Tomataço

José Horta Manzano

Uma coisa que me revolta é desperdício de comida. Quando de recente visita que doutor Gilmar Mendes, ministro do STF, fez a São Paulo, um grupo de manifestantes se valeu da ocasião para demonstrar desagrado com determinadas decisões do magistrado. Para isso, não encontraram melhor maneira que lançar tomates em frente ao edifício onde se encontrava o referido doutor.

Num país onde parte significativa da população ainda depende de uns caraminguás da bolsa família para sobreviver, a iniciativa é mais que escandalosa: é indecente. Jogar comida fora quando tem gente passando necessidade? É surreal.

Na China e em outras regiões do mundo que trazem na memória coletiva o terrível espectro de séculos de fome e privações, jamais viria à mente de um cidadão desperdiçar alimento. Seria ato impensável, de uma estupidez inimaginável. Por que razão isso não deixa ninguém indignado no Brasil?

Chamada Estadão, 9 out° 2017

Mesmo se fôssemos ricos ‒ o que está muito longe de acontecer ‒ já seria irrespeitoso. Quando se sabe que, a algumas centenas de metros do local do «tomataço», famílias vegetam debaixo de viadutos, abrigadas por pranchas de papelão e cobertores ralos, é incompreensível.

Ainda que o magistrado fosse o único culpado pela miséria nacional ‒ o que não é verdade ‒ o desbaratamento de gêneros alimentícios não se justificaria.

É questão de coerência e de bom senso. Que se manifestem com bandeiras, cartazes, passeatas. Que gritem palavras de ordem, que berrem ao megafone. Que se unam em «tuitaço» de repúdio. Que organizem petição de reclamação. Há mil maneiras civilizadas de protestar. Desperdiçar comida num país como o nosso? É pecado mortal. Não tem alcance e só serve pra dar trabalho extra a mal pagos garis.

Nota
Não sou advogado do magistrado. Aliás, estou frequentemente em desacordo com posições dele. Nem por isso acho correto atirar-lhe tomates, ovos ou qualquer outro tipo de comida.

O distinto leitor há de se lembrar do dia em que, diante das câmeras do mundo inteiro, um manifestante atirou um maço de cédulas falsas sobre o então presidente da Fifa. Achei fantástico. Aquela chuva de «dinheiro» doeu mais que uma tomatada. E fez efeito: pouco tempo depois, o dirigente pediu as contas.

A simbologia das cores

José Horta Manzano

Primeiro, houve o ANTES

Dilma e Lula 2

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Em seguida, veio o DURANTE

by Sinfronio de Sousa Lima Neto, desenhista cearense

by Sinfronio de Sousa Lima Neto, desenhista cearense

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E agora, estamos no DEPOIS

35° aniversário do PT - 2015 Fotomontagem Estadão

35° aniversário do PT – 2015
Fotomontagem Estadão

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Obscurantismo

José Horta Manzano

Você sabia?

Hoje, às 16 horas, Curitiba terá direito a uma partida entre o Irã e a Nigéria. Não só a capital paranaense, mas o planeta inteiro. Em tempo real. Em directo, como dizem nossos amigos lusos.

Eu disse em tempo real? Well… não é bem assim. Há mundo real e há mundo de faz de conta. Algumas regiões do globo vivem apartadas, debaixo de uma redoma, subjugadas e domadas por uma clique que morre de medo de ser apeada do poder.

Adão e EvaUm desses lugares abafados é justamente a República Islâmica do Irã, a antiga e gloriosa Pérsia. A revolução de 1979, que despachou o xá para o exílio e baniu seu regime brutal, ressuscitou certos costumes medievais. Entre eles, a proteção da moral pública, tal como é idealizada pelos guias espirituais da nação.

Segundo a concepção deles, expor ao público um corpo feminino é ato gravemente ofensivo, a evitar a todo custo. No extremo oposto da austera visão iraniana, o brasileiro está longe de sentir-se horrorizado ao contemplar imagem de beldades pouco vestidas. Muito pelo contrário.

Em estádios brasileiros ― especialmente em dias de calor ― moça bonita não costuma esconder suas curvas. Já nas telinhas iranianas, mostrar mulheres seminuas é simplesmente inconcebível. Como conciliar as cenas captadas pelas câmeras brasileiras e a pudicícia persa?

É simples, ora pois. Basta renunciar à transmissão em tempo real. A televisão iraniana fará a retransmissão com defasagem de alguns segundos, tempo necessário para tapar nudezas tropicais. Toda vez que as câmeras se fixarem em imagens insuportáveis para a castidade persa, os cidadãos daquele país terão direito a um substitutivo. Pode ser uma tela preta ou algum verso de Camões. Talvez até uma receita de quindim.

A sorte dos técnicos malabaristas iranianos é que se espera um tempo fresquinho para Curitiba hoje. Se escândalo houver, será menos repreensível.

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A notícia nos chega pela versão online do grupo italiano AKI de comunicação.