A insegurança do ministro

José Horta Manzano

Nos tempos de antigamente, piadas eram mais ingênuas. Lembro-me de uma que contava que, num país imaginário, a polícia secreta era uniformizada. E que se trajavam de vermelho. E que, à entrada do prédio onde ficava a sede, um cartaz informava: «A senha está debaixo do capacho».

Acredito que historietas assim, hoje em dia, deixem o ouvinte indiferente. Certos fatos recentes e reais, no entanto, estão longe de deixar ouvintes indiferentes. São de arrepiar o cabelo. Noticiou-se dois dias atrás, por exemplo, que o STF abriu licitação pra contratar agentes para a segurança pessoal e permanente do ministro Edson Fachin. Pode parecer banal, mas não é.

Segurança pessoal de ministro do Supremo não é coisa com que se brinque, ainda mais que o doutor tem recebido ameaças. Agente encarregado de dar proteção a uma personalidade deve responder a critérios rigorosos e, sobretudo, tem de ser pessoa de confiança. «Abrir licitação» não me parece o caminho adequado. Afinal, não estamos comprando biscoito. Abre-se licitação quando se quer comprar um produto pelo menor preço, com boas condições de pagamento e prazo de entrega conveniente. Mas pra contratar pessoa de confiança, a licitação não faz sentido.

O agente de segurança ocupa posto altamente sensível. Ele está a par da rotina do ministro, dos programas de viagem, dos horários, do roteiro diário, das atividades, das minúcias do dia a dia. Conhece a vida do acompanhado melhor até do que a esposa do dito cujo. Como é possível confiar tarefa tão crucial a alguém proveniente de concorrência pública, contratado pelo melhor preço?

A escolha de agente de segurança tem de ser feita com a maior discrição possível. Já não devia nem ter sido anunciada nos jornais. Ninguém precisa ‒ nem deve ‒ ficar sabendo. A licitação pública escancara as portas para um elemento nocivo se infiltrar no entourage do ministro. Pode atrair gente mal-intencionada. Pode chamar espiões.

Francamente, não convém seguir por esse trilho. Desse jeito, vamos acabar uniformizando agentes secretos. De vermelho.

O Vêneto e a Lava a Jato

José Horta Manzano

No nordeste da Itália, fica uma bela região que engloba o Vêneto e o Friuli. A cidade mais emblemática é Veneza. Essa parte da Itália se distingue por guardar, muito arraigado, o apego ao dialeto. Praticamente toda a população tem o dialeto local como língua materna. O italiano é aprendido como segunda língua. Muitas crianças, ainda hoje, chegam à escola sem a prática oral da língua nacional.

Outra característica regional são os sobrenomes. A maioria deles se fixou na forma dialetal, sem se italianizar. A imensa maioria dos sobrenomes italianos termina em vogal, ao passo que os vênetos muitas vezes terminam em consoante, principalmente em l ou n.

A região tem hoje economia dinâmica, mas nem sempre foi assim. Na virada do século XIX para o XX, as difíceis condições de vida levaram grande quantidade de cidadãos a emigrarem. Bom número deles aportou nos quatro estados do sul do Brasil.

Veneza

O destino quis que as investigações da Lava a Jato se centralizassem em Curitiba. É interessante notar que muitos dos envolvidos na operação ostentam sobrenome de origem vêneta. Quer ver?

Pra começar, os três nomes mais representativos da força-tarefa: Sérgio MORO, Deltan DALL’AGNOL e Roberson POZZOBON. Além deles, feliz coincidência, temos o próprio ministro relator da operação no STF, doutor Edson FACHIN.

Do outro lado da mesa, também há descendentes de vênetos. Figurão midiático, o principal advogado de Lula da Silva, doutor Cristiano ZANIN, também é membro da colônia.

Pra encerrar, temos um réu famoso que deu que falar: Henrique PIZZOLATO. Foi aquele que, de repente, se lembrou da terra de origem e procurou lá se homiziar. Não adiantou. A Itália, que não costuma acolher bandido, despachou-o de volta.

Pronto, dois pra lá, dois pra cá, que é pra ninguém ficar aguado.

Pedir pra fazer pipi

José Horta Manzano

«Falar certo» e «falar errado» são noções meio vagas, sujeitas a discussão. Nós, brasileiros, estamos em conflito permanente entre dois falares. O primeiro deles é nossa língua materna que, pra dizer a verdade, não tem nome. Pode-se classificar como ‘falar popular’ ‒ eu prefiro ‘falar caseiro’, mais simpático. É língua que todos falamos perfeitamente, sem hesitar nem errar. A par desse, temos um segundo falar. É o português, também dito ‘norma culta’. Em princípio, não aprendemos essa variante em casa. Ela só nos é ensinada na escola, e é aí que reside o perigo: escola ruim = mau aprendizado da variante oficial.

Não somos o único povo a conviver com dicotomia linguística. Há casos em que a enorme divergência entre o falado e o escrito gera problemas mais acentuados. Nas regiões onde isso acontece, é imprescindível aprender bem a norma culta. Quem não a dominar, periga enfrentar transtornos no dia a dia.

Bem ou mal, o brasileiro consegue se comunicar por escrito. Falta de erudição não significa necessariamente iletrismo ou analfabetismo. O cidadão de poucas letras pode até chegar a transmitir seu pensamento, no entanto, por lacunas sintáticas e inadequação vocabular, nem sempre logra se exprimir com clareza.

Que o não-profissional escreva mal, ainda vá lá. Quando se trata de alguém que se dirige ao grande público, a coisa muda de figura. Daqueles que escrevem notícia de jornal, não se espera a erudição e o linguajar reluzente de um padre Vieira, mas é importante que seja pelo menos claro. Não convém transmitir ambiguidades.

