Você votou em quem você votou?

Fernão Lara Mesquita (*)

Urna 5A resposta é que você nunca saberá.

É com anos de atraso, num mau momento e possivelmente até com algum rabo preso, como se verá abaixo, que o PSDB pede à Justiça Eleitoral uma auditoria do sistema eletrônico de votação brasileiro por uma comissão de especialistas indicados por todos os partidos.

Mas antes tarde do que nunca. As queixas são recorrentes, o Brasil vai na contramão do padrão mundial, e é função de um partido dar satisfação a seus representados.

Que a máquina brasileira de votar não tem segurança é ponto pacífico. Nada que lide com softwares e bits tem segurança. Isso está provado por testes que quebraram a segurança da nossa urna eletrônica não só nas medidas destinadas a evitar a identificação do voto com o respectivo eleitor, como também nas medidas para impedir que softwares maliciosos atribuam o voto de um eleitor a um candidato diferente daquele em quem ele votou.

by Jacques Sardat (aka Cled'12), desenhista francês

by Jacques Sardat (aka Cled’12), desenhista francês

Esses testes foram feitos, e falhas de segurança foram identificadas desde as primeiras eleições computadorizadas no País. Não só por brasileiros como também por americanos da Universidade de Princeton, especialistas em máquinas similares às nossas (do ponto de vista tecnológico, não na aparência) produzidas pelo mesmo fabricante das brasileiras – que, aliás, é alvo de um monte de processos por corrupção nos EUA.

urna 4Mas o que há de escandaloso no caso brasileiro é que, apesar de todas essas provas de falta de confiabilidade da máquina, do acúmulo de queixas em eleições passadas (94 municípios registaram queixas de fraude na eleição de 2012), das centenas de vídeos que circulam na rede mostrando casos pontuais pra lá de estranhos em locais de votação de diversos estados e das provas diárias de que nem os computadores do sistema financeiro nacional e internacional, da Casa Branca ou do Pentágono estão imunes a invasões ou fraudes, mantém-se em pé, com argumentos pífios, uma suspeitíssima barreira para impedir a introdução de contraprova física das nossas votações. Um documento que possa ser conferido manualmente como se faz em todos os países do mundo com votações eletrônicas. São só duas as exceções: o Brasil e a Índia.

(*) Este é excerto de artigo publicado pelo jornalista Fernão Lara Mesquita em seu blogue. Para ler na íntegra, clique aqui.

Carta aberta à Senhora Presidente

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 1° nov° 2014

Prezada Senhora Dilma Rousseff,

Carta 1Antes de mais nada, quero dar-lhe parabéns pela vitória. Ainda que a franja de votos que a separa do adversário tenha sido menor do que a de quatro anos atrás, o triunfo, desta vez, tem mérito maior. Os votos que a elegeram em 2010 eram herança de seu antecessor. Já os de agora refletem o julgamento de seus quatro anos de governo. Felicitações!

Nada me obriga a fazê-lo, mas opto por eliminar toda ambiguidade: não lhe dei meu voto. Razões várias me levaram a supor que seu adversário reunia condições de dar ao Brasil orientação adequada. No entanto, o destino, cabeçudo, decidiu a seu modo. Não saberemos jamais como teria sido… o que não foi.

Campanha e debates, ataques e defesas, altivezas e baixezas – toda essa tralha faz parte do passado. Viremos a página. Nossa Constituição manda que o vencedor da corrida seja sagrado presidente. Coube à senhora o lugar mais alto no pódio. Que se cumpra a lei. Saudemos a presidente de todos os brasileiros.

Os primeiros dias são melindrosos. O calor da disputa pode demorar para arrefecer. Alguns relutam em catar os cacos, colá-los e recompor o vaso. Deixe estar, que o tempo é remédio para amores e dores.

Dizem que a senhora é autoritária. Ligue não. Churchill e De Gaulle – autocráticos, rígidos e voluntariosos – deixaram rasto de glória e de admiração.

Envelope 3Somos da mesma geração, presidente: nasci pouco mais de um ano antes da senhora. Crescemos num mesmo Brasil e sonhamos os mesmos sonhos. O País está hoje melhor, mas resta um bocado por fazer. É obra coletiva, que compete a cada cidadão. Alguns, como a senhora, dispõem de trunfos mais robustos. Eis por que lhe escrevo.

Meu primeiro pedido é, de todos, o mais importante. A divisão do povo brasileiro em duas categorias nebulosas – «nós e eles» – é semente de males doídos e duradouros. Garantido. Essa cisão tem sido instigada estes últimos anos. Nosso País está em processo acelerado de cisma.

