Os cabelos de Nossa Senhora

José Horta Manzano

Lembro-me de um tempo em que ‒ diziam ‒ especialistas do exterior vinham admirar as proezas da engenharia brasileira. Contam que, à época da Guerra Fria, invejosos e incrédulos engenheiros soviéticos atravessaram meio mundo exclusivamente pra medir o espaço entre as colunas de sustentação do Museu de Arte de São Paulo, na avenida Paulista. À época, era o vão livre mais amplo já erguido no planeta, não sei se a estatística ainda vale.

De lá pra cá, parece que um pedregulho penetrou nas engrenagens e travou o suave funcionamento do mecanismo. Viadutos cedem, pontes desabam, barragens estouram. Por quê? Estaria o software de engenheiros nacionais fora de validade? Estaria o solo tropical mais instável que de costume, a ponto de tragar construções sem aviso prévio?

O distinto leitor sabe que não são essas as razões. O fato é que o desleixo, doença crônica nossa, cobriu estas terras tropicais com sua teia de miséria. O desmazelo ‒ e sua irmã gêmea, a impunidade ‒ estão na raiz desses problemas. A ruptura da barragem de Brumadinho é a mais recente dessas catástrofes. A série macabra já vem de longe e todos tememos que não termine aqui.

Acidentes acontecem, é verdade, e são às vezes imprevisíveis. Ninguém pode prever que um meteorito vá um dia riscar o céu e se espatifar dentro duma represa, provocando ruptura do muro de contenção. É difícil antecipar uma chuva de 40 dias e 40 noites sem parar, como nos tempos bíblicos, provocando o transbordo da represa. É tremenda má sorte um tornado se formar bem em cima do reservatório, provocando um remoinho cuja força acabe arrombando a parede de concreto. São ocorrências pra lá de extraordinárias. Suas consequências vão além do que o engenho humano pode prevenir.

Masp – Museu de Arte de São Paulo

O que tem acontecido com nossas obras de engenharia civil, no entanto, está dispensando meteoritos, tornados e dilúvios bíblicos. Construções desmoronam assim, sem mais nem menos, como fruta madura cai da árvore. Em seguida, quando se analisa com cuidado, a constatação é sempre a mesma: faltou manutenção. A entidade responsável, confiante na bondade divina, descuidou-se de vigiar e de fazer os reparos necessários enquanto ainda era tempo. Lembraram-se do adágio «Faz a tua parte, que Eu te ajudarei», mas ficaram só com o ‘Eu te ajudarei’, esquecendo-se do ‘faz a tua parte’.

Semana passada, doutor Bolsonaro fez saber, através de seu ministro de Minas e Energia, que pretende retomar a construção de usinas nucleares. Entre quatro e oito novas enormes silhuetas fumegantes deverão surgir no território.

Usina nuclear serve pra gerar energia elétrica. O Brasil tem duas delas em funcionamento, que respondem por 1,1% da eletricidade do país. Oito novas usinas, na hipótese mais ousada, representarão 4% da energia nacional. Se considerarmos os bilhões de dólares que serão investidos, o resultado é magrinho. Muito dinheiro pra pouco efeito.

Mas o pior não é o dinheiro. Com a cultura do desmazelo que nos invade, plantar usinas nucleares é decisão temerária. Se uma represa que se rompe causa centenas de vítimas, uma central nuclear que explode pode deixar milhões de mortos, sem contar a contaminação de grande parte do território nacional por centenas de anos.

Em países como Alemanha, Suíça e outros ajuizados, já está sendo aplicado o plano de abandono da energia nuclear. Não é coisa que se possa fazer do dia pra noite. Na Europa, os próximos 30 anos verão o desaparecimento paulatino desse tipo de geração de energia, que será substituída por matrizes renováveis.

Projetar usinas nucleares no Brasil em pleno século 21 é andar de marcha a ré. «Quem anda de costas», dizem no Catecismo, «pisa os cabelos de Nossa Senhora». Convém evitar.

