Desembebedamento

José Horta Manzano

Você sabia?

Vou «beber até cair», dizia a marchinha de Carnaval de 1959, aquela em que o protagonista pedia «Me dá um dinheiro aí!». Naqueles tempos antediluvianos, além de beber até cair, o indivíduo ainda se sentia no direito de exigir dinheiro alheio. O mundo deu voltas e muita coisa mudou. Genebra é bom exemplo.

Na cidade suíça, a polícia acaba de adotar regras mais rigorosas para lidar com a bebedeira. No âmbito privado, nada se altera. Desde que seja maior de idade e que esteja em perfeito uso da razão, cada um tem o direito de encher a cara. Se o fizer sem causar distúrbio à ordem pública, o único castigo será uma ressaca danada no dia seguinte.

alcool-1No entanto, se o estado de ebriedade o levar a infringir determinações que regem a harmonia da sociedade, o culpado pode ser obrigado a pôr a mão no bolso e pagar preço elevado.

Quem, em consequência de bebedeira, perturbar a ordem pública ‒ coisa que acontece frequentemente com quem forçou na dose ‒ será obrigado a pagar multa de 300 francos (cerca de mil reais). De fato, a lei considera que não cabe à sociedade arcar com custos causados por comportamentos individuais problemáticos. Intervenção policial tem seu preço.

Tem mais. Se o estado do bebum não permitir que seja deixado pelas ruas ‒ caso daquele que «bebeu até cair» ‒ a polícia o conduzirá ao distrito, onde ficará o tempo necessário até voltar ao estado normal. Em geral, passa o resto da noite numa cela especialmente destinada ao desembebedamento. Quando tiver atingido estado sóbrio, será chegada a hora de botar a mão no bolso. Uma noite em célula de desembebedamento custa 300 francos (cerca de mil reais). Se o infrator estiver desprevenido, que não seja por isso: receberá a conta pelo correio.

guarana-1Agora, só pra arrematar, um curioso pormenor referente ao bafômetro. Como no resto do mundo, em Genebra também a polícia faz blitz noturnas aleatórias nas ruas. Quando suspeitam que um motorista tenha bebido mais do que devia, solicitam gentilmente que sopre no bafômetro. Aqui não tem essa de se recusar a soprar: polícia mandou, tem de obedecer.

Se o teste der resultado negativo, o motorista será liberado na hora. No caso de resultado positivo, porém, o indivíduo terá de pagar pelo teste. Custa 100 francos (cerca de 300 reais). Sem prejuízo das consequências habituais desse tipo de comportamento: multa, confisco da carteira de habilitação e conexos.

Vai um guaraná aí? É mais prudente.

Frase do dia — 324

«O importante é acabar com esta reminiscência aristocrática, que traz impunidade e desprestígio para o STF.»

Luís Roberto Barroso, ministro do STF, ao declarar-se favorável à extinção do foro dito privilegiado para cidadãos ‘de casta superior’. Publicado em 12 jan° 2017.

A Casa do Povo

José Horta Manzano

Na mesma coluna ‒ Direto da Fonte ‒, o Estadão de 11 dez° dá duas notícias. Uma pouco tem que ver com a outra. Enquanto uma era pra lá de previsível, a outra surpreende. Vamos aos fatos.

Pra lá de previsível
A jornalista informa os resultados de pesquisa levada a cabo pelo Ipsos, respeitado instituto francês de sondagem de opinião. As mesmas perguntas foram feitas a habitantes de 25 países. Queriam saber quais eram as lembranças que o ano de 2016 havia deixado. Boas? Más? Esperançosas?

Dezoito mil pessoas deram opinião, umas 700 respostas por país. O Brasil, pelo menos nessa pesquisa, tirou o primeiro lugar. Foi o país onde o ano findo deixou as piores recordações. Nada menos que 67% dos entrevistados sentiram-se felizes ao virar a última página da folhinha. Em miúdos: de cada 3 brasileiros, 2 respiraram aliviados no final do ano. Uff, acabou!

brasilia-6Surpreendente
O senador Álvaro Dias, paulista que já foi deputado e governador pelo Estado do Paraná, apresentou projeto de minirreforma política. Em sua visão, o número de deputados federais, atualmente fixado em 513, deveria ser reduzido para 405. A notícia não explica de onde saiu esse número. Por que não 404 ou 406?

Até aí, tirando os próprios interessados e numerosos assessores, acredito que estaríamos todos de acordo. Menos eleitos = menos gastos = eficiência turbinada. O nó vem a seguir.

O senador inclui no projeto um máximo e um mínimo de eleitos por Estado. Cada estado, independentemente da população, teria um máximo de 50 representantes. Na outra ponta, nenhum estado, por mais deserto que fosse, teria menos de 4 eleitos. No meu entender, essa fórmula consagra um erro de concepção.

Por uma dessas infelicidades do destino, a Constituição de 1988 estabeleceu que nenhum estado poderia eleger mais que 70 deputados federais nem menos que 8. A intenção declarada era evitar que estados mais populosos predominassem na cena política nacional. Dito assim, parece até coerente. Mas não é.

brasilia-7Nosso sistema representativo é bicameral. O Senado representa os estados, enquanto a Câmara representa a população. Todos os estados, grandes ou pequenos, são representados por três senadores. Tanto o Acre quanto Minas Gerais têm três eleitos. Assim, as unidades federativas têm, no Senado, poder idêntico.

Já a Câmara é a Casa do Povo: representa os habitantes. Em princípio, cada um dos deputados deveria corresponder a um lote populacional equivalente, isto é, deveria trazer a voz de cerca de 400 mil brasileiros. Não é o que se passa. Em obediência aos dispositivos constitucionais, o povo que habita em estados populosos sofre de sub-representação. Já os habitantes de estados menos populosos gozam de super-representação.

O projeto do senador perpetua essa distorção. O corte no número de deputados diminui as despesas, mas não corrige a desigualdade. Para mim, é solução capenga.

Bicho-papão

José Horta Manzano

Como de costume, a verdade costuma brotar das entrelinhas. Com frequência, o que não foi dito vale mais do que as palavras pronunciadas.

Chamada do Estadão, 11 jan° 2017

Chamada do Estadão, 11 jan° 2017

Nosso guia, que sabe muito bem que encarna, na cabeça da maioria dos brasileiros, o mal do qual o Brasil está tentando se livrar, usa a fantasia de eventual candidatura à presidência como ameaça. Age como a mãe que chantageia o filho com o espantalho do bicho-papão.

Quem será o destinatário das ameaças do Lula? Cada um é livre de tirar suas conclusões.

Contagem de presos

José Horta Manzano

Faz uma semana que a mídia dá notícia de barbaridades que vêm ocorrendo em prisões brasileiras. São relatos de arrepiar, que deixam no chinelo a selvageria terrorista do Oriente Médio.

prison-6Não há muito a acrescentar ao que já foi dito e escrito. As ramificações do problema são múltiplas e as implicações, tenebrosas. Ao fim e ao cabo, fica a impressão de que o acontecido estes dias não é senão a ponta de um imenso iceberg. Pelo que entendi, há suspeita de a mistura explosiva não se restringir a insubordinação carcerária, mas abranger traficantes de droga, políticos, magistrados, altos funcionários. É nitroglicerina pura, a manipular com precaução extrema.

