Scherzo

José Horta Manzano

Você sabia?

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Está aqui um quadro interessante. Traz a altura (corporal) de alguns figurões. Não sei quem é o autor, mas merece parabéns pelo esforço. Não é tarefa fácil coletar imagem desse pessoal, todos na proporção justa, alinhá-los, identificá-los. Quanto a mim, só tive de traduzir pés e polegadas em centímetros.

Os personagens antigos (Churchill e Hitler) são figuras históricas que cabem em qualquer comparação. Os demais eram os grandes de então – esse “então” há de ter sido uns dez anos atrás.

Pra que serve o quadro? Pra nada. È uno scherzo – é uma brincadeira. Bom domingo para os que já estão confinados em casa e para aqueles que logo estarão.

Fim da Guerra da Coreia

José Horta Manzano

A Guerra da Coreia (1950-1953) foi o primeiro «conflito por procuração» dos tempos modernos. Vitoriosos na Segunda Guerra Mundial, Estados Unidos e União Soviética tratavam de fincar mourões pra delimitar a própria área de influência.

Apesar do nome, a guerra dita «da Coreia» foi, no fundo, enfrentamento (mal) disfarçado entre as duas potências. Por detrás das tropas do norte, ativava-se a União Soviética, enquanto as tropas do sul eram armadas e sustentadas pelos EUA.

Lá pelo fim dos anos 1940, na Europa, a fronteira estava balizada, com clara delimitação do feudo de cada potência. Na expressão de Churchill ‒ um achado! ‒, uma «cortina de ferro» tinha descido sobre o continente, a marcar fronteira entre os dois espaços.

Na Europa, o assunto estava empacotado, nada mais havia a fazer. As Américas eram tradicionalmente zona de influência americana ‒ ninguém contestava. Na Ásia, ainda havia regiões onde o domínio estava por definir. O conflito entre o norte e o sul da península coreana tem muito que ver com essa marcação de território.

Depois de três anos e mais de um milhão de mortos, a briga terminou empatada. A Coreia foi dividida em duas partes, ficando cada uma na zona de influência de uma das potências. Com o passar das décadas, consolidou-se uma ditadura hereditária na Coreia do Norte e, no sul, o liberalismo econômico deu lugar a uma república próspera.

Apesar da unidade étnica, cultural e linguística, os dois países se deram as costas. De ameaça em provocação, passaram-se 65 anos sem que se vislumbrasse esperança de reconciliação. De repente, de onde menos se imaginava, está surgindo o desenlace do nó atado pela ausência de tratado de paz entre os beligerantes.

Paradoxalmente, Donald Trump, o cospe-fogo que preside os EUA, prepara-se pra entrar para a história como o pacificador das desavenças entre os dois irmãos inimigos do Extremo Oriente.

O presidente da Coreia do Sul é esperado em Washington dia 22 de maio para preparar, junto com seu colega americano, a inédita reunião entre as duas Coreias, patrocinada pelos EUA. Segundo Trump, a cúpula deverá ter lugar em breve, talvez ainda este mês.

Esse capítulo final da Guerra da Coreia, 65 anos depois de o último canhão ter silenciado, sinala que os Estados Unidos levaram a melhor sobre a extinta URSS. Venceram a guerra.

Consideração final
Se tudo der certo ‒ e parece que vai dar ‒, o atual belicoso presidente dos EUA, mais do que seu antecessor, estará a merecer o Nobel da Paz. Ou não?

 

Carta aberta à Senhora Presidente

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 1° nov° 2014

Prezada Senhora Dilma Rousseff,

Carta 1Antes de mais nada, quero dar-lhe parabéns pela vitória. Ainda que a franja de votos que a separa do adversário tenha sido menor do que a de quatro anos atrás, o triunfo, desta vez, tem mérito maior. Os votos que a elegeram em 2010 eram herança de seu antecessor. Já os de agora refletem o julgamento de seus quatro anos de governo. Felicitações!

Nada me obriga a fazê-lo, mas opto por eliminar toda ambiguidade: não lhe dei meu voto. Razões várias me levaram a supor que seu adversário reunia condições de dar ao Brasil orientação adequada. No entanto, o destino, cabeçudo, decidiu a seu modo. Não saberemos jamais como teria sido… o que não foi.

