As viúvas de Bolsonaro

José Horta Manzano

 


Visão de mundo das carpideiras do mito defunto


 

Entre os dois turnos da eleição, Bolsonaro já havia deixado clara sua visão do povo brasileiro. Foi quando insinuou que o Nordeste era povoado por analfabetos e ignorantes, razão pela qual votam no Lula.

Traduzindo o pensamento transcendente de Seu Mestre, deduz-se que os brasileiros não são todos iguais. Por um lado, há os que votaram no “mito”, cidadãos letrados e inteligentes cujo voto deveria valer mais que o dos outros. Por outro, há os que preferiram Lula, cidadãos de segunda classe cujo voto teria de ser impedido a qualquer custo.

A declaração do presidente deu sinal verde para as blitzes efetuadas no Nordeste pela PRF no dia do segundo turno. O objetivo era impedir que cidadãos de segunda classe se aproximassem da urna eletrônica. Pode até ser que milhares de eleitores tenham sido mandados de volta pra casa naquele dia, talvez se descubra um dia.

Outra consequência da senha lançada por Seu Mestre afetou o bom funcionamento do país inteiro. Foram os bloqueios que devotos do capitão montaram nas estradas, enquanto outros discípulos decidiram organizar manifestações de protesto defronte a quartéis do Exército. Todos fantasiados de verde-amarelo como manda o figurino.

De memória de eleitor, ninguém nunca viu, desde a redemocratização, hordas de carpideiras chorarem a má sorte do candidato perdedor e organizarem manifestações de indignação em que o Exército é chamado pra dar um jeito. De tão fora de esquadro, a coisa roça o grotesco.

Atribua-se ao capitão a culpa dessa baderna que perturba a vida da sociedade inteira. Foi ele quem fez seus seguidores acreditarem que estavam um degrau acima dos eleitores do candidato adversário. É essa a lógica que embasa a indignação dos protestatários, que devem pensar: “Como assim? O voto dos cidadãos de segunda classe não pode sobrepujar o nosso!”. Daí o sentimento de ódio e revolta.

Se faz urgente um trabalho de retropedalada. É preciso mostrar a esses indignados que, diferentemente do que parecem acreditar, a escravidão não foi reinstaurada no país. Não há dois níveis de cidadania. Todos os conterrâneos têm direitos e deveres iguais. O voto do bonitão vale tanto quanto o do esfarrapado.

Vai ser muito difícil mudar essa visão distorcida. Essa gente vai continuar esperando um próximo messias que venha salvá-los.

Foi um rio que passou em nossa vida

José Horta Manzano

Discursos de Bolsonaro nunca foram sublimes. Do mato (queimado) não sai coelho mesmo. O pronunciamento de 1° de novembro talvez tenha sido o melhor de toda a carreira dele. Pronunciado no Dia de Todos os Santos, o discurso fez jus às bênçãos de toda a santidade celeste.

Depois da fala, muita gente passou 24 horas avaliando se, afinal, ele tinha ou não concedido a derrota. “Veja bem” – argumentaram uns – “me parece que esta passagem aqui é reconhecimento implícito disto ou daquilo”. “Pois eu já acho que aquela frase ali parece indicar que ele aceitou a derrota” – retrucaram outros.

Argumentar é bom, alimenta o espírito. Mas, no caso do capitão, me parece perda de tempo. Não vamos esquecer o principal: o resultado da eleição não depende da aceitação por parte do candidato derrotado. Que o lanterninha reconheça ou deixe de reconhecer que perdeu é irrelevante.

As normas de civilidade e cortesia recomendam que o perdedor reconheça publicamente a derrota e deseje boa sorte ao vencedor. Mas isso é apenas norma de civilidade, conceito que Bolsonaro desconhece. Ninguém pode dar o que não tem.

Eu disse que esse talvez tenha sido o melhor discurso da carreira do capitão. E explico por quê.

  • Ele não soltou palavrão. Nem unzinho. Vê-se que o pronunciamento veio abençoado por anjos e arcanjos.
  • O discurso foi breve – um afago na sensibilidade do distinto público.
  • Curiosamente, ele não apontou nenhum culpado pela derrota. É estranho para quem sempre se isentou de toda responsabilidade lançando sistematicamente a culpa em terceiros.
  • Contrariando seus hábitos, ele não atacou nenhuma instituição da República. Nem mesmo o STF, seu alvo preferido. Não lançou flechada sequer em direção ao ministro Alexandre de Morais, seu bicho-papão.
  • A defesa de seu legado coube em dez palavras. Não houve menção às vacinas, às armas, à Amazônia e suas árvores que não queimam, aos chineses malvados, à esposa de Monsieur Macron, à Venezuela, à mídia golpista, à Globolixo, ao “meu” Exército. Tampouco falou da cloroquina.

A grande vitória do Brasil decente (e a grande derrota de um presidente indecente) ficou patente no fato de ele não ter atacado as urnas eletrônicas. Não fez sequer menção à sala secreta, às teclas coladas, aos ataques de piratas informáticos, aos mesários que votam em lugar de eleitores ausentes.

Custou, mas veio o primeiro discurso pacificado de Bolsonaro. Tirando rápida menção aos “métodos da esquerda”, afirmação um tanto deslocada, ninguém foi ofendido, nem atacado, nem humilhado, nem provocado, nem escarnecido. Tivessem todos os seus discursos sido nesse mesmo tom, mui provavelmente ele teria sido reeleito.

Dentro de pouco tempo, os bloqueios rodoviários promovidos por desocupados enrolados em bandeiras vão se encerrar. A transição, conduzida por um Lula conciliador e um Alckmin experiente, vai se desenvolver em ambiente cordial.

A partir de agora, o grande objetivo do capitão é conseguir algum tipo de salvo-conduto para si e para a família, uma espécie de habeas corpus preventivo, que lhes permita escapar à cadeia. Dos processos, não fugirão; mas vão tentar escapar do camburão e da Papuda.

Se vão conseguir, ninguém sabe. Pode até ser que a Justiça deixe o capitão sair ileso, que é pra evitar transformá-lo num herói injustiçado – mas cacifado para voltar com mais força no futuro.

Quem viver, verá.

Finados

José Horta Manzano

Estamos numa era de profundas mudanças climáticas. Ainda que, por ignorância ou má-fé, um punhado de negacionistas do clima deem as costas, a realidade é essa, gostemos ou não.

Mas o planeta Terra, que sobrevive há 4,5 bilhões de anos, teve tempo de aprender a se adaptar a mudanças. Já enfrentou alteração na velocidade de rotação, já assistiu à inversão dos polos magnéticos, já aguentou choque de meteoros gigantescos – e continua a girar firme e forte. Não é o aumento ou a diminuição de temperatura na superfície que vai fazer o planeta parar de rodar.

