Rapidinha 30

José Horta Manzano

«Para se preservar, Dilma celebrou o 70° aniverário do fim da Segunda Guerra em lugar fechado e protegido. Antes dela, o último chefe de Estado a ficar em lugar fechado e protegido em evento ligado à Segunda Guerra chamava-se Adolf Hitler.»

Historinha entreouvida por aí.

O cofrinho

José Horta Manzano

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Muita gente anda excitada por saber que abastados brasileiros têm (ou tinham) conta no banco HSBC, agência de Genebra. O alarido só não tem se avolumado em virtude dos escândalos múltiplos – e muito mais midiáticos – ligados ao assalto da Petrobrás.

Com raras exceções, todos os ricos do planeta sempre guardaram dinheiro por aqui. Durante duzentos anos, o compromisso suíço – sempre cumprido –de nunca revelar identidade de detentor de conta atraiu fortunas grandes e pequenas, lícitas e fraudulentas, limpas e sanguinolentas.

Mas tudo que tem começo acaba tendo fim. O edifício construído pacientemente durante dois séculos ruiu de repente por obra de um único homem, um obscuro funcionário de banco. O rapaz trabalhava no setor de informática, sem contacto direto com clientes. Por razões que só Deus explica, resolveu um dia chupar uma lista detalhada de clientes, copiá-la num pendrive e oferecê-la ao fisco francês, equivalente a nossa Receita Federal.

A partir daí, as versões divergem. Juram todos os envolvidos que jamais – oh, que horror! – jamais houve nem sombra de pretensão pecuniária por parte do funcionário infiel. O roubo de dados foi feito por amor à honestidade. O governo francês também jura de pés juntos que não deu um centavo ao moço. Acredite quem quiser.

Swissleaks 3

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Fato é que, na esteira desse episódio, o segredo bancário suíço foi pra cucuia em poucos anos. Mas que não seja por isso. Quem tem dinheiro sempre acaba se arranjando. Fechado um paraíso, abrem-se dez novos. Singapura, Cayman, Hong Kong, Panamá, Bahamas estão de braços abertos à espera de clientes fortunados.

Um detalhe me deixa curioso. Cento e vinte e três bancos têm agência ou representação no Cantão suíço de Genebra. São 123(!) bancos, que perfazem um total de 214 agências. O HSBC é apenas um deles. Sendo estabelecimento estrangeiro, não figurava entre os preferidos pelos clientes. Bancos genuinamente suíços sempre inspiraram mais confiança àqueles que optavam pela discrição.

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Esse único banco contava com quase 9000 clientes brasileiros, cujos depósitos se situavam, conforme a fonte, entre 6 e 8 bilhões de dólares. Agora vem a dúvida: quanto dinheiro da terra onde canta o sabiá haverá nos outros 122 bancos da praça de Genebra? Melhor nem perguntar. Se tivessem de ir todos para a cadeia, Congresso e grandes firmas fechariam suas portas por falta de gente.

Que se tranquilizem meus distintos leitores. Brasileiros não são os únicos a fazer uso de bancos estrangeiros para guardar dinheiro. Praticamente todos os ricos do mundo fazem o mesmo. Provavelmente, pelas mesmas razões.

Interligne 18b

PS: Para quem quiser saber quais são os bancos estabelecidos em Genebra, aqui está a lista.

Paredón

José Horta Manzano

Cuba 1Muita gente se entusiasmou quando, naquele final dos anos 50, o ditador cubano Fulgencio Batista foi posto pra correr pela revolución liderada por um bando de jovens. Indivíduos vinculados ao regime deposto foram sumariamente executados diante do paredón, mas isso foi posto na conta dos inevitáveis excessos engendrados por toda mudança política brusca.

Desde que o colonizador espanhol se retirara, no alvorecer do século XX, a ilha se tinha tornado colônia informal dos EUA. O clima tropical, os costumes permissivos, a proximidade das costas americanas faziam que endinheirados escolhessem Havana para um fim de semana descontraído, de jogo, diversão e bebedeira. Alguns chegavam a apelidar Cuba de “bordel dos Estados Unidos”.

