Frase do dia — 222

«Pobre do político que se torna previsível. Nada é mais vulnerável do que ele. Fica fácil derrotá-lo.

Lula tornou-se previsível. Parece ter esgotado seu estoque de velhos truques e de tiradas antes espertas. Envelheceu. Como o partido que agora celebra seus 35 anos de fundação.»

Ricardo Noblat em seu blogue alojado no jornal O Globo, 7 fev° 2015.

A simbologia das cores

José Horta Manzano

Primeiro, houve o ANTES

Dilma e Lula 2

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Em seguida, veio o DURANTE

by Sinfronio de Sousa Lima Neto, desenhista cearense

by Sinfronio de Sousa Lima Neto, desenhista cearense

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E agora, estamos no DEPOIS

35° aniversário do PT - 2015 Fotomontagem Estadão

35° aniversário do PT – 2015
Fotomontagem Estadão

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Frase do dia — 221

«O impeachment é o contrário de um golpe. Trata-se de um mecanismo constitucionalmente previsto que pode ser utilizado para sair de certas crises. Embora seja um processo traumático, é certamente preferível a tanques nas ruas.»

Hélio Schwartsman em sua coluna da Folha de São Paulo, 6 fev° 2015.

Expurgo seletivo

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 7 fev° 2015

Placa 6A Batalha de Verdun, travada entre tropas francesas e alemãs, estendeu-se por dez meses. Enfrentamento mais sangrento e desastroso da Primeira Guerra, durou todo o ano de 1916 e deixou 700 mil vítimas. Ainda assim, alçou o nome do General Philippe Pétain ao panteão da história francesa. O líder tornou-se ícone. Nos anos que se seguiram, pencas de homenagens lhe foram prestadas. Por toda a França, edifícios e logradouros foram rebatizados com seu nome.

Um quarto de século mais tarde, quando estourou nova guerra, a França, de uma só voz, chamou de novo o herói para salvar a nação. Deu tudo errado. Pétain, já octogenário, determinou rendição incondicional e consentiu que o inimigo ocupasse o país.

Placa 5Finda a guerra e expulsos os invasores, o velho general teve de prestar conta de seus atos. Foi julgado e condenado por traição. Ato contínuo, ruas e praças que tinham recebido seu nome foram desbatizadas. A história oficial preferiu apagar o herói e guardar o traidor. Não mais que três ou quatro povoados têm hoje alguma ruela com o nome do militar.

E nós com isso? Pois temos, nós também, figura similar: Getúlio Vargas. Num primeiro momento, tomou o país de golpe e fez carreira de ditador impiedoso e longevo. Mais tarde, foi presidente eleito democraticamente e incensado por meio Brasil.

É justamente a cronologia dos fatos que diferencia Vargas de Pétain. O general francês primeiro foi herói, em seguida traidor. Já nosso Vargas nacional usurpou primeiro, para terminar como presidente bem-amado. Em casos assim, a ordem dos fatores altera o produto. O Getúlio democrático redimiu o ditador ilegítimo. Sua memória é perpetuada em ruas, praças, avenidas, edifícios, escolas.

Placa 4Entre as recomendações preconizadas pelo relatório final da Comissão Nacional da Verdade, está o banimento de tudo que faça alusão à memória de personagens ligados ao regime instaurado em 1964. Considerando – com acerto – que o golpe militar tomou de assalto e desmantelou a ordem então vigente, a comissão aconselha que se altere a «denominação de logradouros, vias de transporte, edifícios e instituições públicas de qualquer natureza» que lembrem todo indivíduo acumpliciado ou comprometido com a ruptura.

Se posta em prática, a obra será monumental. De fato, entre generais presidentes, governadores nomeados, senadores biônicos, empresários coniventes e que tais, há muita placa de rua a ser trocada. Mas sejamos complacentes. Admitamos a justeza da recomendação. Vamos abraçar a ideia de que não cai bem homenagear indivíduos que tenham participado de infração à legalidade de seu tempo.

