O tédio sem Bolsonaro

Mariliz Pereira Jorge (*)

Vocês estão ouvindo? Eu também não. Que delícia o silêncio. Silêncio que tem som de paz, de calmaria, de tarde de férias. Duas semanas sem live do Biroliro. Duas semanas em que ele posta apenas fotos, feito um blogueiro aposentado. Duas semanas que não xinga jornalistas, não faz arminha com a mão, não ameaça alguma minoria.

Em meio ao primeiro pronunciamento do vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, tive vontade de mudar o canal. Meu Deus, que tédio. Que tédio gostoso. Picolé de Chuchu é vice, usa meias de bolinhas, não xinga jornalistas e fala num tom como se fosse mesmo uma autoridade. Esse é o país que quero, do tédio.

Duas semanas, obrigada, obrigada, sem ouvir “cuestão” e “no tocante”. Duas semanas sem dar de cara a todo momento com aquela cara perebenta na TV, nos jornais, em camiseta de minion. Prefiro ver o Lula chorar ao falar de pobre a aguentar o ignóbil dizer que as pessoas não passam fome.

Tudo de volta à normalidade, jornalistas já começaram a ser chamados de PIG (Partido da Imprensa Golpista), mas sem violência, sem chamar de puta, com aquele verniz intelectual e aquele desprezo maroto pela categoria que só a esquerda consegue ter. Meus haters favoritos. E olha que nem começou, prometo que a partir de janeiro é que terá motivo. Reservem o seu ódio. Por enquanto, apreciem o silêncio.

O tédio chegou até a um dos maiores redutos minions do país. Os tios do Zap do meu bairro voltaram todos para a praça. Golpe agora é só no dominó e para não pagar sacola de plástico no supermercado. Quem quiser bater continência para milico precisa pagar R$ 6 para entrar no Forte de Copacabana. Aproveite que esta semana tem exposição de blindados. Pelo clima de tédio no lugar, posso apostar que não tem um militar ali querendo trocar a vista do Posto 6 para se alinhar a golpistas nas estradas.

Apreciem o silêncio. Dias sem ouvir a familícia, a micheque, a doidamares et caterva. A única notícia que se tem é que Bolsonaro tem gastado R$ 100 mil por dia no cartão corporativo. Eu entendo, quando fico sem nada para fazer me entretenho no Mercado Livre. O boleto que lute. No caso do cartão da fatura do presidente, o brasileiro que se vire.

(*) Mariliz Pereira Jorge é jornalista e escritora. O presente artigo foi publicado pela Folha de São Paulo de 12 nov° 2022.

Um pensamento sobre “O tédio sem Bolsonaro

  1. Maravilhoso estarmos livres do tormento que foram os últimos anos no Brasil em que cada dia passávamos por um susto presidencial.

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