Não é pelo que se come entre o Natal e o réveillon que a gente engorda. É pelo que se come entre o réveillon e o Natal.
Vem de cima
José Horta Manzano
Desde pequenino, a gente ouve dizer que o exemplo vem de cima. É pura verdade. Assim como a criança se molda imitando os adultos, a sociedade se norteia pelo exemplo de seus líderes. É lógica da qual não dá pra escapar.
O cão rosna para afastar quem ousar se aproximar dele na hora da comida. Por natureza, o homem também é egoísta. Se se deixar dominar pelo instinto, não há de se comportar de modo diferente. Não somos espontaneamente altruístas – muito pelo contrário. «Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro.»
A educação, a família, a escola, a sociedade e – mais importante ainda – os que estão no topo da pirâmide são os que ditam o ritmo e o tempo da valsa. Com pequenas variantes individuais, os cidadãos de determinada sociedade costumam agir e reagir de modo coerente e homogêneo.
Petrificado, leio que vítimas de um desastre ferroviário nos arrabaldes do Rio de Janeiro foram assaltadas enquanto aguardavam por socorro.
Já tinha ouvido falar em roubo de carga espalhada na estrada por motivo de colisão de veículos. Já tinha ouvido falar em saqueio a casas abandonadas por motivo de terremoto ou tsunami. Já tinha até ouvido falar em assalto a cidadãos presos no tráfego e impossibilitados de se defender.
De agressão a vítimas de acidente, é a primeira vez que tenho notícia. Parece difícil que nossa sociedade descambe ainda mais baixo na escala da selvageria. Até brutamontes do Velho Oeste sabiam que não se atira em homem caído. Todo bandido sabe que tampouco se deve atirar em ambulância.
Assaltar vítimas de desgraça – infligindo-lhes, assim, duplo castigo – é covarde e ignóbil. É ato incompreensível num País cuja presidente afirmou, ainda outro dia, que seu governo é «o que mais tem combatido malfeitos».
Das duas, uma:
1) A correia de transmissão de valores, que deveria conduzir o exemplo do topo à base, está emperrada. Há que providenciar conserto urgente.
2) Ou então – o que é bem pior – a correia está, sim, funcionando. O comportamento abjecto dos que assaltaram vítimas de desastre é mero reflexo do comportamento dos inquilinos do andar de cima. Os valores do topo estão-se alastrando para a base. Meu pirão primeiro, companheiro!
O distinto leitor é livre de escolher a opção que lhe pareça mais adequada.
Uma paisagem diferente
Carlos Chagas (*)
Voltaire tinha acabado de chegar a Paris. Jovem voluntarista, ao saber que o regente, Philippe d’Orléans, por medida de economia, decidira vender metade da real cavalaria, escreveu que, em vez de se desfazer dos cavalos, o soberano deveria livrar-se dos asnos que gravitavam ao redor do trono.
Passeando no Bois de Boulogne, o regente deparou-se com Voltaire e ofereceu-lhe uma paisagem por ele desconhecida: uma cela na Bastilha, com vista para a capital francesa.
Depois de alguns meses, arrependido, Philippe mandou soltar o prisioneiro e ainda lhe outorgou uma pensão mensal. O irreverente crítico agradeceu, em carta, acentuando a satisfação pelo fato de o governo provê-lo de alimentação. Mas abria mão da hospedagem…
Não se deve interpretar os julgamentos pelo que eles não são. Os mensaleiros vêm sendo dispensados da hospedagem a eles oferecida e da inusitada vista de Brasília pelas janelas da Papuda. Parecem felizes por cuidar da própria alimentação…
Carlos Chagas é advogado, jornalista e radialista. O texto é excerto de artigo publicado no Diario do Poder, 2 jan° 2015.
Um pouco d’arte ― 27
Até o Vietnã!
José Horta Manzano
Você sabia?
Em superfície, o pequeno Vietnã, situado na península indochinesa, é o 64° entre os países. Para compensar, é densamente povoado. Com seus quase 90 milhões de habitantes, aparece classificado em 14° lugar.
Em meados do século 19, a França tomou conta da região e fez dela a colônia conhecida como Cochinchina(1). À custa de mais de 20 anos de luta, o território conseguiu se livrar dos franceses. Os acordos de independência foram assinados em 1954.
O sossego não teve vida longa. Dez anos depois, o país foi invadido pelos americanos, que tinham por objetivo barrar a ameaça comunista vinda da vizinha China. A guerra foi terrível e desigual. De um lado, estava o exército mais poderoso do planeta; do outro, viam-se combatentes de pés descalços.
