Pinóquios

José Horta Manzano

Todo mentiroso contumaz, de tanto mentir, já não percebe que cai em contradição a cada esquina. É muito difícil sustentar uma mentira. Dá um trabalho danado. Tem de se policiar a cada frase, a cada instante, a cada dia, que é pra não se desmentir. O mentiroso inveterado não se dá ao trabalho de se autovigiar, então… catapum! Cai do cavalo a toda hora.

Não sei qual dos dois finalistas da corrida presidencial deste ano merece o título de Pinóquio-mor. O páreo está dureza. A dez dias do turno final, Bolsonaro soltou mais um desses pronunciamentos enrolados, com frases que se contradizem.

Ao lado do neo-bolsonarista governador de São Paulo, discursou e conclamou prefeitos paulistas a “virar votos”. Logo em seguida, afirmou que está ganhando “em todos os estados do Brasil, sem exceção”. Disse ainda que “daqui pra lá não vai voto, mas de lá pra cá vem”. Esta última frase deve significar que é possível que eleitores de Lula no primeiro turno votem em Bolsonaro no segundo, mas o vice-versa é impossível. (Há controvérsia.)

Ora, nessa embolada de afirmações, há colisão frontal.

1) Se ele estivesse realmente ganhando em todos os estados e se fosse impossível virar votos “daqui pra lá”, não haveria razão pra pedir empenho aos prefeitos: a vitória já estaria desde já assegurada.

ou

2) Se o capitão vê necessidade de pedir empenho de prefeitos para “virar votos”, é sinal de que a vitória “em todos os estados do Brasil, sem exceção” não está tão garantida assim.

Conclusão
Este blogueiro crava na opção 2. E o distinto leitor?

Os estreantes

Chamada da Folha de São Paulo

José Horta Manzano

Em desastrada declaração feita nos anos 1970, Pelé – nossa glória nacional – afirmou que “brasileiro não sabe votar”. De lá pra cá, a fala do camisa 10 é volta e meia citada.

As eleições de 2020 deixaram a impressão de que Pelé estava totalmente enganado. Dois anos atrás, candidatos ligados ao bolsonarismo sofreram forte derrota. Parecia até que os brasileiros tinham aprendido a votar e que o pesadelo estava chegando ao fim.

Passaram-se dois anos e chegaram as eleições de 2022. Para a Presidência, no primeiro turno, apenas 33% do eleitorado votou no capitão, o que mostrou estabilidade ou até queda em sua aprovação.

No turno inicial, ele teve muito menos votos que em 2018, quando tinha alcançado a marca de 46% do eleitorado. Isso mostra que, apesar de barulhentos e arruaceiros, os bolsonaristas não representam hoje mais que 1 em cada 3 eleitores. Até aqui, tudo dominado.

O problema surge quando se lê uma notícia como essa que a Folha publicou:


40% dos estreantes na Câmara foram alvo de ação ou investigação


De cada dez estreantes, quatro não chegam envoltos em perfume de santidade. As suspeitas que pesam sobre eles variam entre calúnia, mau uso de recursos públicos, estelionato e homicídio.

E olhe que são estreantes, iniciantes, calouros! Dá pra imaginar como estarão daqui a alguns meses, quando estiverem formados, treinados, com diploma de parlamentares experientes?

João Baptista Figueiredo, último presidente do período militar, era mestre em declarações bruscas, pesadas, ofensivas, um nobre precursor do estilo bolsonárico. Como o atual presidente, não escondia o imenso desprezo que sentia pelo povo. Entre outras barbaridades, disse um dia, referindo-se aos brasileiros: “povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar”.

Se, por milagre da física quântica, Figueiredo se levantasse da tumba e lesse a chamada estampada no alto deste artigo, era capaz de dizer: “Eu não falei?”.

Mais ecos do debate

José Horta Manzano

O debate que Lula e Bolsonaro protagonizaram na tevê ecoou forte além-fronteiras. Debates à brasileira, que se assemelham cada dia mais a briga de criançada do ensino fundamental, são desconhecidos na Europa, onde o nível costuma ser menos rasteiro.

Essa história de “Acusado! Eu vi você mostrando a língua pra professora!” não cabe numa confrontação entre candidatos à Presidência de país civilizado. O que tem divertido a imprensa estrangeira são justamente essas alfinetadas pré-adolescentes, comportamento que destoa vindo de dois personagens que já ocuparam o posto máximo.

 

 

El Mundo
O espanhol El Mundo não se ateve a detalhes. Deu uma nota global: “Um eletrizante debate corpo a corpo”.

 

 

Corriere della Sera
O Corriere della Sera é escrito numa língua (italiano) que não é pródiga no uso de diminutivos. Para traduzir a expressão “pequeno ditadorzinho”, que Lula dirigiu a Bolsonaro, o jeito foi duplicar o adjetivo: “Um piccolo piccolo dittatore”um pequeno pequeno ditador.

 

 

The Guardian
O mesmo problema de diminutivos tem a língua inglesa. Na hora de verter o “pequeno ditadorzinho”, o Guardian de Londres escreveu: “Tiny little dictator” – minúsculo pequeno ditador.

 

 

Sud Ouest
O francês Sud Ouest fez a chamada em dose dupla, com réplica e tréplica. Não só o “ditadorzinho” apareceu, mas a “vergonha nacional” também. Falaram então de “petit dictateur” – ditadorzinho e “honte nationale” – vergonha nacional.

 

 

HLN
Já o holandês HLN escolheu outro par de insultos. Afinal, não foi dícil encontrar, tantas foram as ofensas estúpidas e contraproducentes. A chamada incluiu: “klein dictatortje” – pequeno ditadorzinho e “koning der leugens” – rei da mentira.

