país mais decente, para escapar à crise sem fim engendrada pela cleptocracia a que estivemos submetidos por mais de uma década ou pelos necromilicianos de agora? Como não nos solidarizarmos com os que se cansaram de viver à míngua sob o “socialismo do século XXI” e se arriscam em balsas pelo Caribe ou a pé através da Amazônia? Os que tentam escapar do fundamentalismo dos talibãs ou querem deixar de ser reféns da miséria atávica do Haiti?

Volta e meia uma imagem traduz essa tragédia. O pequeno sírio-curdo Aylan, de bruços e já sem vida numa praia da Turquia. O contêiner repleto de cadáveres de chineses, abandonado na Inglaterra. O bebê passado de mão em mão até a cerca de arame farpado do aeroporto de Cabul. O agente de fronteira dos Estados Unidos – branco, a cavalo – tentando capturar o homem negro que entrara ilegalmente no Texas. E há as manchetes que nos deixam sem palavras: “Brasileira morre de fome e sede na travessia da fronteira entre México e EUA”.

Ela se chamava Lenilda. Era técnica em enfermagem. Saíra de Vale do Paraíso, Rondônia. Deixou um país construído por estrangeiros (99,5% dos brasileiros descendem de imigrantes) e decidiu seguir para onde os descendentes de estrangeiros correspondem a 98,5% da população. Ficou – como Aylan, como milhares – pelo caminho.

O imigrante traz sua força de trabalho e gera riqueza cultural e material. Acolhê-lo é um caso típico de altruísmo recíproco, um processo de cooperação em que todos saem ganhando. A alternativa à imigração não é impor obstáculos, mas investir em melhores condições de vida em seus países de origem – seja o Haiti, a Síria, a Venezuela, o Brasil. Jamais a humilhação, o abandono.

Somos todos descendentes do primeiro africano que migrou. Somos todos aquele bebê afegão, aquele haitiano que foge do homem a cavalo. Somos todos Lenilda. Todos, sem exceção.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Eletricidade

Independência energética – 1
Faz uma semana, foi inaugurado o mais longo cabo submarino de transmissão de eletricidade. Com seus 720km de comprimento, liga a Grã-Bretanha à Noruega, e custou uma fortuna. Segundo o anúncio oficial, “os dois reinos podem, a partir de agora, compartilhar suas energias renováveis”.

Num momento em que o preço mundial do gás está nas alturas, a novidade é bem-vinda. A troca de eletricidade funciona de modo singular. Quando venta forte na Inglaterra (país onde o que não falta é vento), as turbinas eólicas giram a todo vapor. Nessas horas, a produção de eletricidade é superior ao consumo. Como ensinou doutora Dilma, não é possível estocar vento. Nessas horas de superprodução, o cabo serve para exportar eletricidade para a Noruega a preços de liquidação. Na Noruega não venta tanto.

Enquanto consome a eletricidade inglesa, a Noruega deixa que a chuva e o derretimento da neve encham suas barragens. Assim que estão cheias e de novo prontas para produzir energia, é hora de fazer o caminho inverso. O excesso vai, pelo mesmo cabo, para a Grã-Bretanha, levando força e luz a precinho camarada. Na Grã-Bretanha, a topografia não permite a construção de barragens importantes.

O sistema é um achado. É daquele tipo de ideia que a gente se pergunta por que não pensaram antes.

 

 

Independência energética – 2
Na semana que passou, foi inaugurado o maior parque solar do estado de São Paulo. Construído por uma empresa de origem portuguesa, é o quinto entre os maiores parques brasileiros. Situado às margens do Rio Tietê, no oeste do estado, necessitou investimento de 750 milhões de reais e gera energia suficiente para suprir as necessidades de 750 mil pessoas.

Fazendo as contas, dá 1000 reais por habitante. É uma quantia que, no final, não me parece elevada, tendo em vista os benefícios. Se, por hipótese, se decidisse produzir energia solar suficiente para os 200 milhões de brasileiros, seria necessário investir 200 bilhões de reais – o que não me parece exagerado. (Com os bilhões constantemente surrupiados do Tesouro Nacional, daria pra cobrir o território nacional de parques solares. Rapidinho.)

É claro que meu devaneio é teórico, pois há que pensar ainda na transmissão da energia gerada. Há que lembrar ainda que, na hora de consumir energia, certas indústrias são bem mais gulosas. Por seu lado, não se pode esquecer que já existe uma rede instalada de produção de eletricidade.

Tendo em mente que gás e petróleo são fontes de energia fadadas a sumir do cardápio dentro em breve, está mais que na hora de decidir o caminho a seguir quando a energia fóssil estiver aposentada.

Em teoria, o Brasil é um país que não precisava usar nem uma gota de petróleo nem de gás. Para extrair energia solar, temos sol o ano inteiro – o que nem sempre ocorre em outros lugares.

Quanto à água, se sobrar alguma depois que Bolsonaro passar, poderemos continuar explorando a energia hidroelétrica.

Embora não possa ser estocado (Doutora Dilma dixit), temos muito vento. Não dá pra guardar vento no bolso, mas dá pra conservar energia em baterias, por exemplo.

Nosso país tem tudo o que precisa pra abandonar toda fonte de energia fóssil. Tenho certeza de que o caminho é esse. Por enquanto, está um pouco complicado, mas assim que o capitão desaparecer e deixar de atrapalhar, vamos dar passos largos na boa direção.

Apagando o passado

José Horta Manzano

Até 6 de outubro, havia na cidade de São Paulo uma avenida quilométrica, cujo nome era compartilhado por dois ilustres membros da família Andrade. O primeiro trecho da via homenageava o escritor Mário de Andrade, enquanto o segundo lembrava o homem político Auro S. de Moura Andrade.

Mário, o Andrade escritor, não teve vida longa: foram somente 51 anos, de 1893 a 1945. Já Auro, o Andrade político, ficou uns anos a mais neste vale de lágrimas: viveu 66 anos, de 1915 a 1982. Mário tinha idade pra ser pai de Auro, pois nasceu 22 anos antes, o que significa que não conheceram o mesmo Brasil. É complicado comparar a vivência de cada um deles.

