A decepção e a euforia

José Horta Manzano

Doutor Sergio Moro escolheu o dia 12 de julho para pronunciar sua decisão no primeiro processo criminal que visa um ex-presidente do Brasil desde a instauração do regime republicano. E condenou pesado: quase dez anos atrás das grades. Fossem nossos costumes em matéria de aplicação de penas análogos aos de países civilizados, o condenado já estaria no xilindró. Mas, sacumé, somos um povo cordial.

Não deve passar de coincidência, mas um 12 de julho ‒ não tão antigo assim ‒ já foi ocasião de comoção nacional. Nós já esquecemos, mas os franceses se lembram muitíssimo bem. Nessa mesma data, em 1998, a França conquistou a Copa do Mundo de futebol no imponente Stade de France pelo placar incontestável de 3 a 0. Ganharam da prestigiosa equipe de Ronaldo e Romário, um feito e tanto.

A mídia francesa hoje fala do Lula evidentemente. (A mídia do mundo inteiro fala.) Mais que isso, dá cobertura à visita de Mister Trump, que pousou em Paris hoje de manhã como convidado de honra para a festa nacional do 14 de julho. E, naturalmente, todos comemoram a façanha do 12 de julho de 1998. Principalmente porque não se repetiu.

Operação desmonte

José Horta Manzano

Na Europa, assim como em outros países do Hemisfério Norte, férias escolares de verão são concedidas em julho e agosto. Quem tem criança pequena dá preferência a esses meses para espichar as pernas e tomar uma cor. Com poucas exceções, quem não tem criança se deixa contaminar e acaba fazendo a mesma coisa. O resultado é que estradas, autoestradas, ferrovias, aeroportos ficam seriamente congestionados nesta época.

Na França, tradicionalmente, o governo aproveita o torpor do verão, quando todos estão mais preocupados com praia e pastis(*), para implementar medidas antipáticas. Aumento de tarifas, proibição disto ou daquilo, «revalorização» de alíquotas de imposto, reajuste de pedágio e outras maldades entram em vigor neste período. Passam com maior facilidade.

Praia do Cap d’Ail, Côte d’Azur, França

No Brasil, não consta que o fenômeno seja tão marcado. Talvez pelo habitual alienamento da população, despejam-se baldes de ruindade o tempo todo. E tudo bem. No entanto, especificamente neste julho, que é mês de férias no Brasil também, parece que o movimento se tem acelerado. Não sei se o distinto leitor tem ressentido a mesma coisa. Tenho a forte impressão de que os do andar de cima, acuados há mais de dois anos pela Lava a Jato & congêneres, resolveram dar as mãos e agir no intuito de salvar a pele.

Em horas assim, vale tudo. O inimigo de ontem vira amigo de infância. Encontra-se, ora vejam só!, qualidades no adversário da semana passada. Partidos antagônicos se unem visando ao «bem comum». Criminosos condenados a dezenas de anos de privação de liberdade são mandados para casa. Um ministro do STF desdiz o que outro ministro do mesmo STF havia afirmado na véspera. Partidos da dita “oposição” se aliam a partidos da dita “situação”. O contingente de procuradores encarregados da Lava a Jato é amputado de metade dos membros.

Pastis, aperitivo com gosto de férias

Fica cada dia mais clara a operação de desmonte das investigações. E pensar que todo esse pessoal que lá está foi eleito pelo voto popular… É de se lamentar, mas fica a incômoda sensação de cansaço popular, de desânimo e de apatia. Não espantaria se congressistas hoje execrados fossem tranquilamente reeleitos em 2018. Do jeito que as coisas vão, os parlamentares da próxima legislatura perigam ser cópia carbono dos atuais. Se não forem os próprios.

(*) Pastis é aperitivo anisado típico do sul da França. Para os franceses ‒ que vivem, em maioria, no populoso norte do país ‒, pastis, perfume de lavanda e chiado de cigarra são indissociáveis do bom tempo de férias e de dolce far niente.

Quer ser aluno de Dilma Rousseff?

Políbio Braga (*)

O curso «A esquerda no século 21» também terá Guilherme Boulos, Olívio Dutra, Emir Sader, João Pedro Stédile e outros dinossauros da esquerda entre os professores.

As aulas da pós-graduação “A esquerda no século XXI” terão lugar em Chapecó (SC). O autor da ideia é o deputado federal José Uczai (PT-SC), professor universitário. A ex-presidente e Olívio Dutra (PT), ex-governador do Rio Grande do Sul, ficarão responsáveis pela disciplina “Partidos políticos e a esquerda brasileira”, com carga de 45 horas. O time ainda inclui Emir Sader, Jean Wyllys, Guilherme Boulos, João Pedro Stédile e, a confirmar, Jandira Feghali, Chico Alencar e Leonardo Boff.

Os interessados devem desembolsar R$ 7.200, com direito a parcelamento em até 24 meses. O curso será oferecido em parceria com a Universidade Federal da Fronteira Sul e a Fundação Perseu Abramo, controlada pelo PT e financiada com recursos do fundo partidário ‒ dinheiro público, pois. Já o diploma será expedido pelo Instituto Dom José.

Para obter o diploma de especialista em “esquerda do século 21”, será ainda necessário realizar um seminário de pesquisa (30 horas) e produzir um trabalho de conclusão (60 horas). O curso terá cerca de um ano de duração, com aulas nas sextas-feiras à noite e nos sábados na cidade do oeste catarinense.

(*) Políbio Braga é jornalista e blogueiro de grande popularidade especialmente no Sul do país.

Dignitários consternantes

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 8 julho 2017

Consternados estamos nós, procurador, acredite. Consternados estamos nós.

Em tempo
Dignitário (com NI no meio) é a forma preferencial. Vem do latim dignitas, dignitatis. Dignatário (com NA no meio) é forma anômala, que escapa à derivação natural. Talvez seja usada entre nós para rimar com salafrário.

Ai, minha cabeça!

José Horta Manzano

Há quem afirme que doutor Geddel Vieira Lima é delinquente inveterado(*). Dizem que começou já na adolescência e não parou até hoje. Deve haver uma parte de verdade na afirmação, tanto é que o doutor foi preso estes dias.

Os jornais dão em manchete a notícia de que o prisioneiro «tem cabeça raspada». Só de pensar, dá arrepio. Fico aqui imaginando qual terá sido o instrumento de tortura utilizado para raspar a cabeça do infeliz. Uma lixa grossa? Uma escova de piaçaba? Um ralador de queijo? Cruz-credo!

Chamada Estadão 6 jul 2017

Pois é, minha gente, em apenas três palavrinhas ‒ «tem cabeça raspada» ‒, duas impropriedades foram cometidas. Uma delas é o emprego da sintaxe inglesa. «Teve a carteira roubada», «tive o apêndice extirpado» & congêneres são frases construídas sobre base sintática estranha à nossa. Em inglês, é assim que a gente deve se exprimir. Em português, casos dessa natureza pedem a voz passiva. Melhor do que «teve a carteira roubada», será dizer que lhe roubaram a carteira. Ou que a carteira dele foi roubada, que lhe extirparam o apêndice, que seu apêndice foi extraído. E, naturalmente, que lhe cortaram o cabelo ou que seu cabelo foi cortado rentinho rentinho.

