Mãe de todas as bombas

José Horta Manzano

Ainda bem que a memória humana é curta. A esmagadora maioria dos fatos acontecidos em passado próximo ou distante já nos teria saído da lembrança se não fossem registros escritos e livros de história.

Nos tempos que correm, a enxurrada de tragédias de que a gente fica sabendo deixam a impressão de que vivemos tempos terríveis, extraordinários, pontos fora de toda curva. Achamos que o mundo está sendo conduzido por desequilibrados e irresponsáveis dos quais nada de bom se pode esperar. Os impressionantes delírios de um Trump, de um Bachar, de um Maduro, de um Kim Jong-Un nos fazem esquecer que Hitler, Stalin, Mussolini, Napoleão já seguraram as rédeas e já fizeram das suas.

Dementes atuais relegam mentecaptos antigos ao baú do esquecimento. É melhor que seja assim. A cada época bastam seus desatinados.

Donald Trump se gabou, estes dias, de ter lançado a «mãe de todas as bombas» sobre um covil de djihadistas. Fica-se sabendo do prodigioso poder desse artefato bélico. Não se passaram dois dias, e Vladimir Putin manda dizer que dispõe de dispositivo de potência muito superior. Dá-lhe o nome de «pai de todas as bombas» e informa que sua arma tem poder ainda maior que o do rival. Seu potencial de explosão é quatro vezes superior ao dos EUA. Diz que já foi testada com sucesso e que está pronta para ser lançada se e quando necessário.

Hoje é Sábado de Aleluia, dia de malhar o Judas. Data venia, vamos sonhar um pouco, que não faz mal a ninguém. Sonho, qualquer dicionário confirma, é plano ou desejo absurdo, sem fundamento. Nestes dias em que grande parte da humanidade comemora a chegada da primavera, com sua simbologia de renascimento e renovação, por que não dar asas à fantasia e sonhar com algo (por ora) impossível?

Vamos imaginar que, no futuro, cientistas espremam seus miolos para inventar um engenho que, ao explodir, não destrua mas construa. Imagine o distinto leitor que se fabrique a «patriarca de todas as bombas». Ao ser acionada, consertaria, em um instante, as cidades e vilas destruídas na Síria. Reporia de pé monumentos milenares dinamitados por talibãs fanáticos. Reconstruiria localidades arrasadas por terremotos.

Essa, sim, seria uma criação digna de despertar respeito e admiração. Eu iria até mais longe. Lançaria a «patriarca de todas as bombas» sobre o Brasil, na esperança (e na expectativa) de que repusesse o país nos trilhos, que desse fim à corrupção que arruina o futuro de milhões em benefício do enriquecimento de um punhado de seres desprezíveis.

Infelizmente, acho que já estou pedindo demais. Certas coisas não são imagináveis nem em sonho.

Dinheiro “doado”

Políbio Braga (*)

Que ninguém se engane com a sem-cerimônia com que Emilio Odebrecht e seu filho Marcelo, mais os 76 outros delatores da Odebrecht, falam das “doações” que fizeram.

É que o dinheiro nunca foi deles. O dinheiro “doado” nunca foi da Odebrecht, foi sempre do povo brasileiro.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

Era tudo roubado da Petrobrás e de outros contratos superfaturados, portanto era dinheiro do povo brasileiro que eles tungavam e, em parte, repassavam a Lula e a seus comparsas dentro e fora do governo e do Congresso.

(*) Políbio Braga é jornalista e blogueiro de grande popularidade especialmente no Sul do país.

Menos médicos

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Estava conversando com meu amigo Sigismeno. Pra variar, o bate-papo era sobre as últimas peripécias da movimentada política nacional. Perguntei eu:

‒ Você viu, Sigismeno, essa decisão que Cuba tomou no âmbito do programa de mais médicos?

‒ Não, essa me escapou. O que foi mesmo?

‒ Pois estavam para enviar uma leva de 700 médicos, dentro do acordo firmado nos governos lulopetistas, quando, de repente, a viagem do pessoal foi bloqueada. E não foi por falta de avião. Parece que não virão mais médicos cubanos. Por aqui, alguns aplaudem a medida, outros não.

‒ E qual a razão da suspensão de envio de profissionais? Informaram?

‒ Olhe, Sigismeno, se entendi bem, 88 dos médicos já enviados ao Brasil entraram na Justiça com pedido para permanecer em nosso território. Não querem saber de voltar para a ilha de origem. Miséria por miséria, preferem a nossa. Para estancar a hemorragia e minorar o vexame, Havana prefere não mandar mais médico nenhum.

‒ E você acredita que a razão seja realmente essa?

‒ É o que a mídia noticiou, Sigismeno. Que eu saiba, ninguém pôs a afirmação em dúvida.

‒ Pois então, me dá muito orgulho ser o primeiro.

‒ Ah, você não tem jeito, Sigismeno. Sempre em desacordo com a maioria. E qual seria, segundo você a razão da súbita suspensão do programa?

‒ Bom, vamos fazer um rápido ‘flashback’. Faz alguns anos, assim que esse envio de médicos foi anunciado, eu já desconfiei que aí tinha coisa meio obscura. Aliás, se não me engano, comentei com você.

‒ Tem razão. Você ficou encafifado com o fato de os médicos não receberem o salário integral na conta bancária como todo assalariado.

‒ Pois é. Na época, o trato era remunerar os profissionais com dez mil reais mensais, o que me parecia um salário correto. O chato é que o médico só recebia três mil, sendo o resto confiscado e enviado diretamente ao governo cubano.

‒ É, era isso. Mas onde é mesmo que você viu problema?

‒ Sabendo que o lulopetismo não é composto de gente «boazinha», cujo desejo profundo é ajudar o sofrido povo cubano, concluí que a dinheirama enviada a Cuba havia de ter outro destino. Desde o começo, me pareceu claro que, daquela bolada, uma parte engordava as caixas do partidão caribenho e outra parte… voltava em malas, malotes e até cuecas.

‒ Ah, é verdade, Sigismeno! Agora me lembro da sua reflexão. Mas o que tem de ver a sua desconfiança com o que está acontecendo agora?

‒ Ora, me parece a consequência lógica da mudança de governo no Brasil. Se o vaivém financeiro funcionou enquanto duraram os governos “amigos”, a engrenagem engripou assim que caíram em desgraça. Depois de impeachment, Lava a Jato, Moro, Lista de Fachin e que tais, o circuito se rompeu.

‒ E por quê?

‒ Ah, não me peça detalhes. Não tenho espiões nem microfones ocultos no Planalto. A verdade é que o círculo não circula mais, se assim me posso exprimir. Talvez a gente não esteja conseguindo enxergar a razão justamente por ela ser simples e evidente: os principais atores da tragicomédia estão presos ou na iminência de sê-lo. Preferem não agravar a própria situação.