A cidade de São Paulo conta com mais de 50 mil logradouros, contando ruas, praças, avenidas, becos, ruelas & assemelhados. Todos os meses, são feitos novos arruamentos, e novos nomes têm de ser encontrados. Cabe aos senhores vereadores essa árdua incumbência. Só que eles nem sempre se restringem a nomear as vias que acabam de ser abertas. Seguindo o Zeitgeist (=espírito do tempo), preocupam-se também em corrigir tudo o que lhes aparece como “injustiça” ou como “erro histórico”. Apagam, assim, trechos inteiros de um passado que a maioria deles, aliás só conhece de ouvir falar. Fico pensando se conhecem mesmo…

Dia 7 de outubro, entrou em vigor uma lei que corrige um desses “erros”. O trecho da rua comprida que levava o nome de Auro (o político) perde o direito à antiga denominação. Passa a levar o nome de Mário (o escritor). Como resultado, Auro some do mapa e Mário fica com todos os quilômetros para ele. Isso implicará em repensar a numeração de cada imóvel (há muitíssimos prédios altos), um problema que vai aporrinhar os moradores. Mas a vereança não se comove com essas minúcias – afinal, estão ali para dar nome às ruas, não para resolver problemas dos eleitores, que diabo! De todo modo, não são eles que vão sentir o drama.

O motivo dessa mudança? Os edis ouviram dizer que doutor Auro de Moura Andrade teria “apoiado” o regime militar, enquanto doutor Mário de Andrade, não. É claro que Mário de Andrade não podia ter apoiado o regime. Há um anacronismo: ele já tinha falecido 19 anos antes do chacoalhão de 1964. Ninguém tem o direito de afirmar se o escritor teria “apoiado” ou não o movimento. Os vereadores parecem tomar como favas contadas que ele o teria reprovado. Não tenho tanta certeza.

Para quem não viveu aqueles dias, é bom dizer: o golpe de 1964 derrubou o presidente, mas não instaurou ditadura. Muita gente fina ficou do lado dos insurgentes – inclusive jornais sérios, como o Estadão. A verdadeira ditadura foi-se instalando aos poucos, com a supressão de eleições já marcadas, até que o golpe de misericórdia foi desferido com o AI-5, ao final de 1968. Nessas alturas, muitos dos que haviam apoiado o movimento já se haviam dessolidarizado. De qualquer maneira, não havia nada a fazer.

O senador Andrade não foi mais apoiador do regime militar do que grande parte dos políticos de sua época. Gente bem mais entusiasta que ele ainda continua tendo seu nome estampado em placa de rua de São Paulo. O exemplo maior é Paulo Maluf, atualmente em prisão domiciliar por ter usado suas offshores para esconder as centenas de milhões de dólares dos contribuintes que ele havia roubado.

Maluf, que foi notório lambe-botas dos militares, ainda conta com homenagem familiar. Seu pai, Salim Farah Maluf, ainda dá nome a três logradouros: uma rua, uma praça e uma avenida. E tem mais. Um complexo viário leva o nome de Maria Maluf, mãe de Paulo Maluf. A denominação do complexo foi oficializada por decreto de 1995, emitido na época em que – veja a coincidência! – o filho era prefeito da cidade.

Uma curiosidade picante: o Complexo Viário Maria Maluf termina no Viaduto Aliomar Baleeiro, figurão que se beneficiou como poucos do regime ditatorial. De fato, o baiano Baleeiro foi nomeado para o STF pelo presidente Castello Branco. Entrou numa vaga aberta pelo AI-2, quando meia dúzia de ministros em exercício foram demitidos e tiveram de ceder o lugar para outros mais dóceis. Não há previsão de que o viaduto que homenageia Baleeiro vá mudar de nome.

Pandora Papers

José Horta Manzano

Este blogueiro nunca foi dono nem associado de nenhuma empresa fantasma, dessas situadas em paraísos fiscais, que levam o simpático e sugestivo nome de “companhias offshore”. O motivo não é político, nem legal, nem moral; é simplesmente de ordem financeira: nunca possuí quantidade de dinheiro suficiente para justificar essa manobra.

O que acabo de dizer não tem nada de original. Sem precisar consultar nenhum levantamento estatístico, eu diria que 99,9999999% da humanidade está no mesmo caso. Se não abrem esse tipo de empresa, é porque não têm dinheiro pra fazê-lo. Simples, não?

Por seu lado, um bocado de gente tem as burras(*) abarrotadas e está em condições de abrir uma offshorezinha, nem que seja uma pequenina pra começar. Desde que a origem dos haveres seja lícita e os preceitos legais tenham sido cumpridos – impostos em dia, declaração à receita federal em ordem e transferência ao exterior dentro dos conformes – não vejo onde está o problema.

Na China, que alguns ainda acreditam ser um “perigoso país comunista”, é permitido guardar dinheiro em moeda estrangeira; os cidadãos são também autorizados a manter conta no exterior. Se o perigoso comunista chinês pode, por que não poderíamos nós?

Nestes dias em que se tornou público o “escândalo” dos ditos Pandora Papers, o assunto está em todas as bocas. No regime capitalista em que vivemos, a posse de bens, em si, não é condenável. A corrupção e a fraude fiscal, sim. Nenhum cidadão será perseguido por ser mais abastado que outro, desde que não haja infringido a legislação.

Ao esmiuçar a lista de figurões que possuem uma companhia offshore, o jornal argentino Página 12 encontrou uma concentração de titulares originários das Américas. Só da América Latina, aparecem três presidentes em exercício, 11 ex-presidentes, ministros e altos funcionários entre os felizes proprietários dessas empresas de fachada.

A meu ver, são bem mais numerosos. Acredito que todos os ex-presidentes e seus ministros poderiam ser incluídos na lista. Assim como (praticamente todos os) parlamentares atuais e passados. Só que aí já estamos falando de outro departamento: o da fortuna obtida através de peculato & outros trambiques com nosso dinheiro. Estamos falando de roubo, crime que tem de ser tratado conforme as leis penais.

Se a lista contém uma penca de nomes latino-americanos, a razão é a desconfiança para com os rumos que a economia nacional pode tomar. Nossos países são instáveis, e qualquer mudança de governo pode causar uma catástrofe econômica como a que vemos atualmente no Brasil. Em outras partes do mundo, a economia é mais estável e previsível. Para o rico latino-americano, manter dinheiro fora do país aumenta a segurança do investimento.

