O lado Steve Jobs de Dilma

Elio Gáspari (*)

Na sua biografia de Steve Jobs, Walter Isaacson mostra que o gênio da Apple operava com um “campo de distorção da realidade”. Um sujeito trazia uma ideia, ele dizia que era estupidez, e dias depois anunciava que tivera uma grande ideia, a mesma. Se uma ideia dele acabava em encrenca, era de outro. Jobs lidava à sua maneira com a verdade.

Maçã 2A doutora Dilma não é nenhum Jobs, mas confirmou que opera com um campo de distorção da realidade. Ao mesmo tempo que seu governo anunciava ter aceito o pedido de licença de Sergio Machado, presidente da Transpetro, soltava a informação de que ele não voltaria ao cargo. Claro, o afastamento do doutor fora uma exigência da empresa que audita as contas da Petrobrás. Desde setembro, sabia-se que ele estava no catálogo de percentagens mostrado pelo “amigo Paulinho” ao Ministério Público. Em áudio, ele informou que recebera de Machado um capilé de R$ 500 mil.

É comum que se disfarcem os defenestramentos de hierarcas, mas a doutora exagerou. E não foi só nesse caso. Durante os debates da campanha, disse duas vezes que “Paulinho” tinha sido demitido da diretoria da Petrobrás. Falso. Ele renunciou e foi elogiado pelo ministro Guido Mantega na ata que registrou seu desligamento.

Maçã 1Dois outros episódios mostram que a doutora opera temerariamente no campo de distorção da realidade. Em 2009, o repórter Luiz Maklouf Carvalho revelou que, apesar de ser apresentada oficialmente como doutora em Economia pela Unicamp, ela nunca recebera o título, pois não concluíra o curso.

Em setembro passado, ela repetiu: “fui para a cadeia por crime de opinião”. A jovem Dilma Rousseff foi para a cadeia por ter pertencido a duas organizações envolvidas em atos terroristas. O Comando de Libertação Nacional, que ajudou a fundar, dizia em seu programa que “o terrorismo, como execução (nas cidades e nos campos) dos esbirros da reação, deverá obedecer a um rígido critério político”. Com esse cuidado, em 1968, antes do AI-5, mataram um major alemão pensando que fosse um capitão boliviano.

Maçã 3Steve Jobs adaptava a realidade, mas mexia apenas com os interesses dos acionistas da Apple. A doutora governa um país de 202 milhões de habitantes.

(*) Excerto de artigo de Elio Gáspari publicado no Jornal O Globo, 9 nov° 2014. Para ler na íntegra, clique aqui.

Carta aberta a um desembargador

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Excelência,

Começo me desculpando por não lembrar seu nome. Sem dúvida, ele foi citado nas muitas reportagens que li, vi ou ouvi a respeito do rumoroso caso que o envolve, mas, perdão mais uma vez Excelência, minha memória é muito ardilosa. Prega-me peças praticamente todos os dias, insistindo em só reter aquilo que lhe apraz. Confio que, em sua excelsa generosidade, Sua Excelência saberá compreender que limitações como essa são típicas da falibilidade da pessoa humana. Isso sem contar que várias outras deficiências nos vão sendo agregadas com a idade.

Tribunal 4Valho-me desta para felicitá-lo por sua recente façanha. Em uma só penada, o senhor conseguiu demonstrar algo que há muito tempo venho defendendo com veemência: juízes pertencem de fato a uma condição supra-humana. Embora muitos céticos ousem contestar fato tão evidente, fácil será entender que juízes não podem estar sujeitos às mesmas leis que regulam a convivência do populacho. Se esses abnegados servidores da Justiça dedicam boa parte da vida à leitura e compreensão minuciosas da Lei, como poderiam eles ter sua honradez conspurcada por alguém que sequer imagina como lidar com os meandros do Direito?

Essa agente de trânsito que, além de reles mortal é do gênero feminino – portanto, enredada na instabilidade emocional que lhe é característica – ousou zombar da supra-humanidade de um dos seus e Sua Excelência a devolveu de imediato ao seu lugar. Na sua ingenuidade, essa senhora acreditou que poderia tolher a liberdade de ir e vir de um Magistrado! Elencou inacreditavelmente uma série de critérios esdrúxulos para sustentar essa crença: ausência de placas no veículo, ausência da documentação do mesmo e ausência da Carteira Nacional de Habilitação. Imaginou que, por esses motivos, ela estava autorizada a tratar um juiz como uma pessoa qualquer! Parabéns, mais uma vez, Excelência, por ter nos ilustrado com seu douto saber.

Confesso, Excelência, um tanto envergonhada, que, no início, ainda sob o impacto do sensacionalismo com que a imprensa brasileira noticiou o incidente, cheguei a acreditar que o senhor havia exagerado um tantinho na sua sentença, condenando-a a pagar quantia vultosa a título de danos morais. Imaginei por um instante que, magnânimos como certamente são Sua Excelência e o senhor juiz envolvido no caso, poderiam ambos abrir mão da cobrança e decretar o perdão judicial. Perdão novamente. É que, sendo eu igualmente humana e igualmente mulher, não pude deixar de sentir um pontinha de piedade pela fragilidade financeira dessa senhora.

