Quem tem telhado de vidro…

José Horta Manzano

Anos atrás, quando autoridades italianas indicaram à PF que um certo Signor Battisti, foragido da Justiça daquele país, se encontrava vivendo ilegalmente no Brasil, nossa polícia não perdeu tempo: surpreendeu o indivíduo no Rio de Janeiro e o conduziu algemado a Brasília. Naquele momento, ninguém sabia, mas a ação espetaculosa não era mais que a primeira página de uma interminável novela. A lenga-lenga, recheada de altos e baixos, durou vários anos, envolveu advogados, parlamentares, a PF, o Ministério da Justiça, o STF, a presidência da República. Ninguém pode afirmar que tenhamos chegado ao ponto final. Não é impossível que o epílogo ainda esteja por escrever.

Tarso Genro, governador do RS by Marco Aurélio, desenhista gaúcho

Tarso Genro, governador do RS
by Marco Aurélio, desenhista gaúcho

Saíram todos chamuscados daquele execrável episódio. O prisioneiro, depois de viver encarcerado durante anos, em meio a incertezas, está marcado para o resto da vida ― onde quer que vá, será reconhecido e olhado com certa reserva. O ministro da Justiça da época, ao conceder asilo ao foragido, foi forçado a alegar que desconfiava da Justiça italiana, numa atitude arrogante que pegou muito mal. O STF, que empurrou a decisão final para a presidência da República, desagradou a muita gente. A decisão do presidente da República ― tornada pública no apagar das luzes do mandato ― que confirmou o asilo ao estrangeiro ornou a novela com fecho de ouro. As autoridades italianas devem ter saído enfurecidas, o que é compreensível.

Os anos passaram e o mundo girou. O processo do mensalão está chegando ao fim e cada condenado executa a pirueta que lhe parece mais conveniente. Uns dizem que não têm nada que ver com a história, que estavam de passagem. Outros alegam que foram julgados pela imprensa ― como se o julgamento não tivesse sido público e transmitido ao vivo por rádios e tevês. Há até guerrilheiros que, embora tenham empunhado armas e participado de guerrilha na selva, hoje derramam lágrimas que destoam da bravura que outrora exibiam.

by Dalcio Machado, desenhista paulista

by Dalcio Machado, desenhista paulista

Um dos condenados, talvez mais realista que os demais, não acreditou em Papai Noel. Perspicaz, deu-se conta, bem antes dos outros, de que o desfecho poderia não ocorrer em meio a gargalhadas em volta de uma pizza. Preparou minuciosamente sua fuga do País. Não está claro se Signor Pizzolato solicitou emissão de seu passaporte italiano antes do escândalo do mensalão. Pouco importa. O que importa é que, aos olhos da Itália, ele é um cidadão do país peninsular igual a todos os outros. Todo Estado civilizado costuma zelar por seus súditos.

Algum tempo atrás, as autoridades judiciais brasileiras exigiram, como medida de precaução, que todos os réus da Ação Penal 470 consignassem seu passaporte. Signor Pizzolato fez mais que os outros: entregou dois, o brasileiro e o italiano. Fechadas, como de costume, sobre si mesmas e pouco afeitas a práticas internacionais, as autoridades de Brasília foram dormir tranquilas. Um homem sem passaporte não pode viajar, devem ter pensado.

Se o olhar de nossas sumidades fosse um pouco além de seu próprio umbigo, saberiam que um cidadão estrangeiro cujo passaporte tiver sido confiscado pode solicitar um novo, desde que não esteja sendo procurado pela polícia de seu próprio país. Era exatamente o caso de Signor Pizzolato. Bastou-lhe comparecer a um consulado italiano e requerer um novo passaporte.

Alberto Alpino, desenhista capixaba

by Alberto Alpino, desenhista capixaba

Imaginam muitos que o fujão tenha passado por peripécias semelhantes às do senador boliviano que viajou clandestinamente de La Paz até o Mato Grosso. Pois eu não vejo a coisa assim. Não tenho como provar, mas tudo me diz que, ao deixar definitivamente sua cobertura em Copacabana, o réu fugido já levava no bolso o documento que lhe permitiria viajar para onde quisesse. Atravessar a fronteira entre o Brasil e qualquer um de seus vizinhos é moleza. Em numerosas cidades de fronteira, no Rio Grande por exemplo, a divisa entre dois países é representada por uma avenida. Atravessada a rua, é fácil chegar a Buenos Aires, de onde partem diariamente voos para Roma e para Milão. Elementar, meu caro Watson.

Agora é que chega a hora de a porca torcer o rabinho. A malandragem demonstrada pelo Planalto no caso Battisti ainda é muito recente. Os personagens estão vivos e na ativa, todos se lembram. Esperar grande empenho por parte de Roma é ilusão. O fato de o Brasil dar guarida a um condenado por envolvimento em quatro assassinatos pegou muito, muito mal na Itália. Será praticamente impossível reaver o cidadão italiano Pizzolato, cuja ficha, em terra itálica, está limpa.

Os italianos, que residam na Itália ou no estrangeiro, estão inscritos no registro do município onde vivem ou ao qual estão ligados. Esse banco de dados leva o nome de anágrafe. As autoridades italianas sabem perfeitamente onde vive Signor Pizzolato. Daí a transmitir a informação às autoridades de Brasília são outros quinhentos. Quem tem telhado de vidro…

É verdade, mesmo!

José Horta Manzano

A Interpol acaba de incluir em seu seleto rol de procurados o Signor Henrique Pizzolato, antigo diretor do Banco do Brasil, condenado a quase 13 anos de reclusão no processo do mensalão.

O homem foi diretor do Banco do Brasil, minha gente! O banco mais antigo do País, aquele que abriu as portas em 1809, por vontade de Dom João VI. Justamente aquele que estampa, na versão inglesa de seu site, o lema «A history of trust» ― uma História de confiança. Quanta ironia…

Wanted! ― Henrique Pizzolato ― Wanted!

Wanted! ― Henrique Pizzolato ― Wanted!

Por enquanto, pelo menos, o cavalheiro fugido escapa da Papuda. Tranquilo, vai poder usufruir da parte que lhe coube do butim surrupiado do suado povo brasileiro. Tranquilo? Tenho lá minhas dúvidas.

Não deve ter sido fácil escolher entre passar algum tempo eclipsado numa cela brasileira padrão cinco estrelas, ao abrigo de olhares indiscretos, e passar o resto da vida se esgueirando rente aos muros italianos e desconfiando da própria sombra. O Signor Pizzolato fez sua escolha. Ganhou, com isso, o raro privilégio de ter nome, idade e foto difundidos pela polícia internacional. Wanted! É glória reservada a um punhado de gente fina.

Lembrei-me de um detalhe pitoresco. Há de ser mera coincidência, mas vale a pena mencionar. Uma das tradicionais atividades da mafia siciliana é o achaque de pequenos comerciantes. Os pequeninos são coagidos a pagar aos criminosos uma «taxa de proteção». Caso se recusem, as represálias podem chegar à destruição do comércio ou até pior que isso. Em terras sicilianas, o montante extorquido leva o curioso nome de «pizzo».

A desonestidade já é terrível defeito. Mas a defecção ― uma traição perpetrada contra seus próprios comparsas ― é ainda mais tremenda. Shame on Signor Pizzolato. Vergogna!

A coisa vai, a coisa vem

José Horta Manzano

Botaram na cadeia os condenados no processo do mensalão. Sobrou castigo exemplar para todos. É verdade que nossa tradicional mansidão para com os poderosos continua valendo: os que têm condições de contratar os melhores advogados terão seu castigo bastante atenuado ― regime aberto, regime semiaberto, progressão de pena, indulto, regalias diversas.

