Repita!

José Horta Manzano

Relógio 2Son las siete de la mañana, las seis en Canarias é o bordão que estações de rádio espanholas repetem escrupulosamente cada vez que o ponteiro dos minutos bate lá em cima. Dão sempre a hora nacional sem esquecer os que vivem sob fuso horário diferente do de Madri.

– São sete horas. – Repita! – São sete horas! Só não ouviu esse estribilho quem nunca passeou pelas estações brasileiras de rádio. É ladainha repisada todas as manhãs por uma das rádios mais sintonizadas do País. Está presente (e é captada) em todo o território nacional. Pelas artes da internet, até no exterior se pode ouvir.

Que a Rádio Clube de Xiririca do Fundão dê a hora local é compreensível: sua plateia vive no máximo a algumas léguas do lugarejo. Que uma das maiores emissoras do País, que conta com audiência do Oiapoque ao Chuí (como se dizia antigamente), faça a mesma coisa é frustrante.

Os 4300 quilômetros de largura do Brasil se estendem por quatro fusos horários. Quando a rádio que mencionei afirma e repete que são sete horas, noronhenses, mato-grossenses, acrianos, amazonenses e outros têm de recolher-se à sua insignificância. Cada um deles é obrigado a calcular mentalmente sua verdadeira hora.

Fusos horarios 3Quando o locutor apregoa que são sete horas, o noronhense sabe que, para ele, são já oito horas. O mato-grossense entende que, na sua província esquecida, ainda são seis da manhã. E o defasado acriano será obrigado a fazer continhas para deduzir que o galo ainda não cantou por lá: não passa das cinco da madrugada.

A estação de rádio à qual me refiro não é a única a agir assim. Todos fazem igual. Um ou outro, mais cuidadoso, explicita que está dando a hora de Brasília. É mal menor.

Sou incapaz de dizer de onde vem essa ideia de que o mundo começa no umbigo e termina um palmo adiante do nariz. Hesito entre descuido, ignorância, arrogância, preguiça mental. Levando em conta que costumam dar a temperatura de variados pontos do território nacional, prefiro acreditar que se trate de simples descuido conjugado com um tiquinho de arrogância.

Relógio 1Ah, tem mais. Aproveitando a onda da «Pátria Educadora», bem que podiam ser um pouco menos bruscos quando ordenam que o coadjuvante repita.

«Repita, por favor!» seria mais delicado e mais adequado. Fariam escola. Quem sabe um dia acordam.

Futebol equilibrista

José Horta Manzano

Enchente do Rio Negro, nas cercanias de Manaus, inundou campos de futebol – já precários por natureza.

Sem paciência para esperar pela volta da secura, a juventude construiu uma plataforma flutuante, junto à margem do rio.

Cobrança de escanteio é verdadeiro espetáculo de equilibrismo. O treino de futuros craques continua.

A Agência Reuters tirou uma série de belíssimas fotos. Clique para aumentar.

Foto La Presse/Reuters

Foto La Presse/Reuters

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Foto La Presse/Reuters

Foto La Presse/Reuters

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Foto La Presse/Reuters

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Foto La Presse/Reuters

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Foto La Presse/Reuters

Foto La Presse/Reuters

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Regime

José Horta Manzano

«Mais si la diète à base de soupes de légumes semble tenir toutes ses promesses, comme le souligne la presse brésilienne en chroniquant la nouvelle silhouette de la présidente, le passage sans transition de la lutte des classes à celle contre les féculents s’avère plus délicat pour le Parti des Travailleurs.»

Dilma 11«Se o regime [Ravenna] à base de sopa de legumes parece cumprir o que promete, como destaca a imprensa brasileira ao comentar a nova silhueta da presidente, a passagem brusca da luta de classes à luta contra carboidratos se revela mais delicada para o Partido dos Trabalhadores.»

A frase, representativa do fino e ácido humor francês, foi extraída de artigo intitulado Dilma Rousseff põe o Brasil de regime publicado no portal da televisão internacional francesa – TV5 Monde.

Malhação e aleluia

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 4 abr 2015

Que tenham sido um ou dois milhões nas ruas, dia 15 de março, tanto faz. A conta pouco conta. Que ministros deem as costas e se ponham a renunciar pode surpreender, mas tampouco é capital. Que assessores e porta-vozes se contradigam, que deixem o dito pelo não dito, que troquem os pés pelas mãos também não é o fim do mundo.

Cabo de guerra 1

Cabo de guerra

Que antigo presidente ameace soltar nas ruas exército paralelo, à imagem das milícias de Hitler e de Mussolini que impunham lei particular na valentona, não é plausível. Ainda que o Brasil esteja «esticando a corda», como confessou um ministro recentemente, o cabo de guerra não há de rebentar tão já.

Que o Congresso e a presidente andem às turras, que se mordam reciprocamente as excelsas orelhas, que se assestem mútuas pedradas é coisa de somenos. Que subam o dólar e a inflação, que baixem os reservatórios e a credibilidade do País são coisas da vida. Sobreviveremos.

