Eleições vêm aí – 4

José Horta Manzano

No fim de março passado, Lula ainda era visto como provável vencedor da corrida presidencial. Não fazia muito tempo que Flávio B. tinha sido designado pelo pai como candidato, e muito poucos arriscariam suas fichas naquele sujeito desbotado e insosso. No entanto, a eleição estava muito longe e tudo poderia acontecer. Vorcaro e crise do STF não passavam nem pela mais delirante das mentes.

Mesmo sem me basear em pesquisa nenhuma, achei demasiado pretensioso de parte de Luiz Inácio lançar-se à corrida atrás de um quarto mandato. Me pareceu que ele estaria arriscando muito para ganhar pouco. Resolvi deitar essa impressão no papel. Preferi fantasiar meu texto de fábula de Natal, ainda que estivéssemos fora de época.

Designei o texto como artigo mensal a enviar ao Correio Braziliense para o fim do mês. Enviei. Os dias passaram, e nada de o texto ser publicado. Achei esquisito. Escrevi mail. Nada de resposta. Telefonei via uótisápi à diretora da Editoria de Opinião. Nada de resposta. Com o passar do tempo, entendi. Meu artigo havia tocado uma corda altamente sensível daquele pessoal. Eram lulopetistas mais fanáticos do que eu imaginava.

Me dei conta de que “Editoria de Opinião“ não era mais que um título pomposo, mas vazio de sentido. Publicam artigos de opinião desde que a opinião de quem escreve coincida com a opinião da editoria. Pus termo a uma relação de 15 anos de colaboração. Assim que tomei a decisão, publiquei minha “Cartinha ao presidente” aqui neste espaço. Afinal, aqui mando eu.

Meu artigo perdeu o momentum. Luiz Inácio manteve a candidatura, e não há meio de voltar atrás. Mas estou mais que nunca convencido de que o Lula, ao se candidatar para um quarto mandato, fez o maior erro de sua vida. Se ganhar, será uma vitória suada, apertada, sofrida, inexpressiva. E o risco de perder é grande.

Meu pensamento continua válido nos termos deste parágrafo que faz parte do texto de março:

Presidente, vamos ao que eu queria lhe dizer: desista da reeleição, não concorra, abandone. Na sua idade, na condição de quem já ganhou todas, pra quê teimar em nadar contra a corrente quando a correnteza é a esse ponto desfavorável? O senhor não precisa provar mais nada a ninguém. Foi presidente por dois mandatos, foi condenado e preso, saiu da cadeia e… tornou a subir a rampa do Planalto. Agora basta! Tudo está provado e conquistado!

E a conclusão diz ainda hoje o que eu queria dizer à época:

Resta-lhe pouco tempo para tomar a decisão. Ao insistir na candidatura, vosmecê estará pondo em risco sua biografia e seu legado, dado que a vitória periga ir para a extrema direita. Caso se candidate e perca, o senhor será lembrado como aquele que foi batido nas eleições e acabou entregando o poder aos extremistas. Se desistir, no entanto, conserva sua glória e embaralha o jogo eleitoral, abrindo boa chance de vitória para um não extremista ou até para um indicado seu, por que não?

Pense nisso! E tenha uma longa, feliz e merecida aposentadoria!

Não estou torcendo para ele perder. Tomara que ganhe e nos livre do clã B. Quanto a você, prezado leitor, e a você, graciosa leitora, se aguentou ficar até aqui, espere, que termino já.

No domingo, chova ou faça sol, vá votar. Nada de branco ou nulo. Vote de verdade. Nem preciso fazer recomendação. Quem frequenta este blogue não vota na extrema direita nem em linha auxiliar que possa favorecer extremistas.

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.