Sabemos que nenhum dos encarcerados terá de engolir a gororoba infecta que seus coinquilinos de presídio costumam ingerir. Gente fina é outra coisa, que diabos! Os mensaleiros todos têm fortuna suficiente para encomendar em boas rôtisseries as iguarias que lhes apetecerem.

À diferença do que ocorre em países mais civilizados e mais igualitários, nossas lenientes regras mantêm a distinção de classes sociais até dentro da cadeia. Há os que podem (pagar) e os que não podem, exatamente como ocorre do lado de cá. O fato de transpor o portão do xadrez não anula a diferença entre a zelite e o povão.

Pouco importa. O que vale é o símbolo. Que permaneçam enjaulados 6 meses ou 20 anos pouca diferença faz. A imagem forte é a da prisão. A mensagem vigorosa é a de que mesmo aqueles que podem muito não podem tudo. O resto é blá-blá-blá.

No entanto… faltou um. Aposto que sei em quem você está pensando. Não, não é desse que quero falar. Aliás, o Ministério Público nem tinha incluído esse em quem você pensou entre os réus do processo.

O que faltou foi um antigo presidente do Banco do Brasil, um tal Signor Pizzolato. Condenado a quase 13 anos de cadeia, o homem foi mais discreto e mais matreiro que os outros espertinhos. Enquanto outros medalhões vociferavam, clamavam inocência, davam entrevista, juravam que estavam sendo vítimas de um processo medieval, nosso homem fez o que nenhum dos outros ousou: fugiu, escafedeu-se. Sobre isso, tenho algumas considerações a fazer.

Crédito: Oscarmundongo.blogspot.com

Crédito: Oscarmundongo.blogspot.com

Monitoramento prévio
A Polícia Federal alega que não tinha autorização de monitorar o condenado, dado que a ordem de prisão não havia sido expedida. Balela. Quando chega a ordem de prisão, não se monitora: executa-se. Para monitorar, vigiar, guardar um olho em cima de possíveis fujões, não faz falta mandado de prisão. O Brasil, que se acredita estar entre as maiores economias do planeta, deveria ter recursos suficientes para controlar discretamente dez ou vinte condenados susceptíveis de escapar às malhas da justiça. Errou quem tinha o poder de implementar essa vigilância e não o fez.

Para a Itália
O governo brasileiro deve levantar as mãos ao céu e agradecer pelo fato de o fugitivo ser detentor de um passaporte italiano. Como a brasileira, a legislação italiana não permite a extradição de um nacional. Dado que Signor Pizzolato é italiano, a questão não entra em cogitação. Digo que Brasília deve estar aliviada porque:

1) Se a Itália concedesse extradição, as autoridades brasileiras entrariam numa saia justa. Com isso, a Itália estaria mostrando como uma nação civilizada deve agir ― provaria que o país peninsular não é valhacouto de foragidos da Justiça. Para o Brasil, que acolheu o condenado italiano Battisti, seria uma verdadeira lição, um tapa com luva de pelica.

2) Caso a Itália não concedesse a extradição, as autoridades brasileiras entrariam na mesma saia justa. Ao negar a extradição, a Itália estaria dando ao Brasil o troco na mesma moeda. Não nos devolveram nosso bandido Battisti, não é? Pois não lhes devolveremos seu bandido Pizzolato. E ficam elas por elas. A coisa vai, a coisa vem.

Só na Itália
Memento Cacciola! Signor Pizzolato, que ora deve aparecer na lista da Interpol, só estará a salvo enquanto permanecer em solo italiano. É situação que lembra o caso Maluf. Se Pizzolato tiver a má ideia de pôr um pé fora do território da península, estará correndo risco de ser preso em qualquer esquina. E entregue às autoridades brasileiras. Dizem as más línguas que o antigo diretor do BB amealhou considerável fortuna. A Itália é um lindo país, mas, quando se tem no banco um pé de meia confortável, às vezes dá uma imensa vontade de mudar de ares…

Se o governo brasileiro for esperto e quiser que, de fato, justiça se faça, deve pedir a colaboração dos italianos para controlar discretamente cada gesto do fugitivo. Dia mais, dia menos, ele vai dar um passo em falso. E ganhará passagem grátis de ida simples para a Papuda. Quem viver verá.

Devagar com o andor

José Horta Manzano

Papa Francisco

Papa Francisco

O melhor conselho que se pode dar ao Papa Francisco ― se é que cai bem dar conselho a um papa ― é que procure pisar leve. Ele anda caminhando por terreno minado. A Cúria e o establishment vaticano estão se sentindo incomodados com a falta de cerimônia do pontífice. Quando se sacode o abacateiro, algum abacate pode até nos cair na cabeça. E dos grandes.

Por detrás do ar circunspecto e dos gestos suaves e compungidos dos cardeais que administram as burras e os segredos do Vaticano, há muito mais do que possa imaginar nossa ingenuidade. Interesses financeiros gigantescos, relações perigosas com grupos de reputação sulfurosa.

O Washington Post adverte que as reformas promovidas pelo papa estão deixando «muito nervosos» os capi (chefões) da organização mafiosa ‘Ndrangheta(*). Esse bando de criminosos, ativos na Calábria, são considerados ainda mais violentos que os mafiosos sicilianos.

Se facilitar, Papa Francisco poderá passar para a História como Francisco, o Breve. Seria um desperdício.

(*) Para quem faz questão de pronunciar bem.
Nessa palavra, os italianos põem o acento tônico na primeira sílaba. Portanto, pronuncie drângueta, como lâmpada, cândida, cânfora.

As flutuações da lei

José Horta Manzano

Faz quase quatro mil anos que o Código de Hamurábi foi inscrito num monolito, em escrita cuneiforme. Aquele pedaço de rocha contém a coletânea de leis e procedimentos mais completa e mais antiga de que temos notícia. A criação ― e a aplicação ― de um arcabouço legal é uma das marcas que distinguem uma sociedade civilizada de um bando de selvagens.

Quando a Roma antiga firmou suas regras legais, justamente aquelas que deram origem ao nosso Direito, já fazia um milênio e meio que os pioneiros babilônios tinham dado os primeiros passos nessa senda.

Em nosso País, não faltam leis. Temos uma das constituições mais prolixas do mundo e um emaranhado impressionante de leis, decretos, medidas provisórias, provimentos, regulamentos. Não é a falta delas que atrapalha. Nem, como pensam muitos, o excesso. O que desorienta o cidadão é a instabilidade das normas legais. O que vale hoje à noite pode não mais valer amanhã de manhã.

Sonia Racy, em seu blogue alojado no Estadão, nos faz saber, neste 14 de novembro, que o emir de Dubai renuncia a participar de leilões de privatização de aeroportos brasileiros. O motivo da recusa foi atirado simples, franca e diretamente aos ouvidos do vice-presidente de nossa República: a insegurança jurídica. É gravíssimo o que disse o endinheirado potentado.

Este não é espaço onde se pretenda discutir a validade ou não de privatizações ou partilhas. O abandono total ou parcial de soberania, por parte do Estado, sobre aeroportos é um outro capítulo. O que me desassossega aqui é o fato de nossa instabilidade jurídica estar afugentando capitais.

Aeroporto de Dubai

Aeroporto de Dubai

Dubai, como os outros emirados do Golfo Pérsico, não produz nada. Quis a natureza que aquela região desértica se assentasse sobre um mar de petróleo. Vivem há anos da exploração dessa riqueza fóssil. E vivem muito bem! Melhor que isso: são governados por clãs que têm visão. Sabem todos que, mais dia, menos dia, o petróleo vai acabar. E aí, como fica?