Flexível, a Terra se adapta a condições novas. Tanto quanto possível, ela mantém constante a média global de temperatura e de precipitações. Se certas regiões esquentam, outras esfriam. Se a seca castiga vastos territórios, outros são inundados por chuvas diluvianas.

Na Europa ocidental, 2022 está sendo o ano mais quente e mais seco que jamais se viu desde que começaram os registros meteorológicos, 170 anos atrás. Tivemos uma onda de calor extremo em junho, outra em julho e mais uma em agosto. Após um setembro próximo da norma, outubro foi anômalo, com temperaturas muito acima do normal. O verão foi tão seco que obrigou as autoridades a imporem restrições no uso da água; com os pastos secos, o gado teve de ser alimentado com ração.

Em casa, nos tempos de antigamente, tínhamos uma expressão familiar para dizer que o tempo estava ensolarado e muito quente: “faz um sol de cemitério”. Era uma referência ao Dia de Finados, data em que se costuma visitar o túmulo de familiares que já se foram. Em novembro faz calor. Cemitérios têm lápides de mármore ou granito que funcionam como acumuladores térmicos. Sol + chão de cimento + alamedas margeadas de granito = calor insuportável.

Pois parece que isso está acabando. Este ano, pelo menos, furou. Faz meses que os estados meridionais do Brasil estão atravessando um período anormalmente frio. Não me lembro de ter conhecido um 2 de novembro com temperaturas como as que estão na ilustração que tirei hoje do Climatempo. Máxima de 15°C? Em novembro? Numa terra tropical? É de impressionar. Genebra está hoje um pouco mais quente que São Paulo. Pode?

Os humanos deveriam tomar de exemplo a sabedoria da natureza. O equilíbrio deveria ser o objetivo de todos. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, como se diz.

No Brasil, vamos esperar que o conturbado período político que se encerra tenha sido ponto fora da curva. E que a moderação renasça em nosso país.

Nenhum governo, nenhum regime, nenhum período será jamais perfeito. Não há meio de contentar a todos. Mas que, pelo menos, o país volte à trilha da normalidade, do equilíbrio e do bom senso.

Imitar o lado bom da natureza não faz mal a ninguém.

Simpatia

José Horta Manzano

Este blogueiro cresceu num tempo em que quase não havia vacinas. Doenças infantis infecciosas, toda criança acabava pegando. Tive as quatro mais corriqueiras: catapora, coqueluche, caxumba e sarampo. Quando uma das crianças caía doente com sarampo e ficava de molho na cama, minha mãe pendurava no quarto uma cortina vermelha. Dizia que era simpatia, que ajudava a resolver o problema e ficar bom logo.

Outro dia, no supermercado, vi uma banca de cuecas em oferta, daquelas promoções em que o freguês tem de levar um pacotinho de meia dúzia. No pacote, as cores já vêm misturadas e não há meio de escolher: ou leva tudo ou desiste da compra.

Levei um pacote. No meio das cuecas, havia uma vermelha, de um vermelhão Chapeuzinho Vermelho. Mesmo sendo peça que se usa debaixo da roupa e que ninguém vê, deixei no fundo da gaveta. A cor me pareceu espantada demais.

Anteontem, domingo de eleição, foi dia importante. Era a derradeira oportunidade de se livrar do capitão, desalojá-lo do palácio e devolvê-lo ao submundo de onde veio. As pesquisas anunciavam um escrutínio apertadíssimo.

Para varrer Bolsonaro, só havia um meio: votar no Lula. Não era uma perspectiva empolgante. Mas raciocinei como muita gente. Pensei: “Coragem! Dos males, o menor. É só apertar um trezezinho aí, que o dedinho não vai cair”.

Antes de pegar a estrada para Genebra, na hora de me vestir, lembrei da cueca vermelha. Lembrei também da simpatia da minha mãe. Pensei: “Por que não tentar repetir a simpatia? Se funciona pra curar doença, quem sabe não funciona também pra curar um país doente?”. Vesti a peça vermelha.

No local de votação, vi grupos espalhafatosos com gente de amarelo e alguns até enrolados em bandeira. Vi também grupos mais discretos, em que todos (ou quase) tinham pelo menos um detalhe vermelho na indumentária. Não sei se ostentavam o detalhe por paixão lulista; no meu caso, não havia nem um grãozinho de paixão. Era por “simpatia” – pode também chamar de magia branca.

Pelo fuso horário daqui, já era comecinho da madrugada quando saiu a notícia oficial: o capitão estava derrotado. Na hora de estourar o champanhe(*), lembrei da cueca e me dei conta de que a simpatia tinha funcionado.

Tive então a certeza de que, não fosse ela, ainda teríamos de aguentar palavrões e ameaças por quatro anos. Talvez, num futuro próximo, o capitão ainda tivesse a macabra ideia de proibir as vacinas infantis, condenando os pequerruchos ao sarampo e à catapora.

Se foi mal com ele, melhor será sem ele.

(*) É força de expressão.

#naovaitergolpe – 2

José Horta Manzano

Se alguém espera que parlamentares bolsonaristas recém-eleitos se abalem pra “salvar” o capitão ou pra apoiar um golpe de Estado, pode tirar o cavalinho da chuva. Isso não periga acontecer. Por quê?

A razão é simples. Eles todos, que eram desconhecidos até anteontem, subiram agarrados no elevador bolsonarista. Surfaram a onda e assim foram eleitos. Agora, que estão lá, não querem nem ouvir falar de golpe. Nem por brincadeira.

A primeira consequência de todo golpe que se preza é o fechamento do Congresso. Parlamentares são todos postos de molho por tempo indefinido. Em seguida, vêm as cassações de mandato. “Quem garante que o meu não será cassado?” – é o que se pergunta o deputado ajuizado.

Melhor deixar como está. Deputados estão com cargo, salário, jetons, apartamento funcional, mordomias e principalmente imunidade parlamentar garantidos por quatro anos. No caso dos senadores, são oito anos. Quem vai fomentar golpe e arriscar perder tudo isso? Ninguém é besta.

Parlamentares bolsonaristas estão agindo rápido para reconhecer a derrota de Seu Mestre. Entre os primeiros, estão: Sergio Moro, Carla Zambelli, Zé Trovão, Ricardo Salles, Tereza Cristina, Arthur Lira, Nikolas Ferreira, Damares Alves. Esta última, apesar de residir no DF, pediu que um apartamento funcional seja posto a sua disposição.

Quem é que trocaria essa moleza por um temerário golpe só pra “salvar” um desequilibrado?

Interpol

José Horta Manzano

No momento em que escrevo, faz 13 horas que Bolsonaro foi oficialmente declarado derrotado nas urnas. Desde então, ele não se manifestou publicamente.