Milicia 1

Milícia de Mussolini

Nossa presidente tem couraça rija, daquelas que não cedem a pressõezinhas. Forjada no enfrentamento, já passou por outras e não é de se assustar com miudezas.

No entanto, tudo tem limite. Cada um tem seu calcanhar de aquiles. Presidentes podem, peito aberto, dispensar louvor de áulicos, prescindir de ministros e até encarar congressistas. Um único pilar lhes é vital e imperativo: o apoio do povo que os elegeu.

Não há que se diga: o fator maior de desestabilização de Dilma Rousseff é sua vertiginosa queda no barômetro de popularidade, aferida por pesquisa recente. O que era apenas percepção tornou-se fato.

A presidente pode (dizem as más línguas que costuma) oferecer demorados chás de cadeira a assessores e outros visitantes. Pode humilhar publicamente, como de fato já fez, embaixador estrangeiro. Pode desconsiderar, como tem feito, críticas e alertas trombeteados pela mídia daqui e de fora. Existe algo, no entanto, que ela não pode fazer sem correr perigo funesto: passar por cima do descontentamento e da reprovação daqueles que nela depositaram confiança e que ora se sentem defraudados.

Há quem aposte em eventual destituição da mandatária pelo Congresso. Hipotética e traumática, a solução seria sobretudo desastrosa – deixaria sombras e amargor por muitos anos. Quem tem mais de 30 anos já assistiu a esse filme, verdadeiro traumatismo ainda vivo na memória.

ba Claudius Ceccon, desenhista gaúcho

by Claudius Ceccon, desenhista gaúcho

Sejamos objetivos. Dois fatores conjugados foram necessários para alçar Dilma à presidência. Por um lado, ao registrar candidatura, ela mostrou a decisão de dirigir a República. Por outro, ela se submeteu ao voto popular, universal e direto para obter o posto. Por coerência, eventual quebra de mandato tem de ser produto da interação dos mesmos fatores que a içaram ao cargo maior: vontade popular e decisão da interessada.

Nos dias de hoje, destituí-la por decisão de parlamentares pega mal. Ainda que tenham sido eleitos pelo povo, nossos congressistas têm feito tantas artes que são percebidos como descompromissados com o bem comum. Decidido pelo Congresso, eventual impedimento da presidente pode até ser tachado de conluio. Não convém seguir essa via.

Magnânima, a história guarda exemplos de como fazer. Uns casos são mais edificantes que outros. Entre os marcantes, está a despedida de De Gaulle, em 1969. Passada a enxurrada de protestos do ano anterior, o general sentiu-se desprestigiado. Começou a dar-se conta de sua desconexão com a nova realidade.

De Gaulle 1

Charles De Gaulle

Antes que o despedissem, afronta insuportável para velho leão, ele encontrou a parada: convocou um plebiscito – um mero subterfúgio. Na teoria, os cidadãos deveriam referendar uma reforma administrativa. Na prática, De Gaulle queria certificar-se de que o povo ainda o queria como presidente. Foi logo avisando que, caso a reforma fosse rejeitada, renunciaria ao mandato. Dito e feito. Derrotado pelo voto popular, o presidente deixou o cargo no dia seguinte.

Em outras ocasiões, dona Dilma já acariciou a ideia de plebiscito, sem nunca ter chegado aos finalmentes. Pois a hora é agora. Que escolha um pretexto qualquer, que o submeta à decisão popular e que deixe bem claro que, em caso de rejeição, renunciará ao que lhe resta de mandato.

Se for derrotada, sairá de cabeça erguida: terá saído porque quis e não por bilhete azul dado pelo Congresso. Se for respaldada, terá recebido a confirmação de que os brasileiros desejam sua permanência. Seja qual for o resultado, desonra não haverá.

Malhação do judas by Jean-Baptiste Debret (1768-1848), artista francês

Malhação do judas
by Jean-Baptiste Debret (1768-1848), artista francês

Hoje, malha-se o judas. Possa o domingo de Páscoa serenar ânimos e perenizar a aleluia. Ninguém merece este clima por mais quatro anos.

Entregar o jogo no primeiro tempo

José Horta Manzano

Blabla 2No exterior, é fato excepcional que magistrado dê opinião pessoal ou palpite sobre matéria em trâmite no Legislativo. Embora não seja regra escrita, é costume respeitado. Toda transgressão poderia ser interpretada como tentativa de influenciar decisão do Congresso soberano.

No Brasil, não é exatamente assim. A vaidade e o estrelismo assomam entre as características marcantes do espírito nacional. Qualquer um se sente autorizado a meter o bedelho em qualquer assunto. Principalmente se não lhe disser respeito, o que não deixa de ser curioso. Ao fim e ao cabo, fica um desagradável sabor de casa de mãe joana, onde todos gritam e ninguém se entende.