Dois figurões nacionais integram os Pandora Papers: o ministro da Economia e o presidente do Banco Central. Juram ambos que a fortuna tinha sido obtida antes de assumirem o cargo e que estava declarada à Receita Federal. Se for verdade, o caso é menos grave, mas ainda assim não totalmente límpido. Resta a questão do conflito de interesses.

Dado que ambos têm o poder, deixando escapar um simples vazamento, por exemplo, de balançar a relação dólar x real, há sempre o risco de, em algum momento, terem agido (ou virem a agir) em causa própria. Pra evitar isso, tinham de ter extinto a(s) respectiva(s) offshore(s) ao assumir o cargo. Não o fizeram. Eis por que estão agora no olho do furacão.

Que o distinto leitor não se deixe impressionar. Há crimes de colarinho branco bem mais escabrosos na República. Nosso dinheiro é diariamente roubado, escamoteado, desviado, surrupiado, encurtado, até enfiado nalgum lugar inominável. Desaparece sob denominações inocentes do tipo “jabuti”, “emenda individual”, “verba de contingência”, “orçamento secreto”. O pessoal do andar de cima é muito criativo na hora de encontrar nomes que soam inocentes.

Sorria, você está sendo permanentemente roubado. E não reclame, se não vai ser pior.

(*) Burra, aqui, não é a fêmea do burro. É termo antigo, pouco utilizado atualmente, que indica uma caixa onde se guardavam preciosidades tais como ouro e pedras preciosas. Parece ter sido usado por analogia ao burro (animal), obrigado a transportar aquele peso no lombo.

“Terapias de conversão”

José Horta Manzano

Talvez eu esteja enganado, mas acredito que, no Brasil, o Código Penal ainda não prevê artigo específico para o crime de forçar um indivíduo a mudar sua orientação sexual. Estou me referindo a supostos “terapeutas”, que agem geralmente no universo neopentecostal – mas não só.

Em primeira leitura, a Assembleia Nacional da França adotou nesta terça-feira 5 de outubro um projeto de lei que oficializa a proibição de pseudoterapias “de conversão”, esse tipo de prática que visa a impor a heterosexualidade a pessoas lésbicas, gays, bi e trans (LGBT).

Os parlamentares franceses aprovaram o texto por unanimidade, mostrando que a questão está acima de toda política partidária ou eleitoreira. Foi um desses raros momentos em que uma proposta conseguiu a façanha de unir todo o tabuleiro político, todos integralmente de acordo. É admirável.

Votado em primeira leitura na Assembleia, o texto está sendo agora encaminhado ao Senado. O Código Penal passará a contar com uma infração específica para o crime cometido por autodenominados “terapeutas” que pretendem “curar” os homossexuais e trazê-los de volta ao bom caminho. A pena para os contraventores será de dois anos de prisão, cumulados com multa 30 mil euros (cerca de 200 mil reais).

A classe política francesa se dá as mãos quando percebe alguma ameaça de o país deslizar para o terreno pantanoso em que política e crenças religiosas se misturam. Não pretendem deixar que o país se torne uma teocracia. Nem mesmo uma quase-teocracia, como há tantas pelo mundo.

No Brasil, nem o povo nem os políticos parecem se dar conta desse tremendo perigo. A existência de uma “bancada evangélica” no Parlamento não assusta ninguém. No entanto, deveria assustar. É um primeiro passo para a transformação de nossa República laica em Estado religioso.

Com o capitão que ocupa a Presidência, nossa mistura de política com crenças religiosas está sendo potencializada com fortes doses de ignorância. Neste momento, o risco de escorregarmos para uma semiteocracia está elevado ao quadrado.

It’s the economy, stupid!

José Horta Manzano

A frase foi pronunciada 30 anos atrás, por James Carville, então estrategista da campanha presidencial de Bill Clinton. Que, por sinal, venceria o páreo.

No original, era The economy, stupid! – A economia, imbecil!”. Com o tempo, cristalizou-se como “It’s the economy, stupid!”. O sentido original ficou levemente alterado, mas a frase ganhou uma dobradiça que lhe permite grande flexibilidade de aplicação.

Foi uma ordem dada aos integrantes da equipe de campanha sobre um ponto que eles não podiam esquecer nunca. Tinham absolutamente de ter sempre em mente as possíveis implicações econômicas ao fazer sugestões ou escrever discursos para o candidato.

De lá pra cá, a expressão virou clichê. Volta e meia, ressurge, mesmo em assuntos que nada têm a ver com economia. É o que me ocorre hoje.

Ontem, um planeta aturdido pererecou pela falta de Facebook, Instagram, Whatsapp & companhia, todos fora do ar. Durante as horas que o apagão durou, usuários atônitos se perguntavam o que teria acontecido.

Acanhada e atrasada, chegou a explicação dos donos do negócio. Cito um trecho do comunicado oficial:

“The six-hour outage across our platforms including Instagram, Messenger, Whatsapp, and OculusVR were caused by configuration changes to the routers which coordinate network traffic between the company’s data centers.”

O blá-blá-blá, torcido feito alambique, explica que a causa da pane são “mudanças na configuração dos roteadores que coordenam o tráfego entre os centros de dados da companhia”.

O mundo todo aceitou a justificativa tal como veio. A culpa cabe, portanto, às mudanças de configuração. Encontrado o culpado, estamos entendidos e não se fala mais nisso.

Acontece que essas “mudanças” não caíram do céu, nem foram introduzidas por um anjo mau. Elas foram feitas por mãos humanas, que trabalharam coadjuvadas por cabeças humanas. Portanto, a origem da pane é nada mais, nada menos, que erro humano.

Como é difícil admitir um erro, não é verdade? Aqui vale utilizar o clichê da campanha de Clinton: It’s human failure, stupid! – É erro humano, imbecil!”.

Não sei quem é mais imbecil nessa história, quem pronunciou a meia verdade ou quem a engoliu sem mastigar.

Desmatamento

com Informações do jornalista Lauro Jardim, O Globo

O Brasil entrou na edição de 2022 do livro de recordes do Guiness como o país com a maior perda de floresta primária tropical da série histórica do Global Forest Watch, instituto especializado na observação da cobertura vegetal do planeta.