A outra impropriedade é o uso de «raspar» por «rapar». No Brasil, muitos utilizam raspar quando rapar seria mais adequado. No entanto, cada um dos verbos exprime ação diferente.

by Carl Thomas Anderson (1865-1948), desenhista americano.
Henry, o garotinho de cabeça rapada, conhecido no Brasil como Pinduca, foi criado quando o desenhista já tinha 68 anos de idade, em 1933.

Rapar é catar tudo, às vezes num único movimento. Rapa-se a cabeça (caso do doutor ora prisioneiro), rapa-se a mercadoria do camelô desprevenido, rapa-se o saldo da caderneta de poupança. O crupiê rapa as fichas dos perdedores no tapete verde. Rapa-se barba e bigode.

Raspar é outra coisa. Raspa-se um objeto ou uma superfície, ou por acidente, ou na intenção de limpar ou de eliminar alguma impureza ou excrescência. Raspa-se fundo de panela. Raspa-se a pintura da parede velha antes de aplicar nova camada. Raspa-se o carro no muro. Raspa-se casca de limão e de cenoura.

Sabemos que nossas prisões são sucursais do inferno. Mas ainda não chegamos ao ponto de raspar a cabeça de recém-chegados, esfregando até o sangue. Crueldade tem limites.

(*) Inveterado denota algo ou alguém que envelheceu. Por analogia, hábitos antigos e arraigados são ditos inveterados. A palavra descende do latim vétus, véteris (= velho).

Veterinário faz parte da mesma família. A gente se pergunta por quê. É simples. Dois milênios atrás, a medicina ainda engatinhava e o homem mal sabia cuidar de si, quanto mais dos bichos. Assim mesmo, animais domésticos ‒ principalmente o cavalo, usado como meio de transporte ‒ eram preciosos. Quando um cavalo adoecia ou sofria com uma pata quebrada, o dono mandava vir um especialista para ver se dava um jeito. A maioria das vezes, esses infortúnios acometiam animais velhos, razão pela qual o entendido era chamado veterinarius.

Vetusto, veterano, inveterar (= tornar antigo) derivam do mesmo tronco.

Separação dos Poderes

José Horta Manzano

Não é pra ser chato, mas… que remédio? Tem horas em que não há outro jeito. A Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, alojada no Senado da República, aprovou uma proposta de emenda à Constituição. Antes de falar dela, gostaria de saber por que razão a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça, velha de guerra) acrescentou a «cidadania» ao já pomposo título.

Que quer dizer cidadania? O dicionário diz que é a condição de cidadão. Diz também que cidadão é o sujeito que usufrui de direitos civis e políticos. Trocando em miúdos, a população é inteiramente constituída de cidadãos, exceção feita aos incapazes e àquela meia dúzia da qual tais direitos foram temporariamente retirados. Em resumo, a tal «cidadania» é, na prática, a condição de todos nós. Podiam ter feito economia. CCJ já estava de bom tamanho, não precisava de extensão. Dada a bronca, passemos à PEC.

Propõe-se mudança na forma de escolher ministro para o STF. Na efervescência atual, a alteração me parece ir no bom sentido, embora o passo seja tímido. A PEC preconiza que a escolha final continue a ser feita pelo presidente da República a partir de lista tríplice. Duas mudanças maiores são propostas.

Barão de Montesquieu (1689-1775), filósofo e homem político francês

A primeira diz respeito ao colegiado encarregado de elaborar a lista. Ele será formado por oito magistrados, entre os quais os presidentes do STF, do Superior Tribunal de Justiça, do Superior Tribunal Militar e da OAB. A segunda mudança ‒ que poderá eventualmente ser vista como inconstitucional ‒ limita o mandato de ministro do STF a dez anos sem recondução possível.

A meu ver, a proposta padece de dois defeitos congênitos. Por um lado, a limitação do mandato de juiz é assunto delicado. Aos magistrados, a Constituição garante a vitaliciedade, a inamovibilidade e a irredutibilidade de subsídios. Portanto, ainda que a limitação do mandato de ministro do STF pareça desejável, entra em choque com a lei maior.

Por outro lado, o fato de a escolha final continuar sendo prerrogativa do presidente da República deixa um gostinho desagradável de desrespeito à isonomia dos Poderes. A escolha dos magistrados do STF pelo chefe do Executivo revela subordinação do Judiciário ao presidente da República, o que não é bom sinal.

A PEC ainda tem longo caminho pela frente. Tem de passar por duas sessões no Senado para, em seguida, atravessar o filtro da Câmara. Durante a tramitação, sofrerá, sem dúvida, emendas e modificações. Em todo caso, antes de votar, suas excelências deveriam reler os escritos do barão de Montesquieu (1689-1755), o filósofo e pensador político francês que elaborou a teoria da separação dos Poderes.

Bons de briga

José Horta Manzano

Tem gente que é de briga. Falo daqueles que já entram batendo pra só depois perguntar o que está acontecendo. São personalidades que não aparecem só no cinema: a vida real está recheada de gente assim, que gosta de um pega.

Giuseppe Garibaldi

Giuseppe Garibaldi

Muitos deles ‒ a maior parte, quero crer ‒ se contenta com descarregar a agressividade física num esporte qualquer. Se for esporte de combate, melhor ainda. Está aí um traço comum entre boxeadores, praticantes de luta-livre e de outras modalidades baseadas no enfrentamento corporal.

Há os que, sabe-se lá por que razão, não chegam a canalizar numa atividade esportiva o excesso de energia que carregam por dentro. Acabam por transformar-se no chefe tirânico, no marido brutal, no profissional descontrolado. São um estorvo para quem lhes cruza o caminho.

Há, enfim, os que vão até o fim e, desdenhando lutas de mentirinha, resolvem o problema ao pé da letra: tornam-se combatentes de verdade. Viram brigadores profissionais. Alguns chegam a ficar na História. É o caso de Giuseppe Garibaldi (1807-1882).

guerra-1No tempo em que professor ensinava e aluno aprendia, contava-se a história do aventureiro que ficou conhecido como «herói dos dois mundos». Nascido em Nice, numa época em que a cidade ia dormir italiana e acordava francesa ‒ e vice-versa ‒, Garibaldi era combatente de nascença. Na Itália, deixou imagem célebre. Patriota e general, teve vida movimentada. Não rejeitava pegar em armas, o que o levou a participar de numerosos embates militares.

Em meados dos anos 1830, desembarcou no Brasil. Atraído irresistivelmente por revoluções e batalhas, tomou parte ativa na Guerra dos Farrapos, ocasião em que conheceu Ana Maria de Jesus Ribeiro, brasileira descendente de açorianos, então com 18 aninhos. É aquela que, mais tarde, ficou conhecida como Anita Garibaldi (1821-1849). Os dois tornaram-se inseparáveis companheiros de armas. Quando Giuseppe retornou à Itália, Anita o acompanhou. Para nunca mais voltar.

