Coreia do Norte e Venezuela

José Horta Manzano

Duas maneiras de lidar com a paranoia

Coreia do Norte e Venezuela são países com vários pontos em comum. Têm população comparável: 25 milhões para o primeiro, 30 milhões para o segundo. Têm ambos a economia em frangalhos, com o povo passando fome enquanto a nomenklatura se farta de champanhe e caviar. Os dois países são atormentados por uma ditadura ‒ a da Coreia é hereditária e a da Venezuela segue adiante com sucessor designado.

Talvez a semelhança maior entre as duas nações seja a ignorância manifesta da classe dirigente, que parece viver num outro planeta, à margem da civilização. É certo que ambas as cliques vivem numa situação de paranoia permanente. Com ou sem razão, acreditam estar prestes a ser atacados por forças militares estrangeiras. Os tuítes estrambóticos do atual inquilino da Casa Branca não fazem senão reforçar esse sentimento. O folclórico personagem já ameaçou os coreanos com «fogo e furor» e não excluiu intervenção armada no nosso vizinho do norte.

Kim Jong-un, ditador da Coreia do Norte

Agora falemos das diferenças. A Coreia do Norte não foi agraciada pelos deuses na hora da distribuição das riquezas. O solo é pobre, as reservas minerais não são significativas. Como o país não fornece estatísticas oficiais, é difícil conhecer a economia no detalhe. Estima-se um baixíssimo PIB per capita, entre 1000 e 1500 dólares por ano. Para comparação, o do Brasil é dez vezes mais elevado.

Já a Venezuela passou três vezes na fila da distribuição de riquezas. Tem petróleo a dar com o pau ‒ a maior reserva do mundo. O solo é rico e o sol, generoso. Se tivesse lá aportado, Pero Vaz de Caminha não hesitaria em afirmar: «em se plantando, dar-se-á nela tudo». No entanto… o povo passa fome. Um paradoxo.

Ambos os países são governados por gente ignorante e paranoica, disso já sabemos. Mas há sensível diferença na maneira que cada qual encontrou pra lidar com essa sensação de iminente ataque externo.

A Coreia do Norte investiu (e continua investindo) o pouco que tem em armamento dissuasivo. E tem tido sucesso. Os testes balísticos destes últimos meses nem de longe têm intenção de atingir o Japão, nem Guam, nem quem quer que seja. Servem apenas de advertência: «Não brinquem conosco, que temos como nos defender». E olhe que tem funcionado. Alguém ousaria atacar o país?

Nicolás Maduro, ditador da Venezuela

Já a Venezuela, ai, santa ignorância! Como já fazia seu finado mentor, señor Maduro tem se contentado em subir o nível das bravatas. Incapaz de alimentar o povo, com o país expulso de facto do Mercosul, abandonado pelas companhias aéreas e impossibilitado de importar a não ser que pague adiantado, o bobão veio ontem com a enésima fanfarronice. Prometeu enviar «ajuda humanitária» de cinco milhões de dólares para as vítimas das enchentes de Houston.

O mandachuva de um país cujos cidadãos fogem aos milhares por falta do que comer não tem o direito de cometer tamanho escárnio. Os estragos causados pelas inundações no Texas são estimados, por alto, em 100 bilhões de dólares. Os cinco milhões doados por Caracas não vão além de 0,005% do total. Francamente, melhor faria señor Maduro se destinasse a bolada a comprar esparadrapo para seus hospitais.

Em resumo: a ditadura dinástica coreana está garantida por muitos anos. Quanto à Venezuela, ninguém apostaria um vintém furado na permanência do hermano bigodudo e paspalhão à frente da anacrônica ditadura.

Depois da tempestade

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Eu havia acabado de voltar do passeio diário com as cachorras. A tarde estava anormalmente quente e abafada. Tinha sido penoso para mim enfrentar a caminhada e as escadas. A falta de vento agravava minha dificuldade respiratória, ainda consequência do resfriado. Eu me sentia um corpo sem alma e era fácil perceber que às cachorras também faltava alento para prosseguir. Optei por voltar para casa mais cedo.

tempo-3Chegando ao apartamento, desabei no sofá da sala e liguei a televisão para me entreter um pouco. Alguns minutos depois, constatei surpresa que o vento voltava a soprar e havia começado a chover. Nada indicava que a chuva seria forte ou que duraria muito tempo. Tudo que me era dado perceber antes é que havia um silêncio de expectativa na natureza, como se até o canto dos pássaros tivesse de ser suspenso para auscultar a movimentação do ar no interior das nuvens. Logo a chuva engrossou e começaram a cair os primeiros raios.

