Vestibular pra presidente

José Horta Manzano

Quando o distinto leitor precisa de um médico pra cuidar da saúde, não há de se entregar ao primeiro charlatão que lhe apareça pela frente. Vai exigir que o profissional tenha seguido boa formação e que seja diplomado nos conformes. Da mesma maneira, se procura um advogado pra defender seus interesses, não há de se contentar em contratar um simples curioso que, embora esteja cheio de boa vontade, tenha pouca familiaridade com as leis. O raciocínio se repete na escolha do contador que vai cuidar da contabilidade da firma familiar, do arquiteto que vai assinar a planta da casa. E assim por diante, cada macaco no seu galho.

Cada campo de atividade humana exige o respectivo especialista. Por que é que, justamente quando se trata de escolher o presidente da República ‒ o dirigente-mor, aquele que vai traçar as grandes linhas do destino dos duzentos milhões que somos ‒ a gente se contenta com qualquer um, malformado, sem estudo, sem especialização, sem visão de mundo, sem experiência?

Toda profissão regulamentada tem suas exigências. Conforme a complexidade da atividade, o titular precisa ser alfabetizado, ter idade acima de certo patamar, mostrar atestado de antecedentes criminais virgem, provar ter sido diplomado. No mínimo. Justamente quando um grupo de candidatos se apresenta pra concorrer ao cargo maior, ninguém exige nada deles, a não ser que pareçam alfabetizados e que tenham completado 35 anos. É insuficiente. As responsabilidades pesadas do cargo não podem repousar sobre os ombros frágeis de um ignorantão.

Cá entre nós, convenhamos: se nossos últimos três presidentes eleitos tivessem sido submetidos à formalidade de um exame de passagem antes da oficialização da candidatura, é certeza que nenhum deles teria passado. Nem que o exame fosse «facinho, facinho». Nem o Lula, nem a doutora, nem doutor Bolsonaro estavam ‒ ou estão ‒ em condições de ter sucesso em exame básico de cultura geral. Cada um pode gostar dele ou detestá-lo, mas doutor FHC é o único, dos presidentes eleitos estes últimos 20 anos, que passaria no exame.

Ora, muitos dos grandes males que nos assolam atualmente têm origem em más decisões que se prendem à ignorância e ao despreparo do Lula e da doutora. O capitão que ora nos governa, infelizmente, dá continuidade à tradição apedeuta. Se um ponto é comum aos três, é justamente esse. Ai, como custa caro ao país!

Os candidatos a uma vaga no STF têm de ser sabatinados pelo parlamento. E olhe que, em princípio, os postulantes são juízes de fama ilibada e de notório saber jurídico. Todos têm de passar pelo exame. Por que diabos o presidente de todos nós escaparia a essa avaliação? Hoje em dia, a eleição está-se tornando um perigo. Com um bom exército de robôs a repicar tuítes elogiosos, qualquer iletrado pode ser eleito. O caminho do Planalto está ficando cada vez mais aleatório. Está mais que na hora de instaurar um vestibular pra presidente. Não garante que maus presidentes sejam eleitos, mas evita que indivíduos obtusos possam candidatar-se.

Baú de memórias ‒ 3

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Lá bem no fundo do meu baú de recordações estão aninhadas memórias que eu respeitosamente cataloguei sob o título de “Religiosidade”. Porém, como se poderá constatar a seguir, o respeito que pretendi imprimir ao conceber esse rótulo está restrito, confesso, ao desejo de demonstrar obediência às regras formais da igreja de meus pais.

A religiosidade sempre me pareceu uma manifestação transcendental menor quando comparada à espiritualidade. Muito cedo em minha vida intuí que as religiões não passam de formas mais ou menos acanhadas de grilagem do terreno espiritual. Cada denominação religiosa chama para si a glória de ser “a única” ou “a verdadeira”, aquela que, por razões históricas ou graças à virtude de seus profetas, está mais próxima de desvendar com fidelidade a vontade de Deus. Todas devotam-se com afinco às tarefas de expandir os limites territoriais de sua gleba e, ao mesmo tempo, opor-se com veemência às tentativas de expansão do território das demais. Eventuais contradições entre os dogmas e a prática religiosa dos fiéis me ensinaram também que ser praticante desta ou daquela não habilita ninguém a penetrar mais suavemente nos mistérios do sagrado.

luz-1Fui criada dentro da tradição católica. Meu pai, rato de igreja contumaz, jamais abriu mão da exigência de que todos os filhos assistissem à missa de domingo. Para ele, o horário ideal para que isso acontecesse era um pouco antes do almoço, de tal forma que pudéssemos nos manter em jejum e comungar sempre que possível. Minha mãe era forçada a permanecer em casa preparando o almoço. Embora a divisão me parecesse injusta e machista, nunca confrontei a necessidade dessa regra, uma vez que minha mãe parecia estar bem adaptada a ela.