Entre 2002 e 2019, a perda foi de 24,5 milhões de hectares, ou seja, 7,1% da floresta primária(*) total que restava no país em 2001.

(*)Floresta primária é a cobertura originária, aquela que nunca foi tocada por atividades humanas. Apresenta alto grau de diversidade biológica, tanto na fauna quanto na flora.

Floresta secundária é aquela que, tendo sido usada durante algum tempo para agricultura ou pastoreio, foi abandonada, permitindo que o mato voltasse a crescer. É sempre melhor que um deserto, mas jamais voltará a contar com a mesma diversidade de vida animal e vegetal da cobertura originária.

Devo ter perdido um capítulo

José Horta Manzano

Faz tempo que cogito sobre as razões que levam nosso impagável capitão ao negacionismo. Louco, a gente sabe que ele é; mas ninguém ainda o viu babando. Portanto, uma réstia de razão deve ter sobrado naquela cachola.

Posso entender a atitude dos que o seguem – comportam-se tipicamente como maria vai com as outras; quem age assim, simplesmente executa o que seu mestre mandar e pronto. Mas tenho dificuldade em captar o real objetivo de Bolsonaro. Afinal, seu mestre é ele mesmo! Ou não seria?

No começo da pandemia, muita gente (que hoje faz de conta que estava cochilando) também imaginou que a covid ia desaparecer tão rápido como chegou. Alguns, famosos, chegaram a dar entrevista afirmando que o Brasil chegaria a 2 mil mortos, não mais. Até aí, dá pra entender.

Acontece que tempo passou, mais tempo passou, muito tempo passou. Chegamos a 600 mil mortos, que não tem como esconder. Milhares e milhares de empresas fecharam. Milhões perderam o emprego. E o capitão continua negando a realidade!

Ainda outro dia, em “discurso” pronunciado na ONU, voltou a bater o pé ao receitar remédios perigosos para a saúde de quem já estiver doente de covid. Como se não bastasse, proclamou aos quatro ventos que ele, pessoalmente, não estava vacinado e que não tinha intenção de espichar o braço.

Portanto, além do medo da agulha, alguma razão há de haver. Só que essa razão me escapa. Se alguém tiver alguma ideia, mande cartas para a redação. Agradeço desde já.

Observação
Na mesma cartinha, se puder, me dê sua versão das razões que levaram (ainda levam?) a empresa de “saúde” Prevent Senior a tomar pacientes de covid como cobaias sem consentimento (nem do doente, nem da família). Por que razão administraram (ainda administram?) medicamentos nocivos à saúde? A intenção era acelerar a agonia dos infelizes que já estavam dando mais despesa que lucro, liberando assim o leito para o próximo coitado? E por que razão omitiram (ainda omitem?) o nome da covid ao estabelecer atestado de óbito?

Não mandem cartas demais, porque, neste país, a jurisprudência ensina que réus podem até ser inocentados por excesso de provas. Já aconteceu.

A história se repete

José Horta Manzano

O general João Baptista de Oliveira Figueiredo presidiu o Brasil durante exatos 6 anos, de 1979 a 1985. Foi o último presidente do período militar. Conhecido por seu falar franco, era um tipo sem papas na língua.

Apesar disso, que fique bem claro, não chegava nem perto da vulgaridade nem do linguajar chulo do capitão que ocupa hoje o mesmo cargo. Comparado a Bolsonaro, Figueiredo era um fidalgo. Não privei da intimidade do presidente, mas tenho certeza de que, na presença de dona Dulce, sua mulher, ele não soltava os palavrões que Bolsonaro solta diante de qualquer um, para um Brasil enojado ouvir.

Naquele começo da década de 1980, o regime já começava a amansar. A censura estava afrouxada. Os exilados retornavam. Não havia mais presos políticos. O sol começava a despontar no horizonte. Pois foi justamente nesse período cheio de promessas que o general sofreu um infarto.

Os brasileiros, habituados a tramas e golpes urdidos nos círculos do poder, ficaram ressabiados. Com um Figueiredo impossibilitado de presidir, como é que ficaria? Quem tomaria seu lugar? E a abertura democrática – continuaria ou não?

Bem ou mal, o presidente se recuperou do ataque. Mas não completamente. Naquela época, a medicina no Brasil estava defasada com relação a países mais adiantados. Ricos e poderosos, quando gravemente enfermos, procuravam ajuda médica no exterior.

Em 1983, dado que os problemas cardíacos do general continuavam incomodando, ele decidiu tratar-se nos EUA. Foi internado numa clínica de Cleveland, onde lhe implantaram duas pontes (nome que muitos aportuguesam para “bypass”, bem mais chique), uma de safena e outra de mamária. Depois da intervenção, com seu linguajar pouco aveludado, Figueiredo chegou a comentar que se sentia “como um peru de Natal, todo costurado”.

De lá pra cá, o Brasil avançou muito nas ciências médicas. Hoje em dia, é raro alguém procurar tratamento no exterior, seja para uma simples vacina, seja para cirurgias complexas. Em geral, os bons hospitais nacionais estão capacitados para atender a todos os casos.

Bem, nem todos os cidadãos seguem as mesmas regras. Há os que estão (ou imaginam estar) por cima da carne seca, como se diz. Quarenta anos depois dos problemas coronários de Figueiredo, a atual primeira-dama deu o ar de sua graça nesse palco iluminado.

Como todos ficaram sabendo, Madame Bolsonaro decidiu estender o braço para ser vacinada contra a covid justamente durante uma breve estada em Nova York. Por que razão fez isso? Por que repudiou a vacina daqui? É difícil saber.

Podia até ter guardado silêncio, que ninguém teria jamais descoberto. Mas o marido, linguarudo, dedurou numa entrevista. O que ele pretendia reafirmar é que ele, pessoalmente, não tinha tomado vacina, não estava tomando e não tinha a menor intenção de tomar. O nome da primeira-dama entrou na conversa assim como Pilatos entrou no Padre-Nosso: era pra ser uma citação dita “en passant”, mas foi o que marcou a fala.