TribunalConfesso também que, no meu estado de choque inicial, fui ainda mais longe, Excelência. Cheguei a lembrar de um artigo da Constituição de nosso país que sempre me pareceu fundamental: aquele que diz que todos são iguais perante a lei. Talvez tenha eu sido inspirada naquele momento por uma mistura de ingenuidade, perplexidade e limitação intelectual. Entretanto, já recuperada desse surto de infantilidade, reafirmo o que disse de início: acredito piamente que juízes e desembargadores são – e demonstram cabalmente ser – supra-humanos.

Termino felicitando-o por ter guindado nosso país mais uma vez à posição de republiqueta de bananas. Um feito digno de constar nos anais da magistratura brasileira e internacional e que talvez só encontre paralelo na coragem de um presidente de nossa república em confrontar um tribunal italiano, acusando-o de ter feito um julgamento político de um cidadão condenado por vários assassinatos, inclusive o do Primeiro Ministro.

Tribunal 5Quando o recurso que essa senhora pretende interpor for julgado, Excelência, não se acanhe. Reafirme o status superior de seus colegas de Ordem. O senhor sabe: o tempo é o senhor da razão. Manda quem pode e obedece quem tem juízo. Os cães ladram e a caravana passa.

Pois imagine o senhor que, por infortúnio, um de meus cães ladrou a noite toda. A minha irritação com a insônia foi tal que eu me lembrei de uma frase estampada num cartaz carregado por um manifestante no enterro de Margareth Thatcher: “Respeito não se exige, conquista-se”.

Sinta-se à vontade para usar esse argumento, se lhe aprouver.

Atenciosamente.

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(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A presidente reeleita e a bandeira brasileira

Jorge Béja (*)

Pode parecer bobagem, pode parecer intransigência ou apego exagerado, mas não é não. Também é certo que Dilma e todo o seu staff palaciano-presidencial-eleitoral não agiram com malícia, nem com intenção ou ausência de civismo. O que aconteceu foi mesmo a mais completa falta de conhecimento. Foi ignorância – que não se apaga mais e que mostra a falta de cultura tanto dos que assessoram a presidente quanto da própria Dilma Rousseff.

O Brasil inteiro viu e ouviu o discurso de Dilma, após proclamada sua reeleição pelo TSE. De uma tacada só, às 8 da noite de domingo passado, o tribunal divulgou perto de 100% da apuração para presidente que, sigilosamente, ocorria desde as 5 da tarde, seguindo os fusos horários. Dilma venceu e ponto final. Roma locuta, causa finita.

Então, de uma tribuna, montada em um palanque e cercada do pessoal que lhe é mais próximo, Dilma agradeceu aos eleitores e fez promessas “aos brasileiros e brasileiras” para este segundo mandato presidencial. Falou em reconciliação e até no empenho pessoal que, doravante, terá para apurar as denúncias de corrupção que atingem a Petrobras. “Doa a quem doer”. Pelo que disse e prometeu, parece que teremos uma outra Dilma a governar o Brasil até o final de 2018. Tomara que seja verdade. A foto da fala de Dilma correu o mundo.

Dilma vitoria 2Mas poucos, poucos mesmo (ou ninguém) perceberam que naquele cenário (palanque e tribuna) a presidente reeleita, sem malícia, sem intenção ou falta de civismo, estava cometendo contravenção penal, sujeitando-se, portanto, a receber voz de prisão em flagrante de parte de qualquer um. Isso porque a tribuna do palanque de onde Dilma discursava estava revestida com a bandeira nacional. Se foi decidido usar a bandeira brasileira para aquela ocasião, o que era perfeitamente normal e recomendável, ela somente poderia estar hasteada. Revestindo a tribuna, como apareceu, jamais.

Dilma 1Um presidente da República e todos os que integram a presidência devem ser os primeiros a cumprir as leis do país. Deles parte o exemplo. Ao lado do hino, das Armas e do Selo Nacional, a bandeira nacional integra os símbolos nacionais aos quais todos devemos respeito cego, em obediência à lei que os disciplina – a Lei n° 5700, de 1971, revisada em 1992 e complementada pela Lei n° 8421.

O artigo 31 é imperativo, não dando margem à menor dúvida. Não admite atenuante. Diz: “São consideradas manifestações de desrespeito à bandeira nacional, e portanto, proibidas: (…) Usá-la como roupagem, reposteiro, pano de boca, guarnição de mesa, revestimento de tribuna, ou como cobertura de placas, retratos, painés ou monumentos a inaugurar“. O processo a que se submete o infrator “obedecerá ao rito previsto para as contravenções penais”.

(*) Este texto é excerto de artigo de Jorge Béja, advogado carioca. A versão integral está aqui.

Você votou em quem você votou?

Fernão Lara Mesquita (*)

Urna 5A resposta é que você nunca saberá.

É com anos de atraso, num mau momento e possivelmente até com algum rabo preso, como se verá abaixo, que o PSDB pede à Justiça Eleitoral uma auditoria do sistema eletrônico de votação brasileiro por uma comissão de especialistas indicados por todos os partidos.

Mas antes tarde do que nunca. As queixas são recorrentes, o Brasil vai na contramão do padrão mundial, e é função de um partido dar satisfação a seus representados.