Fato é que o regime ditatorial se assentava na corrupção. Mal comparando, assemelhava-se a um Brasil atual com menor liberdade de expressão. Aos amigos do rei, tudo era permitido. Para os outros, sobrava a lei.

A revolución que derrubou o sistema deixou muita gente animada. Finalmente, a distribuição das futuras riquezas prometia ser justa e equilibrada. Havia de trazer bem-estar a todos.

Cuba 2Acontece que o ansiado futuro não veio tão radioso como se esperava. A gangue, que tinha chegado ao poder carregada nos braços do povo, tomou gosto pelas benesses. É próprio da natureza humana. O resultado foi a cristalização do país, que estagnou e parou no tempo. Até hoje, passados quase 60 anos, o povo ainda vive em estado de insegurança alimentar. Não têm dinheiro, nem autorização, nem esperança de viajar para o exterior.

Mas as coisas mudam. A reaproximação que ora se inicia entre EUA e Cuba, inconcebível até poucos anos atrás, prenuncia um desgelo acelerado. Não vai demorar muito para que o atual regime dos bondosos irmãos Castro seja varrido pela história e morra de morte morrida.

Lula e Fidel 2

Muita gente acredita que Cuba se transformará num Estado de tipo chinês, comunista de direito mas capitalista de facto. Eu não tenho essa ilusão. A ilha é pequena. A proximidade geográfica do grande irmão do norte é fator importante. A diáspora cubana, baseada na vizinha Florida, tem poder financeiro suficiente para influenciar a política da pátria mãe. Não vão permitir que a nomenklatura cozinhe o galo em água fria por décadas.

Fico aqui a perguntar-me: como será conhecido, no futuro, este meio século em que direitos básicos dos cidadãos da ilha ficaram entre parênteses? Hoje, o nome oficial do movimento é Revolución Cubana. Como se referirão a ela os cidadãos do século 22?

Não me espantaria que a denominação oficial tivesse o mesmo fim de nosso movimento militar de 1964. É mais que provável que, de revolución, seja degradada a mero golpe.

Sem controle… descontrola

José Horta Manzano

Cartão ponto 3Faz muito tempo que não me sento em bancos escolares, daí estar desatualizado. Não sei se ainda se controla a presença dos alunos ou se já liberou geral. No meu tempo, tinha disso não.

Bastava o professor apontar na soleira da porta para todos se levantarem reverentemente, tudo isso no mais absoluto silêncio. A turma só voltava a sentar-se depois de autorizada pelo mestre todo-poderoso.

Cartão ponto 1Em seguida, vinha a chamada. Talvez pra evitar a interminável ladainha de Josés e Marias – os nomes mais comuns à época –, éramos numerados. Ficava mais simples. Lembro-me de um professor, já idoso e de voz fanhosa, que nos divertia muito. Sua chamada ia assim: «Números óón, dóóis, tréés…»

Ausências eram registradas pelo mestre e, em seguida, anotadas na caderneta escolar do discípulo. O livrinho tinha de ser assinado todo mês pelo pai do aluno. Não sei como funciona hoje, mas, faz meio século, pais costumavam ser severos. Ninguém queria levar puxão de orelha por causa de faltas anotadas no boletim. O medo de levar pito calmava toda tentação de cabular.

Fala-se estes dias sobre controle de presença de servidores da Câmara Federal. Como sabemos, os funcionários lotados debaixo daquelas curiosas cúpulas imaginadas por Niemeyer são milhares. Até hoje, o controle era assegurado por uma simples folha de papel. Os apetrechos de ponto biométrico, adquiridos em 2009, foram finalmente postos a funcionar esta semana.

Cartão ponto 2Foi um deus nos acuda. Logo no primeiro dia, filas se formaram na hora de entrada. Tanta gente compareceu, que faltou acomodação para todos. Mesas e cadeiras não foram suficientes. O congestionamento atingiu até o restaurante do pessoal.

