O avental inglês
José Horta Manzano
Você sabia?
Houve tempos em que o homem comia com as mãos, sentado no chão. Não devia ser confortável nem prático. Se um pedaço da comida escapasse da mão, imaginem: rolava direto pra poeira. Disgusting…
Assim que suas faculdades lhe permitiram, a humanidade tratou de fabricar um suporte que separasse o alimento do chão. Degrau por degrau, a ideia evoluiu até que surgiu a mesa. O objeto nos é hoje tão familiar que fica difícil imaginar que um dia possa não ter existido.
Mas ninguém segura o progresso. Na Idade Média, famílias abastadas sentiram necessidade de acrescentar uma camada entre a mesa e a comida. A toalha foi a solução. Sua maciez dava um quê de sofisticação.
No entanto, ainda que aumentasse o conforto, a toalha se sujava muito rapidamente. Depois de uma refeição, já guardava marcas de gordura. O problema tinha de ser resolvido.
A grande ideia – em vigor até hoje – foi acrescentar uma segunda peça de tecido por sobre a toalha a fim de protegê-la. Essa peça, de dimensões mais modestas e de qualidade inferior, era mais fácil de lavar.
Foi na França que a novidade apareceu. A toalha de mesa era (e ainda é) chamada nappe. Dizem que o termo, de origem fenícia, já tinha sido usado pelos romanos com a forma mappa. Temos um resquício em nossa língua: é o guardanapo, palavra que descende da mesma raíz.
A peça de tecido de proteção da toalha foi vista como toalhinha. Onde nós usamos inho e zinho para indicar diminutivo, a língua francesa prefere os finais ette ou on. A toalhinha passou a ser conhecida como un napperon, forma diminutiva de nappe.
Faz mil anos, quando a cultura francesa encharcou as ilhas britânicas, a toalha e a toalhinha foram junto. Espertos, os ingleses encontraram nova utilidade para a toalhinha. Perceberam que, se protegia a toalha, também era excelente para proteger a roupa de quem servia à mesa. E adotaram o costume de amarrar uma toalhinha à cintura.
Que nome dar à novidade? Ouviam os castelães dizerem «un napperon», que soa «anaprôn». Acharam de bom-tom usar o mesmo nome. Pouco familiarizados com a gramática francesa, adaptaram a novidade à fonética inglesa.
Conservaram o artigo indefinido «an», mas não se deram conta de que napperon também começava com n. É por isso que dizem «an apron». Sem o artigo, é simplesmente «apron», palavra em uso até os dias atuais.
O objeto perdeu uma letra, mas fique o distinto leitor tranquilo: avental inglês protege tão bem quanto o nosso.
O ovo da serpente
José Horta Manzano
«And therefore think him as a serpent’s egg which, hatched, would, as his kind, grow mischievous, and kill him in the shell.»
«Então consideremo-lo um ovo de serpente que, eclodido, se tornaria perigoso como seus semelhantes e matemo-lo no ovo.»
A réplica que Shakespeare põe na boca de Brutus, na tragédia Júlio César, talvez seja demasiado excelsa para combinar com o assunto de hoje. Vou falar de ovo, mas vamos esquecer Shakespeare.
Assustado com o estrago que a revelação do gigantesco assalto à Petrobrás está causando, nosso guia sente que o controle da situação lhe escapa. Súditos outrora fiéis e submissos adquiriram vida própria e já não seguem mais o mestre. Extasiados pela riqueza fácil, lambuzaram-se e foram apanhados em flagrante com a mão no pote de mel. Um desastre.
Abusando de sua conhecida «quase-lógica», o antigo presidente estrelou, ladeado por meia dúzia de devotos, um ato em que clama pela «defesa da Petrobrás». Menos, excelência, menos!
É tarde. Havia que defendê-la antes do assalto. Agora, que a porta foi arrombada e o baú saqueado, atos de desagravo não têm mais alcance.
Lula, Dilma e todos os companheiros passarão. Mais dia, menos dia, nos iremos todos – ninguém vai ficar pra semente. A Petrobrás, ela sim, sobreviverá. Durante anos vai atravessar inferno astral. Vai amargar a desconfiança do mercado, perdendo, assim, o bem mais precioso de que dispunha: a credibilidade. Ou o distinto leitor arriscaria seu peculiozinho em ações da petroleira nacional?
Para reforçar a imagem « popular » do evento, partidários de Lula convocaram a militância. Vieram todos raivosos, uniformizados de vermelho, caracterizando assim a espontaneidade da presença.
Segundo informa a Folha de São Paulo, um grupo não cooptado passava pelo local. Pediam a saída da presidente da República. Os de vermelho não apreciaram. E que fizeram? Atiraram ovos nos de verde-amarelo.