O voto do Conselho de Segurança

José Horta Manzano

A ONU, fundada em 1945, é retrato do mundo político daquele momento. A antiga Sociedade das Nações, criada logo após o primeiro conflito mundial, não tinha sido capaz de evitar o segundo. A ONU foi pensada como anteparo a futuras guerras. Embora não tenha conseguido evitar todas, contribuiu para impedir a catástrofe nuclear que se temia nos tempos da Guerra Fria.

Quando da fundação, havia duas condições para fazer parte do clube. A primeira era ser Estado independente. A segunda, ter declarado guerra à Alemanha pelo menos três meses antes do fim do conflito. Os membros fundadores não foram muitos: resumiram-se a 51. Os perdedores da guerra só foram admitidos anos mais tarde, e não todos ao mesmo tempo. Hungria e Itália entraram em 1955. No ano seguinte, foi a vez do Japão. A Alemanha só se tornou membro em 1973.

ONU ‒ sede de Nova York

Prevendo que, em casa onde vive muita gente, todos falam e ninguém se entende, os idealizadores criaram o Conselho de Segurança, órgão que, de facto, toma as decisões importantes. O CS, como é conhecido, compõe-se de 15 membros. Cinco deles são permanentes e os demais, temporários.

Os membros permanentes são justamente os maiores e mais fortes aliados que haviam vencido a Segunda Guerra. Por acaso, todos eles acabaram se tornando potências nucleares, ainda que não o fossem em 1945. São eles: EUA, Rússia (antes URSS), China, Reino Unido e França. Os dez membros rotativos são eleitos com mandato de dois anos. A cada ano, renova-se metade das dez cadeiras.

Os não-permanentes são Estados distribuídos equitativamente pelos continentes. A América Latina tem direito a duas cadeiras. Entre os membros não-permanentes, o Japão é o que já foi eleito mais vezes: está cumprindo o 11° biênio. Em segundo lugar, vem o Brasil, que já ocupou uma cadeira no CS durante 10 biênios. Em seguida, está a Argentina, eleita 9 vezes. Por razões que a razão desconhece, o Brasil não se tem candidatado a uma vaga rotativa estes últimos anos. Pelo mecanismo de funcionamento da ONU, terá de esperar até 2022 ou 2023 para postular de novo.

Atualmente, o Uruguai (biênio 2016-2017) e a Bolívia (biênio 2017-2018) ocupam as cadeiras do CS reservadas para a América Latina. O Japão, membro ativo e assíduo, tem lugar garantido até o fim de 2017. As regras da ONU não permitem a eleição de um membro não-permanente para dois biênios consecutivos.

ONU ‒ sede de Genebra

Para ser bem sucedida, uma proposição submetida ao CS terá de ser aceita pela maioria simples dos 15 membros, ou seja, se obtiver 8 votos a favor, entra em vigor. Mas há um senão: o voto contrário de um dos membros permanentes tem valor de veto.

O bombardeio com armas químicas orquestrado pelo ditador da Síria contra um vilarejo, que matou dezenas de civis e horrorizou o mundo, foi objeto de pedido de resolução de reprovação apresentado ao CS por EUA, França e Reino Unido. Submetido ao voto, o pedido obteve 10 votos a favor, 3 abstenções e 2 votos contrários.

Embora a maioria dos membros tenha votado a favor, um dos que se opuseram era a Rússia, cujo voto contrário tem valor de veto. Assim, a resolução não pôde ser  adotada. Sabe o distinto leitor qual foi o país que acompanhou a Rússia? Pois foi nossa vizinha e hermana, a Bolívia.

Surpreendente, não? Nenhuma decisão governamental é inocente ‒ há sempre algum interesse por detrás, ainda que não seja claro à primeira vista. Não acredito em legames ideológicos entre a Bolívia e o sanguinário ditador sírio que justifiquem voto tão bizarro. O buraco é mais embaixo.

Com o “projeto criminoso de poder” fora de cena, o Brasil volta ao caminho da civilização. Banidos os Kirchner, a Argentina também se afasta da esfera bolivariana. A aproximação entre Cuba e EUA, inaugurada por Obama, tende a apartar a ilha caribenha da influência de Caracas. Por fim, a orientação bolivariana da própria Venezuela está em acelerada decomposição. O alinhamento da Bolívia à Rússia parece ser sinal desesperado de busca de apoio, de procura de novo padrinho, em virtude de crescente isolamento. Não acredito que Moscou se deixe enternecer pelo olhar langoroso de La Paz.

Pensando bem – 14

José Horta Manzano

0-Pensando bem

Já diziam os antigos
«Tudo o que é demais cansa»
Assim mesmo, o fato espanta:
Nunca vi uma coisa assim
Como a Lista de Fachin.

Pra um político bandido,
Um Maluf, um Adhemar,
Dava-se pouca atenção
Saía até gozação.

Agora batemos no teto
O ambiente é abjeto.

Infelizmente, a overdose
Alivia a bandidagem
E dilui o desespero.

Quando a coisa é um exagero
Tem uma característica:
Já não é fato isolado
Passa a ser estatística.

Manchete incômoda

José Horta Manzano

A lista de Fachin não está em cartaz somente em nosso país. Já deu a volta ao mundo. O Brasil volta às manchetes internacionais em companhia incômoda. Na chamada de hoje do quotidiano francês Libération, aparecemos no mesmo nível de Dortmund e da Síria.

O essencial da atualidade desta quarta-feira, segundo Libération ‒ quotidiano francês
Chamada de 12 abril 2017

A menção à cidade alemã de Dortmund se deve ao ataque à bomba perpetrado contra o ônibus que levava a equipe de futebol local. A menção à Síria foi feita em virtude do encontro que se realiza hoje em Moscou entre o ministro de Relações Exteriores russo e seu homólogo americano.

«Falem bem, falem mal, mas falem de mim»(*) ‒ já dizia o outro. No fundo, eu preferia que, do Brasil, falassem bem. Pero… así son las cosas.

(*) É possível que essa frase seja deturpação do que um dia escreveu o irlandês Oscar Wilde: «The only thing worse than being talked about is not being talked about» ‒ A única coisa pior que cair na boca do povo é não cair na boca do povo.

Liberação dos céus

José Horta Manzano

Na comparação com países mais avançados, a poupança interna é insignificante no Brasil. As múltiplas razões vão da escassez de capitais, passam pela baixa renda média da população e chegam a questões culturais do tipo «na hora, a gente dá um jeito». Mudar esse estado de coisas não é simples, é obra para gerações.