A conclusão é evidente: das duas uma. A primeira hipótese é de que a Câmara não esteja apta a receber tantos funcionários. Como nem todos eram assíduos, ninguém se havia ainda dado conta. Se assim for, é urgente encomendar mesas e cadeiras, construir mais algumas cúpulas e – por que não? – instalar um puxadinho ao lado do restaurante.

Cartão ponto 4A segunda hipótese é de que, inflado, o quadro de funcionários da Câmara ultrapasse amplamente o necessário. Boa metade talvez possa ser dispensada sem prejuízo para o serviço. Tendo a privilegiar esta segunda possibilidade.

Fico aqui a matutar. Entre esses que vivem no bem-bom à custa do dinheiro do contribuinte, deve haver muitos que se escandalizam com o comportamento de gente graúda que assalta os cofres de empresa pública. Pensando bem, os dois atos são de mesma natureza – a diferença é unicamente de escala. Ou não?

Frase do dia — 240

«Temos que reconhecer: chegamos ao fim de uma era. O PT vive seu outono. Melhor voltar para o pátio da fábrica onde nasceu e de onde nunca deveria ter saído.

Há que haver certa grandeza mesmo no pecado. O desejo de poder é o pecado máximo de toda política, e o PT se revelou incapaz até de pecar com elegância.»

Luiz Felipe Pondé, médico, filósofo e escritor. O texto integral está aqui.

Pra inglês ver

Dad Squarisi (*)

Brasilia 2«Esta não é uma cidade do tamanho do homem.»

Do segundo andar da torre de televisão, o professor da Universidade de Heidelberg olhava a imensidão à frente. Era o ano de 1969. A Asa Norte não passava de barracões esparsos. Os lagos praticamente não existiam. A vida se concentrava na Asa Sul.

Um casal tentava atravessar o Eixo Monumental. Com sacolas e dois filhos pequenos, buscava uma brecha entre os carros. Mas, sem sinalização, as pistas largas pareciam aumentar o percurso de um lado para o outro. A espera prometia ser longa. Sem tirar os olhos da família, o visitante explicou:

— As pessoas são acidente no projeto de Brasília. A cidade não foi feita pra elas. Veja lá a pequenez das criaturas diante da grandiosidade dos monumentos, dos prédios, dos eixos. Nada as socorre. Sem carro, viram reféns do asfalto. Andar a pé? É impossível, difícil ou perigoso. As distâncias são grandes e nada facilita a tarefa de ir e vir.

— Faltam calçadas, faltam bebedouros, faltam banheiros públicos. Falta sombra. Falta transporte coletivo. Imagine o sacrifício que o deslocar-se representa para aquela família. Ou para os idosos. Ou para as pessoas com dificuldade de locomoção. Não há praças nem bancos onde o caminhante possa sentar-se e descansar.

Aeroporto esteiraHoje, passados 46 anos, se o mestre alemão voltasse a Brasília, veria cenário diferente? Na chegada, o aeroporto responderia que não. Recém-inaugurado, obriga o passageiro a andar quilômetros até chegar ao portão de embarque. Cadê esteiras? Cadê trens? Cadê carrinhos que levam e trazem viajantes — tão comuns em Atlanta, Cingapura ou Frankfurt?

Farol 1A cidade continua alheia às dimensões humanas. Comparada com Berlim, Nova York ou Buenos Aires, a diferença fala alto. As urbes convidam pra rua. Adultos e crianças circulam por praças, se deslocam de metrô, ônibus ou bicicletas, encontram praças bem cuidadas com sombra, bancos e grama que convida para o cochilo ou brincadeiras da meninada.

Brasília parece a prima pobre de Dubai e Doha. Exibe arquitetura e urbanismo espetaculares. O turista diz oh!, mas não volta. Nós, que moramos aqui, queremos mais que o museu ao ar livre. Queremos uma cidade do nosso tamanho. Em 55 anos, o GDF, sozinho, não deu conta do desafio. Que tal uma ajuda? A sociedade manda. O governo obedece.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Mãos ao alto!

José Horta Manzano

We shall never surrender!
Winston Churchill

Sir Winston Churchill

Sir Winston Churchill

Você sabia?

