Meio porcento

José Horta Manzano

«Alguns dos números apurados pela CNM: só 0,5% das cidades brasileiras com mais de 300 mil habitantes incentiva a substituição das frotas de ônibus atuais por carros elétricos.»

Extraí esse texto de notícia dada hoje pelo Estadão. Como raramente compro pelo valor de face, fui verificar. Queria saber quantos municípios de mais de 300 mil moradores há no Brasil. São 89, número considerável.

Agora vem o nó. A notícia fala em 0,5% deles. Quanto dá 0,5% de 89? Dá 0,45. Portanto, nem meia cidade incentiva o uso de ônibus elétricos. Sente o absurdo?

Pra publicar bobagens assim, é melhor não dar números. Mais vale dizer que menos de meio município aderiu à prática ecológica. Ninguém vai entender, mas que importância tem?

Mais municípios?

José Horta Manzano

É suficientemente raro. Quando acontece, é ocasião de soltar rojão. A presidente acertou uma! Alegremo-nos, irmãos!

Em fala proferida neste 8 de novembro, em Rio Grande (RS), dona Dilma deixou claras suas reticências quanto à criação de municípios ― por desmembramento de municípios maiores, entende-se. Asseverou que a multiplicação de municípios diminuirá o tamanho da fatia de bolo que caberá a cada um deles, velhos ou novos. É uma evidência, mas nunca é demais repetir.

Mais uma vez, o Brasil caminha na contramão da modernidade. Na Europa, especialmente em países que, por razões históricas, contam com grande número de municípios, a tendência é justamente de fusioná-los. Menos de olho nas vantagens eleitorais e mais interessados no bem-estar de seus concidadãos, os políticos daqui já se deram conta de que, quando dois municípios se juntam, a economia é real. Acaba-se com a duplicidade de prefeituras, de câmaras, de vereadores, de serviços diversos. É considerável.

A França é o país europeu com maior número de municípios: eram 36’683 em 1° jan° 2012. Já são 1500 a menos que em 1959. A redução não é frenética, mas a tendência continua, ao contrário do Brasil. Por que será?

Esperemos que dona Dilma oponha seu veto a esse projeto de lei ― já displicentemente aprovado na Câmara e no Senado ― que facilita a criação de 180 novos municípios. Só discursar não basta: ela precisa ter coragem de ir até o fim de seu raciocínio. Que engavete essa lei bastarda e não a sancione. Basta de ceder a insaciáveis morcegos, sempre os mesmos, que vivem de sugar os recursos do povo em proveito próprio.