Cada hora de silêncio do capitão é uma bênção para a nação. Por um lado, poupa nossos ouvidos cansados de ouvir palavrões, xingamentos e ameaças. Por outro, afasta o receio de que o cafajeste tentasse virar o jogo soltando brucutus contra cidadãos inocentes.

A atitude do presidente derrotado é a de um homem amargurado, roído pelo rancor, temeroso de seu futuro sombrio. Ele mostra haver entendido que sua estrada chegou ao fim e que não há mais nada a fazer. Sua página está virada.

Os cobrinhos que possa ter amealhado e encafuado nalgum paraíso fiscal são de pouca valia. O melhor agora é catar seus trapos e se mudar para uma gruta. Mas atenção: que seja em território nacional! Se ele puser um pé fora do país, em breve vai ter de se explicar com a Interpol.

O último debate

José Horta Manzano

Os mais velhos talvez se lembrem da campanha para as presidenciais de 1989. O voto do primeiro turno eliminou 19 candidatos e deixou dois finalistas para o segundo turno: Lula e Collor. Poucos dias antes da votação final, as pesquisas mostravam os dois em empate técnico.

Foi nessa reta final que Collor deu o que uns consideram “golpe de mestre” enquanto outros julgam ter sido “golpe baixo”. O alagoano contou ao Brasil inteiro a história de uma filha que Lula tinha tido com uma namorada, fora do casamento. O petista teria incitado a gestante a abortar. Não sendo atendido, não reconheceu a menina.

Um calafrio percorreu a nação. Lula, fortemente abalado pela revelação, preferiu não reagir nem tocar no assunto por ocasião do último grande debate, levado ao ar a dois dias do segundo turno. Foi seu grande erro. O efeito da revelação foi fulminante. Praticamente todos os indecisos deram seu voto a Collor, que ganhou com 53% contra 47% de Lula.

É verdade que revelações de condutas desviantes – crimes, delitos ou até simples infidelidades conjugais – podem impactar o eleitorado e levar um candidato à derrota. Nestas presidenciais de 2022, muita gente receia que, durante o debate da Globo, seu candidato seja surpreendido por uma revelação desairosa, fique sem resposta e entregue os pontos (no sentido real da expressão).

Não acredito que isso possa acontecer. Não que os candidatos sejam anjinhos: se pudessem, nenhum deles hesitaria em pôr à mesa a louça suja do adversário para tentar afundar-lhe a candidatura. A razão de minha descrença é outra.

A atual campanha tem sido cruenta, suja, de baixo nível, rasteira, agressiva, mais acusatória que propositiva, violenta, intimidante. O distinto público já viu e ouviu de tudo. Os mais recentes projéteis que cruzam o ar zunindo se chamam “pintou um clima”, “pacto com o diabo”, “genocida”, “corrupto”, “fascista”, “comunista”. Entre as falsas e as verdadeiras, as acusações têm sido tão numerosas, tão frequentes e tão contundentes, que nada mais pode aparecer que impressione um público blasé.

Ainda que o candidato A trouxesse um filminho em que o candidato B trucidasse a própria mãe em praça pública na frente de cinquenta testemunhas, nem assim o efeito seria devastador. Os adeptos do candidato assassino dariam de ombros alegando tratar-se de vídeo forjado ou editado. E nenhum voto escorregaria.

Portanto, não perca tempo seguindo o debate de amanhã. Em vez disso, escolha um bom filme. Ou vá dormir cedo, que é excelente opção.

Da CPI às granadas

José Horta Manzano

Um ano atrás, quando a pandemia ainda grassava e a CPI dirigia os holofotes em direção aos horrores que o governo tinha perpetrado, o Brasil decente teve a nítida impressão de que a sorte de Bolsonaro estava selada: sua reeleição tinha definitivamente perdido o embalo.

Isso era não levar em conta a volatilidade da memória nacional – trocado em miúdos: a memória curta do brasileiro. A covid, que matou quase 700 mil cidadãos deste país (e continua matando, frise-se), aparece, sim, como tema de campanha, mas em posição secundária. Da CPI e dos podres revelados, pouco ou nada se ouve; parece que foi apagada da memória.

Que dizer então de temas mais antigos, como o Ministro do Desmate, demitido por ter sido flagrado envolvido com a máfia de exportadores de madeira ilegal? Saiu do radar. Aliás, o ministro em questão foi eleito para o Congresso com votação expressiva.

Diante desse esquecimento coletivo, um não iniciado poderia até imaginar que o Brasil teria uma campanha eleitoral vazia de argumentos, girando em torno de generalidades. É possível que isso acontecesse, caso os candidatos fossem gente, digamos, “normal”.

Mas temos a sorte (sorte?) de contar com um Bolsonaro na corrida eleitoral. Num sentido circense, ele é a salvação da lavoura. Com ele no páreo, não se passam dois dias sem escândalo novo. São tão abundantes, que o adversário pode se dar ao luxo de escolher quais deles quer martelar.

Estamos a cinco dias da eleição. Num país de memória mais longeva, os escândalos recentes deveriam permanecer zunindo na cabeça de todos até domingo. As granadas de Jefferson, o “pintou um clima”, os “nordestinos analfabetos” seriam dose suficiente pra preencher os dias que faltam.

Para o caso de a memória do brasileiro ser ainda mais curta do que se imagina, temos a solução: o próprio Bolsonaro, que é o pior inimigo de si mesmo, há de municiar a campanha do adversário com novos escândalos.

Quando se tem no comando um indivíduo ignorante e mal-intencionado, cinco dias são uma eternidade.

Pinóquios

José Horta Manzano

Todo mentiroso contumaz, de tanto mentir, já não percebe que cai em contradição a cada esquina. É muito difícil sustentar uma mentira. Dá um trabalho danado. Tem de se policiar a cada frase, a cada instante, a cada dia, que é pra não se desmentir. O mentiroso inveterado não se dá ao trabalho de se autovigiar, então… catapum! Cai do cavalo a toda hora.

Não sei qual dos dois finalistas da corrida presidencial deste ano merece o título de Pinóquio-mor. O páreo está dureza. A dez dias do turno final, Bolsonaro soltou mais um desses pronunciamentos enrolados, com frases que se contradizem.

Ao lado do neo-bolsonarista governador de São Paulo, discursou e conclamou prefeitos paulistas a “virar votos”. Logo em seguida, afirmou que está ganhando “em todos os estados do Brasil, sem exceção”. Disse ainda que “daqui pra lá não vai voto, mas de lá pra cá vem”. Esta última frase deve significar que é possível que eleitores de Lula no primeiro turno votem em Bolsonaro no segundo, mas o vice-versa é impossível. (Há controvérsia.)

Ora, nessa embolada de afirmações, há colisão frontal.