Desde sempre, o desenvolvimento do país passou por aporte de capitais estrangeiros. Não fossem investimentos vindos de fora, não teríamos, por exemplo, indústria automobilística. No limite, ainda estaríamos na fase de escambo de miçangas contra produtos da terra, como no tempo dos descobridores.

A tendência à globalização, que se reforça nas últimas décadas, enterra, pouco a pouco, o conceito de que podemos nos virar sozinhos, como imaginávamos meio século atrás. A visão de um mundo feito de economias fechadas desvanece.

Nesta terça-feira, o Planalto edita medida provisória que derruba mais uma dessas barreiras. Trata-se da liberação de aporte de capital forasteiro a empresas de aviação. Até o momento presente, nenhuma companhia aérea brasileira podia ser controlada por estrangeiros. A regulamentação era pra lá de rigorosa: pelo menos 80% do capital tinha de ser genuinamente nacional. Com a nova MP, esse gargalo desaparece.

Faz sentido. Na verdade, o Brasil está até atrasado nesse campo. O importante é que o viajante seja beneficiado, pouco importando de onde tenha vindo o dinheiro. Se fossem mantidas as regras atuais, continuaríamos na esdrúxula situação de ter a mais importante companhia nacional com apenas meia dúzia de destinos fora do país, enquanto dezenas de empresas estrangeiras completam a demanda e transportam o grosso dos passageiros.

Uma companhia aérea ‒ constituída com capital nacional ou estrangeiro, tanto faz ‒ garante milhares de empregos diretos e indiretos. Quadros, dirigentes, funcionários de escritório, pessoal de solo, pilotos e tripulantes, empresas especializadas em «quentinhas», faxineiros, criadores de site internet, fabricantes de uniformes, mecânicos, call centers, especialistas em manutenção, controladores de voo contribuem para o funcionamento. Sem contar os viajantes que ganham novas opções de destino e de horário. Em sem falar na concorrência entre empresas, que é benéfica para os usuários.

As autoridades reguladoras do tráfego aéreo manterão, naturalmente, a prerrogativa de conceder novas rotas. Guardam grande poder de negociação: eu lhe dou esta rota desde que você assuma aquela (que ninguém quer).

Empoeiradas doutrinas nacionalistas de outras eras já não cabem no mundo atual. Como dizem os franceses, «peu importe le flacon pourvu qu’on ait l’ivresse» ‒ pouco importa a garrafa desde que o conteúdo embriague.

Paridade científica

José Horta Manzano

Você sabia?

Vamos começar a semana com notícia leve. Em meio a tanta catástrofe, uma treguazinha é sempre bem-vinda. Desde que se começaram a formar, as sociedades humanas dispensaram cuidados diferenciados a seus membros, segundo o sexo de cada um. Homens e mulheres não tinham atribuições idênticas.

by André-Philippe Côte (1955-), desenhista canadense

Em eras recuadas, era mais que compreensível. Ao homem, fisicamente mais avantajado, cabiam tarefas pesadas como a busca de alimento e a defesa do grupo. À mulher competia cuidar da prole e garantir a retaguarda. Mas os tempos mudaram e, com eles, os costumes.

Na Europa, duas grandes guerras foram determinantes para forçar o rearranjo das atribuições. Entre 1914 e 1918 e, em seguida, de 1939 a 1945, os homens foram convocados para a carnificina dos campos de batalha mas cada país tinha de continuar funcionando. Mulheres tiveram de preencher o vácuo criado pela ausência masculina. Nos campos, lavradoras assumiram todo o trabalho. Nas fábricas e nas cidades, operárias, condutoras de bonde, cozinheiras e artesãs passaram a cumprir missões antes exclusivamente masculinas.

Elsevier Foundation
Publicações científicas assinadas por homens e por mulheres
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Essas mudanças bruscas modificaram a visão da sociedade quanto ao papel feminino. A cada dia, as mulheres provavam ser capazes de fazer muito mais do que cuidar da casa e dos filhos. Algumas esquisitices demoraram a ser abolidas. O direito de voto foi, pouco a pouco, sendo estendido ao sexo feminino. Por incrível que possa parecer, até os anos 1970, na França, mulher casada não tinha direto a abrir conta bancária sem o assentimento do marido ‒ singularidade que, felizmente, já desapareceu.

Nas Américas em geral e no Brasil em particular, a distinção entre atribuições de cada sexo nunca foi tão rigorosa quanto na Europa ou em outras partes do mundo. Os tempos difíceis do desbravamento das novas terras contribuiu para isso. Desde o tempo em que bandeirantes se embrenhavam na mata atrás de riqueza, as mulheres foram obrigadas a assumir tarefas que, na Europa, não seriam destinadas a elas.

Talvez esteja aí um princípio de explicação para o que vem a seguir. Diferentemente de muitas estatísticas internacionais ‒ como as classificações Pisa e Gini ‒ em que o Brasil aparece na rabeira, notícia alvissareira nos chega estes dias. A Fundação Elsevier, baseada nos Países Baixos e dedicada a apoiar o desenvolvimento da ciência, acaba de anunciar suas estatísticas sobre a «paridade científica», a proporção de publicações científicas assinadas por mulheres.

by Aleutie, desenhista canadense

Nesse particular ‒ pasme, distinto leitor! ‒, nosso país ocupa o primeiro lugar. A pesquisa compara a situação em numerosos países: os 28 membros da União Europeia, os EUA, o Canadá, a Austrália, o Japão, Portugal, o México e o Chile. No período que vai de 2011 a 2015, 49% das publicações brasileiras foram assinadas por mulheres, em posição de empate com Portugal. Nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha ou na França, por exemplo, apenas 40% dos artigos foram produzidos por mulheres. O Japão aparece no fim da lista. Por lá, os homens, responsáveis por 80% das publicações, dominam amplamente o segmento.

Em termos práticos, podemos nos gabar de haver atingido a paridade entre sexos no campo científico. É grande passo na boa direção.

Variantes do capitalismo

Esta listinha já circula há pelo menos 15 anos. Antigamente, se dizia «de mão em mão». Agora, convém dizer «de tela em tela». Assim mesmo, o texto guarda intacta sua relação com a realidade. Especialmente no Brasil.

vache-5CAPITALISMO IDEAL
Você tem duas vacas. Vende uma e compra um touro. Eles se multiplicam e a economia cresce. Você vende o rebanho e, bem de vida e com o futuro garantido, se aposenta.

CAPITALISMO AMERICANO
Você tem duas vacas. Vende uma e força a outra a produzir leite de quatro vacas. Fica surpreso quando ela morre.

CAPITALISMO FRANCÊS
Você tem duas vacas. Entra em greve porque quer ter três.