Placa 3Façamos um rapidíssimo sobrevoo da história do Brasil. Para não complicar, passemos por cima do fato de o Estado português ter-se apoderado de um território que não lhe pertencia. Como hipótese de trabalho, consideremos que, a partir de 1500, Lisboa era proprietária destas terras.

Um belo dia, trezentos anos depois da descoberta, um grupo de súditos descontentes urdiu golpe contra a coroa. Pretendiam subverter a ordem legítima e mandar o dono da terra às favas. Fracassada, a tentativa deixou uma vítima: o Tiradentes.

Trinta anos depois, num obscuro cenário de briga em família, um fogoso jovem de 23 anos renegou pai e mãe e atropelou o ordenamento em vigor havia já três séculos. Seria o futuro Dom Pedro I. Apoderou-se do imenso território e, julgando-se imortal, autonomeou-se defensor perpétuo do Brasil. Quanta imodéstia!

Placa 2Quase sete décadas mais tarde, numa manhã nevoenta, um general cometeu a afronta de anunciar ao imperador que o regime estava derrubado. Agindo como porta-voz de fardados amotinados, injungiu o monarca a abandonar trono e pátria. Deodoro da Fonseca era o nome do homem.

Houve outras tentativas de derrubada do regime e de reviravolta da ordem vigente – todas malsucedidas.

Se é justo que se purifiquem ruas e praças expurgando o nome daqueles que embarcaram no golpe de 64 ou dele se beneficiaram, justo também será aplicar o princípio a todos os que atentaram contra a ordem vigente. Seja em que tempo for.

Placa 1Que nossas ruas e praças sejam, pois, depuradas do nome de Tiradentes, de Dom Pedro I, do Marechal Deodoro da Fonseca. Que seja desnomeado todo logradouro que lembre gente ligada ao golpe de 1822 ou ao de 1889. Pau que dá em Chico também dá em Francisco – é questão de coerência.

Em seguida, como solução para erradicar o problema, que se proíba dar nome de gente a logradouros. Que se organize concurso nacional para escolher nomes novos. Há trabalho pela frente.

Cachorros e seus símbolos

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Cachorro 14O que seu cachorro representa para você? Como você explica para outras pessoas o afeto que os une? Ele é como um filho, uma paixão, parte da família, seu melhor amigo, seu companheiro de todas as horas, seu divertimento preferido, seu anjo da guarda, sua sombra, um estorvo, uma ameaça à sua segurança ou à de sua família, ou até, quem sabe, mais um ítem “fashion” que você incorporou ao seu repertório?

Pois é, cachorros podem ser enquadrados em todas essas categorias e em muitas outras mais. Já há algum tempo eles se transformaram numa espécie de ‘commodity’ que é negociada habilmente, com base na estratégia de quanto mais rara, diferenciada ou exótica a raça, maior o preço. Há raças “da moda”, cuja cotação sobe proporcionalmente ao encanto exercido por alguma celebridade que a possua. O apego demonstrado aos cães é tamanho que, hoje em dia, casais em processo de divórcio discutem angustiadamente perante o juiz quem vai ficar com o cachorro e, como a conciliação nem sempre é possível, já há casos de decretação de guarda compartilhada.

Cachorro 16Mais recentemente, algumas campanhas publicitárias passaram a divulgar a tese de que é “out” adquirir um cão de raça e a sinalizar que a adoção de companheiros peludos de quatro patas sem raça definida – o famoso vira-lata – é a atitude politicamente correta a ser tomada.

Seja como for, o envolvimento afetivo de brasileiros com seus cães é notório, um fenômeno tão difundido que já coloca o país nas primeiras colocações em termos de número de cachorros por habitante. Símbolo de fidelidade, lealdade, amor incondicional, capacidade de entrega, integridade e devoção perpétua, os cachorros continuam sendo os animais de estimação preferidos entre nós, desbancando não só os gatos, companheiros mais silenciosos e independentes, mas até “pets” mais exóticos como porcos, iguanas ou macacos.