Rafael Lusvarghi

Rafael Lusvarghi

Dia destes, fiquei sabendo da história de um paulista de nome Rafael Lusvarghi, digno sucessor de Garibaldi. Muito jovem, já abraçou a vida militar ao engajar-se na Legião Estrangeira Francesa. Mais tarde, de volta ao Brasil, integrou a Polícia Militar por algum tempo. Quando espocou o conflito no leste da Ucrânia ‒ aquela região que luta pela independência ‒ Lusvarghi não hesitou: juntou-se aos separatistas.

Depois de muito lutar, o jovem está meio desiludido com o andamento daquela guerra, que não ata nem desata. Anda pensando em voltar ao Brasil, nem que seja por algum tempo. Talvez volte mesmo, mas é capaz de nem se estabelecer na pátria. Quem nasceu com espírito guerreiro não consegue sossegar nem ficar parado muito tempo. Em entrevista ao portal História Militar, Rafael Lusvarghi conta algumas de suas peripécias.

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Quem quiser saber mais pode clicar aqui.

Sem chance

José Horta Manzano

Sabemos todos que pesquisa de opinião pode ser torcida, retorcida e distorcida conforme o que se está querendo ouvir. Os especialistas no assunto conhecem bem as manhas. Há perguntas que induzem o entrevistado a dar a resposta que se deseja. A ordem em que se apresentam as opções conta. Misturar nomes conhecidos do grande público com ilustres desconhecidos também tem importância. Há mil e um truques que pesquisadores não hesitam em utilizar.

Já faz algum tempo que tenho visto sondagens focadas nas eleições presidenciais de 2018, previstas para realizar-se para daqui a um ano e três meses. É cedo demais para sondar. Além disso, tirando o eterno candidato Lula, nenhum outro se declarou formalmente. Portanto, sem ao menos saber quem vai concorrer, como é possível chegar a resultado razoável?

Achei interessante que o nome da doutora Dilma não apareça em nenhuma das pesquisas. Seus direitos políticos foram mantidos, pois não? A doutora governou o país durante cinco anos. Por que, diabos, os institutos a eliminam arbitrariamente da lista de possíveis candidatos? E que dizer de doutor Temer então? Ainda que fosse destituído ‒ o que está longe de acontecer ‒, pode candidatar-se em 2018. Assim mesmo, não aparece em nenhum cenário.

Em compensação, aparecem figuras como Luciana Genro, Eduardo Jorge e Ronaldo Caiado que, convenhamos, pouca gente conhece. Francamente, em matéria de parcialidade, a mais recente pesquisa eleitoral parece imbatível. Falando em imbatível, o Lula aparece com 30% dos votos no primeiro turno, independentemente do nome dos concorrentes. É possível que nem a inclusão da doutora e do atual presidente viesse a modificar o resultado.

Como contrapeso, saiu ontem pesquisa do Instituto Paraná. Foi divulgada pelo blogue de Lauro Jardim, alojado no jornal O Globo. Aos entrevistados não foi perguntado em quem votariam. Mais sutil, o instituto quis saber se o sondado achava que, pelas denúncias já apuradas, há motivos para o Lula ou doutor Temer serem presos. Aí vem a surpresa: 62% dos entrevistados acham que o Lula deve ir para o xilindró ‒ perto de 2 em cada 3 brasileiros! Só doutor Temer bate nosso guia. De cada 5 eleitores, 4 acham que o lugar dele também é na cadeia.

Agora comparemos. No primeiro turno, o Lula mantém, em qualquer cenário, seus 30% de eleitores fiéis. Vamos admitir. No entanto… 62% querem mais é vê-lo atrás das grades. A conclusão se impõe. Por mais que nosso guia caído apregoe, não teria possibilidade nenhuma de ser eleito caso a eleição fosse agora. Dado que será daqui a 15 meses, a situação só tende a piorar. Para ele.

Mãe coruja

José Horta Manzano

Você sabe por que razão se diz coruja daquele que mostra grande orgulho do que criou ‒ criança, obra de arte ou qualquer outra coisa? A coruja, em muitas civilizações, é associada à sabedoria. A analogia vem certamente do fato de parecer ter os olhos arregalados, como se sempre prestasse grande atenção. Mas que tem a coruja que ver com sentimento de orgulho maternal?

Pois a relação é fruto de um poema escrito pelo francês Jean de La Fontaine, que viveu de 1621 a 1695 e nos legou dezenas de historietas todas escritas em versos. Com requintado linguajar, ele utilizou esse meio para transmitir ensinamento moral. Nas fábulas de La Fontaine, tolos, orgulhosos, avarentos, invejosos, soberbos e toda espécie de malvados levam sempre uma lição, quando não um castigo.

Uma das fábulas está na origem de nossa expressão mãe coruja. Chama-se «L’aigle et le hibou» ‒ A águia e a coruja. Conta a história de duas aves de rapina: uma águia e uma coruja. Cansadas de estar sempre brigando, resolveram fazer as pazes e nunca mais atacar os filhotes uma da outra. Apreensiva, a coruja perguntou à águia se ela conhecia seus filhotinhos, que ainda viviam no ninho. A águia respondeu que não, não os conhecia.

A coruja se entristeceu e temeu pela vida dos filhinhos. A águia então pediu à coruja que descrevesse os rebentos. Sabendo como eram, caso os encontrasse, não tocaria neles. A coruja, vaidosa, deu dos filhos imagem encantadora. Disse que eram uma fofura, belos, bem feitos, os filhotes mais lindos do mundo.

Pouco tempo depois, a águia voava à cata de alimento. Estava com fome. De repente, encontra um ninho com aves novinhas e sem defesa. Observando mais de perto, descobriu que os bichinhos eram muito feios. Pareciam monstrinhos repugnantes, de aspecto sinistro, que soltavam um ruído estranho mais parecido com grunhido de porco. Pensou: «Não, estes horrorezinhos não podem ser os filhotes da coruja.» Ato contínuo, fez deles seu almoço.

Ao voltar ao ninho, a pobre coruja só encontrou as patas dos filhotes. Clamou aos céus que castigassem o malvado que tinha feito aquilo. Foi quando alguém lhe disse que tinha mais é de culpar a si mesma por ter dado à águia uma descrição dos filhinhos que não correspondia à realidade.

O português incorporou a expressão mãe coruja para designar aquela que sente enorme orgulho da própria progenitura. É curioso notar que o francês, língua na qual foi escrita a fábula, não fez a mesma coisa. A coruja continua sendo símbolo de sabedoria, nada mais. A expressão que mais se aproxima, embora não tenha significado idêntico, é «mère poule» (= mãe galinha). Em francês, indica a mãe possessiva, superprotetora. Em português, convém não utilizar a tradução literal. Periga ofender.

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Para curiosos renitentes, aqui está a versão original da fábula. A linguagem elaborada e rebuscada demanda bom conhecimento da língua.

L’aigle et le hibou

Jean de La Fontaine (1621-1695)

L’aigle et le chat-huant leurs querelles cessèrent,
Et firent tant qu’ils s’embrassèrent.
L’un jura foi de roi, l’autre foi de hibou,
Qu’ils ne se goberaient leurs petits peu ni prou.

«Connaissez-vous les miens?» dit l’oiseau de Minerve.
«Non, dit l’aigle.» «Tant pis», reprit le triste oiseau;
«Je crains en ce cas pour leur peau;
C’est hasard si je les conserve.»