É verdade que a China e a União Soviética deram sólido apoio. Mas há que se reconhecer o valor dos pequenos vietnamitas. Acabaram despachando os americanos de volta pra casa. A briga entrou para a história como a única guerra oficialmente perdida pelos EUA. Uma façanha!
Do país destroçado de quarenta anos atrás, surgiu um novo Vietnã à força de muito trabalho. Turismo, exportação de peixes, de crustáceos, de café e de outros produtos agrícolas formam hoje a base da receita. Já faz anos que o crescimento do PIB é superior a 5% ao ano.
Artigo do portal VietnamPlus de 4 jan° 2015 informa que o comércio com o Brasil movimentou 3 bilhões de dólares nos 11 primeiros meses de 2014. Prevê-se forte aumento para estes próximos anos.
O Vietnã exporta manufaturados ao Brasil: telefones celulares, fibras artificiais, sapatos, sandálias(!). Nossas exportações para aquele país constituem-se, essencialmente, de produtos agrícolas: milho, soja, tabaco, algodão.
Parece-me paradoxal que um país com importante parque industrial como o Brasil tenha de importar celulares, sapatos e sandálias(!) do Vietnã. Parece que o mundo está de cabeça pra baixo. Nós é que deveríamos estar exportando esses produtos para eles.
Por que é que, em vez de saquear a Petrobrás, nossos governantes não se preocupam em apoiar e fomentar a pequena indústria brasileira? Por outro lado, como é possível que os mesmos elementos(2) continuem sendo sufragados, eleição após eleição? Será que a casa não vai cair um dia?
(1) Atenção! Não é Conchinchina. É Cochinchina – a letra o não é nasalizada. Pronuncia-se como se fosse Co-chinchina.
(2) No jargão policial, meliantes costumam ser designados como elementos.
Máximas do Barão ― 19
«Orçamento é uma conta que se faz para saber como devemos gastar o dinheiro que já gastamos.»
Apparicio Fernando de Brinkerhoff Torelli, “Barão de Itararé” (1895-1971), humorista gaúcho
O ministro da Ciência e Herodes
Cláudio Tognolli (*)
“Como você vai fazer um barco navegar contra o vento e contra a corrente, só acendendo uma fogueira embaixo do tombadilho?”, perguntava-se, publicamente, em 1803, Napoleão Bonaparte, sobre o barco a vapor do engenheiro americano Robert Fulton.
“Colocar um homem em um foguete e projetá-lo até o campo gravitacional da Lua – talvez pisar lá – e voltar à Terra: tudo isto constitui um sonho maluco digno de Júlio Verne. (…) Esse tipo de viagem feita pelo homem nunca vai acontecer, independentemente de todos os avanços no futuro”, estabeleceu o físico Lee DeForest, em 1957.
“Pessoas bem informadas sabem que é impossível transmitir a voz através de fios e que, se fosse possível fazer isto, esta coisa não teria valor prático algum” – editorial do Boston Post, em 1865, redigido por um jornalista indignado com a invenção do telefone.
O que esperar de Rebelo?
O novo ministro da Ciência, Aldo Rebelo, é comunista de carteirinha e também jornalista. Entregar a ciência a Aldo Rebelo é como entregar o berçário ao Rei Herodes. E as patacoadas disparadas contra as invenções científicas mais populares, como você leu acima, é o que devemos esperar de Rebelo. Se ele resolver abrir a boca, é claro.
Não vai aqui nenhum ataque pessoal, ad hominem, contra Rebelo. Filiado ao PC do B desde 1977, seria de estranhar se ele não fosse comunista profissional. O que é comunista profissional?
É aquele para quem só existe o que podemos tocar com as mãos. (Para eles, assim sendo, Gisele Bündchen não existe…) Afinal, “a prova da existência do pudim está em comê-lo”, notava Engels, coautor do Manifesto do Partido Comunista.
Valores medievais
Aldo Rebelo pode ser entendido também por outra explicação comunista. O pensador marxista alemão Ernst Bloch (1885-1977) gostava de apontar o que chamava de “contemporaneidade do anacrônico” (em alemão, Gleichzeitigkeit der Ungleichzeitigkeit).
Ou seja: você vive no século 21, mas pode estar dividindo o seu espaço, lado a lado, com quem ainda mantém valores medievais. Ou simplesmente com quem acha que a ida do homem à Lua não passa de montagem de vídeo.
Aldo Rebelo é tudo isso aí. Costuma dizer que não há aquecimento global porque ele é “improvável”.
