Fundos falidos

José Horta Manzano

A origem da raiz é antiga e se perde na bruma dos milênios. O verbo latino fallere era já precedido pelo grego sphàllein e por antepassados mais velhos ainda. Faz parte de grande família presente não só nas latinas, mas também em outras línguas europeias. Muitos dos descendentes ainda carregam o sentido original de enganar, enganar-se, errar, induzir em erro, escorregar.

Em inglês, temos : to fail (falhar), failure (falha, fracasso, insucesso, estrago). Em alemão, há: fehlen (faltar), Fehl (erro, engano). Em nossa língua, herdamos boa coleção de palavras. Entre elas, estão: falha, falta, falecimento, falível, falso, falsificar, faltar. Como se pode constatar, toda a família deixa uma impressão meio amarga de acontecimento desagradável que poderia bem não ter acontecido.

Assim é a falência, no sentido próprio, o ato ou efeito de falir. É quando uma pessoa jurídica, por falta de meios, é obrigada a suspender pagamento aos credores. É situação dramática e geralmente definitiva. Nesse caso, a falência guarda o sentido tradicional: a falta absoluta de recursos.

Chamada Estadão, 11 jul° 2019

Vamos agora à manchete do Estadão. Diz lá: «Festa nacional (…) faliu fundos de Washington». Vamos passar por cima do sentido um tanto libidinoso que a frase poderia suscitar. Afinal, quem teria tido a coragem de falir os fundilhos desse pobre Washington? Mas vamos em frente. A lição do dia é que o verbo falir, quando usado no sentido de levar à falência ou ir à falência, é intransitivo – isto é, não admite objeto.

Ex: A firma faliu. Ponto final. Ex: A empresa fez falência. Ponto final. Mesmo quando o verbo é usado em sentido figurado, a regência permanece. Ex: A festa quase levou a família à falência.

A chamada, portanto, não pode dizer que a festa «faliu fundos de Washington». Como seria exagerado dizer que a tal festa mandou a rica capital americana à falência, melhor será escolher outro verbo que indique que as finanças da cidade ficaram abaladas. A escolha é vasta: esgotar, exaurir, dilapidar, sangrar, haurir, desbaratar, secar. Há muitos mais.

Corrigindo:

Festa nacional do 4 de julho enxugou fundos de Washington.

Fica melhor, não? Bom, alguém sempre pode se chocar ao ler que, desta vez, os fundos do pobre Washington é que foram enxugados. Mas essa já é outra conversa.

Formar

José Horta Manzano

Forma é voz amplamente difundida nas línguas latinas. Com pequenas diferenças de grafia, aparece em todas elas. Em nossa língua, é responsável por centenas de palavras derivadas. Entre muitas outras, temos: formal, formoso, formulário, formação, formalidade, formatura, reforma, informe, transformação, uniforme, deformação, conformidade. E muitas mais.

Essa raiz nos legou boa coleção de verbos: enformar (botar na fôrma), informar, reformar, uniformizar, conformar, pré-formar, deformar, transformar, disformar. Sem contar, naturalmente, com o mais simples deles, que é formar.

O verbo formar é sempre transitivo ou pronominal. Há um único caso, bastante raro, em que é usado com valor intransitivo. É quando indica alinhar, enfileirar, dispor em certa ordem: o batalhão formou para homenagear o visitante ilustre. O uso intransitivo raramente estravasa da área militar.

Chamada d’O Globo, 17 maio 2019

A esse propósito, um cartaz revelador foi levantado por um manifestante quando dos protestos estudantis de alguns dias atrás. Está reproduzido acima destas letras. Diz lá: «Eu formei, tu formaste, mas eles não formarão se a universidade parar». O rapaz que segura o papel mostra semblante bastante convicto da justeza do próprio protesto. Pelo uso da primeira pessoa (‘eu formei’), deduz-se que ele ostenta na parede de casa um diploma universitário.

Pois é, pode até ser que nosso protestatário tenha obtido o diploma, mas fica claro que faltou a algumas aulas de Português. É de crer que o cartaz não se esteja referindo a formação de fila, mas a formação universitária. Nesse caso, o verbo formar não pode ser usado intransitivamente. No sentido de terminar o curso e diplomar-se, o verbo é reflexivo: eu me formei, tu te formaste, eles se formarão.

Parece simples pra quem sabe. Pra quem não sabe, é mistério insondável. Quando foi mesmo que a obtenção de diploma se divorciou da vontade de aprender pra se tornar um fim em si? Quando foi mesmo que formação deixou de significar construção intelectual para ser só sinônimo de diploma pendurado na parede? Algumas peças da engrenagem se perderam pelo caminho, e a máquina parou de funcionar.