Europa equatorial

José Horta Manzano

Vosmecê, que vive num clima equatorial ou tropical, não há de se espantar, mas tem muito europeu estonteado, sem saber o que fazer para mitigar o calor infernal que assola o continente. Dantesco é um bom adjetivo, que lembra o inferno descrito pelo grande poeta toscano.

Já no mês de maio, o mês das noivas, que costuma (costumava?) trazer o canto dos passarinhos e as primeiras flores, recebemos uma frente quente diretamente do Saara, a nos lembrar que, em linha reta, não estamos assim tão longe das areias ferventes. Uma semana com temperaturas acima de 30° em pleno maio? Coisa nunca vista.

Entrou junho, voltou um friozinho benfazejo. Todos imaginaram que os calorões estavam conjurados até julho – no mínimo. Que nada! A alegria durou pouco. Já no dia 13, as fogueiras de Santo Antônio esquentaram os termômetros, e as temperaturas subiram de elevador. Vinte e oito, vinte e nove. O que eu sei é que, a partir do dia 16, o mercúrio diurno não desceu mais abaixo de 30°.

E a partir de 22, foi a loucura total: 35° ou mais todos os dias. Sábado, dia 27, tivemos 37,1°C aqui neste canto ameno da amena Suíça, minha gente. Eu mesmo, que já passei 52 verões neste país, juro que nunca tinha enfrentado um problema desses. A amena cidade de Basileia (Basel) bateu nos 39°. Como fazem os que vivem no deserto africano?

Certos lugares da França passaram dos 41°C. O mesmo vale para localidades da (fria) Alemanha. Até a (gélida) Dinamarca teve seus dias piauienses, com 36°C. Portugal, Espanha e Itália estão no mesmo balaio.

Nesta Suíça em que a instalação de ar condicionado em casa é rigorosamente regulamentada por lei, as lojas de eletrodomésticos estão de prateleiras vazias. Assim que vem nova chegada de aparelhos, desaparecem em horas. Os (habitualmente) comportados cidadãos estão passando por cima de leis e regras. O medo de derreter é maior que o medo de levar multa pesada. Vão instalando sem pedir licença a ninguém.

Para este começo de semana, a previsão do tempo nos promete uma volta gradual a padrões habituais de calor. Mas já bisbilhotei a previsão para 10 dias e descobri, com aflição, que o alívio é de curta duração. Depois de poucos dias, vai começar a subir de novo.

Vem nova frente tórrida por aí e alçaremos os picos dos 35° de novo. Quando eu decidi fincar pé nestas terras, ainda nos anos 1960, uma das principais atrações era, para mim, o clima fresco. Para quem vinha de um caloroso Brasil – como eram quentes os anos 60! – era um refrigério. Hoje, nas minhas elucubrações, digo que, se eu tivesse sabido que ia terminar assim, teria escolhido logo uma Finlândia.

A língua agradecerá

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 24 junho 2017.

Muitos traços distinguem a espécie humana dos demais seres animados. Talvez o mais marcante, o que condiciona o modo como encaramos a existência, seja a noção da morte. Animal vive o instante presente. Para ele, passado e futuro não funcionam como para nós. Se animais superiores retêm experiências do que passou, será para procurar repetir as prazerosas e para tentar evitar as dolorosas. O fato de o esquilo fazer provisões para o inverno não é resultado de raciocínio. O animalzinho obedece, sem se dar conta, ao comando do instinto.

Desde que o mundo é mundo, o homem sonhou com a imortalidade. Consciente de que o objetivo era inalcançável, agiu em duas frentes. Por um lado, fez o que pôde para prolongar a existência física. Por outro, aferrou-se a crenças religiosas. De fato, todas as religiões da terra – todas, sem exceção – fincam sua razão de ser numa vida pós-morte. A ideia de, exalado o último suspiro, desaparecer, virar pó e ser esquecido é simplesmente insuportável. Cada um de nós guarda, bem lá no fundo, a tola esperança de que a grande ceifadora, distraída, esqueça de nos convocar.

No entanto, ninguém fica pra semente. Pra deixar rastro de sua passagem, o homem das cavernas desenhava nas paredes. E não é que conseguiram o intento? Pinturas rupestres nos falam hoje de fatos e gestos de dez mil anos atrás. Um «João ama Maria» cercado por um coração e gravado a canivete num tronco de árvore manifesta a mesma preocupação. Enquanto estiver de pé, a árvore guardará a marca dos entalhadores.

Até dois séculos atrás, os meios de deixar lembrança eram poucos e estavam reservados para quem podia. Os mais abastados encomendavam escultura ou retrato pintado à mão. Se temos hoje ideia precisa de como era o rosto de um Napoleão ou de um Dom Pedro I, devemos o lembrete a pintores. Mas era solução apenas para um punhado de abonados. A invenção e a popularização da fotografia e do filme vieram paliar a ilusão de imortalidade de multidões. Vieram dar-lhes a ilusória sensação de que serão lembrados para sempre.

Circunstâncias às vezes fortuitas fizeram que alguns sortudos fossem mais longe que o populacho. Há personagens cujo nome se eternizou ao transformar-se em adjetivo comum. Platônico, pitagórico e cesáreo nos vêm da Antiguidade. O Renascimento, embora nos tenha deixado dantesco, manuelino e maquiavélico, negou a homenagem a Leonardo da Vinci, grande entre os maiores. A par da pobreza franciscana e da paciência beneditina, os tempos modernos foram mais pródigos em conceder notoriedade adjetiva. As artes e, em especial, a política deram contribuição importante. Temos cartesianos, bonapartistas, stalinistas, getulistas.

Conquista maior do que se ver transformado em adjetivo é chegar a substantivo. Não é pra qualquer um. A esmagadora maioria dos agraciados são cientistas que deram nome a uma unidade de medida. Pascal, Celsius, Kelvin, Newton, Hertz, Ampère, Watt, Ohm, Volta, Farad, Becquerel são alguns deles. Fora do mundo científico, poucos chegaram lá. Stalinismo, macartismo e coquetel-molotov perenizam tenebrosas celebridades. Mas chique mesmo – la crème de la crème – é virar verbo. O clube é pra lá de restrito. Além-fronteiras, merecem destaque linchar (de Lynch), pasteurizar (de Louis Pasteur), galvanizar (de Luigi Galvani), boicotar (de Charles C. Boycott) e sanforizar (de Sanford Cruett). Na trilha de seus vaivéns em matéria de abertura do país a migrantes, Angela Merkel está enriquecendo a língua alemã com novo verbo: merkeln, que significa hesitar, ficar em cima do muro. Malvadeza.

No Brasil, só dois exemplos me ocorrem. Etimólogos atribuem a origem do verbo badernar a uma bailarina de sobrenome Baderna, que levou a moçada ao desvario no Rio de Janeiro em 1850. No fim do século 20, as travessuras de antigo governador biônico paulista – hoje procurado pela Interpol – fizeram que o povo utilizasse seu sobrenome como sinônimo de roubar.

Estes últimos tempos, a brutal mudança de escala na rapinagem apequenou os feitos do antigo homem político de fala fanhosa. Badernou geral! Muito foi roubado e pouco tem sido devolvido. Esperemos que, depois de ter empobrecido o povo, alguns dos ladrões pelo menos enriqueçam a língua nos legando verbos novos para designar seus gestos. Não será ressarcimento total, mas já é melhor que nada.