Por favor, presidente, leve em consideração o alerta deste compatriota que já rodou mundo: determine a seus auxiliares que se abstenham de alargar brechas entre classes de cidadãos. Pretos e brancos, ricos e pobres, nortistas e sulistas, religiosos e descrentes são antagonismos que não vale a pena exacerbar. Fiquemos somente com o «nós» e deixemos o «eles» pra lá.

by Lailson de Holanda Cavalcanti, desenhista pernambucano

by Lailson de Holanda Cavalcanti, desenhista pernambucano

Gostei do seu discurso de vitória. A senhora já reparou, presidente, que seus pronunciamentos espontâneos são bem mais joviais que textos engessados? Digo-lhe sem ironia: está aí a prova de que o que lhe vai dentro é maior e melhor do que o papel que marqueteiros e assessores a instigam a representar. Procure dar mais valor ao bom senso e menos a assessores cujo objetivo nem sempre coincide com o seu.

Nossa Constituição veda, a titulares do Executivo, um terceiro mandato. A senhora está, assim, liberta de amarras que emperraram seu primeiro mandato. Não caia na tentação de impor sucessor. Deixe a missão para especialistas, que os há.

Na hora de escolher assessores, não se restrinja aos que pertencem a sua família política. Há gente pra lá de capaz na outra borda. Não hesite em convocá-los, que não é desonroso. Busque a competência onde estiver.

Presidentes galeriaOs atuais programas de transferência de renda são positivos. Seriam ainda mais benéficos e eficientes se fossem acompanhados de incentivos. Que tal encorajar beneficiários com microcrédito, formação técnica e ensino profissionalizante? A meta maior de seu quadriênio bem poderia ser a extinção gradual de programas assistenciais por… se terem tornado supérfluos. Já imaginou?

Outra coisa importante, presidente. O Congresso virou um balaio de gatos. O divórcio entre povo e eleitos é real. Um mês depois do voto, boa parte dos eleitores já esqueceu em quem votou. A solução é uma só: voto distrital. Divida-se o País em 513 distritos de população equivalente. Cada distrito elegerá, em dois turnos, seu deputado. Somente assim se criará o vínculo entre eleitor e eleito, atualmente inexistente.

Daqui a cinquenta anos, presidente, não estaremos mais aqui. Nem a senhora, nem eu. Quanto a mim, na melhor das hipóteses, terei direito a uma lápide com um nome e duas datas. A senhora estará nos livros de História.

Ucrania 1Suas decisões nestes próximos quatro anos determinarão se sua memória será louvada ou execrada. Para quem, como a senhora, exerceu o cargo maior, mais valerá ser lembrada como conciliadora do que como responsável pela ucranização do Brasil.

Receba meu respeito e minha esperança. Que Deus a ilumine.

Os amigos do Lula

José Horta Manzano

Um dos objetivos maiores da agigantada vaidade do Lula era conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Nem que fosse um postozinho de segunda classe, sem direito a veto. O que importava a nosso messias, custasse o que custasse, era entrar nos livros de História como aquele que tinha alçado o País a patamar de destaque.

Burkina Faso 2Hoje é ideia morta e enterrada. Nossa bizarra política exterior mostrou-se incapaz de se impor no Mercosul, onde somos sócios ultramajoritários com 70% das ações. Até em Honduras, o Lula tentou e fracassou. Recuou inclusive na Bolívia. Mais tarde, chegamos a nos desentender com o pequeno Paraguai. E a África então? Sumiu na poeira do caminho.

Mas não era assim antes de 2010. Nossa trôpega diplomacia, esquecida de que quem manda na ONU são as grandes potências, procurava agregar o maior número possível de nações deserdadas, na esperança de que apoiassem o pleito do Brasil. A ingenuidade que reinava pelas bandas do Planalto devia sonhar com um levante dos países pobres, uma espécie de Revolução Francesa mundializada.

Burkina Faso 1Em 2007, no dia em que o mandachuva do Alto Volta(*) – hoje chamado Burquina Fasso – completava 20 anos à frente do país, o Lula fez questão de prestigiar, com sua presença, o personagem. Pouco importou a nosso líder o fato de o antigo capitão Blaise Compaorê ter chegado ao poder na esteira de um golpe de Estado em que o mandachuva anterior foi assassinado.

Nosso presidente tampouco se importou com o fato de os 20 anos de mando do bambambã africano terem mantido o país entre os 10 mais atrasados do mundo. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Burquina Fasso é de 0.343. O Brasil tem 0.744. A Noruega atinge 0.944.

Burkina Faso 3O Lula apertou amistosamente a mão do ditador, discursou, posou para fotos, foi acolhido em visita de Estado com direito a tapete vermelho e hospedagem principesca. O ditador continua lá até hoje. O povo continua na mesma indigência. Só que, faz uns dois dias, a situação mudou.