Longe de mim imaginar que tenham trazido ovos de caso pensado. Certamente, no calor do momento, se abasteceram numa quitanda próxima. Distribuíram ovos, socos e pontapés. Em defesa da Petrobrás.
Frase do dia — 226
«Nuestras sociedades no valoran el conocimiento sino el reconocimiento, que no es lo mismo ni se obtiene igual.»
«Nossas sociedades não dão valor ao conhecimento, mas ao reconhecimento, que não é a mesma coisa e não se alcança pelo mesmo caminho.»
Fernando Iwasaki Cauti, escritor e filólogo peruano. A frase aparece em ensaio publicado pelo jornal peruano El Comercio.
Persona non grata
José Horta Manzano
O ofensor esquece e logo vira a página. O ofendido leva mais tempo. Pelas bandas do Planalto, o coice que nossa presidente assestou no embaixador da Indonésia já caiu na vala do esquecimento. Não é o que acontece em Djacarta.
Quatro dias depois da deplorável proeza de nossa esperta diplomacia, o governo indonésio ainda está longe de digerir o insulto. A edição do Jakarta Post deste 24 fev° traz artigo intitulado Brazil plays down RI’s threats – Brasil zomba das ameaças da Indonésia. O jornal lembra que o governo indonésio prometeu represálias que perigam custar caro ao Brasil.
O texto mostra indignação com o menosprezo explícito de dona Dilma por aquele país. Nossa presidente, para quem as estatísticas do momento contam mais que perspectivas futuras, declarou que as relações comerciais entre o Brasil e a Indonésia não representam mais que um porcento de nosso comércio exterior.
Mais uma vez, a senhora Rousseff escancara sua curta visão. Já próxima das setenta primaveras, a presidente ainda não conseguiu entender que o mundo não é congelado, que as coisas costumam mudar. O que hoje é pequeno pode-se tornar importante amanhã. E vice-versa, naturalmente.
O ultraje infligido àquele país foi pesado demais. Pior: foi proposital, de caso pensado, calculado para impactar. Mostrou a arrogância dos perigosos personagens que, aboletados no Planalto, maltratam nossa política exterior como criança birrenta pisoteia brinquedo que não lhe agrada mais.
O voluntarismo presidencial – na certa incentivado por seus toscos conselheiros de marketing – já começa a dar frutos. O Jakarta Post relata que o governo indonésio está reavaliando a planejada compra de 16 aviões modelo Super Tucano, da Embraer. O preço básico de cada aparelho é de 11 milhões de dólares. Sem opcionais.
Uma das páginas do portal de nosso Ministério das Relações Exteriores traz uma citação que vai assim:
«O Brasil é um dos 11 países do mundo que se relacionam com todos os Estados-membros das Nações Unidas. Dialogamos com todos porque respeitamos as diferenças.»
O importante não é a quantidade de países com os quais o Brasil se relaciona. A qualidade do diálogo pesa mais. A afronta que dona Dilma impôs ao povo indonésio desmente a bonita frase do Itamaraty.
Longe de ser partidária da dialética, nossa presidente é, no duro, fã do monólogo. Raivoso e insolente.
Outras máximas ― 12
PEIORA SUNT TECTA ODIA QUAM APERTA.
Ódios ocultos são piores que os declarados.
máxima latina
O escândalo tem nome
Sebastião Nery (*)
No governo Juscelino (1956-1961) o general Idálio Sardenberg comandou um grande salto da Petrobrás: instalou novas unidades das refinarias Landulfo Alves na Bahia e Duque de Caxias no Rio, o terminal e oleoduto da Ilha d’Água no Rio, o terminal Madre de Deus na Bahia. Montou a fábrica de borracha sintética em Duque de Caxias. Dobrou a capacidade da refinaria de Cubatão em São Paulo. A produção total de petróleo passou de 60 mil barris/dia em 1959 para 72 mil em 1960. O refino foi a 300 mil barris diários.
Tudo isso e nunca se ouviu falar em escândalo. Veio o primeiro governo Lula e… Dilma caiu em cima da Petrobrás como uma ave de rapina. Saiu das Minas e Energia para a Casa Civil e levou a Petrobrás com ela, para ela, continuando como presidente do Conselho de Administração.
Este escândalo de agora, o maior da história do pais, tem nome: Dilma.
(*) Excertos de artigo do jornalista Sebastião Nery.
Um pouco d’arte ― 34
Falam de nós – 5
Ano-novo chinês
O portal Xinhua, braço da agência noticiosa oficial chinesa, mostra-se orgulhoso em anunciar que o ano-novo está sendo comemorado na cidade mais importante do longínquo Brasil.
Segundo a publicação, a celebração da simbólica data já se tornou festa tradicional em São Paulo, com participação esperada de 200 mil pessoas.