 

 

Thuner Tabglatt
Mais dramático, o suíço Thuner Tagblatt escolheu palavras impactuosas para descrever o que considerou ‘batalha de lama’: “Pädophil” e “Kannibale”. Dispensam tradução.

 

 

Para travar a língua
A descrição alemã do debate, mostrada nesta última ilustração, traz uma palavra de aspecto assustador: Schlammschlacht. Essa fila indiana de 15 letras comporta apenas 2 vogais para 13 consoantes. Essa massa de letras forma só duas sílabas, acredite. Significa batalha de lama.

Doa a quem doer

José Horta Manzano

A expressão “doa a quem doer” me traz à memória a gafe histórica perpetrada por Fernando Collor, então presidente do Brasil. Há exatos 30 anos, em entrevista à televisão argentina, Collor afirmou que estava preparado para punir os culpados por quaisquer irregularidades em seu governo. Em refinado portunhol, acrescentou: “duela a quién duela”, que lhe pareceu ser a melhor tradução para “doa a quem doer”.

Expressões idiomáticas não devem ser traduzidas ao pé da letra porque, em geral, dá linha cruzada (essa é do tempo do Onça). Por exemplo, se você pegar a expressão “ao pé da letra” e traduzir para o inglês – ao pé da letra –, fica “to the foot of the letter” – sequência de palavras incompreensível para ouvidos anglófonos.

Dando de ombros a toda prudência, Collor ousou. E se estrepou. Naquela circunstância, um ouvido hispanofônico esperaria algo do tipo “no importa a quién le duela”.

Só ouvintes muito espertos devem ter entendido o “duela a quién duela”. Mas Collor não era esperto.

Debate

José Horta Manzano

Não assisti ao último debate entre os dois presidenciáveis. Para me inteirar do que foi dito, não me fiei a hashtags, memes ou rumores da internet – fui direto à imprensa séria, que dá mais certo.

Depois de dar uma vista d’olhos a uma dezena de artigos e análises, fiquei sabendo de tudo. Está aqui abaixo o que retive.

• Bolsonaro provocou Lula. E este errou ao cair na arapuca

• Bolsonaro chamou Lula de “vergonha nacional”

• Lula chamou Bolsonaro de “pequeno ditadorzinho”
(Dessas duas últimas, quem me informou foi a mídia estrangeira)

• Bolsonaro tocou no ombro de Lula, o que causou frisson nacional

• Moro deu conselhos a Bolsonaro durante o debate.

• Dados distorcidos de segurança, covid e corrupção foram citados por ambos

• Houve ironias, uma encarada e até troca de sorrisos entre os protagonistas

• A audiência foi pr’as alturas

• A esposa de Lula bocejou ostensivamente enquanto Bolsonaro discursava

• Lula vestiu a gravata preferida por presidentes de 2014 pra cá

• Bolsonaro vestiu gravata verde (amarela teria dado demais na vista)

• Lula estourou o tempo, e permitiu um monólogo bolsonárico

• Bolsonaro enrolou sobre mexida na composição do STF. Não confirmou nem informou, muito pelo contrário

• Os candidatos se trataram mutuamente de “mentiroso”
(E acertaram)

• O ambiente esteve menos agressivo; gestos e palavras foram menos incivis do que estamos acostumados

Bom, chegando a este ponto, é hora de fazer umas perguntas. E daí? Pra que serviu o debate? Resumiu-se a tentativas de desqualificar o adversário? Que projetos foram discutidos? Quais foram os novos planos revelados ao distinto público?

Pelo que entendi, nenhum projeto foi tratado com a profundidade que se deve. Ideias soltas, do tipo “farei isso” ou “farei aquilo” surgiram, mas os candidatos giraram em torno da compota sem botar a mão dentro.

Ambos se referem basicamente ao passado, sem revelar sua visão de futuro (talvez por não a terem), sem a menor ideia do lugar que o Brasil deve ocupar num mundo transtornado pela nova distribuição de forças, com guerra na Europa, exportação de combustiveis bloqueada, mudanças climáticas, ameaça de conflito nuclear, veganismo em marcha acelerada, Amazônia em chamas, alta da inflação mundial, bolsas mundiais em queda desde o começo do ano.

Não se discutiu nenhum projeto para tirar o país do atraso. Educação, saúde, transportes, saneamento básico, formação profissional foram temas ausentes.

O horizonte está sombrio. Se os candidatos tivessem ideia de como agir para melhorar a vida da população, por certo teriam exposto seus planos. Se não o fizeram, é porque não sabem o que fazer.

Como de costume, vamos votar de olhos vendados. Dos dois, Bolsonaro tem sido o mais transparente. Sabemos que, com ele, o projeto será um só: sua permanência vitalícia no poder, custe o que custar, doa a quem doer(*).

Quem se contentar em ter na Presidência um cafajeste candidato a ditador, que vote no capitão. Ele não costuma decepcionar.

(*) Fico devendo para amanhã uma reflexão sobre a expressão “doa a quem doer”.

Voto à moda antiga

Urna modelo anos 1950

 

José Horta Manzano

Quando a Constituição de 1988 determinou que a votação para cargos do Executivo (presidente, governador e prefeito) se realizasse em dois turnos, estipulou um prazo de 4 semanas entre a primeira e a segunda rodada.

À época, serviram de referencial as eleições de 1960, as últimas realizadas em sistema democrático e livre. De fato, a partir da instauração do regime militar, em 1964, caiu a noite sobre a democracia e não se votou mais para presidente da República.

Em 1960, computador ainda era chamado “cérebro eletrônico” e estava mais pra ficção científica que pra realidade palpável. Assim sendo, votava-se em cédula de papel. O eleitor chegava à seção eleitoral, se apresentava, dava uns passos, puxava a cortininha, entrava na cabine e punha dentro de um envelope a(s) cédula(s) com o nome de seu(s) candidato(s). Baixava a aba do envelope sem colar , voltava e depositava o voto na urna, que era em geral um saco de lona com uma boca rígida de madeira ou metal, com uma fenda.