O povo, cansado de tanta miséria e tanta corrupção, se sublevou contra a enésima tentativa do «presidente» de alterar a Constituição a fim de ganhar mais um mandato. «Chega, que já aguentamos 27 anos! Está na hora de acabar com isso!» – clamam.

A guerra civil está declarada. Os edifícios públicos de Uagadugu, a capital, estão sitiados. Alguns foram incendiados. Quebra-quebras, tiros e incêndios já causaram 30 mortes. O «dono do país» disse que não renuncia. Tudo, agora, está nas mãos do exército. O que os generais decidirem será respeitado à força.

Tenho certeza de que, na impossibilidade de viajar para prestar solidariedade ao amigo africano em apuros, nosso messias já telefonou a ele. Dizem que, homem fiel, nosso líder nunca traiu ninguém. Não será a esta altura da vida que há de começar.

Interligne 18b

apud Cahiers d'études africaines by Yves Person

apud Cahiers d’études africaines
by Yves Person

(*) Desde o século XV, navegadores portugueses visitaram a costa da África ocidental. Cada acidente geográfico recebia nome, fosse rio, cabo, estuário, ilha, promontório, golfo. Por razões hoje esquecidas, um rio que desembocava naquelas redondezas recebeu o nome de Rio da Volta.

Quatro séculos depois, quando o território atravessado pelo rio se tornou protetorado francês, recebeu o nome de Alto Volta, como temos nós o Alto Tietê ou o Alto Amazonas.

Em 1984, por ocasião de um golpe de Estado, o nome – que trazia perfume de tempos coloniais – foi substituído por denominação de sabor local.

Mais uma última informação: Burquina Fasso conta com mais de 60 etnias, cada uma falando sua própria língua. Para se entenderem, utilizam o francês.

De plebiscitos e referendos

José Horta Manzano

Mais de uma vez já abordei, neste espaço, o tema plebiscito x referendo. Como voltou às manchetes, volto eu ao assunto. Nossa presidente, talvez aconselhada por algum assessor de ideia fixa, bate com frequência nessa tecla. Nos momentos de grande tensão, costuma subir ao palanque e bradar por um plebiscito.

Aconteceu na sequência das manifestações de junho 2013 e voltou a ocorrer agora, na emoção de sua surpreendente reeleição. Ainda não captei qual será a real intenção por detrás da palavra mágica.

Plebiscito… O termo deve tocar alguma corda sensível no fundo da alma da presidente – ou do assessor que lhe sopra nos ouvidos. Parece ser a panaceia, aquele remédio universal recomendado para todos os males. Um problema? Organiza-se um plebiscito e pronto! A felicidade geral se instala e os problemas desaparecem. Antes fosse.

Ao ter notícia da vontade presidencial, o presidente do Senado logo retrucou que um referendo seria mais adequado. Plebiscito ou referendo? Enquanto não captamos o intuito dos caciques, vamos dar uma espiada no significado das duas palavras. Ambas nos vêm direto do latim por via erudita. São conceitos que a Idade Média anestesiou e que só voltaram à luz no século XVII.

Roma – senado

Roma – senado

Plebiscito é consulta direta ao povo. A palavra é composta de plebis (a plebe, o povo) + scitum (de sciscere = decretar, aprovar). Para os romanos, uma lei era dita plebiscitária quando tivesse sido feita por todos os cidadãos, incluindo aqueles que, em princípio, não estavam qualificados para participar do processo legislativo. Em resumo, era consulta ao povão, coisa rara naqueles tempos.

Referendo é conceito mais recente. Em algumas democracias – na Suíça, por exemplo – aceita-se que uma lei votada pelo parlamento seja contestada pelos cidadãos. Em casos assim, organiza-se um referendo, para que o povo aprove ou repudie a lei já votada. No fundo, um referendo é sempre um plebiscito. Mas um plebiscito nem sempre é referendário.

Senador romano

Senador romano

A meu ver, no caso de uma ampla reforma política como a que o Brasil está a exigir, não cabem nem plebiscito nem referendo. Reforma política é assunto árduo, técnico, composto de várias facetas. Tem de ser estudada por especialistas, pesada, analisada, emendada. Não faz sentido pedir ao povo que dê opinião sobre cada artigo, cada parágrafo, cada alínea. É um despropósito.

Consulta direta ao povo tem de ser simples. Os cidadãos devem responder por um sim ou por um não. Como proceder no caso de uma reforma política?

O Congresso existe exatamente para representar a população. Câmara Federal e Senado acabam de ser renovados. Que se aproveite essa nova leva de parlamentares e que se lhes dê o encargo de elaborar a reforma.

Não há necessidade de plebiscito nem de referendo. Ao eleger o novo Congresso, os eleitores já deram carta branca a seus representantes. Aquela gente é paga exatamente para isso.