De início, limitei-me a observar a cabeleira das palmeiras que ornamentam a entrada do condomínio se agitando ferozmente. À medida que a ventania foi se tornando mais violenta, não me restou alternativa a não ser levantar e fechar a janela do banheiro, que fica no final do corredor, em frente à sala, para evitar o encanamento do vento. Eu sabia que o trinco dessa janela estava emperrado e que ela poderia abrir com a força da ventania. Por isso, reforcei a vedação colocando um pedaço de plástico embaixo do trinco e voltei para a sala às pressas, na tentativa de tranquilizar as cachorras.

tempo-1Mal tive tempo de me sentar e escutei um forte estrondo: a janela tinha se aberto violentamente, o vidro estilhaçou e cacos voavam para todos os lados. Não havia nada mais a fazer, a não ser tentar proteger o rosto e as mãos de cortes. Antes que eu pudesse me refazer do susto, a porta do banheiro bateu com força às minhas costas e o apartamento todo estremeceu.

Corri para o quarto. Mesmo tendo certeza de que havia apenas uma fresta do tamanho de um dedo na janela, queria evitar mais estragos. A força do vento era tamanha que me foi difícil abrir a porta e caminhar até a janela. Não pude acreditar em meus olhos com o que vi na sequência. Parecia que uma potente mangueira havia sido introduzida janela adentro e a água jorrava em chafariz, molhando toda a minha cama. Preocupada, fui correndo verificar como estava o escritório, já que o computador e a secretária eletrônica ficam a poucos centímetros da janela. Como previsto, a água já escorria pelas paredes e se espraiava pelo piso. Temendo um curto-circuito, desliguei toda a aparelhagem e voltei à sala.

cachorro-33O temporal piorou. Granizos do tamanho de bolas de gude batiam com violência nos vidros, provocando um barulho ensurdecedor. Eu me sentia em meio a um filme de terror, tendo como trilha sonora a tempestade wagneriana. Temia que todas as janelas do apartamento se quebrassem de uma só vez. Não tive muito tempo para pensar em estratégias de defesa. Logo me dei conta de que a esquadria das janelas não suportaria a pressão da água acumulada. De fato, ela já brotava dos vãos, descia em cascata pelas paredes e escorria por debaixo dos móveis até a porta de entrada.

Levantei num pulo e corri para a área de serviço em busca de rodo, panos e baldes. Minha cachorra Aisha havia literalmente travado, atravessada na porta de acesso para a lavanderia. Em pânico absoluto, ela observava aquele cenário de caos e não se movia nem para frente, nem para trás, nem para os lados. Tive que lhe dar um safanão com o joelho e forçar a passagem. Passei as duas horas seguintes arrastando os móveis e tentando retirar o máximo possível de água. A sensação, porém, era a de estar enxugando gelo.

tempo-2Dizem que uma desgraça nunca vem sozinha. Em poucos instantes, a luz acabou e a noite chegou. Se a cena já era aterrorizante antes, não é difícil imaginar como era estar num ambiente iluminado apenas pelo clarão dos raios, ouvindo o uivo dos ventos e o ribombar dos trovões. A cereja do bolo não tardou: um raio atingiu em cheio o transformador do poste em frente ao condomínio, me cegando por alguns segundos. Aquilo foi a gota d’água para os ouvidos sensíveis da Molly. Espremida embaixo da mesa, ela me dava a pata em desespero, como se aquele gesto pudesse por si só colocar um ponto final na situação traumática.

Acalmei-a como pude e me enchi de paciência para esperar o retorno da energia. Respirei fundo, fechei os olhos e deixei-me enredar com meu passatempo favorito: viajar no tempo. Quando estou passando por momentos difíceis e não vislumbro solução imediata, sinto-me estimulada imaginando como seria lidar com o mesmo problema séculos atrás, caso habitasse em uma zona rural, sem vizinhos e sem contar com os recursos de conforto contemporâneos. A fabulação confortou-me por alguns minutos, mas logo a ansiedade retornou.