A publicação não informa, mas infere-se que o carnaval carioca ainda não se esteja tornando manifestação popular em Pequim.
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Novo país?
Uma repórter do jornal paraguaio Última Hora visitou as ilhas Falkland (Malvinas) – aquele arquipélago a que todo governante argentino faz alusão quando o momento exige. No país hermano, como se sabe, basta mencionar aquelas ilhas – las Malvinas son argentinas! – para garantir união nacional e aprovação unânime.
Conta a enviada especial que, dentro de meio século, as Falkland poderiam bem tornar-se país independente. Incapaz de enxergar o que os ilhéus ganhariam com isso, tenho cá minhas dúvidas. O estatuto de território britânico é a melhor garantia que têm contra toda agressão argentina. Foi exatamente isso que os salvou na guerra de 1982.
E tem mais. O Pibão do arquipélago é de 100 mil dólares por habitante(!), enquanto o da Argentina não chega a 12 mil. Quem trocaria?
Brasil campeão
É verdade que o Brasil foi o grande perdedor de «sua» Copa do Mundo no ano passado. Mas nem por isso deixou de ser campeão. O jornal francês Le Télégramme, de Brest, avisa a seus leitores que nosso País continua primeirão no campeonato da violência em matéria de futebol.
Conta que 18 morreram em brigas de torcida em 2014. Já tinham sido 30 vítimas em 2013. O jornal ressalta uma iniciativa original tomada no Recife. Em vez de guardas armados, mães de família são convidadas a garantir serenidade nos estádios. São as «mães segurança».
Os primeiros testes parecem estar dando bons resultados. Bem ou mal, cada torcedor identifica, na senhora sorridente que passeia a seu lado, sua própria mãe. E ninguém gosta de brigar na frente da mãe.
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Paraíso para foragidos
O portal italiano TGCom, braço do gigante Mediaset, conta uma história rocambolesca. Fala de Francesco Schettino, que comandava o navio Costa Concordia – aquele que soçobrou a 50 metros da costa da Ilha do Giglio, faz 3 anos.
Relembra que Schettino, recentemente condenado em primeira instância a 16 anos de cadeia, entrou com recurso. E relata que o Ministério Público de Grosseto (Toscana) pede que o condenado seja encarcerado enquanto aguarda julgamento da apelação.
Segundo alguns, o ex-comandante teria exigido dois milhões de euros para participar de um programa sensacionalista. Segundo outros, trata-se de pura invenção. Pelo sim, pelo não, o MP prefere a prudência.
O dinheiro deveria ser depositado numa conta bancária no Brasil. Aliás, o portal italiano MB ressalta que o Brasil é um país no qual «non è facile ottenere l’estradizione di cittadini italiani colpevoli di aver commesso reati nel nostro paese» – não é fácil conseguir a extradição de cidadãos italianos culpados de crimes cometidos na Itália».
Cria fama e deita-te na cama.
Frase do dia — 225
«A África era a cereja do bolo da política externa do Lula, mas sabe quantas vezes o chefe do Departamento de África do Itamaraty visitou algum dos 54 países do continente no ano passado? Nenhuma! E não foi por culpa dele.»
Eliane Cantanhêde, em sua coluna do Estadão, 20 fev° 2015.
Diplomacia do coice
José Horta Manzano
Como eu, meus distintos leitores certamente ficaram sabendo do coice que nossa egrégia presidente assestou gratuitamente no embaixador da Indonésia – e, por procuração, nos 250 milhões de habitantes daquele país.
Como eu, meus distintos leitores se consternaram com a baixeza com que foi tratado o embaixador que, tendo vindo a palácio a convite, viu-se humilhado e feito de bobo na frente de diplomatas e autoridades. Imagine a situação: convidado formalmente a uma festa, você vai. Na porta, sua entrada é proibida e você é chamado de penetra. Foi o que aconteceu.
Como eu, meus distintos leitores ficaram apreensivos com a repercussão que essa grosseria está tendo nos itamaratis do mundo. A estas alturas, todos os governos do planeta já estão a par da estupidez de tratamento à qual diplomatas forasteiros estão expostos no Brasil.
Como eu, meus distintos leitores entenderam que, se alguma chance ainda subsistia de salvar o traficante brasileiro prisioneiro na Indonésia, ela escoou pelo ralo. Aquele país não pode agora graciar o condenado nem atenuar sua pena. Se o fizer, mostrará que se dobrou à chantagem de Brasília, atitude inconcebível. O comportamento de nossa preclara presidente foi o passo definitivo para a execução do apenado.