Frase do dia — 200

«Lula é mestre em, pelo menos, duas línguas: a de uso corrente e a que lhe convém. O difícil é saber qual delas ele está falando.»

Ruy Castro (1948-), escritor, biógrafo e jornalista. Em sua coluna da Folha de São Paulo de 29 out° 2014.

O fim da República Corporativa?

José Horta Manzano

No anoitecer da atual legislatura, que se encerra no último dia do ano, a Câmara Federal deu um presente ao País: derrubou o inqualificável Decreto n° 8243(*), aquele que plantava a semente da República Corporativa do Brasil.

À vista da submissão que suas excelências têm demonstrado com relação ao Executivo, era pouca a esperança de que o famigerado ucasse presidencial fosse refugado pelos eleitos. No entanto, aconteceu. Por que será?

Há várias pistas. Uma delas – a mais evidente – é que o dispositivo amputaria um naco do poder do Congresso. Os «conselhos populares» autorizados pelo decreto se contraporiam àqueles que foram eleitos pelo sufrágio universal. Essa concorrência produziria efeito evidente: diminuiria a influência do Congresso e compensaria o peso dos deputados oposicionistas. Ninguém se alegra em ver escapar uma parte de sua autoridade – foi o que aconteceu com suas excelências.

“Marcia su Roma” com Mussolini e seguidores by Giacomo Balla (1871-1958), pintor italiano

“Marcia su Roma” com Mussolini e seguidores
by Giacomo Balla (1871-1958), pintor italiano

Outra possibilidade é o fato de boa fatia da Câmara estar-se despedindo. Falo daqueles que não se reelegeram. É possível que se tenham sentido livres para soltar o canto do cisne e exprimir, nem que fosse uma vez, sua convicção íntima e sincera.

No fundo, cada deputado votou segundo motivação pessoal, por razões que lhe são próprias. Melhor assim. O importante é que o decreto tenha sido rejeitado.

Não sei quem estaria por detrás dessa ideia anacrônica, que nos propunha um mergulho no universo fascista de cem anos atrás. O movimento capitaneado por Mussolini começou com a Marcha Sobre Roma, em 1922. Centralizador, criou uma república na qual corporações faziam as vezes de representantes do populacho. Todos sabem como terminou a aventura.

Desta vez, escapamos. Olho atento! Nunca se sabe o que pode vir por aí.

Interligne 18e

(*) Os distintos leitores que desejarem refrescar a memória e conhecer a integralidade do decreto de 23 mai 2014, ora derrubado, podem clicar aqui . Os nove «conselhos», «fóruns», «comissões» e «mesas de diálogo» estão explicadinhos tim-tim por tim-tim.

Curto e grosso

José Horta Manzano

Três publicações em língua alemã resumem – bastante bem, a meu ver – a visão desapaixonada de quem observa o Brasil de longe.

As três citações aqui abaixo apontam onde está o cerne do problema.

Interligne vertical 10Deutsche Wirtschafts Nachrichten
«Die Sorge der Armen vor dem Verlust des Almosens»
«Os pobres têm medo de perder a esmola»

Fundação Konrad Adenauer
«Brasilien ist ein gespaltenes Land»
«O Brasil é um país dividido»

Finanznachrichten
«Die Aussöhnung könnte eine der größten Baustellen von Dilma Rousseff sein in den kommenden vier Jahren.»
«A reconciliação poderia ser um dos principais canteiros de obra de Dilma Rousseff nos próximos quatro anos.»

Que dizer mais?

Vai dar trabalho

José Horta Manzano

O discurso de união nacional da presidente reeleita ficou bonito no papel. Era o que se esperava. Faltou avisar à militância, que não parece estar sintonizada com os novos tempos.

Como prova eloquente, veja esta foto da alegre manifestação que se seguiu à notícia da reeleição. Foi tirada na avenida Paulista, São Paulo, na noite de 26 out° 2014.

Dilma vitoria 1

Alguém distingue alguma bandeira brasileira?

Não deu…

É, não deu para apostar na alegria da descoberta de um caminho alternativo…
Não deu mais uma vez para acreditar no próprio poder…
Não deu para estender a mão aos que cairam pelo caminho…
Não deu para imaginar que ainda era possível…

Não deu para contagiar com a esperança de um amanhã plausível…
Não deu para contar com a liberdade interna de escolha….
Não deu para enfrentar o medo do abismo à frente….
Não deu para compreender que o sonho era possível…

Não deu para mitigar a dor das feridas do passado…
Não deu para engolir a mágoa pelos próprios tropeços…
Não deu para ficar com a voz do coração…
Não deu para sufocar o ronco do estômago…

Myrthes Suplicy Vieira
Psicóloga, escritora e tradutora.