Que a máquina brasileira de votar não tem segurança é ponto pacífico. Nada que lide com softwares e bits tem segurança. Isso está provado por testes que quebraram a segurança da nossa urna eletrônica não só nas medidas destinadas a evitar a identificação do voto com o respectivo eleitor, como também nas medidas para impedir que softwares maliciosos atribuam o voto de um eleitor a um candidato diferente daquele em quem ele votou.

by Jacques Sardat (aka Cled'12), desenhista francês

by Jacques Sardat (aka Cled’12), desenhista francês

Esses testes foram feitos, e falhas de segurança foram identificadas desde as primeiras eleições computadorizadas no País. Não só por brasileiros como também por americanos da Universidade de Princeton, especialistas em máquinas similares às nossas (do ponto de vista tecnológico, não na aparência) produzidas pelo mesmo fabricante das brasileiras – que, aliás, é alvo de um monte de processos por corrupção nos EUA.

urna 4Mas o que há de escandaloso no caso brasileiro é que, apesar de todas essas provas de falta de confiabilidade da máquina, do acúmulo de queixas em eleições passadas (94 municípios registaram queixas de fraude na eleição de 2012), das centenas de vídeos que circulam na rede mostrando casos pontuais pra lá de estranhos em locais de votação de diversos estados e das provas diárias de que nem os computadores do sistema financeiro nacional e internacional, da Casa Branca ou do Pentágono estão imunes a invasões ou fraudes, mantém-se em pé, com argumentos pífios, uma suspeitíssima barreira para impedir a introdução de contraprova física das nossas votações. Um documento que possa ser conferido manualmente como se faz em todos os países do mundo com votações eletrônicas. São só duas as exceções: o Brasil e a Índia.

(*) Este é excerto de artigo publicado pelo jornalista Fernão Lara Mesquita em seu blogue. Para ler na íntegra, clique aqui.

Não deu…

É, não deu para apostar na alegria da descoberta de um caminho alternativo…
Não deu mais uma vez para acreditar no próprio poder…
Não deu para estender a mão aos que cairam pelo caminho…
Não deu para imaginar que ainda era possível…

Não deu para contagiar com a esperança de um amanhã plausível…
Não deu para contar com a liberdade interna de escolha….
Não deu para enfrentar o medo do abismo à frente….
Não deu para compreender que o sonho era possível…

Não deu para mitigar a dor das feridas do passado…
Não deu para engolir a mágoa pelos próprios tropeços…
Não deu para ficar com a voz do coração…
Não deu para sufocar o ronco do estômago…

Myrthes Suplicy Vieira
Psicóloga, escritora e tradutora.

Cães adestrando humanos para a eleição

Myrthes Suplicy Vieira (*)

O ceticismo de minhas duas cachorras atingiu seu ápice durante o debate de sexta-feira à noite. Vencidas pelo tédio, elas dormitaram pesadamente a maior parte do tempo. Incomodada com a falta de reação por parte delas, cutuquei-as durante um intervalo e perguntei o que estava acontecendo.

Crédito: Ellem.ca

Crédito: Ellem.ca

A mais nova e mais espevitada respondeu que aquilo tudo lhe parecia conversa mole para boi dormir e que, apesar de não poder ser enquadrada na categoria dos bovinos, aquele palavrório todo só tinha servido para aumentar sua sensação de alienação. “Eu preferiria, disse ela, que você me levasse para passear e me deixasse farejar no ar se aquele macho bonitão vai passar por aqui”. Espreguiçou-se gostosamente e voltou a dormir.

A mais velha e mais sábia levantou a cabeça mal-humorada e sentenciou: “Estive pensando. Há um fenômeno curioso que já foi registrado entre várias espécies animais. Até onde eu saiba, não há registro desse tipo de acontecimento entre nós. Ele costuma acontecer com razoável frequência entre baleias. É uma espécie de indução ao suicídio coletivo. Por algum estranho motivo, algumas vezes a baleia-piloto se desorienta em alto mar e conduz as demais para águas rasas, fazendo com que todas morram encalhadas na areia. Já se especulou que a causa desse fenômeno pode estar no radar das grandes embarcações, mas eu duvido”.

Intrigada, perguntei: “O que você está querendo dizer com isso?”

Ainda sonolenta, ela resmungou em resposta: “Para mim, o verdadeiro motivo é que a líder se cansa de assumir tanta responsabilidade por tanto tempo. Veja só, ela tem de imprimir um ritmo mais lento para respeitar as limitações das baleias mais velhas. Tem de cuidar para que os filhotes não se afastem demais de suas mães. Tem de proteger os mais jovens e inexperientes quando do ataque de predadores. Tem de deter o ímpeto dos machos mais ousados que querem fazer desvios de rota para acasalar. Não pode se dar ao luxo de parar para cuidar de si mesma quando está com fome, machucada ou exausta. Acima de tudo, seu orgulho por ter feito tantas travessias bem sucedidas faz com que ela se recuse a admitir que já está na hora de seu reinado terminar”.

Baleia 1Curiosa pelo desfecho, apressei: “E daí? Onde você quer chegar com essa história toda de baleias?”