Dado que o solo e o clima não permitem nenhuma agricultura, estão investindo na cultura do povo e diversificando as aplicações em outros países. A Sorbonne, tradicional universidade parisiense, foi convidada a instalar uma filial em Abu Dabi. Está funcionando já faz alguns anos.

As estatísticas mostram que o intenso investimento no setor de transporte aéreo já ergueu o aeroporto de Dubai a um patamar impressionantemente elevado. Em 2012, aquele terminal aéreo apareceu em 10° lugar na classificação mundial por número de passageiros. Desbancou Amsterdam, JFK (Nova York), Hong Kong, Madrid e até Frankfurt!

Enfim, não estão esbanjando o dinheiro fácil em palácios com maçanetas de ouro maciço. Estão transformando aquela desolada região em importante escala aérea, destino turístico, centro de educação de primeira grandeza, polo de pesquisa e desenvolvimento de alto nível.

Não são amadores. Se julgam que o Brasil não merece receber seus investimentos, dado o temor que nossa insegurança jurídica lhes infunde, é chegado o momento de nossas autoridades pensarem muito bem de onde viemos, onde estamos, e para onde queremos ir.

Sermos considerados república de bananas não só machuca nosso amor-próprio como também ― e principalmente ― nos afasta do circuito de circulação das riquezas. E isso, a longo prazo, é ruim para todos.

Desbancado pelo pagode

José Horta Manzano

Quando Herr Ignaz Pleyel deixou sua Áustria natal e emigrou para a França, lá pelos anos 1780, não imaginava que seu nome seria ainda mencionado na mídia mais de 200 anos depois. Aliás, nem sabia o que era mídia, que essa palavra ainda não havia sido inventada.

Piano Pleyel droit (de apartamento)

Piano Pleyel droit
(de apartamento)

Ao se naturalizar francês, Herr Pleyel tornou-se Monsieur Ignace Pleyel. Músico de formação, foi já com a idade de 40 anos ― respeitável para a época ― que nosso herói decidiu começar a fabricar pianos. Dado que na época não havia BNDES, os inícios foram modestos. A única ajuda com que o corajoso empresário pôde contar foi a de alguns amigos e simpatizantes. Quando faleceu, em 1831, legou ao filho uma fabriqueta.

Os anos passaram e a marca foi adquirindo renome. Numa época em que não havia rádio nem televisão, ter um piano no canto da sala era ponto de honra para toda família de respeito. A produção da firma atingiu 2500 pianos por ano no fim da década de 1880.

A crise de 1929 bateu feio e levou a empresa à falência. Mas a marca era forte demais para rolar com a enxurrada. O banco Crédit Lyonnais adquiriu o nome e continuou a fabricar os instrumentos.

Pelo final dos anos 1990, o número de pianos vendidos pela firma ainda era de dois mil por ano. De lá para cá, infelizmente, a degringolada foi dorida. A crescente concorrência do Extremo Oriente ― primeiro o Japão, depois a Coreia do Sul e principalmente a China ― solapou a empresa. O valor da mão de obra francesa pesava muito no preço final dos instrumentos. Para ouvidos menos experimentados, o que contava era muito mais preço do que pureza de som.

O final melancólico chegou. A firma acaba de anunciar que fechará as portas e encerrará suas atividades no final deste ano. Foram, aos poucos, abandonando o fabrico de pianos populares para dedicar-se aos instrumentos de luxo, de elevado desempenho. Um Pleyel atual pode custar até 200 mil euros.

Pleyel de cauda

Pleyel de cauda

São obras de arte, inteiramente feitos à mão num trabalho que pode levar até um ano. Cada unidade demanda duas mil horas de trabalho de diferentes especialistas, do marceneiro ao afinador, passando pelo laqueador e por outros artesãos. As encomendas não ultrapassam 20 ou 25 pianos por ano, o que não é suficiente para garantir a perenidade da indústria.

A entrega do último instrumento vai tirar o emprego de uns 15 funcionários e vai umedecer os olhos de milhares de músicos ao redor do globo. Que fazer? É o progresso.

A vida dura dos presidentes

José Horta Manzano

Aparições públicas são momentos de alto risco para governantes. Não falo de risco de vida, falo de risco para a imagem.

Até uns 20 anos atrás, atentados eram moeda corrente em qualquer ponto do globo. Desde Júlio César, enfrentaram essa situação incômoda ― e às vezes mortal ― figuras excelsas como o Mahatma Gandhi, João Paulo II, John F. Kennedy, D. Carlos I (rei de Portugal), Benazir Bhutto (do Paquistão), Ronald Reagan, Indira Gandhi. E muitos outros.

Os 38% de dona Dilma vistos por Jarbas Domingos, desenhista pernambucano

Os 38% de dona Dilma
vistos por Jarbas Domingos, desenhista pernambucano

Hoje em dia acontece menos, talvez porque o aparato de proteção da pessoa física se tenha aperfeiçoado. Mas os descontentes, se não conseguem mais atingir figurões fisicamente, dão a volta por cima. Por vias menos violentas, mas tão contundentes quanto as tradicionais, se valem da internet e das chamadas redes sociais.

Assim mesmo, aparição pública sempre comporta uma dose de risco. Se ficou difícil riscar o personagem da face da Terra, logra-se riscar sua imagem e deixar arranhões que causam tanto dano quanto uma punhalada.

Todos se lembram daquele dia em que, ao preparar-se para discursar no Maracanã, na abertura dos Jogos Panamericanos de 2007, nosso messias ouviu, atônito, uma retumbante vaia. Poucos se lembrarão de seus índices de popularidade na época. Mas ninguém esqueceu os apupos.

Nossa guia atual também já passou pela experiência. Foi bem mais recentemente, na inauguração da copinha de poucos meses atrás, de novo no mesmo Maracanã. Como deve ter sofrido nossa orgulhosa presidente! Para ela também vale a mesma reflexão. Que tenha 30%, 50% ou 80% de popularidade importa pouco. O que ninguém jamais esquecerá são as vaias. Tonitruantes.

François Hollande vaiado 11 nov° 2013

François Hollande vaiado
Paris, 11 nov° 2013

Monsieur Hollande, presidente da França, participou de dois atos públicos importantes nesta segunda-feira. O onze de novembro é feriado nacional, dia em que se comemora o armistício de 1918, aquele que pôs fim à Primeira Guerra Mundial. O brilho da solene aparição do mandatário nos Champs-Elysées foi embaçado pelas vaias de uma parte da multidão.

Mais tarde, Hollande se dirigiu a uma comemoração menos pomposa, numa cidadezinha do interior. E não é que a coisa se repetiu? Foi de novo vaiado. A cerimônia foi encurtada, e o presidente escafedeu-se.

Bem, é de notar que a popularidade de François Hollande está no patamar mais baixo jamais registrado para um presidente da França desde que esse índice começou a ser medido. Apenas 21% dos franceses avaliam positivamente seu governo. Nem Sarkozy, o antecessor, havia chegado a um número tão pífio.

Pensando bem, dona Dilma pode até sentir-se feliz com seus 38%. Mas vamos ver. Dificilmente ela poderá esquivar-se de discursar na abertura da copona, a do ano que vem. Com bombas de efeito moral, podem-se reprimir alguns arruaceiros, mas… como calar um estádio?