Como eu, meus distintos leitores atribuíram o gesto arrogante à conjugação de dois fatores venenosos: o mau humor crônico da mandatária e o aconselhamento gangrenado que tem recebido de seus ‘assessores’, notadamente um certo senhor Garcia – aquele do ‘top-top’.
Pois fiquem meus distintos leitores sabendo que… por baixo do angu tem carne. A informação vem do Diário do Poder, do superantenado jornalista Cláudio Humberto. A carne por debaixo do angu é mais podre do que se pode imaginar. Sabe aquele tipo de gente capaz de pisar o pescoço da mãe para alcançar seu objetivo? Pois é, nossa altas autoridades são membros desse clube.
Pelo relato do jornalista, o coice aplicado no diplomata indonésio nada mais seria que uma ideia de marqueteiro destinada a levantar ‘cortina de fumaça’. A intenção era fornecer matéria para reportagens revoltadas e editoriais indignados que assim, distraídos, desviariam por um momento a atenção da incômoda operação Lava a Jato. Funcionou perfeitamente.
Não estou aqui pra substituir-me ao tribunal indonésio. Se o conterrâneo condenado na Indonésia é culpado ou não, se foi julgado com isenção ou não, se a pena de morte é adequada ou não – meu intuito não é discutir isso. O que nos fica é a certeza de que, nesse episódio, o traficante condenado fez papel de inocente útil, de boi de piranha. Foi sacrificado para aliviar a barra do Planalto.
Descansai tranquilos, brasileiros! Vosso País está em boas mãos!
Quem perdeu algum capítulo da história e gostaria de pôr-se a par do assunto pode clicar aqui.
A ruína emergente
José Horta Manzano
Governar é abrir estradas. Governar é prever. Governar é satisfazer às necessidades de cada cidadão. Governar é botar as contas em ordem. Governar é cuidar da educação, da saúde e da segurança.
Afinal… o que é governar? É tudo isso aí e um pouco mais. Mas essa é a teoria. Na prática, como se sabe, a teoria é outra. Governantes não abrem mais estradas. Aliás, já nem cuidam das existentes.
Governantes não satisfazem às necessidades de cada cidadão. Contentam-se de ações vistosas, midiáticas, em que migalhas são distribuídas a pequena parte do público, como dinheiro em programa de auditório. O resto da plateia que se vire.
Quanto a botar as contas em dia… ai, ai, ai. Garantir o amanhã não é a tônica dos dirigentes atuais. E a educação, a saúde e a segurança – como é que ficam? De novo: toda energia é focada em ações momentâneas, aparatosas, sem compromisso com o futuro. Governantes mantêm-se fiéis ao pensamento medieval: «o futuro a Deus pertence».
A seca que persiste no sul do Brasil tem causado danos e grande temor. Caso tudo seque, não há solução a curto prazo. Luz e água vão faltar, não há alternativa. Um aqueduto para transportar o precioso líquido da Amazônia até o sul do País não se instala em uma semana.
Infelizmente, não tenho solução milagrosa. Tampouco estou aqui para apontar culpados. O descalabro atual resulta de décadas e décadas de descompromisso com o futuro.
Mas vamos ser optimistas. Crises têm seu lado bom. Servem pra abrir os olhos. De agora em diante, autoridades serão mais previdentes e guardarão em mente que os atos de hoje determinam os fatos de amanhã. Certo?
Não, distinto leitor, não é assim. A lição não está sendo aprendida. As autoridades encarregadas da manutenção das represas não estão fazendo seu trabalho. A fotomontagem aqui abaixo dá um exemplo concreto.
Um energúmeno arremessou, faz anos, uma carcaça de automóvel numa represa. Nem visto nem sabido, o esqueleto permaneceu submerso. Com a seca, reapareceu. Fotógrafos não se privaram de retratar a descoberta. Galhofeiros se encarregaram de engalanar o destroço com faixas de duvidoso humorismo. No entanto, a ninguém ocorreu o óbvio: remover a ruína insepulta.
Bondoso, São Pedro mandou alguma chuva. O nível de tanques e barragens tem subido. Fotógrafos se precipitam à beira de reservatórios para registrar o fato. E… que vemos? A carcaça continua lá, intocada, como se repousasse em túmulo adequado.
Fosse nosso País mais civilizado, as coisas teriam seguido outro rumo. Em primeiro lugar, o responsável pelo arremesso do automóvel teria sido procurado e punido. Em segundo lugar – e rapidinho – o destroço teria sido retirado. Já imaginou o que pode acontecer amanhã se um inocente banhista der um mergulho naquele lugar? Já pensou na desgraça programada que será uma embarcação abalroar a carcaça, soçobrar e ir a pique?
De que adianta ficar eu aqui cogitando? Pessoas, grupos, departamentos inteiros são pagos para agir. Se governar é prever, fica cada dia mais evidente que não há mais governo em nosso País. Se é que, algum dia, houve.