O resumo da novela ficou feio, até para os padrões bolsonáricos. O presidente confessou, sem se dar conta, que não manda nem em casa. Não tem voz ativa. Embora continue remando contra a corrente e batendo o pé na sua estúpida convicção antivax, a mulher se vacinou. Os filhos também estenderam o braço para a picada anticovid. Isso prova que seus conselhos não são seguidos nem pela família, que dirá pelo resto da nação.

Malandragens universais

José Horta Manzano

Pensa que malandragem é genuína especificidade tupiniquim? Não é. É artigo abundante em todas as prateleiras do planeta.

Por um conjunto de razões que não interessa aqui listar, o preço do gás e dos derivados de petróleo tem subido rapidamente. No mundo todo, não só no Brasil. Se isso é bom para alguns, é péssimo para grande parte da humanidade.

No Brasil, dia sim outro também, o capitão esbraveja contra esse estado de coisas que solapa as poucas chances que tem de ser reeleito. Esbraveja, mas não faz nada. Ou porque não sabe, ou porque não pode.

Na França, onde muita gente cozinha e se aquece com gás, a situação é semelhante. Lá também, a eleição presidencial será em 2022, exatamente dia 10 de abril.

A subida dos preços incomoda o presidente Macron, que gostaria de ser reeleito. Para evitar uma nova onda de contestação dos “coletes amarelos” e assim conservar todas as chances de reeleição, mandou bloquear os preços do gás até… abril de 2022 – exatamente o mês das eleições.

Depois, o povo que se prepare: o aumento será violento.

Ucranização do Brasil

José Horta Manzano


Bem depois do triste 7 de setembro, fanáticos de extrema-direita continuaram acampados por bom tempo em Brasília. A ideia fixa deles é a de sempre: preparar uma “faxina geral para pôr fim à corja maldita da República”. Na visão dessa gente, a “corja maldita” está integrada pelos magistrados do STF e pelos parlamentares eleitos pelo povo. Em resumo, “malditos” são todos os que não dizem amém aos caprichos do capitão.

Quando acampados, usaram várias vezes a expressão “vamos ucranizar o Brasil!”. Essa gente feroz gosta de utilizar esse mote. Como diria minha avó, ouviram cantar o galo, mas não sabem onde é a missa. Típicos representantes de uma geração que não lê nem aprende, contentam-se com as duas primeiras linhas de um tuíte qualquer, sem buscar saber os comos e os porquês das coisas. Deve ter sido assim que aprenderam a repetir essa bobagem. Ou então, pior ainda, sabem o que aconteceu por lá, mas omitem o fim da novela, pra ficar mais bonito. Isso já é pesada desonestidade intelectual – o que não é espantoso vindo de quem vem.

“Ucranizar o Brasil” é expressão pra lá de inapropriada. Sofrer o mesmo destino da Ucrânia é desgraça que ninguém – repito, ninguém, nem os mais incendiários – desejam para o próprio país. Sem ter a pretensão de escrever um tratado sobre os problemas da Ucrânia, dou abaixo algumas pinceladas, para o caso de alguém estar interessado em conhecer ou recordar.


Após a queda do Muro de Berlim (1989) e a desintegração da União Soviética, que veio pouco depois, a vontade maior dos povos que orbitavam em volta do império russo era livrar-se definitivamente do perigo de, um dia, ser de novo aspirados e tragados pelo temível vizinho.

As repúblicas ex-soviéticas situadas na Ásia não tiveram escolha. Afastar-se da Rússia significava jogar-se nos braços da China ou da Índia, os grandes vizinhos mais próximos. Não era bom negócio. Sem escolha, continuam até hoje na órbita do Grande Irmão.

Já as repúblicas situadas em solo europeu – tanto as que integravam a União Soviética (Ucrânia, Bielorrússia), quanto as que giravam em torno como satélites (Polônia, Hungria e as demais) – tinham um sonho comum: aderir à União Europeia. Naquele momento em que o equilíbio mundial estava se rompendo, a Guerra Fria ainda estava presente em todas as mentes. O objetivo dos povos que haviam vivido sob a pesada influência da Rússia soviética era ser acolhido e amparado por um braço forte que os protegesse do antigo papão.

Um a um, sob o olhar desacorçoado de uma Rússia impotente, os antigos satélites da União Soviética solicitaram o bilhete de entrada na União Europeia. Em 2004, de uma tacada só, 8 antigos afilhados de Moscou foram oficialmente aceitos na UE. Mas Putin já tinha tomado as rédeas do país, com a firme intenção de reerguer o império. Graças a ele, mesmo sem recobrar o status da antiga URSS, o país voltou a figurar entre os grandes. Manteve seu posto de segunda potência nuclear do planeta, atrás dos EUA e muitíssimo à frente da China, com diversas bases militares no estrangeiro.

Com uma Rússia fortalecida, a ilusão de aderir à UE foi ficando distante para a Ucrânia. É enorme a dependência de Kiev com relação a Moscou. Para os russos, a Ucrânia é o berço da civilização deles, uma joia que não se pode entregar a estrangeiros de jeito nenhum. A língua ucraniana é uma variante do russo, o que reforça os laços. Para Putin, seria inadmissível ter às portas de seu país uma Ucrânia integrada na UE, quiçá com tropas da Otan(*) estacionadas na fronteira.

Durante o inverno gelado 2013-2014, o povo ucraniano se rebelou contra a decisão tomada por seu governo, que desistiu de assinar um acordo com a UE e preferiu reforçar os laços com o Grande Irmão russo. As manifestações de protesto se estenderam por 3 meses, ao final dos quais o presidente ucraniano, grande amigo de Moscou, foi destituído.

Mas o povo obteve uma vitória de Pirro – vistosa mas de consequências contrárias ao que desejavam. A partir da destituição do presidente ucraniano, a Rússia apertou o torniquete. Cortou o gás, mercadoria vital em pleno inverno, sem a qual a população perigava morrer de frio. Suspendeu trocas comerciais. O resultado é que a Ucrânia teve de entregar os pontos. Acabou deixando pra lá o objetivo anterior, que era de candidatar-se a uma vaga na União Europeia.

E agora vem a parte que os devotos bolsonaristas não contam. Desconhecem por ignorância? Escondem por malandragem? É difícil saber. O fato é que a consequência principal do levante popular de 2014, que os fanáticos do capitão chamam de “ucranização”, é a guerra civil que se instalou no país e que não acabou até hoje.