Vamos a casos recentes:
– Rebelo é pai daquela loucura de que estrangeirismos tinham de ser limitados no Brasil. Aprovado por unanimidade na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania em 2007, o projeto ainda aguarda votação em plenário. Se ele vingar, o aplicativo Whats Up terá de se chamar “E aí?”; o mouse do computador, “rato”; I-Pad, “Eu bloco”.
– Em 2002, Aldo propôs a proibição de “inovação tecnológica poupadora de mão de obra”. Seriam proibidas as fotos digitais e as xeroxes.
– Em 2000, Aldo tentou proibir a utilização de sistema de catraca eletrônica em veículos de transporte coletivo de passageiros.
– Em 2001, defendeu a adição obrigatória de 10% de raspa de mandioca na farinha de trigo destinada à fabricação do pão francês, o famoso pãozinho de 50 gramas. A ideia era “melhorar os nutrientes do pão e fomentar a cadeia de produção da mandioca”. Aprovado no Congresso, o projeto foi vetado. Por quem? Por Lula.
– Em 2003, tentou transformar o Halloween (Dia das Bruxas), celebrado em 31 de outubro nos Estados Unidos, no Dia Nacional do saci-pererê.
É esse o nosso homem na ciência. E ponto final.
(*) Claudio Tognolli é escritor, jornalista e músico. O artigo foi publicado pela Tribuna da Internet, 1° jan 2015..
Um pouco d’arte ― 26
Os problemas que não temos
José Horta Manzano
Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 3 jan° 2015
Entrada de ano é hora de balanço. Todos nós, coração amolentado, olhamos pra trás, analisamos nossos próprios feitos e juramos de pés juntos fazer mais caprichado no ano que entra. Junto com o peru, a farofa e a troca de presentes, o exame de contrição faz parte do ritual da passagem de ano.
Canais de tevê, jornais, revistas e portais fazem questão de propor retrospectivas do ano que se foi. Pouca atenção se dá a acontecimentos positivos. Em compensação, é impressionante o que se vê de desastre e de desgraça. Compreende-se: coisa ruim vende melhor.
É verdade que, no Brasil, 2014 foi um ano e tanto. Eleições, seca saariana, vexame na Copa, violência endêmica, corrupção aos borbotões assustaram. Os problemas que temos são pesados. Às vezes nos fica a impressão de estarmos vivendo no pior país do planeta. Será mesmo?
Nestes dias flutuantes que separam passado e futuro, proponho darmos uma espiada no quintal do vizinho. Vamos, por um momento, esquecer nossas mazelas e imaginar a aflição de outros povos.
Os Estados Unidos, símbolo de desenvolvimento e sucesso, estão sacudidos por distúrbios raciais. Ressurgem os espantalhos que imaginávamos falecidos com o último dos hippies.
Serra Leoa e outros territórios da África Ocidental choram seus mortos. Estão sendo dizimados por severa epidemia, mal terrível contra o qual pouco ou nada se pode fazer.
Desvario na condução da economia mergulhou nossa vizinha Venezuela no desabastecimento e na hiperinflação. O país resvala para a anomia.
Todos os Estados da orla do Pacífico vivem na permanente angústia de terremoto ou tsunami, catástrofes que podem irromper sem dizer água vai.
Empurradas pela miséria, populações inteiras arriscam a pele na temerária travessia do Mediterrâneo a bordo de embarcações precárias em busca de vida melhor na Europa. Esse fluxo continuado de infelizes aporta na Itália, onde acaba gerando fortes tensões que esgarçam o tecido social.
Os países produtores de petróleo do Oriente Médio, aqueles cuja única riqueza repousa na extração do ouro negro, sabem que a qualquer hora a fonte vai secar. Imagina-se a apreensão criada por essa perspectiva.
As duas Coreias vivem situação paradoxal. A do norte passa fome. A do sul vive há 60 anos na apreensão de um ataque do irmão desorientado.
Os iranianos pelejam contra o olhar reprovador do resto do mundo. Além de serem vistos com desconfiança, sofrem sanções que lhes sufocam a economia.
Já faz meio século que nossos vizinhos colombianos vêm tentando varrer do país o estigma da narcoguerrilha. Sem sucesso até agora.
Na França, imigração maciça oriunda das antigas colônias africanas tem semeado crescente discórdia entre franceses «de raiz» e recém-chegados. Essa cizânia é alimento para correntes políticas populistas e neonazistas, que ganham adeptos a cada dia.
Os países da África subsaariana, já castigados pela pobreza endêmica e pela natureza hostil, ganharam mais um inimigo. Grupos terroristas elegeram domicílio na região, que se tornou, de facto, território sem lei.