EBC – salários
José Horta Manzano
Para complementar a informação de ontem sobre os salários pagos pela EBC, informo que o Diário do Poder reproduz a lista dos 2446 funcionários ativos em 31 dez° 2014.
O salário mensal de cada um deles aparece com todos os pontos e as vírgulas. A lista tem 130 páginas.
Que clique aqui quem tiver curiosidade de saber um pouco mais sobre a política salarial dessa generosa empresa. Afinal, esse povo todo é pago com nosso dinheiro.
Cadê o bloco Chave de Ouro?
Monica Pinheiro (*)
É quarta-feira de cinzas e a pergunta não sai da minha cabeça: o que foi que aconteceu com o Chave de Ouro? Procuro alguma nota nos jornais, mas não vejo sequer menção do nome daquele famoso bloco do Rio de Janeiro, que durante décadas forneceu assunto para a notícia mais aguardada e divertida no finalzinho do carnaval.
Criado em 1943 no subúrbio carioca, entre o Méier e o Engenho de Dentro, o Chave de Ouro só saía às ruas quando a festa já tinha acabado. O bloco era formado em grande parte por foliões inconformados com o rígido horário de encerramento do carnaval de rua, inapelavelmente marcado para o meio-dia da quarta-feira. Depois das doze badaladas do relógio, era hora da folia terminar e todo o mundo voltar ao batente.
Numa demonstração de total descaso pelas determinações do poder público, a turma do Chave de Ouro continuava pulando animadamente pelo centro do Rio, cantarolando marchinhas cheias de malícia, como se não houvesse amanhã. Eram em geral carnavalescos que se haviam excedido na bebida ou haviam sido surpreendidos em atos reprováveis para os padrões da época e, por isso, eram devidamente encarcerados no xilindró durante o reinado de Momo.
Longe de acalmá-los, os dias de prisão pareciam incendiar ainda mais aquela paixão pelo carnaval. Na quarta-feira de cinzas, os foliões da fuzarca eram soltos e imediatamente retornavam às ruas, cambaleantes mas cheios de energia reprimida, na ânsia de recuperar o tempo perdido. E assim o desfile do Chave de Ouro se repetia todos os anos, bem nas barbas dos defensores da lei.
Não é difícil prever o resultado do confronto. A força policial – na época também chamada de “radiopatrulha” – corria atrás dos integrantes do Chave de Ouro, que por sua vez se esgueiravam por entre os carros ou se escondiam pelos bares do centro da cidade, para voltar às mesmíssimas ruas assim que a polícia desaparecia da vista.
A cada ano que passava, o bloco só aumentava de tamanho. Um número cada vez maior de pessoas se agregava ao Chave de Ouro, muitas delas só para assistir de perto ao corre-corre e à pancadaria geral. Além dos foliões, policiais e curiosos, havia também outro grupo infalível – o dos repórteres fotográficos, que ziguezagueavam por todos os lados, em busca da imagem gloriosa que seria manchete no dia seguinte.
Esse “ritual” carioca começou a ganhar fama no início da década de 50 e se repetiu até o final dos anos 70. Virou tradição do carnaval carioca. Aos poucos, sem alarde, os jornais deixaram de falar no bloco. Vieram outras atrações carnavalescas, construíram o sambódromo na Marquês de Sapucaí, sofisticaram os sistemas de som dos blocos de rua. Mas, sem o Chave de Ouro, o Carnaval de rua do Rio nunca mais foi o mesmo.
A curiosidade me leva a navegar pela internet em busca de alguma explicação para o sumiço das notícias do bloco. Encontro uma reportagem da TV Globo de fevereiro de 1981, que noticia o retorno do Chave de Ouro depois de anos sem desfilar. As imagens do bloco são melancólicas. Falta brilho e sobra apreensão nas ruas de Engenho de Dentro por onde passa o bloco, em que comerciantes correm a fechar as portas de suas lojas para não serem saqueadas pelos foliões. A reportagem termina com a informação de que, como agora o Chave de Ouro tinha permissão oficial para desfilar na quarta-feira, no ano seguinte eles iriam sair na quinta-feira.
Se o bloco saiu na quarta ou na quinta-feira daquele ano, ninguém sabe, ninguém viu.
Em 2013, diversos jornais anunciaram a volta do Chave de Ouro às ruas do Rio, mas, no final, o bloco acabou desistindo de desfilar porque “não teve a logística necessária”. O fato é que o bloco mais transgressor da história do carnaval carioca simplesmente perdeu a graça com o fim da repressão. Mudaram os tempos. Agora, dentro e fora do reinado de Momo, tem-se a impressão de que tudo o que é estritamente proibido é ligeiramente permitido.