Minha envolvente filósofa canina concluiu com um meio-sorriso: “Pois está me parecendo que a atual baleia-piloto de vocês está se aproximando perigosamente da praia”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Veja quem ganha as eleições

Carlos Brickmann (*)

Ibope, Datafolha, institutos de pesquisas são para os fracos: acertam na maioria das vezes, mas há também casos de erro. A cada pesquisa que divulgam, aparece alguém insatisfeito com o resultado dizendo que não foi ouvido e não conhece ninguém que o tenha sido – como se fosse fácil conhecer algum dos três mil entrevistados numa população de 200 milhões.

Para os fortes, há o melhor instituto do mundo, o DataCarlos, que não erra nunca. Pesquisas do DataCarlos não têm margem de erro para cima ou para baixo. Seu intervalo de confiabilidade é de 100%. E só não é superior a 100% porque o maior especialista mundial em números impossíveis, Guido Mantega, não veio ainda trabalhar conosco (nem virá, que aqui ninguém é doido).

O DataCarlos não tem pesquisadores, não faz entrevistas, não se preocupa com amostragens, e só sabe o nome dos candidatos porque saem todos os dias nos meios de comunicação. Pois nem o nome dos candidatos afeta a pesquisa.

Temer 1E agora, a resposta que todos querem conhecer: o vitorioso nas eleições será o PMDB. Ganhe Dilma ou ganhe Aécio, o PMDB, sob o comando de Michel Temer (ou de outro líder que melhor encarne os interesses partidários), governará o Brasil. Vai nomear os ministros importantes, faturar (eta, palavra perigosa!) os êxitos da administração, escolher até os jardineiros (fantasmas) de cada prédio público, do Oiapoque ao Chuí.

Com a vantagem de, em caso de fracasso, poder botar a culpa na pessoa que os cidadãos comuns pensam que é presidente.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação. Publica a Coluna Carlos Brickmann em numerosos jornais.

Cammina fuori

Massimo Pietrobon (*)

Cammina fuori
Hai mai pensato che quasi tutta la tua vita hai camminato lungo percorsi disegnati per te da qualcun altro? Sentieri già battuti, strade urbane, marciapiedi, passerelle, pavimenti, scale, piazze – tutti questi suoli sono stati creati da qualcun altro e tu semplicemente li segui. Forse non siamo così liberi negli spostamenti come crediamo di essere.

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Caminhe fora
Já lhe ocorreu, algum dia, que você passou a vida inteira percorrendo caminhos construídos para você por alguma outra pessoa? Estradas já batidas, ruas, calçadas, passarelas, andares, escadas, praças – todo esse chão foi criado por alguém e você não faz senão pisar e seguir adiante. Quem sabe nossa liberdade de ir e vir não seja tão ampla como imaginamos.

(*) Massimo Pietrobon, italiano de Treviso, edita o blogue poliglota Capitan-mas-ideas.blogspot.it

Debatendo amenidades à véspera do golpe

Fernão Lara Mesquita (*)

A reunião de Dilma Rousseff com “movimentos sociais” reconhecidamente sustentados por seu governo no Palácio do Planalto – para marcar para morrer a democracia no Brasil pelo mesmo gênero de falcatrua plebiscitária que a matou nos vizinhos “bolivarianos” que o PT aponta como modelos politicos – é o grande ausente não só do último debate como de toda esta eleição.

Coup d'etatComecei a sequência desta nota escrevendo que, em qualquer outro lugar do mundo, este seria o tema dominante da campanha. Mas logo me dei conta de que isso é absurdo. Em nenhum país civilizado seria tema de eleição propor aos eleitores a cassação de seus próprios representantes, justamente aqueles que foram eleitos como fonte exclusiva de legitimidade de qualquer ação política ou legislativa.

Isso contradiz o axioma e a essência do contrato social e, por conseguinte, do regime de democracia representativa. Significa a substituição de 140 milhões de eleitores por um punhado de organizações não governamentais – organizadas pelo governo e financiadas pelo partido que ora ocupa o poder.

Perto disso, toda a vasta crônica da corrupção da Era PT fica pequena. Mesmo assim, o absurdo kafkiano de pedir aos eleitores que se cassem a si mesmos não só é exequível entre nós, como, às vésperas da eleição, pôde transformar-se no Decreto n° 8243, assinado pela candidata da situação sem consultar os interessados.

Nem o Congresso Nacional, cujos poderes estão sendo usurpados, nem – acredite quem quiser que venha a ler este texto no futuro – os candidatos que disputaram a presidência da República esboçaram a menor reação. O assunto sequer chegou a ser mencionado ao longo de toda a campanha eleitoral.

(*) Este é excerto de artigo publicado pelo jornalista Fernão Lara Mesquita em seu blogue. Para ler na íntegra, clique aqui.

Adestrando cães para a eleição

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Minhas cachorras não entendem nada de processo eleitoral. Tentei explicar a elas que, a intervalos fixos, nós humanos precisamos escolher mandatários. Como elas não sabiam o que significa mandatário, expliquei que são uma espécie de “líder da matilha”.

Assombradas, elas retrucaram: “Escolher? Como assim? Líderes não se escolhem, você apenas os reconhece”.

Crédito: Mamietitine.centerblog.net

Crédito: Mamietitine.centerblog.net

Um tanto ressabiada, aprofundei a explicação: É que, entre nós, não há um líder de matilha que seja reconhecido universalmente e nem mesmo lideranças que durem a vida inteira. Elas riram, atônitas. Insistiram em saber por que isso acontece na espécie humana.

