Afinal, o ser humano esteve na Lua ou não?

José Horta Manzano

Deusa grega da Lua, da caça e da natureza selvagem, Artemisa corresponde a Diana, deusa romana. É o nome de batismo que a Nasa decidiu dar a seu foguete que deve levantar chispando estes dias a levar quatro tripulantes dar umas voltinhas pras bandas de nosso astro noturno.

Voltinhas é o termo exato, não é figura de linguagem. Devem girar umas quantas vezes em volta da Lua sem lá pousar. É que, depois de mais de 50 anos sem missões de convescote espacial tão distante, a mecânica pode estar um quanto enferrujada. Ou também, e isso é fato, as atuais exigências de segurança são bem mais estritas que as de meio século atrás. Imagine se a sonda não devesse retornar e os quatro passageiros se perdessem no espaço?

Mês passado, o Datafolha aproveitou para fazer uma sondagenzinha. Perguntou a mais de 2.000 maiores de 16 anos, habitantes de 123 municípios situados em todas as regiões administrativas do país, se o indagado acreditava que seres humanos já tinham viajado um dia à Lua – fato que ocorreu em diversas ocasiões na virada dos anos 1960 para os 1970. Se eu tivesse de jogar um número no ar sem ter lido os resultados, teria respondido que, fora meia dúzia de excêntricos, todo o mundo acreditava. Que pergunta, ora!…

Pois veja só, surpreso fiquei eu ao conferir as respostas. Grosso modo, ao extrapolar as respostas dos entrevistados, um de cada três brasileiros maiores de 16 anos acha que é mentira, ou seja, que o homem jamais esteve na Lua. Como testemunha ocular da História, posso dizer que vi (pela televisão na vitrine de uma loja) os primeiros passos de um certo Neil Armstrong na superfície de nosso satélite. Como é possível que hoje, passados 57 anos, ainda tem gente que não ficou sabendo?

É verdade que, no dia seguinte aos primeiros passos, começaram a aparecer as primeiras teorias da conspiração. Até eu já recebi ecos de algumas. Seja como for, é surpreendente que, dos duzentos e tantos milhões de brasileiros, a grande maioria ainda não nascidos em 1969, se ponham a “não acreditar” em fatos do passado. Costuma-se dizer que, no Brasil, até o passado é duvidoso; só que a ida à Lua não foi façanha brasileira, portanto é passado universal. Sacudam-se, incréus!

Se vosmecê imagina que os que acham que o homem jamais foi à Lua são bolsonaristas, está enganado. Se acha que são lulopetistas, também está enganado. Os dois contingentes estão praticamente empatados, dentro da margem de erro. Se acha que os incrédulos estão no Nordeste, engana-se. Se imagina que estejam no Sul, engana-se também. Foram 37% de incrédulos no Sul e 34% no Nordeste: empate técnico.

Cristãos de rito romano x cristãos neo-pentecostais? De novo, empate técnico: 34% dos católicos afirmam ser mentira contra 37% dos evangélicos. No recorte por renda familiar, encontra-se um fator de distanciamento. Entre os que ganham até dois salários, 37% acreditam ser mentira. Já entre os que estão na faixa superior, acima de dez salários mínimos, somente 20% acreditam que é mentira. Assim mesmo, esses 20% me parecem um número elevado.

Como esperado, o fator que mais distancia os que acreditam na realidade dos que não acreditam, é o nível de instrução. Entre os indagados que não foram além do ensino fundamental, 42% juram que é mentira. Entre os que avançaram até o ensino médio, 33% pensam que é mentira. E entre os que completaram o ensino superior, somente 19% engoliram alguma teoria da conspiração – o resto entendeu que a ida à Lua era coisa séria.

Agora, o que mais me impressionou: o recorte por idade. Entre os mais jovens (16 a 24 anos), que se supõem mais abertos, mais embebidos de informação, 27% persistem em negar as evidências e não acreditam que o homem tenha ido à Lua. Na outra ponta, dos maiores de 60 anos, mais próximos dos fatos do começo dos anos 1970, 37% afirmam que é mentira o homem ter ido à Lua.

À vista desses números, a gente fica meio sem saber que pensar. Tirando o nível de instrução, os outros recortes mostram uma população praticamente igualada na negação da História.