«Comme vous êtes roi, vous ne considérez
Qui ni quoi ; rois et dieux mettent, quoi qu’on leur dit,
Tout en même catégorie
Adieu mes nourrissons, si vous les rencontrez.»
«Peignez-les-moi, dit l’aigle, ou bien me les montrez;
Je n’y toucherai de ma vie.»

Le hibou repartit: «Mes petits sont mignons,
Beaux, bien faits, et jolis sur tous leurs compagnons:
Vous les reconnaîtrez sans peine à cette marque.
N’allez pas l’oublier; retenez-la si bien
Que chez moi la maudite Parque
N’entre point par votre moyen.»

Il advint qu’au hibou Dieu donna géniture.
De façon qu’un beau soir qu’il était en pâture,
Notre aigle aperçut d’aventure,
Dans les coins d’une roche dure,
Ou dans les trous d’une masure
(Je ne sais pas lequel des deux),
De petits monstres fort hideux,

Rechignés, un air triste, une voix de Mégère.
«Ces enfants ne sont pas» dit l’aigle «à notre ami.
Croquons-les.» Le galant n’en fit pas à demi;
Ses repas ne sont point repas à la légère.

Le hibou, de retour, ne trouve que les pieds
De ses chers nourrissons, hélas!, pour toute chose.
Il se plaint et les dieux sont par lui suppliés
De punir le brigand qui de son deuil est cause.

Quelqu’un lui dit alors: «N’en accuse que toi,
Ou plutôt la commune loi
Qui veut qu’on trouve son semblable
Beau, bien fait, et sur tous aimable.
Tu fis de tes enfants à l’aigle ce portrait:
En avaient-ils le moindre trait?»

O porta-aviões

José Horta Manzano

Você sabia?

Faz uns três meses, a Marinha do Brasil anunciou a desativação do porta-aviões nacional. Eu disse «do» de propósito: só temos um. E olhe lá, comprado de ocasião e à prestação. Pra que servia mesmo? Vamos primeiro aos considerandos pra chegar aos finalmentes.

Desde que o Brasil anunciou que vai devolver a carteirinha de sócio, o clube de países cuja frota conta com pelo menos um navio porta-aviões encolheu ainda mais: restam apenas oito membros. O total mundial de embarcações desse tipo é atualmente de apenas 18 unidades, 12 das quais pertencem aos EUA. A Itália e a Índia têm duas embarcações cada uma. E os demais se contentam com um único porta-aviões.

Porta-aviões São Paulo

Os únicos fabricantes desse tipo especialíssimo de nave estão nos Estados Unidos, na Itália, na França e na Rússia. A Espanha possui um canteiro naval capaz de produzir embarcações de uso múltiplo, ditas «navio anfíbio de ataque». Dado que carregam aviões e são capazes de servir de campo de decolagem e de pouso, costumam ser contabilizadas na categoria de porta-aviões. E é só. A marinha espanhola possui um navio dessa categoria. Nem a China, que já mandou astronauta ao espaço, produziu porta-aviões até hoje. Vai ficar para o futuro.

Tanto a Índia quanto a China utilizam embarcações de fabricação russa, compradas de segunda mão. A Tailândia possui o modelo espanhol. Nosso porta-aviões São Paulo, cuja aposentadoria acaba de ser anunciada, é de fabricação francesa. Antes de ser comprado pela Marinha do Brasil, levava o nome de Foch, em homenagem a um marechal francês herói da Primeira Guerra.

É compreensível que os Estados Unidos, em conformidade com sua qualidade de potência bélica maior, dedique especial importância a esse tipo de navio. Permite garantir a presença militar do país em numerosos pontos do globo simultaneamente. A França, dona de territórios e ilhas ao redor do planeta, é outra que precisa contar com porta-aviões. Aliás, no caso francês, é até surpreendente que se contentem com um único exemplar. Curiosamente, a Rússia, cujas ambições militares são notórias, só tem um porta-aviões ‒ mas está produzindo um segundo.

Porta-aviões São Paulo

E o do Brasil, para que serviu e para que serve? Comprado de segunda mão e desatualizado, não há de ter tido grande serventia. Sua manutenção tornou-se tão dispendiosa que a Marinha decidiu se separar dele e vendê-lo como sucata. Sua recuperação sairia tão cara quanto a compra de um novo.

Além de Fernando de Noronha e da Trindade, não temos ilhas nem territórios a defender além-mar. Tampouco temos pretensão a nos elevar à categoria de potência militar de primeira categoria. Portanto… pra que nos serve um porta-aviões?

Acredito ‒ e espero ‒ que vamos deixar de lado esse tipo de luxo caríssimo e desnecessário. A imensa verba que a compra e a manutenção de um porta-aviões consome será mais bem canalizada se servir, por exemplo, para a defesa estratégica da rede de comunicação das Forças Armadas. Nos tempos atuais, um ataque de piratas informáticos (em português: hackers) pode causar estrago maior que um tiro de canhão.

Pedir pra fazer pipi

José Horta Manzano

«Falar certo» e «falar errado» são noções meio vagas, sujeitas a discussão. Nós, brasileiros, estamos em conflito permanente entre dois falares. O primeiro deles é nossa língua materna que, pra dizer a verdade, não tem nome. Pode-se classificar como ‘falar popular’ ‒ eu prefiro ‘falar caseiro’, mais simpático. É língua que todos falamos perfeitamente, sem hesitar nem errar. A par desse, temos um segundo falar. É o português, também dito ‘norma culta’. Em princípio, não aprendemos essa variante em casa. Ela só nos é ensinada na escola, e é aí que reside o perigo: escola ruim = mau aprendizado da variante oficial.

Não somos o único povo a conviver com dicotomia linguística. Há casos em que a enorme divergência entre o falado e o escrito gera problemas mais acentuados. Nas regiões onde isso acontece, é imprescindível aprender bem a norma culta. Quem não a dominar, periga enfrentar transtornos no dia a dia.

Bem ou mal, o brasileiro consegue se comunicar por escrito. Falta de erudição não significa necessariamente iletrismo ou analfabetismo. O cidadão de poucas letras pode até chegar a transmitir seu pensamento, no entanto, por lacunas sintáticas e inadequação vocabular, nem sempre logra se exprimir com clareza.

Que o não-profissional escreva mal, ainda vá lá. Quando se trata de alguém que se dirige ao grande público, a coisa muda de figura. Daqueles que escrevem notícia de jornal, não se espera a erudição e o linguajar reluzente de um padre Vieira, mas é importante que seja pelo menos claro. Não convém transmitir ambiguidades.

Topei hoje com esta chamada do Estadão:

Chamada Estadão, 29 jun 2017
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Nestes tempos estranhos em que as notícias se atropelam, a gente tem dificuldade em acompanhar, no detalhe, o psicodrama que se desenrola no andar de cima. Numa primeira leitura, entendi que a defesa de doutor Temer estivesse pedindo a doutor Fachin que lhes permitisse ouvir os tais peritos. Imaginei que, egoísta, o ministro do STF houvesse barrado, aos advogados, acesso à conclusão dos especialistas. Do jeito que está escrito, é a única interpretação possível.

