Visto do Vietnã

Explosão da fome que atinge 33 milhões de brasileiros
Le Courrier du Vietnam, 10 junho 2022

 

José Horta Manzano


Notícia boa interessa pouca gente. É por isso que às vezes demora a chegar.

Notícia ruim atrai a atenção e chega rápido feito corisco.


Você conhece o Vietnã? Sabe apontar o país num mapa? Não é fácil. Fica lá na Cochinchina. Pensa que é brincadeira minha? Não é. Parte dos contornos do Vietnã atual coincidem com a costa que os navegadores portugueses visitaram 500 anos atrás e chamaram Cochinchina.

A linguagem popular costuma dizer “Conchinchina”, acrescentando um N que não aparece no original. Esse N sobra. É Cochinchina mesmo.

A origem do nome é curiosa. É obra dos navegantes portugueses. Quando aportaram naquelas costas, já fazia anos que tinham aberto um posto de comércio no litoral da Índia, junto à cidade de Cochim (Kochi em inglês). Não se sabe por que razão, chamaram a nova terra também Cochim. Para diferenciar as duas Cochins, esta ficou Cochinchina (= Cochim da China).

Com o declínio do poderio português, a região passou a ser cobiçada por outras potências europeias. A partir da metade do século 19, caiu aos poucos na órbita da França e e acabou tornando-se colônia. Conservou esse estatuto até 1954, quando, depois de 8 anos de guerra sangrenta, os vietnamitas conseguiram expulsar os colonizadores.

Os franceses se foram, mas a língua ficou. Cada vez perdendo mais terreno em relação ao inglês, é verdade, mas resistindo até hoje. Nas escolas do país, o francês ainda é ensinado como segunda língua.

Pois é. Nós não sabemos grande coisa sobre o Vietnã. Mas eles estão informados sobre as mazelas de nosso país, aquelas desgraças que nos incomodam mas que insistimos em negar.

A edição de ontem do Courrier du Vietnam, jornal online vietnamita redigido em francês, traz longo artigo sobre a “explosão de fome que atinge 33 milhões de brasileiros”. Até vietnamita se espanta com nossa assustadora realidade; só brasileiro é que ouve uma barbaridade dessas e continua seu caminho achando que é normal.

Minha gente, é o seguinte: são 15% dos conterrâneos passando fome. É um em cada sete. Da próxima vez que passar por uma rua movimentada, experimente contar. Deixe passar 6 indivíduos. No sétimo, anote: este aqui não tem comida suficiente. Faça esse exerciciozinho durante cinco minutos.

Aí você vai entender a extensão do drama. É de dar vertigem. É muita gente. Gente como nós, mas que sofre as consequências de um pecado original: nascer pobre num país onde a desigualdade social não incomoda ninguém.

Enquanto isso, o capitão passeia de motocicleta ou de jet ski para encanto dos devotos, o Lula dá festa de casamento com banquete para uma multidão de adoradores, parlamentares passam a mão no nosso dinheiro, servido sob forma de orçamento secreto.

Bolsonaro já está em fim de mandato e lega um país mais faminto do que encontrou ao assumir. O Lula e seus aliados estiveram 13 anos no poder e deixaram tudo do jeitinho que tinham encontrado. Os parlamentares estão há décadas se locupletando, indiferentes ao drama maior.

Mas deixe estar. As eleições vêm aí. Sabem como vai ficar depois de novembro? Vai mudar tudo!

1) O capitão vai se aposentar e ficar ruminando vingança, balançando numa rede, em regime de picanha macia.

2) O Lula, cercado de bajuladores, vai voltar a se esbaldar com o luxo e as benesses do poder, que é o que mais lhe interessa no Planalto.

3) Os parlamentares, cujo apetite é insaciável, continuarão arrancando significativos nacos do tesouro público. Afinal, são profissionais.

E o país vai continuar empacado.

Importação de café

José Horta Manzano

O Vietnã nos parece distante e pouco importante. Distante é, sem dúvida. Já sua importância não é assim tão pequena. Com superfície menor que a do Estado de Goiás, abriga mais de 90 milhões de pessoas. É gente pra caramba.

O país tem história movimentada. Desde a Antiguidade, o território fértil atraiu a cobiça de vizinhos e aventureiros. Da China vieram os primeiros conquistadores forasteiros. Em meados do século 19, a França encontrou um pretexto para invadir e anexar parte do território à qual deram o nome de Cochinchina, a região sul do país. Em 1940, a invasão japonesa pôs termo a um século de dominação francesa.

cafe-7Depois da rendição nipônica, em 1945, os franceses insistiram em retormar a colônia perdida. Mas a resistência foi tão feroz que, menos de 10 anos mais tarde, os europeus desistiram e se retiraram. Subestimando a capacidade de se defender inerente aos vietnamitas, os americanos resolveram entrar na dança. No começo dos anos 60, enviaram tropas. A intenção declarada era liberar o Vietnã do regime comunista. A luta, feroz, durou uns dez anos. Ao final, como já tinha acontecido com chineses e franceses, também os americanos tiveram de abandonar o combate. O último soldado deixou o prédio da embaixada dependurado num helicóptero.

