Usos e desusos

José Horta Manzano

No tempo em que a humanidade vivia de caça, pesca e colheita, não havia necessidade de calendário. A vida da tribo se desenrolava à ventura. Se houvesse que caçar, caçava-se. Se houvesse que colher, colhia-se. Se já nada mais houvesse, levantava-se acampamento em busca de lugar mais generoso.

Essa usança seguiu por milênios, até o homem descobrir que podia controlar a reprodução dos vegetais. Foi um achado e tanto, que abriu as portas da agricultura e, consequentemente, do sedentarismo.

Agricultura 1Técnicas de cultivo desenvolveram-se rapidamente. Cada espécie de planta tinha suas manhas. Esta tem de ser semeada em tal época. Aquela tem de ser podada em tal período. Aqueloutra estará pronta para a colheita em tal estação.

O homem deixou de viver ao deus-dará para seguir as imposições da agricultura. Foi nesse estágio que surgiu a necessidade de contar o tempo, de conhecer com exatidão a época do plantio e da colheita. Os primeiros calendários brotaram dessa exigência.

Ainda que todos concordassem com um ciclo de 365 dias, cada povo organizou o calendário à sua moda. Judeus antigos deram ênfase ao fim das colheitas, quando a terra é posta a descansar. O ano judaico começa entre 5 set° e 5 out°.

Ano-novo chinês

Ano-novo chinês

O zoroastrismo dos persas preferiu situar o início do ano no equinócio de primavera, aquele momento em que dias e noites têm exatamente a mesma duração. No Hemisfério Norte, cai em geral em 21 de março. É o «nowruz» (= dia novo), momento de festa grande. Até hoje, o «nowruz» é celebrado numa quinzena de países que receberam influência da antiga civilização persa.

Na China, foi escolhido outro momento para começar o ano. Faz milênios que ficou combinado que o ano começa exatamente a meio caminho entre o solstício de inverno (21 dez°) e o equinócio de primavera (21 mar). Portanto, cai no começo de fevereiro. Festas e festivais têm lugar nessa época. Fábricas e escritórios fecham, e grande movimento de populações ocorre. Trens e aviões ficam lotados. Embora faça um frio do cão, é momento de férias coletivas. E é bom aproveitar porque, para a (imensa) porção pobre da população, é a única semana de férias do ano.

Janus

Janus

Como os persas, os antigos romanos iniciavam o ano em março, no equinócio de primavera. Foi no império de Júlio César que a data foi transferida para 1° janeiro. Às autoridades, pareceu mais conveniente que o ano começasse no primeiro dia do mês dedicado ao deus Janus ‒ aquele que tem uma cara olhando para o passado e outra para o futuro, simbologia forte. Essa alteração de calendário só foi possível porque Roma, civilização urbana, já não estava tão ligada à lavoura.

Há muitos calendários: o cambodjano, o vietnamita, o muçulmano, o etiópico, o coreano, o hindu e numerosos outros. Assim mesmo, faz séculos que o sistema romano se impôs. Revisto e corrigido em 1582, durante o papado de Gregório XIII, o calendário atual universalizou o 1° de janeiro como primeiro dia do ano civil.

Que 2016 traga a todos saúde, paz e prosperidade. Amém, a nós também.

2 pensamentos sobre “Usos e desusos

  1. Para desejar-nos feliz ano novo você contou a história do calendário! Obrigado! E que o ano novo seja para você repleto de paz, amor, saúde e felicidade! Abraço!

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