Terminada a votação, as urnas permaneciam sob vigilância policial durante a noite. No dia seguinte, caminhões e caminhonetes percorriam a cidade para recolher todas as urnas e transportá-las ao local de apuração, que, nos centros maiores, era um amplo galpão ou ginásio de esportes. Todos os sacos de lona eram amontoados ali.

A apuração começava ao meio-dia da segunda-feira. No local, estavam já dispostas mesas compridas de madeira, com jeito de mesas de piquenique familiar. Havia bancos para acomodar os apuradores. Por toda parte, viam-se guardas, fiscais de diferentes partidos, apuradores que se levantavam para ir ao banheiro, pessoas que tiravam um sanduíche da sacola, outras que conversavam, muita gente circulando, tudo num vozerio persistente. Um verdadeiro cafarnaum.

Não encontrei informação do tempo exato que os apuradores levaram para contar os doze milhões de votos de 1960, mas, até que fossem contabilizados os votos do último grotão, devem ter passado uns 15 dias.

Pois foi nessa realidade que os constituintes de 1988 se basearam para fixar o prazo de 4 semanas entre os dois turnos: contaram, grosso modo, duas semanas para a apuração e duas semanas de campanha.

Sessenta anos se passaram e a realidade mudou. Mudou muito. Hoje, com o ultraeficiente sistema eletrônico, fica-se sabendo do resultado em poucas horas, fato inconcebível quando foi escrita a Constituição. Só que, a roupa agora ficou folgada. Em vez de duas semanas de campanha, como nos tempos de antigamente, os dois concorrentes da reta final têm quatro semanas à disposição para angariar votos. É tempo demais. Desnecessário, caríssimo e francamente dispensável. Desgasta os candidatos e cansa o distinto público.

Os meses que precederam o primeiro turno são o tempo em que candidatos se dedicam a tornar-se conhecidos, a dizer quem são e a que vêm. Passado o primeiro turno, é só questão de ajustar o tiro. O grosso do trabalho, em princípio, está feito. Aliás, é a razão pela qual não é frequente que o segundo colocado vire o jogo e atropele o que estava à frente. Pode acontecer, mas está longe de ser a regra.

Vamos esperar que o novo Congresso atente para essa relíquia de um tempo que passou e proponha encolher o espaço entre os dois turnos. Será uma decisão de bom senso.

Observação
Se o intervalo entre os turnos fosse de quinze dias, já teríamos votado ontem e já conheceríamos o nome do novo presidente. Em vez disso, temos pela frente mais quinze dias de tensão, insultos, agressões, vilanias, golpes baixos. E para quê? Seja o que for que ele nos reserve, nosso destino já está escrito. Os dados estão lançados e não há como detê-los.

Cortes de orçamento

José Horta Manzano

Foi amplamente divulgado que, para o Orçamento 2023, Bolsonaro cortou drasticamente verbas que deviam ter sido destinadas à cultura e à ciência.

Faz milênios que a humanidade aprendeu o valor das ciências e das artes para o progresso da sociedade, só que alguns ainda não entenderam.

Aqui abaixo está um punhado de máximas antigas, algumas com dois mil anos, sobre o assunto.

Latim
Ars non habet inimicum nisi ignorantem.
A arte não tem outro inimigo senão o ignorante.

Italiano
L’arte non ha maggior nemico dell’ignorante.
A arte não tem inimigo maior que o ignorante.

Francês medieval
Science n’a ennemis que les ignorants.
Ciência não tem inimigos que não sejam os ignorantes.

Alemão
Wissenschaft und Kunst
haben nie der Toren Gunst.
Ciência e arte
nunca são apreciadas pelos tolos.

Inglês antigo
Art hath an enemy called ignorance.
A arte tem um inimigo chamado ignorância.

Os trogloditas que nos governam ainda estão na Idade Média.

Pronunciamento de Bolsonaro

Ruy Castro (*)

Você já viu pelo menos um pronunciamento oficial de Jair Bolsonaro. Ele fala sentado a uma mesa numa sala, tendo ao fundo uma indefesa bandeira nacional e uma simulação de biblioteca. Os livros, comprados pelas cores das lombadas, estão ali para sugerir compostura e reflexão.

Inútil, porque o que sai pela boca do orador, em forma, conteúdo, expressão, timbre e dicção, revela um analfabeto funcional – aquele que, tecnicamente alfabetizado, capaz de reconhecer as letras, despreza o pensamento abstrato, por não lhe servir para nada.

Segundo pesquisas, o brasileiro médio lê 4,96 livros por ano. Já é pouco, mas Bolsonaro deve levar 4,96 anos por livro.

Nesses pronunciamentos, Bolsonaro se faz acompanhar de um dois de paus, que não abre a boca, e de um tradutor ou tradutora de libras, cuja função é levar os palavrões e grosserias de Bolsonaro aos deficientes.

Uma vez, quando ele evacuou sua imortal declaração “Caguei! Caguei pra CPI!”, a intérprete de libras era uma patusca senhora de óculos. Conhecendo Bolsonaro, e pelo desembaraço com que traduziu o desaforo – nem sombra de titubeio –, já deve ter um estoque de porras, não f…. e PQPs em seu vocabulário. A não ser que emita uma tradução asséptica, caso em que merecerá um sonoro esporro por desfigurar o estilo do patrão.

Não quer dizer que Bolsonaro seja um ignorante. Seus poucos e inglórios anos de Exército só lhe serviram para aprender a lavar cavalos, pintar postes e atirar, mas os quase 30 de Câmara dos Deputados, mesmo na Terceira Divisão, o ensinaram a mentir, corromper e mamar.