Ser ou não ser

José Horta Manzano

Faz mais de uma década que o Planalto decidiu proclamar, pela segunda vez, a independência do Brasil. Encasquetaram no bestunto a ideia de que nosso país já tinha atingido o patamar mais elevado, que nos tínhamos tornado grandes entre os grandes, fato que agora nos garante direitos reservados aos primeiros da classe. A obtenção de uma cadeira cativa no Conselho de Segurança da ONU tornou-se a obsessão maior de nossos medalhões.

Fizeram o que podiam e o que não deviam. Distribuíram dinheiro a ditadores sanguinários, acolheram foragidos internacionais, abriram embaixadas em lugares improváveis, fecharam os olhos para as barbaridades cometidas por nossos amáveis vizinhos. Não deu certo. Estamos hoje tão distantes da almejada cadeira quanto estávamos uma dúzia de anos atrás. Talvez até mais afastados. Por quê?

Mapa das Filipinas

Mapa das Filipinas

Porque, como sói acontecer na Terra de Santa Cruz, o enfoque é posto nos direitos, enquanto os deveres são esquivados. Direitos andam de mãos dadas com deveres ― eis aí uma verdade. Dito assim, parece uma evidência. Mas, no Brasil, temos grande dificuldade em assimilar essa correlação entre o esforço despendido e o prêmio conquistado. Não se pode levar o prêmio sem prévio esforço. Se isso acontecesse, as relações humanas se desequilibrariam. Se a gangorra sobe de um lado, tem de descer do outro. A física e o bom-senso concordam.

Sexta-feira passada, um tufão assolou as ilhas Filipinas. A História não tinha guardado notícia de um furacão dessa magnitude. Aldeias e cidades foram devastadas em poucas horas. Em certas regiões, nada ficou de pé ― todas as construções humanas desabaram. Fala-se em dez mil mortos. O número de vítimas não será jamais conhecido com exatidão.

Tufão Yolanda, nov° 2013

Tufão Yolanda, nov° 2013

O mundo se comoveu. Num primeiro momento, os Estados Unidos encaminharam ajuda de emergência por via aérea. Logo atrás, vem vindo o porta-aviões George Washington, carregando remédios, víveres, 5000 marinheiros e 80 aviões. Outros navios militares americanos receberam ordem de acudir ao local da catástrofe.

A Rússia cuidou de enviar um hospital de campanha (airmobile hospital). A França já despachou víveres e um destacamento de bombeiros especializados em localizar pessoas desaparecidas. A Espanha decidiu mandar dois aviões com material de ajuda humanitária. A Austrália remeteu material de emergência mais uma ajuda em dinheiro. O Vaticano deu ajuda financeira. O governo alemão informou que, além de uma primeira ajuda de meio milhão de euros, já havia enviado um avião com 25 toneladas de carga humanitária. Até a China, que mantém antigo diferendo com as Filipinas por questões territoriais, pôs a briga na geladeira por algum tempo e mandou ajuda financeira. Enquanto isso, no Brasil…

Juro que procurei. O Globo nos informa que brasileiros residentes nas Filipinas fazem o que podem para ajudar os sinistrados. Outro site de informação nos conta que o governo brasileiro «lamenta» a morte de tanta gente inocente. Não me pareceu suficiente. Fui diretamente à fonte. Consultei o site da mui oficial EBC ― Empresa Brasil de Comunicação, uma «instituição da democracia brasileira» ― como eles mesmos se apresentam. Procurei por notícias oficiais sobre a reação da «democracia brasileira» a essa infelicidade que se abateu sobre os pobres filipinos.

Manila, capital das Filipinas (Qualquer semelhança com nossa paisagem urbana pode não ser mera coincidência)

Manila, capital das Filipinas
(Qualquer semelhança com nossa paisagem urbana pode não ser mera coincidência)

Quem procura, acaba achando. Além dos renovados pêsames ao governo daquele arquipélago, a Empresa Brasil de Comunicação nos direciona para o site de dez ongs que coordenam doações que particulares queiram fazer. Ajuda oficial do governo brasileiro? Não encontrei.

Ok, admito que o fato de eu não ter encontrado não significa irremediavelmente que nossos mandachuvas não estejam pensando no assunto. Talvez eu não tenha buscado no lugar certo. Se algum leitor me puder mandar alguma luz, agradeço antecipadamente.

De um gigante despertado, de uma potência da magnitude da nossa, de uma nação pujante, soberana, independente, primeiro-mundesca e altaneira, o mundo espera algo mais que um telegrama de pêsames. O poderio não se alardeia com bravatas, mas se demonstra com atos.

A Questão Jurassiana

José Horta Manzano

Por favor, não confunda jurassiano com jurássico. Fora do âmbito geológico, o termo jurássico carrega uma carga pejorativa, indica algo velho, ultrapassado, do tempo dos dinossauros. Jurassiano é o adjetivo utilizado para definir quem é natural ou o que é próprio das Montanhas do Jura. Esses montes, geologicamente bem mais antigos que os Alpes, fazem a fronteira natural entre a França e a Suíça.

Passeio de bicicleta, Jura suíço

Passeio de bicicleta, Jura suíço

Seus cumes não são elevados, o mais alto deles não chegando a 3000 metros. A região, de agricultura difícil, é tradicionalmente a pátria dos relojoeiros. Grandes marcas mundiais têm sua origem naquelas paragens. O aparecimento, 40 anos atrás, dos movimentos automáticos feitos por máquinas representou um golpe pesado para a indústria da região. No entanto, eles conseguiram sobreviver ― e bastante bem ― dedicando-se à relojoaria de luxo. Velhos ricos, novos-ricos e todos os que têm condições enjeitam os swatches e costumam preferir relógios tradicionais.

Desde tempos recuados, o versante suíço do Jura, embora habitado por gente de língua francesa, é administrado pelo germanofônico Cantão de Berna. Não se pode dizer que a minoria linguística tenha sido maltratada, mas muitos cultivaram durante séculos o secreto anseio de libertar-se da tutela bernense.

Passeio com esqui, Jura suíço Crédito: N. Courtet

Passeio de esqui, Jura suíço
Crédito: N. Courtet

Nos anos 60, a situação começou a ferver. Os separatistas intensificaram sua ação. Até pequenos atentados foram cometidos. Oh, nada de grave, alguma estátuazinha dinamitada na calada da noite, sem mortos nem feridos. Coisa de suíço, enfim. As autoridades bernesas entenderam que era chegada a hora de chamar o povo às urnas e pedir que se pronunciasse sobre a independência da região.

O plebiscito teve lugar em 1974. Apuradas as urnas, verificou-se que, dos seis distritos francófonos, três tinham optado por formar um novo cantão, enquanto os outros três preferiam manter sua ligação com Berna. A vontade popular foi respeitada. Os distritos onde o sim tinha sido majoritário formaram um novo cantão ― o Cantão do Jura ―, acolhido pela Confederação Suíça em 1979.

Assim mesmo, estes 35 anos não mitigaram os ânimos. As tensões continuaram. Os cidadãos favoráveis à independência, inconformados com o fato de uma parte de seus vizinhos não pensar como eles, continuaram a fazer intensa campanha para atrair os que não vieram em 79. Os fiéis a Berna querem mais é que os vizinhos independentes vão plantar batata e parem de assediá-los. Como conciliar os dois campos?

Vendo que o conflito não se apaziguava por si mesmo, as autoridades do Cantão de Berna decidiram que era chegada a hora de fazer nova consulta à população. O plebiscito terá lugar, ao mesmo tempo, nos distritos que haviam dito não e também nos que haviam dito sim em 1974. Está marcado para domingo 24 novembro 2013.

Votarão os distritos rajados de azul e branco.

Votarão os distritos rajados de azul e branco.