CAPITALISMO CANADENSE
Você tem duas vacas. Usa o modelo do capitalismo americano. As vacas morrem. Você acusa o protecionismo brasileiro e adota medidas protecionistas para ter as três vacas do capitalismo francês.

vache-3CAPITALISMO JAPONÊS
Você tem duas vacas, né? Redesenha-as para que tenham um décimo do tamanho de uma vaca normal e produzam 20 vezes mais leite. Depois cria desenhos de vacas chamados Vaquimon e os vende para o mundo inteiro.

CAPITALISMO BRITÂNICO
Você tem duas vacas. As duas são loucas.

CAPITALISMO HOLANDÊS
Você tem duas vacas. Elas vivem juntas, não gostam de touros e tudo bem.

CAPITALISMO ALEMÃO
Você tem duas vacas. Elas produzem leite pontual e regularmente, segundo padrões de quantidade previamente estabelecido. O horário da ordenha é fruto de estudo científico. Toda a execução segue ritual preciso e lucrativo. Mas o que você queria mesmo era criar porcos.

CAPITALISMO RUSSO
Você tem duas vacas. Conta-as e vê que tem cinco. Conta de novo e vê que tem 42. Conta de novo e constata que são apenas 12. Você para de contar e abre outra garrafa de vodca.

CAPITALISMO SUÍÇO
Você tem 500 vacas, mas nenhuma é sua. Você cobra para guardar a vaca dos outros.

CAPITALISMO ESPANHOL
Você tem muito orgulho de ter duas vacas.

CAPITALISMO PORTUGUÊS
Você tem duas vacas. E reclama porque seu rebanho não cresce.

vache-4CAPITALISMO CHINÊS
Você tem duas vacas e 300 pessoas tirando leite delas. Você se gaba muito de ter pleno emprego e uma alta produtividade. E manda prender o ativista que divulgou os números.

CAPITALISMO HINDU
Você tem duas vacas. Ai de quem tocar nelas.

CAPITALISMO ARGENTINO
Você tem duas vacas. Você se esforça para ensinar as vacas a mugir em inglês. As vacas morrem. Você oferece a carne delas para o churrasco de fim de ano do FMI.

CAPITALISMO BRASILEIRO
Você tem duas vacas. Uma delas é levada por um ladrão. O governo cria a CCPV – Contribuição Compulsória pela Posse de Vaca. Um fiscal vem e o autua porque, embora você tenha recolhido corretamente a CCPV, devia ter calculado o valor pelo número de vacas presumidas e não pelo de vacas reais. A Receita Federal, por meio de dados também presumidos do seu consumo de leite, queijo, sapatos de couro e botões, presume que você tenha 200 vacas e, para se livrar da encrenca, você dá a vaca restante ao fiscal para ele deixar por isso mesmo.

De corrupção e de pedras

José Horta Manzano

Você sabia?

Das trevas, nasce a luz. Dizem que senhor Cabral, o probo ex-governador do Rio de Janeiro, aquele que atualmente goza um merecido período de vilegiatura no Complexo Penitenciário de Bangu, roubou pra caramba. Pelo que sai nos jornais, foram dezenas, quiçá centenas de milhões. Em moeda forte naturalmente.

Na época das vacas obesas, como homem requintado que é, não presenteava a esposa com bugigangas compradas na feirinha de artesanato. Os mimos vinham direto da prestigiosa H. Stern. Diz uma reportagem do Estadão que as 40 peças que o então governador comprovadamente adquiriu do mais conhecido joalheiro do país somam 6,3 milhões de reais. Um par de brincos custou, sozinho, 1,8 milhão. Ah, como é fácil ser pródigo com dinheiro alheio!…

Ametista bruta

Perante cliente tão ilustre, a direção da joalheria não hesitou em entrar na dança. Afinal, quando a orquestra toca samba, quem é que vai dançar valsa? Dado que o cliente pagava em dinheiro e não exigia recibo nem nota fiscal, o comerciante aproveitou para «esquecer» de registrar as vendas. Fraudaram, assim, o fisco. Rapina alimentando sonegação, veja só.

Engolfados no escândalo que resultou na prisão do extraordinário cliente, os dirigentes da rede joalheira não puderam escapar da condenação e da pena. Foram multados em 19 milhões de reais. Além disso, terão de emitir as notas fiscais «esquecidas» quando das vendas ao pródigo casal. Depois disso, regularizadas as transações, os montantes entrarão na contabilidade e serão taxados como manda o figurino.

Ametista lapidada

A punição não termina aí ‒ e é agora que chegamos ao ponto interessante da história. Além da multa, os proprietários da rede de lojas, herdeiros do pioneiro Hans Stern, foram condenados a prestar serviços à sociedade. Os detalhes não estão acertados, mas há grande possibilidade de que o mais tradicional fabricante e comerciante de joias do Brasil ofereça cursos profissionalizantes durante dois anos.

A notícia é pra lá de auspiciosa. Se dependesse de mim, anularia a multa e a substituiria por uns vinte ou trinta anos de cursos. O Brasil sairia ganhando, pode acreditar. Se estou enlouquecendo? Não, distinto leitor, é que, por acaso, conheço certas particularidades do ramo. Dou-lhes duas ou três pinceladas para entenderem aonde quero chegar.

Sabe qual é a capital mundial da lapidação de pedras coloridas? (Pedras coloridas são todas as preciosas e semipreciosas, com exceção do diamante.) Disse Antuérpia? Errou. Disse Londres? Errou. Nova York? Paris? Roma? Qual nada. Já faz anos que o maior centro de lapidação do planeta é Bangkok, capital da Tailândia.

Geodo de ágata ‒ vista externa

Como é possível num país que, em matéria de pedra, não produz nem mosaico português para calçamento de rua? Trata-se de decisão que veio de cima, política de longo alcance elaborada já faz anos. O Estado tailandês ofereceu a seus jovens aprendizado e formação no trato das gemas e das pedras finas. Formou-se uma legião de especialistas. Hoje são milhares de pequenas indústrias familiares ocupando salinhas em imensos arranha-céus. Do mundo inteiro chegam pedras que, uma vez lapidadas, são reexportadas com valor agregado.

Agora, outra pincelada. Sabemos todos que o Brasil é a maior província mineral do planeta. O Rio Grande do Sul é conhecido por suas pedras duras compostas de silício: ágatas, ametistas e numerosos quartzos. São pedras que, depois de trabalhadas, se transformam em joias ou em esculturas de valor. Agora vem a pergunta: Porto Alegre é, certamente, o maior centro exportador de joias e objetos de ametista e ágata, não é mesmo? Errado.