Dia destes, um ministro do STF soltou a língua sobre matéria delicada: a maioridade penal, que muitos gostariam que fosse adiantada para vigorar já a partir da idade de 16 anos.

Cadeia

Temos, cada um, nossa ideia sobre o assunto. Há quem seja entusiasta do adiantamento. Há os que acreditam que não se deva mexer na regra atual. Há até quem veria com bons olhos que se atrasasse a chegada da maioridade penal até os 20 ou 21 anos.

A todos é permitido ter opinião própria – é da democracia. A alguns, no entanto, o recato aconselha abster-se de exprimi-la em público. Os poderes da República são (ou deveriam ser) independentes e harmônicos. Comentários emitidos por integrantes da cúpula de um poder sobre assuntos relativos a outro poder nem sempre são bem-vindos. Podem melar o jogo.

A meu ver, teria sido melhor se o ministro tivesse permanecido calado. No entanto, o que está feito está feito, o que está dito está dito. Não vale a pena adiantar a maioridade penal, já que «cadeia não conserta ninguém» – declarou Sua Excelência.

Blabla 3A frase de efeito pode impressionar, mas parte de uma premissa falsa. Para meu gosto, é derrotista demais. Equivale a dizer, por exemplo, que não vale a pena combater a corrupção, dado que ela sempre existiu e sempre existirá. Em resumo: o ministro acredita que se deva entregar o jogo no primeiro tempo. Não enxergo assim.

Se cadeia brasileira não conserta ninguém – afirmação com a qual concordo –, há que consertar a cadeia. Valer-se desse pretexto para deixar de enviar criminosos para o xilindró não vai consertar nada: nem o delinquente nem a cadeia.

A privação temporária de liberdade tem duas finalidades: por um lado, a punição de quem transgrediu; por outro, a recuperação do faltoso e a preparação de sua reintegração à sociedade.

Passando por cima do caráter punitivo, o ministro se concentra na vocação reeducadora do cárcere, fator que, é verdade, tem sido tradicionalmente descuidado entre nós. Assim mesmo, não se deve jogar o bebê com a água do banho.

Bebe eau du bain 1Que se conserte o que pode ser consertado. Será sempre mais fácil corrigir falhas do sistema prisional brasileiro do que eliminar a delinquência. Pior será deixar como está e torcer para que o acaso traga solução.

Mau caminho

José Horta Manzano

Dos últimos que fizeram esse gesto, nenhum escapou. Dirceu e Genoino – os heróis do povo brasileiro – terminaram atrás das grades da Papuda. E Vargas – o imprudente ofensor de ministro do STF – viu seu mandato cassado pelos próprios pares.

Lula e GabrielliFosse eu, não levantaria punho cerrado na frente de fotógrafos. No Brasil de hoje, é preâmbulo à queda ou, pior, à encarceração. Te esconjuro, sô!

Lenin 1Observação:
Se, apesar do risco, o personagem preferir insistir no levantamento de punho cerrado, mais vale tomar lição de história: a Saudação de Lenin se faz com o braço esquerdo. Sempre.

Reparem como a peculiar plateia aplaude qualquer bobagem.

Histórias de Jequié, Lomanto e Getúlio

Sebastião Nery (*)

by Antonio Gabriel Nássara, desenhista carioca

by Antonio Gabriel Nássara, desenhista carioca

Pálido, os olhos tristes e a alma cansada, Getúlio Vargas desceu em Belo Horizonte, na tarde de 12 de agosto de 1954, a convite do solidário governador Juscelino Kubitschek, para inaugurar a siderúrgica Mannesmann. O Rio pegava fogo com o inquérito da Aeronáutica (a “Republica do Galeão”) contra os que tinham tentado matar Lacerda.

Liderados pelos comunistas e udenistas, nós estudantes, com lenços amarrados na boca, impedimos que Vargas atravessasse a cidade pela Avenida Afonso Pena, sendo o cortejo presidencial obrigado a seguir pela Avenida Paraná e tomar a Avenida Amazonas até a Cidade Industrial.

No palanque, ao lado do governador e dos colegas jornalistas, vi bem suas mãos trêmulas mas a voz forte. Vargas deu seu recado aos inimigos:

– Advirto aos eternos fomentadores da provocação e da desordem que saberei resistir a todas e quaisquer tentativas de perturbação da paz.

Da inauguração, Getúlio foi direto para o Palácio das Mangabeiras. Não conseguiu dormir, segundo confessou depois a Juscelino. Depois do café da manhã, antes de voltar para o Rio, de pé, sorrindo discretamente, com seu indefectível charuto, ao lado de JK, Getúlio nos cumprimentou, um a um, e disse algumas palavras aos poucos jornalistas ali presentes.

Eu era o mais novo, fiquei na ponta. Achei sua mão gordinha e fria:

by William Jeovah de Medeiros, desenhista paraibano

by William Jeovah de Medeiros, desenhista paraibano

– É muito jovem. De que Estado você é?

– Da Bahia, presidente. De Jaguaquara.

– Onde fica?