Um detalhe, aparentemente secundário, me impressionou. Agora, que a poeira dá sinais de baixar, as autoridades responsáveis decidiram proceder a um «censo» da população carcerária. Como é que é? Ano após ano, conhecemos o número de habitantes do país, com idade, nível escolar, situação financeira, hábitos de locomoção e todos os detalhes de cada família. Por seu lado, não se sabe ao menos quantos são os infelizes encarcerados? A notícia é inacreditável.

Uma coisa é estudar a situação jurídica de cada preso, se deveria ou não estar atrás das grades, se o julgamento foi equânime, se a pena está purgada. Outra coisa é saber quantos são. Estamos aí misturando dois assuntos. Fala-se nos milhões que teriam de ser gastos para levar a cabo a contagem. Volto a dizer: não é possível que cada estabelecimento não tenha uma lista atualizada de pensionistas e de quantos habitam em cada cela.

Chamada da Folha de São Paulo, 9 jan° 2017

Chamada da Folha de São Paulo, 9 jan° 2017

Nunca visitei uma cadeia, devo admitir. Volta e meia, no entanto, a gente assiste a um filme em que se contam os habitantes da penitenciária. Percebe-se que é atividade rotineira. Saem todos ao pátio, em pequenos grupos se necessário, e são contados. Contam-se os passageiros antes de o avião alçar voo, pois não? Contam-se os alunos de uma classe de escola, pois não?

Não dá pra acreditar que não se contem os habitantes de uma cadeia. Se estiverem sendo contados, a direção de cada presídio tem necessariamente a lista de presença atualizada diariamente. A partir daí, basta adicionar o número de inquilinos de todos os estabelecimentos do país para chegar ao total. Com os atuais meios eletrônicos de circulação da informação, poucas horas bastariam para computar o número final. Sem gastar milhões.

Recuso-me a acreditar que as prisões não tenham lista atualizada de presos. Tudo indica que o buraco está bem mais embaixo do que imaginamos.

Baú de memórias ‒ 3

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Lá bem no fundo do meu baú de recordações estão aninhadas memórias que eu respeitosamente cataloguei sob o título de “Religiosidade”. Porém, como se poderá constatar a seguir, o respeito que pretendi imprimir ao conceber esse rótulo está restrito, confesso, ao desejo de demonstrar obediência às regras formais da igreja de meus pais.

A religiosidade sempre me pareceu uma manifestação transcendental menor quando comparada à espiritualidade. Muito cedo em minha vida intuí que as religiões não passam de formas mais ou menos acanhadas de grilagem do terreno espiritual. Cada denominação religiosa chama para si a glória de ser “a única” ou “a verdadeira”, aquela que, por razões históricas ou graças à virtude de seus profetas, está mais próxima de desvendar com fidelidade a vontade de Deus. Todas devotam-se com afinco às tarefas de expandir os limites territoriais de sua gleba e, ao mesmo tempo, opor-se com veemência às tentativas de expansão do território das demais. Eventuais contradições entre os dogmas e a prática religiosa dos fiéis me ensinaram também que ser praticante desta ou daquela não habilita ninguém a penetrar mais suavemente nos mistérios do sagrado.

luz-1Fui criada dentro da tradição católica. Meu pai, rato de igreja contumaz, jamais abriu mão da exigência de que todos os filhos assistissem à missa de domingo. Para ele, o horário ideal para que isso acontecesse era um pouco antes do almoço, de tal forma que pudéssemos nos manter em jejum e comungar sempre que possível. Minha mãe era forçada a permanecer em casa preparando o almoço. Embora a divisão me parecesse injusta e machista, nunca confrontei a necessidade dessa regra, uma vez que minha mãe parecia estar bem adaptada a ela.

Certa vez, a parábola apresentada durante a leitura do evangelho dizia respeito às “migalhas que caem da mesa dos poderosos” e alimentam os mais pobres. Francamente impressionada com aquele duro chamamento à responsabilidade social de todo cristão, eu saía feliz da igreja quando tropecei num mendigo com a mão estendida, pedindo algum dinheiro para mitigar sua fome. Envergonhada e culpada por já antever o prazer de consumir a farta refeição que minha mãe certamente havia preparado, olhei para meu pai na expectativa de que ele agisse de modo generoso. Incrédula, vi-o ignorar ostensivamente a presença incômoda daquele pedinte e nos arrastar de volta para casa. O choque que experimentei na ocasião foi suficiente para que eu, daquele dia em diante, vigiasse com mão de ferro a compatibilidade entre minhas crenças religiosas e minhas atitudes na vida.

Quando chegou minha vez de fazer a primeira comunhão, fui entregue aos cuidados de minha madrinha de batismo. Religiosa até a medula, essa mulher era um modelo vivo das virtudes cristãs. Esmerava-se na tarefa de zelar pela formação de novos padres, financiando seus estudos, comprando roupas e acessórios, aconselhando e visitando regularmente os noviços. Fazia tudo sempre com um sorriso nos lábios e era também gentil e tolerante para com minhas travessuras de criança. Só tinha um defeito: sentia-se autorizada a fazer promessas em meu nome, sem sequer me consultar.

religiao-7Foi ela quem idealizou e confeccionou com as próprias mãos meu traje de primeira comunhão. Sem que eu soubesse, no entanto, ela havia prometido doar o vestido a uma criança pobre tão logo terminasse a cerimônia. Eu, toda orgulhosa, ainda me sentindo a pessoa mais pura e iluminada do universo, posava para uma foto na frente da igreja, quando ela se aproximou por trás e literalmente arrancou meu traje de primeira comunhão. Não posso ocultar que me senti duplamente desnudada: embora fisicamente eu vestisse outra roupa por debaixo, minha moldura religiosa me havia sido surrupiada e minha pequeneza interior, escancarada. Foi o segundo golpe preparado pelo destino a abalar minha convicção quanto à insuperável superioridade moral dos católicos.

Dali por diante, aprendi a recitar orações e textos religiosos sem ter consciência plena dos significados, a confessar pecados que eu sentia não ter cometido, a implorar por graças em momentos de aflição, me comprometendo a não voltar a pecar caso fosse atendida, mesmo sabendo que muito provavelmente não cumpriria a promessa.