Não está claro qual era o termo usado pelos anglos, antes do ano 1000, para designar o fato de entregar os pontos ao final de uma batalha.

Brigas e conflitos sempre houve, tanto lá quanto em qualquer parte do planeta. Portanto, toda contenda deixava um vencedor e um vencido. Como é que o perdedor se entregava? Que dizia?

Linguistas acreditam que era usado o verbo arcaico geldan, com significado próximo de pagar, compensar com dinheiro, servir. Faz sentido. Desde tempos imemoriais, vencedor costuma exigir ressarcimento.

A palavra geldan – reconhecível no alemão atual Geld, com o significado de dinheiro – deixou dois descendentes em inglês: yield e gold. E por que será que perdedores, ao entregar-se, deixaram de usar termos dessa família? Por que é que surrender suplantou yield?

Como tantas outras, a palavra foi trazida pelos normandos, povo do norte da França que conquistou a Inglaterra mil anos atrás. Coisa curiosa: a atual palavra inglesa é resultado de um mal-entendido.

Assalto 1O que vem do estrangeiro sempre tem sabor especial. Se a novidade estiver sendo trazida pelo vencedor, então, o sabor especial será ainda mais acentuado. Considerando que o conquistador era portador de um modo mais civilizado de viver, os ingleses adotaram, sem reclamar, uma cachoeira de palavras – entre elas, as que se usavam no fim de batalhas.

Abandonaram o velho geldan e elegeram o francês se rendre (= render-se). Só que houve chiado na linha. Não se deram conta de que o verbo era reflexivo. A expressão foi incorporada à língua corrente inglesa tal qual era ouvida. Saiu tudo grudado e assim ficou até hoje: surrender.

Frase do dia — 238

«A Petrobrás sozinha tem 446 mil funcionários, algum jornal deixou escapar enquanto falava de coisa “mais importante”. Meio milhão, fora aposentados e encostados! É provável que esteja para o resto das pretroleiras do mundo – somadas – como as nossas escolas de Direito estão para as do resto do mundo somadas: nós “ganhamos”, temos mais!»

Fernão Lara Mesquita, jornalista, em notável artigo publicado pelo Estadão deste 4 mai 2015.

Imprensa subvencionada

Rui Barbosa (*)

«Eis aí, senhores. Quereis saber se as subvenções aos jornais cessaram, ou persistem, se enchem, ou vazam? Pois “a simples leitura dos jornais” vo-lo “deixará ver com a maior evidência na atitude deles para com o governo”.

Rui BarbosaBenigna atitude? É que os jornais estão subvencionados. Atitude hostil? É que já não estão subvencionados os jornais. Melhora a linguagem das gazetas? Sinal claro de que as subvenções engrossam. Piora? Sinal certo de que se adelgaçam. De sorte que, gizada segundo os traços deste debuxo de quem “sabe d’arte”, porque a praticou, e conhece o tipo, com que travara familiaridade, seria a imprensa como um realejo, cuja manivela está nas subvenções.

Quem o terá dito? Eu? Não.

Quem o diz, o repete, o acentua, o sanciona, o inocenta, e o assoalha como coisa correntia e apenas criticada entre maldizentes, é um antigo presidente da República brasileira, que, criminado por indiscretos de corromper jornalistas, se descarta a si mesmo da tacha de corruptor, dardejando contra o jornalismo a de habitualidade na corrupção.»

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Rui Barbosa de Oliveira (1849-1923), brasileiro de excepcional cultura, era poliglota, filólogo, jurista, escritor. Foi diplomata e homem político.

O texto citado é fragmento de A imprensa e o dever da verdade, libelo de 1920. O antigo presidente da República ao qual o autor se refere governou o País há um século – já era figura passada à época. Mentes distorcidas, no entanto, costumam afirmar que o escrito não ganhou nenhuma ruga e continua tristemente atual.

Para ler o texto integral, clique aqui.

