João que chora, João que ri

José Horta Manzano

Fronteira 2O real – a moeda brasileira – vai mal, disso sabemos todos. Faz um ano que vem sofrendo acentuada desvalorização, fato que traz severas consequências. Enquanto angustia uns, a degringolada da moeda alegra outros.

Importadores e consumidores de produtos importados se descabelam. Pagam hoje, pela mesma mercadoria, 50% a mais do que um ano atrás.

Fronteira 4No Brasil, ainda que nem sempre percebamos, somos um bocado dependentes de artigos importados. Produtos agrícolas escapam a esse raciocínio, mas raros são os produtos industriais que se contentam de componentes unicamente nacionais. Em menor ou maior medida, integram insumos ou peças importadas. De um ano pra cá, com a queda de nossa moeda, tudo o que vem de fora ficou 50% mais caro, o que realimenta a inflação.

Os que vinham economizando, de olho naquela sonhada escapada ao exterior, murcharam. Convertidas em euros ou em dólares, suas economias minguaram. Do outro lado do espectro, boa parte dos três milhões de compatriotas estabelecidos fora da pátria remetem, todo mês, uns cobrinhos para ajudar a família. Tanto expatriados quanto familiares estão felizes: os mesmos dólares rendem muito mais reais.

Preços 1Em nova prova de que o crime compensa, mensaleiros e petroleiros – falo dos espoliadores que sugaram o fruto do trabalho de todos nós – estarão satisfeitos. Tirando a minoria que está na cadeia, os outros, que podem ser centenas ou até milhares, estão hoje mais ricos ainda. Convertidas em reais, fortunas bem guardadas no exterior cresceram.

Fronteira 3Mais prosaicamente, o comércio fronteiriço do sul do Brasil anda animado. A desvalorização do real diante da moeda de países hermanos esquentou o turismo de compras. Trata-se de movimento pendular, ora são os de cá que compram lá, ora o fluxo se inverte. Atualmente, são paraguaios, uruguaios e argentinos que levam vantagem fazendo compras no Brasil.

Segundo informa o jornal argentino Ámbito Financiero, vale a pena atravessar a fronteira para comprar desde laranja e cerveja até celular e ar condicionado. Contentes estão os que vivem pertinho do Brasil. Podem fazer as compras diárias de supermercado – com vantagem não desprezível – em nosso país.

É o Mercosul provando que é útil e eficiente. Exatamente como a «Pátria Educadora», poderoso instrumento que veio redimir nossa proverbial falta de cultura.

No entiendo

José Horta Manzano

Você sabia?

Plantamos e ceifamos o trigo, mas nunca provamos do pão branco.
Cultivamos a videira, mas não bebemos o vinho.
Criamos os animais, mas não comemos a carne (…) (*)

Imigração 6Assim, em poucas e comoventes palavras, um imigrante italiano respondeu a um ministro de seu país, que ralhava contra conterrâneos que abandonavam a terra natal em busca de dias melhores no estrangeiro.

No século decorrido entre 1850 e 1950, a Itália viu partir 30 milhões de cidadãos em busca de dias melhores. A maior parte deles veio dar com os costados em terras americanas – Brasil, Argentina e EUA em especial. A Itália é, com folga, o país europeu que maior contingente de emigrantes despachou.

Ninguém jamais saberá o número exato dos que que lá saíram. Mais difícil ainda será afirmar, com precisão, o destino de cada um. Que dizer, então, da contagem dos descendentes, os «oriundi»? Na falta de dados exatos, restam as estimativas.

Os Missionários de São Carlos – os escalabrinianos – são uma congregação religiosa italiana que se dedica, entre outras missões, a assistir os italianos dispersos pelo planeta. São os mais bem aparelhados para fornecer estimativa sobre o número de originários da península.

Segundo a congregação, o Brasil abriga a mais numerosa comunidade de «oriundi», calculada em mais de 27 milhões de pessoas. Em seguida, vêm a Argentina (20 milhões) e os EUA (17 milhões). Os demais países seguem bem atrás – o quarto colocado, a França, não abriga mais que 4 milhões de descendentes.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Estatística não é o ponto forte do Brasil. Assim mesmo, costuma-se dizer que, nos anos 1920, metade dos habitantes da cidade de São Paulo era estrangeira. Desse contingente, metade eram italianos. Se não for verdade, não estamos longe.

Uma curiosidade: a população de nossa hermana República Argentina é constituída de 47% de «oriundi», um de cada dois habitantes do território. Sem sombra de dúvida, é o mais italiano dos países. Além da Itália, naturalmente.

Imigração 7Ainda hoje, sobrevivem por volta de duzentos periódicos editados em língua italiana fora da Itália. Nestes tempos de internet, praticamente todos abandonaram a edição em papel para dedicar-se unicamente à versão digital. A maioria espaçou a tiragem: de diária, passou a semanal; de semanal, passou a mensal. E assim por diante.

Na Venezuela, que conta com um milhão de descendentes, algumas publicações resistem. Entre elas, La Voce (= A Voz), diário fundado em 1950, hoje disponível unicamente online. Resiste em todos os sentidos.

