A opção pela grandeza

Myrthes Suplicy Vieira (*)

É perfeitamente possível passar toda uma vida fazendo a coisa certa, cumprindo deveres legais, respeitando os limites da própria liberdade e os da liberdade dos outros, sendo um profissional responsável e ético, fomentando uma visão humanista, curvando-se à necessidade de desenvolver responsabilidade social e ambiental e, ainda assim, quedar-se perplexo ao final da própria existência com uma sensação amarga de incompletude que insiste em subir pelo peito e estrangular a garganta. Por quê?

Se você acredita que há uma ordem “natural” para todas as coisas e pauta sua existência na busca por essa ordem, talvez não faça mesmo sentido. Se você é branco, homem, heterossexual, católico, nascido em berço minimamente remediado, proveniente de um lar não-disfuncional e teve a sorte de contar com pais e professores amorosos, é provável que sua vida transcorra sem muitos acidentes de percurso. Se, no entanto, seu perfil está mais próximo do dos segmentos “minoritários” [em termos de importância] da população brasileira – ou seja, dos afrodescendentes, das mulheres, dos LGBTs e dos pobres – quase certamente tropeçará em algumas pedras pelo caminho e, talvez, esteja em melhores condições para intuir os motivos.

by Marie-Aurora, pintora francesa

by Marie-Aurora, pintora francesa

Explico. Para mim, só existimos como seres em relação. A despeito de nossas tão valorizadas identidades individuais, estamos todos, tenhamos ou não consciência disso, a serviço de uma causa existencial. Desde a mais tenra infância, somos disciplinados a eleger princípios e valores que nortearão nossa existência e moldarão os papéis que pretendemos desempenhar no mundo.

O problema não está, como pode parecer a princípio, na nobreza ou pequeneza da causa que abraçamos. Está na ilusão de que nossa causa individual é a única pela qual vale a pena lutar, a mais importante, ou que ela basta por si só. Não basta. A vida se encarregará de mostrar que ela está intimamente conectada com infinitas outras causas que não haviam despertado nosso interesse ou atenção antes. Haverá sempre, em todas as vidas, um momento em que lhe será exigido escolher entre ater-se à causa original e ignorar as demais, abandonar a causa primeira e acolher outra (ou outras) ou, simplesmente, render-se à necessidade de extrapolar seu papel social funcional e tentar conciliar todas elas.

Optar pela terceira possibilidade é decisão para poucos, já que requer um ato quase heroico de coragem. Não estou falando de um desses gestos de compaixão e solidariedade racionais, intelectuais, bravateiros a que assistimos muitas vezes. A coragem à qual me refiro vem à tona sempre em uma situação limítrofe e implica transcender a lógica cartesiana, o bom senso, a prudência e até a moralidade cotidiana. Muitas vezes, requer que nossa segurança, bem-estar ‒ e, eventualmente, nossa vida ‒ sejam oferecidos em sacrifício para lidar com demandas externas, que nem sempre nos dizem respeito diretamente. Por mais paradoxal que pareça, somos chamados a interferir por amor ou compaixão na vida de terceiros que podemos nem mesmo conhecer.

Espere um pouco. Tudo isso lhe cheira a delírio romântico démodé, coisa de poeta louco ou de desocupado sem família? Será que estou tentando lhe vender algum tipo de filosofia de botequim? Más notícias, não é nada disso. Acredito que em nenhum dicionário há palavras fortes o bastante para descrever com precisão a gravidade de um desses momentos.

Talvez funcione por analogia. Imagine um pai ou mãe que vê um bebê prestes a ser atacado por um pitbull enfurecido. A criança não é seu filho, você também não é dono do cão e estava passando acidentalmente pelo local. O que você faz? Grita, arma-se com um pedaço de pau e coloca-se entre a vítima e o agressor? Acovarda-se quando percebe que o cachorro está vindo em sua direção?

by Jadis, pintora francesa

by Jadis, pintora francesa

Liga para a polícia ou para os bombeiros? Pensa que, por mais devastador que seja o remorso que vai enfrentar depois, é melhor não se envolver, uma vez que precisa preservar a própria vida e continuar cuidando de seus filhos? Difícil responder, principalmente quando se está em casa, protegido, em condições de analisar friamente os riscos e as consequências de sua decisão. Pense agora nos dilemas emocionais que figuras de relevo em qualquer área de atuação humana enfrentariam caso se deparassem um dia com essa forma de chamamento. Seria mais ou menos difícil para elas colocar na balança as consequências éticas de sua escolha? Não sei dizer. Gostaria muito de acreditar que eu seria capaz de ceder ao impulso generoso de ajudar, mas algo me diz que isso não passa de “wishful thinking”.