A queda vertiginosa do preço do petróleo, aliada às sanções aplicadas por países ocidentais, reduziu dramaticamente as rendas do Estado russo. Refletindo a desesperança, a moeda nacional perdeu boa parte de seu valor. Como de hábito, quem sente o baque é o povo.
Espanha, Turquia, Ucrânia, China são dilaceradas por crônicos movimentos separatistas – explícitos ou latentes. O estado insurreccional pode até, por momentos, se aquietar. Mas é calmaria que não ilude: por baixo da brasa, o fogo cochila. Um sopro basta para reavivá-lo e incendiar o país.
E o Brasil, bonito por natureza, como é que fica? Temos nossos problemas, sim. Seria hipocrisia negá-lo. No entanto, sopesando os males que corroem outros países, impõe-se o óbvio: nossos problemas têm solução.
De fato, não dependemos da benevolência de governos estrangeiros, nem da descoberta de vacina milagrosa, nem da clemência da natureza. Não temos guerrilhas a combater, nem separatistas a derrotar, nem inimigos a temer. A faca, o queijo, a responsabilidade e a chave do futuro estão unicamente em nossas mãos – bênção de que outros povos não dispõem!
Quem quer mudar, muda. Quem não quer, reclama. Que tal incluir, nas intenções de fim de ano, a mudança de atitude? Que tal arregaçar as mangas e meter mãos à obra? A recuperação do País requer empenho de todos. Temos de salvar o que ainda pode ser salvo. E é bom acharmos logo solução contra a dissolução de nossa sociedade. Feliz ano-novo!
Os cinco selecionados
José Horta Manzano
Diplomacia não é o forte de dona Dilma – isso não é novidade. Mas há momentos em que ela consegue se superar e atingir a excelência na arte de maltratar autoridades estrangeiras.
Reportagem do jornal O Globo informa que nossa presidente recebeu 15 pedidos de entrevista formulados por autoridades estrangeiras que vieram prestigiar sua tomada de posse. Dos quinze, só cinco foram atendidos. Madame descartou dez.
Assim, dois terços dos solicitantes voltarão para casa chupando o dedo. E pensar que, depois de abandonar família e amigos no réveillon de ano-novo, essa gente atravessou mundo para aplaudir dona Dilma. Não os receber é grande falta de educação. Se concedesse dez minutos a cada um, em menos de duas horas a fatura estaria liquidada. Além de malcriada, a presidente está sendo mal aconselhada – o que tampouco é novidade.
O artigo não diz quem foram os rechaçados. Mas dá a lista dos que foram atendidos. São eles: o representante dos EUA, o da China, o da Suécia, o da Venezuela e o da Guiné-Bissau. Vamos tentar adivinhar a razão dessa seleção.
Estados Unidos e China são os mais importantes parceiros comerciais do Brasil. Recusar-lhes o pedido de entrevista seria pecado mortal. Faz sentido.
Quanto à atenção dedicada ao primeiro-ministro sueco, a explicação deve ser buscada nos 36 aviões de caça Gripen encomendados pelo Planalto. Conforme já comentei em meu artigo Os aviõezinhos, há negociações em curso para aumentar o volume encomendado. Passará de 36 a 108 aparelhos, num valor total de cerca de 50 bilhões de reais. Sem dúvida, num negócio dessa magnitude, o acerto de determinados «detalhes» vale meia hora do precioso tempo presidencial.
Señor Maduro, mandatário da infeliz e “bolivariana” Venezuela, foi outro para quem dona Dilma abriu as portas da sala de visitas. A intenção há de ter sido consolar o companheiro em perdição. O coitado deve estar-se sentindo cada vez mais só, depois que Cuba – importante membro do clube anti-imperialista – anunciou seu desligamento para dentro em breve.
O último dos agraciados com a simpatia de nossa presidente foi o mandachuva da Guiné-Bissau, país qualificado como narcoestado pela Agência da ONU contra a Droga e o Crime. Pobre, com área pouco superior à do Estado de Alagoas, a Guiné vive da exportação da castanha de caju. Oficialmente.
Por lá, é raro que se passe um ano sem golpe de Estado e assassinato de dirigentes. Bissau é conhecido ponto de passagem da cocaína proveniente da Colômbia. É “hub” importante. De lá, a droga é redirecionada para diversos destinos europeus, para onde é levada por infelizes que conhecemos como ‘correios’, ‘mulas’ ou ‘aviõezinhos’.
Não atino qual seja o interesse de nossa presidente em receber o atual homem forte de país tão estranho. Ela deve conhecer a razão. Se não, seus aspones saberão.