Ensinaram-lhe também a se cercar de ideólogos que, estes, sim, leitores atentos, lhe sopram o que fazer para invadir legalmente as instituições e dominá-las por dentro – os instrumentos da democracia que permitem trabalhar contra ela própria.

O Bolsonaro boçal é só uma frente. O perigo está no que isso esconde.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Este texto, publicado quase ano e meio atrás, não envelheceu e continua refletindo à perfeição o estilo do capitão.

A cama já está feita

José Horta Manzano

Diversos analistas já deram o sinal de alerta para o perigo que nos espreita. Por razões que ainda estão por ser estudadas, os eleitores brasileiros abriram as portas do Congresso para ignorantes, incapazes e extremistas.

A partir daí, que Bolsonaro seja reeleito ou não, essa gente já detém a maioria no Senado e, mediante alguns poucos acertos, será majoritária também na Câmara.

Essa situação é como um trem engatado, que roda em alta velocidade em direção à autocracia (= governo de uma pessoa só). Como todos sabem, trem segue os trilhos, reto, sem olhar pros lados.

A não reeleição do capitão é a derradeira esperança de evitar o pior. É verdade que o Congresso continuará tal e qual, que não dá mais pra mudar. Mas pelo menos não teremos, no topo do Executivo, um desequilibrado metido a Mussolini tropical. Além do quê, um gelatinoso Centrão sempre acaba se acomodando aos caprichos do Presidente, seja ele quem for.

Estes dias, diversos analistas têm escrito sobre esse risco. Juntei alguns dos artigos e deixo aqui à disposição da graciosa leitora e do distinto leitor. A cama já está feita. Só falta o cafajeste se apossar dela.

É bom tomar consciência do triste destino que nos espera. O voto de cada um conta. Não deixe de votar e… vote bem!

 

 

 

 

 

 

Barbaridade no aeroporto

José Horta Manzano

Desde que Putin lançou sua guerra de conquista sobre o território ucraniano, cerca de 5 milhões de habitantes abandonaram o país e fugiram direção à Europa. Nenhum país estava preparado para um afluxo tão caudaloso, mas em pouco tempo, organizou-se uma corrente de solidariedade.

Governos, ongs e simples cidadãos arregaçaram as mangas e cada um deu contribuição à altura de suas possibilidades. A Polônia, com seus parcos 38 milhões de habitantes, já deu abrigo a um milhão e trezentos mil refugiados. A Alemanha já acolheu um milhão. A pequenina Moldávia, país mais pobre da Europa, recebeu quase cem mil ucranianos.

Uma reportagem do Estadão informa que, neste momento, um grupo de 150 afegãos vive acampado num saguão do Aeroporto de Guarulhos (SP). Adultos, anciãos e famílias com crianças pequenas integram o conjunto. Sobrevivem com a caridade de funcionários e frequentadores do aeroporto. Há quem traga um cobertor, comida, um colchão. Além de famintos, os estrangeiros estão precisando de um banho e de roupa lavada. Faltam remédios para os mais idosos.

Um detalhe muito importante: esses afegãos não são clandestinos como aqueles que atravessam ilegalmente a fronteira do México para os EUA. Os migrantes de Guarulhos são titulares de um visto humanitário concedido por uma representação diplomática do Brasil no exterior.

O tratamento que estão recebendo é uma barbaridade. É desesperante constatar a desarticulação entre as instituições brasileiras. Conceder visto humanitário é uma coisa, mas a sequência da acolhida tem de estar concatenada: recepção dos imigrantes, fornecimento de ajuda de custo, um abrigo, alimentação, cuidados de saúde, escola para as crianças – enfim, o necessário para amparar quem tudo perdeu e aqui chegou só com a roupa do corpo.

Onde está o senso de acolhida do povo brasileiro? Nunca passou de ilusão ou foram o capitão e seus neandertais que instalaram essa revoltante aporofobia?(*)

(*) O termo aporofobia define o ódio e o repúdio à pobreza e aos pobres.

Birds of a feather

Sites de namoro no Brasil:
“Por favor, não me diga que você é de esquerda, você é bonita demais pra ser esquerdista.”

 

José Horta Manzano

Em 1969, Jorge Ben compôs e Wilson Simonal cantou “País Tropical”, aquela que dizia:

Moro
Num país tropical
Abençoado por Deus
E bonito por natureza

Desde aquela época, a expressão “bonito por natureza” tornou-se uma daquelas frases feitas, citadas a todo momento em relação a nosso país tropical. A expressão não chocou ninguém, muito pelo contrário: encantou. É que combina com a imagem que nos fazemos de nosso Brasil cheio de encantos mil.

Sempre aprendemos que em nossa terra de sol e de música reinavam a paz e a concórdia. Aprendemos também que em certas regiões do mundo, esquecidas pelo Altíssimo, os habitantes viviam em pé de guerra, parte da população jogada contra a outra parte.

Sabemos que na Irlanda do Norte católicos e protestantes se odeiam, e que volta e meia entram em conflito. Houve embates sangrentos até os anos 1990. De lá pra cá, as tensões arrefeceram, mas as brasas continuam quentes e podem se inflamar a qualquer momento.

Outra coisa que sabemos é que, em certos países do Oriente Médio, como o Líbano, a população vive dentro de bolhas confessionais. Homem de família muçulmana não se casa com mulher de religião cristã. Na segunda metade do século 20, o país já foi castigado por uma guerra mortífera de origem religiosa que durou dez anos.

Na Índia, o fosso divisório passa entre hinduístas e muçulmanos. Os dois grupos não se bicam. Dado que são bem minoritários no país, os muçulmanos são frequentemente atacados pelos hinduístas, majoritários. Misturar-se? Não passa pela cabeça de ninguém.

