Frase do dia — 220

«A deslegitimação que vem por aí abalará primeiro o PT. Na mesa do juiz Moro há denúncias que abalarão também o PMDB e o PSDB, isso para se falar só dos três maiores partidos.

A Operação Mãos Limpas italiana varreu partidos políticos minados pela corrupção e fortaleceu o regime democrático. Até onde a vista alcança, no Brasil acontecerá a mesma coisa.»

Elio Gaspari em sua coluna d’O Globo, 28 jan° 2015.

Dilma não escapa das críticas

José Horta Manzano

Suisse 11Dia 22 de janeiro, publiquei o post Morreu de medo…, que trata da imperdoável ausência da presidente da República no Fórum Econômico Mundial.

Eu dizia que os ausentes costumam ficar na berlinda e ser alvo da maledicência dos que compareceram. Dito e feito. O jornalista Cláudio Humberto nos informa sobre a sequência dos acontecimentos em Davos.

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Interligne vertical 16 3KbRoubalheira nos envergonha

Cláudio Humberto (*)

A comitiva brasileira no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, têm sido questionada sobre o escândalo de corrupção na Petrobras, a mais global das grandes empresas brasileiras. Funcionário do governo alemão até pediu a um diplomata brasileiro para confirmar a informação de que há políticos de partidos governistas que, se não forem presos, poderão até virar ministros do governo Dilma Rousseff.

O funcionário alemão curioso referia-se a Henrique Alves (PMDB-RN) e Ciro Nogueira (PP-PI), que ainda podem virar ministros.

Suisse 12Além da expressão de espanto, diplomatas brasileiros ainda têm de enfrentar sorrisos dissimulados ridicularizando a corrupção no Brasil.

Joaquim Levy deixou boa impressão em Davos, mas diplomatas acham que a tarefa – insubstituível – de atrair investidores era de Dilma.

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(*) Excerto de artigo do jornalista Cláudio Humberto, publicado no Diário do Poder.

Terra do cruz-credo

José Horta Manzano

Você sabia?

Assalto 2Como faz a cada ano, o respeitado instituto mexicano Seguridad, Justicia y Paz publicou estudo que mede a criminalidade urbana no planeta. Divulgou a lista das 50 cidades mais violentas do mundo – pelo critério de número de homicídios em relação à população.

O país campeão estourado em matéria de violência urbana – o distinto leitor já deve desconfiar – é nossa amada Terra de Santa Cruz. Que digo? Santa Cruz? Está mais para cruz-credo!

A lista de 2013 trazia 16 cidades brasileiras entre as 50 mais violentas do mundo. A edição 2014 não só confirma a presença das mesmas dezesseis como também acrescenta três: são agora 19. Em números redondos, quatro entre as dez cidades mais violentas – considerados todos os continentes e todos os países – se encontram no Brasil. Nosso País segue firme na vanguarda do crime. Nossa dianteira é de tal importância que dificilmente poderemos ser alcançados. Somos imbatíveis.

Crime 1Contrastando com as autoridades das outras 18 cidades brasileiras mencionadas no estudo, a Secretaria de Segurança Pública de Goiás não gostou de ver a capital do Estado mais uma vez na lista da vergonha.

Aderindo a estratégia muito em voga no Brasil atual, tentou menosprezar a mensagem e «desconstruir» o mensageiro. Criticou o instituto mexicano, sua metodologia e seus dados. Tentou desqualificar e desmerecer o estudo. Disse que estavam errados, que não era bem assim, que, no fundo, não se matava tanto em Goiânia.

Charge publicada no site Seguridad, Justicia y Paz

Charge publicada no site
Seguridad, Justicia y Paz

Mexeram em vespeiro. Tiveram direito a uma longa resposta, com números, fontes e tabelas, assinada pelo presidente do instituto. O artigo está em destaque no site da ong, exposto a quem quiser ler. As autoridades goianas atiraram no estafeta e acertaram o próprio pé. Para coroar, ganharam a charge que vai reproduzida aqui acima.