As dez autoridades rechaçadas deviam representar pouco interesse aos olhos da tosca diplomacia do Planalto. Como dizia o outro: “Dize-me a quem concedes entrevista e dir-te-ei quem és”.
A data incômoda
José Horta Manzano
Não adianta, é de lei: o fruto nunca cai muito longe da árvore. O Brasil herdou, da antiga metrópole lusa, espírito burocrático e cartorial. Volta e meia, um sinal de recaída aparece aqui e ali.
O mais recente é o anúncio do novo salário mínimo. Todos esperavam 790 reais. O martelo foi batido a 788 reais. Por medida de economia! Alguém falou em mesquinharia? Bota mesquinharia nisso, compadre! Comparada com os bilhões roubados pelos pilantras que nos governam, é avareza revoltante.
A Constituição «cidadã», de 1988, não foge à regra. Com quase 250 artigos, figura entre as mais extensas do mundo. Detalhista, esmiuçada, amarrada, é um primor de complicação.
Entre outras minúcias, fixou até a data exata de início do mandato dos eleitos. Ninguém sabe bem por que, optou pelo primeiro dia do ano. Deve ter parecido lógico aos constituintes. Nenhum deles se perguntou se a data era oportuna.
Pois não era. E continua não sendo. Que vereadores, prefeitos, deputados e governadores assumam a função no dia primeiro de janeiro, pouco incomoda. Já com o presidente da República, a coisa muda de figura. Prestígio de mandatário-mor se mede, entre outros parâmetros, pela presença de autoridades estrangeiras à cerimônia da tomada de posse.
Agora imagine o distinto leitor. Acredita sinceramente que toda essa gente fina que governa o mundo vai abandonar família e amigos, renunciar aos festejos da passagem de ano e viajar na noite de ano-bom só para se mostrar ao lado do presidente do Brasil? Até a governante de país vizinho e hermano anunciou, dias atrás, haver sofrido uma entorse. Luxação presidencial e providencial, que lhe evitou o aborrecimento de viajar na passagem do ano.
Resultado: o presidente do Brasil costuma assumir seu cargo diante de uma plateia ralinha, formada por subs, vices e representantes. Neste país onde a inflexibilidade burocrática impera, já faz um quarto de século que o problema permanece. Insolúvel.
E pensar que se pode resolvê-lo até sem mexer na Constituição «cidadã». Como? Ora, basta fazer como noivos modernos. Antigamente, era praxe casar no civil e no religioso no mesmo dia. E espichar com uma festa.
Hoje, já se admite separar os eventos. O casamento diante do juiz de paz será cerimônia simples, celebrada na presença dos padrinhos e do círculo familiar mais próximo. O ato religioso e a recepção não precisam ser necessariamente no mesmo dia.
O cerimonial do Planalto poderia encaixar o ritual nesses moldes. Dia 1° de janeiro, de conformidade com a lei, o presidente assumiria o cargo e anunciaria o ministério. Cerimônia simples, sem pompa, sem baile, sem queima de fogos. Alguns dias depois, viria a recepção, com caviar, pé de moleque, champanhe e convidados.
A festa poderia ter data fixa ou aleatória. Pode-se fixar, por exemplo, a segunda quinta-feira de janeiro ou o terceiro sábado. Pode-se também marcar a cada quatro anos. Talvez seja até melhor não engessar o dia – nunca se sabe o que vai estar acontecendo no planeta daqui a quatro anos.
Enfim, se os do andar de cima fossem gente de bom senso, não estaríamos na situação em que estamos.
Mais uma vez, feliz ano-novo a todos!
Os réveillons
José Horta Manzano
Champanhe na geladeira, peru no forno, farofa na mesa, é o réveillon que chegou. Época de confraternização, de alegria e de bons propósitos para o novo ano.
Réveillon – de onde é que vem essa palavra? Pois é francesa. Vem do verbo latino vigilo, que significa estar desperto. Em nossa língua deu numerosos filhotes: vigiar, vigilante, vigília (véspera de certas festas religiosas), velar e até velório. Todos carregam o sentido de cuidar, de não estar dormindo.
No Brasil, associamos o réveillon unicamente à noite de fim de ano. Já os franceses dão sentido mais amplo. A noite de Natal é chamada réveillon de Noël – a vigília de Natal. A passagem de ano é dita réveillon de la Saint-Sylvestre.
Bom réveillon a todos e boas-entradas, como se dizia antigamente. Que 2015 seja alegre, sorridente e traga muita saúde!