Geodo de ágata ‒ vista interna

Tirando meia dúzia de exceções, as pedras gaúchas são exportadas à China em estado bruto. O mais das vezes, geodos inteiros ‒ ainda fechados(!) ‒ são acondicionados em contêineres e vendidos a dois ou três dólares por quilo. Artesãos chineses se encarregarão de transformar esse material em joias e esculturas, centuplicando o valor.

Taí. Se os joalheiros apanhados e condenados se dispusessem a investir em criação de escolas para iniciar jovens brasileiros ao beneficiamento de pedras, eu não só anularia a multa como ainda lhes daria uma medalha. A longo prazo, quem sai ganhando é o país.

A solução do problema sírio

José Horta Manzano

Durante meio milênio, a região onde se situa a Síria atual esteve sob o mando do Império Otomano, como era chamada a extensa zona dominada pelos turcos. Quando espocou a Primeira Guerra mundial, os otomanos tiveram o azar de escolher o lado errado: apoiaram a Alemanha e o Império Austro-Húngaro. Perderam.

Na sequência da derrota, a Grã-Bretanha e a França puseram em prática o plano já acertado anos antes: repartiram o Oriente Médio em zonas de influência britânica ou francesa, um pouco para cada um. As fronteiras da Síria, tanto quanto as dos outros países da região (Jordânia, Iraque, Líbano, Kuwait), foram desenhadas nas pranchetas de Londres e de Paris. Muito provavelmente por ignorância, os decididores deram pouca ou nenhuma importância à população local, às etnias, às religiões, às alianças ou inimizades seculares. Deu no que deu. O caldeirão ferveu.

Na época dos otomanos, quando as ordens vinham de Constantinopla, estavam todos no mesmo saco, sob domínio estrangeiro. A partir do momento em que tiveram de autogovernar-se, o problema se pôs: qual das comunidades toma as rédeas? Aquilo virou um faroeste onde manda quem grita mais.

Repare na complexidade étnica da população síria
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Como se não bastassem as brigas intestinas, interesses externos têm contribuído para apimentar o molho. A criação do Estado de Israel, a descoberta de petróleo na região, a Guerra do Iraque, as pretensões iranianas de domínio regional, o antagonismo entre EUA e Rússia são fatores agravantes. Chegamos ao ponto em que nenhuma solução será satisfatória para todos. O emaranhado de interesses é tão complexo que, por mais que se procure um ponto de equilíbrio, não é possível encontrá-lo. Tem-se de optar pelo «menos pior».

Infelizmente, a única linguagem que se fará ouvir será a da firmeza e da força. Apesar de todos os defeitos, o longo período de domínio otomano trouxe relativa paz à região. Não será uma oposição entre EUA e Rússia que vai aplacar ódios ‒ só pode desembocar numa guerra por procuração. A melhor solução passará por um acordo, de preferência sob patrocínio da ONU, que garanta:

A destituição do atual ditador
É condição sine qua non. Enquanto Bachar permanecer no comando, será impossível acalmar os ânimos. O acúmulo de ódios é grande demais.

O desarmamento da população
Sempre haverá revólver escondido dentro de colchão. Mas todo esforço deve ser envidado para confiscar e neutralizar armamento pesado, tradicional e químico.

A manutenção da base naval russa de Tartus
Sem isso, nenhum acordo será alcançado ‒ toda proposta será vetada pelos russos. Eles veem a base como necessária para garantir presença na região.

Outra visão da complexidade étnica do território
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A criação de uma federação
A atual Síria será partilhada entre dezenas de microestados. Para definir as fronteiras, serão levadas em conta as diferenças entre os diversos povos: religião, língua, tradições, história.

Um poder central neutro sob mando externo
Um protetorado deverá ser estabelecido, preferivelmente sob a guarda da ONU. Um representante escolhido pelas Nações Unidas exercerá o poder executivo. Será substituído periodicamente. Não deverá ser árabe, nem originário da região, nem de nenhum dos membros permanentes do Conselho de Segurança.

Pronto, aí está a solução, que o resto é blá-blá-blá. Podem, naturalmente, deixar tudo como está pra ver como fica. A guerra não terá fim e ninguém sairá ganhando. Menos os fabricantes de armas, que continuarão esfregando as mãos.

Reforma da Previdência

José Horta Manzano

O grau de avanço de uma sociedade se mede pela proteção que ela oferece a seus membros mais frágeis. É tarefa de Estados organizados patrocinar serviços básicos. Cabe ao Estado proporcionar instrução pública, formação profissional, saúde pública, defesa do território, segurança pública. A lista não é exaustiva. Todas essas atribuições são, naturalmente, financiadas pela contribuição de todos através dos impostos.

Oferecer proteção aos que já não têm condições de ganhar o pão quotidiano pelos próprios meios é conceito relativamente recente. De fato, quando a grande maioria da população vivia da agricultura, o problema praticamente não existia. Na sociedade rural, famílias eram grandes, com duas ou três gerações debaixo do mesmo teto. A solidariedade familiar supria a incapacidade de sustento dos membros inválidos. Toda família tinha «agregados», «filhos de criação» e outras figuras hoje raras. Eram parentes ou conhecidos sem meios de sobrevivência.

A industrialização do país e a urbanização da população redistribuíram as cartas. Famílias diminuíram de tamanho. A solidariedade para com chegados e agregados se esgarçou. O Estado viu-se na obrigação de garantir amparo aos que, em virtude de idade avançada ou de saúde debilitada, já não podem prover ao próprio sustento.

Nas décadas de 1930 e 1940, grande parte dos países puseram de pé um sistema de arrimo para cidadãos que chegassem à velhice. O Brasil não foi exceção. Refletindo a sociedade da época, nossas regras levaram em conta que a expectativa de vida do cidadão girava por volta de 50 anos. Nos últimos 75 anos, muita coisa mudou. Avanços na medicina e nos cuidados alongaram a expectativa de vida. Projeções indicam que a humanidade tende a ter vida cada vez mais longa. Apesar das transformações, nenhum governo teve a ousadia de meter a mão nesse vespeiro. Nossas regras de aposentadoria não foram alteradas. Cada um empurrou a batata quente para o seguinte. Estacionamos num mundo simpático, mas distante da realidade.

Pirâmide etária do Brasil ‒ 1980, 2020, 2050
clique para ampliar

A diminuição do número de jovens e o aumento de cidadãos idosos contribuem para a defasagem do sistema. Os problemas de financiamento foram se avolumando e chegaram a um ponto crítico. A continuar do jeito que está, o país perderá toda capacidade de investimento: a totalidade do dinheiro disponível será destinada a cobrir o rombo da Previdência.

O governo atual, com um presidente sem intenção de se recandidatar, decidiu peitar profunda reforma na Previdência. A atitude é louvável e necessária. Dado que o problema não foi enfrentado durante décadas, o salto é muito grande e tem assustado o povo e seus representantes.