Brasil salva indústria sueca

José Horta Manzano

Quando o eclesiástico sueco Jacob Wallberg (1746-1778) alterou o sobrenome para Wallenberg, não imaginava que, dois séculos mais tarde, seus descendentes formariam a família mais rica e poderosa do país.

Avião 6Calcula-se que, faz vinte anos, no apogeu de sua influência, os descendentes do patriarca controlavam, direta ou indiretamente, um terço do PIB nacional. A dinastia está presente na banca e na indústria. Os interesses do conglomerado se estendem a grande parte dos grupos industriais suecos: Ericsson, SKF, Scania, Electrolux, Saab.

A Saab tem investido soma elevada na concepção e no desenvolvimento de um avião de caça de última geração, mas sua construção em série dependia de encomenda internacional. Dois países se interessaram pelo novo modelo. A Suíça precisava de 22 unidades e o Brasil gostaria de adquirir 36 aparelhos.

Compra de 22 caças Gripen Plebiscito suíço de 18 maio 2014

Compra de 22 caças Gripen
Voto do povo suíço, 18 maio 2014

Na Suíça, decisões de tal importância não costumam ser resolvidas por uma canetada do presidente. O povo foi consultado. As urnas, impiedosas, trouxeram a resposta: a compra foi recusada. Os eleitores, por maioria de 53,4%, consideraram que não valia a pena gastar tanto dinheiro. Depois do desaparecimento da União Soviética, o espantalho de uma invasão vermelha desbotou.

No Brasil, as coisas não funcionam assim. Uma pessoa sozinha(!) pode tomar decisões que afetam a segurança e as finanças do Estado. Pode passar por cima do parecer das Forças Armadas e do Congresso. O Lula, quando presidente, garantiu a Monsieur Sarkozy que compraria aviões franceses. O tempo passou, e nosso fiel presidente, em meio a tantos afazeres, há de ter esquecido a promessa.

Avião 4Sobrou para a sucessora que, anos mais tarde, deu a decisão. O Brasil vai comprar seus 36 aviões da firma Saab. Marcus Wallenberg, membro do clã bilionário, é presidente e grande acionista do construtor aeronáutico sueco. Estes dias, lançou comunicado à imprensa informando que o grupo industrial se orgulha de «caminhar lado a lado com o Brasil» no importante programa de construção de 36 caças Gripen NG. No fragor da campanha eleitoral, a informação passou silenciosa.

O valor anunciado da transação é de 39,3 bilhões de coroas suecas, algo em torno de 5,4 bilhões de dólares (R$ 13,75 bilhões). Dá uns vinte porcento a mais do que tinha sido noticiado faz alguns meses. Deve ser por causa da inflação sueca.

Interligne 18h

PS: A inflação anual sueca em 2013 foi de 0.14%. Yes, taxa anual.

Aqui não é crime

José Horta Manzano

Acabo de voltar da secção eleitoral onde voto, em Genebra. A viagem de ida e volta dá uns 90 km. Mas não posso reclamar. Em determinados países, brasileiros têm de viajar centenas – às vezes milhares – de quilômetros para cumprir sua obrigação.

Se fosse facultativo, seria um direito. Como é compulsório, deixa de ser direito para se tornar obrigação. Pior que isso: o não comparecimento transforma-se em contravenção sancionada com multa. O perfume não é muito democrático, mas assim é.

Eleição 2Você acredita, distinto leitor, que havia gente fazendo boca de urna debaixo da marquise, do lado de fora do local onde se vota? Em pleno Palácio das Convenções de Genebra, Suíça? Pois é isso mesmo. Vi com estes olhos que a terra há-de comer.

Era um grupozinho de militantes, daqueles bem mequetrefes, enrolados em bandeira estrelada, com o nome da candidata deles escrito em letras garrafais. Paravam todos os que se dirigiam à entrada. Aquilo me revoltou e me fez perder o sangue-frio. Dei uns gritos, disse que aquilo era proibido. Desassombrados, responderam que podia ser proibido no Brasil, mas não aqui. E continuaram impávidos.

Chamei então a atenção do pessoal consular. Imediatamente, a embaixadora, acompanhada de um pequeno comitê, dirigiu-se ao local onde estavam os boqueiros. Foram parlamentar.

Boca de urna 3Enquanto isso, fui votar. Na saída, percorrendo o mesmo caminho, que vejo? Primeiro, a embaixadora e acompanhantes, já retornando ao local de votação. Em seguida… o grupelho. Enrolados nas mesmas bandeiras, continuavam a apostrofar todos os que passavam.

E pensar que tudo isso está sendo financiado com o meu, com o seu, com o nosso dinheiro! É revoltante.

