Retrato do governo

Elio Gáspari (*)

Train 4

«O trem-bala, delírio da doutora, era para ficar pronto para a Copa de 2014 ou, o mais tardar, para a Olimpíada de 2016. Felizmente, até as empreiteiras fugiram da maluquice. Apesar disso, o governo criou uma estatal para gerenciar a grande obra.

Não se fala mais em trem-bala, mas a estatal, chamada de Empresa de Planejamento e Logística, mudou de propósito e está aí, firme e forte. Funciona em dois andares de um edifício em Brasília e acaba de trocar sua diretoria.

Fazer trem é coisa difícil. Para criar uma estatal, bastam caneta e tinta. Fechá-la é impossível.»

(*) Elio Gáspari é jornalista. Seus artigos são publicados por numerosos jornais.

Tripartidarismo

José Horta Manzano

Este domingo, vota-se na França. O povo está sendo convocado para eleger os dirigentes das 13 grandes regiões (um tanto artificiais) em que o país está dividido. Estes últimos tempos, por razões de economia, Paris decidiu fusionar antigas regiões. Das dezenas que, séculos atrás, compunham o país, resta apenas uma dúzia de conjuntos heterogêneos, verdadeira colcha de retalhos.

Regiões da França

Regiões da França

Região é escalão intermediário entre município e governo central. Dado que a organização política da França é unitária e não federativa, o grau de independência da região é bastante limitado. Nenhuma delas conta com Constituição, nem assembleia, nem Justiça independente. Entram na competência regional o transporte, a assistência às empresas, o zoneamento territorial, a gestão ecológica do lixo, o aprendizado dos jovens, a formação profissional.

Tradicionalmente, o mundo político francês se divide entre direita e esquerda. As últimas décadas têm levado os dois campos a convergir a ponto de as diferenças se tornarem quase imperceptíveis. Assim mesmo, ainda é importante, na cabeça de cada um, que cada político se encaixe numa etiqueta: ou é de esquerda ou é de direita.

Assemblee nationale 1

Até os anos 1970-1980, ainda eram numerosos os cidadãos que haviam vivido os horrores da guerra. Estava viva a consciência de que regimes populistas haviam arrastado o continente à catástrofe. Até aqueles anos, idéias de extrema-direita não tinham a menor chance de prosperar.

Mas o tempo passou, os antigos se foram, novas gerações que não conheceram a guerra são os adultos de hoje. Para estes, a paz é estado natural, automático, quase obrigatório. A guerra desapareceu do rol das preocupações.

As desgraças que a extrema-esquerda causou na União Soviética e na Europa Oriental só terminaram em 1989, com a queda do Muro de Berlim. O fato é recente e todos, assustados, se lembram. Como resultado, os partidos de extrema-esquerda (comunistas) sumiram do mapa.

Já a debacle que a extrema-direita (nazistas e fascistas) acarretou é antiga, acabou faz 70 anos, todos tendem a esquecer. Como filme de terror, a história esquecida tende a se repetir. De uns anos pra cá, mais e mais cidadãos aderem ao populismo nacionalista. Em todos os países do continente.

Esquerda tradicional, direita tradicional, extrema-direita populista

Esquerda tradicional   –   Direita tradicional   –   Extrema-direita populista

Pela primeira vez na história, a França periga conhecer nova partilha política. A crer nas sondagens, o tradicional bipartidarismo já era. Viva o tripartidarismo! Direita tradicional, esquerda tradicional e uma extrema-direita populista ressuscitada dominarão a paisagem política do país nos próximos anos.

Cidadãos equilibrados torcem para que o desvario dos conterrâneos não chegue ao desatino de entregar o poder central a extremistas populistas. Como bem sabem norte-coreanos, cubanos e venezuelanos, todo extremismo é daninho.

Frase do dia — 276

«O PT que, quando estava na oposição, prometia enforcar o último político fisiológico nas tripas do último empresário corrupto é o mesmo que franqueou a administração pública a diversas quadrilhas, em troca do pedágio que irrigaria os cofres petistas.»