As províncias do leste da Ucrânia são culturalmente muito próximas da Rússia, a ponto de a maioria de seus habitantes se considerar mais russa do que ucraniana. Com as províncias do oeste, acontece o inverso. E daí? Daí, o país se dividiu em dois. O governo de Kiev controla a parte oeste do país. Quanto às províncias orientais, é tudo mais ou menos. Ninguém sabe direito quem manda. Na região do Donbass (capital: Donetsk), é pior ainda. Ali grassa uma guerra civil. Tanques passeiam pelas ruas. As estradas têm bloqueios, e não passa quem quer. Virou terra de ninguém: teoricamente ucraniana, mas russa de facto. Com os espíritos exaltados pelo nacionalismo exacerbado, ninguém está disposto a ouvir as razões do adversário, muito menos abandonar a língua materna. Embora se pareçam muito, o russo e o ucraniano são línguas diferentes. Para nós, podem ser muito parecidas, mas para eles a língua materna é o marcador da nacionalidade. Ninguém está disposto a abandonar seu falar em favor da outra variante. Portanto, não há solução à vista.

O único remédio – que é provavelmente o que vai acabar ocorrendo – é a partição oficial do país, com entrega à Rússia da parte onde a população se sente mais russa que ucraniana. Em resumo, o país está para sempre fraturado – com fratura exposta. É realmente isso que os fanáticos do capitão gostariam que ocorresse entre nós? A “ucranização do Brasil”?

(*) A Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) é um pacto militar capitaneado pelos EUA, do qual fazem parte quase todos os países europeus.

Sarkozy hoje – Bolsonaro amanhã?

Chamada do jornal O Globo, 30 set° 2021

José Horta Manzano

Faz mais de 9 anos que Nicolas Sarkozy, presidente da França não reeleito, entregou o cargo a seu sucessor. O povo quase já se esqueceu daquele período, que hoje parece tão distante. Mas o tempo da justiça não corre no mesmo ritmo do tempo dos homens. A justiça não se esqueceu dele.

Em primeiro lugar, porque justiça é assim mesmo. A menos que prescreva antes, todo processo segue seu curso e acaba chegando a um final. Em segundo lugar, porque um indivíduo que ocupou cargo elevado acaba fatalmente espalhando inimizades e rancores pelo caminho. Não precisa nem se comportar como nosso capitão, que parece colecionar inimigos por prazer; o mero exercício da função esbarra sempre em susceptibilidades pessoais e gera mágoas e olho gordo.

Saiu hoje a notícia de que Sarkozy foi condenado a um ano de prisão em regime fechado, ao final de um complicado processo que lhe moveram por financiamento ilegal da campanha presidencial de 2012 – aquela da reeleição, que ele acabou perdendo. Ainda cabe recurso. Nesses casos, porém, o condenado aguarda preso. Por generosidade do tribunal, talvez por ser o réu ex-presidente da República, ele poderá aguardar o julgamento do recurso trancado em casa, com tornozeleira eletrônica.

O ex-presidente responde ainda a meia dúzia de processos. Em nenhum ele é acusado de crime de sangue nem violento; todos se referem a “malfeitos” de natureza semelhante ao da condenação de hoje.

Nosso apreciado doutor Bolsonaro deveria refletir muito e muito sobre esta verdade: as coisas não duram eternamente. A situação evolui, muitas vezes mais rápido do que a gente imagina. E nem sempre no sentido em que a gente gostaria que evoluíssem.

Até a princesa Isabel, que os livros de História santificaram durante 150 anos, começa a sofrer os danos relativos à passagem do tempo. Ainda hoje, li uma chamada n’O Globo, que sugere que ela era dona de escravos e que “apenas assinou” (repare bem: o “apenas assinou” vem entre aspas) a Lei do Ventre Livre. Hoje Bolsonaro cospe fogo pelas ventas, sentindo-se por cima da carne seca. No entanto, a prudência manda… ser prudente. Golpe de Estado, ele já percebeu que não vai conseguir dar. Reeleger-se, está cada dia mais perto de ser “missão impossível”.

Nem ele é a princesa Isabel, nem estamos no século 19. No caso dele, o Brasil não vai esperar 150 anos pra cair na real. Rei morto, rei posto. No dia em que ele entregar a faixa e descer a rampa, os problemas vão começar. E virão pra valer. Se o Lula amargou ano e meio atrás das grades, por que é que o capitão escaparia?

Observação
Condenado ou não, o antigo presidente da França mantém intactas a inteligência e a verve. Veja o que ele declarou no início desta semana numa entrevista televisiva.

Casamento para todos – 2

José Horta Manzano

Contei ontem a saga suíça do Casamento para Todos, uma maratona que levou décadas pra ver a linha de chegada. Em reação, uma antiga e fiel leitora fez um comentário e uma pergunta. Eis o que ela escreveu:


Coincidentemente, tenho pensado muito no como a proposta de conservadorismo de costumes de Bolsonaro pôde ser absorvida por boa parte da população, sendo que a liberalidade no comportamento público e na esfera sexual sempre nos caracterizou. Claro que a orientação religiosa pesou muito na aderência ao conceito de defesa da família para criticar os movimentos LGBT, mas acho que isso não explica tudo. Intuo que o ressentimento dos estratos populacionais mais carentes contra a elite endinheirada que se permite todo tipo de prazer desempenhe um papel importante para o nascimento desse fenômeno. O que você acha?


Pensei que o assunto há de interessar a muita gente. Nos tempos de antigamente, homossexual(*) era artigo raro. Pelo menos, era o que nos parecia, pois quase não se via nenhum. A lógica ensina que não surgiram todos com a virada do milênio, como se estivessem escondidos atrás do último mês da folhinha de 1999. Ao terminar o ano, despencaram todos.

Se temos a impressão de que hoje são muito mais numerosos, a responsável é a internet. É ela que tem trazido ao grande público conceitos que antes só eram discutidos em círculos pra lá de restritos. E o resultado tem sido surpreendente – uma boa surpresa, quero dizer. Como um novelo do qual se vai puxando o fio, uma realidade consistente e desconhecida vai surgindo. Desconhecida ou abafada, tanto faz.