1) Se ele estivesse realmente ganhando em todos os estados e se fosse impossível virar votos “daqui pra lá”, não haveria razão pra pedir empenho aos prefeitos: a vitória já estaria desde já assegurada.

ou

2) Se o capitão vê necessidade de pedir empenho de prefeitos para “virar votos”, é sinal de que a vitória “em todos os estados do Brasil, sem exceção” não está tão garantida assim.

Conclusão
Este blogueiro crava na opção 2. E o distinto leitor?

Os estreantes

Chamada da Folha de São Paulo

José Horta Manzano

Em desastrada declaração feita nos anos 1970, Pelé – nossa glória nacional – afirmou que “brasileiro não sabe votar”. De lá pra cá, a fala do camisa 10 é volta e meia citada.

As eleições de 2020 deixaram a impressão de que Pelé estava totalmente enganado. Dois anos atrás, candidatos ligados ao bolsonarismo sofreram forte derrota. Parecia até que os brasileiros tinham aprendido a votar e que o pesadelo estava chegando ao fim.

Passaram-se dois anos e chegaram as eleições de 2022. Para a Presidência, no primeiro turno, apenas 33% do eleitorado votou no capitão, o que mostrou estabilidade ou até queda em sua aprovação.

No turno inicial, ele teve muito menos votos que em 2018, quando tinha alcançado a marca de 46% do eleitorado. Isso mostra que, apesar de barulhentos e arruaceiros, os bolsonaristas não representam hoje mais que 1 em cada 3 eleitores. Até aqui, tudo dominado.

O problema surge quando se lê uma notícia como essa que a Folha publicou:


40% dos estreantes na Câmara foram alvo de ação ou investigação


De cada dez estreantes, quatro não chegam envoltos em perfume de santidade. As suspeitas que pesam sobre eles variam entre calúnia, mau uso de recursos públicos, estelionato e homicídio.

E olhe que são estreantes, iniciantes, calouros! Dá pra imaginar como estarão daqui a alguns meses, quando estiverem formados, treinados, com diploma de parlamentares experientes?

João Baptista Figueiredo, último presidente do período militar, era mestre em declarações bruscas, pesadas, ofensivas, um nobre precursor do estilo bolsonárico. Como o atual presidente, não escondia o imenso desprezo que sentia pelo povo. Entre outras barbaridades, disse um dia, referindo-se aos brasileiros: “povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar”.

Se, por milagre da física quântica, Figueiredo se levantasse da tumba e lesse a chamada estampada no alto deste artigo, era capaz de dizer: “Eu não falei?”.

Debate

José Horta Manzano

Não assisti ao último debate entre os dois presidenciáveis. Para me inteirar do que foi dito, não me fiei a hashtags, memes ou rumores da internet – fui direto à imprensa séria, que dá mais certo.

Depois de dar uma vista d’olhos a uma dezena de artigos e análises, fiquei sabendo de tudo. Está aqui abaixo o que retive.

• Bolsonaro provocou Lula. E este errou ao cair na arapuca

• Bolsonaro chamou Lula de “vergonha nacional”

• Lula chamou Bolsonaro de “pequeno ditadorzinho”
(Dessas duas últimas, quem me informou foi a mídia estrangeira)

• Bolsonaro tocou no ombro de Lula, o que causou frisson nacional

• Moro deu conselhos a Bolsonaro durante o debate.

• Dados distorcidos de segurança, covid e corrupção foram citados por ambos

• Houve ironias, uma encarada e até troca de sorrisos entre os protagonistas

• A audiência foi pr’as alturas

• A esposa de Lula bocejou ostensivamente enquanto Bolsonaro discursava

• Lula vestiu a gravata preferida por presidentes de 2014 pra cá

• Bolsonaro vestiu gravata verde (amarela teria dado demais na vista)

• Lula estourou o tempo, e permitiu um monólogo bolsonárico

• Bolsonaro enrolou sobre mexida na composição do STF. Não confirmou nem informou, muito pelo contrário

• Os candidatos se trataram mutuamente de “mentiroso”
(E acertaram)

• O ambiente esteve menos agressivo; gestos e palavras foram menos incivis do que estamos acostumados

Bom, chegando a este ponto, é hora de fazer umas perguntas. E daí? Pra que serviu o debate? Resumiu-se a tentativas de desqualificar o adversário? Que projetos foram discutidos? Quais foram os novos planos revelados ao distinto público?

Pelo que entendi, nenhum projeto foi tratado com a profundidade que se deve. Ideias soltas, do tipo “farei isso” ou “farei aquilo” surgiram, mas os candidatos giraram em torno da compota sem botar a mão dentro.

Ambos se referem basicamente ao passado, sem revelar sua visão de futuro (talvez por não a terem), sem a menor ideia do lugar que o Brasil deve ocupar num mundo transtornado pela nova distribuição de forças, com guerra na Europa, exportação de combustiveis bloqueada, mudanças climáticas, ameaça de conflito nuclear, veganismo em marcha acelerada, Amazônia em chamas, alta da inflação mundial, bolsas mundiais em queda desde o começo do ano.

Não se discutiu nenhum projeto para tirar o país do atraso. Educação, saúde, transportes, saneamento básico, formação profissional foram temas ausentes.

O horizonte está sombrio. Se os candidatos tivessem ideia de como agir para melhorar a vida da população, por certo teriam exposto seus planos. Se não o fizeram, é porque não sabem o que fazer.

Como de costume, vamos votar de olhos vendados. Dos dois, Bolsonaro tem sido o mais transparente. Sabemos que, com ele, o projeto será um só: sua permanência vitalícia no poder, custe o que custar, doa a quem doer(*).

Quem se contentar em ter na Presidência um cafajeste candidato a ditador, que vote no capitão. Ele não costuma decepcionar.

(*) Fico devendo para amanhã uma reflexão sobre a expressão “doa a quem doer”.

Voto à moda antiga

Urna modelo anos 1950

 

José Horta Manzano

Quando a Constituição de 1988 determinou que a votação para cargos do Executivo (presidente, governador e prefeito) se realizasse em dois turnos, estipulou um prazo de 4 semanas entre a primeira e a segunda rodada.

À época, serviram de referencial as eleições de 1960, as últimas realizadas em sistema democrático e livre. De fato, a partir da instauração do regime militar, em 1964, caiu a noite sobre a democracia e não se votou mais para presidente da República.

Em 1960, computador ainda era chamado “cérebro eletrônico” e estava mais pra ficção científica que pra realidade palpável. Assim sendo, votava-se em cédula de papel. O eleitor chegava à seção eleitoral, se apresentava, dava uns passos, puxava a cortininha, entrava na cabine e punha dentro de um envelope a(s) cédula(s) com o nome de seu(s) candidato(s). Baixava a aba do envelope sem colar , voltava e depositava o voto na urna, que era em geral um saco de lona com uma boca rígida de madeira ou metal, com uma fenda.