Só ao ler o artigo, entendi que o título tinha sido construído em fala caseira. Pode cair bem num bate-papo ao redor da mesa da cozinha; num jornal de prestígio, fica estranho. O encarregado de dar título à matéria mostrou não ter aprendido a manha do verbo pedir.

«Pedir para» subentende «pedir (permissão) para». Usa-se «pedir para» quando se deseja obter autorização para alguma coisa. Pedir para participar quer dizer solicitar autorização para fazer parte. Pedir para ouvir peritos significa solicitar permissão para ouvir esses especialistas. Não é o que o autor do artigo queria dizer.

Na verdade, os defensores de doutor Temer gostariam que o ministro do STF desse ouvido aos tais peritos. A boa escola de Português ensina que o jornal deveria ter escrito «Defesa de Temer pede a Fachin que ouça peritos».ou, ainda mais claro: «Defesa de Temer pede que Fachin ouça peritos».

Em resumo: o uso jornalístico da língua descontraída é admissível até o ponto em que compromete a compreensão. Clareza é essencial.

Observação
O título deste meu artigo faz alusão ao aluninho que, depois de engolir uma garrafa inteira de tubaína, pede (permissão) pra ir ao banheiro.

Greve sutil

José Horta Manzano

Você sabia?

Greve, uma parada de trabalho voluntária e coletiva organizada em vista de conseguir melhora salarial ou vantagem laboral, é palavra de origem francesa. Embora se tenha notícia esporádica de movimentos dessa natureza ocorridos já na época dos faraós, a frequência deles aumentou com o advento da era industrial.

A esplanada onde se ergue hoje o Hôtel de Ville de Paris, a sede da prefeitura, chamava-se, dois séculos atrás, Place de Grève ‒ Praça do Cascalho ‒ em referência ao solo atapetado de pedrisco. Homens à cata de trabalho costumavam reunir-se no local à espera de recrutadores. Com o tempo, ir à Grève foi-se tornando sinônimo de estar sem trabalho.

Place de l’Hôtel de Ville, Paris, nos dias atuais

Hoje em dia, países civilizados reconhecem o direito que todo trabalhador tem de fazer greve. Mas cada país impõe limites. Em geral, determinados ofícios essenciais ‒ policiais e militares em particular ‒ não gozam desse direito. É compreensível. Se assim não fosse, haveria risco de anarquia total.

Temos assistido, vez por outra, a passeatas e protestos de esposas de militares. É uma maneira de contornar a proibição. Na impossibilidade de entrar em greve, o fardado encarrega a companheira de sair às ruas carregando faixas e cartazes para dar publicidade às próprias reivindicações.

Descontente com as condições de trabalho atuais, a Polícia Federal está justamente nesse caso. Para não afrontar o regulamento, decidiram agir de maneira sutil. Um aviso inserido na secção de emissão de passaportes do site da PF alerta os candidatos. Às vésperas das férias de julho, período crítico em que muitos previram dar uma escapada ao exterior, a PF informa que a emissão do precioso documento está suspensa até segunda ordem.

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Explicam que a medida decorre «da insuficiência do orçamento destinado às atividades de controle migratório e emissão de documentos de viagem». Reparem bem que a suspensão do serviço não é atribuída à falta de papel, como já aconteceu tempos atrás. Desta vez, a argumentação é mais vaga, um tanto misteriosa. Quem lê fica sem entender o que tem uma coisa que ver com a outra.

Se o distinto leitor tinha intenção de solicitar passaporte estes dias, é melhor tirar o cavalo da chuva e anular o projeto de viagem. No aviso da PF, não fica claro se a emissão de passaportes especiais ‒ aqueles que se concedem a figurões ‒ também está suspensa. Algo me diz que a greve dissimulada tem como alvo unicamente o populacho. Gente fina, como se sabe, é outra coisa.

Rain forest

José Horta Manzano

Doutor Temer visitou a Noruega esta semana. O porquê da viagem não ficou suficientemente claro. Terá havido alguma razão específica, mas ignoro qual seja. A mídia brasileira não deu grande importância à vilegiatura presidencial. O mais comentado foi a gafe cometida pelo doutor ao declarar diante de microfones que estava para se encontrar com o rei da Suécia. (Na verdade, ia ser recebido pelo rei Harald, da Noruega.)

Primeira-ministra deixa claro que, caso o desmatamento no Brasil aumente de novo, a ajuda norueguesa será cortada.
Chamada do jornal Adresseanvisen, Oslo.

Mais do que irritar os anfitriões, esse tipo de deslize faz sorrir e mostra ignorância do hóspede. Volta e meia acontece. Lembro-me quando o presidente americano Ronald Reagan, de visita ao Brasil, levantou um brinde de agradecimento ao governo da Bolívia. Ponha-se na conta do despreparo do discursante e adicione-se uma pitada de cansaço e de defasagem horária. Não é o fim do mundo.

Já a primeira-ministra norueguesa pronunciou crítica azeda à corrupção no Brasil. Mas isso faz parte do jogo de cena. De qualquer maneira, o Brasil ‒ assim como os demais países da América Latina ‒ são vistos como corruptos, pelo menos do ponto de vista escandinavo. Ainda que, por um milagre, nossos governantes se transformassem subitamente em arcanjos, os povos daquelas bandas levariam muito tempo pra se convencer. Os clichês têm vida longa.

O problema maior levantado pela primeira-ministra e repercutido por manifestantes nas ruas foi outro. A preocupação mais aguda é o desmatamento que continua, impávido e impune, na Amazônia. A cabeça de um nórdico não concebe que empreiteiros botem abaixo extensas áreas de floresta úmida sem que ninguém os impeça e sem que nenhuma punição lhes seja infligida. O Brasil tem território vasto, é verdade, mas os modernos meios de observação permitem vigilância permanente. Nada escapa ao olho de lince de um satélite. Se nenhuma ação é tomada contra os infratores, é porque aí tem coisa.

Oslo: manifestação durante visita de doutor Temer

O resultado é que o governo norueguês, chateado, vai cortar pela metade a ajuda de milhões de coroas que dava ao Brasil todos os anos para cuidar melhor do patrimônio florestal. Há que entender que fornecem esse auxílio não por serem bonzinhos mas por entenderem que a extinção das florestas tropicais será catastrófica para o clima do planeta inteiro ‒ inclusive o deles.

Caso o Brasil não dê um basta ao desmatamento, Oslo periga fechar definitivamente a torneirinha de dólares a partir do ano que vem. A gente acaba se convencendo de que deve haver extraordinários interesses ocultos por detrás da impunidade de desmatadores. Como contraponto à Lava a Jato, está na hora de instalar uma Serra a Jato.

A língua agradecerá

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 24 junho 2017.

Muitos traços distinguem a espécie humana dos demais seres animados. Talvez o mais marcante, o que condiciona o modo como encaramos a existência, seja a noção da morte. Animal vive o instante presente. Para ele, passado e futuro não funcionam como para nós. Se animais superiores retêm experiências do que passou, será para procurar repetir as prazerosas e para tentar evitar as dolorosas. O fato de o esquilo fazer provisões para o inverno não é resultado de raciocínio. O animalzinho obedece, sem se dar conta, ao comando do instinto.