As 19 cidades brasileiras constantes da lista das 50 mais violentas do mundo em 2014 são as seguintes:

Posição   Cidade             Taxa(1)
———————————————————————————————————
04        João Pessoa        79,41
06        Maceió             72,91
08        Fortaleza          66,55
10        São Luís           64,71
11        Natal              63,68
15        Vitória            57,00
16        Cuiabá             56,46
17        Salvador           54,31
18        Belém              53,06
20        Teresina           49,49
23        Goiânia            44,82
29        Recife             39,05
30        Campina Grande     37,97
33        Manaus             37,07
37        Porto Alegre       34,65
39        Aracaju            34,19
42        Belo Horizonte     33,39
44        Curitiba           31,48
46        Macapá             25,45

(1) Homicídios intencionais por 100 mil habitantes

Para efeito de comparação, note-se que a taxa global brasileira beira 25 homicídios intencionais por 100 mil habitantes, número altíssimo.

Assalto 1É verdade que estamos numa situação menos sinistra que a infeliz Venezuela (45 por 100 mil). No entanto, estamos bem longe de uma Alemanha (0,8), de um Japão (0,4) ou de uma pacífica Hong Kong (0,2). Ainda temos longo caminho a percorrer. Será trabalho para as próximas gerações. Com sorte, os netos de nossos netos conhecerão um país mais civilizado.

Obs:
Quem quiser consultar o estudo completo do instituto, pode descarregá-lo, em língua portuguesa e em formato pdf, aqui.

A deputada e as medalhas

José Horta Manzano

Não sei qual terá sido a repercussão do folclórico episódio protagonizado por uma deputada estadual gaúcha que outorgou a 21 de seus familiares a Medalha do Mérito Farroupilha – mais alta honraria oferecida pela Assembleia do Rio Grande do Sul.

Se alguém ficou sem saber, pode ler a notícia no Estadão ou na Folha de São Paulo. Transcrevo agora a reação irônica e bem-humorada do jornalista gaúcho David Coimbra.

Interligne 18h

Interligne vertical 16 3KfUm pedido para a deputada das medalhas

David Coimbra (*)

Medalha 3Não é verdade que a deputada Marisa Formolo, do PT, homenageou 21 parentes na Assembleia Legislativa. Nada disso. Foi VOCÊ quem homenageou os 21 parentes da deputada, o marido dela, filhos e netos, todos aqueles cunhados, mais um genro e, o que mais me surpreende, uma nora – as mulheres em geral não se dão bem com as noras.

Sim, foi VOCÊ e, glup, eu também, porque a Assembleia Legislativa representa o povo do Rio Grande do Sul. Nós é que pagamos aquelas medalhas que os Formolo ostentarão com orgulho cívico na galinhada de domingo. Espero que ninguém deixe a medalha que nós demos cair na sopa de capeletti.

A deputada disse que tomou essa iniciativa para valorizar a família. Achei bonito. Tanto que venho aqui, como contribuinte e cidadão, fazer uma solicitação à parlamentar. É o seguinte:

Dona Marisa, gostaria, por favor, que o povo do Rio Grande do Sul desse uma medalha para a minha mãe. Dona Diva, o nome dela. A minha mãe, digo.

Medalha 1Veja, deputada: minha mãe era professora da rede estadual de ensino. Só por isso ela merecia ser homenageada. Ensinou criancinhas por anos e anos e anos. Eu mesmo testemunhei galalaus se aproximando emocionados dela e balbuciando, como se ainda fossem meninotes: “Profe… senhora me ensinou a tabuada…”

Mas, depois de se desquitar, minha mãe não conseguiu sustentar os três filhos com o salário pago pelo mesmo Estado que paga o seu salário, deputada. Assim, ela foi ser vendedora de livros da Abril Cultural. Trabalhava sábados, domingos e, desta forma, os três filhos conseguiram fazer faculdade, sonho de toda família descendente de imigrantes.