A resistência da sociedade é forte, no entanto, queira-se ou não, o sistema terá de ser atualizado. Se não for agora, será no mês que vem ou no ano próximo. Não se pode mais esperar, que a situação é grave. Mais razoável seria fixar a meta que se quer atingir e, em seguida, escalonar as etapas, paulatinamente, sobre, digamos, um decênio. De chofre, como se está propondo, é paralelepípedo duro de engolir. Com ou sem apoio de base aliada, com ou sem apoio de oposição, alguma reforma, ainda que mínima, tem de ser feita. Melhor começar logo.

Aviso aos senhores deputados e senadores
Só entram para a história os que têm a coragem de enfrentar desafios. Os acomodados acabam tragados pelo esquecimento.

Recadinhos ressentidos

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Para Michel Temer
Você assumiu o cargo prometendo um ministério de “notáveis”. Só esqueceu de nos dizer que vários de seus ministros – a maioria, para ser mais precisa – são notavelmente corruptos, velhas raposas políticas envolvidas em negociatas de toda espécie com partidos e com empresas estatais.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Fez um papelão em público ao usar sua mulher “bela, recatada e do lar” como referência para caracterizar a importância de todas as mulheres brasileiras em termos econômicos, sociais e políticos. Parece continuar acreditando que basta ter um penduricalho no meio das pernas, inchar o peito, fazer pose de estadista e usar linguagem gramaticalmente correta para se diferenciar da antecessora e conquistar credibilidade.

Esforço inútil, caro presidente: a expressiva maioria da população já sabe que tudo o que conseguimos foi trocar seis por meia dúzia. Em tempo: governar e permitir que seu partido legisle de costas para a cidadania também não vai dar certo, acredite. Lembre-se do que aconteceu com sua predecessora quando, de olhos esbugalhados, ela foi à televisão dizer em cadeia nacional que havia escutado a voz das ruas e depois esqueceu o que ela dizia.

Para Donald Trump
Você certamente tem o direito de eleger suas prioridades em quaisquer áreas de seu governo. Falando especificamente de sua opção pela volta da exploração em larga escala do carvão, quero alertá-lo quanto a uma providência imprescindível que você terá de tomar antes mesmo de implementar o projeto: cercar todo seu país de muros e vidros, e colocar sobre eles uma cúpula gigantesca para impedir que a poluição atinja seus vizinhos, outros países e outros continentes.

Quem sabe respirando as consequências de seu gesto, você perceba em sua pele, suas narinas e seus pulmões que o aquecimento global não é “fake news” nem artimanha inventada pelos chineses, como você acreditava.

Para os que participam da blogosfera
O torpor parece estar se alastrando e contaminando editores e principalmente leitores da blogosfera(*). Quando leio um post, não deixo de dar uma espiada em eventuais comentários deixados pelos que me precederam. (Confesso que às vezes tem comentário mais interessante que o próprio artigo. Mas essa já é uma outra história.)

O que tenho constatado é a crescente falta de reatividade dos que leem. Um comentariozinho aqui, dois ali, mais um acolá… é de uma pobreza de dar dó. Fica uma desagradável impressão de injustiça. Pode não parecer, mas escrever um artigo com começo, meio e fim, com fio condutor, com lógica e com cuidado ortográfico dá trabalho. Pode levar horas. No final, o que é que acontece? O escriba acaba se sentindo como o cantor de churrascaria que solta trinados em meio a um festival de talheres caindo, de cadeiras arrastadas, de conversas em voz alta, de risadas, de choro de crianças.

Não é queixa, acreditem, é mera constatação. Se bem que… fica aqui o recadinho. Quem tiver gostado, que se manifeste! Caso não tenha apreciado, que se manifeste também, ora. Coragem, minha gente! Como diria minha mãe, “de boas intenções, o inferno está cheio”.

(*) Blogosfera
Para atividade nova, palavra nova, uai! O crescente número de fazedores e de leitores de blogues está a exigir um termo coletivo. Vários têm sido propostos: bloguiverso, bloguelândia, bloguespaço, bloguistão(!). Um deles acabará se impondo, são os usuários que decidirão. Por ora, fico com blogosfera, que me parece simpático.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Brexit ‒ 5

José Horta Manzano

Dia 23 de junho de 2016, os 28 países membros da União Europeia foram dormir tranquilos. Na manhã seguinte, ao esfregar os olhos, deram-se conta, atônitos, de que faltava um. O Reino Unido tinha escapado pela janela. Por via de plebiscito, a maioria dos eleitores britânicos tinha exprimido o desejo de se desligar da União Europeia.

Em tese, parece simples: assina-se o distrato e pronto, o casamento está dissolvido. Na prática é bem mais complicado. A cada dia, surge novo nó a desatar. Afinal, foi um casamento de 44 anos! O mais recente imbróglio do qual tive notícia tem a ver com o tráfego aéreo entre países da União.

Desde que o transporte aéreo se popularizou, a partir dos anos 1970, países e companhias aéreas travaram batalha pesada para regulamentar o setor. Direitos de trânsito, escalas técnicas, regras de reciprocidade, endosso de bilhete eram rigidamente regrados. Pelo final dos anos 80, os céus da União Europeia foram desengessados. O abrandamento das regras permitiu o aparecimento de companhias de baixo custo ‒ em português: low cost companies.

Atualmente, dezenas de empresas ocupam o nicho, a maioria dedicada a voos turísticos. Duas delas, entretanto, alargaram o horizonte de negócios e se destacam nitidamente das outras: a Ryanair e a Easyjet. São gigantes no ramo. A primeira é irlandesa e a segunda, britânica. Na prática, ambas tem a Grã-Bretanha como plataforma principal de operações. Servem não somente a turistas, mas também a milhares de homens de negócio que utilizam seus voos a cada dia. Afinal, sai tão barato!

O Brexit, como é fácil imaginar, vem balançar o coreto dessas duas companhias. O baixo preço é fruto de uma fieira de acordos tornados possíveis pela integração dos países europeus. Com a saída efetiva do Reino Unido, ninguém sabe como ficarão os direitos de tráfego aéreo intraeuropeu. Alguma incidência o divórcio há de ter sobre a operação das empresas de baixo custo, isso é certo. Só falta conhecer a extensão do estrago. A partir do momento em que a Grã-Bretanha ‒ base de operação de ambas as empresas ‒ for considerada país estrangeiro, os acordos perderão a validade e terão de ser renegociados um a um.