A tragédia da língua portuguesa
Dad Squarisi (*)
Tornou-se lugar-comum falar na baixa qualidade do ensino. Em testes nacionais, comprova-se, ano após ano, o mau desempenho dos alunos, sem domínio das habilidades de ler, escrever e fazer as quatro operações. Em exames internacionais como o Pisa, os estudantes brasileiros figuram na rabeira dos concorrentes.
O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2013 chama a atenção para o resultado da língua portuguesa. Mais de 5 milhões de jovens se submeteram à avaliação para concluir o ensino médio, entrar em universidade pública, participar de programas de intercâmbio, obter bolsa de financiamento em instituições privadas. No total, 14.715 escolas compõem o ranking.
Pouco mais de um terço (33,87%) obteve nota abaixo de 500 na redação. Foram reprovadas. Levando-se em consideração o desempenho individual, mais da metade dos alunos de 3.900 colégios tiraram nota vermelha. O fracasso na produção de texto implica soma de incompetências. Entre elas, falta de domínio da norma culta; incapacidade de leitura e compreensão de enunciados, de organizar e interpretar informações, de argumentar, de transitar de uma ideia para outra.
Avaliar a redação vai além de analisar a habilidade de escrever. A língua funciona como pré-requisito para as demais disciplinas. Antes de resolver um problema de matemática, por exemplo, o estudante precisa entender o enunciado. Ele pode até saber o raciocínio para chegar à resposta, mas é incapaz de perceber o que a questão pede. Limitação similar se observa em geografia, história, biologia. O jovem estuda, mas não aprende.
Ele é vítima de uma a escola que não ensina. Currículos desatualizados, material didático de má qualidade, bibliotecas mortas, laboratórios decorativos aliam-se a professores desmotivados e sem a qualificação necessária. Espaços assim funcionam como castigo para rapazes e moças que vivem em universo tecnológico povoado de atividades desafiadoras.
Sentar-se calado, um atrás do outro para ouvir o professor que repete o que está nos livros ou copiar matéria do quadro é cena do século 19, quando estabelecimentos preparavam os empregados exigidos pela revolução industrial. Não condiz com a sociedade do conhecimento, que exige profissionais proativos, empreendedores, aptos a responder a desafios com criatividade.
Como chegar lá? O ponto de partida é o professor. A carreira do magistério deve atrair os melhores talentos. Para tanto, além de formação acadêmica, impõe-se carreira top. Os brasileiros ambiciosos devem saber que vale a pena ser docente. Não só pelo salário, mas também pela progressão profissional e pelo respeito da sociedade.
(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.
De ponta-cabeça
José Horta Manzano
Você sabia?
As coisas não têm valor intrínseco – têm o valor que lhes atribuímos. Se um objeto qualquer «vale» tal montante, é porque há comprador disposto a dar por ele esse valor. Caso ninguém estiver disposto a despender tal montante, o valor do objeto será mais baixo.
Bens diferentes são avaliados por critérios diferentes. No caso de um imóvel, por exemplo, leva-se em consideração a localização, a área, as comodidades e outros itens. Caso se avalie um automóvel, os parâmetros serão outros.
Quando se trata de avaliar um bem imaterial – como uma moeda nacional (euro, dólar, iene) – o primeiríssimo critério é a confiança que se deposita em sua solidez e em sua capacidade de atravessar, incólume, crises planetárias.
Quando o bicho começa a pegar, capitais gigantescos – voláteis por natureza – buscam porto seguro. Exatamente como fazem barcos à vela ao se darem conta de que tempestade se aproxima.
Quais seriam esses portos seguros? O ouro é resposta clássica, mas não única. Entre as moedas nacionais, sobressai o franco suíço, considerado valor refúgio por excelência. É surpreendente que a moeda deste pequeno país suscite no mundo dos negócios um respeito que não condiz com o tamanho da economia nacional. Seja como for, esse interesse gera supervalorização do franco.
Três anos atrás, o euro levou um tombo. Sua cotação caiu uma barbaridade principalmente com relação ao franco suíço. De repente, para os europeus, produtos suíços se tornaram extremamente caros. A exportação, que tem peso importante na economia deste pequeno país, sofreu um baque. A chegada de turistas estrangeiros desacelerou.
À vista disso, o Banco Nacional Suíço, que faz as vezes de banco central, teve de entrar rapidamente em ação a fim de deter a valorização excessiva do franco. Fixou uma meta para o câmbio: o euro não deve descer abaixo de Fr. 1,20. Faz três anos que, por meio de compra maciça de euros, o objetivo tem sido alcançado.