Medalha 4Verdade que a minha mãe nunca foi do PT. Reconheço que isso pesa contra a concessão da homenagem. Ser do PT é legal porque você pode fazer o que quiser, mentir na campanha, montar caixa dois, tomar algum da Petrobrás, tudo, e continuará com a imagem de defensor dos oprimidos. Você pode até ser preso, que entrará no presídio de punho cerrado, vitorioso, uma vítima dos poderosos. É lindo ser do PT.

Medalha 2Li também que seu irmão foi agraciado com a maior honraria do Estado porque foi presidente de sindicato. Droga. Minha mãe nunca foi presidente de sindicato. Não dava tempo! Ela tinha de trabalhar para pagar as prestações do BNH, as contas da casa, os livros que a escola pedia todo começo de ano, essas coisas que as pessoas que não têm medalha pagam.

Por fim, fiquei sabendo que a senhora é autora do projeto de lei que institui a Política Estadual de Apoio ao Bambu, no que, evidentemente, teve o respaldo e o incentivo de toda a sua prolífica e engalanada família. Maldição! Que eu saiba, minha mãe nunca deu muita bola para o bambu.

É… pensando bem, deixa a minha mãe sem homenagem mesmo. Vou ter de avisar a Dona Diva que o almoço de domingo vai ser sem medalha.​

(*) David Coimbra é colunista do jornal gaúcho Zero Hora.

Crise de vocações

José Horta Manzano

Você sabia?

Rivaz, o menor município suíço Superfície: 0,3 km2

Rivaz, o menor município suíço
Superfície: 0,3 km2

«Procuram-se candidatos a vereador» – é anúncio que poderia ser feito na Suíça. E não é garantido que surtisse efeito. Nesse particular, o país atravessa verdadeira crise de vocações. Poucos são os que se dispõem a seguir carreira política.

Também, pudera. Boas estimativas indicam que o país conta com 150 mil eleitos(!), número elevado para uma população total de 8 milhões. Trocando em miúdos, um em cada 50 cidadãos exerce cargo eletivo. Parece uma orgia de dinheiro público desperdiçado, não é? Pois já verá o distinto leitor que a realidade é um bocado diferente.

Território escarpado, árido, sem riqueza mineral, de agricultura problemática, a Suíça atraiu pouca cobiça no passado. Até o advento de Napoleão – cujo objetivo era controlar a Europa inteira– ninguém tinha espichado olhos gananciosos para este rincão encarapitado nos Alpes.

Corippo, o município menos habitado População: 18 pessoas

Corippo, o município menos habitado
População: 18 pessoas

Assim, a Suíça nunca viveu sob a lei de um monarca. É formada por territórios, ditos cantões, que se foram agregando ao longo dos séculos. Cada um dos cantões é composto por municípios. Na maioria dos casos, o território municipal é exíguo – herança da divisão medieval em paróquias.

A contagem de 1° jan° 2015 deu um total de 2324 municípios. Com o passar do tempo, o número deles vem caindo em consequência de fusões. Dá pra entender. Os tempos modernos exigem especialização. A infraestrutura e os equipamentos de que a prefeitura é responsável precisam ser planejados e geridos por gente do ramo. Municípios muito pequenos não têm massa crítica para enfrentar esses desafios.

De uns 20 anos pra cá, as fusões têm-se acelerado e o número de municípios tem diminuído. Veja a progressão:

Interligne vertical 14Ano    Total municípios
1990        3021
1995        2975
2000        2899
2005        2763
2010        2596
2015        2324

A população média de cada município não chega a 3000 pessoas. Assim mesmo, o Poder Executivo de todos os municípios segue o sistema colegial: é composto de pelo menos três eleitos. São assistidos por um conselho municipal cujos membros também são eleitos. Essa massa de gente deve custar os olhos da cara, não?

Pois é aí que reside a grande diferença entre os costumes helvéticos e os nossos. No Brasil, prefeito e vereadores são assalariados, vivem disso. Não é o que acontece na Suíça.