Os eleitores deverão responder a uma pergunta específica, elaborada com bastante precisão. É a seguinte:

Lago Brenet, Jura suíço

Lago Brenet, Jura suíço

«Voulez-vous que le Conseil-exécutif engage un processus tendant à la création d’un nouveau canton couvrant les territoires du Jura bernois et de la République et Canton du Jura, dans le respect du droit fédéral et des cantons concernés?».

Em língua nossa, fica assim:

«Deseja que o Conselho Executivo inicie gestões com o objetivo de criar um novo cantão englobando o território francofônico do Cantão de Berna e o Cantão do Jura (…)?»

É interessante ver como funciona a democracia em outras partes do mundo, não? No Brasil, a vontade e os interesses da população não são sistematicamente levados em consideração. As conveniências dos mandachuvas costuma passar à frente do resto. Decisões que resultam no desmembramento de municípios e até de estados são tomadas nos bastidores. O povo é o último a saber. Se é chamado a votar, é menos para dar sua opinião do que para ratificar uma decisão já tomada.

Será que um dia chegaremos lá?

Texto alterado e corrigido em 25 nov° 2013

Boi de piranha

José Horta Manzano

A França está-se preparando para celebrar o centenário do início da Primeira Guerra Mundial, chamada aqui La Grande Guerre. Falo daquela que estourou em agosto de 1914 e que deixou, depois de 4 anos, um rastro de 40 milhões de vítimas, entre mortos e feridos, civis e militares, franceses e estrangeiros.

Prisioneiro

Prisioneiro

Há quem diga que não faz mais sentido continuar repisando, a cada ano, episódios dolorosos que só sobrevivem nos livros de História, visto que todos os antigos combatentes já faleceram. Outros insistem em guardar viva a comemoração anual, para lembrar ao povo que, se hoje vivem em paz, devem um tributo àqueles infelizes de cem anos atrás.

Naqueles tempos brutos, a vida humana tinha valor baixo. Com tanta desgraça em torno, a morte se tinha banalizado. Um a mais ou a menos não fazia falta. Alguns combatentes, quiçá mais sensíveis que outros, ousaram rebelar-se contra seus superiores. Alguns deles ― por bloqueio que a moderna Psicologia explica ― se recusaram um dia a cumprir alguma ordem.

No universo militar, não se brinca com essas coisas. É Conselho Marcial direto. Fosse hoje, alguns dias de galera resolveriam a questão. Em tempo de trincheira, quando a visão e o cheiro dos cadáveres não abalam mais ninguém, o castigo é mais severo. Calcula-se que uns setecentos soldados franceses tenham sido condenados por deserção. E fuzilados para servir de exemplo.

Vista de hoje, essa página da História parece inacreditável. Mas assim era. Algumas vozes isoladas e algumas associações militam hoje pela reabilitação dos fuzilados. Já outros dizem que muito tempo passou, não vale mais a pena. A decisão caberá ao presidente da República, que ainda não se pronunciou sobre o assunto.

Lembrei-me desse lado sombrio da Grande Guerra ao ler hoje uma notícia sobre aquele deputado que, embora condenado a 13 anos de prisão, continua dono de seu mandato. Falo daquele que mora na cadeia e que compareceu à Câmara outro dia algemado e escoltado por boa guarda policial.

Sua condenação se deu ao cabo de um processo por improbidade administrativa ― leia-se roubo de dinheiro do povo. Meteu nos próprios bolsos o fruto do imposto de todos nós: o meu, o teu, o dos zés, joões e tonhos. Agora está sendo acusado de ter-se apropriado de parte do salário de seus próprios auxiliares. Roubar de funcionário! Gente fina é outra coisa, não é mesmo?

Trambiques politiqueiros vistos por Amarildo Lima, desenhista capixaba

Trambiques politiqueiros
vistos por Amarildo Lima, desenhista capixaba

Pois bem, tenho dificuldade em acreditar que o referido deputado seja o único a cometer os crimes de que o acusam. E com os outros, que fazemos? Fica a vaga impressão de que a técnica militar posta em prática na guerra de 1914 continua atual: prende-se um ou dois para dar o exemplo. É artimanha conhecida como boi de piranha. Enquanto os peixes dentuços se jogam sobre um dos integrantes da manada, os outros passam incólumes e chegam sãos e salvos à outra margem. Ou ao fim do mandato.

Sei que não é politicamente correto, mas a cogitação é livre. Eu fico aqui a cogitar se o método expeditivo e radical em voga 100 anos atrás não era mais eficaz. Fuzilados não costumam conservar mandatos.

Mais municípios?

José Horta Manzano

É suficientemente raro. Quando acontece, é ocasião de soltar rojão. A presidente acertou uma! Alegremo-nos, irmãos!

Em fala proferida neste 8 de novembro, em Rio Grande (RS), dona Dilma deixou claras suas reticências quanto à criação de municípios ― por desmembramento de municípios maiores, entende-se. Asseverou que a multiplicação de municípios diminuirá o tamanho da fatia de bolo que caberá a cada um deles, velhos ou novos. É uma evidência, mas nunca é demais repetir.

Mais uma vez, o Brasil caminha na contramão da modernidade. Na Europa, especialmente em países que, por razões históricas, contam com grande número de municípios, a tendência é justamente de fusioná-los. Menos de olho nas vantagens eleitorais e mais interessados no bem-estar de seus concidadãos, os políticos daqui já se deram conta de que, quando dois municípios se juntam, a economia é real. Acaba-se com a duplicidade de prefeituras, de câmaras, de vereadores, de serviços diversos. É considerável.

A França é o país europeu com maior número de municípios: eram 36’683 em 1° jan° 2012. Já são 1500 a menos que em 1959. A redução não é frenética, mas a tendência continua, ao contrário do Brasil. Por que será?

Esperemos que dona Dilma oponha seu veto a esse projeto de lei ― já displicentemente aprovado na Câmara e no Senado ― que facilita a criação de 180 novos municípios. Só discursar não basta: ela precisa ter coragem de ir até o fim de seu raciocínio. Que engavete essa lei bastarda e não a sancione. Basta de ceder a insaciáveis morcegos, sempre os mesmos, que vivem de sugar os recursos do povo em proveito próprio.

Os dotô também erra

José Horta Manzano

Concurso de ortografia

Concurso de ortografia

A França deve ser um dos raros países em que se organizam periodicamente concursos de ortografia. Para nós, não faz muito sentido, mas para eles faz.

O português escrito é quase inteiramente fonético. Ao longo dos séculos, foram sendo abandonadas letras supérfluas. Assim, não escrevemos mais phtisica, mas tísica. Nichteroy virou Niterói. Assumpto, afflicto, prompto, appellido, deshonesto são hoje grafados assunto, aflito, pronto, apelido e desonesto.

Para reafirmar a tendência fonética de nossa norma, acrescentam-se letras a certos compostos para manter a relação entre a escrita e a pronúncia. Assim, escreveremos contrassenso, autossuficiente, contrarregra.

Pequenas reminiscências etimológicas subsistem em nossa grafia. Concentram-se nas palavras que comportam as sequências xc (excelente), sc (piscina) e, sobretudo, naquelas que tradicionalmente são grafadas com agá inicial (hora, hospital, herança, haver).

Em resumo, as armadilhas de nossa ortografia são poucas. A exceção a essa facilidade fica por conta da valsa dos hífens, que nos azeda a existência. Não é fácil entender a lógica que recheia maria-sem-vergonha de hífens e priva deles maria vai com as outras. No entanto, ficou combinado que assim é.