Quanto a nós, até outro dia tínhamos certeza de viver num país abençoado por Deus e, ainda por cima, bonito por natureza. Isso foi até outro dia. Depois do desastre lulopetista e da catástrofe bolsonárica, o panorama mudou. O distinto leitor há de ter notado. Mas fique sabendo que até a mídia estrangeira já se deu conta.

A revista francesa Notre temps (Nosso Tempo) traz uma reportagem sobre o surpreendente caso brasileiro. Para espanto de seus leitores, revela qual é a primeira pergunta feita por usuários de aplicativos de namoro – aqueles em que cada um procura a alma gêmea. Logo no primeiro contacto, antes de dar bom-dia, a pergunta é: “Você vai votar em quem?”. Vale também a variante: “Você é de esquerda ou de direita?”.

Usuários entrevistados explicam não ter vontade de perder tempo com uma pessoa com ideias políticas diferentes das suas. Há até quem já declare suas preferências políticas logo no perfil, descartando assim todo mal-entendido.

Parece que alguns aplicativos vão mais longe. Já se especializam em usuários de direita (ou de esquerda), numa tendência “private club” à moda dos aristocráticos ingleses. Os frequentadores desses sites pensam todos da mesma maneira, o que evita perguntas inúteis e potencialmente agressivas.

Não sei você, mas eu acho essa situação lastimável. Recuso-me a considerar que esse estado de coisas seja fruto de um “progresso” qualquer. Ao contrário, parece-me uma regressão, uma involução. Mostra que, tendo perdido a capacidade de conviver com diferentes, aspiramos a viver num mundo de iguais, onde todos têm as mesmas ideias, gostam das mesmas pessoas, detestam as mesmas coisas, pensam do mesmo jeito.

Pôxa, que monotonia, não lhes parece? É uma vida monacal, sem sal e sem sabor.

O nome do movimento

O inglês diz:
Birds of a feather flock together.
Pássaros de mesma plumagem se aninham juntos.

Os franceses dizem:
Qui se ressemble s’assemble.
Quem se parece se ajunta.

Os italianos preferem:
Dio li fa e poi li accoppia.
Deus os faz e depois os junta.

Quanto a nós, temos algumas expressões correspondentes:
Os semelhantes se atraem.
Cada qual com seu seu igual.
Uma vaca reconhece a outra.

Mas melhor mesmo é dizer: Vade retro, vida besta! Xô!

Teoria conspiratória de ocasião

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Não gosto nem estou habituada a embarcar em teorias conspiratórias, mas não teve jeito: ainda em estado de choque com o resultado do primeiro turno das eleições, especialmente as dos governos estaduais, deputados federais e senadores, vi-me forçada a criar eu mesma uma que lavasse de alguma forma minha honra de pesquisadora com mais de 20 anos de experiência. Ela pode parecer um tanto alucinada, como aliás são todas as outras, mas retrata uma possibilidade bastante factível e traz um fundinho de veracidade que precisa ser ainda mais bem explorado.

Refletindo sobre as causas dos erros monumentais cometidos por todos os institutos de pesquisa de renome nacional, me ocorreu que a inversão de última hora nas preferências pode não ter sido fruto de incompetência técnica ou metodológica, ingenuidade, parcialidade ou falta de integridade ética de tantos pesquisadores envolvidos. Algo me diz que o “erro” está na força do bolsonarismo de raiz nas redes sociais. Os institutos podem apenas não ter sido capazes de rastrear a tempo o tsunami de votos despejados no capitão provavelmente porque embalados pela confiança na altíssima estabilidade das previsões e convergência da intenção de voto apontada pelas diferentes instituições e confirmada por diversos agregadores de pesquisa.

Convenhamos: para que tivesse havido uma fraude dessa dimensão, seria preciso que todos os dirigentes desses institutos e pesquisadores subordinados, que elaboraram os questionários, determinaram a amostragem e treinaram o pessoal de campo, tivessem concordado em “suicidar” sua reputação e afundar voluntariamente a futura credibilidade comercial e política de suas empresas. Uma possibilidade que evidentemente está longe de ser lógica ou exequível.

Imagino, então, que o arrastão de votos a favor de Bolsonaro no dia do primeiro turno tenha acontecido da seguinte maneira: um comando do Gabinete do Ódio teria sido enviado desde as últimas semanas das sondagens eleitorais aos principais cabos eleitorais do presidente para que determinassem por sua vez que, caso fossem entrevistados por algum grande instituto associado a jornais, emissoras de tevê e portais de internet “de esquerda”, os eleitores intencionalmente mentissem, respondendo ou que ainda não sabiam em quem votar ou que estivessem pensando em votar nulo ou branco. Mas essa era só a primeira fase do complô que imagino e descrevo a seguir.

O primeiro sinal de que algo de grande porte e malcheiroso estava sendo tramado por baixo dos panos foi dado quando, a menos de 10 dias da eleição, o próprio presidente se encarregou de espalhar a notícia de que seria reeleito, com “ao menos 60% dos votos”. Além disso, na mesma época ele ensaiou pela primeira vez encarnar o personagem “JB paz e amor”, conclamando os eleitores a optarem pela “harmonia” social, pela segurança das armas e pela diminuição dos indicadores de fome e desemprego.

