A função da imprensa

José Horta Manzano

Sintonizei a CBN para acompanhar o café da manhã deste sábado. Depois de ouvir as notícias da Europa, costumo me inteirar das novidades brasileiras. Com esses aparelhos de rádio atuais, conectados à internet, tudo ficou bem mais fácil.

Jornal mural ― anos 70

Jornal mural ― anos 70

Quando já é manhã por aqui, no Brasil são as que antigamente se chamavam «altas horas», não sei se os jovens ainda entendem. É quando o ponteiro das horas aponta lá pra cima. Os franceses costumam dizer «les petites heures » ― as pequenas horas ―, o que dá no mesmo. É hora boa pra ouvir notícia. Não se fala em tráfego, perdão!, em «trânsito».

Distraído, ouço de repente uma voz de mulher braba afirmar, em tom peremptório, que «investigar não é função da imprensa». Depois de um instante de estupefação, me dou conta de que é a presidente da República quem profere essa enormidade. E ela continua o discurso afirmando que cabe à imprensa apenas relatar o que já foi investigado por quem de direito.

Incomodada pela divulgação de um ‘malfeito’ atrás do outro, é compreensível que uma enfurecida Dilma Rousseff, incapaz (por enquanto) de calar a imprensa, lance suas flechas contra ela. Tem ela sorte de presidir um país cujo povo, calejado por tantos escândalos, já não dá mais atenção a miudezas.

Tivesse ela dito esse tipo de monstruosidade em terra civilizada, receberia de volta saraivada pesada vinda de uma nação indignada. Nossa presidente venturosa preside um povo ingênuo, amestrado a engolir mentiras com facilidade.

Jornal mural ― anos 70

Jornal mural ― anos 70

Relatar fatos é função de agências noticiosas. As grandes do mundo se chamam Reuters, France Presse, Associated Press, Ansa. Até o Brasil tem uma, chamada, com propriedade, Agência Brasil. Imprensa é outra coisa. Se sua função fosse unicamente relatar fatos, um jornal seria suficiente. Mas o mundo não funciona exatamente como dona Dilma gostaria.

Não se saberá jamais se a frase infeliz da presidente foi realmente de sua lavra ou se lhe terá sido soprada por alguma eminência parda. É até capaz de a enormidade ter sido bolada por suas eminências. Elas andam tão assustadas com a perspectiva real de derrota daqui a 15 dias que acionaram a metralhadora giratória. Fazem fogueira com qualquer madeira.

Pois a função da imprensa é justamente analisar, opinar, investigar, supor, debater. Para relatar fatos, bastavam os da dzi bao, jornais murais que o regime afixava na Praça da Paz Celeste, em Pequim, nos tempos de Mao Tzê Tung.

Jornal

Jornal

A fala de dona Dilma está em contradição flagrante com a boa acolhida que seu governo tem dado a Mister Greenwald. Falo daquele jornalista americano, residente no Rio de Janeiro, que deu eco planetário a informações sigilosas surrupiadas de agências de segurança americanas. Ele não se limitou a relatar fatos, mas foi parte ativa na investigação que acabou por descobri-los.

Não se pode aprovar Chico e repudiar Francisco, como está fazendo nossa presidente mandona. Isso dito, ela não precisa se desesperar. A pouca importância que, desde sempre, o poder público tem dado ao desenvolvimento cultural dos brasileiros faz que a estupefação se extinga com o último gole do café da manhã.

Olhar italiano

José Horta Manzano

A ANSA ― Agenzia Nazionale Stampa Associata ― é a mais importante agência italiana de notícias. Seu site apresentou, alguns dias atrás, um retrato cru dos preparativos para a «Copa das copas». Cru, mas verdadeiro, não há que contestar.

Crédito: Guilherme Bandeira www.olhaquemaneiro.com.br

Crédito: Guilherme Bandeira
olhaquemaneiro.com.br

Começa contando que, a um mês do apito inicial do campeonato, o Brasil já ganhou a copa dos atrasos e do desperdício. Refere-se a obras previstas e nunca realizadas como o trem-bala Rio-SP ou o futurístico monotrilho do centro de Brasília ao estádio. Há ainda obras inacabadas, como três dos doze estádios. A isso tudo há que adicionar os custos faraônicos, que superam amplamente o que se gastou com a copas da Alemanha e da África do Sul reunidas.

O artigo pondera que, no pesado balanço, ainda tem de ser debitada a perda de nove vidas nos trabalhos de construção. Diz também que esse conjunto de trapalhadas suscitou um vasto descontentamento em muitas camadas da sociedade, gente que teria preferido ver esses fundos utilizados para melhorar serviços de saúde, instrução e transporte.

O autor explica que, quando festejou a atribuição da Copa ao Brasil, sete anos atrás, o Lula pretendia mostrar ao mundo o progresso econômico e social do País. Não podia prever a série interminável de incidentes e de acontecimentos negativos que acabaram projetando ao exterior a imagem do Brasil como gigante de pés de barro, incapaz de programar e de organizar um evento de alcance mundial.

Copa 14 logo 2Referindo-se à Copa das Confederações de 2013, o texto assinala que a competição será pouco lembrada pelo futebol e muito mais por causa das «oceânicas» manifestações de protesto contra o dinheiro público gasto por Dilma Rousseff para a Copa, enquanto os serviços públicos brasileiros não estão à altura de um País que reclama o direito de acesso ao restrito clube das grandes potências.

O articulista fecha seu escrito recordando que a torcida (em português no texto) espera que a Selecao jogue e vença a final. Mas Dilma, em constante queda nas pesquisas, terá um motivo a mais para torcer.

Quem viver verá.