Sapatos de abril

José Horta Manzano

Já devo ter contado esta história mais de uma vez. Aproveitando os ecos do primeiro de abril que acaba de passar, conto mais uma vez.

No fim de fevereiro de 1986, uma revolução popular não violenta derrubou o ditador filipino Marcos, que estava no poder havia duas décadas. Os EUA então deram uma mão ao poderoso caído e mandaram um helicóptero buscá-lo, assim como a digníssima esposa. O casal Ferdinand e Imelda Marcos foi então levado a uma base americana para posterior transferência ao exílio no Havaí.

Nessa corrida, deixaram tudo para trás. Com exceção dos fundos extorquidos do povo filipino (e devidamente depositados na Suíça e em outros lugares), todos os pertences dos dois ficaram em Manila. Entre outros bens, a fabulosa coleção de 3.000 pares de calçados de Madame e seu baú de joias. O exorbitante salão onde os sapatos eram armazenados causou muita surpresa aos que penetraram no palácio logo após a apressada fuga dos ocupantes. É compreensível. Nem grandes lojas de calçados costumam contar com estoque de tantos milhares de pares calçados de primeiríssima qualidade.

Logo chegou a Páscoa daquele ano. A Quinta-feira Santa caiu dia 1° de abril de 1986. Naqueles tempos pré-internet, a notícia incomum e curiosa foi trazida pelo jornal 24 Horas, da cidade de Lausanne – leitura quase obrigatória para a população. Um anúncio informava que no dia seguinte, feriado, das 14h às 18h, a coleção de sapatos da senhora Imelda Marcos seria vendida em leilão num dos salões do Lausanne Palace, um dos hotéis mais chiques da cidade.

No dia e hora anunciados, juntou gente no saguão do hotel. Meio tontos, recepcionistas passaram horas explicando aos desenxabidos visitantes que tudo não passava de… brincadeira de primeiro de abril.

Fosse hoje em dia, o diretor do hotel, assim como a parentela até o terceiro grau, seriam todos ‘cancelados’ e excluídos do maravilhoso mundo das redes sociais. Mas os tempos eram outros. Os cidadãos ainda sabiam fazer a diferença entre uma agressão e uma brincadeira.

Estes últimos anos, não tenho mais visto jornais pregando peças no dia 1° de abril. Acredito que esse sumiço do humor se deve à difusão universal da internet e das redes. De fato, o que se constata é o desaparecimento de toda verdade absoluta. Me explico.

Nos tempos de antigamente, para difundir sua opinião, o indivíduo tinha de mandar imprimir suas ideias num livro. Se não pudesse ou não desejasse, tinha de ir à tipografia e mandar tirar em centenas de exemplares um edital de não mais que uma página. Em seguida, tinha de bater perna pela cidade e enfiar um exemplar na caixa de cartas de cada casa. Que mão de obra, hein! Nem fale.

Hoje, como todos sabem, basta datilografar sua mensagem (pode até escrever com um dedo só, que ninguém vai ficar sabendo) e apertar a tecla “Envio”.

Pronto, agora todos podem dar a própria opinião sobre qualquer assunto e, se for o caso, contestar a verdade ouvida 10 minutos antes. Dado que cada um quer dar a própria opinião, a proposição verdadeira vai levando pancada, vai se deformando, vai se distanciando do original. Em pouco tempo, estará desvirtuada e já terá deixado de refletir a proposição inicial.

Só como exemplo, ainda outro dia parlamentares estavam querendo proibir, por lei, toda modificação ao que eles consideram a Bíblia padrão, imutável por definição. Erros de tradução cometidos nos dois últimos milênios ficariam, assim, congelados. Pela lógica, nenhuma nova tradução seria aceita. Parece que não passou. Até no Congresso, tem gente que se tocou que deputados e senadores não estão lá pra introduzir verdades religiosas na legislação nacional.

Portanto, visto que toda afirmação está sujeira a narrativas e modificações, já não faz sentido fazer brincadeiras de 1° de abril. Temos de nos contentar com as que já foram feitas no passado, que não haverá novas.

Daqui a alguns anos, volto a contar a história dos sapatos da mulher do ditador. Para as futuras gerações.

Ex-primeira-dama

José Horta Manzano

Li hoje um artigo que me pôs a par das últimas peripécias de Michelle Bolsonaro. O nome dela dispensa apresentações mas, se alguém devesse não a conhecer, é a esposa de nosso ex-presidente Jair Bolsonaro.

Fiquei sabendo que, longe de se resignar ao papel de rainha do lar, como convém a toda esposa de marido “conservador nos costumes”, dona Michelle desenvolve atividades múltiplas. A ex-primeira-dama vende sapatos, uma função diferenciada, como se costuma dizer hoje em dia.