Levei algum tempo refletindo e acrescentei: É que cada pessoa dá preferência a um estilo de governo. Como a pessoa escolhida vai mandar em nossas vidas durante todo o mandato, cada um precisa descobrir com qual candidato se identifica mais.

Elas gargalharam à solta por um bom tempo e novamente retrucaram: “Mandar? Líderes não mandam. Eles simplesmente vão na frente e abrem caminho para o resto da matilha. Nós não temos de ‘obedecer’ ao líder, apenas confiamos cegamente nele e, por isso, o seguimos”.

Mais uma vez, fiquei pensativa por alguns minutos e depois arrisquei: Bom, como o eleito foi escolhido por nós, ele tem, por assim dizer, obrigação de respeitar e fazer cumprir os projetos que seus eleitores acham que são prioritários.

Novas risadas e nova pergunta: “E o que acontece se o líder não cumpre o que prometeu?”

Respondi orgulhosa pela sabedoria de nossa espécie: Aí a gente o destitui e começa tudo de novo, tentando aprimorar o processo de escolha e discutindo novos requisitos para que não aconteça outra falha.

– “Mas o que acontece com o líder que não deu certo? Ele é morto ou banido de vez da matilha?”

Não – respondi – ele pode explicar por que não cumpriu o prometido, comprometer-se a melhorar e, se a gente acreditar que ele está mesmo empenhado em fazer tudo certinho, ele pode até mesmo se candidatar de novo.

Crédito: WaveMusicStudio

Crédito: WaveMusicStudio

De queixo caído, minhas cachorras engataram uma pergunta delicada: “Mas se ele já deu provas de que não merece confiança, o que leva vocês a acreditarem que vai ser diferente da próxima vez?”

Gaguejei, meio sem graça, tentando me dar um tempo para elaborar uma resposta convincente: Veja bem – comecei – a gente compara sempre dois candidatos e escolhe aquele no qual a gente confia mais. É por comparação, escutando os argumentos que cada um apresenta para convencer a gente.

Crédito: Bullies.centerblog.net

Crédito: Bullies.centerblog.net

Elas rolaram no chão de tanto rir: “E vocês se fiam em palavras? Em meio à enxurrada de palavras do debate de ontem à noite, um candidato manteve a cabeça baixa, orelhas em pé, o corpo todo encrespado e projetado para a frente, o rabo baixo e rosnou a maior parte do tempo. Entre nós, isso é sinal de que se está diante de um valentão que quer ganhar a briga na porrada e, portanto, é alguém em quem não se pode confiar. Já o outro candidato manteve o peito cheio, a cabeça e o corpo eretos, olhos bem abertos, sorriso nos lábios e o rabo abanando o tempo todo. Entre nós, isso é sinal de que deseja uma aproximação amigável, de que não há razão para ter medo. Agora, o tom monocórdio e sem vida das palavras dos dois deixava claro, pelo menos para nós, que eles estavam só fazendo de conta que eram isso mesmo”.

Então – disse eu, já exausta – nós humanos às vezes esquecemos de verificar se as palavras que a pessoa está usando combinam com sua postura corporal porque estamos mais preocupados com o conteúdo do que com a forma.

“Mas – observou minha golden retriever – todas as vezes que eu abano o rabo freneticamente e pulo nas pessoas para fazer festa, você puxa a guia de volta e me dá uma bronca. Quando eu começo a latir e a rosnar, você grita ‘não’. Como é que fica?”

Desisti de buscar novas explicações. Elas nunca vão entender mesmo o processo eleitoral dos humanos.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O feioso português da presidenta

Carlos Eduardo Gonçalves (*)

Este escriba aqui não vota em Dilma não, apesar de já ter votado em Lula, em 2006.

Os motivos são diversos, mas destaco dois: a incompetência no manejo da economia e a corrupção sistêmica.

Tem um terceiro, porém, que pode até ser menos relevante, mas que, confesso, me gera certa repulsa e me motivou a rascunhar este post: o uso do português pela presidenta.

Dilma, desculpe-me, mas seu português é de estarrecer. Embaralhado, sem fluência, sem um charmezinho sequer.

Além disso, muitas vezes não dá mesmo para entender o que ela quer dizer, tortuosas estruturas de difícil apreensão, idas e vindas labirínticas. E aquele repetir infinito do «no que se refere», tão pouco natural e sinalizando escassez de termos e expressões substitutas.

A presidenta já citou o Velho do Restelo para criticar os críticos, mas será que leu efetivamente Camões?

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(*) Carlos Eduardo Gonçalves é economista, escritor e professor da USP. Edita o blogue Prosa Curta, alojado no Estadão.

A violência política e a violência doméstica

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Augagneur 4Assistindo aos últimos debates e propagandas eleitorais, consegui obter uma compreensão mais profunda das razões que levam uma mulher agredida por seu companheiro a não registrar queixa numa delegacia – ou mesmo a retirá-la após ter dado entrada a um boletim de ocorrência.

Assoberbada pela confusão de sentimentos que experimenta a cada dia – as boas lembranças do tempo da sedução, da corte e dos primeiros dias de convivência confrontadas com o dolorido assombro diante da transmutação do comportamento do parceiro – ela começa a se indagar se o problema não estaria, afinal, dentro dela mesma.