Cachorro 15Apesar de tudo isso, não há como esconder as estatísticas que apontam um crescente número de animais abandonados nas ruas e parques de nosso país, jogados pela janela de carros, espancados, envenenados ou simplesmente “esquecidos” na petshop depois de um banho. Quanto mais perto do final do ano e dos períodos de férias escolares, maior a incidência de abandonos. Não importa se o cão conviveu com a família por 5 anos ou mais, quando ele se torna inconveniente em função de seu tamanho ou de seu comportamento, a porta da rua é aberta num piscar de olhos.

Uma pergunta se faz obrigatória: quando é que um afeto extremado se transforma em desapego despudorado? Quando é que o encantamento se desfaz e determina que um bicho tão alardeado como amado se transforme em objeto incômodo? Será cansaço, desilusão ou, quem sabe, o desejo de escolher outros passatempos ou ainda outros “pets” da moda?

Cachorro 14Um amigo meu usava sempre, brincando, uma frase de efeito para explicar o aumento nos casos de divórcio: “a convivência gera indiferença”. Embora ele se referisse aos humanos, acredito que essa triste possibilidade se aplica também à relação entre humanos e seus cães. Se os cães são sentidos mesmo pela maioria como filhos, como explicar a quebra da relação de amor e confiança mútuos? Você seria capaz de jogar seu próprio filho no meio da rua, virar as costas e ir embora sem olhar para trás?

Desde que adotei minha primeira cachorra, venho buscando dentro de mim as motivações humanas capazes de justificar a manutenção ou a interrupção dos laços afetivos que desenvolvemos com os cães. Cheguei à conclusão que esse é, sem dúvida, um quebra-cabeça emocional para lá de complexo.

Cachorro 16Algumas ilusões parecem estar envolvidas no momento da introdução de um cachorro na família. A primeira, mais corriqueira, é a de que aquela bolinha encantadora de pelos nunca vai deixar de ser um filhotinho brincalhão, nunca vai crescer. A segunda, um pouco mais complicada, é a de que, ao contrário dos filhos humanos, o cachorro nunca vai abandonar sua “mãe”, nunca vai deixar de amá-la. Bem, isso é verdade mas apenas parcialmente. Os cães nunca abandonam seus donos mas, se forem abandonados e adotados por outra família, transferirão depois de um tempo todo seu afeto para os novos donos. Serão eles os novos líderes de matilha a serem admirados, seguidos e obedecidos.

Talvez seja por contarem com essa possibilidade que muitos donos abandonam seus cães. Não quero demonizar as pessoas que, num dado momento de suas vidas, decidem que não têm mais condições emocionais de cuidar de seus “pets”. A perversidade, a meu ver, não está nessa simples constatação. Está na indiferença daqueles que não buscam ativamente transferir a guarda de seu bicho de estimação para uma pessoa ou entidade que aceite se responsabilizar por ele. No desrespeito à natureza amorosa da relação, deixando de garantir que o animal encontre condições mínimas de alimentação, saúde e proteção.

Cachorro 17Sem dúvida, há cães “difíceis”, assim como há filhos “difíceis”. Os cachorros, assim como as crianças, sabem testar os limites de autoridade da pessoa que cuida deles. Talvez a ilusão mais dolorida para quem tem um cão seja exatamente a de não se dar conta desde o início de que é preciso devolver toda a fidelidade, lealdade, integridade, amor incondicional, capacidade de entrega e devoção perpétua que receberam de seu animal de estimação. Melhor dizendo, a ilusão de não perceber que, nesse sentido, eles são nossos mestres e não nossos aprendizes.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Corrupção à chinesa

José Horta Manzano

Tudo na China é superlativo. Um território mais extenso que o nosso, uma população pra lá de numerosa, o ar mais poluído do planeta, o maior número de usuários de internet, regiões de clima tropical contrastando com outras de temperatura siberiana.

Chinês 2Por lá também, a corrupção é praga nacional. Como a nossa, talvez até mais alastrada. A diferença fica por conta do tratamento que se dá aos corruptos – quando apanhados.