De repente, cada um se dá conta de que tem um amigo homossexual, uma vizinha, um irmão, uma colega, um parente, um professor, e por aí vai. O bicho vai se tornando menos feio do que parecia. Quando se observa bem, são gente normal como o resto da humanidade. A imensa maioria não dá escândalo em público. Não conheço nenhum que tenha o costume de devorar criancinhas. Votam no Lula ou no Bolsonaro. Ou se abstêm. Ou gostariam de ver surgir um candidato de terceira via. Uns são ricos; outros, pobres. Uns são letrados; outros, de pouco estudo. Uns são cirurgiães; outros, operários. Há de tudo. No fundo, são gente normal, com as qualidades e os defeitos do resto da população.

Hoje em dia, dizer o que acabo de dizer não leva à cadeia nem ao fogo da Inquisição. Nem causa escândalo. Mas, que os mais novos acreditem: faz ainda pouco tempo, não era assim. Falar em homossexualidade era tabu. Há gente estacionada nos anos 1970, como nosso capitão, que não consegue captar essa mudança na sociedade. Ninguém me fará acreditar que, entre os adeptos de seitas evangélicas, não há nenhum homossexual. Estatisticamente, não é possível.

Os afagos que o presidente dirige aos evangélicos são mal dirigidos. A meu ver, não pode haver oposição entre orientação sexual (que ninguém escolhe) e adesão a uma religião (que cada um é livre de escolher). Não pode haver incompatibilidade entre uma coisa e outra.

Quanto à pergunta da leitora, respondo que não, não me parece que as propostas de um suposto “conservadorismo” bolsonariano tenham sido absorvidas por parte da população. O capitão é homofóbico. (Se é recalque ou desejo reprimido, deixo a conclusão para quem entende da alma humana.) Orientação sexual escapa às normas de toda convenção, justamente por não ser uma.

Ser conservador é ser contrário às modernidades convencionadas pela sociedade: divórcio (o presidente já se casou pelo menos três vezes), adesão a uma religião (nosso capitão já se fez batizar em diferentes “denominações”, além da Igreja). Enfim, ser conservador é levantar-se contra toda mudança em estatutos entre os quais se pode escolher. Orientação sexual não se escolhe, portanto não entra nos moldes apertados de um hipotético “conservadorismo” presidencial.

Será difícil provar, mas acredito que nenhum devoto aderiu ao desbaratino bolsonariano, a menos que o próprio devoto já não fosse desbaratinado antes. Se são agora mais visíveis, a razão é a câmara de eco da internet.

Tampouco acredito que classes menos favorecidas olhem para os abastados como quem aponta um dedo reprovador a “essa gente que escapou de Sodoma ou Gomorra”. Orientação sexual independe de classe social – perpassa toda a sociedade. Com exceção de algum desatinado, como o presidente, ninguém costuma atirar pedras no próprio telhado.

Para fechar, gostaria de dizer duas palavras sobre os desfiles do tipo Gay Pride, nome que foi estranhamente traduzido para “Orgulho Gay”. Orgulho de quê? Na minha opinião, essas manifestações, justamente por reforçar a caricatura que se quer eliminar (ou pelo menos suavizar), são contraproducentes. Levam ao resultado contrário do que se queria obter. Os menos informados acabam acreditando que todo homossexual anda seminu pela rua, com maquiagem pesada no rosto e plumas na cabeça. Rebolando e desmunhecando como vedete de teatro de revista (será que ainda existe teatro de revista?).

Gente com a mente estreita de Bolsonaro só vê isso. Por mim, usaria tempo e esforço pra vulgarizar essa realidade de maneira mais eficiente. Essas ações que sublinham diferenças (como política de cotas, linguagem politicamente correta, desfiles de “orgulho gay”) dão resultado oposto ao que se buscava, pois acabam enfatizando diferenças que se gostaria de aplainar. Por mim, eliminaria todos esses paetês e implementaria uma política de esclarecimento da população. Dá mais futuro.

(*) Meus leitores habituais sabem que não me enrosco nesse falar “politicamente correto”. Escapar da vulgaridade e da escrita rasteira é uma coisa; referir-se a “brasileiros e brasileiras” ou a “os e as homossexuais” é outra, bem diferente, que frisa o ridículo.

Meus leitores, que são todos gente fina, sabem que palavras não têm sexo: têm gênero gramatical. Gente e bicho têm sexo; palavras, não. É sempre bom evitar associar regras gramaticais à sexualidade humana. Não dá certo.

Neste texto – como em todos os outros – a expressão “os homossexuais” inclui eles e elas. Evidentemente.

Casamento para todos

José Horta Manzano

Ehe für alle
Mariage pour tous
Matrimonio per tutti

Na Suíça, uma nova lei não costuma ser feita da noite para o dia. Tirando em casos de emergência, como com a pandemia, quando a situação exige criação imediata de regras, as artes legislativas suíças caminham lentamente, a passo de tartaruga. Não se veem leis serem votadas a toque de caixa, como é comum no Brasil, país onde se dorme com uma regra e se acorda com outra.

Cerca de quinze anos atrás, foi dado estatuto legal à união entre duas pessoas do mesmo sexo. Não era ainda um verdadeiro casamento, mas já foi um passo ousado, vista a mentalidade da época. A lei, votada em 2004 e referendada por plebiscito de 2005, instituiu novo estado civil além dos tradicionais (solteiro, casado, viúvo e divorciado). A partir de então, os que assinavam esse contrato de união deixavam de ser solteiros, mas também não se tornavam casados; estavam “vinculados por uma união civil” – nome que variava conforme a língua oficial da região.

A “união civil” era, por assim dizer, um casamento capenga. Primeira grande diferença: dado que era reservado aos casais de mesmo sexo, era um denunciador da orientação sexual do cidadão, criando situações constrangedoras – no emprego, por exemplo. Em segundo lugar, o casal unido por esse pacto estava proibido de adotar filhos. Havia ainda algumas diferenças notáveis. Em resumo, já era um avanço, mas ainda insuficiente para os tempos atuais.