Adotando um pesadelo

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Nos últimos meses, tenho evitado como posso abordar o tema “vida ao lado de cachorros”. Desde que minha filósofa de quatro patas preferida partiu, abriu-se um imenso vazio em meu coração e teve início um angustiante período de falta de interlocução com outros humanos e outros animais.

Não me entendam mal. Continuo desenvolvendo como de hábito minhas atividades profissionais e sociais, encontrando parentes e amigos, cuidando da minha cachorra Aisha e tentando encontrar uma nova companheira peluda que seja capaz de nos tirar do pântano existencial em que patinamos. Por mais contraditório que pareça, nada disso consegue trazer alívio ou verdadeiro prazer para minha mente atormentada.

Constato com mais força a cada dia que passa que o vínculo que me uniu à Molly é, para todos os efeitos, único e insubstituível. Talvez para quem nunca tenha convivido com um animal de estimação soe estranho falar sobre a personalidade de cada pet, mas assim é. Independe totalmente de sua raça, porte, idade ou sexo. Cada bicho tem um jeito peculiar de andar, comer, tomar água, brincar, dormir, exprimir suas necessidades e se relacionar com seu dono. Não há como transferir para outro cachorro a rotina de cuidados e experiências, sem que tudo pareça despropositado, forçado ou fora de ritmo.

Como a interlocução entre um humano e seu bicho de estimação é de alma, de energia e não passa pelas palavras, a gente é obrigada, mesmo que não queira, a fazer uma revisão profunda dos alicerces que sustentam nossa relação com cada animal. O passatempo preferido da Molly era ficar me olhando com um ar inquisitivo, em completo silêncio e imobilidade, como se pudesse ler tudo o que me passava pela alma. A palavra de ordem na vida da Aisha, ao contrário, é agitação. Qualquer atividade para ela é prazerosa, tanto faz se o convite é para passear ou movimentar-se dentro de casa mesmo, desde que haja uma bolinha como forma de intermediação da nossa relação. Quando não há nenhuma à mão, ela se entrega à apatia e me ignora por completo. Não há meio termo, não há possibilidade de diálogo ou negociação.

É da minha natureza buscar o sossego e a meditação, mas sou forçada a confessar que a rotina de interiorização logo me cansa. Preciso sempre que o beijo de alguma estimulação externa desperte a Bela Adormecida que vive em mim. Recomeçar é, para mim, tão vital quanto o ar que respiro. Quando a vida me oferece essa possibilidade, minha energia mental e espiritual prontamente recomeça a brotar.

Nas últimas semanas, o que mais tenho feito é visitar sites de doação e feiras de adoção de pets. Tenho analisado as mais diferentes opções de tamanho, cor, idade e temperamento canino. A desastrosa tentativa de convivência com a Helô me chamou de volta à realidade: não tenho mais idade, disposição física ou paciência para educar um filhote e lidar com a inevitável frustração de vê-lo destruir tudo ao redor. Passei a focar nas alternativas de adoção de cachorras adultas, mansas e sociáveis, uma vez que preciso levar em consideração também uma possível rejeição da Aisha.

Pode ser que o problema seja meu, mas sinto que a estratégia de marketing que vem sendo usada por muitas ongs e protetores está redondamente equivocada. Na ânsia de aumentar as chances de adoção, praticamente todos os cães anunciados são apresentados como portadores das qualidades acima. A alegação padrão costuma ser a de que o bicho é carinhoso, dócil, carente e obediente, não importa se ele é um pitbull idoso e vítima de maus tratos ou um vira-lata brincalhão que mal começou a vida.

Examino as fotos e analiso com cuidado o olhar de cada cachorra disponível. Não é isso que sinto na imensa maioria dos casos. Quando localizo alguma que tenha o olhar filosófico ou uma postura de esfinge parecida com a da Molly, meu coração bate descompassadamente. Ligo, converso, negocio, explico minha situação, peço informações detalhadas sobre o comportamento da outra. As promessas se repetem, monótonas. Quando alerto que preciso fazer uma experiência de contato entre a candidata e a Aisha antes de me comprometer em definitivo, o discurso começa sutilmente a mudar de figura.