A agência de notícias oficial acaba de anunciar a condenação de um antigo dirigente do Banco Agrícola da China. O senhor Yang Kun, que exerceu a vice-presidência durante sete anos, foi acusado de ter recebido propina de empresas, por um total de 5 milhões de dólares.

Justiça

Justiça

Um tribunal de Nanquim sentenciou o executivo à prisão perpétua. Na China, prisão perpétua significa passar o resto da vida atrás das grades. Sem embargos infringentes e sem pizza.

A condenação ocorreu no âmbito da campanha anticorrupção lançada, já faz dois anos, pelo presidente Xi Jinping. Assim que assumiu o cargo, o senhor Xi garantiu que «varreria» o setor financeiro a fim de expurgá-lo dos elementos podres.

Um dos diretores do Banco de Pequim assim como o presidente do Banco Minsheng – maior estabelecimento de crédito do país – estão sendo interrogados, suspeitos de corrupção. Caso o tribunal os julgue culpados, devem seguir o mesmo destino do dirigente do Banco Agrícola: xilindró até o dia de São Nunca. Com direito a uma tigela de arroz diária naturalmente.

Chinês 2Se nosso legislador quisesse, realmente, acabar com a corrupção nas altas esferas brasileiras, bastaria adotar a solução chinesa. Acabava rapidinho. O aperto é que aqueles que fazem as leis são justamente os maiores infratores.

Ainda não chegou o dia em que veremos nossos corruptos e nossos corruptores passar o resto da vida no xadrez.

Voto eletrônico

José Horta Manzano

Não é a primeira vez que escrevo sobre este assunto. Nem há de ser a última. Mecânica e eletricidade são noções antigas, princípios que a gente já teve tempo de assimilar. Quando nascemos, já fazia tempo que existiam.

ComputadorJá no que se refere à eletrônica… nós, os mais antigos, ficamos com um pé atrás. Eletrônica é novidade. Claro está que ela tem seu lado bom – também não precisa ser chucro nem turrão. No entanto, ela guarda um lado meio arisco, sombrio, misterioso, insondável, impenetrável.

De repente, o computador que funcionava perfeitamente trava. É como burro quando empaca: não há meio de fazê-lo sair do lugar. A única saída é desligar, esperar um pouco, religar e torcer pra que dê certo. E não adianta perguntar ao especialista. Tampouco ele sabe o que aconteceu.

Urna 5O mesmo drama se repete quando o mouse «encanta»; quando o teclado não responde mais; quando vírus escandaloso destrói a memória; quando vírus malicioso nos conduz a destinos que não estavam no programa.

Já disse e repito: desconfio da urna eletrônica. Pode ser modernosa, mas esconde perigos grandes. Se Mister Obama, de seu trono na Casa Branca, consegue ouvir as conversas de dona Dilma, em seu trono no Planalto, não me espantaria que algum enxerido mal-intencionado alterasse – à distância – o resultado de um voto. Nada nos garante que isso não esteja sendo feito.

Antes de entabular hipotética e complicada «reforma política», mais fácil seria começar pelo começo: instituir o voto seguro. A Europa inteira vota com o sistema tradicional: cabine com cortininha, cédula de papel, urna transparente, apuração pública e controlada por representantes de todos os partidos. Por que, diabos, nós temos de fazer diferente?

Urna 8Não sei se o distinto leitor reparou na votação que elegeu o presidente do Senado Federal. É sintomático. Nada de maquininha de votar, de botão, de alavanca, de painel. Cédulas de papel foram depositadas na velha e boa urna de nossos avós. Ad majorem securitatem – para maior garantia.

Se eles, que são do ramo, desprezam o voto eletrônico, por que devemos nós, do andar de baixo, engolir sem reclamar?

Os frontaleiros

José Horta Manzano

Você sabia?

Frontaleiro é neologismo que acabo de inventar. Serve para designar pessoas que trabalham num país e residem noutro. Não é sinônimo perfeito de nossa palavra fronteiriço.