Estes últimos tempos, porém, com a crise do rublo e a baixa do preço do petróleo, grandes capitais tornaram a comprar francos suíços em busca de porto seguro. O resultado é que a moeda nacional ameaça valorizar-se de novo, comprometendo as exportações.
Faz duas semanas, as autoridades monetárias do país decidiram adotar medida extrema e inusitada: estabeleceram o «juro negativo». Grandes investidores estrangeiros – principalmente bancos de outros países – deixam de receber juros e passam a pagar pelo direito de depositar seus capitais na Suíça. Atualmente, a taxa é de 0,25% ao ano.
Vasto mundo. Enquanto a maioria faz o que pode para atrair capitais, a Suíça dá-se ao luxo de repelir esses bilhões. Como se diz por aqui, «il faut de tout pour faire un monde» – pra fazer o mundo, precisa um pouco de tudo.
Frase do dia — 216
«Céus, o Amorim!»
Exclamação entreouvida num elevador. Foi emitida por alguém que tinha acabado de ler a notícia de que o senhor Amorim está em vésperas de ser nomeado ministro de Relações Exteriores pela terceira vez.
Elevador emperrado
José Horta Manzano
Entre as chamadas deste domingo, a Folha de São Paulo traz a história de dois garotos adolescentes. Ambos se dedicam à dança clássica e acabam de ser selecionados para uma competição na Suíça.
Num primeiro momento, não entendi bem a razão pela qual tanta importância era dada ao assunto. O que é que justificava o destaque em primeira página, com foto e tudo? Bastou ler a legenda para entender: a origem dos dois – humilde, como se diz – não os destinaria a seguir um caminho em princípio reservado às elites. O artigo diz, logo de saída, que um dos jovens é filho de policial militar e o outro, de empregada doméstica.
Lembrei então que, no Brasil, o salto é muito grande. Não se imagina que filho de família de poucas posses possa ir muito mais longe que seus pais. Filho de empregada doméstica que se torna bailarino internacional? Inimaginável! É como filho de operário se formando doutor.
Devo confessar que, nessa história, o que me choca é outra coisa. Das entrelinhas da reportagem salta à vista uma verdade não pronunciada: a de que é (quase) certo que pobre não tem futuro. A história dos dois rapazes é enxergada como inabitual, exceção absoluta, conto de fadas.
A meu ver, é aí que reside o problema maior. Mobilidade social, no Brasil, é fato raríssimo. Os entraves para «subir na vida» são tão numerosos, que caso de sucesso merece destaque de primeira página.
Na Europa, não é assim. Por aqui, as oportunidades são mais homogêneas. Raras são as escolas particulares. Existem algumas, com aulas unicamente em inglês ou alemão, dedicadas a estrangeiros. Tirando esses casos especiais, toda criança vai à escola pública. E, atenção, não dá pra escolher escola! A criança tem de frequentar a escola do bairro onde mora. O resultado é que o filho do médico e o do lixeiro se sentam lado a lado. Recebem o mesmo ensino e têm chances iguais de seguir a carreira que melhor lhes apetecer.
No Brasil, um país onde as disparidades sociais já são gritantes, a escolarização serve para alargar ainda mais as distâncias entre estratos de população. Atenção tem sido dada à distribuição de renda, o que é muito bom e necessário. A educação da meninada, no entanto, é o parente pobre do sistema. Continua relegada ao deus-dará.
Em vez de estabelecer quotas universitárias baseadas em critérios raciais(!), melhor faria o governo se investisse na educação e na formação das jovens gerações. No Brasil, o elevador social anda emperrado.
A condição básica para agilizar a mobilidade social é universalizar o ensino de qualidade. Se começarem hoje a investir nesse sentido, dentro de 20 anos ninguém mais se espantará ao ver filho de lavadeira com canudo debaixo do braço.
Brasil, casse a concessão da pilhagem
Guilherme Fiuza (*)
«Um crescente número de pessoas que se acham sérias e não estão (ainda) a soldo do petismo deu para dizer por aí que o petrolão é normal. Quer dizer: uma coisa bem brasileira, arraigada no Estado patrimonialista e toda aquela sociologia de beira de praia.
É o mesmo recurso estilístico sacado por Lula no mensalão: caixa dois todo mundo faz. Um empresário chegou a escrever que hoje se rouba até menos na Petrobrás que em outros tempos.
Vamos explicar aos ignorantes ou mal-intencionados (a esta altura, dá no mesmo): o PT não ficou igual aos outros; o PT não é corrupto como os outros, nem um pouco menos, nem um pouco mais. O PT é o único – sem antecessor na história do Brasil – que montou um sistema de corrupção no Estado brasileiro, de dentro do Palácio do Planalto, para enriquecer o partido e se eternizar no poder.»