A gota d’água que fez transbordar o copo da minha religiosidade de fachada aconteceu quando eu me preparava para enfrentar a última prova do vestibular. Tratava-se de um teste psicológico que definiria se eu possuía ou não condições emocionais para me profissionalizar na área. Como é fácil de imaginar, eu estava especialmente ansiosa naquele dia. Queria chegar cedo à faculdade e reservar um tempo para relaxar e me concentrar. Fiz seguidas tentativas de apressar meu pai: o dia dele só começava depois de um banho, do café da manhã e da leitura do jornal. Esperar que todo esse ritual fosse cumprido me parecia uma perda de tempo indesculpável. Pedi, gritei, chorei, protestei e implorei infinitas vezes. Lá pelas tantas, ele abriu a porta do quarto com violência e, sem nem mesmo tomar café, me arrastou furioso para o carro.

luz-2Durante todo o trajeto, eu e ele permanecemos em silêncio absoluto. O prédio da faculdade ficava ao lado de uma igreja. Ele estacionou o carro bem em frente a ela e, sem me dizer nada, me forçou a entrar e assistir a uma missa do começo ao fim. Não é preciso dizer que minha ansiedade e irritação atingiram o ápice ao longo da cerimônia. Quando ela terminou, eu me sentia psicologicamente destruída, sem condições mínimas de comprovar minha saúde mental. Não posso culpar exclusivamente essa sequência de eventos dramáticos por minha reprovação no teste. Jamais saberei se, em condições normais, eu teria recebido as bênçãos dos profissionais da área para meu noviciado em Psicologia.

A única coisa que sei com certeza é que esse dia foi decisivo para eu abandonar de vez o proselitismo religioso familiar e me abrir a toda sorte de novas experiências. Envolvi-me prazerosamente com a leitura das obras e com as práticas do espiritismo, do zen-budismo, da antroposofia (chamada por seu fundador de ciência espiritual) e do candomblé.

Qual foi o balanço final desse percurso religioso? Acredito que meu maior ganho foi ter sido capaz de desenvolver uma visão ecumênica da necessidade humana de buscar respostas para suas questões existenciais num plano que vai muito além do cérebro e da ciência.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Armas e homicídios

José Horta Manzano

Semana passada, a Folha de São Paulo reproduziu artigo da BBC sobre mortes por arma de fogo no Japão. A argumentação é realmente interessante. Fica-se sabendo que o japonês que desejar possuir arma de fogo tem de ser paciente porque terá uma via crucis pela frente.

Terá de tomar aulas teóricas, enfrentar exame escrito, provar que é exímio atirador, encarar testes psicológicos e de detecção de dopagem. Vasculha-se passado e presente do candidato: antecedentes criminais e eventual proximidade com grupos extremistas. Parentela, vizinhança e colegas de trabalho também passam por pente fino.

Arma 1Tem mais: é proibido portar armas pequenas, dessas que se podem ocultar numa bolsa ou numa sacola. Somente rifles e espingardas ‒ bem visíveis ‒ podem circular. As raras lojas de armas são pra lá de controladas. Só vendem cartuchos novos mediante devolução dos já utilizados. Todo possuidor terá de apresentar a arma à polícia para inspeção anual. Para coroar, a cada três anos a licença vence e tudo recomeça. Provas, exames, testes e todo o resto.

O articulista atribui o baixo índice de homicídios no país ao severo controle da circulação de armas. De fato, a contagem da Undoc (Agência de Drogas e Crime da ONU) mostra o Japão em lugar de honra. Em 2014, o país registrou apenas 0,3 homicídios por 100 mil habitantes. Para efeito de comparação, assinale-se que no Brasil, no mesmo ano, foram cometidos 24,6 homicídios por 100 mil habitantes. A proporção foi de um japonês assassinado para 82 brasileiros. Os números falam por si.

Não resta dúvida: quanto maior for o contrôle do armamento, tanto menor será a taxa de criminalidade. Assim mesmo, a limitação de posse e circulação de armas não é o único fator. Dou-lhes um exemplo extremo: a Suíça.

Como sabem meus cultos e distintos leitores, todo cidadão suíço do sexo masculino integra o exército nacional. Até alguns anos atrás, a obrigação de servir ia dos 18 aos 50 anos de idade, com cursos anuais de atualização. Hoje as obrigações são menos rigorosas, assim mesmo a ideia de base permanece: todos são reservistas convocáveis a qualquer momento. Para tanto, os homens em idade de servir guardam em casa todo o material militar ‒ uniforme, accessórios e, naturalmente, a arma.

Suíça: porão típico

Suíça: porão típico

Além disso, ou talvez por causa disso, o tiro ao alvo é paixão nacional. Por toda parte encontram-se locais apropriados para treino, como nos filmes policiais. Grosso modo, de cada dois habitantes do país, um possui uma arma de fogo em casa. Se um elevado número de homicídios estivesse na razão direta da abundância de armas em circulação, a Suíça seria um dos países mais perigosos do mundo. De fato, somente nos EUA e no Iêmen há, proporcionalmente, mais armas de fogo.

No entanto, não é o que acontece. As estatísticas mostram que, nessa matéria, a Suíça está no mesmo nível do Japão. Em 2014, o índice de homicídios foi de 0,5 por 100 mil habitantes. Está feita a prova de que a quantidade de armas em circulação não é a única responsável pela criminalidade. Múltiplos fatores entram em jogo.

O formato das bandeiras

José Horta Manzano

Você sabia?

A gente costuma achar que todas as bandeiras nacionais são retangulares, de formato idêntico. Qual nada! Há uma trintena de diferentes formatos oficiais. Cada país ou território tem regras específicas para confecção e apresentação de seu estandarte. Nossa bandeira nacional segue as (rigorosas e precisas) normas ditadas pelo Decreto-lei n° 4.545, assinado por Getúlio Vargas.

bandeiras-4De cada quatro bandeiras, três seguem as proporções mais utilizadas: 1:2 ou 2:3. No primeiro caso, o comprimento da bandeira mede o dobro da altura. No segundo, o comprimento corresponde a uma vez e meia a altura.

Alguns pendões escapam a essas medidas mais difundidas. Entre eles, como se podia esperar, o nosso. Aproxima-se muito do padrão 2:3, embora o comprimento não chegue a uma altura e meia. As proporções da bandeira brasileira são de 7:10, o que dá uma razão de 1,429. São apenas duas nações a seguir esse padrão: o Brasil e a pequenina Andorra.

bandeira-suica-2Na prática, no entanto, como pouca gente anda pela rua com uma régua no bolso a medir bandeiras, não se costuma dar muita atenção a essas minúcias. Certas ocasiões exigem que dezenas de lábaros sejam expostos: conferências internacionais, por exemplo. Para essas horas, está tacitamente combinado que todas sejam confeccionadas no formato 2:3. A uniformização evita que bandeiras mais longas acabem ocultando as mais curtas. Ninguém reclama.

Eu disse ninguém? Não é bem assim. Durante quase meio século, a Suiça negou-se a aderir à ONU, criada logo após a Segunda Guerra. O povo considerava que o estatuto de neutralidade do país era incompatível com o pertencimento a uma organização supranacional.

O tempo passou, a guerra foi ficando pra trás, o Muro de Berlim caiu, a antiga geração foi desaparecendo, até que chegou um dia em que, por meio de plebiscito, os suíços finalmente aprovaram a entrada do país na ONU. Foi em 2002. Logicamente, um mastro foi acrescentado à fachada da organização internacional. Na hora de confeccionar a bandeira suíça, no entanto, um problema apareceu.