Editorial do Estadão, 5 nov° 2015.

Porta aberta

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 5 dez° 2015

Vicente CelestinoNo longínquo ano de 1946, com vozeirão potente que caracterizava cantores da era anterior à chegada do microfone, Vicente Celestino lançou a toada Porta Aberta. Fez sucesso retumbante. Falava da porta de uma igreja que, simbolicamente, se abria para acolher de volta uma ovelha desgarrada, um vivente abandonado pela sorte.

Toda casa costuma ter porta. À discrição do dono, visitas são recebidas ou rechaçadas. A porta se abre para os bem-vindos, cheguem eles para visita de médico, para algumas horas ou até para pousar. Quanto aos indesejados, que procurem outra freguesia. Dono não é obrigado a permitir entrada a quem não lhe convém.

Porta 1Assim como igrejas e casas, país soberano também tem porta. Virtual, ela não está presa por gonzos a nenhum batente. Os nacionais, que têm franqueada a saída do país e a volta a ele, quase não se dão conta da sutil barreira. É que não lhes faz falta nenhuma autorização especial, o que não ocorre com estrangeiros.

Afora casos especiais em que a livre passagem tenha sido sacramentada por tratados – como acontece entre alguns países da União Europeia –, não se entra em terra estrangeira como se adentra o botequim da esquina. Nem todos os viajantes são iguais perante inspetor de alfândega e polícia de fronteiras.

Trafic 4Caso o viajante seja titular de passaporte emitido por país com o qual foi assinado acordo de liberação de visto, terá direito a entrar como turista, por período limitado, sem exercer atividade remunerada. No Brasil e na maior parte do mundo, a permanência padrão é de 90 dias. Na hipótese de o estrangeiro vir a trabalho ou estar planejando longa estada, é imperativo ter obtido previamente visto específico emitido por representação consular brasileira.

Visando a regrar a exigência de documentos, o Brasil – nação soberana e responsável – assinou, ao longo dos anos, convenções com a quase totalidade dos países. Esses acordos, fruto de tratativas cuidadosas, respondem a interesses mútuos. Cidadãos de numerosos países estão dispensados de visto para visita turística de até 90 dias a nosso país. Por razões ligadas à segurança do território e dos habitantes, o Estado brasileiro decidiu não conceder a mesma facilidade a todos. Cidadãos de determinados países só pisarão nosso chão se estiverem munidos de visto obtido no estrangeiro.

Não é segredo para ninguém que a política econômica dos últimos anos deixou o país em estado calamitoso. Rapinagem crônica e gestão arrevesada esvaziaram as burras. Para remediar, nosso governo anda no sufoco, raspando fundo de gaveta e matando cachorro a grito. Na esperança de incrementar o número de turistas que acudirão aos JOs 2016, mentes iluminadas imaginaram suspender a exigência de visto de entrada… para cidadãos de todos os países!

Passaporte 2Sancionada por dona Dilma, a lei já está em vigor. Vale até setembro do ano que vem. Abriu-se um hiato de dez meses durante os quais nosso país virou casa de mãe joana: entra quem quiser. O Brasil abre mão de um dos atributos maiores da soberania tão cara a nosso governo popular: o direito de filtrar a entrada do território. Durante quase um ano, passa qualquer um. Entre sem bater, minha gente, que a boca é livre!

Num mundo assolado por atentados, ataques terroristas e migrações de proporções bíblicas, a decisão é, no mínimo, temerária. Os caraminguás que um hipotético acréscimo de turistas trará não compensam a amplificação dos riscos. Um atentado perpetrado durante os JOs sairá bem mais caro que os dólares adicionais.

Passaporte 1A outra ameaça evidente é a de um acréscimo descontrolado da imigração ilegal. Sem a triagem do visto prévio, qualquer um vai poder se achegar. Ninguém é capaz de predizer o volume desse afluxo. Não é impossível que, daqui a um ano, tenhamos recebido milhões de estrangeiros aos quais, em circunstâncias normais, teria sido negado o visto. É lícito supor que centenas de milhares de viventes abandonados pela sorte – como cantava Vicente Celestino – aproveitem a porta aberta, entrem e não queiram mais sair. Estará armada uma sinuca de bico.

