Jovem demais pra estudar

José Horta Manzano

Não sou especialista em Educação, razão pela qual talvez algum aspecto importante do assunto me escape. Saiu estes dias a notícia de que o STF mantém a decisão de estipular idade mínima para uma criança se matricular no ensino fundamental. Para entrar na escola, é preciso ter completado 6 aninhos até o dia 31 de março.

Pra dizer a verdade, até que a legislação está mais liberal do que costumava ser antigamente. Quando estudei, o fundamental se chamava primário. Nenhum pequerrucho com menos de 7 anos podia entrar no primeiro ano. Os guris de 6 anos só podiam ser matriculados se completassem o sétimo ano até 30 de junho. Se não, nada feito.

Fico a matutar. De onde vem a necessidade de limitar ‒ para mais ou para menos, pouco importa ‒ a idade de matrícula num curso? Suponhamos uma criança de desenvolvimento mental precoce. Suponhamos que só complete 6 anos alguns meses depois do limite legal. É justo e normal que seja privada de entrar na escola fundamental, perdendo assim um ano? O mesmo raciocínio vale para os que estiverem atrasados. Nenhuma criança deve ser impedida de assistir às aulas, independentemente da idade.

Se o distinto leitor puder trazer algum subsídio pra vitaminar o raciocínio, ficarei feliz de ler. O espaço de comentários está a seu dispor.

Só pra ilustrar minha perplexidade quanto às regras brasileiras, lembro o exemplo do baccalauréat francês ‒ o Enem deles ‒, certificado de fim de estudos bastante prestigiado na França. Lá o povo se divide entre os que têm o «bac» e os que não o têm. Pra pleitear vaga na universidade, é obrigatório.

Todos os anos, lá pelo mês de junho, os exames do «bac» se tornam assunto nacional. Em cada esquina, só se fala nisso. Como no Brasil, aparecem as histórias tristes dos que perderam a hora ou dos que adoeceram ou sofreram acidente no dia da prova de Filosofia (a mais importante). Tem gente que entra até de maca na sala de exame.

Por seu lado, surgem também as curiosidades. Tem sempre aquele que tirou nota máxima em três ou quatro disciplinas, coisa rara. Fica-se sabendo que o mais jovem dos aprovados tinha apenas 13 ou 14 aninhos. E que o mais velho tinha 75. Não há limite de idade pra concorrer.

Com o diploma no bolso, o rapazote de 14 anos pode até se candidatar a uma vaga numa faculdade qualquer. Se seu currículo for aceito, vai se tornar universitário. Em toda legalidade. Ninguém vê escândalo nisso. Por que é que no Brasil impõem limite de idade pra começar a estudar?

O grande título

Carlos Brickmann (*)

Que semana maravilhosa! Temos manchetes de tipos variadíssimos e pouco usuais. Uma delas permite até a metaleitura. Embora não trate do assunto, demonstra claramente que:

Interligne vertical 11a) o ensino primário pode se chamar fundamental, pode se chamar primário, mas não pode ser chamado de ensino;

b) os meios de comunicação estão recrutando profissionais com um quarto cheio de diplomas internacionais, mas esqueceram de pedir que os candidatos à vaga preencham pessoalmente uma ficha de pedido de emprego.

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Comecemos com este, de um dos maiores portais noticiosos do país, ligado a um dos maiores grupos noticiosos do país:
“Investigação da PF Lava Jato aponta propina trêz vezes maior do que no mensalão”
O destino, piedoso, permitiu que profissionais como Emir Macedo Nogueira, Eduardo Martins, Napoleão Mendes de Almeida fossem poupados de ler essa frase.

Rir 2Outra manchete notável consegue, sem ser humorística, despertar o riso. E, simultaneamente, fazer com que retomemos contato com os textos sagrados. “Ministros entregam a Renan pacote anticorrupção”
Agora só lhes falta entregar a Herodes o plano nacional de cuidados com a infância.

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Um título sugestivo também permite a leitura no subtexto. Traz a informação e, instigante, permite que busquem as causas do evento:
“Haddad volta a dar aulas na USP após 12 anos”
Demorou. Deve ter ido para a universidade de bicicleta, no meio da buraqueira mal pintada a que chama de ciclovia.

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E o grande título, capaz de provocar uma pergunta de difícil resposta:
“Morena, Angélica diz que perdeu virgindade aos 17”
E loira, com que idade terá acontecido?

 

Rir 1CURTINHAS

● Da tuiteira Bea M. Moura:
“Herrar uma vez é lulice. Herrar duas veis é dilmais.”

● Do jornalista Sandro Vaia:
“A entrevista de Cardozo e Rosseto prova que o fracasso também sobe à cabeça.”

● Do presidente do Congresso, senador Renan Calheiros:
“O Aloízio Mercadante tem resposta para tudo e solução para nada.”

● Do jornalista Leão Serva:
“Petrobrás vai privatizar propriedades da empresa. Mas tucanaram a privatização: agora se chama ‘desinvestimento’.”

● Do presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, PMDB, sobre o PT:
“Eles fazem tudo aquilo que pensavam que nós fazíamos.”

Rir 5● Do jornalista Ricardo Noblat:
“A presidenta já avisou que é a pessoa mais humilda da galáxia!”

● De uma faixa na manifestação de 15 de março, erguida (supõe-se) por um palmeirense:
“Fora Dilma, Alckmin e Valdívia.”

● Da jornalista Maria Helena Amaral:
“Pedro Barusco foi o melhor investimento da Petrobrás nos últimos cinco anos. Roubou US$97 milhões a R$ 1,70 e devolveu a R$ 3,10.”

● Do deputado comunista Roberto Freire, presidente nacional do PPS:
“Nada mais patético do que petistas que participaram conosco do impeachment de Collor falarem de terceiro turno e golpismo.”

● Do jornalista James Akel, comentando o baixo ibope do programa de TV apresentado por Marina Mantega:
“A filha é tão boa apresentadora quanto o pai era ministro.”

● Do jornalista Jarbas de Barros Domingues:
“Quando um homem consegue finalmente entender as mulheres, já está velho demais para se interessar por elas.”

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(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação. Publica a Coluna Carlos Brickmann em numerosos jornais.