No entanto, há outras verdades meio duvidosas que dariam lugar a questionamentos que, estranhamente, ninguém se faz. Por exemplo, como é possível que o Tiradentes, um bugre analfabeto que só sabia manejar alicates enferrujados, pôde ser o cabeça de uma revolta contra uma cobrança de impostos – que, aliás, não lhe dizia respeito? E como é possível que só ele tenha recebido a pena máxima, sendo os outros todos poupados? Está aí, sim, uma questão que me interpela, mas que, aparentemente, não incomoda mais ninguém.

Ganha um passeio de pedalinho no Estreito de Ormuz, quem der pistas para resolver esse mistério. Não o do Tiradentes, o da descrença na pisada do homem na Lua.

Voto à moda antiga

Urna modelo anos 1950

 

José Horta Manzano

Quando a Constituição de 1988 determinou que a votação para cargos do Executivo (presidente, governador e prefeito) se realizasse em dois turnos, estipulou um prazo de 4 semanas entre a primeira e a segunda rodada.

À época, serviram de referencial as eleições de 1960, as últimas realizadas em sistema democrático e livre. De fato, a partir da instauração do regime militar, em 1964, caiu a noite sobre a democracia e não se votou mais para presidente da República.

Em 1960, computador ainda era chamado “cérebro eletrônico” e estava mais pra ficção científica que pra realidade palpável. Assim sendo, votava-se em cédula de papel. O eleitor chegava à seção eleitoral, se apresentava, dava uns passos, puxava a cortininha, entrava na cabine e punha dentro de um envelope a(s) cédula(s) com o nome de seu(s) candidato(s). Baixava a aba do envelope sem colar , voltava e depositava o voto na urna, que era em geral um saco de lona com uma boca rígida de madeira ou metal, com uma fenda.

Terminada a votação, as urnas permaneciam sob vigilância policial durante a noite. No dia seguinte, caminhões e caminhonetes percorriam a cidade para recolher todas as urnas e transportá-las ao local de apuração, que, nos centros maiores, era um amplo galpão ou ginásio de esportes. Todos os sacos de lona eram amontoados ali.

A apuração começava ao meio-dia da segunda-feira. No local, estavam já dispostas mesas compridas de madeira, com jeito de mesas de piquenique familiar. Havia bancos para acomodar os apuradores. Por toda parte, viam-se guardas, fiscais de diferentes partidos, apuradores que se levantavam para ir ao banheiro, pessoas que tiravam um sanduíche da sacola, outras que conversavam, muita gente circulando, tudo num vozerio persistente. Um verdadeiro cafarnaum.

Não encontrei informação do tempo exato que os apuradores levaram para contar os doze milhões de votos de 1960, mas, até que fossem contabilizados os votos do último grotão, devem ter passado uns 15 dias.

Pois foi nessa realidade que os constituintes de 1988 se basearam para fixar o prazo de 4 semanas entre os dois turnos: contaram, grosso modo, duas semanas para a apuração e duas semanas de campanha.

Sessenta anos se passaram e a realidade mudou. Mudou muito. Hoje, com o ultraeficiente sistema eletrônico, fica-se sabendo do resultado em poucas horas, fato inconcebível quando foi escrita a Constituição. Só que, a roupa agora ficou folgada. Em vez de duas semanas de campanha, como nos tempos de antigamente, os dois concorrentes da reta final têm quatro semanas à disposição para angariar votos. É tempo demais. Desnecessário, caríssimo e francamente dispensável. Desgasta os candidatos e cansa o distinto público.

Os meses que precederam o primeiro turno são o tempo em que candidatos se dedicam a tornar-se conhecidos, a dizer quem são e a que vêm. Passado o primeiro turno, é só questão de ajustar o tiro. O grosso do trabalho, em princípio, está feito. Aliás, é a razão pela qual não é frequente que o segundo colocado vire o jogo e atropele o que estava à frente. Pode acontecer, mas está longe de ser a regra.

Vamos esperar que o novo Congresso atente para essa relíquia de um tempo que passou e proponha encolher o espaço entre os dois turnos. Será uma decisão de bom senso.

Observação
Se o intervalo entre os turnos fosse de quinze dias, já teríamos votado ontem e já conheceríamos o nome do novo presidente. Em vez disso, temos pela frente mais quinze dias de tensão, insultos, agressões, vilanias, golpes baixos. E para quê? Seja o que for que ele nos reserve, nosso destino já está escrito. Os dados estão lançados e não há como detê-los.