Sede europeia da ONU, Genebra

Sede europeia da ONU, Genebra

Entre todos os Estados e territórios do planeta, somente dois têm bandeira quadrada. Um deles é o Vaticano ‒ que não é membro da ONU ‒ e o outro é justamente a Suíça. O cerimonial da ONU insistiu para que os suíços «espichassem» sua bandeira e a tornassem retangular. Pequenino mas cabeçudo, o país resistiu. «Nossa bandeira sempre foi quadrada e assim permanecerá.» A ONU preferiu não insistir.

Se o distinto leitor calhar de passar um dia diante da ONU, dê uma olhada.

Natal ortodoxo

José Horta Manzano

Você sabia?

O Grande Cisma deu origem à separação entre dois grandes ramos do cristianismo: os católicos da Europa ocidental e os ortodoxos da parte oriental do continente. Nos países ocidentais, a divisão é conhecida como Cisma do Oriente, enquanto os orientais lhe dão o nome de Cisma do Ocidente. Questão de ponto de vista.

A história registra o ano de 1054 como ponto de ruptura. Mas a divergência não ocorreu assim, da noite para o dia. Foi um processo longo e complicado, que durou um milênio e envolveu interesses que foram bem além do âmbito puramente dogmático. Rivalidades pessoais, interesses nacionais, cobiça, guerras intermináveis, cruzadas, expedições punitivas, litígios territoriais entraram na disputa.

Embates que tiveram início já no século V culminaram, ao final da Idade Média, na separação definitiva entre cristãos ocidentais e orientais. Grécia, Ucrânia, Sérvia, Bulgária fazem parte do território de maioria ortodoxa. A maior concentração, sem dúvida, se encontra hoje na Rússia. O período comunista reprimiu toda expressão religiosa durante décadas. Depois do desaparecimento da Cortina de Ferro, a devoção voltou com força total.

Feliz Natal!

Feliz Natal!

Os romanos haviam instituído o calendário juliano para registrar a passagem do tempo. Mas ele continha imprecisões que se fizeram notáveis com o correr dos séculos. Ao final da Idade Média, a defasagem entre o tempo civil e o astronômico já somava mais de dez dias, o que perturbava a vida de uma civilização essencialmente agrícola. As estações do ano chegavam cada vez mais cedo.

A correção, imperativa, foi imposta pelo papa Gregório XIII. Ficou combinado que a quinta-feira 4 de outubro de 1582 seria seguida pela sexta-feira 15 de outubro. Onze dias desapareceriam. Os países católicos rapidamente adotaram a nova contagem do tempo. Já os ortodoxos levaram séculos para se conformar.

A medida foi tomada em consequência de uma bula papal. Dado que não reconhecem a autoridade do papa romano, os cristãos orientais continuam ‒ até nossos dias ‒ a fixar suas festas religiosas pelo calendário antigo, ignorando a reforma gregoriana.

A diferença entre os dois sistemas de contagem do tempo atinge atualmente 13 dias. Eis por que russos e outros ortodoxos não festejam o Natal em 25 de dezembro, mas em 7 de janeiro. Hoje é dia de festa em terra ortodoxa. Catedrais e igrejinhas celebram a data com ritos tradicionais.

Feliz Natal a todos! E também “С новым годом”, feliz ano-novo!

Interligne 18cNota etimológica
Uma raiz indo-europeia bastante produtiva deu o grego skhisma com o sentido de divisão, separação. A voz foi retomada pelo latim eclesiástico sob a forma schisma, de sentido idêntico.

Alguns filhotes aparecem em nossa língua, tais como: cisão, cindir, rescisão, cismático. Todos trazem a ideia de separação de um tronco principal.

O efeito George Clooney

José Horta Manzano

Você sabia?

Ninguém jamais assistiu, em terra suíça, ao belíssimo espetáculo de um cafezal em flor. Por uma razão simples: nestas terras, nem em se plantando, não tem jeito: café não dá, nem com reza braba.

cafe-7Cascatinha & Inhana, dupla caipira bastante popular meio século atrás, cantou a beleza de uma plantação de café, o grande produto de exportação do Brasil de então. Durante décadas, a venda do «ouro verde» garantiu praticamente a totalidade das vendas brasileiras ao exterior. Ainda hoje, o Brasil é o maior cultivador de café do mundo. Reparem que eu disse cultivador. Foi de propósito.

Na Suíça, não se planta café. O grão é importado, transformado e reexportado com impressionante mais-valia. E o fenômeno, relativamente recente, cresce ano após ano. As exportações suíças de café processado têm aumentado exponencialmente. As estatísticas de 2013 assinalam que o país exportou 65,5 toneladas naquele ano, perfazendo um valor total de 2,2 bilhões de dólares.

cafe-6Em valores, as vendas suíças de café equivalem a três vezes as vendas de chocolate e a quatro vezes as exportações de queijo. E como é possível? Com bom humor, atribui-se o milagre ao «efeito George Clooney». O distinto leitor há de ter visto ou ouvido falar da máquina Nespresso, genial criação popularizada pela multinacional suíça Nestlé. Falo daquela cafeteira que utiliza pó de café acondicionado em cápsulas coloridas. O ator americano George Clooney é o garoto-propaganda. É importante saber que todas as cápsulas de café Nespresso são fabricadas na Suíça. Uma ínfima parte é para consumo interno, o resto serve para abastecer o planeta.

Chegamos à paradoxal situação em que países plantadores (e exportadores) de café acabam reimportando o produto transformado e espremido dentro de cápsulas de alumínio.

george-clooneyO café verde, que o Brasil despacha em sacas de 60kg, vale por volta de 2,50 dólares o quilo. Uma vez encapsulado o produto, o valor salta para 33,50 dólares o quilo.

Como se diz por aqui, «en Suisse on n’a pas de pétrole, mais on a des idées» ‒ na Suíça, não temos petróleo, mas temos ideias. Ou, para utilizar o bordão de George Clooney: Nespresso, what else?

Latinidade

José Horta Manzano

O distinto leitor que já me fez a honra de ler alguns artigos se deu conta de que faço o que posso para exprimir meu pensamento com precisão. A clareza me encanta. Sinto-me irritado quando não consigo entender o que um autor quis dizer. A escrita clara exige palavras adequadas ‒ taí uma regra incontornável.

Traduzir um texto, por exemplo, não é tarefa que se possa cumprir com um pé nas costas. Paradoxalmente, quanto mais próximos estiverem o idioma de origem e o de chegada, maior será o risco de o tradutor distraído se deixar ludibriar por um «falso amigo».

Estou-me referindo a falsos amigos em sentido figurado, evidentemente. São palavras e expressões traiçoeiras que, embora parecidíssimas, não significam a mesma coisa na língua estrangeira e na nossa. O problema assume proporções maiores quanto se traduz entre línguas da mesma família. O que parece nem sempre é.

obama-3Mais dia, menos dia, todo tradutor acaba caindo na armadilha. Até franceses, conhecidos pelo rigor no trato da língua, escorregam. Um exemplo de erro frequente é quando ingleses ou americanos utilizam a palavra «administration» para designar o conjunto dos governantes. As expressões «Obama administration» ou «future Trump administration» são frequentemente (mal) traduzidas ‒ tanto na França quanto no Brasil ‒ por «administração Obama» ou «futura administração Trump».

