Théâtre de l’absurde

José Horta Manzano

O mui sério e prestigioso Le Monde, de Paris, dedicou o editorial de ontem a um retrato das barbaridades que se cometem no Planalto nestes tempos de pandemia, coisas do arco-da-velha, de deixar qualquer europeu de cabelo em pé. Aqui vai um fragmento.

«Les heures sombres que traverse le Brésil rappellent celles de la dictature militaire, quand le pays était soumis à la peur et à l’arbitraire. Avec une différence de taille: alors que les généraux revendiquaient la défense d’une démocratie attaquée, selon eux, par le communisme, le Brésil de Bolsonaro habite un monde parallèle, un théâtre de l’absurde où les faits et la réalité n’existent plus. Dans cet univers sous tension, nourri de calomnies, d’incohérences et de provocations mortifères, l’opinion se polarise sur une nuée d’idées simples mais fausses.

A force de tricher avec les faits, les gouvernants populistes finissent par croire à leurs propres mensonges. On le voit ailleurs dans le monde. Mais ici, dans ce pays sorti voici à peine vingt-cinq ans de la dictature, où la démocratie reste fragile, voire dysfonctionnelle, le fait de politiser ainsi une crise sanitaire à outrance est totalement irresponsable.»

Le Monde, 18 maio 2020 – Editorial

«As horas sombrias que o Brasil atravessa lembram as da ditadura militar, quando o país estava subjugado pelo medo e pelo arbítrio. Com uma notável diferença: enquanto os generais reivindicavam a defesa de uma democracia atacada, segundo eles, pelo comunismo, o Brasil de Bolsonaro habita num mundo paralelo, num teatro do absurdo onde os fatos e a realidade deixam de existir. Nesse universo tenso, alimentado por calúnias, incoerências e provocações funestas, a opinião se polariza sobre um amontoado de ideias simples mas falsas.

De tanto trapacear com os fatos, governos populistas acabam acreditando nas próprias mentiras. Vê-se isso no mundo todo. Mas aqui, num país que se livrou da ditadura há apenas vinte e cinco anos, onde a democracia continua frágil – se não disfuncional –, o fato de politizar em exagero uma crise sanitária é totalmente irresponsável.»

Lágrimas de crocodilo

José Horta Manzano

Letras 1Discurso da presidenta é um perigo. Principalmente se for feito de improviso. E piora quando não há grande coisa a dizer – como costuma acontecer. A boa cidade de João Pessoa teve direito a uma amostra estes dias.

Todos sabem que dona Dilma peleja com a língua portuguesa. A briga é constante. O problema maior da fala da mandatária é a falta de coerência do discurso, que deixa no ar a suspeita de que seu pensamento também seja falho de lógica.

Boulet 1Há um trecho digno de nota. É quando madame declara que: «Esse país também precisa encarar de frente a questão da igualdade racial.» Temos aí três problemas.

Primeiro, o problema da convivência racial – amplificado pelos companheiros, por razões eleitoreiras. Continuar soprando sobre brasas não é a melhor solução.

Segundo, um problema de convivência pronominal. Esse país? Que país? A presidente deve ter-se enganado. Aposto que ela se referia a este país.

Terceiro, um problema pleonástico. Sua Excelência falou em encarar de frente. Como é que é? E a alguém viria a ideia de encarar de costas, presidente? Esse é parente de ver com os olhos e de entrar pra dentro.

Crocodilo 1Há mais. A meu ver, o pior foi a comprovação de que o discurso presidencial é vazio, são palavras ao vento, sem eira nem beira. Vejam como foi.

Numa tentativa de surfar na onda do momento, madame evocou aquele infeliz bebê resgatado sem vida numa praia turca. Afirmou que o menino morreu porque «os países» criaram barreiras para refugiados. Nessa altura, faltou o gesto de grandeza – ninguém pode dar o que não tem.

Dona Dilma ateve-se a acusar «os países», totalmente esquecida de que ela preside um deles. Com a mente colonizada pela influência de seus correligionários, botou a culpa nos outros, como é hábito entre seus companheiros.

Faz mais de quatro anos que dona Dilma preside este país. Digo bem: este. A guerra civil já dura anos na Síria. Que se saiba, nossa mandatária não mexeu uma palha para acolher famílias de refugiados.

Refugiados sírios segundo a contagem da Agência da ONU para refugiados

Refugiados sírios segundo a contagem da Agência da ONU para refugiados

Derramar lágrimas agora e, levianamente, acusar «os países» de negar refúgio a perseguidos soa hipócrita e demagógico.

Terminado o discurso de João Pessoa, como é que fica? Constrói-se uma passarela para acolher famílias sírias? Ou vira-se a página e fica tudo como estava antes?

Interligne 18b

PS: Para almas tolerantes que tiverem a pachorra, o site oficial do planalto publicou o discurso da mandatária. Na íntegra.