Lembra do “brienfing”?

José Horta Manzano

Parece que faz um século, mas aconteceu quatro meses atrás. Foi quando um desesperado capitão convocou o corpo diplomático acreditado em Brasília para revelar-lhe que nosso elogiado sistema eleitoral era disfuncional e fraudulento.

Todos hão de ter duvidado da sanidade mental do presidente. Disfuncional mesmo é um sujeito que venceu todas as nove eleições de que participou dizer que o sistema é aberto a fraudes. Coisa de desequilibrado.

Presidentes ignorantes, corruptos, populistas, mentirosos, incapazes, já tivemos. Mas a história não assinala nenhum que tenha convocado o corpo diplomático acreditado em Brasília para falar mal do Brasil. Fico imaginando os termos que cada embaixador utilizou no relatório enviado a seu respectivo governo. É melhor nem ficar sabendo. De vergonha, basta o que o capitão disse em público.

Na ocasião da palestra oferecida por Bolsonaro aos embaixadores, o telão erguido ao lado do orador dizia que a palestra era um “brienfing”. A palavra utilizada me pareceu ofensiva e presunçosa. No original, designa uma reunião em que o discursante dá instruções aos que assistem. Para coroar, foi mal grafada. Por ignorância ou desleixo, enfiaram um “n” onde não devia estar. O correto é “briefing”.

Francamente, ignorância e desleixo parecem estar incrustadas no universo bolsonarista. A foto acima foi tirada num desses acampamentos organizados diante de quartéis. De novo, maltrataram uma palavra da língua inglesa. “Freedom” (=liberdade) aparece mal grafada.

Quem bolou o texto julgou que palavra terminada em “m” parece brasileira, não inglesa. Deve ser por isso que tascou um “n” no fim. Fica com ar mais estrangeiro. É como alguns “Willian” que há por aí.

Antigamente se dizia que “quem não tem competência, não se estabelece”. Parece que o ditado já não vale.

Imigrantes ucranianos

Reparem que o único a usar máscara que lhe esconde o rosto é um rapaz de aparência jovem.
O Globo, 11 abr 2022.

José Horta Manzano


Verás que um filho teu não foge à luta


Em primeiro lugar, quero deixar bem claro que sinto imensa pena do infeliz povo ucraniano, covardemente atacado pelo (que se acreditava ser o) segundo exército do planeta, poderoso e bem armado. Que os agressores não sejam tão treinados nem tão articulados como se imaginava, não muda nada. São mais numerosos e donos de potencial ofensivo de primeira.

O jornal O Globo dá hoje notícia de 74 ucranianos que fugiram da invasão russa e encontraram refúgio em nosso país. O número de abrigados no Brasil é baixo, um nadinha perto dos 4,5 milhões de solicitantes de asilo que já tinham sido contabilizados deixando o país até o meio-dia de ontem. Assim mesmo, é sempre melhor acolher uns poucos do que nenhum.

Acredito que o Brasil tem potencial – e vocação – para receber muito mais gente. Mas o fato é que os que fogem da Ucrânia neste momento saem com intenção de voltar o mais rápido possível. Não são imigrantes como nos tempos de antigamente, que vendiam tudo, escolhiam o destino e vinham com armas e bagagens pra nunca mais voltar.

Os ucranianos só precisam de abrigo temporário; assim que as bombas pararem de cair do céu, querem voltar. Por isso, é compreensível que prefiram não se refugiar a 11.000 ou 12.000 quilômetros de distância de Kiev.

Na notícia d’O Globo, lê-se o seguinte:


“Os homens somam 83% do contingente de imigrantes ucranianos e 46% do total são do sexo masculino na faixa etária entre 25 e 39 anos. As mulheres somam 17% e a maioria delas, cerca de 10% do total de imigrantes, têm entre 25 e 39 anos. Entre homens e mulheres, não houve imigrantes acima de 65 anos e apenas 2% tinham menos de 14 anos na data de entrada no País.”


Fiquei um tanto perplexo. É sabido que os ucranianos do sexo masculino com idade entre 18 e 60 anos estão convocados para a defesa da pátria e, por esse fato, proibidos de deixar o país. Não é opção, é obrigatório.

A todo momento veem-se imagens de jovens que acompanham mulher e filhos pequenos até a fronteira polonesa, e em seguida embarcam de volta no mesmo trem em obediência à convocação.

A torturada redação do texto do jornal não é um primor de clareza. Assim mesmo, entende-se que 83% dos imigrantes acolhidos no Brasil são do sexo masculino e que os 17% restantes são mulheres, o que não deixa de ser lógico (83% + 17% = 100%). Aprende-se também que não há imigrantes com mais de 65 anos.

Agora vem a conclusão: a menos que todos os homens acolhidos em nosso país tenham entre 60 e 64 anos, portanto fora da faixa de alistamento obrigatório, fato bastante improvável, conclui-se que o Brasil está dando abrigo a um contigente de refratários à convocação decretada pelo governo de Kiev.