Leio no noticiário que hoje existe um bloco com um nome aparentemente definitivo: Sepulta Carnaval. Engana-se quem pensa que ele vai enterrar a folia na quarta-feira de cinzas. O bloco só vai sair no sábado depois dos feriados. Para quem, como eu, ainda não tinha reparado, esclareço que o carnaval carioca de 2015 só termina oficialmente no final de fevereiro.
E à turma do Sepulta cumpro o doloroso dever de informar que outros foliões lhe passaram a perna. A gloria de sepultar o Carnaval carioca este ano não caberá a eles, como sugere o lúgubre nome. É que, consultando o calendário oficial da cidade, vejo que vários outros blocos já garantiram seu direito de jogar a pá de cal na folia no último domingo de fevereiro, ainda que com nomes menos sepulcrais.
Renascerão das cinzas os blocos Broxadão a Hora é Essa (praia de Copacabana), Boka de Espuma (Botafogo), Caldo Beleza (Flamengo) e Galinha do Meio-Dia (praia de Ipanema).
Evoé, carnavalescos indomáveis do Rio de Janeiro! A festa vai continuar.
(*) Monica Cotrim Pinheiro é jornalista. Edita e anima o Blog da Monipin.
Frase do dia — 224
«A estatal EBC, criada no governo Lula, custa caro e entrega pouco. Ou entrega nada: a TV Brasil, “tevê do Lula”, é traço em audiência. No entanto, sem compromisso com custos ou resultados, a EBC avança no bolso do contribuinte para manter 2.446 pessoas com salários como os R$ 54.102,81 de um “chefe da assessoria” ou os R$ 56.072,05 recebidos por um superintendente. São salários superiores ao teto de ministro do Supremo Tribunal. Fosse uma empresa privada, a EBC já teria quebrado há muito tempo.»
Cláudio Humberto, jornalista, em coluna do Diário do Poder.
Os boias-frias suíços
José Horta Manzano
Você sabia?
Para ter consistência, toda agremiação precisa contar com membros que tenham um mínimo de pontos em comum. Quanto maior for a disparidade entre os componentes, maior será a dificuldade em manter a coesão e a coerência do grupo.
Um dos grandes erros cometidos pela União Europeia foi ter acolhido países cujo nível socioeconômico destoa da média dos demais sócios. A UE tem quase sessenta anos. Conta com 28 membros, dos quais 13 foram admitidos nos últimos dez anos. Foi uma precipitação prejudicial a todos.
Melhor teria sido primeiro ajudar países mais pobres a se desenvolver para, em seguida, permitir-lhes matricular-se no clube. O caso mais emblemático foi a admissão da Romênia, em 2007.
O PIB daquele país equivale à metade da média europeia. A disparidade social e econômica é abissal. Como integrantes do clube, podem circular livremente. O resultado é que grande quantidade de romenos se espalham pelo resto da União em busca de trabalho. Esse excesso de oferta de mão de obra alegra patrões mas põe salários em risco e desagrada funcionários tradicionais.
A Suíça, que assinou tratado de livre circulação com a União Europeia, também sente o baque. Romenos podem entrar no país sem visto. O último escândalo de exploração de trabalhadores estourou estes dias por aqui.
A empresa Stefanini – multinacional brasileira do ramo de tecnologia – presta serviço à Firmenich, gigante mundial em desenvolvimento de perfumes, aromas e sabores artificiais. A probabilidade é grande de o sabor ‘morango’ do seu iogurte ou o perfume ‘lavanda’ do seu desodorante terem sido desenvolvidos pela firma suíça.
Para cumprir contrato firmado com a Firmenich, a multinacional brasileira dá emprego, em Genebra (Suíça), a técnicos em computação. Foi buscar seus funcionários na… Romênia. Paga a eles 800 francos por mês, salário que não permite a ninguém sobreviver neste país. Para evitar que morram de frio ou fome, a bondosa Stefanini providencia a seus semiescravos alimentação e transporte. Oferece-lhes alojamento coletivo. São tratados como os boias-frias brasileiros.
Não há salário mínimo nacional na Suíça. Os acordos são setoriais. Os bares, restaurantes e hotéis têm seu acordo. Os comerciários têm o seu, e assim por diante. Como nenhum acordo existe no ramo da informática, a generosa multinacional brasileira está dentro da legalidade.
Como estamos todos cansados de saber, nem tudo o que é legal é ético.
O jornal da Televisão Suíça dedicou matéria de dois minutos ao assunto. Que clique aqui quem quiser assistir.