Certa vez, a parábola apresentada durante a leitura do evangelho dizia respeito às “migalhas que caem da mesa dos poderosos” e alimentam os mais pobres. Francamente impressionada com aquele duro chamamento à responsabilidade social de todo cristão, eu saía feliz da igreja quando tropecei num mendigo com a mão estendida, pedindo algum dinheiro para mitigar sua fome. Envergonhada e culpada por já antever o prazer de consumir a farta refeição que minha mãe certamente havia preparado, olhei para meu pai na expectativa de que ele agisse de modo generoso. Incrédula, vi-o ignorar ostensivamente a presença incômoda daquele pedinte e nos arrastar de volta para casa. O choque que experimentei na ocasião foi suficiente para que eu, daquele dia em diante, vigiasse com mão de ferro a compatibilidade entre minhas crenças religiosas e minhas atitudes na vida.

Quando chegou minha vez de fazer a primeira comunhão, fui entregue aos cuidados de minha madrinha de batismo. Religiosa até a medula, essa mulher era um modelo vivo das virtudes cristãs. Esmerava-se na tarefa de zelar pela formação de novos padres, financiando seus estudos, comprando roupas e acessórios, aconselhando e visitando regularmente os noviços. Fazia tudo sempre com um sorriso nos lábios e era também gentil e tolerante para com minhas travessuras de criança. Só tinha um defeito: sentia-se autorizada a fazer promessas em meu nome, sem sequer me consultar.

religiao-7Foi ela quem idealizou e confeccionou com as próprias mãos meu traje de primeira comunhão. Sem que eu soubesse, no entanto, ela havia prometido doar o vestido a uma criança pobre tão logo terminasse a cerimônia. Eu, toda orgulhosa, ainda me sentindo a pessoa mais pura e iluminada do universo, posava para uma foto na frente da igreja, quando ela se aproximou por trás e literalmente arrancou meu traje de primeira comunhão. Não posso ocultar que me senti duplamente desnudada: embora fisicamente eu vestisse outra roupa por debaixo, minha moldura religiosa me havia sido surrupiada e minha pequeneza interior, escancarada. Foi o segundo golpe preparado pelo destino a abalar minha convicção quanto à insuperável superioridade moral dos católicos.

Dali por diante, aprendi a recitar orações e textos religiosos sem ter consciência plena dos significados, a confessar pecados que eu sentia não ter cometido, a implorar por graças em momentos de aflição, me comprometendo a não voltar a pecar caso fosse atendida, mesmo sabendo que muito provavelmente não cumpriria a promessa.

A gota d’água que fez transbordar o copo da minha religiosidade de fachada aconteceu quando eu me preparava para enfrentar a última prova do vestibular. Tratava-se de um teste psicológico que definiria se eu possuía ou não condições emocionais para me profissionalizar na área. Como é fácil de imaginar, eu estava especialmente ansiosa naquele dia. Queria chegar cedo à faculdade e reservar um tempo para relaxar e me concentrar. Fiz seguidas tentativas de apressar meu pai: o dia dele só começava depois de um banho, do café da manhã e da leitura do jornal. Esperar que todo esse ritual fosse cumprido me parecia uma perda de tempo indesculpável. Pedi, gritei, chorei, protestei e implorei infinitas vezes. Lá pelas tantas, ele abriu a porta do quarto com violência e, sem nem mesmo tomar café, me arrastou furioso para o carro.

luz-2Durante todo o trajeto, eu e ele permanecemos em silêncio absoluto. O prédio da faculdade ficava ao lado de uma igreja. Ele estacionou o carro bem em frente a ela e, sem me dizer nada, me forçou a entrar e assistir a uma missa do começo ao fim. Não é preciso dizer que minha ansiedade e irritação atingiram o ápice ao longo da cerimônia. Quando ela terminou, eu me sentia psicologicamente destruída, sem condições mínimas de comprovar minha saúde mental. Não posso culpar exclusivamente essa sequência de eventos dramáticos por minha reprovação no teste. Jamais saberei se, em condições normais, eu teria recebido as bênçãos dos profissionais da área para meu noviciado em Psicologia.