Na sequência, entre sexta-feira e domingo, o comitê central da ala mais radical do bolsonarismo deve ter ordenado aos principais cabeças regionais da campanha – isto é, gente com forte ascendência sobre uma massa de subordinados/dependentes e também capaz de garantir sigilo absoluto da operação – que “persuadissem” gentilmente o maior número possível de eleitores indecisos, além dos de Ciro Gomes e Simone Tebet, a despejar seus votos em massa no capitão. Dada a complexidade logística da operação, o comando pode ter sido distribuído através de sites da ‘dark web’ que não pudessem ser facilmente monitorados, e multiplicado aos milhares através de grupos fechados de whatsapp. O que foi prometido a cada um para que alterassem de última hora sua intenção de voto é difícil de saber. Além das habituais promessas de dentadura e alpercatas, emprego e comida, deve ter funcionado fundamentalmente a pressão dos grandes empresários do agronegócio e da indústria extrativista, dada a promessa explícita de muitos de demitir todos os funcionários que manifestassem direta ou indiretamente a intenção de votar em Lula. Não me parece improvável ainda que a operação tenha contado com o auxílio luxuoso de lojistas de grande porte do sudeste, como Luciano Hang, e até de milicianos para reforçar o exigido código de silêncio.

O que me leva a pensar que isso tenha acontecido de fato? Antes de mais nada, o silêncio e a compostura dos bolsonaristas fanáticos no dia das eleições. Aquilo que todo mundo temia – gigantescas manifestações e conflitos sangrentos de rua, boca de urna agressiva, intimidação aberta de eleitores nas ruas do entorno das seções eleitorais – simplesmente não aconteceu. Nem aqui nem no exterior. Tenho vários amigos que moram além-mar e todos registraram, sem exceção, sua surpresa (e até uma pontinha de orgulho) com a civilidade dos apoiadores de Bolsonaro na França, na Suíça, na Holanda e na Inglaterra.

Ninguém mais voltou aos temas-lemas de urnas auditáveis, sala secreta de totalização dos votos, fiscalização dos militares, etc. por pelo menos duas semanas antes da eleição. Ninguém protestou ou xingou Alexandre de Moraes em função das regras de proibição de celulares e do transporte de armas. Um estranhíssimo silêncio, compatível com a tradicional estratégia dos índios americanos antes de um ataque mortal contra as caravanas dos primeiros colonizadores.

Outra evidência para lá de suspeita: pouquíssimos votos em branco e nulos foram observados na contagem final. Mais uma vez, uma estranhíssima coincidência dado o grande contingente de eleitores declaradamente ‘nem-nem’. Raríssimos casos de crimes eleitorais – como postagem de imagens de celular de dentro das cabines de votação, denúncias fake de fraudes ou conflitos com mesários – surgiram nas redes sociais e compõem os derradeiros indicadores. Curiosamente, todas as peças publicitárias da campanha de segundo turno do capitão exibem eleitores entusiasmados declarando que “consegui mais dois”, “e eu consegui trinta”. Coincidência?

Finalmente, uma vez constatada a gritante incoerência entre as previsões e o resultado efetivo colhido nas urnas, o que foi que aconteceu? A generalizada gritaria e exigência de criminalização dos institutos de pesquisa por parte de figuras manjadas do Centrão, além da cara de paisagem do filho de Bolsonaro, Carlos, ao lado do pai, subitamente sereno e com ar de aliviado, na primeira aparição pública após a divulgação dos resultados.

Seja ou não confirmada minha teoria conspiratória por outras evidências, posso apostar que a mesma estratégia será usada no segundo turno e causará um clima de tensão inaudito entre os analistas e cientistas políticos. Não me espantarei se Bolsonaro colher mais votos ainda em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Já quanto à eleição do carioca Tarcísio de Freitas para o governo paulista, a meu são favas contadas, independentemente da participação dele ou não nesse grande imbróglio: paulista adora um canteiro de obras atrapalhando o trânsito.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Os cortes de Bolsonaro

José Horta Manzano

Em artigo de sábado, o Estadão expõe os cortes feitos por Bolsonaro nas áreas da Educação e da Saúde Pública. A razão da poda é desviar recursos para alimentar o orçamento secreto, nebuloso sistema de distribuição de verbas a parlamentares, sem critério de transparência – daí o nome de “secreto”.

Percebe-se que a restrição de recursos é direcionada às áreas que o capitão odeia com maior furor.

De fato, a Saúde Pública é seu espantalho, como seu comportamento ao longo da pandemia revelou. Recluso num universo paralelo, Bolsonaro cultiva o negacionismo em seu esplendor. Nega-se obstinadamente a reconhecer a fragilidade do ser humano e as agruras do sofrimento alheio. Em sua lógica, o brasileiro deve enfrentar, peito aberto, todos os riscos à saúde. Afinal, este não pode ser um país de maricas! Que os fracos sejam varridos do mapa! Vacina? Tratamento? Remédio? Consulta? Pra quê? Tome cloroquina, que passa.

Ao lado da Saúde, a Instrução Pública é seu outro saco de pancada. Visto que ele não aprendeu grande coisa na vida, acabou atraindo uma coorte de brutos e ignorantes – o que é lógico e natural. Estendendo o raciocínio, ele não vê necessidade de oferecer os benefícios de uma educação de qualidade à população. Talvez pressinta que, se os eleitores tivessem aprendido a pensar, ele jamais teria sido eleito. Não serviria nem para síndico de condomínio.


Cortes de orçamento programados para 2023
– um florilégio –

Farmácia Popular
É programa que beneficia mais de 21 milhões de brasileiros. Sofrerá amputação de 59%. Ítens cortados: 13 diferentes princípios ativos. Entre eles, tratamentos usados contra diabetes, hipertensão, asma. A tesoura atingiu até fraldas geriátricas.

Prevenção e controle do câncer
O câncer é a segunda doença mais mortal no país. A verba destinada a prevenção e controle dessa enfermidade foi reduzida em 45%.

Aids
Programa que distribui remédios para tratar aids, hepatite viral e outras IST (infecções sexualmente transmissíveis) sofreu uma tesourada de R$ 407 milhões.