Revendo…

Myrthes Suplicy Vieira (*)

“Na véspera de não partir nunca,
ao menos não há que arrumar as malas”

Fernando Pessoa

– Você me disse que ia passar a vida toda tentando fazer-me feliz. – É que eu não imaginava que fosse viver tanto.

Há pouco tempo, registrei aqui neste espaço minhas percepções sobre o lado obscuro do envelhecimento. Hoje quero alterar meu ângulo de visão e tentar listar as mudanças que caracterizam o lado luminoso da velhice.

Antes de mais nada, sinto em mim que estou mais conectada com aquilo que alguns especialistas em psicologia e psiquiatria chamam de “energias sutis”. Explico melhor: ao longo da vida, vamos aos poucos abrindo mão das experiências de alta intensidade que atraem tanto os mais jovens. Aprendemos a trocar adrenalina por endorfina, a substituir a paixão por velocidade pela degustação lenta dos prazeres.

Vin 1Exemplos? Vários, a maior parte dos quais ligados aos órgãos dos sentidos: a sensação prazerosa de uma brisa tocando nosso rosto, o calor gostoso na pele quando nos sentamos ao sol em um dia frio, nosso palato e nossa língua absorvendo lentamente os sabores e os aromas de um bom vinho, nossa pele arrepiando e nossos pelos se eriçando quando alguém sussura alguma coisa íntima em nosso ouvido, nossos olhos se enchendo de água diante da ternura ou da beleza.

– Não fiquei de todo satisfeita com o transplante de quadril.

– Não fiquei de todo satisfeita com o transplante de quadril.

Depois vem a “idade do conforto”. Já não prestamos tanta atenção aos ditames da moda e às regras sociais. Em vez do salto agulha, um bom mocassim. Em vez das sensuais roupas apertadas, vastidão de tecidos de toque macio. Em vez da cirurgia plástica, um bom spa. Em vez dos almoços de negócio em lotados restaurantes fashion, comidinha caseira ingerida bem devagar em meio a um papo descontraído com os amigos. Em vez do mobiliário Bauhaus, afundar gostosamente num velho sofá que, de tão usado, já assumiu a forma de nosso corpo.

Entramos então em pleno desfrute do “tempo da delicadeza”. Nada de som muito alto, nada de comida muito temperada, nada de gargalhadas histéricas, nada de arroubos passionais, nada de ativismo político exacerbado. Mais vale observar em silêncio emocionado uma flor se abrindo do que participar de um espetáculo circense. É nossa alma que começa a exigir autocontenção.

Edgar Walter Simmons (1917-1994), artista mineiro Óleo sobre tela

by Edgar Walter Simmons (1917-1994), artista mineiro
Óleo sobre tela

Chega mais tarde, lá pelos 75 anos, uma fase que uma amiga descrevia como a da “adolescência reciclada”. Passamos a nos permitir viver experiências que nos eram proibidas em nossa juventude. Pular de paraquedas? Por que não? Ir ao cinema sozinha? Pode ser. Deixar o medo do ridículo de lado e agitar num baile da terceira idade? Hum, dá para pensar. Paquerar aquele vizinho viúvo metido a descolado? Topo! Praticar “sincericídio” o tempo todo com parentes e amigos também pode ser uma experiência libertadora. O que importa é buscar o próprio prazer, tomando apenas o cuidado de não ferir intencionalmente outras pessoas.

Dança 3Pelo que observei no comportamento dos ainda mais velhos, depois dos 80 anos tem início uma fase que passo a denominar de “infância reciclada”. Comer todas aquelas comidas gordurosas que o médico contraindicou, esquecer de tomar o remédio, cabular o banho, talvez até fugir de casa – tudo adquire um gosto delicioso de transgressão desejada, de molecagem consentida, de verdadeira autoexperimentação.

Sol 1Loucura, diria você, ou será que, pensando bem, é uma sutil demonstração de sabedoria? Afinal, estaremos nos despedindo com savoir-faire das últimas cores e sabores de nossa vida.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Gaúchos opinam

José Horta Manzano

O jornalista Políbio Braga repercute pesquisa realizada estes dias pelo Instituto Paraná Pesquisas. Trata da intenção de voto do eleitorado gaúcho, caso eleições para presidente da República fossem realizadas hoje.