Em princípio, os frontaleiros cruzam a fronteira diariamente, ida e volta. Dependendo da distância entre o domicílio e o trabalho, há até quem faça o trajeto quatro vezes por dia. São os que têm tempo de almoçar em casa.

Presença de trabalhadores "frontaleiros" em diversas regiões da Suíça

Presença de trabalhadores “frontaleiros” em diversas regiões da Suíça

Embora frontaleiros existam em outros pontos do mundo, são fenômeno corriqueiro em certas regiões da Europa: na Suíça, por exemplo. A população economicamente ativa do país é de cerca de cinco milhões de indivíduos dos quais 300 mil são frontaleiros, contingente que atravessa a fronteira duas vezes por dia.

Duas razões principais fazem que a Suíça exerça forte atração sobre as regiões imediatamente vizinhas: os salários helvéticos são mais elevados e a oferta de empregos da vizinhança é baixa.

Durante os últimos anos, o Banco Nacional Suíço se empenhou em manter o valor do franco suíço artificialmente baixo a fim de socorrer exportadores e favorecer a vinda de turistas. Conseguiu seu intento à custa de comprar bilhões de euros. Mas tudo tem seu limite e a hora chegou de tomar outro rumo.

Vendo que não fazia mais sentido insistir nessa política de conter artificialmente a alta do franco, o banco central deixou de comprar euros e abandonou a moeda nacional duas semanas atrás. Permitiu, assim, que a flutuação siga as leis do mercado. A consequência foi imediata: o franco suíço valorizou-se 20% com relação ao euro e a todas as outras moedas. Subiu às alturas e lá ficou.

Paridade entre euro e franco suíço

Paridade entre euro e franco suíço

Nossos 300 mil frontaleiros, que recebem em franco e gastam em euro, abriram sorriso de orelha a orelha: da noite para o dia, tinham recebido 20% de aumento, presente do céu! O salário subiu enquanto as despesas domésticas continuam as mesmas. Maravilha!

Mas tem um porém. Algumas empresas suíças, especialmente as de setores voltados à exportação, passaram a enfrentar grande dificuldade em vender seus produtos que, em 24 horas, se tornaram vinte porcento mais caros.

Os funcionários frontaleiros, conscientes da ameaça que isso representa para seu próprio emprego, estão propondo a seus empregadores – espontaneamente! – uma diminuição de salário. Não fazem isso por compaixão, mas para salvaguardar o emprego.

Não há felicidade perfeita. Às vezes, há que saber entregar os anéis para salvar os dedos.

Dívidas, bolas & balas

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Notícia boa não vende jornal – todo empresário da mídia e todo jornalista sabe disso. Nada como uma boa desgraça para atrair leitor. Quanto mais dramática for, maior será o interesse de quem lê.

Isso vale não só para o Brasil, mas para o mundo todo. Na falta de cataclismas, nosso país tem sido lembrado, estes últimos dias, por problemas crônicos: finanças públicas, clubes de futebol endividados e balas perdidas.

Estatísticas 3O conceituado jornal francês Le Monde constata que, francamente, a «magia brasileira» já não funciona. Informa a seus leitores que a sétima economia mundial terminou o ano de 2014 com um déficit primário – fato que ocorre pela primeira vez desde 2002.

O jornal considera que o déficit deverá compelir dona Dilma a primeiro implementar medidas de recuperação das finanças públicas para, só então, pensar em retomada do crescimento.

Futebol 1A versão francesa do portal esportivo Yahoo revela alguns problemas do futebol profissional brasileiro. Segundo o artigo, os principais clubes brasileiros estão mergulhados num oceano de dívidas.

Na origem do problema, estariam má gestão e o momento economicamente difícil que o país atravessa. O portal conta que os doze times principais devem ao governo, em conjunto, mais de 600 milhões de dólares em impostos – praticamente o valor investido na renovação do Maracanã.