Sessão do Conselho Municipal

Sessão do Conselho Municipal

Somente municípios muito grandes remuneram seus eleitos e exigem deles dedicação integral. Municípios pequenos – que são a esmagadora maioria – limitam-se a dar indenização simbólica de alguns milhares de francos por ano. Em alguns casos, vereador e prefeito nem dinheiro recebem: devem contentar-se com algumas garrafas de vinho no Natal. Há ainda minúsculos municípios cujos eleitos têm de se contentar com um «muito obrigado».

Na Suíça, só faz política quem se interessa sinceramente pela gestão da coisa pública. Carreira política está mais para apostolado que para investimento. Já no Brasil…

O Egito antigo e nós

José Horta Manzano

Futebol 1

O portal noticioso francês RTL comenta o fechamento temporário do estádio dito Arena Pantanal, inaugurado em Cuiabá um mês antes da Copa 2014. O complexo esportivo será interditado ao público para dar lugar a «intervenção de emergência», necessária para sanar «diversos problemas de construção».

Frise-se que o estádio foi entregue 6 meses atrás. Acolheu 4 (quatro) jogos do Campeonato do Mundo, entre eles um imperdível Nigéria x Bósnia. A construção da ‘arena’ custou módicos 254 milhões de dólares, que equivalem, ao câmbio atual, a 660 milhões de reais.

Dividindo o gasto total pelos quatro jogos que o estádio acolheu, chega-se ao veredicto: cada um dos encontros custou ao contribuinte brasileiro 165 milhões de reais. Sem contar o que vai ser gasto no «conserto». Não foi divulgada a porcentagem de superfaturamento incluída nesse valor.

Futebol 4O portal informa que o próprio governo do Estado de Mato Grosso reconhece que o futuro do campo de futebol está comprometido, dado que a previsão de receitas está longe de cobrir os custos de manutenção. É obra deficitária, como todos já sabiam.

Crédito: Kopelnitsky, EUA

Crédito: Kopelnitsky, EUA

Para fechar o artigo, uma última flechada. Fica-se sabendo que, para amortizar os 470 milhões de euros (1,3 bi de reais) investidos no estádio Mané Garrincha, de Brasília, serão necessários mil anos.

O distinto leitor e eu não temos nada que ver com o peixe. Mas pode ter certeza: os tataranetos dos tataranetos de nossos tataranetos nos amaldiçoarão.

Daqui a um milênio, se a humanidade ainda estiver povoando este planeta, nossa era será descrita como civilização atrasada, que gastava recursos construindo monumentos de concreto em vez de cuidar da saúde e da educação do povo. Exatamente como enxergamos o Egito antigo ou as monarquias absolutistas. No fundo, pouca coisa mudou de lá pra cá.

Ameaça

Coruja 1«Enquanto a população do Distrito Federal sofre com a precariedade da segurança pública e com o crescimentos dos índices de criminalidade, esta semana a Polícia Militar foi acionada para cumprir missão de emergência: capturar uma coruja que estava à espreita, nos jardins do Palácio da Alvorada, residência oficial de Dilma.

Alguém, no Alvorada, considerou ameaçadora a presença do animal-símbolo da sabedoria.»

Extraído do Diário do Poder, 24 jan° 2015.

A internet é inocente

Dad Squarisi (*)

Internet 1Mais de meio milhão de zeros no Enem? A notícia surpreendeu. Não pela nota mas pela quantidade de reprovados. Explicações caíram do céu e saltaram do inferno. Entre elas, a falta de familiaridade com o tema, a fuga do tema, a incompreensão do tema. Muitos responsabilizaram a internet pela calamidade. A rede teria o poder de deseducar. Quem escrevia deixou de escrever. Será?

Jornais, revistas, sites, blogues estão ao alcance de um toque. Ninguém precisa ir à banca comprar a informação. Cartas viraram lembranças de tempos idos e vividos. Deram vez a mensagens eletrônicas que vão e vêm em segundos. O Google relegou ao esquecimento enciclopédias que até há pouco enchiam as estantes de orgulho.

Internet 2Em bom português: mudamos o suporte, mas continuamos a ler e a escrever. Em vez de papel, a tela. Culpar o suporte pelo fracasso da moçada é baratear o problema. O buraco é mais embaixo. Lê mal e escreve mal quem nunca aprendeu a ler bem e a escrever bem. O retrato exibido pelo Enem é obra da escola. Não entender o tema constitui problema de leitura. Não conseguir desenvolvê-lo, de escrita.