Dos candidatos propostos, os eleitores escolheram na seguinte ordem:

Aécio Neves     43,8%
Lula da Silva   19,5%
Marina Silva    14,7%
Ronaldo Caiado   3,4%
Eduardo Cunha    2,8%
Nenhum deles     7,9%
Indecisos        7,9%

Urna 7

Quando o nome de Aécio Neves for substituído pelo de Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, o resultado embolou. Assim mesmo, o amargor dos gaúchos pelo pífio desempenho do governo nos últimos 12 anos se reflete nas declarações de voto a nosso guia.

Fica assim:

Geraldo Alckmin   29,9%
Lula da Silva     20,7%
Marina Silva      20,3%
Eduardo Cunha      5,0%
Ronaldo Caiado     4,3%
Nenhum deles      10,4%
Indecisos          9,4%

Escolha de ministro do STF

José Horta Manzano

Conflitos são desagradáveis, mas têm, às vezes, seu lado bom. Como todos já se deram conta, Executivo e Legislativo andam às turras desde o começo do ano. Hostilidade solta faíscas, mas pode também exalar algum resultado produtivo.

Um exemplo acaba de surgir. É notório que senhor Eduardo Cunha, presidente da Câmara, não é, digamos assim, o melhor amigo de nossa presidente. Pois o medalhão mandou desengavetar um projeto de emenda constitucional que estava bloqueado fazia tempo.

STF 2A PEC 342/09 propõe modificar alguns parâmetros do cargo de ministro do STF. Aprovada, é mais que provável que venha a desagradar profundamente à presidente. Dois são os pontos notáveis cuja alteração é proposta: forma de designação e duração do mandato dos nomeados.

É indisfarçável que o intuito principal é tirar do Executivo o poder de apontar, sozinho, os ministeriáveis. Até aqui, de fato, cabe à presidência da República a prerrogativa de indicar o escolhido. A sabatina pela qual o ungido deve em seguida passar, diante dos parlamentares, costuma ser mera formalidade. Não me ocorre nenhum caso de reprovação. Nem mesmo de postulante que tenha ficado pra segunda época.

O outro ponto crucial diz respeito à duração do mandato que, pela regra atual, é vitalício, tornando o ministro virtualmente inamovível. A muitos, vitaliciedade pode combinar com monarquia, mas destoa no regime republicano. Mais que isso: em princípio, a idade mínima para nomeação é de 35 anos, com demissão compulsória aos 70. Contas feitas, um mandato, pelas regras em vigor, pode durar teoricamente 35 anos, tempo que alguns consideram demasiado longo.

STF

A prerrogativa concedida a um só indivíduo – o presidente da República – de designar membros do colegiado que chefia um outro poder quebra o equilíbrio republicano. Para eliminar o carimbo autocrático, a PEC propõe que, dos onze ministros do STF, cinco sejam indicados pelo presidente da República, dois pela Câmara, dois pelo Senado e dois pelo próprio STF.

O projeto entende também que a vitaliciedade deve ser abolida. Em seu lugar, propõe um mandato de 11 anos. Único, contínuo e não renovável.

Noves fora inimizades e retaliações entre personalidades do andar de cima, a ideia não me parece má. Vai no bom sentido para amenizar o atual desequilíbio entre poderes.

Depois do caos

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 mai 2015

Mês passado, neste espaço, sugeri a Dilma Rousseff convocar um plebiscito. Matéria para consulta popular há de sobra, fato que deixaria a presidente à vontade para escolher a que lhe conviesse. O ponto crucial, a não descurar sob hipótese alguma, seria deixar bem claro que sua permanência no cargo estaria vinculada ao resultado da consulta popular. Pisar em ovosApoiada pelos brasileiros, levaria o mandato até o fim, e não se falaria mais nisso – afinal, não se pode chamar eleitores às urnas a cada semana. Se, no entanto, os votantes se atrevessem a rejeitar a proposta, ela renunciaria, pura e simplesmente, ao mandato. Fiel a seu estilo, sairia de cabeça erguida, por decisão pessoal. Ficaria patente que valoriza o nobre sentimento da honra.