Um quarto de século atrás, o socialista Michel Rocard, então primeiro-ministro da França, pronunciou frase célebre: «La France ne peut pas accueillir toute la misère du monde» – a França não pode acolher toda a miséria do mundo. O Brasil tampouco. No intuito de vestir um santo, estamos despindo outro. Com todos os problemas que já temos, não precisamos correr atrás de mais um. Arrombada a porta, minha gente, será tarde pra botar tranca.

Frase do dia — 275

«Em seis minutos, quando você houver terminado de ler este texto, 12 brasileiros terão perdido o seu emprego: dois a cada minuto. Será difícil achar outro. Quem encontrar dificilmente será com um salário semelhante.»

José Nêumanne Pinto, escritor e jornalista, em artigo publicado no Estadão de 2 nov° 2015.

Almas nobres e impolutas

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Discurso 2Esperou que fotógrafos e repórteres se arranjassem à sua volta e ligassem seus equipamentos. Quando todos silenciaram, ele se postou em frente às câmeras, o pescoço levemente curvado para a frente, olhos fixos na lente, o rosto ligeiramente erguido e impassível. Pensou com seus botões: “Estou pronto, nervos sob controle. Eu sabia que meus anos de dedicação ao pôquer me seriam de grande valia num momento como este”.

Com voz firme mas um tanto lacônica, deu a notícia bombástica pela qual todos esperavam. Respirou fundo, esperou alguns segundos para que o burburinho arrefecesse, e continuou: “Não me dá nenhuma felicidade [adotar esta ação]… Maldito Freud e seus lapsos linguísticos inconscientes, esbravejou consigo mesmo. Com cara de paisagem, insistiu na declaração de seu caráter impoluto: “Os motivos foram puramente técnicos, não me move nenhum propósito político…”

Fez nova pausa para dialogar com seus botões: “Por que será que as pessoas negam tanto suas motivações políticas? Por que essa palavra soa como algo sujo, inconveniente, despropositado? Sou político, ora bolas, e me orgulho de dominar todas as técnicas de persuasão para atingir meus objetivos. Que se danem todos, vou em frente”.

Discurso 3Continuou historiando brevemente as razões para sua decisão. Enfatizou o grande volume de demandas, o prazo exíguo que lhe era concedido legalmente para análise delas, os erros perpetrados por alguns dos demandantes, os acertos da proposta acolhida. Acelerou um pouco a fala, na esperança de causar máximo impacto com o ‘grand finale’ escolhido.

Com um meio sorriso concluiu, destemido: “Não me restou outra saída, a não ser atender aos reclamos populares”. Fez a derradeira pausa para auscultar sua voz interna e parabenizou-se triunfante: “É minha consagração como estadista! Desta vez, acho que me superei. Quero ver alguém ousar me desmentir. Tenho todos os números e detalhes técnicos para provar minha postura equidistante, a despeito de tanta passionalidade demonstrada por meus adversários”.

Deu o comunicado por encerrado e foi-se embora.

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Resoluta, ela dirigiu-se ao microfone com passos firmes, acompanhada por todo seu séquito. Quando todos já estavam perfilados e a atmosfera ao redor já ganhara ares solenes, abaixou levemente a cabeça e consultou a si mesma em pensamento: “Tenho que parecer serena, custe o que custar. Não posso hesitar, não posso me deixar abater, não posso transpirar nem autoritarismo nem desejo de vingança. Sei quem sou e até onde posso chegar. Já passei por momentos piores, mais dolorosos. Pairo acima do bem e do mal, ainda que tenham me colocado no olho do furacão mais uma vez”.