Desde a época em que a “união civil” entrou em vigor, associações militantes e grupos de parlamentares de cabeça mais aberta vêm batalhando para instituir um verdadeiro casamento igual para todos, quer os contraentes tenham o mesmo sexo, quer não. A luta foi longa, como são todas as que mexem com estruturas sociais cristalizadas. Finalmente, em dezembro de 2020, as duas câmaras do Parlamento aprovaram nova lei instituindo o casamento para todos.

Desta vez, sim: os direitos são iguais para todos. Casais de mesmo sexo são tratados como casais heterossexuais em caso de sucessão (herança), uso do nome de família, estado civil (todos têm o direito de se dizer “casados”, sem distinção de orientação sexual), direito à naturalização facilitada para o cônjuge estrangeiro de um cidadão suíço. Todos têm direito a adotar, independentemente do sexo dos cônjuges – o que era proibido antes. As mulheres têm direito à procriação medicamente assistida, ou seja, toda criança nascida de uma delas terá oficialmente duas mães, escapando à menção infamante “pai desconhecido”.

Só que, sacumé, sempre tem os desmancha-prazeres. Um grupo de ultraconservadores não apreciou o novo dispositivo legal. Lançou uma petição, coletou o número de assinaturas necessário e forçou a lei a ir a julgamento. Na Suíça, em casos assim, quem julga não é o Tribunal Federal, mas o povo. Seguindo o protocolo, o governo organizou um referendo popular em que a pergunta era: “Aceita a Lei n° tal, assim assim?”. A resposta só podia ser sim ou não.

O voto foi anteontem, domingo, 26 de setembro. A lei dita de “casamento para todos” foi aprovada, sob aplausos, por uma forte maioria de dois em três suíços. A participação no plebiscito foi até um pouco superior à média. Agora, sim, o novo dispositivo será inscrito na Constituição Suíça. A meu ver, um sistema de escolha sólido como esse vale mais que o simples voto de parlamentares. Tem legitimidade maior.

A Suíça até que estava atrasada nessa corrida ao “casamento para todos”. Já em 1989, a Dinamarca tinha aberto o caminho, ao autorizar as primeiras uniões civis para casais homossexuais – uma extravagância à época. Mas foram os Países Baixos (Holanda), em 2001, os primeiros a darem base legal a um casamento homossexual de verdade.

De lá pra cá, só na Europa, mais 15 países seguiram esse caminho: Bélgica, Espanha, Portugal, Islândia, Noruega, Suécia, Dinamarca, França, Irlanda, Finlândia, Alemanha, Luxemburgo, Malta, Áustria e Reino Unido. A partir de agora, a Suíça é o 17° a entrar para o clube. Na prática, os primeiros casamentos gays poderão ser celebrados a partir de 1° julho de 2022.

Outros países europeus, embora não tenham (ainda) o casamento para todos, têm algum estatuto de união civil para casais de mesmo sexo: Chipre, Itália, Croácia, Hungria, Grécia, Eslovênia, Estônia e Tchéquia.

Na América Latina, a Argentina foi o primeiro país a autorizar casamentos homossexuais. O Brasil, a Colômbia, a Costa Rica, o Equador e o Uruguai também autorizam. No México e nos EUA, é mais complicado; a legislação pode variar de um estado a outro. Em Cuba, estão quase chegando lá, mas ainda falta amansar a Igreja, que, ao que parece, tem força por lá. Na Ásia, Taiwan é o pioneiro e, por enquanto, único país a reconhecer o casamento para todos.

Israel vive uma situação um tanto esquizofrênica. Não pode haver matrimônio gay no país; no entanto, se ele tiver sido contraído no estrangeiro, será reconhecido. Nova Zelândia e Austrália já deram o passo.

A África e a Ásia ainda estão bem atrasadas nessa corrida. Tirando a honrosa exceção da África do Sul, o resto é dramático. Em muitos países, toda homossexualidade é reprimida, que dirá o casamento gay. Em países como Irã, Afeganistão, Sudão, Somália, Nigéria, Arábia Saudita, Paquistão, Catar, Emirados – e em diversos outros – toda relação gay é crime que pode levar à cadeia ou, dependendo do humor do tribunal, até à pena de morte.

Como se vê, tem horas em que a gente quase acredita que o brasileiro, apesar da escuridão bolsonariana, ainda não deixou de ser um povo cordial.

Aerolula x Aerobolso

José Horta Manzano

Acho que ninguém esqueceu de quando, no longínquo março de 2020, Bolsonaro foi visitar o amigo Trump, que o recebeu em seu resort particular de Mar-a-Lago.

Na volta, 22 integrantes da comitiva, que tinham viajado no Aerolula (que agora deveríamos chamar de Aerobolso ou talvez Aeronaro) receberam resultado positivo no teste anticovid. Vinte e dois!

Passou-se exatamente um ano e meio durante o qual Bolsonaro praticamente não viajou para o exterior. Por um lado, foi por causa da covid. Por outro, é porque ninguém quer ser visto ao lado do capitão. Dado que fogem dele como da peste, ninguém o convida.

Ele então aproveitou a ocasião da abertura dos trabalhos anuais da ONU para dar um pulinho a Nova York. Aproveitou pra vacinar a esposa e pra levar a turma pra espairecer, gastar nosso dinheiro em hotéis estrelados e fazer umas comprinhas com o cartão corporativo. A ONU de Nova York é o único lugar aonde ele pode ir sem ser convidado, ainda que o preço a pagar seja comer pizza na calçada.

Na volta, os infetados por covid já começaram a aparecer. O primeiro foi o próprio ministro da Saúde (da Saúde!), aquele que cometeu o delicado gesto de apontar o dedo maior em riste aos que demonstravam não gostar do chefe dele. Em seguida, começa a cair gente graúda. Saiu hoje a notícia que o presidente da Caixa é a 4a vítima. Se não apareceu mais gente contaminada, é porque muitos – provavelmente todos, com exceção de Bolsonaro – estão vacinados.

Esse avião presidencial está mais pra navio fantasma, embarcação mal-assombrada, carroça com urubu trepado. Será praga do presidente barbudinho que preferiu comprar essa aeronave, deixando pra trás a nacional Embraer?

Não sei, mas, se fosse eu, mandava benzer esse avião. Eu é que não punha os pés lá dentro, nem que me pagassem.