Terminada a votação, as urnas permaneciam sob vigilância policial durante a noite. No dia seguinte, caminhões e caminhonetes percorriam a cidade para recolher todas as urnas e transportá-las ao local de apuração, que, nos centros maiores, era um amplo galpão ou ginásio de esportes. Todos os sacos de lona eram amontoados ali.

A apuração começava ao meio-dia da segunda-feira. No local, estavam já dispostas mesas compridas de madeira, com jeito de mesas de piquenique familiar. Havia bancos para acomodar os apuradores. Por toda parte, viam-se guardas, fiscais de diferentes partidos, apuradores que se levantavam para ir ao banheiro, pessoas que tiravam um sanduíche da sacola, outras que conversavam, muita gente circulando, tudo num vozerio persistente. Um verdadeiro cafarnaum.

Não encontrei informação do tempo exato que os apuradores levaram para contar os doze milhões de votos de 1960, mas, até que fossem contabilizados os votos do último grotão, devem ter passado uns 15 dias.

Pois foi nessa realidade que os constituintes de 1988 se basearam para fixar o prazo de 4 semanas entre os dois turnos: contaram, grosso modo, duas semanas para a apuração e duas semanas de campanha.

Sessenta anos se passaram e a realidade mudou. Mudou muito. Hoje, com o ultraeficiente sistema eletrônico, fica-se sabendo do resultado em poucas horas, fato inconcebível quando foi escrita a Constituição. Só que, a roupa agora ficou folgada. Em vez de duas semanas de campanha, como nos tempos de antigamente, os dois concorrentes da reta final têm quatro semanas à disposição para angariar votos. É tempo demais. Desnecessário, caríssimo e francamente dispensável. Desgasta os candidatos e cansa o distinto público.

Os meses que precederam o primeiro turno são o tempo em que candidatos se dedicam a tornar-se conhecidos, a dizer quem são e a que vêm. Passado o primeiro turno, é só questão de ajustar o tiro. O grosso do trabalho, em princípio, está feito. Aliás, é a razão pela qual não é frequente que o segundo colocado vire o jogo e atropele o que estava à frente. Pode acontecer, mas está longe de ser a regra.

Vamos esperar que o novo Congresso atente para essa relíquia de um tempo que passou e proponha encolher o espaço entre os dois turnos. Será uma decisão de bom senso.

Observação
Se o intervalo entre os turnos fosse de quinze dias, já teríamos votado ontem e já conheceríamos o nome do novo presidente. Em vez disso, temos pela frente mais quinze dias de tensão, insultos, agressões, vilanias, golpes baixos. E para quê? Seja o que for que ele nos reserve, nosso destino já está escrito. Os dados estão lançados e não há como detê-los.

A cama já está feita

José Horta Manzano

Diversos analistas já deram o sinal de alerta para o perigo que nos espreita. Por razões que ainda estão por ser estudadas, os eleitores brasileiros abriram as portas do Congresso para ignorantes, incapazes e extremistas.

A partir daí, que Bolsonaro seja reeleito ou não, essa gente já detém a maioria no Senado e, mediante alguns poucos acertos, será majoritária também na Câmara.

Essa situação é como um trem engatado, que roda em alta velocidade em direção à autocracia (= governo de uma pessoa só). Como todos sabem, trem segue os trilhos, reto, sem olhar pros lados.

A não reeleição do capitão é a derradeira esperança de evitar o pior. É verdade que o Congresso continuará tal e qual, que não dá mais pra mudar. Mas pelo menos não teremos, no topo do Executivo, um desequilibrado metido a Mussolini tropical. Além do quê, um gelatinoso Centrão sempre acaba se acomodando aos caprichos do Presidente, seja ele quem for.

Estes dias, diversos analistas têm escrito sobre esse risco. Juntei alguns dos artigos e deixo aqui à disposição da graciosa leitora e do distinto leitor. A cama já está feita. Só falta o cafajeste se apossar dela.

É bom tomar consciência do triste destino que nos espera. O voto de cada um conta. Não deixe de votar e… vote bem!

 

 

 

 

 

 

Birds of a feather

Sites de namoro no Brasil:
“Por favor, não me diga que você é de esquerda, você é bonita demais pra ser esquerdista.”

 

José Horta Manzano

Em 1969, Jorge Ben compôs e Wilson Simonal cantou “País Tropical”, aquela que dizia:

Moro
Num país tropical
Abençoado por Deus
E bonito por natureza

Desde aquela época, a expressão “bonito por natureza” tornou-se uma daquelas frases feitas, citadas a todo momento em relação a nosso país tropical. A expressão não chocou ninguém, muito pelo contrário: encantou. É que combina com a imagem que nos fazemos de nosso Brasil cheio de encantos mil.

Sempre aprendemos que em nossa terra de sol e de música reinavam a paz e a concórdia. Aprendemos também que em certas regiões do mundo, esquecidas pelo Altíssimo, os habitantes viviam em pé de guerra, parte da população jogada contra a outra parte.

Sabemos que na Irlanda do Norte católicos e protestantes se odeiam, e que volta e meia entram em conflito. Houve embates sangrentos até os anos 1990. De lá pra cá, as tensões arrefeceram, mas as brasas continuam quentes e podem se inflamar a qualquer momento.

Outra coisa que sabemos é que, em certos países do Oriente Médio, como o Líbano, a população vive dentro de bolhas confessionais. Homem de família muçulmana não se casa com mulher de religião cristã. Na segunda metade do século 20, o país já foi castigado por uma guerra mortífera de origem religiosa que durou dez anos.

Na Índia, o fosso divisório passa entre hinduístas e muçulmanos. Os dois grupos não se bicam. Dado que são bem minoritários no país, os muçulmanos são frequentemente atacados pelos hinduístas, majoritários. Misturar-se? Não passa pela cabeça de ninguém.

Quanto a nós, até outro dia tínhamos certeza de viver num país abençoado por Deus e, ainda por cima, bonito por natureza. Isso foi até outro dia. Depois do desastre lulopetista e da catástrofe bolsonárica, o panorama mudou. O distinto leitor há de ter notado. Mas fique sabendo que até a mídia estrangeira já se deu conta.

A revista francesa Notre temps (Nosso Tempo) traz uma reportagem sobre o surpreendente caso brasileiro. Para espanto de seus leitores, revela qual é a primeira pergunta feita por usuários de aplicativos de namoro – aqueles em que cada um procura a alma gêmea. Logo no primeiro contacto, antes de dar bom-dia, a pergunta é: “Você vai votar em quem?”. Vale também a variante: “Você é de esquerda ou de direita?”.

