Queremos ou não queremos?

José Horta Manzano

No Brasil, nos tempos da ditadura, era proibido protestar contra o regime. Desfile na Avenida Paulista? Impossível. Protesto na orla de Copacabana? Pior ainda. Passeata em qualquer capital do país? Nem pensar. Vez por outra, alguém até chegou a tentar. Deu um forrobodó dos diabos, com tumulto, presos e feridos. Não tinha jeito. Quem não estivesse de acordo com as condições nacionais tinha duas soluções: deixar o país ou… calar-se.

Hoje, depois de mais de três décadas de democracia e liberdade de expressão, a gente se acomodou. Brasileiros com menos de 40 ou 50 anos de idade não conheceram a repressão. Têm todos a impressão de que a atual paleta de liberdades é natural, permanente, inamovível, um direito adquirido. Reclamam contra as mazelas nacionais ‒ a corrupção generalizada em especial ‒ mas, na hora de demonstrar, negam fogo. Em vez de sair às ruas com faixa e bandeira, paramentados de camisa amarela e bonezinho, preferem refestelar-se diante do domingão da televisão.

Os russos são um povo que nunca conheceu um regime democrático. Passaram direto do absolutismo tzarista para a ditadura comunista e, de lá, para a opressivo arremedo de democracia atual. Em matéria de corrupção, o páreo é duro entre os grandes «emergentes». É difícil apontar o campeão. China, Rússia, Brasil? Fato é que a Rússia é membro importante do clube. A corrupção está presente em todos os escaninhos do Estado.

Como sabemos, Vladimir Putin encontrou um meio de se eternizar no poder. Esperto, soube manejar os instrumentos de cooptação à sua disposição. Há eleições periódicas, mas ele ganha sempre. Por bem ou por mal, em jogo limpo ou fraudado, o vencedor é sempre o mesmo. Acostumado há séculos a aguentar calado, o povo aceita esse estado de coisas.

Ontem, um sobressalto. Milhares de cidadãos decidiram manifestar descontentamento. Marcaram protesto nas ruas. O número de participantes foi estimado em sete mil pelas autoridades oficiais, o que indica que terá sido dez vezes superior. A reação do governo foi uma tremenda repressão, com direito a brucutu e pancadaria. A polícia desceu o pau, prendeu centenas de manifestantes ‒ entre eles, um candidato às próximas eleições presidenciais. O passar dos séculos não mudou o país. Só são admitidas duas categorias de cidadãos: os do sim e os do sim senhor.

O brasileiro não se tem mostrado à altura de ser governado por gente fina. Vota mal. Elege bandido. Não manifesta desagrado. Vota em palhaço e acha uma graça. Elege e reelege corrupto. Come mal, transporta-se mal, veste-se mal e acha que a vida é assim mesmo. Na hora de demonstrar desagrado, prefere ficar no sofá e deixar que outros carreguem o piano.

Pois quando a música tocar, é ele mesmo quem vai dançar.

4 pensamentos sobre “Queremos ou não queremos?

  1. Infelizmente, a coisa precisará piorar muito para que um dia, SE o povo reunir coragem e força para lutar contra tudo de ruim que temos, fazermos uma VERDADEIRA REVOLUÇÃO! Porque somos, sim, extremamente acomodados! Uma dura verdade!

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  2. Eu venho tentando responder a essa pergunta há muito tempo e não encontro nenhuma resposta inteiramente satisfatória. Claro que a preguiça ou acomodação é um dos fatores-chave, mas, para mim, ainda falta levar em consideração outra incógnita: se tivermos sucesso, o que queremos que aconteça na sequência? e quem vai ocupar o cargo máximo do executivo? Eu jamais abandonaria o conforto da minha poltrona para ver meu país sendo governado por um dos probos integrantes do legislativo atual (e não vejo nenhum candidato que mereça meu voto se, por acidente, houvesse eleição presidencial ainda este ano ou no próximo). Talvez a melhor pergunta fosse: o que queremos? Já adianto minha resposta: quero uma assembleia nacional constituinte fora do congresso já.

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  3. Venho me fazendo essa pergunta há muito tempo, mas nunca encontro resposta inteiramente satisfatória. Claro que a acomodação/preguiça é fator importante, mas ainda falta levar em consideração outra incógnita: se as mobilizações forem bem sucedidas, o que vai acontecer na sequência? quem ocupará o cargo máximo do executivo se houver novo impeachment? Eu jamais abandonaria o conforto da minha poltrona para ver depois meu país sendo governado por um dos probos membros do legislativo atual. Também não conheço nenhum candidato que mereça meu voto caso haja eleição presidencial ainda este ano – nem no próximo. Talvez fosse melhor perguntar: o que queremos? Se essa for a pergunta, já adianto minha resposta: quero uma assembleia nacional constituinte fora do congresso já.

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  4. Não sei, mas os protestos de 15 de março levaram centenas de milhares as ruas em algumas capitais do país (200.000 mil na Paulista e 100.000 em Copacabana segundo os organizadores, para citar duas referências)………..aceito esses números como razoáveis para dizer que as pessoas estão menos acomodadas que há dez anos atrás, por exemplo…………..

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