Nos tempos de antigamente, vendedor de sapatos tinha de se ajoelhar diante de cada cliente e quase cheirar-lhe os pés, postura humilhante que não combina com a imagem que a Senhora Bolsonaro deseja projetar. Imagino que ela fique atrás do caixa, deixando que se ajoelhem os outros.

Além desse trabalho árduo, Madame está matriculada na Universidade Estácio de Sá, setor de Letras, modalidade EaD. Aprendi que a sigla EaD indica opção pelo ensino a distância. A informação que tenho é de que ela costuma estudar na própria sede do PL. Com certeza, ao estudar no partido, está buscando economizar o valor da assinatura a um provedor de sinal de internet; dessa forma, não paga internet nem energia.

Acho que é digna de aplauso toda iniciativa, seja de quem for, que tenha o objetivo de aprender e aumentar a própria bagagem de conhecimento. Que felicidade se todos os brasileiros seguissem os passos da antiga primeira-dama. A nação daria um salto adiante. (Não falo dos sapatos, mas dos estudos.)

Dizem que o sonho de dona Michelle é tornar-se senadora da República. Seria uma ascensão vertiginosa para quem jamais exerceu mandato nem função pública. E que, além disso, ainda frequenta os bancos da escola.

Ambição é bom mas, quando é demais, deslumbra o dono. E o dono periga tropeçar no próprio deslumbramento.

Primeiro de abril adiantado

José Horta Manzano

Quando o calendário marca primeiro de abril, é preciso ter cuidado ao ler jornal. Pelo menos, aqui na Europa é assim. Jornais, rádios e até canais de televisão costumam publicar notícias falsas dia 1° de abril. É a tradição, mas sempre há quem caia na conversa. Lembro-me de uma boa “pegadinha”, velha mas engraçada.

Coleção de sapatos de Imelda Marcos, hoje recolhida num museu filipino

Faz trinta anos. Uma revolução nas Filipinas, país que tinha sido dirigido a ferro e fogo durante 20 anos por Ferdinand e Imelda Marcos, acabava de botar pra correr o casal de ditadores. Pra salvar a pele, o casal tinha abandonado, de supetão, palácios e pertences.

Quando entraram nos aposentos da primeira-dama, os revolucionários ficaram atônitos. A mulher era vidrada em sapatos. Possuía mais de mil pares. E, olhe lá, não eram chinelo de dedo! Tudo coisa fina: Charles Jourdan, Louboutin, Christian Dior, Chanel, Ferragamo, Givenchy, Bally. A notícia correu mundo.

No primeiro de abril seguinte, um jornal de Lausanne (Suíça) anunciou que os sapatos de Imelda estavam em venda especial de um único dia a preços de liquidação. O excepcional acontecimento se daria naquele mesmo dia, num dos salões do maior hotel 5 estrelas da cidade. Parece que o hotel nunca foi tão visitado como aquele dia.

No Brasil, embora o 1° de abril seja chamado de “dia da mentira”, pilhérias entre adultos são raras. Regra geral, tudo não vai além de brincadeira de criança. Mas as coisas mudam, distinto leitor, as coisas mudam.

Uma edição falsa do jornal O Globo foi distribuída em São Paulo. Decerto ansiosos por chegar ao desenlace do plano, os autores da pilhéria não aguentaram esperar até o dia da mentira. Espalharam os jornais falsos na véspera, 31 de março.

Edição falsa de O Globo, 31 mar 2017

Pode parecer incrível, mas o material pôde ser encontrado em algumas bancas de jornal. Tinha o mesmo jeitão do jornal verdadeiro, com a exceção de ter sido impresso em formato tabloide. Trazia a manchete: “Temer renuncia: eleições são convocadas”.

O acontecimento se insere perfeitamente no Zeitgeist, no espírito atual em que informações verdadeiras e falsas se embaraçam a ponto de impedir todo cristão de separar o joio do trigo.

Se foi um primeiro de abril, foi engraçado, só que, da próxima vez, será melhor fazer na data correta. Se não foi, é mais uma manobra com segundas intenções. No ponto a que chegamos, uma a mais ou uma a menos não faz grande diferença.

Frase do dia — 184

«Ora, direis, olhar sapatos. Parece uma trivialidade, mas é uma aula de economia e de costumes. Dilma Rousseff calça a marca francesa Louis Vuitton, e Aécio Neves, a italiana Ferragamo. (…)

Marina Silva usa sapatos das marcas Beira Rio e Renner (100 reais pelo par).»

Elio Gaspari, em sua coluna no jornal O Globo, 24 set° 2014.