Se o senhor Aécio vencer hoje, é porque é forte mesmo. Os braços longos da máquina governamental já estão chegando até o exterior. Alguém produziu e transportou – em viagem de 10 mil quilômetros! – aquelas bandeiras e aqueles santinhos. Alguém remunerou os militantes, nem que seja uma tubaína, um sanduíche, a condução e mais uns trocados.

Arca 1Caso a oposição ganhe, que se cuidem! Os que hoje detêm o poder estão com as burras abarrotadas de dinheiro. São cuecas, malas, arcas e baús transbordando. Sem mencionar os bilhões encafuados em paraísos fiscais. É dinheiro suficiente pra comprar Legislativo e Judiciário inteirinhos. E quem mais for necessário.

Dentro de mais algumas horas corre a loteria. Veremos de que lado sai a sorte grande. Neste momento, uma única certeza: o vencedor será mineiro.

De horas e de horários

José Horta Manzano

Hoje mudamos de hora aqui na Europa. A hora que nos tinham surrupiado em março nos foi devolvida, e o sol volta a aparecer mais cedo, quando aparece. Em compensação, a noite chega rápido.

Faz trinta anos que é assim a cada ano. No último domingo de março se adiantam os relógios em uma hora. Volta-se atrás no último domingo de outubro. Nem todo o mundo aprecia, mas o jeito é resignar-se.

Agricultores e criadores são os que mais resmungam. Dizem que vacas, que não costumam usar relógio, ignoram invencionices humanas. Têm de ser ordenhadas todos os dias à mesma hora.

Hora legal na Europa

Hora legal na Europa

Por aqui, todos os países adotam a alternância de hora entre verão e inverno. As «fronteiras» criadas pelos fusos horários permanecem o ano todo. Espanha e Portugal, por exemplo, estão sempre separados por uma hora, no frio e no calor.

No Brasil, é um pouco mais complicado. Por razões geográficas, mudar de hora não faria sentido nas regiões próximas ao equador. Pra dizer a verdade, tampouco faz muito sentido no sul do País. A economia de energia gerada há de ser mínima.

Não sei por que, no Brasil, a hora legal muda à meia-noite. Qualquer estudo demonstrará que as horas em que o movimento é mais baixo se situam entre as 2 e as 4 da manhã. Europeus e americanos determinaram que a mudança se faça no meio da madrugada. À meia-noite atrapalha muita gente.

Interligne 18h

Vou aproveitar que estamos falamos de hora pra falar de horário. Hoje é dia de votar. No momento em que escrevo, as primeiras urnas estão sendo destrancadas, no Brasil, para votantes matinais. Daqui a três horas, serão destravadas as últimas, no Acre e no extremo oeste do Amazonas.

Brasileiros inscritos no Japão, na Austrália, na Nova Zelândia já votaram. As urnas foram totalizadas, e os resultados já estão em Brasília. Assim que der 17 horas no Acre – 20 horas em Brasília – os primeiros resultados começarão a ser publicados. É normal, visto que todos os eleitores terão exprimido seu voto, correto?

Não, distinto leitor, não é exatamente assim. Temos aí uma intrigante anomalia. Mais de 16 mil eleitores, inscritos em Los Ángeles, San Francisco e Vancouver, ainda disporão de duas horas para emitir seu voto. Em tempos de internet e de informação instantânea, esses privilegiados vão poder votar já sabendo a quantas anda a apuração.

Esquisito? Bota esquisito nisso! São poucos eleitores, concedo, mas, por questão de princípio, a ninguém deveria ser permitido votar uma vez que resultados parciais já tiverem sido anunciados.

Fusos horários no planeta Los Ángeles, S. Francisco & Vancouver estão no fuso U

Fusos horários no planeta
Los Ángeles, S. Francisco & Vancouver estão no fuso U

Imagine um cenário de eleição apertada, em que a vitória seja disputada voto a voto. Como é que fica? O futuro do Brasil seria refém da decisão de um punhado de eleitores!

É inacreditável que o TSE não se tenha até hoje dado conta dessa aberração. O mais provável é que sim, se tenham dado conta, mas que tenham julgado que, num País habituado a tolerar imperfeições, um malfeito a mais ou a menos não faria diferença. Para mim, faz.

Qual é a solução? Há mais de uma à disposição. A Itália adota o voto por correspondência. O cidadão pode votar durante todo o mês que precede o dia da eleição. Seu voto permanece sob custódia das autoridades competentes até o dia da apuração.

A solução francesa vai por outro caminho. Os franceses do estrangeiro – assim como os residentes em territórios onde o fuso horário é mais atrasado que na metrópole – votam de véspera. Em vez de fazê-lo no domingo, dirigem-se às urnas no sábado.

Pronto. Soluções, há. Basta confiar a responsabilidade de encontrá-las a gente capacitada e de boa vontade. Dizem que esse tipo de gente é mercadoria escassa atualmente.