Dois pra lá, dois pra cá
José Horta Manzano
«Lo que hoy empieza a dar miedo es que algunas fuerzas políticas, tentadas por el demonio de la perpetuación en el poder a cualquier precio, en vez de buscar soluciones para la salida de la crisis, puedan acabar dividiendo al país como sucede ya en Argentina y Venezuela, con tentaciones, como en aquellos países, de amordazar la información libre.»
«O perigo atual é que algumas forças políticas – obsessionadas pela perpetuação no poder a qualquer preço –, em vez de procurar soluções para sair da crise, acabem fraturando o país e tentando amordaçar a livre informação, tal como já acontece na Argentina e na Venezuela.»
Enquanto os brasileiros, temporariamente anestesiados, ‘pulam’ seu carnavalzinho, analistas internacionais externam preocupação quanto ao que está para acontecer logo depois que momo tiver deposto sua coroa.
A exemplo, leia-se o interessante artigo do jornalista e escritor Juan Arias Martínez, publicado em 16 fev° 2015 pelo quotidiano espanhol El País. Numa comparação entre o caráter brasileiro e o de seus vizinhos de parede, o articulista conclui que, onde outros povos latino-americanos costumam se dividir em blocos fratricidas, o brasileiro sempre se mostrou unido na adversidade.
Cita o movimento das Diretas Já e as Manifestações de Junho 2013. Ressalta que, na hora do aperto, os brasileiros costumam se agregar em torno de uma só ideia, diferentemente de seus vizinhos. Venezuelanos, argentinos e outros hermanos tendem a se fragmentar em blocos antagônicos.
As lentes do analista espanhol temem que o vírus da desagregação social nos esteja contaminando. Cita o crescente clamor pela destituição da presidente, contrabalançado por resistência feroz de grupos que apoiam a mandatária – aqueles que línguas venenosas qualificam como «militância paga».
Do ‘nossas roupas comuns dependuradas’ estamos passando para o ‘dois pra lá, dois pra cá’. Da luta pelo bem comum, vamos lentamente escorregando para o encorajamento a erradicar aqueles que não pensam como nós.
Arias menciona a Petrobrás, o juiz Moro, a operação Lava a Jato, a pesquisa Datafolha, a Constituição. Lembra também que manifestações de âmbito nacional estão convocadas para 15 de março. Diz que é difícil saber que «eco popular» poderão ter as passeatas.
Também, pudera. Num país onde se vai dormir sem saber se no dia seguinte a lei não terá mudado, nem bola de cristal ajuda a adivinhar o futuro. Quem viver verá.
Que clique aqui quem quiser ler o artigo na íntegra.
Vou pra Diamantina
Monica Melo (*)
Se tem uma coisa que eu tenho dó é dos repórteres nessas épocas de feriados e comemorações.
Porque entra ano e sai ano e os pobres coitados repetem a mesma ladainha, entrevista com o chefe da Polícia Rodoviária Federal sobre como viajar com segurança, como evitar a ressaca, imagens ‘exclusivas’ dos foliões pulando e berrando freneticamente enquanto dão adeusinho para as câmeras, tentativas de conversar pelo menos um minutinho com alguma celebridade (subcelebridades ninguém precisa procurar, elas aparecem do nada na frente do microfone), a tradicional reportagem sobre o fim da farra na quarta-feira, yadda yadda yadda.
E também o movimento nas rodoviárias. Aí me lembrei de uma repórter de um telejornal local valentemente tentando encontrar alguma informação remotamente interessante na rodoviária de Belo Horizonte para colocar no ar.
Como nada muito relevante parecia estar acontecendo, lá vai a moça entrevistar os foliões, né, fazer o quê?
E pergunta pro primeiro: Vai pra onde neste Carnaval? Vou pra Diamantina.
E então pro casalzinho logo atrás: E vocês, pra onde vão no feriado? Pra Diamantina.
Dois ou três viajantes indo pra Diamantina depois, a câmera dá aquele zoom out básico e a gente percebe (mas aparentemente a repórter não) que aquilo ali é uma fila. Pra comprar passagem. Pra Diamantina.
A matéria deve ter ido ao ar por absoluta falta de opção… ou pra sacanear com a jornalista.
(*) Monica Melo é jornalista. Edita e anima o blogue Crônicas Urbanas.
Placa de automóvel
José Horta Manzano
A União Europeia foi criada com um objetivo maior: evitar a guerra. Martirizada por dois conflitos de proporções bíblicas, os europeus se uniram para assegurar que loucuras daquele tipo nunca mais se repetiriam.
O intento foi alcançado. Se conflitos houve, foram regionais e não contaminaram o continente. Mas a união trouxe efeitos colaterais benéficos e consideráveis. Um deles, do qual os europeus nem sempre se dão conta, é a padronização de inúmeros aspectos das atividades humanas. São regras comuns que facilitam a vida.