Pode-se dar um desconto e imaginar que os imigrantes tenham sido declarados inaptos para o serviço militar por serem “portadores” de problemas físicos ou mentais, como se deve dizer atualmente. Parece conjectura altamente improvável.

Resta a hipótese mais provável: o Brasil está concedendo visto humanitário a homens na força da idade, que chegam solteiros a nosso país, por terem se recusado a ajudar a defender a terra que os viu nascer e crescer. E fazem isso justamente na hora em que ela mais precisa deles.

Se assim for, começa a ficar clara a razão de a maioria dos acolhidos ser do sexo masculino. Fica também evidente o porquê de terem buscado refúgio a milhares de quilômetros da terra natal.

Ajudar a Ucrânia a enfrentar o agressor é uma coisa; acolher desertores é outra. Bem diferente.

Seria interessante pedir esclarecimentos ao Conare (Comitê Nacional para os Refugiados). Por fineza, o distinto teria o número de telefone deles?

Rodeios

José Horta Manzano

Às vezes é complicado abordar um assunto. Nessas horas, a gente dá voltas, enrola, tergiversa, rodeia, fica sem jeito e não encontra coragem. O tempo passa e o que tinha de ser feito vai ficando cada dia mais difícil. É o que está ocorrendo há mais de ano na política brasileira.

Logo que assumiu a Presidência, Jair Bolsonaro começou a dar sinais inquietantes de que não era o funcionário certo no cargo certo. Sua adoração por Trump, a história da mudança da embaixada em Israel, a ofensa à mulher de Macron acenderam luz amarela. “Será que esse homem bate bem da bola?” – era a pergunta que corria por becos e ladeiras.

A pergunta continua no ar, sem resposta definitiva. Será um bobão amalucado ou simplesmente um ignorante mal-intencionado? Saberemos um dia com certeza. O que, desde já, sabemos é que a prova de fogo da pandemia foi um revelador que desnudou o rei. O atual presidente não está capacitado pra exercer o cargo. Sua troca é mais que urgente. Só não enxerga quem não quer.

Os poderosos do andar de cima, no entanto, têm-se mostrado incapazes de atacar o problema. Rodeiam, rodeiam e sempre atiram para os lados sem mirar o centro. Faz tempo que estão nesse “faz que vai, mas não vai”. Parece que têm medo do tigre de papel.

Em vez de pressionar o presidente da Câmara para instaurar logo um processo de impeachment, instalaram uma CPI. Convocam gregos e troianos, gente fina e gente à toa, bem-intencionados e mentirosos. Mandaram que um determinado indivíduo seja trazido à força diante do comitê. Sabem todos perfeitamente que o nome do mal é um só: Jair Bolsonaro. Mas evitam atacá-lo de frente.

Será que todos têm medo de melindrar o capitão? Eleitoralmente, terá muito a ganhar quem se dispuser abertamente a desalojá-lo do pedestal. Essa atitude de “rabo no meio das pernas” não é produtiva. Num dos momentos mais dolorosos de sua história, não é disso que o Brasil precisa. Francamente.

Quarta-feira

José Horta Manzano

Em vídeo lançado nas redes, doutor Bolsonaro autoqualificou-se de «presidente cristão, patriota, capaz, justo e incorruptível». A falsidade intelectual contida da frase é tamanha, que faz a desonestidade petista parecer coisa pouca. Aliás, em matéria de hipocrisia, o atual inquilino do Planalto está deixando o próprio Lula no chinelo. Uma façanha!

Em atitude pra lá de temerária, Bolsonaro encasquetou de convocar o povo pra afrontar o Congresso. Levando em conta que o Congresso foi eleito por esse mesmo povo, algo está fora de lógica. Enfim, como exigir lógica de um presidente desequilibrado?

A lei permite que o mandato de um indivíduo (congressista ou o próprio presidente) seja cassado. Há regras para isso, sem necessidade de botar o povo nas ruas. No entanto, não é possível fechar o Congresso, cassando assim, de facto, o mandato de todos os congressistas. Isso tem nome: é golpe de Estado.

Posso entender a boa intenção dos que votaram no Lula em 2002, assim como a dos que votaram no Bolsonaro em 2018. Por seu lado, tenho dificuldade em captar a lógica dos que votaram no lulopetismo depois do mensalão e do petrolão, assim como dos que apoiam doutor Bolsonaro depois de um desastroso primeiro ano no poder.

Respeito todos os apoiadores de um e de outro. Assim mesmo, recomendo a todos aproveitar esta Quarta-Feira de Cinzas pra dar uma passadinha numa igreja qualquer e tomar as cinzas – prática com a qual os fieis de antigamente se penitenciavam dos excessos carnavalescos. Pode servir pra apaziguar ânimos e aclarar mentes.