Corajoso, o quotidiano dá notícia da incrível erosão da popularidade de dona Dilma. Talvez, por ser dirigido a público específico, seja menos visado pela truculência dos mandatários. Ou, mais provável, os censores – ignorantes por natureza – não estão em condições de entender nenhuma língua estrangeira. Melhor assim.

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(*) Citação afixada no Museu da Imigração, em São Paulo. O museu nasceu em 1887 como Hospedaria de Imigrantes. Para ali eram encaminhados os recém-chegados, que desembarcavam em Santos sem lenço e sem dinheiro, mas cheios de esperança e prontos pra arregaçar as mangas.

Futuro efervescente

José Horta Manzano

O jornal francês Le Figaro publicou relato sobre a viticultura no Brasil – o cultivo da uva para produção de vinho. Em matéria vinícola, a opinião de especialistas franceses costuma ser respeitada.

Vinho 1Apresentam o Brasil como quinto produtor de vinho do hemisfério sul, classificação aparentemente importante. Mas… pensando bem, os países do hemisfério não são numerosos. Os primeiros produtores, todos conhecem: Chile, Argentina, África do Sul e Austrália. Se o Brasil não fosse o quinto, quem poderia sê-lo? Zimbábue, Madagascar, Bolívia, Zâmbia?

As primeiras videiras foram trazidas já por Martim Afonso de Souza, o português que, em 1532, estabeleceu o primeiro povoado estável reconhecido por nossa história oficial. Falo daquela aldeia que evoluiu até tornar-se a cidade litorânea de São Vicente (SP), hoje conurbada com Santos.

Vinho 2No Brasil, os primeiros plantadores de uva não eram vinhateiros. A fruta era consumida ao natural. Foi preciso esperar um século até que padres jesuítas especialistas em viticultura dessem início ao fabrico de vinho em terras portuguesas da América. O primeiro objetivo foi garantir vinho de missa.

Até vinte e cinco anos atrás, vinho era bebida pouco conhecida no Brasil e seu consumo, limitado. O produto nacional era de qualidade rudimentar enquanto o importado custava os olhos da cara.

Vinho 3A liberação da importação, a partir dos anos 90, propiciou rápido aumento na oferta de vinho estrangeiro. Mais abordável, a bebida tornou-se mais frequente à mesa. Viticultores brasileiros aproveitaram a deixa para melhorar a qualidade de seu produto. Desenhou-se um círculo virtuoso: vinhos estrangeiros mais accessíveis incentivaram o fabrico de nacionais de qualidade superior. E vice-versa.

Depois de provar os espumantes do Rio Grande do Sul e de analisar a evolução vitivinícola nacional, os articulistas do Figaro chegam à conclusão de que os vinhos efervescentes brasileiros têm futuro brilhante. Temos boa reserva de gás.

Falam de nós – 10

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

«Brazil is fast becoming the Greece of Latin America, seemingly willing to be wiped off the map of relevance like sad sack Venezuela and arch rival Argentina. It’s too bad, really.»

«O Brasil está-se tornando rapidamente a Grécia da América Latina. Tudo indica que está prestes a ser varrido do mapa da relevância, como o ‘triste saco'(*) chamado Venezuela e a arquirrival Argentina. É pena.»

Kenneth Rapoza, em artigo publicado na Forbes online de 3 set° 2015.

(*) Sad sack (= triste saco) é forma eufemística. Na íntegra, a expressão é Sad sack of shit (= triste saco de fezes). Durmam tranquilos, cidadãos! Estamos em excelente companhia.

Arma secreta

José Horta Manzano

Heroi 1Todo país guarda memória de algum dirigente excepcional, daqueles que só aparecem uma vez por século. Refiro-me a gente da estirpe de um Winston Churchill, de um Otto von Bismarck, de um Abraham Lincoln ou de um Charles de Gaulle. O Canadá também teve o seu. Foi o Primeiro-Ministro Pierre Elliott Trudeau (1919-2000).

Dotado de grande simpatia e de espírito vivo, Trudeau segurou as rédeas de seu país em duas ocasiões, totalizando 15 anos. São de sua lavra algumas pérolas oratórias. Certa ocasião, em discurso no Clube de Imprensa de Washington, soltou uma preciosidade curta, grossa e irretocável. Referindo-se aos Estados Unidos, disse:

Interligne vertical 3Interligne vertical 3«Living next to you is in some ways like sleeping with an elephant. No matter how friendly and even-tempered is the beast, one is affected by every twitch and grunt.»

Ser vizinho seu é como dormir com um elefante. Por mais amistoso e manso que seja o animal, a gente sente cada movimento e cada grunhido.

Fazia alusão, naturalmente, ao descomunal peso demográfico, econômico, militar e político do vizinho. Os dois países são separados (ou unidos, como queira) por quase 9000km de linha demarcatória, a mais longa fronteira do planeta entre duas nações.

Fronteira 1Embora a gente nem sempre se dê conta, o Brasil assume, na América do Sul, o papel do elefante. Com população e peso econômico equivalente ao de todos os hermanos reunidos, nosso país é observado com crescente atenção pelos vizinhos. Nossos sobressaltos nacionais extrapolam fronteiras.

