Que país é este?

José Horta Manzano

Que país é este em que um semianalfabeto é convidado a assumir a chefia do Ministério da Educação e… aceita sem se sentir embaraçado?

Que país é este em que um funcionário graduado da República insulta publicamente nossa maior atriz, figura emblemática do teatro nacional?

Que país é este em que o presidente da República ofende publicamente o presidente de países hermanos e, não satisfeito, insulta despudoradamente a esposa do presidente de grande nação europeia – tradicional aliada do Brasil?

Que país é este em que o presunçoso indivíduo que comanda a Instrução Pública se permite ofender publicamente o Marechal Deodoro, ícone que habita nosso panteão, ao lado de outras glórias da nação?

Essa turma arrogante é composta por aprendizes de feiticeiro. Incultos, estão-se deixando inebriar pelo (que imaginam ser o) poder, descurados de que, se a coisa vai, a coisa volta. A maré sobe e a maré desce. A terra gira, e nós vamos junto.

A soberba é pecado que não perdoa. Esses ignorantes serão ceifados pelos bumerangues que eles mesmos soltaram. O fim do homem público indigno não é necessariamente a cadeia: pode ser o ostracismo, que dói pro resto da vida. Da cadeia, se sai rápido. Já o ostracismo, quando vem, é pra ficar.

Ignorantes e ignorantes

José Horta Manzano

A palavra ignorante pertence a família numerosa. Seus membros estão presentes não só entre nós, mas também em quase todas as línguas europeias. Mas esse é assunto que desenvolveremos numa outra oportunidade.

Hoje gostaria de lembrar ao distinto leitor que, na variante brasileira da língua portuguesa, o termo ignorante tem dois significados principais.

Ignorante 1
É aquele que ignora, que desconhece, que não sabe. Exemplos:

Joãozinho é realmente um ignorante; imagine que tirou zero em três provas!

Está escrito ali na parede! Não sabe ler, ignorante?

Ignorante 2
É o indivíduo abrutalhado, malcriado, tosco, pesado, grosseiro, não necessariamente ignaro. Exemplos:

Você viu? Uma velhinha de pé e aquele ignorante sentado!

Marido que maltrata a mulher é ignorante.

Tivemos, na época em que a patota lulopetista estava aboletada nas poltronas macias do andar de cima, bom exemplo de ignorantes no poder. Eram do tipo 1, aqueles que não sabem. A tônica era dada pelo próprio presidente, avesso a todo tipo de alimento que lhe pudesse enriquecer o intelecto. Obedientes, os demais acompanhavam o chefe. Com deleite.

Varridos os ignorantes do tipo 1, convivemos agora com um bando de ignorantes do tipo 2. Ai, Jesus! Em matéria de conhecimento, embora não sejam luminares, até que sabem o básico. Não se imagina, por exemplo, que acreditem na terra plana. Já no quesito civilidade, são todos espinhudos. De novo, quem dá o tom é o presidente, o mais ignorantão, aquele que carrega sempre um insulto no bolsinho, pronto a ser disparado. Obsequiosos, os demais seguem o chefe. Com facilidade, desdenham e ofendem. São pesadões, vulgares, rasteiros.

Este blogueiro, já entrado em anos, tem pouca esperança de vir a conhecer um governo cuja característica maior não seja a ignorância. Por enquanto, estamos condenados a assistir a um desfile de ignorantes, com direito a alternância entre ignorantes 1 e ignorantes 2. Até quando vai durar? Cabe à próxima geração decidir se rompe esse círculo vicioso ou se deixa tudo como está.

Presidente espada em punho

José Horta Manzano

Na manhã de sexta-feira passada, doutor Bolsonaro mandou arrumar a mesa com cuidado evitando expor latinha de leite condensado. Preparou-se pra tomar café em companhia de jornalistas estrangeiros.

Ele teria preferido que os convidados lhe fizessem perguntas amenas sobre o sol de Copacabana, a última vitória do Palmeiras, o turismo no Pantanal, a esperança de ratificação-relâmpago do acordo comercial Mercosul-UE. Mas… que remédio? Por dever de ofício, jornalista é formatado a ser inconveniente. Os estrangeiros principalmente. As perguntas pisaram os calos presidenciais. Direto, com força e com vontade.

Bolsonaro diz que desmatamento da Amazônia é mentira
BBC, Reino Unido

Os questionamentos giraram em torno do desmatamento que governo nenhum, inclusive o de doutor Bolsonaro, conseguiu conter até hoje. Há que frisar que o fato é incompreensível para cidadãos de países mais avançados. Como é que pode? – se interrogam eles. O governo central do país não tem força pra impor lei e diretivas em todos os pontos do território nacional?