Assoberbada de trabalho e sobrecarregada de preocupações, a mandatária não há de ter tido tempo de avaliar a sugestão. Ou talvez, desacostumada a seguir conselhos, tenha decidido manter-se inabalada e inabalável. Cada um é que sabe onde lhe aperta o sapato.

A vida (não só a da presidente) anda um bocado complicada, convenhamos. A insegurança assusta, incertezas atulham o horizonte. A gente às vezes se sente mergulhado numa autêntica casa de mãe joana, uma espelunca onde todos gritam e ninguém tem razão. Paira no ar a impressão de que conquistas e avanços, que acreditávamos consolidados, andam evaporando num processo inexorável de dissolução.

Dilma ministerio 1Ministro que entra, ministro que sai; mandatária-mor em palpos de aranha e visivelmente isolada; antigos presidentes dando palpites sobre tudo e sobre todos, como se em roda de botequim estivessem; congressistas desacreditados; revelação diária de detalhes novos de roubalheiras antigas. Arre! Tudo contribui para aumentar a desagradável sensação de que o coreto bagunçou de vez. Aos cidadãos comuns que somos, restam o desencanto e, mais que tudo, a certeza de que nos caberá pagar a conta.

Nós, brasileiros, temos tendência a exagerar os aspectos negativos de todo acontecimento. Acentuamos de tal modo a face ruim, que acabamos incapazes de enxergar o lado positivo. Alguns asseguram que essa curiosa peculiaridade está inscrita no tema astral do País. Dizem que assim são as coisas e que é impossível contrariar o carma nacional. Como não sou do ramo, prefiro dar de barato e não comprar essa briga.

OmeletteNão se faz omelete sem partir ovos. Não se constrói o novo sem demolir o antigo. Não se ganha guerra sem travar batalha. O brado da sabedoria popular é incontestável: todo avanço, todo progresso, toda conquista pressupõe a falência da estrutura antiga. Exige mudança. Provoca crise. Abre um túnel que temos de atravessar para chegar à luz do outro lado.

Erramos ao dar exagerada importância à crise, que é passageira. Convém fazer das tripas coração e considerar que o atual momento conturbado é passagem obrigatória que conduz à transformação do modelo exaurido.

Quando se sacode a árvore, os frutos podres se esborracham no chão. É o que está acontecendo. Alguns sinais já sorriem no horizonte. Semana passada, antiga proposta de voto distrital foi aprovada no Senado. Tímido, o projeto restringe a prática a alguns poucos municípios. Mas é passo na boa direção.

Discussão 3«Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar» – sentenciou Nélson Rodrigues. Durante doze anos, afagados pela brisa leve da bonança econômica, estivemos anestesiados. Pouco se nos dava que o comportamento de medalhões fosse tortuoso: tinham todos direito ao apoio negligente e (quase) unânime da nação distraída.

Dissensões pipocam hoje na classe política. A presidente colide com o Senado, que abalroa a Câmara, que esbarra em líderes partidários, que estranham o STF. Não é motivo pra se deixar abater, distinto leitor! Ao contrário, esse cafarnaum é pra lá de salutar. A presença de vulto todo-poderoso na chefia do Executivo, como ocorreu nos últimos anos, empalidece os outros poderes, desequilibra o conjunto e distorce o espírito republicano.

Faixa presidencialA todo presidente com baixa aprovação popular, corresponde um Congresso revigorado. Parlamento fortalecido e voto distrital são notícias auspiciosas. Afinal, se a presidente foi eleita com o voto de metade dos eleitores, o Congresso representa a totalidade dos brasileiros.

Não nos deixemos abater pelas nuvens escuras que encobrem o sol neste momento. Que desabem, que se precipitem e que se dissipem. Bom marinheiro ensina que, depois da tempestade, é garantido: vem bom tempo.