Não seria surpreendente que a Easyjet se «naturalizasse», passando a exibir passaporte de qualquer um dos países da União. Podem ambas também transferir a base de operações para outro país. As opções são numerosas e só o tempo dirá o que vai acontecer. No fim, tudo acaba se ajeitando mas, enquanto isso, muita turbulência ainda vai sacudir as aeronaves.

Nomes delicados ‒ 1

José Horta Manzano

Cada língua tem gênio próprio. Os mesmos sons e as mesmas palavras que, aqui, soam bem podem não ser percebidos com a mesma benevolência por ouvidos estrangeiros. E vice-versa.

Uma de minhas irmãs casou-se com um catalão. Quando engravidou, começaram as conversas para escolher o nome do nascituro. O marido disse que, se viesse um menino, gostaria que se chamasse Pau. Assustada, minha irmã recusou-se obstinadamente. «‒ Filho meu chamado Pau? Nem em pesadelo!» A discórdia desapareceu quando a ecografia atestou que era uma menina. Explicação: Pau, que soa tão estranho a nossos ouvidos, é nada mais que a forma catalã de nosso corriqueiro Paulo.

Algumas cidades, vilas e vilarejos ao redor do mundo levam nome que, para nós, pode parecer surpreendente. Aqui estão três exemplos:

Bastardo
Pequeno distrito do município italiano de Giano dell’Umbria (província de Perúgia) leva esse nome incômodo. Abriga mais de 2000 habitantes. As estatísticas não informam se são todos bastardenses.

O nome do distrito, assaz original, deriva de antigo albergue chamado Osteria del Bastardo, hoje desaparecido. Faz um século que os habitantes querem mudar o nome do lugar mas, conversa vai, conversa vem, nunca chegaram a um acordo. Por enquanto, vai ficando assim mesmo.

Vista aérea da pequenina localidade de Vagina, Rússia
Crédito: Google maps

Vagina
Nada menos que três povoados russos carregam esse estranho nome. Um fica na província de Krasnoyarsk, outro está na região de Kurgan e o terceiro situa-se no distrito de Aromashevsky, região de Tyumen. Pelas informações que tenho, o significado da palavra é o mesmo que em nossa língua. Há mistérios insondáveis.

Kagar
No Estado de Brandemburgo (Land Brandenburg), na Alemanha, está a cidade de Rheinsberg. Um de seus pequenos distritos leva o charmoso nome de Kagar. Situada a apenas 50km de Berlim, a região é muito procurada em período de férias. A principal atração turística do distrito é um pequeno lago chamado justamente Kagarsee (See é a palavra alemã para lago).

Vista do idílico Kagarsee

Por coincidência, a pequena distância do lago, está o canal de Repente, recanto de aspecto paradisíaco, um convite para passeios. Recomenda-se a quem passar pela região, especialmente entre maio e setembro, fazer uma excursão a pé de Repente a Kagarsee. É um charme só.

Nota
Este artigo foi amplamente inspirado num excelente blogue espanhol, o Fronteras Blog. Aqui fica meu agradecimento.

Primeiro de abril indignado

José Horta Manzano

Na Idade Média, o nervo da confusão na Europa corria entre a França e a Inglaterra, inimigas havia séculos. Uma invasão aqui, uma batalha lá, as duas nações davam o tom das hostilidades no continente. A rivalidade entre elas, com o passar dos séculos, foi aumentando até chegar ao ápice com as campanhas napoleônicas. Depois disso, excluídas as nações americanas, a África e a Ásia foram partilhadas em zonas de influência de uma ou de outra das duas potências. Por um momento, a Europa pareceu sossegar.

Mas a calma não durou muito. A Alemanha, tradicionalmente composta de uma miríade de pequenos principados, ducados e reinos, logrou unificar-se na década de 1860. A união faz a força e… bota minhocas na cabeça. Uma Inglaterra absorvida pelo progresso industrial e pelas dezenas de colônias que possuía ao redor do globo, passou a dar menos atenção à antiga rivalidade com os vizinhos franceses. A tensão entre potências se deslocou ao eixo Paris-Berlim.

Logo de Arte-TV

A guerra franco-alemã de 1870 inaugurou mais um período bélico. Seguiu-se a carnificina de 1914-1918. E a hecatombe de 1939-1945. Depois desses desastres, a Europa pensante chegou à conclusão de que a mútua exterminação não era possível. Melhor seria tentar o caminho da convivência pacífica. A concórdia entre França e Alemanha era o alicerce da paz.

A criação do Mercado Comum ‒ antepassado da atual União Europeia ‒ é fruto dessa reflexão. Na mesma linha, desde que a televisão surgiu, pensou-se em criar um canal franco-alemão, um passo a mais em direção ao conhecimento mútuo e à integração entre os dois vizinhos. A Arte-TV, rede binacional, tornou-se realidade em 1992.

O canal transmite 24 horas por dia programas bilíngues. Dublados ou legendados, são destinados a franceses e a alemães. A programação é de nível elevado, com relevo para documentários, entrevistas, debates, emissões de caráter científico. Os filmes são bem escolhidos. Se você não encontrar nada que lhe agrade em outros canais, pode sintonizar a Arte, que dificilmente se decepcionará.

Dificilmente não é sinônimo de nunca. Vou contar o que aconteceu ontem. Como sabem meus cultos e distintos leitores, não há prova científica de cruzamento entre o Homem de Neandertal e o Homo Sapiens. Considera-se que os dois ramos de hominídeos, embora contemporâneos, não se misturaram. Os neandertais acabaram se extinguindo enquanto o Homo Sapiens sobreviveu e desembocou no homem moderno.

Ontem, Arte-TV apresentou, no horário nobre, interessantíssimo documentário revelando a incrível descoberta do esqueleto fossilizado de uma mulher neandertal morta no momento em que dava à luz uma criança da espécie Homo Sapiens. Era o elo que faltava, a descoberta científica do século!

Durante 50 minutos, foram entrevistados cientistas, paleontologistas, arqueólogos, geneticistas e exploradores. Foi mostrado o esqueleto, encontrado numa gruta da Geórgia (Ásia Menor). Depois de escaneado, estudado e revirado pelo avesso, o ADN (DNA) foi sequenciado. Ficou patente que temos todos um patrimônio genético que combina genes de neandertais e de Homo Sapiens. Coisa espantosa, de deixar qualquer um boquiaberto!

Faltando dois minutos para o fim do programa, deu pra ver o desenho de um peixinho dançando no canto superior esquerdo da tela. No dia primeiro de abril, peixinho é símbolo da mentira, da pilhéria. Explicaram, então, que se tratava de uma brincadeira. O esqueleto tinha sido fabricado e os participantes se dividiam entre figurantes e cientistas de verdade que consentiram em participar do gracejo. Nenhuma verdade científica tinha sido arranhada. Ha, ha, ha.