Usuários entrevistados explicam não ter vontade de perder tempo com uma pessoa com ideias políticas diferentes das suas. Há até quem já declare suas preferências políticas logo no perfil, descartando assim todo mal-entendido.

Parece que alguns aplicativos vão mais longe. Já se especializam em usuários de direita (ou de esquerda), numa tendência “private club” à moda dos aristocráticos ingleses. Os frequentadores desses sites pensam todos da mesma maneira, o que evita perguntas inúteis e potencialmente agressivas.

Não sei você, mas eu acho essa situação lastimável. Recuso-me a considerar que esse estado de coisas seja fruto de um “progresso” qualquer. Ao contrário, parece-me uma regressão, uma involução. Mostra que, tendo perdido a capacidade de conviver com diferentes, aspiramos a viver num mundo de iguais, onde todos têm as mesmas ideias, gostam das mesmas pessoas, detestam as mesmas coisas, pensam do mesmo jeito.

Pôxa, que monotonia, não lhes parece? É uma vida monacal, sem sal e sem sabor.

O nome do movimento

O inglês diz:
Birds of a feather flock together.
Pássaros de mesma plumagem se aninham juntos.

Os franceses dizem:
Qui se ressemble s’assemble.
Quem se parece se ajunta.

Os italianos preferem:
Dio li fa e poi li accoppia.
Deus os faz e depois os junta.

Quanto a nós, temos algumas expressões correspondentes:
Os semelhantes se atraem.
Cada qual com seu seu igual.
Uma vaca reconhece a outra.

Mas melhor mesmo é dizer: Vade retro, vida besta! Xô!

Os cortes de Bolsonaro

José Horta Manzano

Em artigo de sábado, o Estadão expõe os cortes feitos por Bolsonaro nas áreas da Educação e da Saúde Pública. A razão da poda é desviar recursos para alimentar o orçamento secreto, nebuloso sistema de distribuição de verbas a parlamentares, sem critério de transparência – daí o nome de “secreto”.

Percebe-se que a restrição de recursos é direcionada às áreas que o capitão odeia com maior furor.

De fato, a Saúde Pública é seu espantalho, como seu comportamento ao longo da pandemia revelou. Recluso num universo paralelo, Bolsonaro cultiva o negacionismo em seu esplendor. Nega-se obstinadamente a reconhecer a fragilidade do ser humano e as agruras do sofrimento alheio. Em sua lógica, o brasileiro deve enfrentar, peito aberto, todos os riscos à saúde. Afinal, este não pode ser um país de maricas! Que os fracos sejam varridos do mapa! Vacina? Tratamento? Remédio? Consulta? Pra quê? Tome cloroquina, que passa.

Ao lado da Saúde, a Instrução Pública é seu outro saco de pancada. Visto que ele não aprendeu grande coisa na vida, acabou atraindo uma coorte de brutos e ignorantes – o que é lógico e natural. Estendendo o raciocínio, ele não vê necessidade de oferecer os benefícios de uma educação de qualidade à população. Talvez pressinta que, se os eleitores tivessem aprendido a pensar, ele jamais teria sido eleito. Não serviria nem para síndico de condomínio.


Cortes de orçamento programados para 2023
– um florilégio –

Farmácia Popular
É programa que beneficia mais de 21 milhões de brasileiros. Sofrerá amputação de 59%. Ítens cortados: 13 diferentes princípios ativos. Entre eles, tratamentos usados contra diabetes, hipertensão, asma. A tesoura atingiu até fraldas geriátricas.

Prevenção e controle do câncer
O câncer é a segunda doença mais mortal no país. A verba destinada a prevenção e controle dessa enfermidade foi reduzida em 45%.

Aids
Programa que distribui remédios para tratar aids, hepatite viral e outras IST (infecções sexualmente transmissíveis) sofreu uma tesourada de R$ 407 milhões.

Merenda escolar
O governo de Bolsonaro vetou o reajuste, com correção pela inflação, da verba para a merenda escolar, que já não era reajustada havia 5 anos. Aluninhos vão continuar tendo de estender o dedinho pra receber um carimbo que indicará que já foram servidos e não podem repetir o prato. E vão continuar a dividir um ovo entre quatro crianças. Para muitos deles, a merenda é refeição mais nutritiva do dia – quando não é a única.

Outras áreas
Há outras áreas penalizadas pelos cortes. A Educação é a que mais vai sofrer. O programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) é outra destinação visada pelo bloqueio bolsonárico. A pasta de Ciência e Tecnologia e a de Desenvolvimento Regional também vão receber recursos minguados. Há outras áreas, mas é bom parar por aqui, que é pra evitar ficar mais deprimido.

Quem achar que isso é uma beleza e que está muito bom assim, que vote no capitão. Só que tem uma coisa: depois não vale dizer que não sabia.

A canoa furou

by Géraldine Streichert, artista francesa

José Horta Manzano

É difícil embarcar em duas canoas ao mesmo tempo. Alguns encontram a solução: ficar de pé e pôr um pé em cada canoa. Às vezes dá certo, mas é raro. Bolsonaro, com poucos cartuchos na mão depois do primeiro turno, está apostando na arte de equilibrar-se entre duas canoas, um pé em cada uma.

Durante quatro anos, botou fé no apoio das comunidades neopentecostais. Com a cumplicidade de sua mulher, transformaram comícios eleitorais em verdadeiros cultos evangélicos ao ar livre. Só que, apurados os votos do primeiro turno, levou um susto. Descobriu que estava longe da meta que tinha fixado: vencer com 60% dos votos. O voto evangélico não tinha sido suficiente.

Às pressas, o capitão decidiu mostrar que não é tão neopentecostal assim. Espichou o pé para outra canoa, disposto a provar que é também católico fervoroso. Por coincidência, as festividades do Círio de Nazaré caíam bem entre os dois turnos da presidencial.

Ao anunciar sua ida a Belém, Bolsonaro crispou o ambiente. A Arquidiocese de Belém fez saber que não admitiria uso político da celebração. Garantiu não haver convidado nenhuma autoridade política, nem mesmo o presidente da República. O prefeito de Belém chegou a declarar que “a fé de todos os paraenses não pode ser sequestrada por uma candidatura à Presidência”.

Mais claro, impossível. O recado que não foi pronunciado mas ficou implícito no não-convite era: “Vosmicê não é dos nossos; vá catar coquinho na sua paróquia”. Ficou evidente que a tentativa de se equilibrar entre duas canoas afundou. As autoridades católicas não estão dispostas a dar palanque a um trânsfuga. Se ele escolheu com tanta ênfase sua vertente do cristianismo, que se contente com ela e que não venha semear discórdia na nossa grei.