Augagneur 3Dedo podre’ para apontar o homem que vai acompanhá-la em sua jornada, talvez alguma falha em seu perfil físico ou psicológico que afaste candidatos mais qualificados ou até, quem sabe, alguma dificuldade emocional para acolher os defeitos de outras pessoas.

Hesitante, sem conseguir decifrar o enigma, ela resolve dar mais um tempo para que as coisas se acalmem. Depois – pensa – se eu decidisse levar tudo a ferro e fogo, minha vida provavelmente sofreria uma mudança radical. Mudança de residência, problemas financeiros graves, imagem social arranhada e, pior, o medo diante dos enormes obstáculos para convencer o atual parceiro a se afastar em definitivo e abrir espaço para uma possível aproximação com novos companheiros.

Augagneur 1No núcleo de toda a situação, a incapacidade de apostar todas as fichas em seus próprios valores e desejos. A impossibilidade de projetar um futuro em que eles reinariam absolutos. A descrença no seu próprio poder de realização.

Assim, entre um futuro incerto que carrega consigo a obrigação de sair da zona de conforto e outro com o qual já se está habituado, a escolha recai, no mais das vezes, no desejo de preservar o que já se conquistou – sem qualquer forma de reflexão a respeito da possibilidade de conquistar ainda mais.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Ilustrações: Jean Augagneur, desenhista suíço

O Lula em lua de mel

Lua de mel

Wálter Maierovitch (*)

Para a mídia alemã não representa notícia de interesse público o fato de a chanceler Angela Merkel, chefe de governo, não dar carona ao marido em avião oficial. Por exemplo, Merkel passou a Páscoa na cidade italiana de Nápoles a fim de descansar. O avião oficial que a transportava desembarcou na sexta-feira e o corpo de segurança alemão a acompanhou à residência que alugara com dinheiro próprio.

Avião 6Cerca de quatro horas depois do desembarque de Merkel em Nápoles, chegou o seu marido. Estava programado que o casal passaria a Páscoa em Nápoles. O “maridão”, no entanto, pegou um vôo comercial Berlim-Roma e, na sequência, uma conexão para Nápoles.

Por que não pegou uma “carona” com a poderosa chanceler e esposa? A resposta é simples. A carona em vôo oficial, segundo a legislação alemã, é muito cara. Mais de dez vezes o preço de um bilhete aéreo comercial. Por isso, o casal Merkel viajou separado. Em outras palavras, para economizar. Assim, o varão viajou como um comum mortal que, temporariamente, é esposo da chefe de governo da Alemanha. A mandachuva, de enormes responsabilidades institucionais, cumpriu a lei e fez economia doméstica.

AviaoDepois da Páscoa, um avião alemão oficial conduziu Merkel de volta a Berlim, sede do governo e sua cidade natal. O esposo da chanceler partiu em vôo de carreira, com conexão e passagem paga por ele próprio e não pelo cidadão alemão.

(No Brasil, o senador Eduardo Suplicy, depois de noticiado o fato na imprensa, correu para devolver o valor de uma passagem aérea que o seu gabinete, por sua ordem e numa relação privada, havia comprado para a namorada.)

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(*) Wálter Fanganiello Maierovitch é jurista e professor. Já foi desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo. O texto apareceu no Portal Terra já faz algum tempo. Foi recentemente repercutido pela Tribuna da Internet.

Quantos milhares de votos voaram?

Carlos Chagas (*)

Conhecida parte da delação dos ladrões da Petrobrás, José Roberto Costa e Alberto Youssef, na tarde de quinta-feira, a pergunta que varre o país de Norte a Sul refere-se a quantos milhares ou até milhões de votos terá perdido a presidente Dilma Rousseff?

Quem quiser que faça as contas, mas se inusitados não acontecerem até o dia 26, Aécio Neves está eleito presidente da República. Não dá para livrar a cara de Dilma, bem como do Lula, muito menos do PT, diante do escândalo agora denunciado.

Avião 10O partido dos companheiros levava 3% de todos os contratos superfaturados de empreiteiras com a Petrobrás. PP e PMDB também participavam da lambança. Será possível que a presidente e o ex-presidente nada soubessem, com tanta gente envolvida? Por onde andou a Abin, encarregada de informar o chefe do governo? E o ministro da Justiça? Precisou a Polícia Federal investigar.

Vem muito mais chumbo grosso por aí. Quando o Supremo Tribunal Federal começar o julgamento dos políticos envolvidos na tramoia, assistiremos deputados, senadores, governadores e ministros serem transformados em réus. Os que tiverem sido reeleitos perderão o mandato. Quanto aos empreiteiros, serão expostos, junto com outros diretores da Petrobrás. Estarão abertas as portas da caverna de Ali Babá.

Carlos Chagas é advogado, jornalista e radialista. O texto é excerto de artigo publicado no Diario do Poder, 11 out° 2014.

O PT e a modernidade

«Em geral, se quer atribuir esse antipetismo [paulista] a uma posição conservadora. Eu penso que é o contrário. O PT não está conseguindo dialogar com o contrário do que eles dizem, que é a modernidade de São Paulo.