Para Bolsonaro, o desmatamento da Amazônia é ‘fake news’
AGC News, Itália

Perguntaram também sobre os bolsões de pobreza, borrões que arruínam qualquer quadro geral de prosperidade que se queira mostrar. O contingente de população que depende da bolsa família é prova escancarada da evidente pobreza de um naco enorme de brasileiros. Para quem vive num país mais adiantado, é um mistério que os impostos coletados dos abastados não seja suficiente pra alavancar a ascensão social dos desfavorecidos. Onde vai parar essa dinheirama? Em que finalidade é gasto?

Esses dois pontos são básicos. Quer o presidente aprecie, quer não, voltarão sempre à mesa. Pode ser café da manhã, almoço, jantar ou até entrevista nos jardins da Casa Branca. Jornalistas do Primeiro Mundo vão continuar a pedir explicações sobre o que não conseguem entender. Não é pra encher o picuá. É porque não conseguem entender que, entra governo, sai governo, e as coisas não mudam.

A Amazônia é do Brasil, não de vocês! – diz Bolsonaro aos europeus.
Bloomberg, EUA

Doutor Bolsonaro tem as certezas só permitidas aos ignorantes. Incapaz de interpretar as razões da inquietação dos estrangeiros, toma as perguntas por ofensa grave. Logo desembainha a espada e põe-se a defender a pátria de uma agressão que só existe em sua imaginação. «A Amazônia é nossa e não cabe a ninguém nos ensinar como cuidar dela» – é o mantra rebatido nessas ocasiões. O caminho não é esse. Negar a realidade não a faz desaparecer.

Somos todos cidadãos do mesmo planeta. O bom senso ensina que é como se fôssemos viajantes de um mesmo barco. Ninguém quer ver o barco afundar. Ninguém quer ver a comida acabar. Ninguém quer sofrer incêndio a bordo. Ninguém quer que o ar condicionado enguice. Ninguém quer enfrentar tempestade.

Apesar das afirmações de Bolsonaro, a Amazônia pertence a todos
Taipei Times, Taiwan (Formosa)

A Amazônia está sob nossa guarda, mas a saúde do planeta depende da saúde da floresta equatorial. O clima mundial já não anda lá essas coisas. O avanço do desflorestamento nas regiões equatoriais só pode piorar uma situação já fragilizada. Vem daí a preocupação dos estrangeiros. Pouca diferença faz que doutor Bolsonaro os receba com aparato ou com leite condensado no pão. Enquanto os grandes problemas brasileiros persistirem, todos continuarão a se perguntar por quê. Menos acanhados, jornalistas estrangeiros continuarão ousando perguntar em voz alta.

Vestibular pra presidente

José Horta Manzano

Quando o distinto leitor precisa de um médico pra cuidar da saúde, não há de se entregar ao primeiro charlatão que lhe apareça pela frente. Vai exigir que o profissional tenha seguido boa formação e que seja diplomado nos conformes. Da mesma maneira, se procura um advogado pra defender seus interesses, não há de se contentar em contratar um simples curioso que, embora esteja cheio de boa vontade, tenha pouca familiaridade com as leis. O raciocínio se repete na escolha do contador que vai cuidar da contabilidade da firma familiar, do arquiteto que vai assinar a planta da casa. E assim por diante, cada macaco no seu galho.

Cada campo de atividade humana exige o respectivo especialista. Por que é que, justamente quando se trata de escolher o presidente da República ‒ o dirigente-mor, aquele que vai traçar as grandes linhas do destino dos duzentos milhões que somos ‒ a gente se contenta com qualquer um, malformado, sem estudo, sem especialização, sem visão de mundo, sem experiência?

Toda profissão regulamentada tem suas exigências. Conforme a complexidade da atividade, o titular precisa ser alfabetizado, ter idade acima de certo patamar, mostrar atestado de antecedentes criminais virgem, provar ter sido diplomado. No mínimo. Justamente quando um grupo de candidatos se apresenta pra concorrer ao cargo maior, ninguém exige nada deles, a não ser que pareçam alfabetizados e que tenham completado 35 anos. É insuficiente. As responsabilidades pesadas do cargo não podem repousar sobre os ombros frágeis de um ignorantão.

Cá entre nós, convenhamos: se nossos últimos três presidentes eleitos tivessem sido submetidos à formalidade de um exame de passagem antes da oficialização da candidatura, é certeza que nenhum deles teria passado. Nem que o exame fosse «facinho, facinho». Nem o Lula, nem a doutora, nem doutor Bolsonaro estavam ‒ ou estão ‒ em condições de ter sucesso em exame básico de cultura geral. Cada um pode gostar dele ou detestá-lo, mas doutor FHC é o único, dos presidentes eleitos estes últimos 20 anos, que passaria no exame.

Ora, muitos dos grandes males que nos assolam atualmente têm origem em más decisões que se prendem à ignorância e ao despreparo do Lula e da doutora. O capitão que ora nos governa, infelizmente, dá continuidade à tradição apedeuta. Se um ponto é comum aos três, é justamente esse. Ai, como custa caro ao país!