A única coisa que sei com certeza é que esse dia foi decisivo para eu abandonar de vez o proselitismo religioso familiar e me abrir a toda sorte de novas experiências. Envolvi-me prazerosamente com a leitura das obras e com as práticas do espiritismo, do zen-budismo, da antroposofia (chamada por seu fundador de ciência espiritual) e do candomblé.

Qual foi o balanço final desse percurso religioso? Acredito que meu maior ganho foi ter sido capaz de desenvolver uma visão ecumênica da necessidade humana de buscar respostas para suas questões existenciais num plano que vai muito além do cérebro e da ciência.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Desvirtuamento

José Horta Manzano

Como já fiz em outras ocasiões, volto a investir contra a política de discriminação racial que governantes irresponsáveis tentam, a todo custo, implantar no Brasil.

Países civilizados que, por variadas razões, contam hoje com importantes minorias de raças diferentes tentam o impossível para mitigar contrastes étnicos. É o caso da França, da Alemanha, da Suécia, da Itália. Os esforços nem sempre são bem-sucedidos. Não é fácil eliminar preconceitos da memória coletiva.

No nosso País, ao contrário, todos parecem estar de acordo que acirrar animosidade entre cidadãos de raças diferentes é boa coisa. Está aí raciocínio incongruente. Todos sabem que o brasileiro julga seu próximo não tanto pela raça, mas pela aparência e pelos sinais exteriores de riqueza (ou de pobreza). Em suma, as pessoas são classificadas segundo critérios mais pecuniários que propriamente raciais.

O Brasil merecia que os que decidem seus destinos fossem suficientemente clarividentes para se dar conta dessa realidade. Impor leis que pavimentam o caminho de minorias(?) raciais é medida impactuosa, mas inócua. Melhor fariam as autoridades se se atacassem à raiz do problema, fornecendo ensino de melhor qualidade a todos os brasileiros, sem distinção de cor, raça, religião ou sexo.

Preparando o exame

Preparando o exame

Entendo que cuidar da Educação seria medida de longo prazo, daquelas que não garantem retorno eleitoral imediato. Mas não há outra saída: fora da instrução, não há salvação. A História se encarregará de julgar e de lançar o opróbrio sobre os dirigentes irresponsáveis que vêm afligindo e humilhando o Brasil neste começo de século.

Artigos publicados na imprensa estes dias mostram que os efeitos daninhos dessa política absurda e inconsequente já começam a se fazer sentir. A proporção dos candidatos ao Enem que se autodeclararam descendentes de africanos não corresponde ao que foi detectado pelo último recenseamento. É um começo, sem dúvida. Mas é fácil prever que tende a se alastrar.

Uma sociedade cuja política reafirma e reforça o tradicional paternalismo vai necessariamente gerar distorções. A política atual tende a eternizar a proliferação de cidadãos dependentes, daqueles que renunciam a se esforçar e preferem escorar-se em direitos ― sejam eles legítimos ou usurpados. Que fazer? Caso continue cabendo a cada cidadão definir a própria raça ― como é o caso atualmente ―, mais e mais desvirtuamentos teremos.

Todos hão de se lembrar daquele deputado que, para justificar o súbito enriquecimento, declarou haver jogado na loteria e tirado a sorte grande algumas centenas de vezes. Pois este é um País onde pouca gente tem medo do ridículo. Não está longe o dia em que 100% dos candidatos a enemes e vestibulares se autodeclararão pardos, azuis, verdes, pretos, roxos ou qualquer que seja a cor que lhes possa trazer vantagem.

Há uma outra solução: é que a origem racial seja detectada por método científico, seja por exame de ADN, seja por outro meio qualquer. Será radical e incontestável, mas estaremos voltando perigosamente ao ambiente deletério da Europa nazista dos anos 30 e 40. De que cor será a estrela que cada cidadão deverá obrigatoriamente costurar na camisa, do lado esquerdo do peito?

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Artigos aparecidos na imprensa sobre o assunto:
Estadão
Gazeta do Povo
Veja