Não bate. Não é nossa maneira de dizer. A boa tradução será «governo Obama» ou «futuro governo Trump». Ou alguém ousaria se referir à finada «administração Lula»? Se não estiver convencido, faça uma busca rápida no google. A proporção é de uma menção a «administração Lula» para cada centena de referências a «governo Lula». Portanto, «administração Trump» é contaminação a evitar.

2017-0104-01-estadaoHá outras armadilhas à espera do tradutor negligente. Uma delas, que me irrita particularmente, é tratar nossos hermanos latino-americanos simplesmente de «latinos». Nos EUA, é o uso; entre nós, não. Em manchete, o Estadão escorregou ainda ontem. Disse que o grosso dos turistas que visitaram o Brasil em 2016 eram «latinos», seguidos de europeus. Sem se dar conta, o autor da manchete deu um golpe na latinidade. Abriu um fosso entre latinos europeus e latino-americanos.

A manchete aberrante tem mais de uma causa. Uma delas é o comportamento do tipo ‘maria vai com as outras’: é tão mais cômodo adotar o que vem escrito no despacho da agência de notícias e traduzir palavra por palavra… Outra causa é evidente falta de estudo. Talvez não esteja mais sendo ensinado na escola que «latinos» não são unicamente nossos vizinhos de fala espanhola. Diz-se latino de todo povo originário de país de língua latina. Franceses, portugueses, italianos, romenos, espanhóis, andorranos, monegascos são latinos. Sem mencionar parte dos suíços, dos belgas, dos canadenses.

Francamente… Excluir romanos e italianos dos povos latinos, como fez o autor da manchete, é de uma estupidez sem nome.

A boa e velha corrupção

Ruy Castro (*)

É verdade que, de tempos em tempos, o país acorda para o esculacho e se deixa seduzir por um moralista, que promete varrer a sujeira, caçar os marajás ou acabar com os 300 picaretas do Congresso.

janio-4Daí Jânio Quadros (1960), Fernando Collor (1989) e Lula (2002). Eleitos esses elementos, o que acontece? A vassoura toma um porre, o caçador de marajás revela-se o marajá-açu e o outro resolve governar justamente com os 300 picaretas, ampliados para 400.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Este é trecho de artigo publicado em 4 jan° 2017.

Que cada um faça sua parte

José Horta Manzano

«Jeder kehre vor der eigenen Tür, und die Welt ist sauber» ‒ Que cada um varra diante da própria porta, e o mundo será limpo.

A conhecida citação é da lavra de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), escritor, poeta e estadista, considerado o pai da moderna língua alemã.

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)

A ideia fazia literalmente sentido quando a frase foi pronunciada, naquela era pré-industrial de cidades pequenas, casas geminadas, pequenos estabelecimentos comerciais e quase nenhuma indústria. O mundo mudou. Se melhorou ou não, vamos deixar pra discutir noutra ocasião. Fato é que as cidades incharam, espaços ditos «públicos» proliferaram, diluiu-se um pouco a noção de «onde termina o meu e começa o do outro».

Assim como as cidades se estenderam, o entendimento da frase de Goethe há de ser alargado. «Que ninguém suje, e o mundo será limpo» ‒ taí uma boa adaptação, que serve para os dias de hoje sem deturpar a ideia original. No Brasil, estranhamente, insistimos em remediar ao invés de prevenir.

Chamada do Estadão, 2 jan° 2017

Chamada do Estadão, 2 jan° 2017

O prefeito Doria, que acaba de assumir a alcaidia da maior cidade do país, deu seu showzinho midiático logo no pimeiro dia de função: vestiu-se de limpador de rua, armou-se de pá e vassoura, e juntou-se aos varredores. Fez isso às 6h da manhã. O marketing é rastaquera, mas ninguém há de atirar-lhe a pedra. A intenção foi mostrar constraste com relação ao prefeito anterior, que muitos diziam pouco afeito ao trabalho.

O problema maior vem agora. Senhor Doria fala em «varrer SP pessoalmente toda semana». Alguém precisa urgentemente informar a esse senhor que vestir-se de gari e limpar ruas não é exatamente o que esperam os milhões de cidadãos que o elegeram. Que o tenha feito uma vez, passa. Agora, chega. Demagogia não combina com eficiência.

tri-dechets-1Outra frase do novo prefeito me impressionou mais ainda. Comprometeu-se a «transformar-se em catador de recicláveis». Como é estranho! Em países mais adiantados, faz já mais de vinte anos que cada cidadão tem em casa entre 6 e 10 diferentes latas de lixo justamente para fazer triagem. Lixo orgânico, papel, plástico duro, plástico mole, vidro, metal, tecido, óleo, pilha, lâmpada, garrafa pet, madeira, alumínio são materiais diferentes. A separação é feita na origem, que fica muito mais fácil para direcionar a reciclagem. A figura do “catador de recicláveis” desaparece.

Em vez de especializar-se em triagem do lixo alheio, melhor seria que o prefeito instaurasse ampla campanha de conscientização.

Que cada um trie seu próprio lixo, e a cidade será limpa. E menos poluída.

“Dividir”

José Horta Manzano

Não faltou boa vontade ao autor da chamada. No entanto, vasculhando na memória, não deu com palavra adequada pra exprimir seu pensamento. Empurrado pela celeridade que o ofício exige, não teve tempo de procurar.

Daí ter devidamente cercado «dividir» com esse par de aspas, como biombos a disfarçar o embaraço. Os urubus informam que o verbo não é o ideal mas, na falta de outro, vai assim mesmo.

Chamada Estadão, 29 dez° 2016

Chamada Estadão, 29 dez° 2016

De fato, dividir traz a ideia de decompor um todo em partes menores, mas não inclui necessariamente a noção de repartir, de oferecer pedaço(s) a outros. Fica faltando o mais importante. Dividir é informação colateral. A ideia principal é fazer que outros beneficiem da divisão.

A língua oferece verbos mais adequados. Destaco três deles.

Interligne 18c●  O mais utilizado:
«Pessoas com deficiência vão compartilhar sistema de cotas com (…)»

●  Embora menos utilizado, este é sinônimo exato do anterior:
«Pessoas com deficiência vão compartir sistema de cotas com (…)»

●  Agora vem um verbo raro, que nem o Houaiss menciona. Assim mesmo existe e, a meu ver, é o que melhor traduz a ideia:
«Pessoas com deficiência vão condividir sistema de cotas com (…)»

Interligne 18c

Todos os três trazem ambas as ideias: dividir o todo e repartir pedaços. Se o autor tivesse utilizado um deles, não teria precisado de aspas.

O imaginário europeu

Luiz F. Zanin Oricchio (*)

De certa forma, o Brasil repete a mitologia e a nega. O imaginário europeu consagrou o País como uma espécie de paraíso na Terra. “Em se plantando tudo dá”, garantiu o primeiro cronista, Pero Vaz de Caminha, encantado com a fertilidade do solo e com a beleza sem pudor dos habitantes originários.