A língua espanhola, cuja pronúncia distingue um c de um s ― e ambos de um x ― é ainda mais fonética que a nossa. No topo do pódio, estão línguas como alemão, italiano e turco. Nelas, a cada som corresponde uma letra (ou um conjunto de letras) e a cada letra (ou conjunto de letras) corresponde um som. Na hora de escrever, fica fácil. Só erra quem estiver muito desatento.

Torneio de ortografia

Torneio de ortografia

Já o francês… ah, o francês! Embora a língua, de estrutura muito próxima à de suas primas-irmãs, deva ser classificada como latina, suas palavras sofreram erosão muito forte. Com o escorrer dos anos, sílabas se perderam, finais deixaram de ser pronunciados, sons se transformaram. O resultado é que o idioma francês está hoje recheado de homônimos, palavras que se pronunciam exatamente da mesma maneira, embora signifiquem coisas completamente diversas. E como diferenciá-las? A solução foi manter a escrita fiel à etimologia ― verdadeira ou suposta ― de cada palavra. Por exemplo, maire (o prefeito), mère (a mãe) e mer (o mar) se pronunciam do mesmo exato modo. Na fala, o contexto cuida de fazer a distinção. Na escrita, cada uma guarda algum traço de suas feições originais. A língua guarda profusão de consoantes duplas não pronunciadas, consoantes finais mudas, pê-agás que convivem com efes. Há quarenta maneiras de escrever o singelo som o.

Está aí a razão da existência de eletrizantes campeonatos de ortografia, de repercussão nacional, transmitidos em várias etapas pela tevê. Com provas eliminatórias, semifinais, a grande final, a premiação e a consagração do vencedor. Participam todos: adolescentes, adultos e velhos. Grafar corretamente as palavras é marca de distinção e de cultura. Todos aspiram a chegar lá, embora poucos consigam.

Esplanade François "Mitterand" Reims, França

Esplanade François “Mitterand”
Reims, França

Estes dias aconteceu um escândalo nacional. Para homenagear um antigo presidente da República, a cidade de Reims (no coração da região produtora de champanhe) deu a uma praça o nome do figurão. Só que, desastradamente, a placa contém um erro de grafia. Mitterrand foi escrito com um erre só. Horror e vergonha!

Nestas alturas, a sinalização já há de ter sido substituída às pressas. Mas, hoje em dia, o imediatismo da circulação das imagens não perdoa. O país inteiro ficou sabendo da gafe.

No Brasil, ninguém se impressionaria, mas, na França, é daqueles acontecimentos que causam comoção nacional.

Eu espio, tu espias, ele espia

José Horta Manzano

De certas coisas, mais vale não falar. Não se pode dizer tudo o que se pensa. Não se pode fazer tudo o que se quer. Não se pode ficar sabendo de tudo o que se passa. O mundo é assim, sempre foi, e assim há de continuar. Cada macaco no seu galho.

Todos os suíços sabem que suas montanhas lembram queijo Emmenthal. São todas cheias de furos, de túneis, de cavernas, de depósitos de munição, de bunkers, de sofisticados sistemas de ventilação, de importante estoque de víveres, de geradores de energia, de postos de comando dotados de sofisticada eletrônica. Parece que até baterias antiaéreas, tanques de guerra e aviões estão armazenados em galerias escavadas. Esses refúgios, que existem há séculos, estão previstos para abrigar, em caso de guerra, o governo e as personalidades que conduzem o país.

Antena Crédito: Riccardo Umato

Antena
Crédito: Riccardo Umato

Devem servir também como reserva de alimentos para a população em caso de bloqueio do país. Todos sabem da existência dessas instalações, mas muito poucos estão a par dos detalhes. Uma meia dúzia de oficiais de alta patente, ninguém mais. Não faria sentido anunciar aos quatro ventos a localização, o conteúdo e a função de cada esconderijo. Não ajudaria ninguém e, pior, daria preciosas informações a eventuais adversários.

Por definição, o que é secreto não deveria ser comunicado ao distinto público, muito menos publicado em jornal. É o caso das atividades ligadas aos serviços de inteligência. Nesse campo, toda discrição é pouca. Se assim não for, não faz sentido. Um serviço secreto aberto à curiosidade pública não tem razão de ser.

Essa CPI da espionagem, a meu ver, não deveria nem ser cogitada, que é vespeiro peçonhento. Furiosa da vida quando se soube espionada, dona Dilma reagiu como criança mimada: melindrou-se e acabou dando mais uma prova de sua inexperiência. Armou um fuzuê, desperdiçou a deferência especial de ser a primeira a discursar na abertura anual dos trabalhos da ONU, esperneou, procurou juntar aliados, perturbou relações bilaterais entre o Brasil e os Estados Unidos. Tudo isso para um resultado nulo.

Estes últimos dias, chegou a vez de nossa despreparada presidente engolir sapinhos. O anúncio de que nossos serviços de inteligência também espionam invalida todo o esperneio destas últimas semanas. Ou dona Dilma sabia de tudo ― nesse caso, tem simplesmente mentido e feito jogo de cena. Ou dona Dilma não sabia de nada ― nesse caso atesta sua inaptidão para exercer as funções que lhe foram confiadas.

Jornais ― e até a própria chapa-branquíssima Agência Brasil ― informaram estes dias que países estrangeiros dispõem de centenas de antenas de comunicação instaladas em território brasileiro. Quatro países estão mencionados: EUA, França, Chile e… Romênia. Só esta última conta com 20 antenas próprias plantadas legalmente em território brasileiro! Datam da época soviética?

Eu confesso que não sabia disso. Mas tenho uma desculpa: não sou presidente da República. O ocupante do cargo maior dispõe de assessores, informantes, secretários, assistentes, ministros, comissários, enfim, gente paga para mostrar-lhe o caminho das pedras. Ou a equipe de dona Dilma é constituída de incapazes, ou a presidente não lhes dá ouvidos. Tenho tendência a dar mais crédito à primeira hipótese.

Antena

Antena

Falou-se de antenas instaladas por quatro países. E os outros? Rússia, Reino Unido, China, Alemanha, Japão, Venezuela, Argentina como fazem para se informar? Escutam A Voz do Brasil ou o Jornal Nacional?

Faltou ainda mais um capítulo. O Brasil também há de ter antenas plantadas em território alheio, pois não? Quantas são? Onde estão? Para que servem?

Se os responsáveis não acharam útil informar nem a presidência da República ― que parece cair das nuvens com a descoberta ―, não é a nós, meros mortais, que grandes revelações serão feitas.

E está muito bem assim. Serviços secretos não têm vocação para trabalhar abertamente, muito menos para conceder entrevistas coletivas. Deixemos que cumpram sua missão tranquilamente.

Interligne 18g

Informações repercutidas por:
Agência Brasil
Estadão
Blog Link, alojado no Estadão

Bandeirolas

José Horta Manzano

Pouco tempo atrás, eu já disse aqui que a ong Greenpeace, de paz, só tem o nome. É considerada organização terrorista. Diversos governos a põem na mesma categoria dos camicases do Oriente Médio.

Eu enxergo essa organização como uma espécie de seita, uma teia de aranha em que indivíduos bem-intencionados, mas incautos, se arrolam. Em seguida, enroscam-se na engrenagem e não conseguem mais se safar. Sem se dar conta, acabam fazendo tudo o que seu mestre mandar.

Ativistas de Greenpeace na Rússia by Alex

Ativistas de Greenpeace na Rússia
by Alex

A mais recente façanha do grupo ― um verdadeiro coup d’éclat ― foi a tentativa de abordagem de uma plataforma petrolífera russa, em protesto contra a exploração de óleo em águas árticas. Um gesto inócuo, sem utilidade prática. Pode até servir para glorificar a própria ong e para angariar fundos, mas tem efeito nulo sobre a persistência e a determinação das autoridades russas.