(*) Guilherme Fiuza é jornalista e escritor. Excerto de artigo publicado na revista Época. Para ler na íntegra, clique aqui.
Cui bono?
José Horta Manzano
Com as devidas adaptações, nosso direito deriva do direito romano. Dois milênios nos separam do tempo dos césares, é verdade. Muita coisa mudou no mundo, é verdade. De lá pra cá, juristas foram forçados a legislar sobre fatos e coisas novas, é verdade. No entanto, certos princípios desafiam o tempo e continuam vivos, fortes e válidos.
Na hora de analisar um crime ou mesmo um singelo «malfeito», o bom investigador faz a mesma invariável pergunta que já faziam os romanos: «Cui bono?»(1) – quem se beneficia? Excetuados os crimes cometidos por desequilibrados, imprevisíveis por natureza, a resposta a essa pergunta costuma oferecer boas pistas na busca do culpado.
O titular da Controladoria-Geral da União, senhor Jorge Hage, não calçou luvas de pelica para emitir sua apreciação sobre a compra da refinaria de Pasadena pela Petrobrás em 2006: «Não foi um mau negócio. Houve má-fé mesmo» – fulminou.
Não foi palpite lançado numa roda de amigos. Tampouco foi retalho de conversa entreouvido num elevador. A (pesada) acusação emanou do ministro-chefe da CGU, um dos postos mais elevados da República. Não se pode descartá-lo como se fosse tolice.
A CGU constatou que o rolo alinhavado entre a belga Astra Oil e a Petrobrás resultou em prejuízo de mais de 650 milhões de dólares para a petroleira brasileira. Estamos falando de quase 1,8 bilhão de reais de prejuízo, minha gente!
É sabido que os membros da alta cúpula da Petrobrás são despreparados. Vamos admitir que, além disso, sejam ingênuos – hipótese pouco provável. Ainda assim, não é cabível a suposição de que tenham sido levados no bico pelos loiros de olhos azuis.
Afinal de contas, nossa petroleira conta com 85 mil funcionários, entre os quais, com toda certeza, peritos altamente capacitados e bem formados. Compra de bilhões não se conclue assim, num estalar de dedos, num sarau a portas fechadas. Nem mesmo dona Carochinha, com sua ingenuidade infantil e imaginação fértil, acreditaria nisso.
É chegada a hora da pergunta dos romanos: «Cui bono?». A quem interessava esse negócio podre? Quem se beneficiou com a falcatrua? A diretoria de nossa petroleira, aquele mesmo pessoal que assistia ao saqueio da empresa, teria então, por descuido, atirado pela janela quase dois bilhões? Não é concebível.
Fosse eu a investigar, daria uma olhada na movimentação bancária da companhia belga que empurrou aquele ativo podre à Petrobrás. Fico curioso pra saber que caminho seguiu a dinheirama depois de ter sido remetida a Bruxelas.
Tenho cá minha ideia. No entanto, não tendo como provar, prefiro não lançar acusação. Com sua costumeira argúcia, meus distintos leitores já devem ter compreendido. Aí tem coisa.
(*) A pergunta retórica «Cui bono?» é, às vezes, substituída por «Cui prodest?». Tanto faz. Ambas procuram descobrir quem é que levou vantagem com o crime.
Os sinos e a Petrobrás
Cora Rónai (*)
É Natal, bimbalham os sinos, o mundo gira e a Lusitana roda — mas, nem por isso, as informações sobre a roubalheira na Petrobrás deixam de nos surpreender. Ou, como gosta de dizer a “presidenta”, de nos estarrecer. Assisti à entrevista que a Venina deu à Glória Maria, e fiquei estarrecida. Não com as denúncias — afinal, eu precisaria ser mais ingênua do que Dilma e Graciosa juntas para acreditar que nem uma nem outra sabiam do que se passava na empresa — mas comigo mesma por, paradoxalmente, não mais me estarrecer diante do que ouvia.
Sinto que nada do que eu possa vir a saber sobre a Petrobrás ou sobre o governo poderá, jamais, me estarrecer; a minha capacidade de estarrecimento está esgotada.
A única coisa que ainda me causa algum espanto em relação à Petrobrás é o profundo silêncio dos seus 85 mil funcionários. Cadê os protestos? Cadê as passeatas? Cadê a vergonha na cara?
(*) Cora Rónai é jornalista e escritora. O texto é excerto de sua coluna d’O Globo, 25 dez° 2014.