Se pegar São Paulo como metáfora do capitalismo brasileiro, é o estado com a maior presença de desenvolvimento econômico, onde a classe média é muito expressiva, gente que opera sabendo que o que ela tem se deve ao próprio esforço e não a benesses do Estado, do governo ou de quem quer que seja.

Esse eleitorado tem sido muito maltratado pelo discurso petista. De certo modo, a maioria da população de São Paulo tem esse éthos empreendedor, individualista. O paulista tem sido tratado em bloco como se fosse reacionário, de direita.

Eu acredito que isso é um grande equívoco do PT, que explica não só o crescimento de Aécio, como a vitória de Alckmin.»

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Excerto de entrevista concedida por Milton Lahuerta ao jornal O Globo. O entrevistado é coordenador do Laboratório de Política e Governo da Unesp. Para ler o texto integral, clique aqui.

Momento histórico

José Horta ManzanoPapagaio

«Dilma foi a terceira pior presidente em termos de crescimento econômico. Só perdeu para Floriano Peixoto e Fernando Collor.»

Trecho de artigo assinado pelo professor Marco Antonio Villa, publicado no jornal O Globo de 7 de out° 2014. Imperdível. Para conferir, clique aqui.

Viagem de 1600 km para votar!

Wilma Schiesari-Legris (*)

Neste primeiro turno, nossa embaixada aqui em Paris contabilizou 7500 brasileiros votando na França. Um desses eleitores é minha colega dos tempos de escola, Maria Cristina Michalany.

Maria Cristina, que vive em Marselha (sul da França), percorreu 775km para cumprir sua obrigação. Isso dá quase 1600km ida e volta.

Ontem, véspera do primeiro turno das eleições, fomos, meu marido e eu, jantar com nossa amiga e o marido, numa charmosa brasserie de Saint-Germain des Près.

Quis o destino que, ao partirmos às 23h, ali encontrássemos um diplomata brasileiro, que respondeu a algumas questões nossas de ordem administrativa. Para isso, abandonou por instantes a esposa e um grupo de convivas. De certo modo, fez «hora extra» a fim de nos orientar para a votação deste dia 5.

Embaixada do Brasil, Paris

Embaixada do Brasil, Paris

A gentileza do diplomata não parou por aí. No domingo, logo cedo, encontramos nossas dúvidas devidamente dissipadas através de um email que ele nos enviou pessoalmente.

Nos 36 anos em que tenho vivido aqui, constato há algum tempo, primeiro com a Rose, depois com a adida cultural e, agora, com o Luiz Roberto, que a atenção dedicada a nós extrapola as dependências dos guichês consulares e os salões nobres do palacete do Cours Albert I.

Deu pra sentir a nova atmosfera tanto no Salão do Livro de 2012, como na sala do Serviço Cultural, em 2013, quando fui entregar um projeto teatral de artistas paulistas. Ontem, no restaurante, a boa experiência se repetiu: não tenho visto mais arrogância e até certo desprezo que foram a marca de alguns funcionários décadas atrás.

Tudo isso para lhes dizer que, ainda desconhecendo os resultados das eleições, dado que agora são 23h25 em Paris, já sei que poderei rever a minha colega e amiga dia 26 próximo. Ainda por cima, quando precisar, sei que poderei contar tanto com os funcionários que aqui citei como com outros, anônimos, com os quais tenho tratado durante minhas peregrinações administrativas.

(*) Wilma Schiesari-Legris é escritora. Este artigo foi publicado em seu blogue IeccMemorias.wordpress.com em 5 out° 2014.

Um país com medo de ser feliz

Plácido Fernandes Vieira (*)

Enluminure V 1olta e meia sou tentado a concordar com De Gaulle ou com quem quer que tenha dito que o Brasil não é um país sério. Nos Estados Unidos, uma escuta telefônica clandestina instalada no comitê de um rival político levou à renúncia o então presidente Richard Nixon. Agora, pense aí: e se flagrassem em vídeo, nos EUA ou na Europa, um deputado do partido governista confessando que uma empresa pública foi usada para fazer campanha de um presidente à reeleição? Imagine o tamanho do escândalo e as consequências.

No Brasil, caro leitor, a questão é tratada com escárnio pelos donos do poder. Veja o caso de Minas Gerais. Um deputado estadual do PT foi filmado se vangloriando do uso dos Correios na campanha de Dilma e de Pimentel. Mesmo diante das imagens incontestáveis da fraude, sabe como a presidente da República reagiu ao ser indagada sobre o flagrante? «Vocês são jornalistas. Vocês acreditam nisso?» Ou seja: ela está sugerindo que, em vez de se ater ao que o vídeo revela, os jornalistas não acreditem no que veem mas somente no que ela diz.

Pior é constatar que, diante da prova e da versão oficial, há jornalistas que se desmoralizam a ponto de optar pelo engodo chapa-branca. Na hora de escrever os textos, entre as imagens do que de fato ocorreu e o bla-bla-blá palaciano, eles se comportam bovinamente «neutros», dando ao «desmentido» até mais peso do que à verdade. Ou seja: se, nos EUA ou na Europa, uma bobagem como essa poderia derrubar um governo, aqui o escândalo lhe dá força e o leva à reeleição.