Originalmente, concebi este texto como um tributo à memória de Dom Paulo Evaristo Arns, que nos deixou recentemente. Poucas vezes admirei tanto a coragem de um homem como ele, que aceitou desafiar imensos Golias ao longo de toda sua vida, mesmo se sabendo um desarmado Davi. Muitos dirão que ele só fez o que fez por pura profissão de fé. Eu prefiro acreditar que ele optou consciente e destemidamente por implementar na prática os ensinamentos que emprestavam sentido a sua vida.

Oriundo de uma família de camponeses profundamente religiosos, Dom Paulo se notabilizou pelo enfrentamento de causas muitas vezes incompatíveis com sua missão espiritual. Todo brasileiro com mais de 40 anos deve ter ouvido falar da cerimônia ecumênica que ele organizou na paulistana Catedral da Sé durante o período mais difícil da ditadura militar em homenagem a um judeu torturado até a morte na cela de uma prisão. Um número menor de pessoas deve ter sabido dos insultos que a ele foram dirigidos quando, chocado com a morte de um menino de 12 anos estrangulado por populares logo após ter roubado uma corrente de ouro na mesma Praça da Sé, ele decidiu criar e capitanear o Movimento dos Direitos Humanos, cujos rastros de ressentimento e intolerância permanecem até os dias de hoje. Um número ainda significativamente menor de brasileiros deve ter se enfronhado nos conflitos que Dom Paulo enfrentou com a autoridade máxima da igreja católica, o papa João Paulo II. Mesmo tendo visto seu poder de influência diminuído drasticamente, ele não renegou sua opção preferencial pelos “pequeninos”, apostando ser essa a verdadeira missão evangélica.

Recentemente, um cidadão comum, que bem poderia se encaixar na definição que Dom Paulo dava aos pequeninos, deu a todos nós uma poderosa lição. O vendedor ambulante Índio colocou em prática o ensinamento cristão de que é preciso amar o próximo como a si mesmo. Saiu em defesa de pessoas com quem não mantinha relações de amizade ou parentesco e foi, por isso, espancado até a morte. Pouco se sabe a respeito da orientação religiosa, ideológica, filosófica, política ou de gênero desse camelô. Aparentemente, os percalços que enfrentou desde a infância restringiram-se à tarefa de garantir a própria sobrevivência financeira e prover a subsistência da família. Tudo o que nos foi dito é que ele era um homem gentil, educado e amigo.

by Sylvia Penkalla, pintora francesa

by Sylvia Penkalla, pintora francesa

A perplexidade permanece: o que teria motivado esse integrante de um grupo socialmente invisível a acreditar que seria possível dialogar e demover os agressores de duas pessoas com quem ele não mantinha relações de amizade ou parentesco? Estava em busca dos seus 15 minutos de fama? Por que não contou com a ajuda dos passantes, muitos dos quais optaram por sair bem na foto apenas depois de sua morte? Por que isso aconteceu em pleno dia de Natal num dos maiores países católicos do mundo e ninguém mais se deixou sensibilizar?

Racionalmente, pode ser reconfortante apelar à tese de que o instinto prioritário na espécie humana é o de garantir a própria sobrevivência e, consequentemente, recuar diante do medo. Não importa. O que me parece fundamental é reconhecer que algo se moveu no peito desses dois homens e ainda não sabemos que nome dar a seus gestos.

Pode ser que eu esteja agindo em função de consciência pesada ou, quem sabe, sendo vítima de uma crise de romantismo tardio. Seja de que maneira for, decidi chamar esse impulso de “opção pela grandeza”. Acredito que se trata de um impulso vital raro que sai das vísceras direto para o coração, sem passar pelo cérebro. Só acomete um dos nossos quando a pessoa se dá conta de que a vida perderia totalmente o significado se escolhesse se omitir. Provavelmente, um desvio genético grave, remanescente do tempo dos dinossauros.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

2 pensamentos sobre “A opção pela grandeza

  1. Pois é . . .
    São questões intrigantes na nossa sociedade.
    Mas é preciso certa reflexão.
    A questão das tais “quotas” está se tornando um sectarismo, pois na verdade serve para excluir os mais preparados em razão de uma falsa defesa dos que não tem acesso.
    Veja o que se deu na carreira Diplomacia no governo Lula . . .
    Com o Marco Aurélio no comando não poderia esperar tragédia igual…

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  2. Ricardo,

    Eu também sou contra as cotas, assim como sou contra o uso político que tradicionalmente as esquerdas fazem do atendimento às carências de segmentos da população. Não foi certamente minha intenção defender nenhuma minoria.
    O inexplicável, para mim, continua sendo que alguém se levante para lutar contra o que acredita ser uma injustiça, oferecendo a própria vida ou a própria posição, independente de ter interesse pessoal na questão. Sei que é difícil separar o joio do trigo, mas acho que todos nós temos de examinar com cuidado até onde vai nossa vontade de promover a igualdade, a justiça social e a paz.

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