A edição online deste domingo do espanhol El País aponta exatamente para essa influência que, o mais das vezes, nos passa despercebida. Se mensalões, petrolões e recessões nos deixam apreensivos, o mesmo sentimento de insegurança atravessa cerrados, pampas, pantanais e florestas para incomodar outros povos.

by Fernando de Castro Lopes, desenhista carioca

by Fernando de Castro Lopes, desenhista carioca

Nossos vizinhos – uns menos, outros mais – sentem inquietação. Para a Argentina, o Uruguai e o Paraguai, as trocas comerciais com o Brasil são de importância vital. Se bambearem, eles estarão em apuros.

Nossos vizinhos de inclinação autocrática e populista – ou «bolivariana», como eles preferem – andam angustiados com os desdobramentos da Lava a Jato. La Paz, Caracas e Quito sabem que o regime que vêm tentando implantar há anos não sobreviverá a uma guinada brasileira em direção à civilização. Se o Brasil conseguir aperfeiçoar sua democracia, o regime autoritário de alguns vizinhos definhará.

Manif 3A marca deixada pelo presidente americano Richard Nixon (1913-1994) não é positiva. No entanto, em pelo menos uma ocasião, o chefe de Estado pronunciou palavras proféticas. Em 1971, já vislumbrava a crescente e inevitável influência de nosso País quando disse que «para onde for o Brasil, irá a América Latina».

Está aí, companheiros! Não estamos sós! Além-fronteiras, também se repete a partição entre «nós & eles». De um lado, há os que torcem pelo soerguimento da economia brasileira, objetivo que só pode ser atingido depois de varrida a bandalheira que nos tem martirizado. De outro lado, há os que rezam para que nada mude, pois são beneficiários diretos do statu quo.

Quanto aos de fora, que torçam, que rezem, que façam novena ou trezena, de pouco adiantará. O futuro do Brasil está contido na arma que só se concede aos nacionais: o voto.

Nuestra América

José Horta Manzano

Das trevas, nasce a luz. Se momentos de estresse são penosos, são também propícios para lançar luz sobre assuntos que andavam meio esquecidos.

Um quarto de século atrás, foi criado o Mercosul. Concebido para impulsionar atividades comerciais, tornou-se tribuna política e está emperrado faz mais de dez anos. Desde que a Argentina quebrou, no começo deste século, o clube sul-americano desviou-se de sua função e hoje não passa de penduricalho folclórico. Atrapalha mais que ajuda.

Mercosul 2Entre os projetos que o senador Calheiros desenterrou e foi correndo mostrar à presidente da República, está o abandono do Mercosul. É encorajante. Até que enfim, alguém ousa gritar bem alto o que todos têm pensado baixinho. Essa associação de países atrasados, regidos por personagens populistas, não nos serve.

Que se tome o exemplo da União Europeia. Numa visão mais ambiciosa que a nossa, o objetivo maior era a integração política, a criação dos Estados Unidos da Europa. Crises internacionais escancararam disparidades entre sócios e acirraram desavenças. A atratividade do bloco desmilinguiu a ponto de alguns membros já cogitarem retirar-se do clube.

Por que continuar dando murro em ponta de faca? Uma retirada do Brasil do Mercosul aumentará nossas chances de alavancar o comércio exterior. Vamos torcer pra que a proposta sobreviva aos manifestos de 16 de agosto.

Hermanos no muy amigos

José Horta Manzano

Tantas faz doña Cristina, tanto exige, tanto atravanca, que não deixa aos sócios outra saída senão a traição. Estou falando do Mercosul e de doña Cristina, presidente da vizinha Argentina.

by Vincent van Gogh (1853-1890), artista holandês

by Vincent van Gogh (1853-1890), artista holandês

Um drama como o que se desenrola estes dias na Grécia já aconteceu na Argentina, igualzinho, quinze anos atrás. Um coquetel explosivo à base de corrupção, incapacidade e má gestão gerou caos nas contas públicas. Na sequência, vieram crise política, calote nos credores, «corralito», recessão, desemprego.

A sobrevivência do país hermano, estes últimos anos, deve muito à indulgência com que tem sido tratado pelo governo brasileiro. Se já não era fácil lidar com o pranteado Nestôr Kirchner, o convívio com doña Cristina é ainda mais áspero.

Trigo 1A Argentina é vista pelo mundo com desconfiança, como se empesteada fosse. A reputação de seriedade que o país tinha levado um século para firmar escorreu pelo ralo. Vão-se passar décadas até que se recupere a credibilidade. Só a mão amiga do Brasil tem evitado desastre maior.

Mas até mão amiga se cansa. A burocracia, os empecilhos, os vaivéns estão esgotando a paciência de tradicionais importadores brasileiros de trigo argentino.

O jornal La Nueva, de Mar del Plata, fala da sinuca em que estão metidos os triticultores argentinos. O comércio com o país vizinho é tão entravado que os importadores brasileiros têm abandonado o trigo argentino em favor do americano e do canadense.