Cães adestrando humanos para a eleição

Myrthes Suplicy Vieira (*)

O ceticismo de minhas duas cachorras atingiu seu ápice durante o debate de sexta-feira à noite. Vencidas pelo tédio, elas dormitaram pesadamente a maior parte do tempo. Incomodada com a falta de reação por parte delas, cutuquei-as durante um intervalo e perguntei o que estava acontecendo.

Crédito: Ellem.ca

Crédito: Ellem.ca

A mais nova e mais espevitada respondeu que aquilo tudo lhe parecia conversa mole para boi dormir e que, apesar de não poder ser enquadrada na categoria dos bovinos, aquele palavrório todo só tinha servido para aumentar sua sensação de alienação. “Eu preferiria, disse ela, que você me levasse para passear e me deixasse farejar no ar se aquele macho bonitão vai passar por aqui”. Espreguiçou-se gostosamente e voltou a dormir.

A mais velha e mais sábia levantou a cabeça mal-humorada e sentenciou: “Estive pensando. Há um fenômeno curioso que já foi registrado entre várias espécies animais. Até onde eu saiba, não há registro desse tipo de acontecimento entre nós. Ele costuma acontecer com razoável frequência entre baleias. É uma espécie de indução ao suicídio coletivo. Por algum estranho motivo, algumas vezes a baleia-piloto se desorienta em alto mar e conduz as demais para águas rasas, fazendo com que todas morram encalhadas na areia. Já se especulou que a causa desse fenômeno pode estar no radar das grandes embarcações, mas eu duvido”.

Intrigada, perguntei: “O que você está querendo dizer com isso?”

Ainda sonolenta, ela resmungou em resposta: “Para mim, o verdadeiro motivo é que a líder se cansa de assumir tanta responsabilidade por tanto tempo. Veja só, ela tem de imprimir um ritmo mais lento para respeitar as limitações das baleias mais velhas. Tem de cuidar para que os filhotes não se afastem demais de suas mães. Tem de proteger os mais jovens e inexperientes quando do ataque de predadores. Tem de deter o ímpeto dos machos mais ousados que querem fazer desvios de rota para acasalar. Não pode se dar ao luxo de parar para cuidar de si mesma quando está com fome, machucada ou exausta. Acima de tudo, seu orgulho por ter feito tantas travessias bem sucedidas faz com que ela se recuse a admitir que já está na hora de seu reinado terminar”.

Baleia 1Curiosa pelo desfecho, apressei: “E daí? Onde você quer chegar com essa história toda de baleias?”

Minha envolvente filósofa canina concluiu com um meio-sorriso: “Pois está me parecendo que a atual baleia-piloto de vocês está se aproximando perigosamente da praia”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Acerto de contas

José Horta Manzano

Ao saber da reportagem de capa da revista Veja desta semana, dona Dilma & áulicos hão de ter levado um tremendo susto.

Nessas horas, quando se está sereno, a prudência manda calar e se fingir de morto. Não foi a decisão do entourage presidencial.

Adeptos de todo bate-boca que possa fazer passar mais rapidamente os minutos angustiantes de aparição ao vivo diante das câmeras, os marqueteiros palacianos orientaram a candidata a atacar a revista. Foi o que ela fez – em pessoa! – quando de sua participação no debate eleitoral de 24 de out° 2014.

Revista Veja 2Decisão tola, a meu ver. Remexeu a faca na ferida, chamou a atenção de quem porventura estivesse distraído, fez aumentar a tiragem da revista. Em resumo, a emenda estragou o soneto. Que já não era melodioso, diga-se.

A revista não perdeu a deixa. Sem tardar, publicou a réplica. Ei-la:

Interligne vertical 11bSobre a fala da presidente no horário eleitoral

A presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição, ocupou parte de seu tempo no horário eleitoral para criticar VEJA, em especial a reportagem de capa desta semana. Em respeito aos leitores, VEJA considera essencial fazer as seguintes correções e considerações:

1) Antecipar a publicação da revista às vésperas de eleições presidenciais não é exceção. Em quatro das últimas cinco eleições presidenciais, VEJA circulou antecipadamente, no primeiro turno ou no segundo.

2) Os fatos narrados na reportagem de capa desta semana ocorreram na terça-feira. Nossa apuração sobre eles começou na própria terça-feira, mas só atingiu o grau de certeza e a clareza necessária para publicação na tarde de quinta-feira passada.

3) A presidente centrou suas críticas no mensageiro, quando, na verdade, o cerne do problema são os fatos degradantes ocorridos na Petrobrás, em seu governo e no de seu antecessor.