– Entre Salvador e Ilhéus, perto de Jequié.

Ele parou, pensou um pouco:

– Jequié, Jequié. Conheci o jovem prefeito de lá. Conversamos, me deixou uma boa impressão. É um rapaz de futuro.

– É o Lomanto, presidente.

– Pois é, um rapaz de futuro.

Despediu-se com seu discreto e distante sorriso e a mão gordinha e fria.

(*) Excertos das memórias do jornalista Sebastião Nery.

Interligne 18g

Nota deste blogueiro:
Getúlio demonstrou tino político. Antônio Lomanto Jr. (1924), homem político baiano, foi vereador, prefeito, deputado estadual, deputado federal, senador e governador de seu Estado.

O grande título

Carlos Brickmann (*)

Que semana maravilhosa! Temos manchetes de tipos variadíssimos e pouco usuais. Uma delas permite até a metaleitura. Embora não trate do assunto, demonstra claramente que:

Interligne vertical 11a) o ensino primário pode se chamar fundamental, pode se chamar primário, mas não pode ser chamado de ensino;

b) os meios de comunicação estão recrutando profissionais com um quarto cheio de diplomas internacionais, mas esqueceram de pedir que os candidatos à vaga preencham pessoalmente uma ficha de pedido de emprego.

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Comecemos com este, de um dos maiores portais noticiosos do país, ligado a um dos maiores grupos noticiosos do país:
“Investigação da PF Lava Jato aponta propina trêz vezes maior do que no mensalão”
O destino, piedoso, permitiu que profissionais como Emir Macedo Nogueira, Eduardo Martins, Napoleão Mendes de Almeida fossem poupados de ler essa frase.

Rir 2Outra manchete notável consegue, sem ser humorística, despertar o riso. E, simultaneamente, fazer com que retomemos contato com os textos sagrados. “Ministros entregam a Renan pacote anticorrupção”
Agora só lhes falta entregar a Herodes o plano nacional de cuidados com a infância.

Interligne 18c

Um título sugestivo também permite a leitura no subtexto. Traz a informação e, instigante, permite que busquem as causas do evento:
“Haddad volta a dar aulas na USP após 12 anos”
Demorou. Deve ter ido para a universidade de bicicleta, no meio da buraqueira mal pintada a que chama de ciclovia.

Interligne 18c

E o grande título, capaz de provocar uma pergunta de difícil resposta:
“Morena, Angélica diz que perdeu virgindade aos 17”
E loira, com que idade terá acontecido?

 

Rir 1CURTINHAS

● Da tuiteira Bea M. Moura:
“Herrar uma vez é lulice. Herrar duas veis é dilmais.”

● Do jornalista Sandro Vaia:
“A entrevista de Cardozo e Rosseto prova que o fracasso também sobe à cabeça.”

● Do presidente do Congresso, senador Renan Calheiros:
“O Aloízio Mercadante tem resposta para tudo e solução para nada.”

● Do jornalista Leão Serva:
“Petrobrás vai privatizar propriedades da empresa. Mas tucanaram a privatização: agora se chama ‘desinvestimento’.”

● Do presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, PMDB, sobre o PT:
“Eles fazem tudo aquilo que pensavam que nós fazíamos.”

Rir 5● Do jornalista Ricardo Noblat:
“A presidenta já avisou que é a pessoa mais humilda da galáxia!”

● De uma faixa na manifestação de 15 de março, erguida (supõe-se) por um palmeirense:
“Fora Dilma, Alckmin e Valdívia.”

● Da jornalista Maria Helena Amaral:
“Pedro Barusco foi o melhor investimento da Petrobrás nos últimos cinco anos. Roubou US$97 milhões a R$ 1,70 e devolveu a R$ 3,10.”

● Do deputado comunista Roberto Freire, presidente nacional do PPS:
“Nada mais patético do que petistas que participaram conosco do impeachment de Collor falarem de terceiro turno e golpismo.”

● Do jornalista James Akel, comentando o baixo ibope do programa de TV apresentado por Marina Mantega:
“A filha é tão boa apresentadora quanto o pai era ministro.”

● Do jornalista Jarbas de Barros Domingues:
“Quando um homem consegue finalmente entender as mulheres, já está velho demais para se interessar por elas.”

Interligne 18c

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação. Publica a Coluna Carlos Brickmann em numerosos jornais.

Jeitinho e amadorismo

Dad Squarisi (*)

by Ivan Cabral, desenhista potiguar

by Ivan Cabral, desenhista potiguar

Vamos combinar? O Estado faliu. Não dá conta sequer de cumprir os mandamentos da Constituição. A Carta assegura que a saúde e a educação são direito de todos e dever do Estado. Mas cadê? No país em que há leis que não pegam, o que está escrito é letra morta. A educação pede socorro. A saúde está na UTI. A mobilidade não anda. A segurança ergue muros e se cerca de câmeras. Nem assim protege.