Dilma 1Seu assessor direto fez um pequeno gesto de aprovação, como se quisesse lhe infundir mais confiança. Afinal, a roupa escolhida a dedo e impecavelmente bem passada ajudava a passar a mensagem de mulher destemida, acostumada a pôr tudo preto no branco. A maquiagem perfeita para reforçar a imagem de jovem senhora com os olhos ainda cheios de esperança em dias melhores. Joias e acessórios arrematando com precisão o perfil de pessoa dona de si.

Só um pequeno detalhe havia escapado aos cuidados de seus consultores de estilo: por debaixo da grossa camada de maquiagem, enegrecidas e fundas olheiras desvelavam o peso de tantos dias e noites de angústia, de apreensão.

Iniciou o pronunciamento com voz um tanto hesitante: “Recebi indignada a notícia…”. Repreendeu-se de imediato por não ter conseguido encontrar o tom certo, capaz de afiançar a todos que o sentimento de indignação realmente a tomava por inteiro. A frase tinha saído espremida na garganta por causa do colossal esforço de autocontenção, e seu corpo desvitalizado traíra a intenção de comunicar que estava pronta para qualquer combate.

Respirou fundo, tentando recompor-se, e prosseguiu: “Não há nenhuma consistência…”. Congratulou-se intimamente: o tom agora era o correto, o desejado. Mais animada, enfatizou: “Eu nunca…não sou….não tenho…não paira sobre mim nenhuma suspeita…não omiti…”. Parou por alguns segundos, perguntando-se se as seguidas negativas a estavam ajudando de fato a contrapor-se a seu adversário e a reforçar seus proclames de inocência ou se poderiam ser interpretadas como sinal de fragilidade.

Dilma Lula CunhaDecidiu agregar um tom de ironia a suas palavras, tentando esboçar um sorriso. Não conseguiu. Os músculos da face paralisados pela tensão não permitiram. O rosto contorceu-se num ricto. Atabalhoadamente, historiou em breves palavras os contornos da chantagem política a que sentia estar sendo submetida e deu prosseguimento aos autoelogios: “…meu compromisso inquestionável com a coisa pública…”. Será, perguntou-se mais uma vez, que os tribunais deste país acreditam sem qualquer dúvida razoável no caráter nobre de minha gestão? Será que meus assessores não exageram quando dizem que ainda há tempo e recursos para virar o jogo? E se….

Espantou as dúvidas com um leve meneio de cabeça e finalizou, arfante, como se aconselhasse a si mesma: “Não vamos nos intimidar, vamos agir com serenidade…”

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(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Contra ou a favor?

José Horta Manzano

Chamada do Diário do Poder, 4 dez° 2015

Chamada do Diário do Poder, 4 dez° 2015 às 9h30

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Chamada de O Globo, 4 dez° 2015

Chamada de O Globo, 4 dez° 2015 às 9h30

4 de dezembro de 2015, 9h30

O Diário do Poder afirma que dona Dilma dispõe de 124 votos a seu favor.

O jornal O Globo afirma que dona Dilma dispõe de 258 votos a seu favor.

Que significa essa diferença? Significa que ninguém sabe de nada. Quem disser que sabe estará mentindo.

A resposta só virá no dia da votação depois de o último parlamentar ter declarado o voto. Antes disso, tudo não passa de especulação.

Melhor que novela

José Horta Manzano

Hoje eu ia contar algumas particularidades curiosas do exército suíço. Atropelado pelos acontecimentos pátrios, deixo para uma próxima vez.

Provando que realmente faz jus ao mais alto cargo da Câmara, senhor Cunha mostrou empatia com o anseio de 90% dos brasileiros e, magnânimo, abriu as portas para o processo de destituição de dona Dilma. Foi gesto louvável de desprendimento.

Aliás, fez-me lembrar o adágio «alegria de palhaço é ver o circo pegar fogo». Ao dar-se conta de que estava cercado por todos os lados – ilhado em seu universo de mentiras desmascaradas, abandonado pouco a pouco por gente com quem imaginava poder contar, ameaçado de perder o cargo, o mandato e a liberdade, com fortuna confiscada –, o deputado jogou a última ficha.