4) Os fatos são teimosos e não escolhem a hora de acontecer. Eles seriam os mesmos se VEJA os tivesse publicado antes ou depois das eleições.

5) Parece evidente que o corolário de ver nos fatos narrados por VEJA um efeito eleitoral, por terem vindo a público antes das eleições, é o reconhecimento de que maior temeridade ainda seria tê-los escondido até o fechamento das urnas.

6) VEJA reconhece que a presidente Dilma é, como ela disse, “defensora intransigente da liberdade de imprensa” e espera que essa sua qualidade de estadista não seja abalada quando aquela liberdade permite a revelação de fatos que lhe possam ser pessoal ou eleitoralmente prejudiciais.

Jogo de cartas marcadas?

José Horta Manzano

Já alguns dias atrás, as pesquisas de um dos institutos de sondagem divergiam desavergonhadamente das demais. Os ultraconhecidos Ibope e Datafolha indicavam caminho asfaltado e liso para vitória folgada de dona Dilma, enquanto um certo Instituto Verità, do qual poucos tinham ouvido falar, ousou prever vitória incontestável da oposição.

Agora tem mais. O Instituto Sensus executou pesquisa a mando da revista IstoÉ. A sondagem, realizada de 21 a 24 out°, inquiriu 2000 pessoas em 24 Estados. Seu resultado não deixa margem pra discussão:

Dilma e AecioAécio 54,6%      x      Dilma 45,4%

Cada um que tire as conclusões que lhe parecerem mais adequadas. Esses resultados contrastantes podem indicar incapacidade técnica deste ou daquele instituto. Podem também indicar outra coisa.

Aproveitando enquanto ainda pode

 

by Santo, desenhista mineiro

by Santo, desenhista mineiro

 

Interligne 28a

by Iuri Gama Santos, desenhista fluminense

by Iuri Gama Santos, desenhista fluminense

 

Interligne 28a

by Eduardo dos Santos Reis Evangelista, desenhista mineiro

by Eduardo dos Santos Reis Evangelista, desenhista mineiro

 

Interligne 28a

by Neltair Rebés Abreu, desenhista gaúcho

by Neltair Rebés Abreu, desenhista gaúcho

 

Interligne 28a

by Samuel Rubens de Andrade, desenhista pernambucano

by Samuel Rubens de Andrade, desenhista pernambucano

 

Interligne 28a

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

 

Interligne 28a

by Neltair Rebés Abreu, desenhista gaúcho

by Neltair Rebés Abreu, desenhista gaúcho

 

Interligne 28a

 

Vote bem

José Horta Manzano

Amanhã vamos votar. O Brasil inteiro já está sabendo, mas não custa reproduzir aqui um trecho da reportagem publicada pela revista Veja deste fim de semana.

Interligne vertical 12«Desde que Duda Mendonça, o marqueteiro da campanha de Lula em 2002, admitiu na CPI dos Correios ter recebido pagamentos de campanha no exterior (10 milhões de dólares), pairam sobre o partido suspeitas concretas da existência de dinheiro escondido em paraísos fiscais.

Para os interrogadores de Alberto Youssef, no entanto, essas dúvidas estão começando a se transformar em certeza. O doleiro não apenas confirmou a existência das contas do PT no exterior como se diz capaz de ajudar a identificá-las, fornecendo detalhes de operações realizadas, o número e a localização de algumas delas.»

Interligne 18h

Se você ainda não sabia, agora sabe. Vote bem. E que os anjos digam amém.

Revista Veja 1Adendo
Quero acrescentar uma consideração. Pouco depois de o teor da reportagem ter passado a conhecimento público, um destacamento de uma cinquentena de vândalos – possivelmente contratados às pressas – dirigiu-se às cercanias do edifício-sede da revista.

Os mandantes encomendaram a surrada tática de investir contra o mensageiro a fim de desviar a atenção do conteúdo da mensagem. Distrai-se o porteiro enquanto os assaltantes passam.

Vista a urgência, com a hora agá batendo à porta, os militantes desprezaram a moda antiga de protestar – cartazes, faixas, megafone e slogans. Lançaram logo mão de maneira moderna mais impactante: picharam paredes e emporcalharam o chão com baciadas de papel picado.

Limpadores de rua 2Ao fim e ao cabo, a manifestação confirma que os acusados sentiram o golpe. Sabiam que todo feitiço acaba virando contra o feiticeiro, mas não esperavam que o retorno do bumerangue viesse tão rápido. E em hora tão incômoda.

Resultado prático: sobrou para varredores, garis e outros funcionários humildes. Serão obrigados a limpar a sujeira deixada por representantes dos que foram apanhados com a mão no saco. Ironicamente, a manifestação há de ter servido para aumentar a tiragem da revista.

Ah, se ao menos os limpadores pudessem varrer também a corrupção…