Para piorar, em gesto de reciprocidade dirigido à Rússia – que se tornou grande cliente de frigoríficos brasileiros – nosso Ministério da Agricultura decidiu incentivar a compra de trigo daquele país.

Taí. Nenhum «malfeito» fica eternamente impune. Mais dia, menos dia, a conta acaba chegando.

Trigo 2A Petrobrás, maior contribuinte da Receita Federal, ia pelo mesmo caminho da Argentina. Pelas mesmas razões. Se ainda está de pé, combalida mas viva, é porque a rapina foi descoberta a tempo, enquanto ainda se podia salvar alguma coisa. Mais uns aninhos e… babau! Se o escândalo não tivesse estourado a tempo, se tivesse durado até o fim do atual mandato presidencial, só haviam de sobrar-nos o olhos para chorar.

Tamanho não é documento

José Horta Manzano

A necessidade de aproximação entre países europeus se fez sentir sobre as cinzas fumegantes da Segunda Guerra. Para evitar que nova catástrofe sobreviesse, era urgente enquadrar a Alemanha. Era melhor não bobear. Se nada fosse feito, nova perigava estourar logo logo.

O embrião da atual União Europeia surgiu já no início dos anos 50, com a Ceca – Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. São as matérias primas essenciais para fabricar armas e tanques. Controlar essa indústria em conjunto era boa vacina contra surpresas bélicas.

Em 1957, o Tratado de Roma fundou o Mercado Comum. Seis eram os países-membros: a Alemanha (naturalmente), a França, a Itália, a Holanda, a Bélgica e Luxemburgo. Embora o peso econômico dos três grandes fosse incomparavelmente superior ao dos demais, o nível de desenvolvimento e o PIB per capita de todos eram equivalentes.

Europa UEQuase vinte anos depois, nos anos 70, a lembrança da guerra já começava a se esfumar. O clube foi admitindo novos sócios. Afastado o espectro de conflitos armados, foi-se firmando a ideia de que quanto maior fosse o número de sócios melhor seria para todos. Sucessivamente, países foram sendo incorporados até chegar aos atuais 28 membros.

No papel, é bonito. O conjunto conta com meio bilhão de habitantes (duas vezes e meia a população brasileira). Em extensão, é o sétimo território no planeta, logo após Brasil e Argentina. Tem o maior PIB mundial – 18 trilhões de euros. Porém…

Na prática, a teoria é outra. Na ânsia de arrebanhar países, privilegiaram a quantidade em detrimento da qualidade. Deu no que deu, um dramático desequilíbrio entre membros.

Enquanto cada um tinha sua moeda, ainda era possível, por meio de desvalorizações, corrigir discrepâncias entre sócios. Depois que se cometeu a loucura de instituir moeda única para economias díspares – deixando a cada país a liberdade de determinar sua própria política monetária – o desastre estava programado. Taí, estourou. O problema grego escancarou a imprudência.

Macarrão 1O Mercosul está seguindo o mesmo caminho temerário. Já emperrado pelas rusgas crônicas entre o Brasil e a Argentina, chamou a Venezuela e agora a Bolívia. Sem contar a Guiana (ex-inglesa) e o Suriname (antiga Guiana Holandesa), que estão à porta, com um pé dentro. Por que não a Mongólia?

Francamente, está armada a receita do cruz-credo. Se o clube já não funcionava com quatro sócios, por que, diabos, funcionará com sete ou oito? Tamanho não é documento. Como dizem os italianos: “Pochi ma buoni, come i maccheroni” – pouco, mas bom, como o macarrão.

Coisa do outro mundo

José Horta Manzano

Não é todos os dias que se lê notícia tão espantosa. O presidente do Senado Federal estuda processar a Polícia Federal! Vamos por partes.

A Constituição da República distingue três poderes independentes e – de preferência – harmônicos. Trocada em miúdos, a informação trazida pela manchete é preocupante: um dos três poderes vale-se de um outro para atacar o terceiro. Não se passasse entre excelências, pareceria briga de condôminos. Não deixa de ter seu lado cômico.

É boa nova? É ruim? Tirando o aspecto circense, a manobra não deixa de ser salutar. Dentro das regras, está. Em tempos normais, seria sinal inquietante de desarmonia nas esferas elevadas. No entanto, no ponto em que estamos, um processo a mais ou a menos tanto faz.

Ca bouge 1Tem muita coisa mudando neste Brasil velho. Dado que a gente está envolto pelos acontecimentos, fica difícil dar-se conta. O recuo necessário para análise serena só virá daqui a alguns anos.

Uma coisa é certa: do jeito que estava, era impossível continuar. As atuais turbulências dão a prova de que muita coisa está mudando. Pode até ser que os caminhos que se abrem não sejam excelentes. Mas vale a pena tentar, que não temos outra saída. Com o tempo, vamos acabar aprendendo.

O Brasil, a Argentina, a Venezuela e a Grécia são a demonstração gritante de que o populismo – pouco importa se de esquerda, de direita, de cima ou de baixo – não leva nunca a bom porto. Mais cedo ou mais tarde, a conta chega. E bem salgada.