Espertos, os dirigentes da ong sortiram a equipe de ativistas com 30 jovens originários de uma vintena de países diferentes. Pensaram, assim, diluir a fúria das autoridades locais. Caso surgissem problemas, quanto maior o número de governos protestando junto às autoridades de Moscou, maior seria a repercussão. Quanto mais alarido, melhor.

Deu mais ou menos certo. Os intrusos foram, naturalmente, pilhados e apanhados pelos guardiães da plataforma. A vintena de governos cujos cidadãos tinham sido detidos protestaram com moderação e acentuada cautela. Afinal, não interessa a governo nenhum meter-se mal com Moscou por causa de meia dúzia de quixotes instrumentalizados por interesses absconsos.

Como resultado, já vai para dois meses que os jovens ― bem-intencionados, mas desmiolados ― conhecem a delícia de estar hospedado em cárceres russos. O inverno está aí. Todos sabem que mais vale passar uma semana de férias em Fernando de Noronha que um ano encerrado numa prisão siberiana. Num inverno de 10 meses por ano.

Na manhã desta quarta-feira 6 de novembro, meia dúzia de jovens encapotados subiram a bordo de um pequeno barco pneumático e deram um rápido passeio no rio Moscova, o curso d’água que corta a capital da Rússia. Convocaram algumas testemunhas para a cena e se deixaram fotografar quando desfraldavam bandeirolas pedindo liberdade para os 30 prisioneiros.

Greenpeace navegando no Rio Moscova Crédito: Vasily Maximov, AFP

Greenpeace navegando no Rio Moscova
Crédito: Vasily Maximov, AFP

É por aí que deviam ter começado, por operações pacíficas. Desde que o mundo é mundo, ações terroristas e demonstrações escandalizadas nunca ganharam guerras. Mais vale um bom acerto de bastidores do que uma gritaria. A algazarra será esquecida amanhã, ao passo que o discreto acordo periga ser cumprido.

Antes de invadir propriedade alheia, é bom estar certo de dispor de força suficiente para garantir a conquista. Quem não contar com um exército capaz de enfrentar os dignos sucessores do temido Exército Vermelho não deve se meter com os russos.

O resultado está aí: crédulos ativistas vão ver o sol siberiano nascer quadrado durante um bom tempo. Enquanto preparam seu novo golpe, os bondosos dirigentes da organização mandam um grupo subir num barquinho e agitar bandeirolas.

Candura e caradura

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 nov° 2013

Libellus vere aureus nec minus salutaris quam festivo de optimo statu rei publicæ deque nova insula Utopia. Sem brincadeira, esse era o título original do livro ― escrito em latim, como se usava ― que Sir Thomas More publicou em 1516. Passou de moda dar nomes tão longos. Para se referir à obra alegórica do humanista inglês, basta hoje chamá-la Utopia. Aliás, o termo genial criado pelo erudito britânico está hoje no balaio das palavras comuns, prestígio máximo reservado a raros nomes próprios.

A Utopia de Sir Thomas encerrava uma crítica, velada mas acerba, à orientação que tomavam os costumes da sociedade e dos governantes de seu tempo. Não cabe aqui discutir os prós e os contras da visão política do autor. Meio milênio escorreu, o mundo já não é o mesmo, comparações não fazem sentido. O fato é que utopia, neologismo autêntico, entrou nas línguas modernas com o sentido de ideal inatingível, quimera, sonho impossível de realizar.

Já faz mais de 10 anos que estrategistas obram para implantar no Brasil uma hegemonia política. Ideólogos, políticos e marqueteiros compõem o grupo. Alguns rostos, daqueles que aparecem à luz do dia, são ultraconhecidos. Há também aqueles de quem pouco se fala, eminências pardas a mover-se nos bastidores palacianos. O ponto comum entre todos é que têm arregaçado as mangas, muita vez com invulgar ousadia. Têm dado o melhor de si com vista ao objetivo comum que estipularam: perpetuar-se no comando do país.

São cândidos sonhadores. Estão tomando a utopia ao pé da letra sem se dar conta de que a missão é impossível. Já faz tempo que o povo, esperto, sabe que não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe. Tudo tem um começo e um fim. Acreditar na perenidade de uma situação é devaneio.

Nossos sagazes planejadores não são os primeiros a tentar desafiar a finitude de todas as coisas. Ao ser implantado em 1933, o III Reich estava previsto para durar um milênio. Durou 12 anos. A União Soviética, ao preço de muita tristeza, de muita fome e de milhões de mortos, conseguiu resistir por algumas décadas, mas acabou desmoronando sozinha, num tombo melancólico e inglório. Ao atual regime chinês, de comunista, só sobrou o nome. A realidade no Império do Meio está bem longe da senda traçada por Mao.

Utopia

Utopia

Franco, Perón, Nasser, Salazar, Stalin, Marcos, Duvalier, Tito, Saddam ― todos passaram. A energia que dedicaram à tarefa de se enraizar no poder foi tamanha que não lhes sobrou tempo para cuidar da biografia. Foram todos varridos do palco e nem sequer deixaram rastro charmoso na História.

A casta que se alojou no governo federal está cada dia mais numerosa. Vai-se tornando mais e mais difícil manter coesa essa multidão. Trincas, rachaduras e dissensões já estão começando a surgir ― é inevitável. Não por acaso, dois frutos do mesmo eito estão entre as figuras mais cotadas para competir com a atual presidente nas próximas eleições, enfrentar a batalha de sucessão e encarar o veredicto das urnas. Dona Marina foi titular de um ministério alguns anos atrás. E o senhor Campos fazia parte, até anteontem, da base de sustentação do regime.

Se nossos bisonhos estrategistas deixassem a soberba e a caradura no vestiário e vestissem a túnica da modéstia, não tardariam a se dar conta de que, conquanto possam vencer uma que outra batalha, não ganharão a guerra pela eternização do statu quo.

A bolsa família, responsável por uma avalanche de votos, não deu os resultados que se podiam dela esperar. O número de beneficiários, que, segundo lógica elementar, deveria ir aos poucos diminuindo, tem paradoxalmente aumentado a cada ano. De locomotiva capaz de eliminar a miséria e alavancar a prosperidade, o programa tornou-se sombra protetora debaixo da qual estagnam famílias inteiras. Recebem peixes, sim, mas não foram iniciadas nas artes da pesca.

Temos estádios de padrão Fifa, mas serviços médicos públicos de padrão africano. O nível de instrução do povo não avançou uma polegada. A criminalidade se alastra a olhos vistos. A violência de todos os dias prospera. O vício da corrupção grassa, viçoso como nunca se viu. Vai-se insinuando na população uma percepção de decomposição social. Estão-se abrindo as portas de um futuro perigoso.

Em vez de trabalhar para permanecer no poder ad vitam æternam, melhor farão nossos diligentes dirigentes se se esforçarem para deixar boa lembrança de sua passagem pelos píncaros. Serão mencionados com admiração e simpatia nos livros de História dos séculos por vir. O resto é utopia.

Hoje é dia… de geografia

José Horta Manzano

Para continuar no campo geográfico, dou-lhes abaixo uma imagem interessante. Trata-se de uma montagem que superpõe, na mesma escala, a Europa e a América do Sul. Foi bolada no laboratório de ideias de nosso amigo Massimo Pietrobon.