Uma só pode morar em casa térrea, preferencialmente com grades e telas de proteção. Outra magicamente passa a ser diagnosticada como um tanto instável na convivência com outros animais adultos. Outra ainda é apresentada como extremamente medrosa e desconfiada, em função de traumas emocionais derivados de maus tratos. E por aí vai.

Ultimamente, tenho me sentido como uma socialite entediada que tem um exército de tratadores, adestradores e terapeutas caninos à disposição. Outras vezes, como uma dona de casa apalermada, cujo único interesse na vida é cuidar de cães e que tenta preencher seu vazio existencial com eles por não dispor de uma vida social (quiçá sexual) satisfatória.

Será que sou eu quem está à procura um ideal inexistente ou serão eles que ainda não se deram conta de que há infinitas outras formas de crueldade com os animais além do abandono e dos maus tratos?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Boîte à bébé

José Horta Manzano

Você sabia?

Nestes tempos em que vivemos sob o império do politicamente correto, o nome das coisas tem-se transformado. No entanto, de pouco adianta usar luva de pelica: a coisa continua sempre sendo a coisa, ainda que o nome tenha mudado. Mais abaixo, explico.

Desde os tempos bíblicos, existiu a dolorosa situação do recém-nascido rejeitado. Diversas razões podiam levar à rejeição:

Interligne vertical 11aO pai desconfiava que o filho não fosse seu;

O bebê apresentava um defeito físico;

A família não tinha recursos para sustentar mais uma boca;

A criança, fruto de amor clandestino, tinha sido dada à luz por mãe solteira.

Nos tempos de antigamente, o infanticídio era tolerado. Antes de atingir a idade em que podia servir como força de trabalho, a criança era considerada um não-ser, um objeto. Encaixava-se em estatuto análogo ao do animal.

Boite a bebe 2Na Europa, o advento do cristianismo introduziu conceitos novos. A caridade e a compaixão foram enaltecidas. Pouco a pouco, o infanticídio passou a ser visto como ato criminoso. Vez por outra, no entanto, crianças continuavam a ser rejeitadas. Como fazer para conciliar crime e virtude?

Boite a bebe 3Pelo fim do século XII, na Itália e na França, uma solução surgiu. Conventos e hospitais (ou hospícios, como eram chamados na época) instalaram um dispositivo engenhoso. Tratava-se de um tambor, geralmente de madeira, embutido num canto discreto da parede. A peça, que girava sobre um eixo vertical, era oca e tinha uma abertura. Quem estivesse do lado externo podia girar o tambor para inserir, no oco, um recém-nascido. Em seguida, bastava dar meia-volta ao dispositivo para o neonato se encontrar do lado de dentro.

Antes de desaparecer nas sombras da noite, a mãe puxava uma cordinha para avisar que um pequenino acabava de chegar. Assim, em toda discrição, abandonava-se um bebê sem ter de recorrer ao homicídio.

Boite a bebe 4Na Itália, o sistema chamou-se Ruota degli esposti(1) ‒ roda dos expostos. Na França, deram-lhe o nome de Tour d’abandon ‒ torno de abandono. Aliás, no Portugal medieval, o dispositivo era conhecido como torno. Esses tambores multiplicaram-se e espalharam-se por toda a Europa até o fim do século XIX quando começaram a rarear.

Boite a bebe 1A partir dos anos 1950, ressurgiram. Os nomes antigos, hoje, chocam. Foram substituídos por perífrases mais suaves: Le berceau de la vie ‒ o berço da vida; Culla per la vita ‒ berço para a vida; Baby box ‒ caixa de bebês.

Boite a bebe 5Na Alemanha, existem atualmente cerca de 200 desses tambores, chamados Babyklappe ‒ caixa de bebês ou Babyfenster ‒ janela de bebês. A prática tem-se espalhado. A primeira boîte à bébés(2) da Suíça Francesa foi inaugurada estes dias. Hoje em dia, já não precisa tocar o sininho. Um equipamento detectador de presença indica que a cegonha acaba de trazer um pequenino.