E daí? Em palestra proferida no lançamento do livro Saúde, educação e família, Ruy Altenfelder apresenta dados que jogam luz sobre os caminhos e descaminhos da realidade nacional. Põe o dedo na gangrena que apodrece a estrutura da administração pública. O mal se centra na ausência de planejamento e no amadorismo da gestão, dupla que abre as portas para o desperdício e a corrupção.

by Pawel Kuczynski, desenhista polonês

by Pawel Kuczynski, desenhista polonês

Altenfelder contesta boatos que, de tão convenientemente repetidos, ganham status de fatos. Um deles: faltam recursos para a saúde. Relatório do Banco Mundial de 2013 comprovou que os problemas do SUS estão relacionados mais com desorganização e ineficiência do que com falta de dinheiro. Em bom português: é possível fazer mais e melhor com o orçamento atual.

Vale o exemplo da rede de hospitais, cuja produtividade poderia ser triplicada: 65% das unidades têm menos de 50 leitos. O consenso internacional fixa o mínimo de 100. Daí por que em Pindorama a taxa média de ocupação de leitos e salas cirúrgicas é de 45% contra a média mundial de 70% a 75%. As consequências, como diz o conselheiro Acácio, vêm depois. No caso, a superlotação dos hospitais de referência. Etc. e tal.

by Wilmar (Wilmarx) de Oliveira Marques, desenhista gaúcho

by Wilmar (Wilmarx) de Oliveira Marques, desenhista gaúcho

Nada menos de 30% das internações são recursos que vão pelo ralo. Os ambulatórios dariam conta das ocorrências. Mais: aqui se remedeia em vez de se prevenir. O SUS trata a doença, não mantém a saúde. Acompanhar as enfermidades crônicas e rastrear o câncer (de mama e de colo do útero) é receita certa pra reduzir as internações e a mortalidade. Mas…corrigir rumos? Só quando a população exigir. Talvez não demore. Quando o serviço público é ruim, o privado, sem concorrência, piora.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Desastre de avião

José Horta Manzano

Avião 7Quando eu era criança ‒ faz muitos anos ‒ um tio meu gostava de contar velha piada. Falava de um sujeito que tinha medo de andar de avião; o homem não entrava em máquina voadora nem por decreto do papa.

Veio um outro e lhe disse:
«Mas que bobagem! Cada um tem seu dia de morrer. Se não for seu dia, nada vai acontecer.»

E o medroso:
«É, pode não ser o meu dia, mas… e se for o dia do piloto?»
Interligne 18b

Acabo de me lembrar dessa historinha. Só que hoje não faz rir. Nesta quinta-feira de manhã, reforçou-se a suposição de que o pavoroso desastre de avião ocorrido há dois dias nos Alpes franceses pode ter sido fruto de ato deliberado de quem estava dirigindo o aparelho.

As primeiras análises da «caixa preta» (que, na realidade, é de cor laranja) sugerem que o piloto se tinha ausentado da cabine. Na volta, deu de nariz na porta. Bateu, mas o copiloto não abriu. Tentou arrombar, sem sucesso. Fico imaginando o sobressalto e a angústia por que hão de ter passado os que se tiverem dado conta da situação. Há de ter sido como num filme de horror, com o avião descendo inexoravelmente sem que ninguém pudesse fazer nada.

A confirmar-se a hipótese, fica reforçada a imagem de um mundo que, gradativamente, perde as estribeiras. Normas de convívio civilizado tradicionalmente aceitas estão-se dissolvendo rapidamente.

Foto AFP/Christophe Ena

Foto AFP/Christophe Ena

Até não muito tempo atrás, o mais longe que «pasionarios» ousavam ir, em busca de atenção para sua causa, era imolar-se pelo fogo em praça pública. Mais recatadamente, um que outro se suicidava no recôndito de um cômodo deixando uma carta-testamento ‒ foi o que fizeram Stefan Zweig e Getúlio Vargas.

Hoje, as porteiras se abriram e a boiada desembestou. Aviões transformados em bomba, homens-bomba, mulheres-bomba e até crianças-bomba arrastam para a morte gente inocente que nada tinha a ver com a história. Quanto mais gente, melhor.

Prefiro acreditar que o copiloto do avião que se espatifou nos Alpes tenha perdido consciência. É insuportável imaginar que, num gesto suicida, tenha levado consigo 150 existências cuja única culpa era ter embarcado naquele aparelho.

Interligne 18b

O acidente ocorreu na França na segunda-feira, mas a maior parte dos viajantes desaparecidos provinha da Espanha e da Alemanha. Os mandatários-mores dos três países cancelaram sua agenda e se deslocaram até o lugar do desastre. No dia seguinte, estavam lá os três. Não foram levar nenhuma ajuda prática, é verdade, mas o gesto marcou solidariedade mútua. São atos que cabe a todo dirigente civilizado cumprir.

Crédito: Lydia Bultel

Crédito: Lydia Bultel

Lembrei-me do acidente que vitimou avião da TAM, em 17 jul° 2007, no Aeroporto de Congonhas. Os mortos foram 199. Fiquei, na época, muito impressionado com o silêncio do então presidente, o folclórico Lula.