Crédito: Jesús Díaz, Gizmodo.com

Crédito: Jesús Díaz, Gizmodo.com

Criança é curiosa. Adora aprender. Estimula-se com desafios. Enfrenta embates. Mas… cadê? Encontra salas de aula do século 19, professores sem compromisso, material didático modernoso que, sem foco e não raras vezes com erros grosseiros, confunde em vez de ensinar. Com internet ou sem internet, o resultado não muda. Sem o domínio das habilidades de leitura e escrita – fruto de estudo, disciplina e treino – esperar nota azul nesse cenário é ignorância, má-fé ou ingenuidade.

Somos poliglotas na nossa língua. “Não falamos português”, ensinou Saramago. “Falamos línguas em português.” A mãe de todas elas – a norma culta – abre o caminho da liberdade. Com trânsito nas possibilidades do idioma, torna-se possível escolher. Gírias, regionalismos, estrangeirismos, abreviaturas, internetês & cia. ilimitada têm vez no universo da comunicação. Usá-los no contexto correto pressupõe conhecimento – o saber que a escola sonega aos brasileiros.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Frase do dia — 219

«A posse do cocaleiro Evo Morales, na Bolívia – salada de crendices alimentada pela ignorância e pelo culto à folha de coca (matéria-prima da cocaína) – foi de um ridículo atroz. Dilma poderia ter evitado esse mico.»

Cláudio Humberto, jornalista, em coluna do Diário do Poder, 23 jan° 2015.

Morreu de medo…

José Horta Manzano

Suisse 7Estes dias, realiza-se o Fórum Econômico Mundial, simpósio que, ano após ano, congrega os grandes deste mundo durante alguns dias em Davos, Suíça. Em seus tempos de esplendor, nosso guia fazia questão de comparecer e aparecer. Este ano, quarenta chefes de Estado fizeram questão de estar presentes, assim como 1500 dirigentes de multinacionais – um total de 2900 participantes.

É possível que a Mongólia não tenha enviado representante. É também provável que nenhum responsável do Haiti ou do Butão esteja presente.

Pelo ordenamento constitucional brasileiro, os cargos de chefe de Estado e de chefe do governo são exercidos pela mesma pessoa. Atualmente, dona Dilma Rousseff encarna esse superpersonagem.

Suisse 4Pois dona Dilma, mostrando que sua autoestima anda mais baixa do que se imagina, fez saber que preferia desdenhar a Suíça e prestigiar a reentronização de seu ídolo Evo Morales. A escolha há de ser fruto de um daqueles ataques de voluntarismo de que nossa presidente é vezeira. Recuso-me a acreditar que seus assessores, posto que sejam tacanhos, lhe tenham aconselhado trocar Davos por La Paz.

A ausência da figura maior da nação brasileira no fórum assinala marcha à ré na política de projeção mundial entabulada por nosso guia doze anos atrás. Põe a perder o esforço – às vezes atabalhoado, mas sincero – de alçar o nome do Brasil entre as potências planetárias.

Suisse 6Não acredito em escolhas ideológicas. Se dona Dilma faltou à reunião, foi por orgulho. Fugiu para escapar às críticas e à reprovação a seu modo de gerir a coisa pública. O mundo sabe, hoje, que a gestão de seu primeiro quadriênio foi calamitosa. Todos sabem também que nada de auspicioso se apresenta para o futuro próximo.

Resultado: como em reuniões familiares, fala-se mal dos ausentes. O economista-chefe do IHS – instituto americano de análise econômica e tecnológica – chegou a qualificar de «moribundo» o estado de saúde do Brasil. Enquanto isso, os Estados Unidos, a Índia e o México estão no foco da admiração. De fato, ninguém gosta de quem anda pra trás.