Dois pra lá, dois pra cá

José Horta Manzano

Interligne vertical 11a«Lo que hoy empieza a dar miedo es que algunas fuerzas políticas, tentadas por el demonio de la perpetuación en el poder a cualquier precio, en vez de buscar soluciones para la salida de la crisis, puedan acabar dividiendo al país como sucede ya en Argentina y Venezuela, con tentaciones, como en aquellos países, de amordazar la información libre.»

«O perigo atual é que algumas forças políticas – obsessionadas pela perpetuação no poder a qualquer preço –, em vez de procurar soluções para sair da crise, acabem fraturando o país e tentando amordaçar a livre informação, tal como já acontece na Argentina e na Venezuela.»

Enquanto os brasileiros, temporariamente anestesiados, ‘pulam’ seu carnavalzinho, analistas internacionais externam preocupação quanto ao que está para acontecer logo depois que momo tiver deposto sua coroa.

Dança 2A exemplo, leia-se o interessante artigo do jornalista e escritor Juan Arias Martínez, publicado em 16 fev° 2015 pelo quotidiano espanhol El País. Numa comparação entre o caráter brasileiro e o de seus vizinhos de parede, o articulista conclui que, onde outros povos latino-americanos costumam se dividir em blocos fratricidas, o brasileiro sempre se mostrou unido na adversidade.

Cita o movimento das Diretas Já e as Manifestações de Junho 2013. Ressalta que, na hora do aperto, os brasileiros costumam se agregar em torno de uma só ideia, diferentemente de seus vizinhos. Venezuelanos, argentinos e outros hermanos tendem a se fragmentar em blocos antagônicos.

Manif 13As lentes do analista espanhol temem que o vírus da desagregação social nos esteja contaminando. Cita o crescente clamor pela destituição da presidente, contrabalançado por resistência feroz de grupos que apoiam a mandatária – aqueles que línguas venenosas qualificam como «militância paga».

Do ‘nossas roupas comuns dependuradas’ estamos passando para o ‘dois pra lá, dois pra cá’. Da luta pelo bem comum, vamos lentamente escorregando para o encorajamento a erradicar aqueles que não pensam como nós.

Manif 14Arias menciona a Petrobrás, o juiz Moro, a operação Lava a Jato, a pesquisa Datafolha, a Constituição. Lembra também que manifestações de âmbito nacional estão convocadas para 15 de março. Diz que é difícil saber que «eco popular» poderão ter as passeatas.

Também, pudera. Num país onde se vai dormir sem saber se no dia seguinte a lei não terá mudado, nem bola de cristal ajuda a adivinhar o futuro. Quem viver verá.

Que clique aqui quem quiser ler o artigo na íntegra.

Do Enem ao Nobel

Gerson de Almeida (*)

Estudante 8«A Argentina tem cinco prêmios Nobel, nenhum em literatura. Poderia ter seis: Borges foi severamente injustiçado. E citei os argentinos mais pela birra dos brasileiros: “somos pentacampeões!”. Ao olhar a galeria de notáveis argentinos devemos ficar quietinhos.

Em literatura, a Colômbia tem um. O Chile tem dois – um stalinista, mas valeu. O México tem um. O Peru tem um. Até a Guatemala, do tamanho do seu quintal, leitor, tem um Nobel! Nóis num guenta!

(…) Quando o Brasil terá um Nobel? Pelo resultado do último Enem… nunca! Nunquinha mesmo»

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(*) Citação extraída de artigo de Gerson de Almeida, colaborador do blogue literário Verso & Prosa.

O coqueiro e a ladeira

José Horta Manzano

A distinta e fiel leitora Michèle fez um comentário muito pertinente no post Falam de nós – 1, publicado em 3 nov°. Achei que a resposta podia interessar outros leitores, eis por que ela está aqui a seguir.

Interligne vertical 16 3KbCompreendo seu desconcerto, Michèle, que é o de tanta gente. Também eu me sinto desarmado. Mas deixe estar, que tudo o que sobe acaba descendo um dia. E, como todos sabem, mais alto é o coqueiro, maior é o tombo.

Coqueiro 1Há duas maneiras de afastar esse cálice amargo de nossa boca e de arredar do andar de cima essa gente que nunca deveria ter lá entrado. Uma das soluções é mais demorada; a outra, bem mais rápida.

O caminho demorado é dar instrução ao povo. É radical, só que, pra chegar lá, precisa primeiro investir e, em seguida, esperar uns vinte anos. Nossa elite governante não tem tempo nem vontade de se dedicar a civilizar os mais carentes. Portanto, essa ruela é sem saída.

Sobra a solução rápida. E ela já está a caminho. Se estivéssemos no século XIX, diríamos que ela «vem a cavalo». Nos anos cinquenta, a expressão era «vem vindo a jacto». Sabe o que é, Michèle? Pois é a economia.

A dor mais doída que se pode impor a um povo é a dor de bolso. Você, que é muito jovem, não conheceu os tempos da hiperinflação. Era um terror. Os preços dobravam a cada mês. Ninguém mais tinha ideia do valor de objeto nenhum. Se lhe cobrassem 10, 15, 20 ou 25 por um produto qualquer, dava no mesmo. A gente sequer sabia qual seria o salário no fim do mês – os reajustes eram mensais. Não dava pra fazer conta, nem previsão. Loucura maior seria comprar a prestação. Era desespero total.