Naquele momento de comoção nacional, nosso número um se escondeu atrás de um mutismo vil. Só se manifestou 73 horas depois ‒ isso dá três dias! Naquele momento, nem todos nos dávamos conta, mas hoje sabemos: quando o caldo engrossa, nosso guia sai de cena. Desaparece até que baixe a poeira.

Ainda bem que o mundo civilizado ainda não adotou o modo Lula de reagir a catástrofes.

Pátria deseducadora

Myrthes Suplicy Vieira (*)

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(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Frase do dia — 231

«Não faço julgamento sobre a qualidade, mas, para nós, Paulo Coelho é escritor internacional sem nenhuma ligação com o Brasil. ‘Best-seller’ é um tipo de livro que devoramos, mas que nunca relemos depois. A literatura é feita de livros que muitas vezes não vamos ler, mas que, se for o caso, podemos ler mais tarde.»

Michel Chandaigne, editor francês, livreiro, lusófono e grande apreciador da literatura em língua portuguesa. É fundador e proprietário da Librairie portugaise & brésilienne, Paris. A frase consta de entrevista concedida à Folha de São Paulo.

Frase do dia — 230

«Reforma ministerial é uma panaceia, ou seja, não resolve.»

Enormidade pronunciada ontem por dona Dilma, mostrando que não é amadora unicamente na política, mas também no uso da língua. Panaceia – o dicionário ensina – é remédio para todos os males. Além de ser vítima da própria miopia, nossa presidente mostra que sofre também de estrabismo. Empresta às palavras sentido oposto ao real. Estamos bem arranjados.

Senhora idosa

Dad Squarisi (*)

Corrupção 2Metáforas têm superpoder. São capazes de ir além do que dizem. Quando o pão pão, queijo queijo perde o viço e o dom de surpreender, a gente apela para o sentido figurado. Oba! Desvencilha-se das amarras e avança em significados. Foi o que fez a presidente Dilma Rousseff.

Ao dizer que a corrupção é “senhora idosa”, não saiu do óbvio. Não saiu do óbvio também quando afirmou que é anterior ao governo do PT. Até as pedras sabem que veio na caravana de Pedro Álvares Cabral. Está registrada lá, na carta de Pero Vaz de Caminha.

De óbvio em óbvio, a metáfora conduz a outro. Idosos morrem. (Jovens também.) A morte faz parte do ciclo da vida. Quem contraria a lei natural colhe resultado certo — o fracasso. Mas muitos insistem. Desde que o mundo é mundo, há relatos de atrevimentos. A mitologia está repleta de exemplos. Um deles: o de Sibila.

Vovó 1A profetisa se tornou porta-voz de Apolo. O mais belo deus do Olimpo apaixonou-se por ela. Caidinho de amor, prometeu satisfazer todos os desejos da amada. Ela pediu loooonga vida. Talvez a eternidade. Ele a atendeu. A moça foi ficando velhinha, velhinha — pequena e ressequida.

Alguém a pôs numa gaiola e a pendurou no templo de Apolo. Sibila ficou ali ano após ano, década após década, século após século. Visitantes pensavam que se tratasse de uma cigarra. Quando descobriam que era uma pessoa, perguntavam o que ela mais queria. A resposta: “Quero morrer”.

Gaiola 1A voz de Sibila ecoa de norte a sul do Brasil. A multidão que vestiu as ruas de verde-amarelo deixou recado claro — deixem a corrupção morrer. Cartazes, alto-falantes e bordões recusavam a prática embolorada que se agigantou com desenvoltura ímpar. Sem escrúpulos, jogou nas cordas até a Petrobrás, a mais simbólica empresa brasileira.

Velha como a senhora idosa foi a resposta do Planalto. Ao olhar pra trás, o discurso ressequido lavou as mãos. (Assim era, assim será.) Deixou de mirar o novo que tomou as ruas. São pessoas conectadas que exigem mudanças. Estavam lá como sociedade organizada que se recusa a pagar a supervitamina que mantém vivo cadáver sem sintonia com o contemporâneo.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Frase do dia — 229

«Minha esposa nunca esteve com o Lula.»

Afirmação pra lá de presunçosa feita ontem, diante de uma plateia de deputados federais, por um dos grão-acusados de bandidagem no assalto à Petrobrás. Exceção feita a irmãos siameses, que a natureza impede de se separarem, ninguém pode assegurar que a esposa tenha ou não tenha estado com este ou com aquele. A única autorizada a responder é a interessada – o resto é presunção.

Quem não se comunica se estrumbica

José Horta Manzano

Comunico à Casa o comunicado que recebi do chefe da Casa Civil comunicando a demissão do ministro da Educação.”

Comunicação comunicada pelo deputado Cunha, que comunicou o comunicado que lhe havia sido comunicado pela Casa Civil. A obra-prima de oratória foi comunicada por todos os jornais.