Crédito: Yann Arthus-Bertrand

Crédito: Yann Arthus-Bertrand

Finalmente, a RFI – Radio France International volta a repisar assunto pra lá de espinhoso: as vítimas inocentes de balas perdidas. O problema é grave e sua solução, problemática. RFI relata que 16 pessoas foram atingidas, no Rio, neste primeiro mês do ano. Os franceses ficam sabendo que a audácia dos bandidos aumenta a cada dia e que malfeitores já não hesitam em atacar delegacias implantadas nas próprias favelas.

Revela-se também que uma bala perdida pode percorrer até três quilômetros antes de matar alguém. Para o público francês é inconcebível que, no coração da metrópole maravilhosa, cidadãos comuns possam diariamente ser vítimas de tiros.

Na Síria, no Iraque, no Afeganistão, ainda vá lá. Mas no Rio…

 

Missão de espionagem

Sebastião Nery (*)

Siqueira Campos, chefe da conspiração de 1930 em São Paulo, chamou Oscar Pedroso Horta, redator do Estado de São Paulo. Disse-lhe:

– Preciso renovar meus códigos de comunicação com Prestes, que está em Buenos Aires, levar uns mapas para ele organizar os planos do levante e trazer de lá um aparelho de rádio mais potente. Mas não esqueça: são mapas de guerra, privativos das Forças Armadas. Você vai cometer um crime de traição à Pátria. Topa?

Mapa 2Pedroso Horta topou. Pegou um avião da Nirba numa praia de Santos, dormiu em Porto Alegre, continuou para Montevidéu e voou para Buenos Aires, com aquele rolo enorme de mapas debaixo do braço. Foi para o hotel. De manhã, procuraria Prestes no endereço marcado.

De repente, batem à porta do quarto. Era um homenzinho muito magro, com botinas de elástico:

– Sou o comandante Luís Carlos Prestes. O senhor não é Oscar Pedroso Horta? Trouxe uma encomenda de São Paulo para mim?

– Não o conheço. Vim a negócios. Não trouxe nada para ninguém.

O homenzinho foi-se embora. Pedroso Horta trocou logo de hotel, pegou um táxi e foi ao endereço de Prestes. Bateu à porta. Alguém abriu. Era exatamente o homenzinho muito magro: Prestes.

(*) Excertos de artigo do jornalista Sebastião Nery.

Do Enem ao Nobel

Gerson de Almeida (*)

Estudante 8«A Argentina tem cinco prêmios Nobel, nenhum em literatura. Poderia ter seis: Borges foi severamente injustiçado. E citei os argentinos mais pela birra dos brasileiros: “somos pentacampeões!”. Ao olhar a galeria de notáveis argentinos devemos ficar quietinhos.

Em literatura, a Colômbia tem um. O Chile tem dois – um stalinista, mas valeu. O México tem um. O Peru tem um. Até a Guatemala, do tamanho do seu quintal, leitor, tem um Nobel! Nóis num guenta!

(…) Quando o Brasil terá um Nobel? Pelo resultado do último Enem… nunca! Nunquinha mesmo»

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(*) Citação extraída de artigo de Gerson de Almeida, colaborador do blogue literário Verso & Prosa.

Censura à francesa

José Horta Manzano

Com um número de desempregados girando em torno de 10% da população em idade de trabalhar, a França luta contra a estagnação. Já houve momentos piores, mas o crônico problema é causa de permanente angústia.

by Kianoush, desenhista iraniano

by Kianoush, desenhista iraniano

No Brasil, até 1994, o assunto principal era a inflação. Hoje, a corrupção dos políticos subiu à ribalta e suplanta qualquer outro tema. Nossa inflação, pelo menos por enquanto, passou para segundo plano.

Na França, faz trinta anos que o desemprego serve de pano de fundo a toda discussão política. Vez por outra, algum acontecimento extraordinário oculta, por um momento, a preocupação tradicional. Mas a eclipse é de curta duração. A realidade volta logo a dominar.

