Voto à moda antiga

Urna modelo anos 1950

 

José Horta Manzano

Quando a Constituição de 1988 determinou que a votação para cargos do Executivo (presidente, governador e prefeito) se realizasse em dois turnos, estipulou um prazo de 4 semanas entre a primeira e a segunda rodada.

À época, serviram de referencial as eleições de 1960, as últimas realizadas em sistema democrático e livre. De fato, a partir da instauração do regime militar, em 1964, caiu a noite sobre a democracia e não se votou mais para presidente da República.

Em 1960, computador ainda era chamado “cérebro eletrônico” e estava mais pra ficção científica que pra realidade palpável. Assim sendo, votava-se em cédula de papel. O eleitor chegava à seção eleitoral, se apresentava, dava uns passos, puxava a cortininha, entrava na cabine e punha dentro de um envelope a(s) cédula(s) com o nome de seu(s) candidato(s). Baixava a aba do envelope sem colar , voltava e depositava o voto na urna, que era em geral um saco de lona com uma boca rígida de madeira ou metal, com uma fenda.

Terminada a votação, as urnas permaneciam sob vigilância policial durante a noite. No dia seguinte, caminhões e caminhonetes percorriam a cidade para recolher todas as urnas e transportá-las ao local de apuração, que, nos centros maiores, era um amplo galpão ou ginásio de esportes. Todos os sacos de lona eram amontoados ali.

A apuração começava ao meio-dia da segunda-feira. No local, estavam já dispostas mesas compridas de madeira, com jeito de mesas de piquenique familiar. Havia bancos para acomodar os apuradores. Por toda parte, viam-se guardas, fiscais de diferentes partidos, apuradores que se levantavam para ir ao banheiro, pessoas que tiravam um sanduíche da sacola, outras que conversavam, muita gente circulando, tudo num vozerio persistente. Um verdadeiro cafarnaum.

Não encontrei informação do tempo exato que os apuradores levaram para contar os doze milhões de votos de 1960, mas, até que fossem contabilizados os votos do último grotão, devem ter passado uns 15 dias.

Pois foi nessa realidade que os constituintes de 1988 se basearam para fixar o prazo de 4 semanas entre os dois turnos: contaram, grosso modo, duas semanas para a apuração e duas semanas de campanha.

Sessenta anos se passaram e a realidade mudou. Mudou muito. Hoje, com o ultraeficiente sistema eletrônico, fica-se sabendo do resultado em poucas horas, fato inconcebível quando foi escrita a Constituição. Só que, a roupa agora ficou folgada. Em vez de duas semanas de campanha, como nos tempos de antigamente, os dois concorrentes da reta final têm quatro semanas à disposição para angariar votos. É tempo demais. Desnecessário, caríssimo e francamente dispensável. Desgasta os candidatos e cansa o distinto público.

Os meses que precederam o primeiro turno são o tempo em que candidatos se dedicam a tornar-se conhecidos, a dizer quem são e a que vêm. Passado o primeiro turno, é só questão de ajustar o tiro. O grosso do trabalho, em princípio, está feito. Aliás, é a razão pela qual não é frequente que o segundo colocado vire o jogo e atropele o que estava à frente. Pode acontecer, mas está longe de ser a regra.

Vamos esperar que o novo Congresso atente para essa relíquia de um tempo que passou e proponha encolher o espaço entre os dois turnos. Será uma decisão de bom senso.

Observação
Se o intervalo entre os turnos fosse de quinze dias, já teríamos votado ontem e já conheceríamos o nome do novo presidente. Em vez disso, temos pela frente mais quinze dias de tensão, insultos, agressões, vilanias, golpes baixos. E para quê? Seja o que for que ele nos reserve, nosso destino já está escrito. Os dados estão lançados e não há como detê-los.

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