Dilma e LulaEscandaliza-me o fato de que a corrupção hoje no país seja tratada como uma virtude. O caso da quadrilha que roubava a Petrobrás para distribuir entre aliados do governo Dilma e Lula é clássico. Quanto mais se descobrem fatos cabeludos da maracutaia, mais crescem as chances de a presidente se reeleger no 1º turno.

As pessoas parecem ignorar que os R$ 10 bilhões desviados dos cofres públicos na Operação Lava-Jato – conforme estimativa da PF – poderiam estar sendo investidos em educação e saúde com «padrão Fifa», como cobraram os manifestantes de junho 2013. Mas o que vemos é cada vez mais dinheiro no poço da corrupção. É como se o brasileiro, de tão desencantado, tivesse medo de voltar a sonhar em ser feliz. Preferisse ser enganado a sonhar com a possibilidade de um país mais digno e mais justo para todos.

(*) Plácido Fernandes Vieira é articulista do Correio Braziliense. Este artigo foi publicado em 4 out° 2014.

O efeito BBB na campanha eleitoral

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Quanto mais se aproxima a hora de colocar o voto na urna mais cresce a minha irritação com o panorama descortinado pelas mais recentes pesquisas eleitorais.

Instintivamente começo a resmungar, culpando a baixa qualidade da educação oferecida aos eleitores em nosso país, a manipulação dos dados econômicos, políticos e sociais que tingem de rosa a percepção dos candidatos da situação e de tons sombrios de cinza chumbo os da oposição, as alianças espúrias feitas para acrescentar alguns minutos à propaganda de rádio e tv obrigatória, a inexistência de candidatos com visão de estadista, etc. Termino sempre, é claro, elegendo os culpados de sempre: os eleitores que votam com o bolso ou com o estômago. Uso a frase de Kennedy para justificar minha raiva: “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, pergunte-se o que você pode fazer por seu país”.

by Santo, desenhista mineiro

by Santo, desenhista mineiro

Depois paro alguns segundos para refletir sobre os porquês dessa sinistra conclusão. Memória curta dos brasileiros? Desinformação generalizada? Falta de seriedade e descompromisso dos eleitores mais jovens? Desejo de preservar as parcas conquistas sociais amealhadas nos últimos anos sob o rótulo de “democracia do consumo”?

Não sei. Pode ser tudo isso junto e pode ser também um perverso efeito colateral do fato de que nunca tomamos posse de fato deste país. Primeiro o Brasil pertenceu à coroa portuguesa e a seus descendentes. Depois, às elites financeiras e militares, nacionais e estrangeiras. Se não, vejamos: independência, abolição da escravidão, proclamação da república foram todas decisões tomadas por um desses seres ‘superiores’. Nunca nos sentimos proprietários de nossas casas, nossas ruas, nossos bairros ou de nossas cidades. Somos todos inquilinos à espera do beneplácito dos verdadeiros senhores desta terra.

Volto a resmungar. Tudo continua na mesma toada, sem que consigamos nos dar conta dos grilhões que nos imobilizam há séculos: voto tratado como ‘dever cívico’ compulsório e não como direito, as benesses concedidas sem cessar aos políticos sem que a população seja auscultada para saber se aceita ou não tal concessão, a intromissão da propaganda eleitoral em nosso cotidiano à nossa revelia. Todo mundo fazendo de conta de que as coisas, agora sim, vão mudar.

by Wilmar de Oliveira Marques, desenhista gaúcho

by Wilmar de Oliveira Marques, desenhista gaúcho

Mas, espere um pouco: por que ainda não descobrimos um remédio para nosso surto esquizofrênico coletivo secular? Pois eu acabo de ter um ‘insight’ que me permite apontar um novo culpado para todos os nossos males: os “reality shows”. Vamos às explicações:

Interligne vertical 10* parece que nesse tipo de programa televisivo digo ‘parece’ porque não os assisto o principal valor colado à pessoa que vai merecer o voto dos espectadores e ser escolhido como vencedor é o da habilidade de jogar. Concede-se aos participantes a permissão para que se valham de qualquer tipo de recursos e estratagemas desde que eles se mostrem eficazes para criar polêmica e forçar os holofotes a iluminarem aquele que os utiliza. Parece ainda não haver qualquer filtro ético na escolha da melhor arma para vencer o jogo. Ao contrário, quanto mais perturbador, imprevisível e chocante for o recurso, maior o desejo de quem assiste de apostar todas as fichas nessa pessoa;

* a premissa que abre espaço para esse tipo de ‘atração’ é, a meu ver, exatamente o fato de que todos nós, espectadores e participantes, estamos envolvidos consentidamente numa invasão de privacidade. Somos todos ‘voyeurs’ antecipando o prazer de assistir à próxima cena íntima despudorada, precisamente como sempre fomos famintos por penetrar os bastidores do poder de nossa pobre república;

* a crença que nos invade é a de que, quando chegar nossa vez de sermos votados, os parentes e amigos dos vitoriosos anteriores vão se lembrar de nossos esforços e vão nos recompensar com sua gratidão e com seu voto.

Concluo, triunfante: é graças a essa confusão entre votação virtual e votação real que a insatisfação com os governantes de plantão pode ser engolida e transformada em novo apoio. É o mesmo velho lema maquiavélico – ‘os fins justificam os meios’ – refulgindo em todo seu esplendor. Taca-lhe pau, Dilma!

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.