Suisse 5Dona Dilma tem perdido apoio internamente. Sua renúncia a representar o país em reuniões importantes periga ser interpretada como renúncia do Brasil a participar do clube dos grandes deste mundo. Nosso guia há de estar desgostoso.

De criança, a gente cantava um refrãozinho de deboche que assenta bem na atual chefe do Estado brasileiro. Começa com «Morreu de medo…». E termina com «… no dedo».

Forças ocultas

by Antônio Gabriel Nássara (1910-1996) caricaturista carioca

by Antônio Gabriel Nássara (1910-1996)
caricaturista carioca

Antigo ministro e embaixador, José Aparecido de Oliveira aceitou debater com estudantes, nos anos 80, sobre os acontecimentos de 1961, quando o presidente Jânio Quadros renunciou ao cargo depois de tê-lo exercido por sete meses. Aparecido tinha sido secretário de Jânio.

Um rapaz muito agressivo e com a arrogância própria da idade criticou o gesto do antigo presidente – atribuído a “forças ocultas” – e declarou:

– Eu nunca teria feito isso!

Aparecido não perdeu a chance:

– Meu filho, você pode até estar certo, mas esse problema você nunca vai ter de enfrentar.

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Reprodução do original publicado pelo jornalista Cláudio Humberto in Diário do Poder,

Nota deste blogueiro
Apesar do que acreditam muitos, a carta renúncia de Jânio Quadros não mencionava “forças ocultas”, mas “forças terríveis”.

Non-white

José Horta Manzano

Benicio del Toro, porto-riquenho

Benicio del Toro, porto-riquenho

Faz alguns dias, o renomado site de informações Huffington Post publicou artigo sobre os indicados para o Oscar 2015. O articulista lamenta que a safra deste ano seja a mais nefasta para a ‘diversidade racial’.

De fato, pela visão do autor, é a primeira vez nos últimos 17 anos que nenhum «não branco» aparece na lista. A última vez em que o lamentável episódio ocorreu foi em 1998.

Javier Bardem, espanhol

Javier Bardem, espanhol

De lá pra cá, a lista de indicados trouxe, a cada ano, pelo menos um «não branco». Como exemplo, o jornal nomeia, ano a ano, os artistas que salvaram a diversidade racial. Abaixo, vão alguns significativos exemplos.

O espanhol Javier Bardem garantiu a quota em 2011. Indicada em 2010, Penélope Cruz esteve entre as candidatas ‘não brancas’. Em 2001, o porto-riquenho Benicio del Toro reforçou o time. Em 1999 – pasme! – foi nossa Fernanda Montenegro quem salvou a lavoura. Indicada por sua atuação em Central do Brasil, a carioca foi a única artista ‘não branca’ aquele ano.

Para que não subsistam dúvidas, o Huffington Post, em nota de pé de página, deixa as coisas claras. Quanto à distinção entre brancos e ‘não brancos’, declara:

Penélope Cruz, espanhola

Penélope Cruz, espanhola

«We went with the very broadest interpretation and included actors like Javier Bardem and Penelope Cruz as “non-white,” due to their Hispanic ancestry, despite the fact that many Hispanics may identify racially as white.»

Fernanda Montenegro, brasileira

Fernanda Montenegro, brasileira

Em tupiniquim, fica assim:
«Demos preferência ao entendimento mais amplo possível. Assim, listamos atores como Javier Bardem e Penélope Cruz como “não brancos” por causa de sua ascendência hispânica – apesar do fato de muitos hispânicos se considerarem brancos.»

E o distinto leitor? Como é mesmo que se declarou no último recenseamento?

Senador contrarregra

Certa vez, os senadores discutiam sobre o adiantamento da maioridade penal, quando Eduardo Suplicy (PT-SP) voltou a exibir sua veia artística.

DiscursoPassou a ler um relatório sobre o tema, onde havia um trecho em que um cachorro latia. Suplicy leu e latiu. Três vezes. Risos gerais.

Adiante, ele se referiu a “vários tiros de arma de fogo”. Novamente Suplicy ilustrou a leitura berrando os tiros.