Interligne 18e

Tirando o cômico da cena, vamos aos fatos. O episódio escancara novo e flagrante exemplo de que a “Pátria Educadora” não passa de bordão vazio.

O cargo de ministro da Educação contém a palavra educação. Admite-se que, mortal, o titular da pasta carregue defeitos – como todos nós. Uma falha, no entanto, é inconcebível: que ele demonstre falta de educação. É o coxo zombando do perneta.

Faroeste 1Mais uma vez, fica patente que o Planalto tenta iludir a nação à custa de slogans. Esse da “Pátria Educadora” é apenas mais um, mera frase de efeito, inventada pra inglês ver.

Na hora do vamos ver, no momento crucial de escolher um ministro para a pasta estrategicamente mais importante da República – aquela que vai traçar o caminho das gerações futuras – quem é o agraciado? Um indivíduo tosco e mal-educado. Um indivíduo ao qual um papel secundário num filme de faroeste, ao lado de John Wayne, assentaria como luva. Já para encabeçar o Ministério da Educação, não serve.

Pesquisa de opinião – 2

José Horta Manzano

Dilma 9Este post faz eco a meu artigo de ontem. O grupo Folha de São Paulo há de ter-se dado conta de que sua “contagem científica” dos participantes da passeata de domingo 15 de março pegou mal pra caramba. O pouco que pudesse restar de credível à imagem do Instituto Datafolha sofreu sério arranhão. A partir de agora, duvido que alguém, com intenção honesta de conhecer a verdade verdadeira, arrisque confiar a sondagem a esse instituto.

Além de deixar no ar a suspeita de que suas pesquisas podem ser ‘negociadas’, a instituição deixa patente sua miopia estratégica. De fato, sondagens têm mais vocação para serem lidas pelos estratos esclarecidos da população. Logo, a trapalhada consiste em serrar precisamente o galho onde se está apoiado.

by Chico Caruso, desenhista paulista

by Chico Caruso, desenhista paulista

A duvidosa estimativa do número de participantes da manifestação de domingo passado assestou pancada pesada à credibilidade do instituto. Eles sentiram o golpe, sim. E a prova está em destaque no sítio do jornal.

Numa tentativa de amenizar suspeitas de parcialidade, a Folha traz, neste 18 março, o resultado de sondagem mostrando a baixa catastrófica na apreciação de nossa mal-amada presidente.

Sei não. Muitas pesquisas sérias terão de ser publicadas para alçar a confiabilidade do instituto ao patamar anterior.

Chamada de 18 mar 2015 - in Folha de São Paulo

Chamada de 18 mar 2015 – in Folha de São Paulo

Pesquisa de opinião

José Horta Manzano

A Europa é especialista em passeatas e manifestações de rua. Nesse quesito, a França sobressai: é campeã em todas as categorias. Por um sim, por um não, saem todos de casa, percorrem avenidas, reagrupam-se em praças simbólicas. Algum discurso pode até pintar. Em seguida, dispersam-se.

Folha tendencia 3Pode acontecer – mas é raro – que alguma passeata degenere. Vândalos desocupados podem surgir de alguma ruela, rosto dissimulado atrás de cachecol e capuz. Pouco se lhes dá o motivo da manifestação – vêm praticar seu esporte preferido: arrebentar vitrines. Aparecem, o mais das vezes, em passeatas gigantescas. É compreensível: quanto mais gente houver, mais fácil será confundir-se com a multidão e escapar a toda sanção.

No dia seguinte, sai a estimativa do número de participantes. Cada lado faz suas continhas. Manifestantes, compreende-se, costumam inflacionar números. Todos esperam pela estimativa da autoridade policial, a mais confiável, que tende a se aproximar da verdade.

No Brasil, manifestações de rua são menos frequentes. Em compensação, quando acontecem, chamam a atenção pelo elevado número de participantes. Observadores consideram a de domingo passado, 15 março, a maior exteriorização de protesto já registrada em nossa história.

Como no resto do mundo, a estimativa de participação tem duas versões. Na verdade, dado que a manifestação não foi convocada por nenhum grupo organizado – sindicato, central operária, corporação profissional, partido poítico – um só número deveria ser publicado: o das autoridades policiais. Em princípio, nenhum outro se lhe poderia contrapor.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

No entanto… o Brasil não é país como os demais. Enquanto, na Europa, a estimativa da polícia é contestada pelos organizadores da passeata, no Brasil ocorreu fato assaz curioso. Um instituto de pesquisa de opinião, contratado sabe-se lá por quem, houve por bem dividir por cinco a estimativa policial.

Em números claros, a PM de São Paulo calculou que um milhão de manifestantes lotaram a Avenida Paulista e ruas adjacentes. O Instituto Datafolha, por seu lado, tem outra versão. Assegura que não mais que 200 mil pessoas lá estiveram. A brutal diferença é de deixar cismado.

Palavras com que o instituto de opinião Datafolha se apresenta.