Um Bolsonaro desenxabido publicou nas redes sociais uma foto que mostra sua silhueta e serve de prova discreta de sua participação nas celebrações. Só que – ai, ai, ai – pouco familiarizado com festas católicas, imaginou que em Belém estivessem louvando a memória de um sírio que andou fazendo artes em Nazaré nos tempos bíblicos. E mandou ver: Sírio de Nazaré.

A zombaria chegou rápido e forte: “Como assim, Excelência, não sabe nem escrever o nome da festa de que participou?” (Traduzi em linguagem decente, porque, no original, os comentários são inflamados e bem mais ásperos.) A canoa furou.

 

 

Que sírio é esse?
Não é sírio, mas círio, com C. Círio, da família de cera, é uma vela grossa e alta. Esse termo, quem nos veio pelo latim, tem alguns poucos parentes em português, entre os quais o verbo encerar e o substantivo cerume. A palavra querosene também é derivada de uma raiz que significa cera, mas nos veio diretamente do grego.

Perda da nacionalidade

José Horta Manzano

Faz alguns dias, saiu uma notícia que, vista a proximidade das eleições, passou quase despercebida. Trata-se de um processo de perda de cidadania a ser possivelmente instaurado contra uma das ex-esposas do capitão.

 


Entre parênteses
Bolsonaro, que proclama alto e bom som ser “conservador nos costumes”, tem cinco filhos de três esposas diferentes. O objeto da notícia é uma delas.


 

O fato é que a referida senhora se casou com um norueguês, deixou o Brasil e acabou adquirindo a nacionalidade norueguesa. Nossa confusa Constituição, que às vezes parece ter sido feita no século 19, estipula que “será declarada a perda da nacionalidade do brasileiro que […] adquirir outra nacionalidade”.

O texto é aparentemente suavizado na alínea seguinte. Ela reza que, se a naturalização tiver sido imposta ao brasileiro “como condição para permanência no território ou para o exercício de direitos civis”, ele escapará da penalidade e não perderá a nacionalidade brasileira.

A ressalva mencionada no parágrafo anterior é apenas aparente, pois aborda um caso que não existe na vida real. Nunca ouvi falar de nenhum país que impusesse a naturalização de todo estrangeiro que quisesse permanecer em seu território.

Portanto, todo compatriota que ousar adquirir outra cidadania será punido com a perda da nacionalidade de origem.

A mim, que passei a vida rodando mundo, essa visão parece medieval. Vê-se que a Constituição (assim como as leis comuns) foi preparada por parlamentares com pouca vivência internacional. O mundo é vasto, variado, colorido, bem maior do que a cachola da maioria dos que estão refestelados no Congresso com o intuito de engordar o próprio patrimônio. O “exterior” não se resume a Paris ou Miami.

Países mais avançados não costumam confiscar a nacionalidade de seus filhos por terem adquirido outra(s) nacionalidade(s). A cidadania pode ser concedida a estrangeiros que tenham vivido um certo número de anos no território. A nacionalidade do país X pode ser outorgada por matrimônio, ou seja, ao estrangeiro que tiver vivido um certo número de anos casado com alguém originário do país X. O país Y pode ainda facilitar a naturalização de estrangeiros com filhos nascidos em território Y.

Sabendo-se que cerca de 3 milhões de compatriotas vivem no exterior, é permitido crer que boa parte deles adquiriu um segundo passaporte – não por imposição de ninguém, mas por iniciativa própria. Pela legislação brasileira, estão todos na ilegalidade, passíveis de perda da nacionalidade brasileira.

Fechar os olhos e fingir que o problema não existe não é a melhor solução. Entendo que nenhum parlamentar vai abraçar essa causa, visto que eleitores do estrangeiro não votam para deputado e senador. Eis por que defendo a criação de uma nova circunscrição eleitoral: o estrangeiro, no mesmo plano que os estados da Federação, com senadores e um determinado número de deputados. Esses seriam os defensores de nossos interesses.

Quanto à ex-mulher do capitão, não sei como terminou o caso. Fico devendo.

O Google mostra o caminho

José Horta Manzano

Este blogue está no ar há dez anos e conta com um acervo de quase 5.500 posts. Há de tudo aqui dentro. Em maioria, são artigos meus, mas há também textos alheios, máximas latinas, provérbios, desenhos de humor, reproduções de pinturas.

Durante os primeiros seis anos, dei muita pancada em Lula, Dilma e no lulopetismo. Eram os tempos do petrolão e das passeatas multitudinárias do “Fora, Dilma!”. Me parecia que, em matéria de dirigentes incapazes, o Brasil se tinha precipitado no fundo do poço. Achei que mais não era possível. Engano meu.

Foi-se o petismo, entrou em cena um cafajeste que prometeu mudança e acabou seguindo a mesma trilha dos anteriores, em versão piorada. À incapacidade dos anteriores, acrescentou a violência. À ignorância dos anteriores, acrescentou a demolição da cultura. Ao iletrismo dos anteriores, acrescentou o negacionismo da ciência. Seu governo foi esse horror que estamos cansados de saber.

A plataforma WordPress, que hospeda este blogue, oferece informações interessantes. Posso saber, por exemplo, quantas visitas cada post recebeu a cada dia. Certos textos, escritos muitos anos atrás, costumam receber visitas o tempo todo. São uns 20 ou 30 que entraram para a categoria dos “most viewed” – os mais procurados. Não passa um dia sem que cheguem visitantes por ali. Esses posts, eu sei quais são.

O que tenho notado estes dias é que outros artigos, que foram lidos à época em que foram publicados e depois caíram no esquecimento, estão sendo obrigados a varrer a sala às pressas e tirar as teias de aranha porque há uma fila de visitantes novos a cada dia.

São textos que respondem às palavras-chave que os brasileiros devem estar lançando no Google estes dias. Não sei quais são esses termos de busca, mas suponho que sejam algo como: “Lula, Nicarágua” ou “Bolsonaro, fome” ou “Lula, corrupção” ou “Bolsonaro, corrupção”. E por aí vai.

Fico orgulhoso de que minhas opiniões possam servir para orientar quem está se sentindo um pouco fora de eixo. Quem procurar artigos que desancam o Lula, vai encontrar. Quem preferir artigos que surram o Bolsonaro, também vai encontrar. Podem vir, que tem pra todos. Este espaço é eclético.

Maravilhados e frustrados

José Horta Manzano

MARAVILHA

“Jair Bolsonaro n’a eu de cesse de contester le processus électoral et notamment le mécanisme de vote électronique qui est fiable, sécurisé, parfaitement bien organisé et peut aboutir à des résultats satisfaisants pour tout le monde et notamment pour la démocratie.”

“Jair Bolsonaro desafiou repetidamente o processo eleitoral e em particular o mecanismo de votação eletrônica que é confiável, seguro, perfeitamente bem organizado e pode produzir resultados satisfatórios para todos, em especial para a democracia.”