Desde que o mundo é mundo, o homem sonhou com a imortalidade. Consciente de que o objetivo era inalcançável, agiu em duas frentes. Por um lado, fez o que pôde para prolongar a existência física. Por outro, aferrou-se a crenças religiosas. De fato, todas as religiões da terra – todas, sem exceção – fincam sua razão de ser numa vida pós-morte. A ideia de, exalado o último suspiro, desaparecer, virar pó e ser esquecido é simplesmente insuportável. Cada um de nós guarda, bem lá no fundo, a tola esperança de que a grande ceifadora, distraída, esqueça de nos convocar.

No entanto, ninguém fica pra semente. Pra deixar rastro de sua passagem, o homem das cavernas desenhava nas paredes. E não é que conseguiram o intento? Pinturas rupestres nos falam hoje de fatos e gestos de dez mil anos atrás. Um «João ama Maria» cercado por um coração e gravado a canivete num tronco de árvore manifesta a mesma preocupação. Enquanto estiver de pé, a árvore guardará a marca dos entalhadores.

Até dois séculos atrás, os meios de deixar lembrança eram poucos e estavam reservados para quem podia. Os mais abastados encomendavam escultura ou retrato pintado à mão. Se temos hoje ideia precisa de como era o rosto de um Napoleão ou de um Dom Pedro I, devemos o lembrete a pintores. Mas era solução apenas para um punhado de abonados. A invenção e a popularização da fotografia e do filme vieram paliar a ilusão de imortalidade de multidões. Vieram dar-lhes a ilusória sensação de que serão lembrados para sempre.

Circunstâncias às vezes fortuitas fizeram que alguns sortudos fossem mais longe que o populacho. Há personagens cujo nome se eternizou ao transformar-se em adjetivo comum. Platônico, pitagórico e cesáreo nos vêm da Antiguidade. O Renascimento, embora nos tenha deixado dantesco, manuelino e maquiavélico, negou a homenagem a Leonardo da Vinci, grande entre os maiores. A par da pobreza franciscana e da paciência beneditina, os tempos modernos foram mais pródigos em conceder notoriedade adjetiva. As artes e, em especial, a política deram contribuição importante. Temos cartesianos, bonapartistas, stalinistas, getulistas.

Conquista maior do que se ver transformado em adjetivo é chegar a substantivo. Não é pra qualquer um. A esmagadora maioria dos agraciados são cientistas que deram nome a uma unidade de medida. Pascal, Celsius, Kelvin, Newton, Hertz, Ampère, Watt, Ohm, Volta, Farad, Becquerel são alguns deles. Fora do mundo científico, poucos chegaram lá. Stalinismo, macartismo e coquetel-molotov perenizam tenebrosas celebridades. Mas chique mesmo – la crème de la crème – é virar verbo. O clube é pra lá de restrito. Além-fronteiras, merecem destaque linchar (de Lynch), pasteurizar (de Louis Pasteur), galvanizar (de Luigi Galvani), boicotar (de Charles C. Boycott) e sanforizar (de Sanford Cruett). Na trilha de seus vaivéns em matéria de abertura do país a migrantes, Angela Merkel está enriquecendo a língua alemã com novo verbo: merkeln, que significa hesitar, ficar em cima do muro. Malvadeza.

No Brasil, só dois exemplos me ocorrem. Etimólogos atribuem a origem do verbo badernar a uma bailarina de sobrenome Baderna, que levou a moçada ao desvario no Rio de Janeiro em 1850. No fim do século 20, as travessuras de antigo governador biônico paulista – hoje procurado pela Interpol – fizeram que o povo utilizasse seu sobrenome como sinônimo de roubar.

Estes últimos tempos, a brutal mudança de escala na rapinagem apequenou os feitos do antigo homem político de fala fanhosa. Badernou geral! Muito foi roubado e pouco tem sido devolvido. Esperemos que, depois de ter empobrecido o povo, alguns dos ladrões pelo menos enriqueçam a língua nos legando verbos novos para designar seus gestos. Não será ressarcimento total, mas já é melhor que nada.

Congonhas muda de nome

José Horta Manzano

Se contar, ninguém acredita. Com toda a turbulência que o país atravessa, entre um conchavo e outro, suas excelências encontram o tempo de votar leis que frisam o ridículo. Anteontem, o Diário Oficial da União (da União!) informou que o chacoalhado presidente Temer, logo antes de viajar à Rússia, tinha sancionado uma lei votada pela Câmara.

A lei decorre de projeto apresentado em 2012 por um deputado ‒ que, desde então, não foi reeleito. Naqueles tempos em que o mensalão já assustava o país, o nobre deputado não encontrou nada melhor pra fazer do que propor o banimento do nome do Aeroporto de Congonhas, o segundo do país em número de passageiros. Segundo sua excelência, o aeródromo paulistano deveria ser rebatizado em homenagem a antigo deputado cearense.

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Cada um tem sua opinião, que vivemos em democracia. No entanto, justamente para barrar ideias estrambóticas, as decisões parlamentares não são monocráticas, mas colegiais. Assim mesmo, o bizarro projeto foi adiante. Tramitou durante cinco anos e acabou sendo aprovado pela maioria de nossos representantes, o que deixa evidente a falta de espírito crítico da manada que fabrica nossas leis. Para coroar, o presidente sancionou. É o mundo de ponta-cabeça.

Meus leitores sabem que me oponho veementemente a dar nome de gente a logradouros públicos, prédios administrativos, estradas, estações, aeroportos & similares. Posso até admitir uma estreita exceção para aquela meia dúzia de heróis reconhecidos da nação. Agora, dar nome de deputado a aeroporto? Em que mundo vivemos? Se o autor do projeto venera a esse ponto o homenageado, que aponha uma placa com o nome de seu heroi na fachada de sua residência. Mexer com Congonhas, um patrimônio nacional? É falta de respeito e de consideração para com paulistanos, paulistas e brasileiros.

Aeroporto de Congonhas com o tradicional piso em tabuleiro de xadrez

E pensar que suas excelências são sustentadas com nosso dinheiro, que gozam de prerrogativas pra lá de especiais, que recebem jetons e auxílio moradia, que têm direito a assessores, a passagens gratuitas, a imunidade judicial… Com tanto problema num país violento, pobre, injusto, à beira da convulsão, tudo o que conseguem votar é mudança de nome de aeroporto? Francamente…

Proibição
A partir de agora, ninguém mais pousa em Congonhas nem de lá decola. O nome oficial da estação aérea passou a ser Deputado Freitas Nobre (Fortaleza, 1921 ‒ São Paulo, 1990). Não se esqueça, distinto leitor. Quando entrar no táxi, ordene: «Toca pro Deputado Freitas Nobre!»

Vingança
O maior aeroporto brasileiro também foi vítima de atentado semelhante. Aberto em 1985, foi rebatizado em 2002 como Governador André Franco Montoro (São Paulo, 1916 ‒ São Paulo, 1999). O povo sabido deu de ombros e a mudança ficou no papel. Nunca, jamais, em tempo algum alguém disse que tinha embarcado em Governador André Franco Montoro. Continuamos todos a dizer Guarulhos. O mesmo acontecerá com Congonhas. E ponto final.