Tão logo a tempestade amainou, pensei em ligar para minha irmã para descobrir qual era a dimensão exata dos estragos no bairro. Me angustiava o som dos helicópteros da polícia voando baixo e o barulho das sirenes das ambulâncias que corriam para lá e para cá. Tirei o fone do gancho e….surpresa, ele estava mudo! Foi a minha vez de entrar em pânico. Lá estava eu, ilhada dentro de um apartamento, no alto de um morro, na maior cidade das Américas, sem nenhuma forma de contato com o mundo exterior.

tempo-4Era preciso fazer alguma coisa de prático para retomar o controle da situação. Enchi-me de coragem, desci as escadas com o auxílio de uma vela e fui até a portaria. Pedi ao porteiro que me emprestasse o celular. Ele balançou a cabeça em negação, indicando que a bateria estava descarregada. Ainda, me alertou que seria inútil procurar outros aparelhos, já que nenhuma operadora de telefonia móvel estava funcionando na região.

Voltei para o apartamento me sentindo a criatura mais desamparada do planeta. Sabendo que só podia contar comigo mesma, desanimei de vez, perdi a fome, cabulei o jantar e fui me deitar de roupa e tudo no sofá da sala. Acordei acabrunhada às três horas da madrugada, em meio a uma crise de hipoglicemia, só para constatar que nada havia mudado.

Vinte e seis horas e meia depois de iniciada a tempestade, a luz voltou, o telefone se curou espontaneamente da afonia e eu pude, finalmente, reaprender o valor da tecnologia e da civilização humana. Deixei meus olhos passearem pelo ambiente fortemente iluminado, encantei-me de novo com as cores da tela da televisão, e alegrei-me com as notícias na tela do computador. Contrariando minha tradicional resistência aos ‘gadgets’ eletrônicos, redescobri estupefata como é bom poder pressionar um simples botão e encontrar resposta para a maioria dos problemas de sobrevivência no século 21.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Futebol equilibrista

José Horta Manzano

Enchente do Rio Negro, nas cercanias de Manaus, inundou campos de futebol – já precários por natureza.

Sem paciência para esperar pela volta da secura, a juventude construiu uma plataforma flutuante, junto à margem do rio.

Cobrança de escanteio é verdadeiro espetáculo de equilibrismo. O treino de futuros craques continua.

A Agência Reuters tirou uma série de belíssimas fotos. Clique para aumentar.

Foto La Presse/Reuters

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Virem-se, conterrâneos!

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Sigismeno fica muito impressionado com as estrepolias que mãe natureza faz sem pedir licença a ninguém. Horrorizou-se com as cheias do Rio Madeira, no extremo oeste.

Ao ver que a presidente sobrevoava regiões alagadas, achou que ela teria feito melhor se tivesse utilizado um barco para se aproximar das vítimas da enchente. Teria sido um modo mais chegado de mostrar compaixão. Decisões presidenciais são, por vezes, mistérios insondáveis.

Ele ficou um bocado surpreso quando soube que a chefe do Executivo tinha insinuado que aquele desastre só podia ser obra de chuvas estrangeiras, que as nossas são bem-comportadas. E chuvas vão lá escolher onde preferem cair?

Acalmou-se ao ler o desmentido oficial que assegurava que jamais, em tempo algum dona Dilma diria tal enormidade. Chegou à conclusão que, certamente, devia ter ouvido mal.Rio Madeira

Sigismeno, que gosta das coisas certinhas ― pão, pão, queijo, queijo ― sentiu-se incomodado com um detalhe. Foi quando dona Dilma chamou as vítimas de «pessoas que estão em situação de calamidade». Econômico por natureza, meu amigo achou que era um desperdício de palavras. Uma só teria dado o recado: flagelados. Enfim, cada um se exprime como consegue.

Mas Sigismeno, que também não é um idiota total, ficou chocado quando soube que, num singular gesto de largueza, os mandachuvas tinham autorizado as vítimas das intempéries a sacar o Fundo de Garantia.

Ele sempre imaginou que aquele dinheirinho ― poupança forçada a que são obrigados todos os assalariados ― devesse servir de garantia para os velhos dias. Pensou com seus botões (mas suficientemente alto para que eu ouvisse) que era superfácil fazer caridade com o dinheiro dos outros.

Não pude deixar de concordar com ele. Ninguém se insurgiria se fosse liberada uma verba de emergência para ajudar os flagelados a atravessar este momento difícil. Mas incentivá-los a gastar o pecúlio que vai fazer falta mais tarde pareceu, a meu amigo, medida criticável e eminentemente antissocial.

Para um governo que se diz preocupado com o “social”, cai mal.