Se o Collor foi despachado de volta pras Alagoas, 20 anos atrás, foi em grande parte por causa do vendaval econômico que varria o País. Somente a estabilidade permitiu que um FHC e um Luiz Inácio governassem com relativa tranquilidade. Para os mais jovens, parece que é ponto pacífico, que sempre foi assim. Não foi, acredite. O Plano Real foi uma conquista histórica e trouxe um bem-estar com que nós, os mais antigos, nem sonhávamos. Esse foi, sim, o grande salto em direção ao Primeiro Mundo.

Crédito: Baixaki

Crédito: Baixaki

Hoje, pelo andar da carruagem, estamos descendo a ladeira, veja só. A inflação de volta, preços subindo, indústrias fechando. A China – nosso principal mercado(!) – andando em marcha reduzida. A Argentina às portas da falência e a Venezuela em perdição. No governo, a roubalheira corroendo o que resta. A dívida pública engordando. A marca Brasil perdendo prestígio e caindo em descrédito perante o resto do mundo. Todos os indicadores estão no vermelho e apontam para baixo.

Não vai demorar muito. O fruto vai cair de podre. Como? Não sei, que não tenho bola de cristal. Aliás, acho que ninguém sabe direito como vai ser. Mas a coisa não pode – e não vai – continuar assim mais muito tempo. A má gestão, quando ataca a economia, afeta a todos, ricos, pobres e remediados.

Abraço a você. E obrigado pela fidelidade.

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Já ensinava o velho Lucius Annæus Seneca, filósofo e estadista romano, em suas Epístolas Morais a Lucílio:

«Multos fortuna liberat pœna, metu neminem»
«A sorte livra muitos do castigo, mas não do medo»

No creo en brujas…

… pero que las hay, las hay.

José Horta Manzano

Bruja 2Não sou muito dado a assuntos esotéricos. Em matéria de vidência, premonição e artes conexas, costumo ficar com um pé atrás. Previsão boa mesmo é aquela que foi registrada em cartório. De preferência, antes de ocorrer o fato previsto. Isso é coisa rara.

Programa de tevê gravado e difundido no youtube antes do acontecimento tem, a meus olhos, o mesmo valor. Nestes tempos modernos, podemos dispensar carimbo, estampilha, autenticação e firma reconhecida.

Não sei se meus distintos leitores conhecem um certo senhor Carlinhos, de Apucarana (PR), para quem o futuro não envolve segredos. Vê e conta, a quem quiser ouvir, o que vai acontecer. Por vezes, erra – que ninguém é perfeito. Mas seus acertos são despudorados e desconcertantes. Fiquei sabendo hoje da existência do homem.

Se você não conhece o rapaz e dispõe de 7 minutos, recomendo seguir o caminho seguinte:

Bruja 1Primeiro, assista a um vídeo de 2 minutos, gravado pela TV Apucarana na primeira fase da «Copa das copas», ainda antes do encontro Brasil x México. O filminho foi publicado no youtube em 16 jun° 2014. Contrariando a esperança de milhões, o vidente afirma, com todas as letras, que o Brasil não ganhará a Copa. Diz também que os times que mais se aproximam do título são Alemanha, Holanda e Argentina. Diz mais ainda: se o Brasil pegar a Alemanha ou a Holanda, vai perder – vai levar um gol atrás do outro. E tem mais um detalhe: afirma que Neymar estará afastado do campo durante um ou dois jogos da segunda fase.

O vídeo, disponível no youtube, está aqui.

Em seguida, dê uma olhada no vídeo de 5 minutos gravado durante um programa do canal SBT e inserido no youtube em 12 jul° 2014. Indagado sobre as eleições que ocorreriam dali a 3 meses, o rapaz dá o nome dos três finalistas, na ordem de chegada. Põe Aécio em 1° lugar, Dilma em 2° e Marina em 3°. Repare bem que ele já menciona o nome de Marina Silva, esquivando Eduardo Campos, o candidato que viria a falecer dois meses mais tarde.

O vídeo, também disponível no youtube, está aqui. Se tiver pressa, pode pular o começo e assistir a partir do último minuto.

Urna 2Do jeito que vão as coisas, só resta aos atuais mandatários um último recurso: manipular os resultados das exóticas «urnas» eletrônicas.

Neste Brasil versão século XXI, uma desonestidade a mais ou a menos não há de fazer diferença.

É do Caribe

José Horta Manzano

Você sabia?

Estava lendo, na Folha de São Paulo, sobre denúncia de malversações no consulado do Brasil em Mendoza, na hermana República Argentina. Os malfeitos foram apontados – pasmem! – pelo Banco Central do país vizinho.

Perto do assalto à Petrobrás, é café pequeno. Responsáveis pelo consulado andaram comprando dólares no oficial e vendendo no paralelo. É comércio pra lá de rentável dado que, naquela economia desregrada, o ágio é importante.