Censura 2Monsieur Hollande, presidente de todos os franceses, chegou a declarar publicamente, ano passado, que sua candidatura à reeleição estava ligada à «inversão da curva do desemprego». Em miúdos: caso o número dos que buscam trabalho não diminua daqui até 2017, ele não concorrerá a novo mandato, jogará a toalha, entregará o trono ao sucessor e voltará pra casa, rabo entre as pernas. Se manterá ou não a palavra dada, só o tempo dirá. De todo modo, a promessa presidencial dá a dimensão do problema da escassez de emprego na França.

No fim de 2014, o governo francês anunciou projeto de lei-ônibus para lutar pela recuperação econômica. São inúmeros artigos que tratam de assuntos variados: liberalização do horário de funcionamento de estabelecimentos comerciais, flexibilidade de autorização a particulares para se dedicar ao transporte público, afrouxamento no registro de certas profissões regulamentadas, simplificação de funcionamento de cadernetas de poupança, abrandamento de normas de dispensa de funcionários.

Censura 3Entre as modificações previstas, está uma que causou rebuliço. Trata da abolição do sacrossanto direito que a mídia tem de guardar segredo quanto a suas fontes de informação. O projeto pretendia afrouxar as normas vigentes. A mídia francesa enxergou aí uma tentativa de cerceamento do direito de informar. Levantou-se clamor nacional.

Censura 4O governo cedeu. Retirou do projeto o artigo que mexia no segredo profissional dos jornalistas. A lei que será proposta ao parlamento não comportará nenhuma menção à liberdade de imprensa. Fica afastado o espectro da censura disfarçada.

Enquanto isso, no Brasil, o governo continua insistindo em seu famigerado plano eufemisticamente chamado de «controle social da mídia». Espero – e acredito – que nosso Congresso não ousará votar nenhum dispositivo nesse sentido. Se bem que, com parlamentares que temos, acostumados a sacrificar o bom senso em prol de benefícios pessoais, nada é garantido. É bom desconfiar e convém manter a vigilância. O futuro dirá.

A Copa e as Olimpíadas

José Horta Manzano

Não se deve ter os olhos maiores que o estômago. Não convém botar no prato quantidade maior do que se vai comer. Quem assim fizer, periga dar vexame e decepcionar comensais.

JO 2020 3O Campeonato Mundial de Futebol (hoje chamado Copa do Mundo) e os Jogos Olímpicos de Verão (também ditos Olimpíadas) são os encontros esportivos mais importantes do mundo. Concorridos, frequentados, badalados e comentados, são preparados com esmero por atletas e pelo país-sede.

Ambos os eventos se realizam a cada quatro anos. Não por acaso se alternam, com dois anos de intervalo, como se um não quisesse pisar o pé do outro. O Brasil conseguiu que lhe fosse atribuída a organização dos dois megaeventos, assim seguidinho, um em 2014 e o outro em 2016.

Há quem acredite que foi por coincidência. Não é meu caso. Embora não seja de conhecimento público, tudo fica registrado nalgum lugar. Tenho certeza de que, um dia, as «gestões» responsáveis pela atribuição dos dois certames ao Brasil serão reveladas à luz do sol.

O governo brasileiro apostava todas as fichas na Copa 2014. Acostumados a navegar em mar de fantasia, tinham certeza de que – com a colaboração ativa do Todo-poderoso – o Brasil levaria a taça. Deu no que deu: panes de som nos estádios, obras inacabadas, metrôs e trens-bala inexistentes, vaias à presidente, retumbante fiasco esportivo. A olhos estrangeiros, a imagem de nosso País perdeu um bocado de seu brilho.

Crédito: Shizuo Kambayashi

Crédito: Shizuo Kambayashi

Tudo isso entornou água fria na expectativa que os Jogos Olímpicos despertavam. A pouco mais de um ano do evento que reunirá a nata do esporte mundial, pouco se fala neles. Nossa presidente já deve estar considerando se vale a pena participar da abertura oficial e correr o risco de levar mais uma vaia planetária.