Jean-Philippe Derosier, professor de Direito Constitucional na Universidade de Lille (França), presidente do Conselho Científico da missão de observação das eleições presidenciais 2022.

FRUSTRAÇÃO

“L’énormité de l’erreur des instituts de sondage sur le vote en faveur de Jair Bolsonaro, supérieur de 8 points aux estimations, est une claque à leur crédibilité, après les ratages des présidentielles américaines de 2016 et 2020. Comment ont-ils pu se fourvoyer à ce point?“

“A enormidade do erro dos institutos de pesquisa na votação de Jair Bolsonaro, que ficou 8 pontos acima do estimado, é uma bofetada na sua credibilidade, após as falhas nas eleições presidenciais americanas de 2016 e 2020. Como puderam derrapar a esse ponto?“

Le Nouvel Observateur, revista semanal francesa

As eleições presidenciais brasileiras deste ano estavam na mira de observadores estrangeiros. Governo e população de inúmeros países acompanharam passo a passo as semanas finais da campanha de primeiro turno.

Que o povo da Hungria ou da Polônia se deixe encantar pelo canto de sereia de populistas de extrema-direita é preocupante, mas não crucial – quando países menores escorregam, a Terra não deixa de girar. Já quando as vítimas são o caudaloso povo brasileiro, o fato assume dimensões de preocupação mundial.

A condução errática da política externa do Brasil nestes últimos quatro anos já mostrou a imprevisibilidade de um governo sem projeto, que troca de ministros como quem troca de camisa. Não interessa a ninguém fazer negócios com uma república instável, sem linha de conduta clara.

Essa é a razão pela qual o mundo se interessa tanto pelas presidenciais deste ano. A persistência de uma política de violência, de cidadãos armados, de conflitos religiosos, de destruição da floresta amazônica não faz o jogo de nenhum de nossos parceiros comerciais.

À vista da apregoada possibilidade de vitória de Lula da Silva já no primeiro turno, a mídia estrangeira despachou equipes de repórteres e cinegrafistas que fincaram base em São Paulo ou no Rio. A ansiedade aumentava diariamente. Os canais de televisão passaram documentários sobre o capitão e o demiurgo. E reservavam diariamente um bloco nos telejornais para comentários ao vivo dos enviados especiais.

Abertas as urnas, os enviados estrangeiros se sentiram, ao mesmo tempo, maravilhados e frustrados. Maravilhados porque nunca tinham imaginado que os votos de 125 milhões de eleitores pudessem ser computados em tão curto espaço de tempo. Frustrados porque, em contraposição à perfeita organização da apuração, descobriram um universo de pesquisas dissonante. De fato, nenhum instituto passou perto de acertar na cabeça. Pegou mal pra caramba.

Tenho ouvido comentários de analistas políticos que dão a nossos institutos de pesquisa o diagnóstico de “incapazes” e “amadores”. Deve haver razões para a divergência entre as previsões e a realidade, mas, seja como for, a imagem dessas empresas levou um baque. E reforçou-se a imagem de um Brasil incapaz de prever o que vai acontecer no dia seguinte.

Boa fama leva muito tempo pra construir – mas pode desmoronar de supetão.

The day after

José Horta Manzano

Diante dos resultados oficiais do voto de ontem, ninguém ficou indiferente. Todos se surpreenderam. Grosso modo, metade do eleitorado estourou o champanhe e a outra metade baixou as orelhas e pôs as barbas de molho.

Os institutos de pesquisa levaram uma pancada na moleira – todos eles. Não conseguiram avaliar os sentimentos latentes na população dos grandes colégios eleitorais: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Agora tentam se escorar na explicação de um suposto “voto envergonhado”, fato que não bate com a realidade.

Veja só. Tenho conhecidos que, ao percorrerem o interior do estado de São Paulo seis meses atrás, já tinham me confiado que, naquela região, “todos são bolsonaristas”. Quase não acreditei, pois não é o que as sondagens indicavam. Se um simples cidadão consegue captar esse sentimento dominante, me parece erro grave que institutos especializados não detectem o fenômeno.

Andei fazendo umas continhas. Tomei o desempenho de Lula e Bolsonaro nesta eleição e comparei com eleições passadas. Cheguei a um resultado interessante. Vejam.

Em 2002, Lula conseguiu pela primeira vez passar para o segundo turno. Naquele primeiro turno, cravou 46,4% dos votos.

Na eleição seguinte (2006), depois de passar 4 anos no poder, nosso demiurgo se recandidatou e chegou de novo à final. No primeiro turno daquele ano, fez 48,6% dos votos, um incremento de 2,2 pontos percentuais. Excelente desempenho.

Seguiu-se um hiato de doze anos, em que se sucederam mensalão, petrolão, processos, julgamento, recurso e prisão. Passada a tempestade, Lula voltou à carga e recandidatou-se. Neste primeiro turno de 2022, acaba de obter 48,4%. Ou seja, apesar dos pesares, praticamente igualou sua marca de 12 anos atrás. Haja resiliência!

Em 2018, o candidato Bolsonaro passou para a etapa final. Naquele primeiro turno, atingiu a marca de 46,0% dos votos, excelente para um iniciante. Seguiram-se 4 anos caóticos, com pandemia tratada a bofetadas, destruição da Amazônia, disseminação de armas, insultos e baixarias no varejo e a granel.

Logo após a publicação dos resultados deste primeiro turno de 2022, o capitão se gaba de ter tido mais votos do que em 2018. O que ele omite é que o eleitorado cresceu 10%, proporção muito maior que os votos que ele recebeu a mais.

O TSE confirma que Bolsonaro acaba de cravar 43,2%, uma marca inferior de quase 3 pontos ao resultado de 2018. Uma análise honesta revela que, enquanto Lula soube conservar seu capital eleitoral, o capitão perdeu cerca de 3.300.000 votos (três milhões e trezentos mil). Portanto, teve, sim, menos votos do que em 2018.

Ser abandonado por milhões de eleitores nunca é bom sinal. O básico, para um governante que pretende se reeleger, é reforçar seu patrimônio eleitoral ao longo do primeiro mandato. Se o capitão não conseguiu, apesar de toda a ginástica que tem feito, é porque não leva jeito para a coisa.

Consideração final
Não acredito que metade dos brasileiros seja bolsonarista e que a outra metade seja lulopetista. Não é assim que se devem analisar os resultados. A meu ver, mais do que a adesão às ideias ou ao “programa” de cada um deles, os resultados estão a indicar um voto contra.

É simples: há os antipetistas e há os antibolsonaristas. Uns juram não querer um ladrão na Presidência. Outros afirmam não suportar um cafajeste no Planalto.

Partindo do princípio que, uns mais e outros menos, todos roubam, a escolha não me parece complicada.