Santa Lucia

Santa Lucia

Pela reportagem, fiquei sabendo que nosso cônsul, sobre cujos ombros recai a suspeita maior, já não oficia em Mendoza. Foi transferido, faz alguns meses, para o posto de embaixador em Santa Lúcia, nas ilhas caraíbas (em português: no Caribe).

Curioso, procurei me informar sobre esse país, do qual havia vagamente ouvido falar. Pois saiba o distinto leitor que a ilha de Santa Lúcia mede uns 20km de largura por uns 40km de comprimento. Tem população total de 170 mil pessoas, um terço das quais vive em Castries, a capital. Profundos laços culturais e intensas trocas comerciais entre nosso país e Santa Lúcia justificam amplamente a instalação de embaixada brasileira nesse país, parceiro importante e estratégico.

Levei um pouco mais longe minha curiosidade. Descobri que o Itamaraty mantém embaixada em outros países exóticos. Em Antigua e Barbuda, por exemplo, país de 440km2 e 90 mil habitantes. Num país chamado Granada igualmente. Granada espalha seus 90 mil habitantes por um território de 350km2. Para efeito de comparação, note-se que o município de São Paulo tem superfície de 1500km2.

Outro paraíso privilegiado a contar com embaixada brasileira é o burgo de Basseterre (13 mil habitantes), capital de São Cristóvão e Névis, país de 40 mil habitantes.

Há muitos outros casos do mesmo naipe. Não vou citar todos porque é maçante e deixa um gosto amargo. Sabe você quanto custa montar e manter uma embaixada? Não sabe? Nem eu, mas é fácil imaginar que custe mais que dez merréis. Aluguel, mobiliário, meios de comunicação, salário do embaixador, salário do pessoal, gastos de representação, despesas de viagem, papelada, malote diplomático. Serão alguns milhões por ano. Para quê?

São Cristóvão e Névis

São Cristóvão e Névis

Nem Estados Unidos, nem França, nem Reino Unido têm embaixada em Pyong Yang, Coreia do Norte. O Brasil tem. Para que serve, se não como escoadouro de dinheiro que poderia ser mais bem empregado? Pois eu vou-lhes dizer para que serve: é fruto de elucubrações ingênuas dos aspones presidenciais destes últimos doze anos. Se os EUA não têm embaixada e nós temos, isso significa que somos mais importantes. Voilà!

A multiplicação de embaixadas não nos torna mais importantes nem mais respeitados. Demonstrações dessa natureza não convencem. Por minha parte, eu trocaria todos esses penduricalhos por um prêmio Nobel em área científica. Unzinho só. Vale mais que todas as embaixadas no Caribe.

Ninguém sabe direito por que o Brasil é anão diplomático. Por falta de embaixadas é que não será.

Se os 2 minutos finais fossem meus…

Fernão Lara Mesquita (*)

Brasileiros!

O passo que vamos dar domingo é decisivo. Pense bem antes de apertar aquele botão.

Esse retrato cor-de-rosa do Brasil que os marqueteiros da Dilma pintaram na campanha é falso. Os números em que ele está baseado são falsos.

A festa acabou mas o PT continua batendo bumbo pra fazer você dançar. Você sabe bem disso. Você está sentindo isso no seu bolso, na compra do mês e na prestação que não cabem mais no salário.

by Carlos Augusto R. Nascimento, desenhista paraense

by Carlos Augusto R. Nascimento, desenhista paraense

Os números que a Dilma mostra valem tanto quanto os juramentos solenes de acabar com a corrupção e a impunidade do partido que, quando chega a hora de agir, só age para desmoralizar a Justiça e tirar da cadeia, um por um, todos os condenados por corrupção. Nenhum dos que foram presos continua preso. Nenhum dos que estavam no poder perdeu o poder.

No plano internacional tem sido a mesma coisa.

O PT vive falando em direitos humanos mas só age na ONU para impedir que os maiores criminosos do mundo sejam detidos. Promete democracia mas só se relaciona com ditadores. Com aquele tipo de gente que aceita convite pra entrar mas não aceita ordem pra sair.

Tudo isso não é só coincidência.

O PT pede o seu voto mas já cassou por antecipação o que você vai dar domingo para o seu futuro deputado no Congresso com o decreto que a Dilma assinou há cinco meses – aquele que põe para fazer as leis do Brasil, no lugar dos parlamentares, os “movimentos sociais” que você não elegeu.

É por cima de tudo isso que o PT pede mais 4 anos, além dos 12 que já se foram, e olhando pra outros 8 logo ali adiante.

by Ronaldo Cunha Dias, desenhista gaúcho

by Ronaldo Cunha Dias, desenhista gaúcho

Olhe pra Cuba, olhe pra Venezuela, olhe pra Bolívia, olhe pra Argentina; olhe pros ditadores todos que o PT não se cansa de festejar e pros países que ele aponta como modelos para o Brasil.

É isso mesmo que você quer?

Domingo vai começar a nascer o Brasil onde seus filhos vão viver.

Por isso, pense bem antes de apertar aquele botão.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista e editor do blogue Vespeiro.