Cela especial

José Horta Manzano

Sabe aquela aberração gritante, mas tão gritante, que ninguém mais vê? Pois é, nossas leis e nossos costumes estão recheados de incongruências. São incoerências que, de tão antigas e habituais, passam batido.

Outro dia eu lhes falei do poder conferido ao presidente da República ‒ chefe do poder Executivo ‒ de anular sentença proferida pelo poder Judiciário. De fato, seguindo o que lhe dita a vontade pessoal, o presidente pode comutar penas, indo até o perdão de condenados. É a desarmonia entre Poderes, sacramentada pela Constituição. Todos acham perfeitamente normal. Eu, não.

prison-6Tem muita coisa a mais. Hoje me ocorre mais uma esquisitice nacional. É a instituição de condições de «prisão especial» para diplomados em curso dito «superior». Num país onde se instituem quotas para desafortunados ‒ pretos, pardos, deficientes, pobres, índios ‒ a tradição da «prisão especial» soa fora de esquadro. Não é possível, por um lado, apregoar que todos são iguais e têm direito às mesmas oportunidades e, por outro, tratar alguns como mais iguais que outros. Não combina.

Levando o raciocínio mais ao fundo, chego a conclusão contrastada. Suponho que quem tiver tido melhor formação escolar tenha visão mais abrangente do certo e do errado. Portanto, sua responsabilidade é mais grave que a do bugre que nada aprendeu. Nessa visão, alguém que se tiver valido dos próprios estudos para delinquir merece castigo mais pesado. Cela especial deveria ser reservada aos ignaros, enquanto doutores delinquentes ficariam mais bem instalados junto com a bandidagem.

Sabe por que nenhum sinal de mudança na legislação aparece no horizonte? Porque as leis são feitas justamente por indivíduos protegidos pela imunidade e pelo insituto do ‘foro privilegiado’. Mais uma vez, está dada a prova de que legislam, em primeiríssimo lugar, em causa própria.

Mas deixe estar. A Lava a Jato vem mostrando que as coisas podem mudar. Aliás, estão mudando.

Viagem à Rússia

José Horta Manzano

Doutor Temer está de viagem para longe. Vai visitar a Noruega e a Rússia, países vizinhos, ambos a dois passos do Polo Norte. O que é que há de comum entre eles? Bem, tirando a fronteira de pouco mais de 200km, a característica mais saliente é que são ambos grandes produtores de petróleo. O objetivo oficial da visita presidencial resume-se a vagas ‘tratativas comerciais’. O detalhe não foi explicado tim-tim por tim-tim.

Não dá pra acreditar que o presidente de um país cuja maior empresa petroleira tem sido tão maltratada vá dar lições de administração àqueles brancos de olhos azuis. A empresa Gazprom, gigante do petróleo russo, vai bem apesar da corrupção que, dizem, é imensa. Os russos devem ser mais competentes em matéria de rapina. Tiram o leite sem matar a vaca.

Há outro motivo que está atraindo muitos visitantes à Rússia estes dias. Está-se desenrolando lá a Copa das Confederações, aquela que se disputa um ano antes da Copa do Mundo. O Brasil não participa, dado que o representante da América do Sul é o Chile. Isso explica o desinteresse da mídia nacional pelo evento. Será nosso presidente fervoroso amante do futebol? Será que sua paixão pela bola rolando o levaria a deixar o conforto de Brasília pela poltrona de um estádio? Difícil acreditar.

Dança cossaca

Doutor Temer saiu ameaçando processar aquele atrevido que o denunciou, o moço de nome simplório e sobrenome pio. «Me segura, que eu bato!» ‒ parecia dizer, à espera da turma do deixa disso. Como é curioso… Faz mais de um mês que veio a público a ousada gravação feita na calada. O Brasil inteiro ficou sabendo. Naquele momento, a resposta presidencial não passou de um desmentido. Foi veemente e vigoroso, mas não passou disso.

Todo cidadão que se considera injuriado, difamado ou caluniado costuma tomar providências jurídicas imediatas. Doutor Temer não tomou nenhuma. Passado um mês, sai para um passeio escandinavo-siberiano de uma semana deixando no ar a ameaça: «Ainda vou processar aquele indivíduo!»

Por que não o fez até hoje? Há de ser porque Temer teme. Num processo dessa natureza, certos podres não revelados antes perigam vir à tona. Melhor não abrir processo antes de combinar com os russos. Talvez seja justamente essa a razão da viagem a Moscou: combinar com os russos.

Os crimes da mala e o cadáver do Brasil

Ruy Castro (*)

Em 1928, em São Paulo, um imigrante italiano, Giuseppe Pistone, estrangulou sua mulher Maria Mercedes, que o denunciara como trambiqueiro. O que fazer com o cadáver? Pistone serrou-o pelas pernas, espremeu-o numa mala e despachou-o para um destinatário inexistente em Bordeaux, França. Ao ser içada a bordo do navio Massilia, em Santos, a mala abriu acidentalmente e revelou o seu conteúdo. Pistone foi preso e condenado a 31 anos. Cumpriu 13, saiu e até se casou de novo.

O caso passou à história como “o crime da mala”, embora não fosse o primeiro nem o último com esse nome. Há cinco anos, também em São Paulo, uma mulher matou a tiros o marido, executivo de uma grande empresa fabricante de pipoca. Experiente em enfermagem, ela o esquartejou e o distribuiu por três malas com rodinha, que enfiou no carro e levou até Cotia para se desfazer. Foi apanhada e presa. E este também não será o último caso do gênero.

Um novo tipo de crime da mala está em curso no Brasil. Consiste em esquartejar os escrúpulos e rechear malas, não com o que restou deles, mas com dinheiro ilícito. O caso mais flagrante é o do ex-deputado Rodrigo Loures, destacado pelo presidente Temer como seu “homem de confiança” para se entender com os amigos da JBS — e, dali a dias, filmado ao receber uma mala numa pizzaria e, assustado, tomar um táxi com ela no colo. A mala continha R$ 500 mil em espécie e soube-se depois que ele a escondeu na casa da mãe.

Na sequência, Fred Pacheco de Medeiros, operador e primo do senador Aécio Neves, também foi filmado acomodando em malas R$ 500 mil da mesma generosa JBS. E, antes deles, o notório ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto era tão useiro em rechear mochilas com dinheiro que seu apelido era “Mocha”.

Em todas essas malas e mochilas, vai, aos pedaços, o cadáver do Brasil.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Foguetes maranhenses

José Horta Manzano

Cada um usa os trunfos que tem. Se não usar, estará dormindo no ponto. E olhe que tem gente tirando soneca profunda. Desde que os russos ‒ então conhecidos como soviéticos ‒ tomaram a dianteira na corrida espacial ao lançar o Sputnik em 1957, uma luzinha vermelha acendeu no painel dos países mais avançados. Se eles podem, nós também, uai!

