Povo com fome

José Horta Manzano

Enquanto o capitão passeia de jet ski e de motocicleta, o mundo observa o drama deste país em que boa parte da população passa fome.

Acredito que o distinto leitor nunca tenha passado por esse tipo de aperto, de não ter o que pôr no prato. Ou de não saber se vai poder comer amanhã. É muito difícil imaginar.

O grau de civilização de uma sociedade se mede pelo cuidado que ela dedica a seus membros mais frágeis. Analisado por esse prisma, nosso país ainda está a anos-luz do objetivo.

Enquanto isso, o capitão passeia de jet ski.

A Amazônia Legal, que representa 60% do território nacional, tem zonas imensas onde o Brasil não chega. São regiões onde a lei não vigora, e manda quem tem garrucha e pontaria. A situação não é nova, mas o problema se agravou exponencialmente na era bolsonárica.

Enquanto isso, o capitão passeia de jet ski.

Cidades importantes, como o Rio de Janeiro, também comportam zonas onde a lei não vigora, e manda o mais forte. É o reino da bandidagem.

Enquanto isso, o capitão passeia de jet ski.

A fila do Auxílio Brasil (novo nome da Bolsa Família) aumentou. É fato inacreditável e sem sentido. Em programas desse tipo, o que se espera é que haja cada vez menos clientes e que a fila encolha, não que se alongue. O foco do governo tinha de estar dirigido para resolver essa disfunção.

Mas o capitão não tem apetência para acudir aos infelizes que sofrem. Prefere passear de jet ski. E, pra espairecer, organizar uma motociata.

O fracasso da bolsa família

José Horta Manzano

Com o passar do tempo, a bolsa família, implantada no governo do Lula, mudou de nome mas não mudou de espírito. Como disse o companheiro José Dirceu, numa conversa que não era pra ser gravada mas foi, o programa não passava de alavanca eleitoreira capaz de trazer 40 milhões de votos para o lulopetismo.

E o truque deu certo. Precisou o impeachment da doutora pra desalojar do poder a turma do mensalão e do petrolão. Não fosse isso, continuariam imbatíveis. Num país de miseráveis, uns trocados no bolso fazem diferença.

Se os dirigentes do país estivessem realmente empenhados em mitigar a miséria, o programa, desde que foi implantado em 2003, já teria tirado da mendicidade, se não todos, pelo menos boa parte dos beneficiários. Não foi o que aconteceu.

A ficha custou a cair para Bolsonaro. Empenhado em deixar, após sua passagem pelo poder, uma marca que não pudesse ser confundida com a genial iniciativa do PT – seu espantalho –, tergiversou e protelou quanto pôde. Mas acabou rendendo-se à evidência. Quem quiser se reeleger na Presidência, tem de distribuir ajuda financeira. Tem muita gente que depende disso pra sobreviver.

Fez corpo duro, hesitou, mas não teve jeito: recriou a bolsa. Só pra não dar o braço a torcer, fez uma mudancinha aqui, outra ali, modificou o nome, mas a nota é uma só.

O Instituto Poder 360 publicou estudo detalhando os beneficiários do Auxílio Brasil (a nova bolsa família) comparados com os funcionários com carteira assinada, estado por estado. O resultado é edificante. Observa-se que, em 19 anos de bolsa (agora auxílio), a situação continua tão dramática quanto antes, se não for mais.

Em 12 dos 14 estados do Norte e do Nordeste, o número de dependentes de auxílio do poder público supera o de empregados com carteira assinada. A pior situação é a do paupérrimo Maranhão, reserva do humanista clã Sarney, que contabiliza dois beneficiários de programa assistencial para cada trabalhador formal.

Nas demais unidades da Federação, a situação é menos tensa. No entanto, mesmo em estados ricos, centenas de milhares de conterrâneos fazem jus à assistência do poder público.

No país, os ricos estão cada vez mais ricos. Os do andar de cima, com infinitas benesses e até polpudos orçamentos secretos estão nadando de braçada. “Pastores”, “bispos” e episcopisas(*) têm até liberdade (e anuência presidencial) para distribuir bíblias com foto de ministro. Diga-me então: por que é que alguém se preocuparia em tirar realmente esses infelizes da miséria?

O que tira gente da extrema pobreza é formação profissional. Mas é aí que mora o perigo. Gente que sabe ler e entender o que leu pode até se dar conta de que nosso governo e nossos parlamentares são “fake”, um circo monumental em que são sempre os mesmos que saem ganhando. Melhor não tentar o diabo.

Que continuem fazendo fila pra receber uns caraminguás. Que continuem a não entender o que leem, assim não há risco de entenderem que estão sendo esbulhados. Que venha Lula (de novo!) ou Bolsonaro (de novo!), tanto faz como tanto fez. O populismo deste é igualzinho ao daquele. Talvez a grande diferença entre os dois seja a quantidade que distribuirão de pílulas contra disfunção erétil.

O capitão prefere espalhar a benesse entre os companheiros militares, que devem estar precisando. O Lula há de preferir distribuir aos companheiros, que também devem estar precisando – afinal, estão todos envelhecendo.

(*) Embora seja forma praticamente desconhecida entre devotos, episcopisa é o feminino de bispo. Dá mais status que o bizarro “bispa”.