O sal e o salário

José Horta Manzano

Em São Paulo, professores em greve despejaram sacos de sal em frente ao prédio da Secretaria da Educação. O simbolismo, ligado ao pedido de aumento de ordenado, é claro: a palavra salário deriva de sal.

Até aí, poderia até ser engraçado. Parece menos agressivo do que o vandalismo cometido semana passada. Naquela ocasião, tentaram arrebentar, com um aríete, a porta do venerando prédio de 1894, obra do arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo – o mesmo que concebeu o Theatro Mvnicipal.

Manif 16Foi menos violento, sem dúvida, mas nem por isso mais civilizado. Na ânsia de defender seus interesses, manifestantes pouco estão se lixando para eventuais vítimas colaterais de seus atos.

Terminada a passeata, vão pra casa descansar. É aí que entra em cena a figura humilde do limpador de rua que, nesse dia, terá trabalho extra. Sem aumento de salário, por mais que haja sal a varrer.

Tem mais. Os tempos são de penúria hídrica, nome eufemístico para o que se costumava chamar seca. Em tempos de seca braba, até água de reúso entrou em pauta. As toneladas de sal derramadas na cidade entrarão pelos bueiros, passarão pela canalização de esgoto e, fatalmente, se somarão aos outros agentes poluentes para piorar a qualidade da água de rios e reservatórios. É tiro no pé, atitude imbecil.

Secretaria da Educação, São Paulo Prédio projetado por Ramos de Azevedo e inaugurado em 1894

Secretaria da Educação, São Paulo
Prédio projetado por Ramos de Azevedo e inaugurado em 1894

Professor é figura importante. A criança tende a ver nele uma referência. Todos nós guardamos lembrança dos mestres que nos guiaram os primeiros passos fora do ambiente caseiro. A gente costuma guardar memória mais viva daquele (ou daquela) que nos ensinou as primeiras letras do que dos muitos que vieram mais tarde.

Professor que participa de depredação de bem público – ou mesmo aquele que apenas aplaude passivamente – está traindo a função que deveria exercer na sociedade. Toda a categoria docente deveria pensar duas vezes antes de se associar a manifestações em que reina a incivilidade. Pega mal pra caramba.

Falam de nós – 7

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Não é qualquer informação que merece um infográfico. Esse tipo de trabalho complementar à notícia escrita é geralmente dedicado a acontecimentos nacionais bem conhecidos.

O portal francês France24 mantém reverenciado canal internacional de tevê de informação 24h por dia. Edita também um site internet. Dedicou, neste 29 de abril, um infográfico ao escândalo da Petrobrás.

Não fosse o desconforto e a vergonha que sentimos com o episódio, aparecer nas manchetes globais seria até motivo de orgulho. Infelizmente, nesse caso, a gente pagaria pra não figurar lá.

Sob o título Les dessous d’un scandale fou – o lado oculto de um escândalo louco –, o infográfico se esforça para resumir, em nove quadros, a complexa história da maior roubalheira já descoberta no Brasil. Traduz o nome da operação como lavage de voiture – lavagem de automóvel. Vale o esforço, mas não tenho certeza de que um leitor não iniciado entenda grande coisa.

Rato 3Os quadros embolam um caudal de informações: nome de gente, nome de cidade, marca de automóvel, nome de empresa. Chegam até aos infelizes roedores que um irresponsável decidiu, outro dia, soltar no Congresso.

Se alguém tiver curiosidade de dar uma espiada, clique aqui.

O maior erro

Cláudio Humberto (*)

Trombar com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha foi, para Lula, o maior erro político de Dilma, cometido por influência de Aloizio Mercadante, chefe da Casa Civil.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Lula acha que Dilma errou ao hostilizar Barack Obama, no caso da espionagem, e a Indonésia, pela execução do traficante Marco Archer. Segundo Lula, Dilma deveria ter feito a visita de Estado a Washington, que ela cancelou, e respeitado as leis internas da Indonésia.

Ao criticar Dilma, Lula esquece um detalhe: a culpa é dele, por dar cartaz ao aspone Marco Aurélio Top-Top, que define a política externa.

(*) Cláudio Humberto, jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.