Merenda escolar
O governo de Bolsonaro vetou o reajuste, com correção pela inflação, da verba para a merenda escolar, que já não era reajustada havia 5 anos. Aluninhos vão continuar tendo de estender o dedinho pra receber um carimbo que indicará que já foram servidos e não podem repetir o prato. E vão continuar a dividir um ovo entre quatro crianças. Para muitos deles, a merenda é refeição mais nutritiva do dia – quando não é a única.

Outras áreas
Há outras áreas penalizadas pelos cortes. A Educação é a que mais vai sofrer. O programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) é outra destinação visada pelo bloqueio bolsonárico. A pasta de Ciência e Tecnologia e a de Desenvolvimento Regional também vão receber recursos minguados. Há outras áreas, mas é bom parar por aqui, que é pra evitar ficar mais deprimido.

Quem achar que isso é uma beleza e que está muito bom assim, que vote no capitão. Só que tem uma coisa: depois não vale dizer que não sabia.

De volta para o futuro – 3

Carlos Brickmann (*)

Em 1618, na Europa, começou a Guerra dos 30 Anos, entre protestantes e católicos. No final, houve um acordo: em cada Estado a população teria a religião de seu monarca. Naqueles tempos, era estranhíssima a ideia de que cada pessoa pudesse ter a religião de sua escolha.

E que é que discutimos no Brasil de hoje? Se um candidato ter visitado um templo maçom é suficiente para que não se vote mais nele, ou se evangélico deve ser obrigado a votar em evangélico.

No século 17, Galileo Galilei demonstrou que a Terra é uma esfera. E hoje temos discussões sobre a Terra plana.

Só falta discutir se os índios têm alma – e dá até medo ver essa ideia voltar na campanha eleitoral mais antiga de nossa História.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

A canoa furou

by Géraldine Streichert, artista francesa

José Horta Manzano

É difícil embarcar em duas canoas ao mesmo tempo. Alguns encontram a solução: ficar de pé e pôr um pé em cada canoa. Às vezes dá certo, mas é raro. Bolsonaro, com poucos cartuchos na mão depois do primeiro turno, está apostando na arte de equilibrar-se entre duas canoas, um pé em cada uma.

Durante quatro anos, botou fé no apoio das comunidades neopentecostais. Com a cumplicidade de sua mulher, transformaram comícios eleitorais em verdadeiros cultos evangélicos ao ar livre. Só que, apurados os votos do primeiro turno, levou um susto. Descobriu que estava longe da meta que tinha fixado: vencer com 60% dos votos. O voto evangélico não tinha sido suficiente.

Às pressas, o capitão decidiu mostrar que não é tão neopentecostal assim. Espichou o pé para outra canoa, disposto a provar que é também católico fervoroso. Por coincidência, as festividades do Círio de Nazaré caíam bem entre os dois turnos da presidencial.

Ao anunciar sua ida a Belém, Bolsonaro crispou o ambiente. A Arquidiocese de Belém fez saber que não admitiria uso político da celebração. Garantiu não haver convidado nenhuma autoridade política, nem mesmo o presidente da República. O prefeito de Belém chegou a declarar que “a fé de todos os paraenses não pode ser sequestrada por uma candidatura à Presidência”.

Mais claro, impossível. O recado que não foi pronunciado mas ficou implícito no não-convite era: “Vosmicê não é dos nossos; vá catar coquinho na sua paróquia”. Ficou evidente que a tentativa de se equilibrar entre duas canoas afundou. As autoridades católicas não estão dispostas a dar palanque a um trânsfuga. Se ele escolheu com tanta ênfase sua vertente do cristianismo, que se contente com ela e que não venha semear discórdia na nossa grei.

Um Bolsonaro desenxabido publicou nas redes sociais uma foto que mostra sua silhueta e serve de prova discreta de sua participação nas celebrações. Só que – ai, ai, ai – pouco familiarizado com festas católicas, imaginou que em Belém estivessem louvando a memória de um sírio que andou fazendo artes em Nazaré nos tempos bíblicos. E mandou ver: Sírio de Nazaré.

A zombaria chegou rápido e forte: “Como assim, Excelência, não sabe nem escrever o nome da festa de que participou?” (Traduzi em linguagem decente, porque, no original, os comentários são inflamados e bem mais ásperos.) A canoa furou.

 

 

Que sírio é esse?
Não é sírio, mas círio, com C. Círio, da família de cera, é uma vela grossa e alta. Esse termo, quem nos veio pelo latim, tem alguns poucos parentes em português, entre os quais o verbo encerar e o substantivo cerume. A palavra querosene também é derivada de uma raiz que significa cera, mas nos veio diretamente do grego.

Nordeste contra Bolsonaristão

Sérgio Rodrigues (*)

Folheio o “Dicionário do Nordeste” (Cepe), de Fred Navarro, procurando entre seus mais de 10 mil verbetes palavras que expressem o que escapa à minha linguagem habitual, como escapou às pesquisas de opinião. Já não falamos a mesma língua, o Brasil e eu?

Como bem observou Marcelo Coelho em sua coluna de 4 de outubro, era para Bolsonaro, que não vale um jerimum cheio d’água, não ter voto nenhum depois do mal que fez à população brasileira. Ao contrário, o que vimos foi essa estrovação, esse estrago.

Bem, falar em voto nenhum é exagero, pois o cabra detém a máquina e sempre vai haver abestalhados no mundo, gente que tem as tripas na cabeça. Mas no máximo, vamos supor, aqueles 27% dos votos que lhe deu o povo do Nordeste, contra os 67% de Lula.

Aí, sim, a gente estaria agora mesmo arretirado da luta e caindo por uns dias na vadiação, na folia merecida depois de atravessar o raso da Catarina desse governo dos infernos. Em vez disso, que vergonha – ou como se diz no Piauí, o mais antibolsonarista dos estados, que bonito pra sua priquita, Brasil!