Mercosul imprescindível

José Horta Manzano

A editoria de arte da Folha de São Paulo produziu um diagrama sobre as importações que a Argentina tem feito, nos últimos dez anos, de produtos brasileiros e de produtos chineses.

Mercosul 3Salta aos olhos o declínio ― a degringolada! ― da importância dada pelos importadores argentinos ao produto brasileiro. No ritmo atual, bastarão poucos anos para que a China ultrapasse o Brasil como maior fornecedor do país hermano.

Cupula Mercosul

Fica mais uma vez escancarada a evidência. Uma nação não tem amigos, tem parceiros. A China tem sabido lidar com a Argentina, sem afagos, sem tapinha nas costas, sem subserviência.

Talvez fosse uma boa ideia o Itamaraty mandar estagiários a Pequim para aprender como funciona a diplomacia comercial laica, sem amarras ideológicas.

Uma outra ideia, talvez ainda mais coerente, seria convidar a China para ser membro do Mercosul. Aí, a coisa ia.

Para redourar a imagem

José Horta Manzano

Precisa ser muito caradura. Um correspondente do Estadão nos informa que o Brasil está para apresentar, ao plenário da ONU, proposta de combate à impunidade de crimes contra a imprensa e contra a liberdade de expressão.

Anúncio 1Logo o Brasil, quem diria! E pensar que, em assuntos de reprimir a livre expressão de ideias, nosso País poderia dar aulas a qualquer principiante.

Quem não se lembra do caso do jornalista americano Larry Rohter? Em 2004, era correspondente no Brasil do New York Times. Foi ameaçado de expulsão do País por ter ousado pôr no papel o que todos já sabiam: que o Lula, então presidente da República, era forte apreciador de uma branquinha.

Quem já se esqueceu da Operação Boi Barrica? Era investigação sobre os ‘malfeitos’ do filho de José Sarney, suspeito de ter sacado ― sabe-se lá de onde ― 2 milhões de reais em dinheiro vivo para financiar a campanha da irmã Roseana. Uma decisão judicial cassou ao jornal Estadão o direito de publicar uma linha sequer sobre o assunto. Faz mais de cinco anos que a mordaça continua atada.

E aquele banco que, pressionado pelo Planalto, teve recentemente de demitir uma penca de analistas financeiros que haviam recomendado cautela a seus clientes, diante das perspectivas econômicas nacionais? Se isso não for cerceamento da liberdade de opinião, o que será?

Jornal 1Quem se lembra de ter passado alguns dias, nem que fosse uma semaninha só, sem ouvir declaração de um sempre furibundo Lula acusando a imprensa de todos os males? Para ele e para seus áulicos ― incluindo a atual presidente da República ―, imprensa boa é aquela que proclama o lado bom do governo e cala sobre o que não convém publicar. Mídia que conta as coisas como são é golpista e preconceituosa.

Depois de passar 12 anos pressionando a mídia, vem agora o governo brasileiro propor ao mundo a proteção da liberdade de expressão? É como se a China propusesse a proibição do ‘dumping’. Ou se a Argentina patrocinasse a publicação de estatísticas transparentes. Ou se Cuba lutasse pela adoção planetária do princípio da livre circulação dos indivíduos.

Francamente, tem gente que não teme o ridículo.

Economia brasileira, enfim com crescimento cubano

Percival Puggina (*)

Na edição desta última quinta-feira, o Estadão traz artigo do economista Roberto Macedo analisando os dados de um recentíssimo relatório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). O robusto documento de 216 páginas traz a classificação dos países segundo o crescimento do PIB 2014 estimado pela Comissão.

Trinta e três países compõem a região. Estimando o crescimento do PIB brasileiro no corrente ano em 1,4% ― expectativa otimista que sequer o Banco Central corrobora ―, o Brasil fica em 27º lugar, empatado com Cuba.

Se adotarmos a expectativa mais realista, aquela com a qual os analistas do mercado vêm operando, o Brasil ficaria em 30º, à frente apenas dos parceiros petistas Argentina e Venezuela. E logo acima de Barbados, pequena ilha caribenha de 280 mil habitantes, fragmento do Reino Unido.

Lembra o autor do referido artigo que nosso governo tem afastado das próprias costas a responsabilidade por esse desastre, atribuindo o infortúnio a um rescaldo da crise internacional de 2008.

Ora, comento eu, como pode o mesmo governo, que cacarejou como seus os ovos dos bons índices de 2007, 2008 e 2010, remeter a algum sujeito oculto no mercado mundial os ônus das contas do malfazejo período Dilma? E, principalmente, por que outros 29 países da região crescem mais que o Brasil?

Ao que me consta, todos produzem, consomem, compram e vendem no mesmo planeta que nós, embora nosso governo pareça viver no mundo da Lua.

(*) Percival Puggina é arquiteto, empresário, escritor e colunista do jornal Zero Hora.
Edita o blogue puggina.org.

Frase do dia — 167

«Com os EUA desinteressados e demonizados e o Brasil envolto em seus próprios dilemas, a Argentina é cada vez mais atraída ao campo gravitacional chinês.»

Marcos Troyjo, economista, em sua coluna da Folha de São Paulo, 8 ago 2014.