Mas que fazer? Combinado está. O Brasil e, em especial, o Rio de Janeiro têm de se aplicar. Falta muito pouco tempo e ainda há muito que fazer. Falando em falta de tempo, o Japão, que hospedará em 2020 a edição seguinte das Olimpíadas, já arregaçou as mangas.

JO 2020 4Como também acontece no Brasil, fluência em línguas estrangeiras não é o ponto forte dos japoneses. Que não seja por isso, que há remédio pra tudo. O governo japonês já tomou as medidas que julga necessárias para preencher essa lacuna. Especial atenção está sendo dedicada à formação de policiais, bombeiros, garçons e guias fluentes em inglês.

Seminários de formação de guias bilíngues estão sendo organizados. O objetivo das autoridades de Tóquio para 2020 é dispor de 35 mil colaboradores bilíngues para dar apoio aos turistas e mostrar-lhes o espírito acolhedor dos japoneses.

Alguém sabe quantos guias bilíngues foram formados para os JOs do Rio? Procurei, mas não encontrei a resposta. Talvez algum distinto leitor possa me iluminar.

Lata d’água

José Horta Manzano

Copo d'água 2No Rio de Janeiro, na noite de 19 para 20 jan° 2009, faleceu o compositor paraense Joaquim Antônio Candeias Júnior, também conhecido como Jota Júnior. Tinha 85 anos.

O artista havia atingido seu apogeu nos anos 1950, quando suas obras foram gravadas por dezenas de cantores – dos bons. Francisco Alves, Jair Rodrigues, Marlene, as Irmãs Batista, Orlando Silva, Elizeth Cardoso, Nélson Gonçalves, Ângela Maria estavam entre os que se valeram de composições de Jota Júnior.

Sassaricando, Confete, Sapato de pobre (é tamanco), Garota de Saint-Tropez, Lata d’água (na cabeça) são algumas de suas centenas de composições. É justamente esta última que me inspira uma reflexão.

Lata d'água 1Nos tempos em que a personagem de Jota Júnior subia o morro levando sua reserva de água, todos dizíamos «lata d‘água». Ninguém ousaria o esquisito «lata de água». Simplesmente porque a expressão «lata d‘água» subentendia que a lata já estava cheia. «Lata de água» descrevia apenas o recipiente, sem informar se estava cheio ou não.

O mesmo se pode dizer de outra mazela carioca: a «falta d‘água», que já atormentava a população em tempos bem mais chuvosos que os atuais.

Parece cheio, mas cabe mais água by Marcella Nunes, Facebook/RioWaterPlanet

Parece cheio, mas cabe mais água
by Marcella Nunes, Facebook/RioWaterPlanet

Quem tinha sede costumava pedir um «copo d‘água», jamais um «copo de água» nem – horror dos horrores! – um «copo com água».

Enchentes e racionamentos permanecem, mas a língua mudou. A «lata d‘água», a «falta d‘água», o «copo d‘água» têm perdido terreno. Fiz uma pesquisazinha caseira no site do jornal O Globo, do Rio de Janeiro. Considerando essas três locuções, contei o número de vezes em que aparecem na forma contraída (d’) e na forma extensa (de). É curioso notar que a forma extensa vem ganhando de goleada sobre a contraída.

Vejam o quadro com a porcentagem de ocorrência de cada forma:

Interligne vertical 14Falta d’água   27%
Falta de água  73%

Copo d’água    16%
Copo de água   84%

Lata d’água     9%
Lata de água   92%

Faz sentido. Se morro e clima mudaram e os anseios de cada um também, por que a fala permaneceria estática? Que venha muita chuva e que nos deixe «debaixo de água»!

Advertência importante:
A amostragem que serviu de recheio para este artigo não tem valor científico. Eventuais reclamações devem ser endereçadas a Google Corporation, Mountain View (CA), EUA.

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Clique aqui quem quiser recordar Marlene e sua Lata d’água, lembrança nostálgica de uma época em que, no morro, ninguém arriscava servir de ponto final para bala perdida.