Eu sei, devo estar falando nordestinês com sotaque, embriagado pelo ótimo dicionário de Navarro. Minhas intenções são as melhores. Cresci num engenho de açúcar com Zé Lins, contemplei treponemas com Zé Ramalho, estudei o samba com Tom Zé, estrangeiro é que não sou.

Nunca me esqueci de um show de Bráulio Tavares no Rio de Janeiro no início dos anos 1980, quando ouvi pela primeira vez as divertidas glosas do compositor e escritor paraibano para o mote “Imagine o Brasil ser dividido/E o Nordeste ficar independente”.

Pois acabo de imaginar e não gostei: subtraído do naco acima de Minas, o Brasil já seria neste momento um aleijão, uma Gilead histérica embalada em sertanejo universitário, slogans liberaloides de faria-limers e frases motivacionais de coaches semialfabetizados.

Encaremos os fatos: sem o voto nordestino, já estaríamos rendidos ao cabrunquento encarregado de pendurar o Brasil, conta gorda e vistosa, no colar da extrema direita internacional.

Pode ser que o país acabe sendo essa desgraça mesmo, mas não ainda, não tão depressa – graças ao Nordeste. Nossa metade sadia, que está toda dolorida como se tivesse tomado um chá de casca de vaca, uma surra de chicote, sabe bem para onde remeter seus votos de gratidão.

Se o futuro fascistoide não está rebocado, quer dizer, garantido, devemos essa graça à terra abençoada de Graciliano Ramos e Jackson do Pandeiro, de Nise da Silveira e João Cabral, de Lia de Itamaracá e Mestre Vitalino, de Maria Bonita e Xico Sá.

Mas talqualmente uma lagartixa, que sabe em que pau bate a cabeça, já passou da hora de todo mundo ficar esperto e proteger o franzidinho. Depois do dia 30, se nossos irmãos lá de cima não tiverem ajuda para varrer o basculho, ninguém vai poder dizer uste nem aste, vai ter que calar o bico.

Para quem não é caso perdido, mas anda com leseiras de neutralidade, um aviso: ou a gente elege o filho de Garanhuns ou pode esquecer. Mais quatro anos daquele xexéu e não vai ter democracia mais, não vai ter floresta mais, não vai ter índio mais, não vai ter Brasil mais.

Aí o jeito vai ser adotar a saída Bráulio Tavares e declarar a independência do Nordeste, quem sabe acompanhada da reivindicação do nome Brasil, que, acredito, o Bolsonaristão não fará questão de manter. Já estou estudando com o mestre Navarro para requerer minha cidadania.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista.

Perda da nacionalidade

José Horta Manzano

Faz alguns dias, saiu uma notícia que, vista a proximidade das eleições, passou quase despercebida. Trata-se de um processo de perda de cidadania a ser possivelmente instaurado contra uma das ex-esposas do capitão.

 


Entre parênteses
Bolsonaro, que proclama alto e bom som ser “conservador nos costumes”, tem cinco filhos de três esposas diferentes. O objeto da notícia é uma delas.


 

O fato é que a referida senhora se casou com um norueguês, deixou o Brasil e acabou adquirindo a nacionalidade norueguesa. Nossa confusa Constituição, que às vezes parece ter sido feita no século 19, estipula que “será declarada a perda da nacionalidade do brasileiro que […] adquirir outra nacionalidade”.

O texto é aparentemente suavizado na alínea seguinte. Ela reza que, se a naturalização tiver sido imposta ao brasileiro “como condição para permanência no território ou para o exercício de direitos civis”, ele escapará da penalidade e não perderá a nacionalidade brasileira.

A ressalva mencionada no parágrafo anterior é apenas aparente, pois aborda um caso que não existe na vida real. Nunca ouvi falar de nenhum país que impusesse a naturalização de todo estrangeiro que quisesse permanecer em seu território.

Portanto, todo compatriota que ousar adquirir outra cidadania será punido com a perda da nacionalidade de origem.

A mim, que passei a vida rodando mundo, essa visão parece medieval. Vê-se que a Constituição (assim como as leis comuns) foi preparada por parlamentares com pouca vivência internacional. O mundo é vasto, variado, colorido, bem maior do que a cachola da maioria dos que estão refestelados no Congresso com o intuito de engordar o próprio patrimônio. O “exterior” não se resume a Paris ou Miami.

Países mais avançados não costumam confiscar a nacionalidade de seus filhos por terem adquirido outra(s) nacionalidade(s). A cidadania pode ser concedida a estrangeiros que tenham vivido um certo número de anos no território. A nacionalidade do país X pode ser outorgada por matrimônio, ou seja, ao estrangeiro que tiver vivido um certo número de anos casado com alguém originário do país X. O país Y pode ainda facilitar a naturalização de estrangeiros com filhos nascidos em território Y.

Sabendo-se que cerca de 3 milhões de compatriotas vivem no exterior, é permitido crer que boa parte deles adquiriu um segundo passaporte – não por imposição de ninguém, mas por iniciativa própria. Pela legislação brasileira, estão todos na ilegalidade, passíveis de perda da nacionalidade brasileira.

Fechar os olhos e fingir que o problema não existe não é a melhor solução. Entendo que nenhum parlamentar vai abraçar essa causa, visto que eleitores do estrangeiro não votam para deputado e senador. Eis por que defendo a criação de uma nova circunscrição eleitoral: o estrangeiro, no mesmo plano que os estados da Federação, com senadores e um determinado número de deputados. Esses seriam os defensores de nossos interesses.

Quanto à ex-mulher do capitão, não sei como terminou o caso. Fico devendo.