Praia 3A fama se firmou ao longo dos séculos. Aquele era um país pobre, cheio de problemas, mas também povoado por gente feliz e acolhedora, praias maravilhosas, florestas a perder de vista, rios imensos de água pura. Livre do frio e de calores extremos, sem terremotos, sem vulcões, sem grandes conflitos. Um país de povo criativo, músicos geniais, e que celebram a festa coletiva do Carnaval como nenhum outro.

Alguns estrangeiros ainda pensam assim. Nós não pensamos mais. Já fazia algum tempo, aliás. Mas 2016 foi o ano da queda definitiva do mito do Homo Brasilis.

(*) Luiz F. Zanin Oricchio é jornalista. O texto reproduzido é trecho de artigo publicado no Estadão, 31 dez° 2016.

A opção pela grandeza

Myrthes Suplicy Vieira (*)

É perfeitamente possível passar toda uma vida fazendo a coisa certa, cumprindo deveres legais, respeitando os limites da própria liberdade e os da liberdade dos outros, sendo um profissional responsável e ético, fomentando uma visão humanista, curvando-se à necessidade de desenvolver responsabilidade social e ambiental e, ainda assim, quedar-se perplexo ao final da própria existência com uma sensação amarga de incompletude que insiste em subir pelo peito e estrangular a garganta. Por quê?

Se você acredita que há uma ordem “natural” para todas as coisas e pauta sua existência na busca por essa ordem, talvez não faça mesmo sentido. Se você é branco, homem, heterossexual, católico, nascido em berço minimamente remediado, proveniente de um lar não-disfuncional e teve a sorte de contar com pais e professores amorosos, é provável que sua vida transcorra sem muitos acidentes de percurso. Se, no entanto, seu perfil está mais próximo do dos segmentos “minoritários” [em termos de importância] da população brasileira – ou seja, dos afrodescendentes, das mulheres, dos LGBTs e dos pobres – quase certamente tropeçará em algumas pedras pelo caminho e, talvez, esteja em melhores condições para intuir os motivos.

by Marie-Aurora, pintora francesa

by Marie-Aurora, pintora francesa

Explico. Para mim, só existimos como seres em relação. A despeito de nossas tão valorizadas identidades individuais, estamos todos, tenhamos ou não consciência disso, a serviço de uma causa existencial. Desde a mais tenra infância, somos disciplinados a eleger princípios e valores que nortearão nossa existência e moldarão os papéis que pretendemos desempenhar no mundo.

O problema não está, como pode parecer a princípio, na nobreza ou pequeneza da causa que abraçamos. Está na ilusão de que nossa causa individual é a única pela qual vale a pena lutar, a mais importante, ou que ela basta por si só. Não basta. A vida se encarregará de mostrar que ela está intimamente conectada com infinitas outras causas que não haviam despertado nosso interesse ou atenção antes. Haverá sempre, em todas as vidas, um momento em que lhe será exigido escolher entre ater-se à causa original e ignorar as demais, abandonar a causa primeira e acolher outra (ou outras) ou, simplesmente, render-se à necessidade de extrapolar seu papel social funcional e tentar conciliar todas elas.

Optar pela terceira possibilidade é decisão para poucos, já que requer um ato quase heroico de coragem. Não estou falando de um desses gestos de compaixão e solidariedade racionais, intelectuais, bravateiros a que assistimos muitas vezes. A coragem à qual me refiro vem à tona sempre em uma situação limítrofe e implica transcender a lógica cartesiana, o bom senso, a prudência e até a moralidade cotidiana. Muitas vezes, requer que nossa segurança, bem-estar ‒ e, eventualmente, nossa vida ‒ sejam oferecidos em sacrifício para lidar com demandas externas, que nem sempre nos dizem respeito diretamente. Por mais paradoxal que pareça, somos chamados a interferir por amor ou compaixão na vida de terceiros que podemos nem mesmo conhecer.

Espere um pouco. Tudo isso lhe cheira a delírio romântico démodé, coisa de poeta louco ou de desocupado sem família? Será que estou tentando lhe vender algum tipo de filosofia de botequim? Más notícias, não é nada disso. Acredito que em nenhum dicionário há palavras fortes o bastante para descrever com precisão a gravidade de um desses momentos.

Talvez funcione por analogia. Imagine um pai ou mãe que vê um bebê prestes a ser atacado por um pitbull enfurecido. A criança não é seu filho, você também não é dono do cão e estava passando acidentalmente pelo local. O que você faz? Grita, arma-se com um pedaço de pau e coloca-se entre a vítima e o agressor? Acovarda-se quando percebe que o cachorro está vindo em sua direção?

by Jadis, pintora francesa

by Jadis, pintora francesa

Liga para a polícia ou para os bombeiros? Pensa que, por mais devastador que seja o remorso que vai enfrentar depois, é melhor não se envolver, uma vez que precisa preservar a própria vida e continuar cuidando de seus filhos? Difícil responder, principalmente quando se está em casa, protegido, em condições de analisar friamente os riscos e as consequências de sua decisão. Pense agora nos dilemas emocionais que figuras de relevo em qualquer área de atuação humana enfrentariam caso se deparassem um dia com essa forma de chamamento. Seria mais ou menos difícil para elas colocar na balança as consequências éticas de sua escolha? Não sei dizer. Gostaria muito de acreditar que eu seria capaz de ceder ao impulso generoso de ajudar, mas algo me diz que isso não passa de “wishful thinking”.

Originalmente, concebi este texto como um tributo à memória de Dom Paulo Evaristo Arns, que nos deixou recentemente. Poucas vezes admirei tanto a coragem de um homem como ele, que aceitou desafiar imensos Golias ao longo de toda sua vida, mesmo se sabendo um desarmado Davi. Muitos dirão que ele só fez o que fez por pura profissão de fé. Eu prefiro acreditar que ele optou consciente e destemidamente por implementar na prática os ensinamentos que emprestavam sentido a sua vida.

Oriundo de uma família de camponeses profundamente religiosos, Dom Paulo se notabilizou pelo enfrentamento de causas muitas vezes incompatíveis com sua missão espiritual. Todo brasileiro com mais de 40 anos deve ter ouvido falar da cerimônia ecumênica que ele organizou na paulistana Catedral da Sé durante o período mais difícil da ditadura militar em homenagem a um judeu torturado até a morte na cela de uma prisão. Um número menor de pessoas deve ter sabido dos insultos que a ele foram dirigidos quando, chocado com a morte de um menino de 12 anos estrangulado por populares logo após ter roubado uma corrente de ouro na mesma Praça da Sé, ele decidiu criar e capitanear o Movimento dos Direitos Humanos, cujos rastros de ressentimento e intolerância permanecem até os dias de hoje. Um número ainda significativamente menor de brasileiros deve ter se enfronhado nos conflitos que Dom Paulo enfrentou com a autoridade máxima da igreja católica, o papa João Paulo II. Mesmo tendo visto seu poder de influência diminuído drasticamente, ele não renegou sua opção preferencial pelos “pequeninos”, apostando ser essa a verdadeira missão evangélica.