Campanha e debates, ataques e defesas, altivezas e baixezas – toda essa tralha faz parte do passado. Viremos a página. Nossa Constituição manda que o vencedor da corrida seja sagrado presidente. Coube à senhora o lugar mais alto no pódio. Que se cumpra a lei. Saudemos a presidente de todos os brasileiros.

Os primeiros dias são melindrosos. O calor da disputa pode demorar para arrefecer. Alguns relutam em catar os cacos, colá-los e recompor o vaso. Deixe estar, que o tempo é remédio para amores e dores.

Dizem que a senhora é autoritária. Ligue não. Churchill e De Gaulle – autocráticos, rígidos e voluntariosos – deixaram rasto de glória e de admiração.

Envelope 3Somos da mesma geração, presidente: nasci pouco mais de um ano antes da senhora. Crescemos num mesmo Brasil e sonhamos os mesmos sonhos. O País está hoje melhor, mas resta um bocado por fazer. É obra coletiva, que compete a cada cidadão. Alguns, como a senhora, dispõem de trunfos mais robustos. Eis por que lhe escrevo.

Meu primeiro pedido é, de todos, o mais importante. A divisão do povo brasileiro em duas categorias nebulosas – «nós e eles» – é semente de males doídos e duradouros. Garantido. Essa cisão tem sido instigada estes últimos anos. Nosso País está em processo acelerado de cisma.

Por favor, presidente, leve em consideração o alerta deste compatriota que já rodou mundo: determine a seus auxiliares que se abstenham de alargar brechas entre classes de cidadãos. Pretos e brancos, ricos e pobres, nortistas e sulistas, religiosos e descrentes são antagonismos que não vale a pena exacerbar. Fiquemos somente com o «nós» e deixemos o «eles» pra lá.

by Lailson de Holanda Cavalcanti, desenhista pernambucano

by Lailson de Holanda Cavalcanti, desenhista pernambucano

Gostei do seu discurso de vitória. A senhora já reparou, presidente, que seus pronunciamentos espontâneos são bem mais joviais que textos engessados? Digo-lhe sem ironia: está aí a prova de que o que lhe vai dentro é maior e melhor do que o papel que marqueteiros e assessores a instigam a representar. Procure dar mais valor ao bom senso e menos a assessores cujo objetivo nem sempre coincide com o seu.

Nossa Constituição veda, a titulares do Executivo, um terceiro mandato. A senhora está, assim, liberta de amarras que emperraram seu primeiro mandato. Não caia na tentação de impor sucessor. Deixe a missão para especialistas, que os há.

Na hora de escolher assessores, não se restrinja aos que pertencem a sua família política. Há gente pra lá de capaz na outra borda. Não hesite em convocá-los, que não é desonroso. Busque a competência onde estiver.

Presidentes galeriaOs atuais programas de transferência de renda são positivos. Seriam ainda mais benéficos e eficientes se fossem acompanhados de incentivos. Que tal encorajar beneficiários com microcrédito, formação técnica e ensino profissionalizante? A meta maior de seu quadriênio bem poderia ser a extinção gradual de programas assistenciais por… se terem tornado supérfluos. Já imaginou?

Outra coisa importante, presidente. O Congresso virou um balaio de gatos. O divórcio entre povo e eleitos é real. Um mês depois do voto, boa parte dos eleitores já esqueceu em quem votou. A solução é uma só: voto distrital. Divida-se o País em 513 distritos de população equivalente. Cada distrito elegerá, em dois turnos, seu deputado. Somente assim se criará o vínculo entre eleitor e eleito, atualmente inexistente.

Daqui a cinquenta anos, presidente, não estaremos mais aqui. Nem a senhora, nem eu. Quanto a mim, na melhor das hipóteses, terei direito a uma lápide com um nome e duas datas. A senhora estará nos livros de História.

Ucrania 1Suas decisões nestes próximos quatro anos determinarão se sua memória será louvada ou execrada. Para quem, como a senhora, exerceu o cargo maior, mais valerá ser lembrada como conciliadora do que como responsável pela ucranização do Brasil.

Receba meu respeito e minha esperança. Que Deus a ilumine.