Topei hoje com esta chamada do Estadão:

Chamada Estadão, 29 jun 2017
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Nestes tempos estranhos em que as notícias se atropelam, a gente tem dificuldade em acompanhar, no detalhe, o psicodrama que se desenrola no andar de cima. Numa primeira leitura, entendi que a defesa de doutor Temer estivesse pedindo a doutor Fachin que lhes permitisse ouvir os tais peritos. Imaginei que, egoísta, o ministro do STF houvesse barrado, aos advogados, acesso à conclusão dos especialistas. Do jeito que está escrito, é a única interpretação possível.

Só ao ler o artigo, entendi que o título tinha sido construído em fala caseira. Pode cair bem num bate-papo ao redor da mesa da cozinha; num jornal de prestígio, fica estranho. O encarregado de dar título à matéria mostrou não ter aprendido a manha do verbo pedir.

«Pedir para» subentende «pedir (permissão) para». Usa-se «pedir para» quando se deseja obter autorização para alguma coisa. Pedir para participar quer dizer solicitar autorização para fazer parte. Pedir para ouvir peritos significa solicitar permissão para ouvir esses especialistas. Não é o que o autor do artigo queria dizer.

Na verdade, os defensores de doutor Temer gostariam que o ministro do STF desse ouvido aos tais peritos. A boa escola de Português ensina que o jornal deveria ter escrito «Defesa de Temer pede a Fachin que ouça peritos».ou, ainda mais claro: «Defesa de Temer pede que Fachin ouça peritos».

Em resumo: o uso jornalístico da língua descontraída é admissível até o ponto em que compromete a compreensão. Clareza é essencial.

Observação
O título deste meu artigo faz alusão ao aluninho que, depois de engolir uma garrafa inteira de tubaína, pede (permissão) pra ir ao banheiro.

Jeitinho danoso

Tribunal 2José Horta Manzano

Escrevo antes do exame de admissão ao STF pelo qual deverá passar, logo mais, o candidato indicado por dona Dilma. Desconheço, portanto, o resultado. Mas tenho considerações a respeito.

O que se passa estes dias é o retrato do Brasil, um exemplo acabado do «jeitinho» brasileiro, prova maior da indisciplina, da desorganização, da leniência de nossa sociedade. Muitos se orgulham dessa faceta nacional – não é meu caso.

Tribunal 4Segundo a Constituição, os poderes da República são harmônicos e complementares. Nenhuma hierarquia há entre eles. Portanto, fazer parte do colegiado que encabeça o STF é estar no topo da hierarquia, tanto quanto o presidente da República.

Presidente, muda-se a cada quatro anos, quando nos é permitido despachar o antigo pra casa e eleger outro. Escolha de ministro de STF deve ser feita com cuidado redobrado, dado que o cargo é vitalício. Com a escolha de mau titular, quem se dana é o País. Ninguém poderá tirar o homem de lá.

Tribunal 5Pela natureza do cargo, é conveniente que juízes exibam perfil neutro. Essa recomendação de imparcialidade vale sobretudo para juízes-mores. Melhor será que não tenham (nem tenham tido) proximidade com movimentos radicais, com partidos políticos, nem com teorias extremistas, revolucionárias ou sectárias. Serem conhecidos por suas opiniões sensatas, é o mínimo que se pode exigir.

O atual candidato à vaga do Supremo não se encaixa nesse perfil. Pelo que o Brasil inteiro ficou sabendo estes dias, o postulante comunga com ideias próximas às de movimentos radicais. Pior que isso, está demonstrado que passou por cima da lei ao aceitar posto na Procuradoria Pública ao mesmo tempo que continuava exercendo como advogado privado.

Tribunal 3Dona Dilma, amparada por seus assessores, não pode alegar ignorância desses fatos. Não devia, portanto, ter nomeado esse indivíduo para posto tão importante. Ao indicá-lo, a presidente fez exatamente como ele: pisoteou a Constituição, o decoro e o bom senso. Tentou “dar um jeitinho”, contornar leis e regras. É revoltante assistir ao menosprezo do interesse da nação em prol das conveniênciais pessoais da presidente e da nomenklatura que lhe assiste.

Que o senhor Fachin seja ou não aprovado pelos parlamentares é de somenos. O pior passo já foi dado pela presidente ao indicá-lo para o topo do STF. Se não quiserem descer mais um degrau na pouca consideração que a nação ainda lhes devota, os congressistas têm de repudiar o postulante. É o mínimo que podem fazer para remendar o tremendo erro presidencial.

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Facchino 3Curiosidade etimológica
Fachin (pronuncie Faquín) é forma dialetal vêneta do italiano facchino. Provém do árabe faqih, que designava, na origem, um doutor, um sacerdote, um teólogo ou um juiz – pessoa importante.

Facchino 2Ao entrar na língua italiana, o termo foi perdendo majestade. Com o decorrer do tempo, passou a significar superintendente, controlador de alfândega. Decaiu, em seguida, para designar um escrivão. Continuou perdendo importância. Alguns séculos atrás, adquiriu o sentido de vendedor ambulante, mascate.

Facchino 1Hoje chegou ao fundo do poço. Facchino é como são chamados os carregadores de malas, os descarregadores de caminhão, os que transportam objetos pesados. Aliás, a palavra faquino existe, com o mesmo sentido, em nossa língua. Mas seu uso é pra lá de bissexto.

Esperemos que a (provável) sagração de nosso Fachin nacional não signifique a decadência da função de ministro do STF.