Boite a bebe 6Não sei se no Brasil existem dispositivos assim. Se não existem, está mais que na hora de pensar nisso. É sempre menos desumano que abandonar recém-nascido em caçamba de lixo.

Interligne 18h

(1) Uma curiosidade
O sobrenome italiano Esposito indica que, setecentos anos atrás, o patriarca da estirpe foi abandonado na Ruota degli esposti ‒ roda dos expostos. Nem todos os rejeitados levavam esse sobrenome, mas era assaz frequente.

(2) Outra curiosidade
A palavra francesa boîte, que se pronuncia boate, significa caixa. A casa noturna que conhecíamos no Brasil como boate diz-se, em francês, boîte de nuit ‒ caixa de noite. Etimologicamente, a palavra descende da mesma raíz que deu box em inglês e buxo em português (um arbusto comum na Europa, mas raro no Brasil). Interessante, não?

Nuestra América

José Horta Manzano

Das trevas, nasce a luz. Se momentos de estresse são penosos, são também propícios para lançar luz sobre assuntos que andavam meio esquecidos.

Um quarto de século atrás, foi criado o Mercosul. Concebido para impulsionar atividades comerciais, tornou-se tribuna política e está emperrado faz mais de dez anos. Desde que a Argentina quebrou, no começo deste século, o clube sul-americano desviou-se de sua função e hoje não passa de penduricalho folclórico. Atrapalha mais que ajuda.

Mercosul 2Entre os projetos que o senador Calheiros desenterrou e foi correndo mostrar à presidente da República, está o abandono do Mercosul. É encorajante. Até que enfim, alguém ousa gritar bem alto o que todos têm pensado baixinho. Essa associação de países atrasados, regidos por personagens populistas, não nos serve.

Que se tome o exemplo da União Europeia. Numa visão mais ambiciosa que a nossa, o objetivo maior era a integração política, a criação dos Estados Unidos da Europa. Crises internacionais escancararam disparidades entre sócios e acirraram desavenças. A atratividade do bloco desmilinguiu a ponto de alguns membros já cogitarem retirar-se do clube.

Por que continuar dando murro em ponta de faca? Uma retirada do Brasil do Mercosul aumentará nossas chances de alavancar o comércio exterior. Vamos torcer pra que a proposta sobreviva aos manifestos de 16 de agosto.

Cachorros e seus símbolos

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Cachorro 14O que seu cachorro representa para você? Como você explica para outras pessoas o afeto que os une? Ele é como um filho, uma paixão, parte da família, seu melhor amigo, seu companheiro de todas as horas, seu divertimento preferido, seu anjo da guarda, sua sombra, um estorvo, uma ameaça à sua segurança ou à de sua família, ou até, quem sabe, mais um ítem “fashion” que você incorporou ao seu repertório?

Pois é, cachorros podem ser enquadrados em todas essas categorias e em muitas outras mais. Já há algum tempo eles se transformaram numa espécie de ‘commodity’ que é negociada habilmente, com base na estratégia de quanto mais rara, diferenciada ou exótica a raça, maior o preço. Há raças “da moda”, cuja cotação sobe proporcionalmente ao encanto exercido por alguma celebridade que a possua. O apego demonstrado aos cães é tamanho que, hoje em dia, casais em processo de divórcio discutem angustiadamente perante o juiz quem vai ficar com o cachorro e, como a conciliação nem sempre é possível, já há casos de decretação de guarda compartilhada.

Cachorro 16Mais recentemente, algumas campanhas publicitárias passaram a divulgar a tese de que é “out” adquirir um cão de raça e a sinalizar que a adoção de companheiros peludos de quatro patas sem raça definida – o famoso vira-lata – é a atitude politicamente correta a ser tomada.