Ha, ha pra eles, ora bolas! De um canal popular, pode-se esperar tudo, mas de uma Arte-TV, francamente… Fiquei furioso, e acho que não fui o único. Pois é, como eu dizia no post de ontem, no dia 1° de abril, mais vale desconfiar de tudo o que aparece pela frente. A solução é ficar em casa lendo um romance. História inventada por história inventada, o romance é melhor: a gente sabe, desde a primeira página, que não passa de ficção.

Primeiro de abril adiantado

José Horta Manzano

Quando o calendário marca primeiro de abril, é preciso ter cuidado ao ler jornal. Pelo menos, aqui na Europa é assim. Jornais, rádios e até canais de televisão costumam publicar notícias falsas dia 1° de abril. É a tradição, mas sempre há quem caia na conversa. Lembro-me de uma boa “pegadinha”, velha mas engraçada.

Coleção de sapatos de Imelda Marcos, hoje recolhida num museu filipino

Faz trinta anos. Uma revolução nas Filipinas, país que tinha sido dirigido a ferro e fogo durante 20 anos por Ferdinand e Imelda Marcos, acabava de botar pra correr o casal de ditadores. Pra salvar a pele, o casal tinha abandonado, de supetão, palácios e pertences.

Quando entraram nos aposentos da primeira-dama, os revolucionários ficaram atônitos. A mulher era vidrada em sapatos. Possuía mais de mil pares. E, olhe lá, não eram chinelo de dedo! Tudo coisa fina: Charles Jourdan, Louboutin, Christian Dior, Chanel, Ferragamo, Givenchy, Bally. A notícia correu mundo.

No primeiro de abril seguinte, um jornal de Lausanne (Suíça) anunciou que os sapatos de Imelda estavam em venda especial de um único dia a preços de liquidação. O excepcional acontecimento se daria naquele mesmo dia, num dos salões do maior hotel 5 estrelas da cidade. Parece que o hotel nunca foi tão visitado como aquele dia.

No Brasil, embora o 1° de abril seja chamado de “dia da mentira”, pilhérias entre adultos são raras. Regra geral, tudo não vai além de brincadeira de criança. Mas as coisas mudam, distinto leitor, as coisas mudam.

Uma edição falsa do jornal O Globo foi distribuída em São Paulo. Decerto ansiosos por chegar ao desenlace do plano, os autores da pilhéria não aguentaram esperar até o dia da mentira. Espalharam os jornais falsos na véspera, 31 de março.

Edição falsa de O Globo, 31 mar 2017

Pode parecer incrível, mas o material pôde ser encontrado em algumas bancas de jornal. Tinha o mesmo jeitão do jornal verdadeiro, com a exceção de ter sido impresso em formato tabloide. Trazia a manchete: “Temer renuncia: eleições são convocadas”.

O acontecimento se insere perfeitamente no Zeitgeist, no espírito atual em que informações verdadeiras e falsas se embaraçam a ponto de impedir todo cristão de separar o joio do trigo.

Se foi um primeiro de abril, foi engraçado, só que, da próxima vez, será melhor fazer na data correta. Se não foi, é mais uma manobra com segundas intenções. No ponto a que chegamos, uma a mais ou uma a menos não faz grande diferença.

Abolição dos privilégios

José Horta Manzano

No dia 14 de julho de 1789, a prisão da Bastilha foi tomada por uma turba de cidadãos enfurecidos. O prédio sinistro costumava abrigar inimigos do rei, gente que lá podia ficar trancada por anos a fio, sem sombra de processo, dependendo unicamente da vontade pessoal do soberano. A liberação dos poucos prisioneiros ficou na história como o início da Revolução Francesa.

Tomada da Bastilha, 14 jul° 1789

Três semanas mais tarde, na noite de 4 de agosto, a Assembleia Constituinte, encarregada de lançar as bases do novo regime e de organizá-lo, decretou a abolição dos privilégios. A decisão marcou o fim do sistema feudal na França. A partir daquele dia, caíam por terra todos os privilégios pessoais, de família, de classe, de região, de cidade, de corporação ‒ todos eles característicos da estrutura feudal.

Uma análise feita hoje, passados dois séculos, mostra que a ordem feudal desapareceu, mas os privilégios ainda resistem. As leis que valem para uns mas não para outros continuam firmes e fortes. De fato, não são muito diferentes das que a Revolução imaginou banir. Persistem praticamente no mundo inteiro. Em qualquer parte, determinadas corporações e certas categorias de cidadãos são “mais iguais” que os demais.

No Brasil, assim como em outros rincões pouco esclarecidos, é particularmente visível a persistência do tratamento diferenciado que se dispensa a castas especiais, ainda que sejam acusadas de ter cometido crimes gravíssimos. Faz algumas semanas, senhor Cabral (antigo governador do Rio de Janeiro) e digníssima esposa foram acusados de uma enxurrada de crimes. Levados para o xilindró, tiveram direito a essas fotos que se tiram de bandidos, de uniforme de cadeia com régua escalonada ao fundo.

Chamada Estadão, 1° abr 2017

Estes dias, uma juíza brasileira, de passagem por Paris, há de ter ficado de mau humor ao se dar conta de que a Prisão da Bastilha já não mais existe, tendo cedido lugar a uma praça urbana. Talvez despeitada pela descoberta, há de ter imaginado que a abolição dos privilégios não passava de lorota. Sem hesitar, despachou de Paris mesmo ‒ em atitude pouco usual. Decidiu em favor da soltura da digníssima esposa do governador encarcerado. A razão invocada é que a moça tem filho menor de 12 anos, que não pode ficar sem a presença diária e constante da mãe.

Este blogueiro é do tempo em que, na falta dos pais, crianças pobres iam para o orfanato e guris ricos, para o colégio interno. Quero crer que, ainda que o casal seja inocente das acusações de que é objeto, há de ter economizado o suficiente para evitar a Assistência Pública e mandar o filho para um bom internato. Afinal, o marido foi governador de um dos Estados mais importantes da União.

Inevitável e logicamente, vozes se alevantam lembrando que, se esta senhora pode, por que não as outras? Se toda prisioneira com filho menor de 12 anos tiver de ser solta pelo mesmo motivo, vai haver boa debandada dos presídios femininos. Afinal, privilégios foram abolidos ou não?

Nota etimológica
Privilégio é palavra que já veio formada da língua latina. Compõe-se de dois elementos.

Privus
Singular, só, particular, que basta a si mesmo;

Legem
Lei (da mesma raiz que ligar, legal, legítimo ‒ aquilo que obriga).

Diz-se privilégio, portanto, da lei privada, que vale somente para um indivíduo ou para pequeno grupo. Contrapõe-se ao direito comum.