Recentemente, um cidadão comum, que bem poderia se encaixar na definição que Dom Paulo dava aos pequeninos, deu a todos nós uma poderosa lição. O vendedor ambulante Índio colocou em prática o ensinamento cristão de que é preciso amar o próximo como a si mesmo. Saiu em defesa de pessoas com quem não mantinha relações de amizade ou parentesco e foi, por isso, espancado até a morte. Pouco se sabe a respeito da orientação religiosa, ideológica, filosófica, política ou de gênero desse camelô. Aparentemente, os percalços que enfrentou desde a infância restringiram-se à tarefa de garantir a própria sobrevivência financeira e prover a subsistência da família. Tudo o que nos foi dito é que ele era um homem gentil, educado e amigo.

by Sylvia Penkalla, pintora francesa

by Sylvia Penkalla, pintora francesa

A perplexidade permanece: o que teria motivado esse integrante de um grupo socialmente invisível a acreditar que seria possível dialogar e demover os agressores de duas pessoas com quem ele não mantinha relações de amizade ou parentesco? Estava em busca dos seus 15 minutos de fama? Por que não contou com a ajuda dos passantes, muitos dos quais optaram por sair bem na foto apenas depois de sua morte? Por que isso aconteceu em pleno dia de Natal num dos maiores países católicos do mundo e ninguém mais se deixou sensibilizar?

Racionalmente, pode ser reconfortante apelar à tese de que o instinto prioritário na espécie humana é o de garantir a própria sobrevivência e, consequentemente, recuar diante do medo. Não importa. O que me parece fundamental é reconhecer que algo se moveu no peito desses dois homens e ainda não sabemos que nome dar a seus gestos.

Pode ser que eu esteja agindo em função de consciência pesada ou, quem sabe, sendo vítima de uma crise de romantismo tardio. Seja de que maneira for, decidi chamar esse impulso de “opção pela grandeza”. Acredito que se trata de um impulso vital raro que sai das vísceras direto para o coração, sem passar pelo cérebro. Só acomete um dos nossos quando a pessoa se dá conta de que a vida perderia totalmente o significado se escolhesse se omitir. Provavelmente, um desvio genético grave, remanescente do tempo dos dinossauros.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Feliz 2017!

José Horta Manzano

Foi um ano difícil. Pensando bem, todo ano é difícil. Tão longe quanto possam ir minhas lembranças, sempre ouvi dizer que atrávessavamos uma crise. Não tenho recordação do tempo beato em que se haja podido dizer «vivemos um período maravilhoso, de paz, bonança e felicidade».

É só mais tarde, quando as coisas pioram, que a gente olha pra trás e se lamenta: «Ah, como era bom aquele tempo. Éramos felizes e não sabíamos».

by Alexandre de Oliveira (1971-), desenhista gaúcho

by Alexandre de Oliveira (1971-), desenhista gaúcho

Ainda assim, é bom que tenha acabado o ano. Eta 2016 pesado, cruzes!

Que este 2017 seja melhor ‒ em todos os sentidos ‒ para todos nós.

Feliz ano-novo!

Reclamar do quê?

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 31 dez° 2016

Os brasileiros vivem num país gigantesco. Para a maioria, fronteira não passa de conceito vago, um ponto perdido no meio da Amazônia, afundado no Pantanal ou açoitado pelo pampeiro nos pastos sulinos. Mal e mal, nos inteiramos do que se passa do lado de cá. Acompanhar o que acontece além-fronteira, então, já é pedir demais. No entanto, lá como cá, há mundo. Por toda parte, gente ama e briga, se entristece e se alegra, nasce e morre. Vale a pena dar uma espiada no que se passa do outro lado.

Fim de ano é momento de balanço. Neste finalzinho de 2016, tenho visto muito desencanto. «O ano que não terminou» é a tônica das análises. O gosto de inacabado, a apreensão com o que está por vir, a carestia e a perda de vigor da economia, os relatos sobre o aumento do desemprego, a recapitulação do nome dos figurões já encarcerados e dos que o serão em breve, o embate entre os Poderes da República ‒ eis os temas dominantes. Todos eles deprimentes, desacoroçoados e angustiantes. Ânimo, minha gente! Ou, como diriam os antigos: sus! Basta olhar em roda pra ver que, se nosso país atravessou um ano difícil, há quem esteja pior que nós. Não acredita?

tanque-de-guerra-1No Brasil, 2016 já começou com cara de golpe. Revolução à antiga, com obuses e trincheiras, anda meio «démodée» por aqui. Mas muita gente imaginava que meia dúzia de brucutus surgiriam a qualquer hora pra derrubar o governo e tomar o poder. Pois não aconteceu! A destituição da presidente e a consequente assunção do substituto legal se deram dentro da mais estrita ordem constitucional. Tirando pequenos engasgos, normais e desculpáveis em situações insólitas, o processo deslizou sem tropeços. Reclamar do quê?

Na primeira metade do ano, conforme iam se aproximando os Jogos Olímpicos, a ansiedade crescia. Até policiais, agentes e peritos do exterior foram convocados para reforçar o time nacional e garantir paz e segurança aos atletas e ao público. Bilhões de olhos ao redor do planeta se encantavam com as imagens do Rio de Janeiro. Cada um torcia por seus atletas. Tudo ao vivo. De novo, tirando escorregões de pouca monta, tudo deu certo, sem catástrofes. Reclamar do quê?

O povo da França, da Índia, do Egito, da Bélgica, de numerosos países africanos e até da Alemanha foi castigado por atentados que deixaram centenas de mortos, milhares de feridos e um cruel sentimento de impotência. Tanto os do andar de cima quanto os do porão se sentem igualmente desarmados, perdidos. No Brasil, tirando a violência à qual, de tão corriqueira, ninguém mais presta atenção, nenhum atentado aconteceu. Reclamar do quê?

Os que vivem na infeliz Venezuela, nossa vizinha de parede, esses, sim, têm do que se lamentar. A situação lá anda tão feia que impele cidadãos a escapar do país para conseguir alimento. Nem comida eles têm! Preferem tornar-se flanelinhas clandestinos em Roraima e dormir ao relento a passar fome no país de origem. Nas grandes cidades da república bolivariana, não há passeata ou manifestação popular que não deixe rastro de mortos e feridos. Do lado de cá da fronteira, não nadamos em dinheiro, é verdade. Mas, ao menos, não vivemos em penúria alimentar. Reclamar do quê?

flanelinha-1Na República Democrática do Congo ‒ país africano de 85 milhões de viventes ‒, o presidente foi batido nas urnas quando buscava reeleger-se. Em vez de passar o poder ao vencedor, como manda o figurino, agarrou-se ao trono. A confusão e a violência se instalaram no país. Pressões externas estão tentando conciliar os dois presidentes autoproclamados. Pra evitar mal maior, cogita-se dar o cargo de presidente a um deles e o de primeiro-ministro ao outro. No Brasil, faz uma pancada de décadas que passação de mando se tornou rotina sem surpresas. Reclamar do quê?