Seja como for, o envolvimento afetivo de brasileiros com seus cães é notório, um fenômeno tão difundido que já coloca o país nas primeiras colocações em termos de número de cachorros por habitante. Símbolo de fidelidade, lealdade, amor incondicional, capacidade de entrega, integridade e devoção perpétua, os cachorros continuam sendo os animais de estimação preferidos entre nós, desbancando não só os gatos, companheiros mais silenciosos e independentes, mas até “pets” mais exóticos como porcos, iguanas ou macacos.

Cachorro 15Apesar de tudo isso, não há como esconder as estatísticas que apontam um crescente número de animais abandonados nas ruas e parques de nosso país, jogados pela janela de carros, espancados, envenenados ou simplesmente “esquecidos” na petshop depois de um banho. Quanto mais perto do final do ano e dos períodos de férias escolares, maior a incidência de abandonos. Não importa se o cão conviveu com a família por 5 anos ou mais, quando ele se torna inconveniente em função de seu tamanho ou de seu comportamento, a porta da rua é aberta num piscar de olhos.

Uma pergunta se faz obrigatória: quando é que um afeto extremado se transforma em desapego despudorado? Quando é que o encantamento se desfaz e determina que um bicho tão alardeado como amado se transforme em objeto incômodo? Será cansaço, desilusão ou, quem sabe, o desejo de escolher outros passatempos ou ainda outros “pets” da moda?

Cachorro 14Um amigo meu usava sempre, brincando, uma frase de efeito para explicar o aumento nos casos de divórcio: “a convivência gera indiferença”. Embora ele se referisse aos humanos, acredito que essa triste possibilidade se aplica também à relação entre humanos e seus cães. Se os cães são sentidos mesmo pela maioria como filhos, como explicar a quebra da relação de amor e confiança mútuos? Você seria capaz de jogar seu próprio filho no meio da rua, virar as costas e ir embora sem olhar para trás?

Desde que adotei minha primeira cachorra, venho buscando dentro de mim as motivações humanas capazes de justificar a manutenção ou a interrupção dos laços afetivos que desenvolvemos com os cães. Cheguei à conclusão que esse é, sem dúvida, um quebra-cabeça emocional para lá de complexo.

Cachorro 16Algumas ilusões parecem estar envolvidas no momento da introdução de um cachorro na família. A primeira, mais corriqueira, é a de que aquela bolinha encantadora de pelos nunca vai deixar de ser um filhotinho brincalhão, nunca vai crescer. A segunda, um pouco mais complicada, é a de que, ao contrário dos filhos humanos, o cachorro nunca vai abandonar sua “mãe”, nunca vai deixar de amá-la. Bem, isso é verdade mas apenas parcialmente. Os cães nunca abandonam seus donos mas, se forem abandonados e adotados por outra família, transferirão depois de um tempo todo seu afeto para os novos donos. Serão eles os novos líderes de matilha a serem admirados, seguidos e obedecidos.

Talvez seja por contarem com essa possibilidade que muitos donos abandonam seus cães. Não quero demonizar as pessoas que, num dado momento de suas vidas, decidem que não têm mais condições emocionais de cuidar de seus “pets”. A perversidade, a meu ver, não está nessa simples constatação. Está na indiferença daqueles que não buscam ativamente transferir a guarda de seu bicho de estimação para uma pessoa ou entidade que aceite se responsabilizar por ele. No desrespeito à natureza amorosa da relação, deixando de garantir que o animal encontre condições mínimas de alimentação, saúde e proteção.

Cachorro 17Sem dúvida, há cães “difíceis”, assim como há filhos “difíceis”. Os cachorros, assim como as crianças, sabem testar os limites de autoridade da pessoa que cuida deles. Talvez a ilusão mais dolorida para quem tem um cão seja exatamente a de não se dar conta desde o início de que é preciso devolver toda a fidelidade, lealdade, integridade, amor incondicional, capacidade de entrega e devoção perpétua que receberam de seu animal de estimação. Melhor dizendo, a ilusão de não perceber que, nesse sentido, eles são nossos mestres e não nossos aprendizes.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.