O então senador tucano Arthur Virgílio (AM), com reflexos de judoca, levantou os braços, com ar de espanto, como se tivesse sido atingido pelos disparos. Mais risos.

Sem Suplicy, o Senado ficará menos divertido.

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Reprodução de artigo publicado pelo jornalista Cláudio Humberto in Diário do Poder,

A vida é um moinho

«O carioca Marco Archer Cardoso Moreira viveu 17 anos em Ipanema, 25 traficando drogas pelo mundo e 11 em cadeias da Indonésia, até morrer fuzilado, aos 53, neste sábado, por sentença da Justiça daquele país muçulmano.»

Primeiro parágrafo de artigo do repórter Renan Antunes de Oliveira, que entrevistou o prisioneiro, hoje falecido. Foi em 2005, numa prisão indonésia. Clique aqui quem quiser conhecer mais sobre o entrevistado.

As balanças de dona Dilma

José Horta Manzano

O braço armado da Justiça indonésia aplicou ontem a pena capital a meia dúzia de indivíduos. Todos eles haviam sido condenados por infração gravíssima à lei nacional que reprime a produção e o tráfico de drogas entorpecentes.

Entre os executados, estava um conterrâneo nosso. Traficante multirrecidivista, o moço estava preso e condenado havia mais de dez anos. Iludido pelo clima tropical, imaginou que sua saga teria o desfecho usual no Brasil: a impunidade e o apagamento da memória.

Deu-se mal. Assim como nem tudo o que reluz é ouro, clima quente não é automaticamente sinônimo de justiça mansa. Que o diga a cidade-estado de Singapura, aquela onde quem atira papel na rua paga multa de mil dólares.

Dilma indignadaDona Dilma – aquela que já integrou milícias cujo intuito era eliminar inimigos a tiros – «indignou-se». Chamou para consultas seu embaixador em Djacarta. Não há que pasmar: faz parte do jogo. Em código diplomático, significa que o Brasil está descontente. Daqui a algumas semanas, quando a poeira tiver baixado, o embaixador volta a seu posto, e vira-se a página.

A boa notícia é que dona Dilma já não parece mais raciocinar como fazia nos anos 1970. Já abandonou a ideia de que a solução tem de passar pelo estampido das armas. A má notícia é que dona Dilma tem várias balanças – nem todas aferidas pelo mesmo gabarito.

De fato, não me lembro de jamais ter lido uma linha sobre eventual «indignação» presidencial em referência aos mais de 150 assassinatos que ocorrem todos os dias no país que ela mesma governa há mais de quatro anos.

São cento e cinquenta execuções. Por dia. Ontem, hoje e amanhã também. Sem processo, sem condenação, sem habeas corpus, sem advogado, sem embargos infringentes. Sem «indignação» presidencial e sem recolha de embaixador.

Ah, essas balanças desreguladas… Faz-se urgente a criação de um Ministério de Pesos e Medidas.

Pátria educadora

Carlos Brickmann (*)

Sim, Dilma disse num dia que o lema de seu governo seria: “Brasil, pátria educadora”. E, na mesma semana, houve cortes no orçamento federal. Os maiores cortes atingiram o Ministério da Educação.

Mas a pátria educadora não é apenas a educação: é também a cultura. E o Museu Nacional, com 196 anos de história, maior instituição latino-americana de antropologia e história natural, fechou as portas ao público.

"Que notas são estas?" by Emmanuel Chaunu, desenhista francês

“Que notas são estas?”
by Emmanuel Chaunu, desenhista francês

Motivo: há três meses a Universidade Federal do Rio de Janeiro não paga as empresas terceirizadas de limpeza e segurança. Os serviços foram paralisados e o museu não podia mesmo receber visitantes.

Por que a UFRJ, subordinada ao Ministério da Educação, parou de pagar? Porque o governo federal parou de repassar as verbas para esses serviços. O salário de dezembro dos funcionários não saiu, nem o vale-transporte. E os 4 milhões que prometeram liberar nesta semana não resolvem o problema.

É a pátria educadora em ação.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação. Publica a Coluna Carlos Brickmann em numerosos jornais.