A uniformização é abrangente. Vai de voltagem da corrente elétrica até formato de folhas de papel. Milhares de diretrizes têm sido editadas. Algumas delas são obrigatórias para todos os países, outras não. Entre as facultativas, está a uniformização das placas de identificação de veículos a motor.
Muitos países europeus adotaram grandes linhas normalizadas: letras pretas sobre fundo branco. No entanto, cada país tem liberdade de determinar a combinação de números e letras.
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O resultado, às vezes, é curioso. França e Itália decidiram-se pelo mesmo padrão: duas letras, seguidas por três números e por duas outras letras. O acaso faz que um automóvel matriculado na Itália possa ostentar placa idêntica a um outro, matriculado na França. Já houve gente levando multa cometida por outro automobilista.
Nosso Mercosul tem-se mostrado inábil para resolver conflitos comerciais –frustrando o objetivo para o qual foi criado. No que se refere à identificação de automóveis, faz mais de quatro anos que se determinou a padronização das placas. A ideia é que todas elas sigam a mesma combinação. Cada país terá um lote de letras e números reservados, a fim de evitar o risco de placas repetidas.
Acho uma excelente ideia. Com todos os problemas que temos, não acredito que venha a ser posta em prática tão já. Está previsto para 2016, vamos ver. Se (e quando) entrar em vigor, teremos dado um passo à frente dos europeus. Nesse aspecto, pelo menos, seremos pioneiros.
Fonte: O Globo
Estratégia arriscada
José Horta Manzano
Pizzolato, o integrante da gangue do mensalão que fugiu para a Itália, continua na ordem do dia. Não tanto pelo que diz, mas pelo que dizem sobre ele.
O ex-diretor do Banco do Brasil é um moderno Ronald Biggs sem a sorte do renomado predecessor. Para quem se esqueceu, o inglês Biggs participou do «Great Train Robbery of 1963», assalto a um trem repleto de dinheiro. Foi preso, escapou da cadeia, deu volta ao mundo e acabou pousando sua trouxa no Brasil. Fez filho, casou-se, viveu no Rio de Janeiro 40 anos sem ser incomodado. O dinheiro, fruto do assalto, nunca foi encontrado.
Pois o antigo sindicalista Pizzolato – aquele que chegou, sabe-se lá como, à alta cúpula do Banco do Brasil – não foi tão sortudo. Fez o papelão de fugir e abandonar às feras os cúmplices, ato pra lá de malvisto no submundo do crime. Os traídos não se esquecerão.
Apanhado, o fugitivo cumpriu quase um ano de prisão fechada na Itália. Se se tivesse entregado à PF brasileira, não teria permanecido preso por mais tempo que isso. Já estaria, hoje, solto e senhor de seus passos.
A desastrada fuga espichou seu tormento. O homem está agora diante de um dilema. Se for extraditado, irá direto para a Papuda, onde periga apodrecer por bom tempo. Assim como virou as costas aos comparsas, por eles há de ser abandonado. Se, no entanto, Roma resolver guardá-lo, não será muito melhor: como Cacciola, ficará inscrito na lista da Interpol. Não poderá pôr os pés fora da Itália, sob risco de ser apanhado e despachado para Brasília. Tão cedo não usufruirá as delícias do clima da Costa del Sol, pros lados de Málaga (Espanha), onde adquiriu três apartamentos em condomínio de alto luxo.
Leio hoje na Folha que a estratégia dos advogados que defendem os interesses do Estado brasileiro será de acusar signor Pizzolato de ser «italiano por conveniência». Dirão que o extraditando «só se lembrou da cidadania italiana na hora da necessidade». É estratégia arriscada que mostra pouca familiaridade com a visão europeia do tema da nacionalidade.
Olhos italianos enxergam a situação por outro prisma. Veem signor Pizzolato como um italiano que recebeu de graça a nacionalidade brasileira pelo simples fato de ter nascido em solo tupiniquim. O Brasil é, de fato, um dos raros países que concedem automaticamente a cidadania aos que vêm à luz em seu território. No conceito peninsular, signor Pizzolato nasceu italiano, continua italiano e italiano sempre será. Punto e basta.
Não sei quem terá sugerido a estratégia, mas ela é mais que ousada – é temerária. Periga ferir sensibilidades. A meu ver, diminui as chances de o Estado brasileiro conseguir obter a extradição do condenado.
Pensando bem… talvez seja exatamente esse o objetivo, cáspite! Um Pizzolato longe do Brasil não poderá ser preso, nem interrogado, nem convocado. Jamais poderá – sai, demônio! – fazer delação premiada. Repatriado, periga lançar lenha à fogueira. Melhor que por lá fique, não é companheiros?






