Palavras com que o instituto de opinião Datafolha se apresenta.

Dei uma espiada no site do instituto. Ele se apresenta como “instituto de pesquisa de opinião”. Na Europa, não me lembro de jamais ter visto instituto de pesquisa de opinião contar participantes de passeata. Colher opiniões, sim, que é seu ganha-pão. Calcular quantidade de gente, não – não faz parte do ADN (DNA) desse tipo de instituição.

A bizarria do acontecido, principalmente o fosso entre os números da polícia e os do instituto, deixa no ar incômoda suspeita de pau-mandado.

Interligne 28aPS 1:
De uns tempos a esta parte, tenho notado que o site da Folha de São Paulo suaviza notícias susceptíveis de ferir sensibilidades no andar de cima. Ao mesmo tempo, enfatiza as que possam afagar o Planalto. No capítulo “nós x eles“, veja a chamada publicada na manhã deste 17 mar 2015. Em matéria de tendenciosidade, é um primor:

Folha tendencia 1PS 2:
Ao dar-se conta da repercussão fortemente negativa de sua “estimativa científica”, o jornal Folha de SP publica hoje longa matéria abarrotada de números. Porcentagens pra cá, quocientes pra lá. Cheira a cortina de fumaça para amenizar o estrago que a imagem do instituto sofreu.

O pão e o brioche

José Horta Manzano

Revolution 1«Ils n’ont pas de pain? Qu’ils mangent donc des brioches!» Não têm pão? Que comam brioches!

A frase maldosa, que provavelmente nunca foi pronunciada, é atribuída a Marie-Antoinette, esposa do rei de França Luís XVI.

A rainha, de origem austríaca, era odiada pelo povo francês, que a chamava, com desdém, “a estrangeira”. Tanto ela quanto o marido foram precipitados à guilhotina, na esteira da Revolução Francesa.

O fato é que, naqueles tempos de monarquia absolutista, os do andar de cima viviam numa bolha, desconectados do povo. A população servia para fornecer combatentes para repetidas guerras. Fora isso, cada um que se virasse como pudesse.

Guardadas as devidas proporções, os altos círculos políticos do Brasil atual lembram a França pré-revolucionária do século XVIII. Basta atualizar alguns conceitos. Quer ver? Troque-se monarquia absolutista por desvario político. E substitua-se o termo ‘combatentes’ por ‘eleitores’. Pronto. Vamos reescrever a frase.

Manif 2Nestes tempos de desvario político, os do andar de cima vivem numa bolha, desconectados do povo. A população serve para pagar impostos e para votar nos candidatos “certos”. Fora disso, cada um que se vire como puder.

A frase de Marie-Antoinette também tem de ser atualizada. Fica assim: “Eles não têm escola, nem segurança, nem saúde? Que se contentem com a bolsa família!”

A fúria que se levantava contra a rainha francesa dois séculos atrás corresponde hoje à antipatia que cresce no povo brasileiro contra a presidente da República.

Guilhotina passou de moda, mas o futuro de nossa Marie-Antoinette tupiniquim não se apresenta sereno.

O ministro de Patos

Sebastião Nery (*)

Tropa 1João Grande, lá na Paraíba, era um tropeiro alto e muito forte, de mãos enormes, pernas arqueadas e botas cravadas de ferro. Levou uma tropa para Patos, cidade vizinha, depois sentou-se no bar, pediu uma cerveja e ficou ali olhando a praça e o povo.

Percebeu que, na calçada em frente, as pessoas iam andando e, de repente, quando chegavam diante de uma casa, desciam da calçada, davam uns passos na rua, subiam novamente a calçada e seguiam.

Foi ver o que era. Era a casa do delegado, que tinha posto uma placa na porta proibindo toda pessoa de passar pela calçada da casa dele, para não fazer barulho. É porque gostava de tirar uma madorna, uma soneca, todas as tardes.

Interior 1João Grande ficou indignado. Arrancou a placa e começou a andar na calçada proibida, batendo forte no chão com as botas cravadas de ferro. O delegado, irado, saiu de lá de dentro como uma fera, os olhos esbugalhados, abriu a porta, viu aquele homenzarrão de botas barulhentas, deu um sorriso amarelo, afinou a voz:

– Boa taaarde!

Burro 3João Grande não disse nada. O delegado também calou. Na calçada, já pronto para descer, andar pela rua e subir novamente a calçada, como fazia todos os dias e a semana toda, vinha vindo um homem baixinho, pequenininho. Vinha trotando, quase correndo, com um cesto na cabeça equilibrado numa rodilha de pano. Quando viu a cara amofinada do delegado, parou, olhou bem para ele e gritou:

– Olha o abacaxi!

Nunca mais, a partir daquele dia, o homenzinho do abacaxi desceu da calçada do delegado. Ele nem ninguém. João Grande jogou a placa na rua e voltou pra sua terra com as mãos enormes e as botas cravadas de ferro.

(*) Excertos de artigo do jornalista Sebastião Nery.