Dilma 15Doravante, sua única (tênue) esperança é ver a tempestade se transformar em forte furacão, daqueles que carregam tudo. Se não vier o tufão, nosso rancoroso presidente da Câmara tem pouca esperança de sair incólume.

Os mais antigos hão de se lembrar da novela Vale Tudo, exibida 25 anos atrás. O Brasil parou durante os capítulos finais, quando todos queriam saber quem tinha matado Odete Reutemann(*). Curiosamente, o intuito do autor da obra era abrir o debate sobre um problema de sociedade. «Até que ponto vale ser honesto no Brasil?» – era a questão de fundo. A resposta clara não veio até hoje.

Como o distinto leitor há de imaginar, a notícia do iminente processo de destituição da presidente repercutiu na mídia mundial. Dou aqui uma coletânea.

(*) Talvez para evitar erros de pronúncia, os responsáveis decidiram grafar Roitman no lugar do original Reutemann.

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Chamada de The Guardian, Inglaterra

Chamada de The Guardian, Inglaterra

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Chamada de Le Figaro, França

Chamada de Le Figaro, França

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Chamada de Der Spiegel, Alemanha

Chamada de Der Spiegel, Alemanha

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Chamada de La Nación, Argentina

Chamada de La Nación, Argentina

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Chamada de Digi24, Romênia

Chamada de Digi24, Romênia

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Chamada de El Periódico Internacional, Catalunha, Espanha

Chamada de El Periódico Internacional, Catalunha, Espanha

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Chamada de Sveriges Radio, Suécia

Chamada de Sveriges Radio, Suécia

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Chamada de De Volkskrant, Holanda

Chamada de De Volkskrant, Holanda

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Chamada de El País, Espanha

Chamada de El País, Espanha

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Chamada de TVN24, Polônia

Chamada de TVN24, Polônia

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Chamada de Corriere della Sera, Itália

Chamada de Corriere della Sera, Itália

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Chamada de Observador, Portugal

Chamada de Observador, Portugal

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Lixo eletrônico

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 2 dez° 2015

Chamada do Estadão, 2 dez° 2015

Fico na dúvida quanto às intenções do autor da chamada. Pode ter sido sensacionalismo, pode ter sido má-fé. No fundo, no fundo, opto pela preguiça. Bastava fazer as contas. E olhe que não é difícil. Veja só:

O Brasil abriga 35% da população da América Latina.

Os brasileiros produzem 36% do lixo eletrônico.

A lógica foi respeitada.

Palestras do Lula

Cláudio Humberto (*)

O ex-presidente Lula se enrola para explicar como faturou R$ 52,3 milhões, inclusive com sua empresa de palestras – a Lils (suas iniciais) – entre 2011 e 2014.

Lula caricatura 2Lula jurou que sua receita vem de “palestras”, que, curiosamente, não são encontradas nas redes sociais. Tampouco no YouTube, onde palestrantes profissionais divulgam seu trabalho. O Instituto Lula se recusa a informar a lista de palestras do ex-presidente.

Se Lula tiver trabalhado os 1460 dias de 2011 a 2014, os R$ 52,3 milhões que ganhou com palestras representam R$ 35,8 mil por dia(!).

A movimentação financeira milionária nas contas de Lula foi detectada pelo Coaf, órgão de inteligência do Ministério da Fazenda.

A mídia segue Lula diariamente, mas só há registro de poucas palestras em grandes empresas, tipo LG, Santander, Itaipava e Caixa.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Cacto de Natal

José Horta Manzano

Flor-de-maio

Flor-de-maio (cacto-de-Natal)

Dezembro chegou. No Hemisfério Norte, os dias escurecem e vão-se tornando mais e mais curtos. Apesar do aquecimento que o planeta tem conhecido estes últimos trinta anos, os invernos continuam frios.

A época convida grandes e pequenos a passar mais tempo dentro de casa. Estreitamento de relações, encontros familiares, conversas ao pé do fogo são atividades que combinam com este tempo.