Desde então, o Vietnã é, pelo menos oficialmente, país comunista de partido único. Mas, sacumé, já não se fazem comunismos como antigamente. Está aí o exemplo chinês que não nos deixa mentir. Estes últimos anos, o país tem crescido a taxas chinesas. O turismo representa bem-vinda entrada de divisas. A criação e exportação de camarões e de peixes criados em cativeiro é outra atividade importante. Todas essas são conquistas que não vieram por acaso, mas à custa de muito trabalho e esforço.

Café 5Trinta anos atrás, enquanto um terço da produção mundial de café era garantida pelo Brasil, o Vietnã era «traço» na estatística ‒ a plantação não supria nem o consumo interno. Valendo-se do clima favorável, dedicaram força e aplicação para estender o cultivo. Atualmente, enquanto o Brasil continua produzindo um terço do café mundial, o Vietnã progrediu vertiginosamente e alçou-se à segunda posição. Colhe o equivalente a metade da produção brasileira.

Problemas climáticos prejudicaram a colheita brasileira nos últimos três anos. Como resultado, o maior produtor mundial vê-se na obrigação de importar café para suprir sua indústria de café solúvel. Nossas autoridades não tiveram outro remédio senão autorizar a importação de um milhão de sacas de 60kg de café vietnamita daqui até maio.

Os vietnamitas estão surpresos e encantados. Não bastasse ter vencido e expulsado franceses e americanos ‒ o que já não é coisa pouca ‒, vão agora exportar café ao Brasil, uma façanha e tanto! A mídia do país dá a notícia com orgulho não disfarçado.

Até o Vietnã!

José Horta Manzano

Você sabia?

Vietnam 2Em superfície, o pequeno Vietnã, situado na península indochinesa, é o 64° entre os países. Para compensar, é densamente povoado. Com seus quase 90 milhões de habitantes, aparece classificado em 14° lugar.

Em meados do século 19, a França tomou conta da região e fez dela a colônia conhecida como Cochinchina(1). À custa de mais de 20 anos de luta, o território conseguiu se livrar dos franceses. Os acordos de independência foram assinados em 1954.

O sossego não teve vida longa. Dez anos depois, o país foi invadido pelos americanos, que tinham por objetivo barrar a ameaça comunista vinda da vizinha China. A guerra foi terrível e desigual. De um lado, estava o exército mais poderoso do planeta; do outro, viam-se combatentes de pés descalços.

É verdade que a China e a União Soviética deram sólido apoio. Mas há que se reconhecer o valor dos pequenos vietnamitas. Acabaram despachando os americanos de volta pra casa. A briga entrou para a história como a única guerra oficialmente perdida pelos EUA. Uma façanha!

Do país destroçado de quarenta anos atrás, surgiu um novo Vietnã à força de muito trabalho. Turismo, exportação de peixes, de crustáceos, de café e de outros produtos agrícolas formam hoje a base da receita. Já faz anos que o crescimento do PIB é superior a 5% ao ano.

Artigo do portal VietnamPlus de 4 jan° 2015 informa que o comércio com o Brasil movimentou 3 bilhões de dólares nos 11 primeiros meses de 2014. Prevê-se forte aumento para estes próximos anos.

O Vietnã exporta manufaturados ao Brasil: telefones celulares, fibras artificiais, sapatos, sandálias(!). Nossas exportações para aquele país constituem-se, essencialmente, de produtos agrícolas: milho, soja, tabaco, algodão.

Vietnã – arrozais escalonados nas montanhas do norte (arroz de banhado)

Vietnã – arrozais escalonados nas montanhas do norte
(arroz de banhado)

Parece-me paradoxal que um país com importante parque industrial como o Brasil tenha de importar celulares, sapatos e sandálias(!) do Vietnã. Parece que o mundo está de cabeça pra baixo. Nós é que deveríamos estar exportando esses produtos para eles.

Por que é que, em vez de saquear a Petrobrás, nossos governantes não se preocupam em apoiar e fomentar a pequena indústria brasileira? Por outro lado, como é possível que os mesmos elementos(2) continuem sendo sufragados, eleição após eleição? Será que a casa não vai cair um dia?

(1) Atenção! Não é Conchinchina. É Cochinchina – a letra o não é nasalizada. Pronuncia-se como se fosse Co-chinchina.
(2) No jargão policial, meliantes costumam ser designados como
elementos.