É voz corrente no Brasil que a Europa é pequenina, que tudo é pertinho, que as distâncias são diminutas. Na verdade, não é exatamente assim. É claro que, em comparação com o gigantesco continente asiático, a Europa parece uma miniatura. Mas a América do Sul também. A Rússia, sozinha, tem superfície equivalente à do nosso subcontinente.

Europa versus América do Sul by Massimo Pietrobon

Europa versus América do Sul
by Massimo Pietrobon

Repare que a distância que separa Moscou de Lisboa equivale à lonjura entre Buenos Aires e Caracas ― com o Brasil todo no meio. Ir da Suécia à Grécia é como viajar do Espírito Santo à costa do Pacífico.

Vasto mundo!

Rapidinha 6

José Horta Manzano

Cumprindo a parte que lhe toca no acordo, equipes da Opaq , a Organização para a Proibição de Armas Químicas, começam seu trabalho de de neutralização do armamento químico estocado pelas forças sírias.

No fundo, esse final feliz ― se é que se pode atribuir esse adjetivo ao apaziguamento de um conflito que já fez dezenas de milhares de mortos e centenas de milhares de refugiados ― enfim, esse final menos infeliz aquieta todos sem satisfazer a ninguém.

Os cristãos, os alauítas e outras etnias minoritárias, que se encontravam bem sob o regime, passam a sobreviver terrorizados por membros de outras etnias e, principalmente, por ideólogos e mercenários vindos do estrangeiro. Outros grupos, que viviam oprimidos pelo regime, têm de continuar a sentir o peso da bota dos mandachuvas.

Tambor de armazenamento

Tambor de armazenamento

Os Estados Unidos, sem perder totalmente a face, não saíram glorificados do episódio. Tiveram de refrear seu ímpeto belicoso e procurar outro freguês. A Rússia foi quem mais ganhou. Firmou a imagem de sua diplomacia, provou que tinha razão desde o início. Mas ― nada é perfeito ― terá de se conformar com a ingerência de técnicos da Opaq esquadrinhando o território do aliado sírio.

Fica no ar uma pergunta. Como é que os técnicos terão certeza de haver destruído todo o arsenal químico? Tanques de guerra e aviões são difíceis de esconder ― qualquer satelitezinho mambembe consegue enxergá-los. Mas… tambores ou caixotes de produtos químicos? Dá pra esconder uma boa quantidade em qualquer puxadinho.

Irresponsáveis

José Horta Manzano

Na Câmara Federal, a Comissão de Constituição e Justiça acaba de cometer mais uma sandice. Com a habitual leviandade, voltou a tratar do tema racial e propõe ao plenário a aprovação de uma enésima emenda à Constituição. Se aprovada a PEC, uma parte dos eleitos do povo terá obrigatoriamente de ser de raça negra.

Raça

Raça

Fico consternado ao me dar conta do caminho pedregoso que a ignorância de nossos parlamentares está preparando para nosso País. Já temos um dos índices de disparidade social mais elevados do mundo, uma desindustrialização crescente, uma imagem internacional em franca deterioração, uma inflação que ressurge, um nível de corrupção pra nenhum ditador africano botar defeito. Não fazia falta oficializar divisões raciais.

Se, em lugar de passar a vida tentando puxar a brasa para sua sardinha, nossos prodigiosos representantes tivessem procurado se informar sobre o que acontece no planeta, saberiam que raça e religião são dois dos temas mais explosivos. A maior parte dos conflitos tem como artista principal ― ou como coadjuvante ― a raça ou a religião. Em nossa terra, até hoje, passamos ao largo desses problemas. É monstruoso que parlamentares soprem as brasas. Elas acabarão por reavivar o fogo e transformá-lo em labaredas.

Para começo de conversa, a autodeclaração de pertencimento racial, num País onde a malandragem, a mentira e a esperteza são valorizadas, não pode funcionar. Suas Excelências sabem disso. Para fazer a coisa dentro de razoáveis padrões científicos, só passando por um teste ADN.

Há também outro fato: pelo menos metade da população do País é mestiçada, uns mais claros, outros mais escuros. Há os que têm mistura de sangue índio. Há os descendentes de africanos não escravos, como angolanos e nigerianos chegados nas décadas mais recentes. O balaio de gatos é grande e complexo demais para ser deixado na mão de meia dúzia de excelências de nível cultural duvidoso, mais preocupadas com o próprio umbigo do que com o povo que representam.

E tem mais. Por que só deputados e senadores seriam subordinados a quotas? E o STF como fica? Seguindo a mesma lógica, metade dos ministros do Supremo terão obrigatoriamente de ser de raça negra.

Branco e preto

Branco e preto

Quanto à presidência da República, temos um real problema. As novas leis vão enterrando, pouco a pouco, o conceito de mestiçagem. Pela visão de nossos iluminados guias, um brasileiro tem de ser branco ou preto. Para não desviar da lógica, o mesmo critério terá de ser aplicado à escolha do presidente. A base de cálculo terá de ser o último censo.

O presidente terá de pertencer necessariamente à raça majoritária. Se a maioria dos brasileiros se tiver autodeclarado branca, o presidente será obrigatoriamente branco. Caso contrário, não tem como escapar: o chefe do Executivo não poderá, em hipótese nenhuma, ser branco.

Será que essas questões roçaram a mente tosca de nossos sábios representantes? Tenho minhas dúvidas. Seu raciocínio embotado não lhes permite ir além do problema de cada momento. Fazem gambiarras, puxadinhos, remendos, mas não avaliam as consequências que cada solução acarreta. Para eles, mais importante é angariar a simpatia do povo inculto e, sobretudo, conquistar votos para as próximas eleições. Os brasileiros do futuro que se lixem.

Interligne 18c

Na França, alguns anos atrás, veio à tona a questão da paridade dos eleitos. Não se fala de paridade racial, que eles lá não são loucos de cutucar a onça com vara curta! Trata-se de isonomia de sexo. Constatando que, na assembleia nacional, a proporção de mulheres era ínfima, resolveram legislar. Mas escolheram um caminho mais racional e, a meu ver, mais justo.

Em vez de reservar cadeiras específicas para mulheres ― só para fazer número ― a lei francesa impõe a cada partido que apresente um número igual de candidatos e de candidatas. Em seguida, os eleitores serão livres de votar em quem lhes parecer melhor. Parece-me uma solução mais equilibrada. A paridade de oportunidades fica assegurada, mas a decisão final permanece nas mãos do eleitorado.

Nossas excelências, em sua maioria monoglotas e incultas, dão preferência a torrar o dinheiro que lhes pagamos viajando até mundos de fantasia em Orlando, sonho de todo novo-rico ibero-americano. Suas mentes estreitas não lhes permitem conceber que ― diabos! ― cabe ao eleitor escolher, não a eles. Pode-se organizar a paleta de candidatos conforme a cor da pele, o sexo, a idade, a orientação sexual, a corpulência, o nível de estudos, o país de origem ou outras características quaisquer. O que não fica bem é impor uma reserva de mercado a uma franja da população em detrimento de outras minorias.

Os que forem eleitos pelo sistema de quotas serão fatalmente percebidos pela população como parlamentares de segunda classe, como se tivessem entrado pela porta dos fundos. Em troca, no afã de defender seus eleitores e garantir seus votos, batalharão pela manutenção do sistema de quotas e pela extensão dele a outros campos da atividade humana.

Estamos fomentando e exacerbando comunitarismos que não existiam. Cercado de «não-podes» por toda parte, o Brasil periga se tornar um país inviável. É criminoso e muito triste.

Interligne 18c

Para quem perdeu o capítulo, aqui estão as fontes:
Folha de São Paulo
O Globo
Estadão