Flor-de-maio

Flor-de-maio (cacto-de-Natal)

Naturalmente, come-se e bebe-se também. Determinadas especialidades culinárias, que variam de um país a outro, são preparadas unicamente no período das festas de fim de ano.

As casas se enfeitam por dentro e por fora. A falta de luz natural é suprida pela profusa iluminação artificial. Guirlandas de lampadazinhas são instaladas em cada vilarejo. Dentro de casa, todos fazem questão de montar a árvore de Natal.

A natureza está em repouso: árvores não têm folhas e nenhuma flor se abre. A paisagem tem sua formosura, mas é beleza meio triste. Para contrabalançar o espetáculo acabrunhado, cada um faz questão de trazer um pouco de cor natural pra dentro de casa.

Bico-de-papagaio

Bico-de-papagaio (estrela-de-Natal)

Chegou a hora das flores de interior, cultivadas em vaso. As preferidas são espécies exóticas que costumam florir justamente nesta época de pouca luz. São plantas que, deixadas ao ar livre, não sobreviveriam ao inverno europeu. Entre as preferidas, estão a estrela-de-Natal (Euphorbia pulcherrima) e o cacto-de-Natal (Schlumbergera truncata).

Flor-de-maio

Flor-de-maio (cacto-de-Natal)

A estrela-de-Natal (poinsétia ou bico-de-papagaio) é originária da América Central. Em dezembro, todo supermercado que se preze expõe, logo na entrada, grande quantidade de vasos com essa flor.

O cacto-de-Natal é originário do Brasil. Conforme a variedade, as flores têm cor diferente. Em nosso país, a planta é conhecida por diversos nomes: flor-de-maio (justamente porque floresce no outono), mas também flor-de-seda, rainha-da-noite, margarida-de-árvore.

Flor-de-maio

Flor-de-maio (cacto-de-Natal)

São flores que duram o tempo das festas. Com a chegada do ano-novo, voltam à terra pra servir de adubo. E a vida continua.

Fim do voto eletrônico

José Horta Manzano

Dizem que o saco de Papai Noel anda meio vazio e que, este ano, muitos se deverão contentar com presente magro. Se presente houver. Bom, reconheçamos que todo ano dizem a mesma coisa. Assim mesmo, este Natal leva jeito de ser ainda menos folgado que os anteriores.

Papai Noel 4Na esfera pessoal, o que acabo de dizer é verdadeiro. No entanto, ainda que nem todos se deem conta, o bom velhinho já trouxe um presentão para o aperfeiçoamento da democracia brasileira: acabou-se o voto eletrônico! Não é esperança nem suposição: saiu no Diário Oficial de ontem. A maquineta de que meio mundo desconfia vai para o museu das antiguidades obsoletas. Fará companhia à palmatória, à galocha e ao toca-fitas.

De maneira sutil e elegante – atitude rara nestes tempos brutais – o abandono foi atribuído à falta de dinheiro. Tenho cá minhas dúvidas. Se as 400 mil urnas ainda tivessem de ser compradas, podia até ser. Mas elas já existem. Organizar a votação e a logística é gasto que terá de ser feito de qualquer maneira, seja o voto eletrônico ou tradicional.

Urna 9É permitido supor que o pessoal do andar de cima tem sentido a pressão da opinião pública. Anestesiada durante dez anos pela falácia de um governo que se autodefinia como «popular», a nação deu mostra de haver despertado. Começou, bruscamente, com os protestos de junho de 2013. Continuou com a monumental vaia à presidente no jogo de abertura da Copa. De lá pra cá, os escândalos do petrolão trouxeram a todos nós mais emoção que final de novela. Não passou uma semana sem revelação escabrosa. Coisa nunca antes vista nessepaiz.

Já disse e repito que nunca ouvi falar de país, além do nosso, que se valha unicamente do voto eletrônico – sem controle e sem comprovante – para eleger representantes. É, como se diz, uma ‘jabuticaba’, uma exclusividade nacional. Jabuticaba bichada.