Os candidatos a uma vaga no STF têm de ser sabatinados pelo parlamento. E olhe que, em princípio, os postulantes são juízes de fama ilibada e de notório saber jurídico. Todos têm de passar pelo exame. Por que diabos o presidente de todos nós escaparia a essa avaliação? Hoje em dia, a eleição está-se tornando um perigo. Com um bom exército de robôs a repicar tuítes elogiosos, qualquer iletrado pode ser eleito. O caminho do Planalto está ficando cada vez mais aleatório. Está mais que na hora de instaurar um vestibular pra presidente. Não garante que maus presidentes sejam eleitos, mas evita que indivíduos obtusos possam candidatar-se.

O cara

José Horta Manzano

Que saudades do tempo em que, ao abrir o jornal, a gente dava de cara com notícias boas. E olhe que não faz tanto tempo assim. Lembram-se quando, numa cúpula realizada seis anos atrás, Obama se referiu ao Lula com palavras elogiosas?

Pois é, parece que faz muito tempo. Momentos de magia costumam ser varridos pelo tempo. Desaparecem na impiedosa névoa do passado, aquela que apaga ilusões momentâneas e escancara realidades menos charmosas.

Estive lendo dia destes um relato daquele acontecimento, feito na hora, a quente. O artigo continua atual, não ganhou uma ruga. Que julguem meus distintos leitores.

Interligne 18h

Obama é brother de Lula

Tiago Luchini (*)

Livro 1É o comentário do momento! Todo mundo está falando sobre isso e a mídia, como sempre, adora. Numa reunião do G20, as lentes da BBC captaram uma interação entre Obama e Lula. Resultado? A mídia reporta “Barack Obama afirmou que Lula é o ‘político mais popular da Terra’. Além disso, Obama também disse que adora Lula e que o brasileiro tem ‘boa pinta’.”

Vale assistir ao vídeo e ponderar:

1) Obama começa dizendo: “This is my man!” que traduziram como “Este é o cara”. Na prática é uma expressão em inglês usada quando você não tem muito que dizer quando encontra alguém e quer ser camarada, simpático. É algo bem comum e, até certo ponto, bem breguinha. Eu traduziria como “Este aqui é meu chapa!” ou “meu brother!”, dependendo da escolha. Só estou mudando a gíria de década.

2) Obama continua querendo ser simpático. O cara é carismático. Aí ele solta um genérico “amo este cara… ele é o mais popular da Terra”. Uma sacada de humor bem feita. Você desloca uma caraterística contundente sua para um terceiro. É agradável e arranca um sorriso das pessoas. Kevin Rudd, primeiro-ministro da Austrália, percebe a piadinha e completa: “O político mais popular de longo mandato”. Rudd não foi tão bom quanto Obama, mas valeu pelo embalo. E o cara é australiano, tinha de soltar uma piadinha. Em tese, eles são bons nisso.

Lula e Obama3) O Lula, como sempre, não sabe de nada. É de dar dó a sensação de perdido dele. É verdade, não gosto do governo do Lula, mas ele parece um cachorrinho perdido no meio de ferozes pit-bulls. É inevitável não pensar como tratamos os estagiários e novatos nas nossas empresas. Lula é o típico estagiário sem-noção.

English 14) A puxadinha que Lula dá em Obama para chamá-lo para mais perto é… triste. Que líder nacional esse que temos que não tem uma mínima noção de comportamento multicultural? Ah, sim, ele nem fala inglês. Mas que vá ler um livro a respeito. Tenho um de cabeça para indicar mas… o cara nunca leu nenhum! Sim, é nosso presidente!

Se eu fosse o Lula, cortaria direto no “This is my man!” – tudo dependendo do meu humor (está aí um dos motivos pelos quais eu nunca serei presidente – o futuro de uma nação não pode estar nas mãos de alguém com humor tão instável quanto o meu). Mas o diálogo iria provavelmente assim:

Obama: “This is my man!”

Lula doutor 2Luchini: “You know what? You are my man too! That’s the beauty of being part of the same big, black family!” (“Quer saber? Você é meu chapa também! Taí a beleza de fazer parte da mesma grande família negra!”)

Retornaria com a mesma moeda, com o mesmo humor e seria simpático da mesma maneira, provocando sorriso nos outros. Até o coitado do Rudd ficaria mal numa saída bonita dessas. Que fazer? Temos aquilo que merecemos.

Interligne 18h

(*) Tiago Luchini é diplomado em Administração de Empresas pela Universidade MacKenzie de São Paulo. É também titular de MBA pela London Business School (UK) e pela Universidade de Columbia (EUA). Vive em Nova York. O texto citado foi escrito em abril 2009.