Na época, a competição só tinha mais um participante: os EUA. De lá pra cá, meia dúzia de países se aventuraram na empreitada. O clube, assim mesmo, continua seletíssimo. A França veio logo em seguida. Já no início dos anos 60, montou um centro de lançamento de foguetes no desértico sul da Argélia, então colônia francesa. A China, a Índia e até a misteriosa Coreia do Sul têm feito o que podem para acompanhar os pioneiros.

Um fator constante salta aos olhos. Todos escolheram sítio de lançamento próximo da linha do Equador. Próximo é maneira de dizer, que cada um fez o que pôde. A URSS, situada longe dos trópicos, instalou-se em Baikonur, no Cazaquistão, a uma latitude de 45°, um dos pontos mais ao sul de seu território. Os americanos deram preferência à Florida, estado mais meridional do país. Estabeleceram-se no Cabo Cañaveral(*), a 28,5° de latitude. A França, que se tinha instalado no sul da Argélia, a 31° de latitude, ficou de mãos abanando ao perder a colônia. Depois de estudar diferentes possibilidades, transferiu o centro espacial para Curu (Kourou), na Guiana Francesa, praticamente na linha do Equador.

E por que é que todos procuram se aproximar do Equador? É fácil entender. A Terra gira de oeste para leste. Para aproveitar o impulso dado pela própria rotação do globo, todo foguete é lançado em direção ao leste. A velocidade de rotação da Terra ‒ conhecida na física como velocidade tangencial ‒ é tanto mais elevada quanto mais próximo se está do Equador.

Base de Alcântara, Maranhão

Portanto um foguete lançado da região equatorial requer menos combustível para o arranque. Calcula-se que, em comparação com Cabo Cañaveral, utiliza-se 15% de combustível a menos para obter o mesmo desempenho. É considerável. Eis uma das razões pelas quais a Agência Espacial Europeia tem tanto sucesso com a base francesa da Guiana. Até foguetes russos são lançados de lá.

No tempo dos generais, o Brasil se deu conta de que contamos com esse trunfo: o Equador corta nosso território. Desde 1983, foi instalado um centro de lançamento em Alcântara, no Estado do Maranhão, a 2° de latitude. Uma tragédia ocorreu em 2003, quando uma explosão acidental matou mais de 20 técnicos e cientistas, e acabou freando o projeto.

Passaram-se 14 anos. Foram justamente anos em que as preocupações do andar de cima estavam focalizadas em outros assuntos. Lançamento de foguete não costuma gerar propina, que fazer? O projeto foi sendo empurrado com a barriga. E olhe que a localização do sítio é ideal. Fica praticamente no Equador, em região de clima estável, não sujeita a furacões nem a terremotos. Além disso, a linha costeira é orientada de norte a sul, com o mar a leste. Dado que os foguetes são lançados em direção ao oceano, o risco de caírem acidentalmente sobre zona habitada é praticamente nulo.

Cañaveral: campo de caniços
crédito: wikipedia

Com esse trunfo, é difícil entender por que razão a base ficou até hoje sem utilização comercial. Li esta semana que os EUA estão interessados em utilizar as instalações. Alvíssaras! A negociação terá de ser conduzida com perspicácia. Há que se evitar, a todo custo, a implantação de uma espécie de Guantánamo, que escape à soberania nacional. Obtidas as garantias, o resto é lucro. Que venham logo lançar satélites a partir do Maranhão. Só temos a ganhar.

(*) Cañaveral é palavra de origem castelhana. Designa um campo coberto de caña vera, planta nativa cujo nome científico é Phragmites australis. Na nossa língua, dizemos caniço. Cañaveral é um caniçal, se é que nos podemos exprimir assim.

Rincão de Artigas

José Horta Manzano

A história oficial nos ensina que o Brasil não tem nenhum litígio com vizinhos por questões de fronteira. Aprendemos que, desde que o barão do Rio Branco resolveu a última pendência mais de cem anos atrás, os limites do país estão consolidados e não sofrem contestação.

Na época do barão, era verdade. Assim que a questão do Acre foi definida pelo Tratado de Petrópolis em 1903, os limites do território nacional se tornaram definitivos. E reconhecidos internacionalmente, o que é mais importante. No entanto, como na vida nada é definitivo, uma dúvida seria levantada trinta anos mais tarde. Não tinha que ver com o Acre, mas com o Uruguai, que, até 1828, tinha formado parte do Império do Brasil com o nome de Província Cisplatina.

Rincão de Artigas, fronteira Brasil-Uruguai
crédito: Google Maps – clique para ampliar

A fronteira entre Brasil e Uruguai foi sacramentada por um tratado de limites elaborado e firmado em 1851. Em seguida, nos anos 1860, foi levada a efeito a demarcação física da linha de fronteira. E o assunto foi dado por encerrado. Oitenta anos mais tarde, estudos levados a cabo por especialistas uruguaios concluíram que um erro havia sido cometido quando da fixação dos mourões ‒ os marcos fronteiriços.

Apresentaram reclamação formal ao Brasil reivindicando uma área de 237km2. O território contestado é relativamente pequeno. Sua superfície é igual à do município de Gramado (RS). Mas o pleito caiu num momento histórico desfavorável a nossos hermanos. O ano era 1934. Getúlio Vargas ‒ justamente um gaúcho ‒ estava aboletado no Palácio do Catete, e o mundo assistia a um recrudescimento de sentimentos nacionalistas. A reclamação uruguaia foi sumariamente rejeitada.

Rincão de Artigas, fronteira Brasil-Uruguai
crédito: Google Maps – clique para ampliar

Inconformados, nossos vizinhos voltaram à carga em diferentes ocasiões. Todas elas vieram quando o Brasil vivia momentos conturbados. Três pedidos de revisão da demarcação chegaram durante os anos Vargas e, mais tarde, outro pedido chegou em plena ditadura dos generais. Falta de sorte. O Catete ‒ e, mais tarde, o Planalto ‒ ignoraram o reclamo.

A última solicitação uruguaia foi feita em 1988, num momento em que os brasileiros, atazanados pela inflação galopante, não tinham disposição para cuidar desse assunto. De novo, a resposta de Brasília foi negativa. Os mourões estão lá e lá vão ficar.

Rincão de Artigas tal como é retratado em mapas oficiais uruguaios
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No fundo, a região contestada não é estratégica para nenhum dos dois países. Pouco habitada, longe de tudo e com infraestrutura precária, desperta pouco interesse. Não tem petróleo, nem minérios, nem saída para o mar, nem atração turística. Até pra pegar sinal de celular, naqueles pagos, precisa levantar cedo e se armar de paciência. A briga é questão de orgulho nacional.

O Mercosul deu uma aliviada em alguma tensão que pudesse ter existido no passado, se é que existiu. O afrouxamento das fronteiras entre os membros foi benéfico para acalmar ânimos. Seja como for, o Rincão de Artigas, que pertence ao município de Santana do Livramento, é brasileiro de facto. E tudo indica que assim permanecerá.

Nota
Nossos hermanos perderam o momentum representado pela era lulopetista, o período mais entreguista que nosso país já conheceu. Assim como deu à Bolívia, de mão beijada, uma refinaria da Petrobrás, é quase certo que o Planalto teria dado o rincão aos uruguaios. Embrulhado pra presente e acompanhado de polpuda soma em ressarcimento de injustiça histórica. O destino não quis.