Urna 5Se o voto tradicional, com cédula e urna transparente, for mantido nas eleições de 2018, pode o distinto leitor ter certeza: saberemos, finalmente, quem são os escolhidos pelo povo brasileiro. Dificilmente serão os mesmos que hoje lá estão. As dúvidas sobre a lisura do pleito desaparecerão.

Alegremo-nos, irmãos, com a melhor notícia do mês – verdadeiro presente de Natal adiantado!

Os jabutis de senhor Cunha

José Horta Manzano

Animal 09A malandragem nacional não tem limites. Com certeza, o distinto leitor já ouviu falar dos “jabutis”, nome curioso dado a emendas bizarras que parlamentares tentam enxertar em MPs em tramitação no Congresso.

São penduricalhos que nada têm a ver com o tema central do projeto. Trata-se de ardil para apanhar incautos. Distraído, o deputado pode até votar a favor de uma MP sem se dar conta de que ela carrega, de contrabando, dispositivo ao qual ele nunca daria seu voto consciente.

Animal 08Senhor Eduardo Cunha, personagem cuja fama hoje se esparrama pelo território nacional, é presidente da Câmara. Por quanto tempo, ninguém sabe. Em agosto de 2011, quando o deputado era líder do PMDB, a OAB rejeitou seu nome para relatar a reforma do Código de Processo Civil. A razão alegada foi a ausência de formação jurídica do parlamentar.

Rancoroso e vingativo, senhor Cunha inscreveu a OAB em sua lista de desafetos. E jurou “implodir” a Ordem. Imediatamente após ser rejeitado, apresentou projeto de lei para abolir a exigência de exame da Ordem para todo bacharel que aspire ao título de advogado. Não teve sucesso.

Animal 10Desde então, o (ainda hoje) presidente da Câmara não sossegou. A cada MP que se apresenta, tenta adicionar um penduricalho para acabar com o exame da Ordem. Matéria publicada em maio 2013 pelo Portal Último Segundo conta que, das 17 MPs votadas ou em tramitação no Congresso naquele ano, 11 continham um “jabuti” incrustado por senhor Cunha pedindo a extinção do exame da Ordem. O homem é tenaz, do tipo que guarda mágoa em geladeira.

O afastamento do rancoroso parlamentar parece ser questão de tempo. A gente chega a se perguntar, aliás, como é possível que ainda esteja ocupando a cadeira-mor da Câmara. Assim que ele cair, a Ordem dos Advogados do Brasil há de respirar aliviada.

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PS: Matéria do Estadão desta segunda-feira informa que Eduardo Cunha acaba de ser sancionado pelo Tribunal Federal Suíço por tentativa de atravancar a comunicação de seus dados bancários às autoridades brasileiras. Recebeu pena pecuniária. Mas o Ministério Público suíço não enterrou a possibilidade de processá-lo criminalmente por lavagem de dinheiro.

COP21 e as oportunidades perdidas

José Horta Manzano

A 21a edição da Conferência Internacional sobre o Clima tem lugar em Paris. Começa hoje e termina amanhã. O nome oficial – COP – é contração da expressão COnferência das Partes. Em princípio, todas as partes interessadas na evolução do clima estão representadas. No fundo, todos os países.

Cop 21A primeira COP realizou-se em 1992 no Rio de Janeiro. Collor de Mello, nosso mandatário de então, presidia. De lá pra cá, os coabitantes do planeta já se reuniram uma vintena de vezes para discutir sobre modificações climáticas. As esperanças são sempre enormes, mas os resultados costumam desapontar. É muito difícil pôr de acordo tanta gente. Dado que os interesses de determinados países colidem com os de outros, é difícil encontrar meio-termo.

Paris está em pé de guerra. Pudera: são 195 delegações nacionais, 147 delas encabeçadas pelo chefe de Estado. Essas delegações totalizam 25.000 componentes. Outras 25.000 pessoas – repórteres, fotógrafos, cinegrafistas, cientistas e gente do ramo – completam a lista de visitantes.