E os apuros dos pobres 80 milhões de turcos? Depois de mal explicada tentativa de golpe de Estado, milhares de cidadãos foram encarcerados. Ninguém sabe o total, mas fontes confiáveis estimam que cem mil estejam presos. Com vocação para ditador, o presidente aproveitou para expurgar o país dos cidadãos que o incomodavam. Fechou jornais e prendeu multidão de jornalistas. Semana passada, na esteira do assassinato do embaixador da Rússia em Âncara, mais 17 mil turcos foram enjaulados. Dezessete mil! Na aprazível Terra de Santa Cruz, abençoada por Deus e bonita por natureza, não temos nada disso. Reclamar do quê?

Feliz ano-novo, brava gente!

É dando que se recebe

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Molly, minha filósofa canina preferida, está enfrentando um dos períodos mais críticos de saúde de toda a sua vida. Confesso que ver minha mestra, sempre tão independente e altiva, combalida como está, tem sido uma experiência para lá de angustiante.

Há cerca de duas semanas, ao chegar em casa, a encontrei prostrada, deitada de lado num canto da sala. Ao contrário de seu comportamento habitual ao me ver chegar, ela permaneceu inerte, sem sequer abanar o rabo. Aproximei-me dela, preocupada, e tentei animá-la fazendo uns afagos em sua cabeça. Nada. Não teve forças nem para levantar a cabeça e seus olhos pareciam implorar por ajuda urgente.

Um turbilhão de hipóteses e pensamentos negativos cruzou minha cabeça. Eu sabia que ela vinha lutando contra uma alergia que havia deixado seu corpo todo empipocado e imaginava que o calor infernal de dezembro podia estar contribuindo para o agravamento do quadro. De qualquer forma, me desesperei porque nunca antes a havia visto tão fragilizada.

cachorro-37Após consulta ao veterinário, passamos eu e ela por uma sucessão de experiências assustadoras. Nenhum medicamento receitado parecia fazer o efeito desejado e a falta de apetite foi retirando rapidamente as energias que lhe sobravam. Emagreceu em 15 dias mais de 10% de seu peso e seu cansaço era visível, sua respiração ofegante. Eu assistia a tudo impotente, sem saber como interferir para ajudar. Passava os dias ansiosa, sem conseguir me concentrar em nada.

Apelei despudoradamente a todos os anjos e santos de meu conhecimento. Implorei por ajuda celestial, comprometendo-me a fazer tudo o que estivesse a meu alcance para retribuir a graça de recuperação da saúde de minha companheira de estimação. O milagre não veio, a despeito de minha recém-descoberta obsessão religiosa. Joguei a toalha em desespero, mas, atendendo a uma intuição de último minuto, recorri a meus amigos em busca de iluminação.

Uma coincidência nas respostas que recebi chamou minha atenção: todas apontavam minha participação no processo como decisiva para uma eventual virada de ventos. De início, não compreendi bem a mensagem. Mudar o foco das minhas preocupações e voltá-lo para minha própria saúde me parecia um contrassenso. Isolei-me de tudo e, deitada no escuro, passei horas me perguntando como alterar minha disposição emocional para ajudar minha amiga de 4 patas. Aos poucos, uma luzinha foi despontando no final do túnel.

Lembrei que a única forma efetiva de comunicação entre o bicho-homem e o bicho-bicho se dá através da energia. Energia física, energia emocional e energia espiritual. Percebi que, nos três planos, tudo o que saía de mim eram ondas de irritação, impotência, vitimização e impaciência. Compreendi que minha ansiedade retroalimentava a dela e vice-versa. Reaprendi a dura lição de que o bem-estar de um animal depende em grande parte do equilíbrio emocional da pessoa que cuida dele.

Resolvi chamar a Molly para uma conversa definitiva. Expliquei a ela como meus medos haviam escalado e me cegado ao longo do tempo e perguntei como poderíamos mutuamente nos influenciar para neutralizá-los. Ela respondeu devagar, com voz fraca e pausada:

cachorro-38“Eu também estou muito confusa e amedrontada. Com tudo que sofri nos últimos dias, acabei descobrindo a conexão entre o cérebro e as vísceras. É complicado, mas tente acompanhar meu raciocínio. No desenvolvimento fetal, todo ser em formação é de início apenas um tubo. As duas extremidades desse tubo invaginam, fazem mil circunvoluções, vão se dobrando sobre si mesmas e se curvando. De um lado, cria-se um cérebro e, do outro, os intestinos. O material de base é, no entanto, o mesmo. São as células mais sensíveis à estimulação externa do nosso corpo. Se um dos lados do tubo sofre alterações, o outro se ressente disso. Os hormônios do estresse afetam tragicamente as duas extremidades. Um cólon irritável gera um córtex cerebral igualmente irritável. Ainda não sei como colocar um ponto final nesse ciclo de autodestruição, uma vez que minhas ideias ainda estão muito inflamadas. Teorizo, salto febril de um ponto de vista a outro, mas não chego a nenhuma conclusão útil. Talvez pudesse ajudar se criássemos uma atmosfera de harmonia e aconchego para nós duas”.

Segui à risca as orientações de minha mestra. Arranjei as coisas para que nossa casa tivesse o clima mais zen possível: silêncio, escuridão, ar fresco, odores e sons suaves, gestos calmos e olhares ternos. Lentamente, o milagre foi acontecendo. Com nossa respiração mais profunda e fluída, as endorfinas foram se acumulando e ajudando a neutralizar a carga de adrenalina. A crescente serenidade que experimentamos deu conta de acalmar de vez as vísceras da cachorra e de expandir minha confiança num desfecho favorável. Um pouco de sombra e água de coco gelada fecharam com chave de ouro nossa jornada pelo território do implausível.

cachorro-39Hoje acordamos novamente de bem com a vida. O processo parece ainda estar longe do fim, mas já não nos importa. Todas as platitudes das mais ridículas acodem a nossos cérebros e saltitam pelos nossos lábios. Revigoradas, cantamos em coro com Milton Nascimento que não há “nada a temer senão o correr da luta, nada a fazer senão esquecer o medo”. Depois, rindo uma com a outra, entoamos sensualmente os versos de Leonard Cohen: “Dance me to the end of love”.

São Francisco tinha razão. O máximo a que podemos aspirar durante nossas curtas existências é alcançar a condição de instrumentos da paz. Vital é aprender que só se recebem bênçãos divinas quando somos capazes de abençoar nossas experiências ‒ boas ou más ‒ de vida e também dar graças por nossos companheiros de jornada.

Agradeço de coração a meus amigos que me estimularam e me fizeram chegar a essas revelações. Pensando bem, é por poder contar com a sabedoria de vocês que talvez esteja sendo este o final de ano mais positivo de minha vida. Retribuo com meus votos de libertação de todas as mazelas humanas e com meu desejo de transcendência para todos.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.