Cinquenta mil hóspedes assim, da noite pro dia, não é fácil de gerir. Ainda mais numa cidade que acaba de sofrer importantes atentados terroristas. Os parisienses foram incentivados a não sair de casa na segunda-feira. Quem puder, que tire um dia de férias. As autoridades pedem que só metam o nariz na rua aqueles que tiverem absoluta necessidade.

Internacional 1Por reunir dezenas de chefes de Estado, megaconferências costumam ser palco de reuniões paralelas, conversas de bastidores. Como se sabe, grandes decisões e bons acertos costumam ser alinhavados nesses encontros fora dos holofotes.

Dona Dilma, num esforço desesperado para comprir metas fiscais, tomou a constrangedora decisão de anular viagem ao Japão e ao Vietnã programada para a semana que entra. A COP21 favorece encontros bilaterais – desde que haja vontade de ambas as partes. Seria razoável supor que a presidente se preparasse a aproveitar a estada em Paris para trocar pontos de vista com os mandatários extremo-orientais que não poderá visitar.

Dilma Evo CorreaIsso era sem contar com a influência do inefável aspone Marco Aurélio «top-top» Garcia, personagem movido por lógica pessoal, diferente da nossa e frequentemente estranha aos interesses do Estado brasileiro. Entre 146 chefes de Estado, sabem os distintos leitores quais foram os escolhidos para um bate-papo neste domingo? Apenas quatro: a primeira-ministra da Noruega, um representante do Caribe, o presidente do Equador e… o presidente da Bolívia. Para nossa política externa, a conferência universal será tão proveitosa quanto uma reunião de condomínio.

Ir até Paris (com nosso dinheiro) para encontrar-se com Rafael Correa e Evo Morales, nossos vizinhos de parede? Francamente. Tendo à mão tanta gente de maior peso para os interesses brasileiros – grandes clientes, importantes fornecedores, fortes parceiros comerciais – por que deixar passar a ocasião? É de chorar.

Reação tardia ou intencional?

José Horta Manzano

«A presidente Dilma Rousseff vai editar um decreto de programação financeira com bloqueio de R$ 10,7 bilhões em despesas discricionárias como água, luz, fiscalização da Receita, da Polícia Federal a partir de 1º de dez°. A decisão segue a orientação do TCU e põe o governo em estado de calote.»

Tricher 1Acabo de citar matéria do Diário do Poder. Se for verdade – e tudo indica que é – está aí a evidência de que nosso Executivo sulca o Mar dos Sargaços, aquele atoleiro marinho que tanto assustou navegadores no século XVI. A água entorno está coalhada de algas traiçoeiras que perigam, a todo momento, se enroscar na hélice e paralisar a nave.

Teria o distinto leitor ideia do que sejam 11 bilhões de reais? Dificilmente. Tirando meia dúzia de terráqueos do tipo Bill Gates e Warren Buffett, essa quantia está fora de nosso referencial. A imagem mais aproximada é a de um quarto cheio de notas graúdas. Do chão ao teto.

Em vez de cortar na própria carne, como seria razoável, dona Dilma decidiu cortar em carne alheia. Não cogita dispensar funcionários supérfluos nem extinguir boquinhas tão apetitosas quanto inúteis. O corte será feito em despesas essenciais como água, luz e… Polícia Federal. É sintomático.

Tricher 2Embaixadas e representações brasileiras no exterior já foram avisadas que a torneira secou. Como todos sabem, dona Dilma, alérgica a relações exteriores, considera inútil toda despesa feita nesse ramo. A menos que se destine a ditaduras companheiras naturalmente.

Já a diminuição de verbas da Polícia Federal não é de natureza ideológica – o buraco é mais fundo. Dona Dilma há de supor que a supressão de verbas vá frear o ímpeto da PF. Os do andar de cima andam apavorados com a ideia de não mais serem os eternos vencedores do jogo de cartas marcadas ao qual se acostumaram estes últimos anos.