Falam de nós – 15

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Violência em foco
Assalto 1Ao dar a notícia do enésimo tiroteio ocorrido no Rio de Janeiro este ano, a RTBFRadio Televisão Belga de expressão francesa – dá ênfase ao fato de estarmos a menos de um ano da abertura dos Jogos Olímpicos de verão. Que terão lugar, como todos sabem, na cidade de São Sebastião.

O artigo ressalta que nosso país, com média de 29 assassinatos anuais por 100 mil habitantes, é um dos mais violentos do mundo. Pela definição da ONU, taxa superior a 10 homicídios por 100 mil habitantes indica violência endêmica.

O Rio que se prepare. Durante estes meses que nos separam da abertura dos JOs, suas tripas estarão expostas à análise planetária.

Santana é nosso!
Rumores corriam na Argentina de que o ‘mago’ João Santana, marqueteiro titular do Partido dos Trabalhadores, estaria fazendo um bico na campanha de señor Scioli, candidato kirchnerista à presidência da república hermana.

O diário portenho La Nación traz a resposta firme e peremptória vinda do Brasil: «Nem João Santana nem ninguém de sua equipe estão participando da campanha de Daniel Scioli.»

O esclarecimento vem em boa hora. Señor Macri, candidado de oposição, tem boas chances de vencer o pleito. Marqueteiro nenhum deseja carregar no currículo uma eleição perdida.

2015-1103-01 La NacionNunca é tarde pra consertar
A veneranda BBC dá destaque ao pedido de destituição da presidente da República, apresentado por Hélio Bicudo. Como sabem todos, o doutor Bicudo é petista pentito. Pentito é termo italiano usado para designar todo aquele que, tendo feito parte de organização criminosa, se regenerou.

Desigualdade social
O diário Tages Anzeiger, um dos maiores jornais suíços, faz um balanço das perspectivas turísticas do país. Tendo em vista que o câmbio atual sobrevaloriza o franco suíço, uma temporada nas montanhas francesas ou austríacas sai bem mais em conta.

Nada se pode fazer contra a cotação da moeda, é verdade. Mais vale ir buscar categorias de turistas com poder aquisitivo suficiente para enfrentar um passeio pelas neves helvéticas.

Promotores turísticos espicham o olho para essa clientela afortunada. E onde é que vão buscar essas pérolas raras? Especialmente em dois improváveis países: na China e… no Brasil. Quem diria, hein!

Expo 1Brasil leiloado
Fim de semana passado, depois de seis meses, a Exposição Universal de Milão (Itália) fechou as portas. Pouco comentada no Brasil, a feira italiana atingiu o incrível patamar de 20 milhões de visitantes, uma cifra enorme. Cada país montou pavilhão, como é costume. O do Brasil foi um dos mais visitados, tendo recebido 5,3 milhões de pessoas.

O que mais chamava atenção no pavilhão brasileiro era uma rede suspensa sobre a qual o público podia caminhar. Não sei se a intenção dos organizadores terá sido transmitir a sensação de areia movediça e de insegurança que caracteriza nosso país. Será apenas coincidência.

Fato é que, terminada a exposição, os pavilhões foram a leilão. Orgulhoso, o jornal La Provincia di Lecco, da cidade homônima situada a 65km de Milão, informa que o pavilhão brasileiro foi arrebatado por uma empresa local especializada em montagem de eventos. O lance final foi de um milhão e oitocentos mil euros, bem abaixo do custo de construção.

Manif 10Cada qual como lhe convém
A emissora estatal venezuelana de tevê Telesur, também conhecida como «tevê do Chávez», dá em manchete, com visível alívio, a notícia de que o Exército Brasileiro descarta toda possibilidade de golpe de Estado contra dona Dilma.

A tevê destaca que os militares não têm intenção de se alevantar, em que pesem os continuados escândalos de corrupção.

Fiel a sua missão de guardiã do bolivarianismo – mas um tanto esquizofrênica –, a emissora inclui fotos e vídeos de manifestações em que alguns gatos pingados, vestidos de vermelho, protestam contra o ajuste fiscal decidido pelo próprio governo de dona Dilma. Vá entender…

Top-top na berlinda

Cláudio Humberto (*)

Brasil e África Crédito: Cebráfrica, UFRGS

Brasil e África
Crédito: Cebráfrica, UFRGS

Os deputados Alexandre Baldy (GO) e Miguel Haddad (SP) entram na CPI do BNDES com requerimentos de convocação de Marco Aurélio Garcia, aspone para assuntos internacionais aleatórios de Lula e agora de Dilma.

O conhecido “Top-top” é suspeito de tráfico de influência na concessão de crédito do banco de fomento do governo federal para o financiamento de ditaduras africanas. A suspeita é de que o BNDES tenha financiado obras em ditaduras, durante os governos do PT, justamente porque nesses países não há órgãos de controle.

Países como Cuba e ditaduras africanas não têm Ministério Público, tampouco tribunais de contas nem auditores fiscalizando obras.

O dinheiro não era fiscalizado nas ditaduras financiadas nem no Brasil: o BNDES negava acesso aos contratos até mesmo ao Tribunal de Contas da União.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Jus sperneandis

José Horta Manzano

Chamada da Folha de São Paulo, 31 out° 2015

Chamada da Folha de São Paulo, 31 out° 2015

O distinto leitor já ouviu falar de “jus sperneandis”? Pois está aí um exemplo acabado.

João que chora, João que ri

José Horta Manzano

Fronteira 2O real – a moeda brasileira – vai mal, disso sabemos todos. Faz um ano que vem sofrendo acentuada desvalorização, fato que traz severas consequências. Enquanto angustia uns, a degringolada da moeda alegra outros.

Importadores e consumidores de produtos importados se descabelam. Pagam hoje, pela mesma mercadoria, 50% a mais do que um ano atrás.

Fronteira 4No Brasil, ainda que nem sempre percebamos, somos um bocado dependentes de artigos importados. Produtos agrícolas escapam a esse raciocínio, mas raros são os produtos industriais que se contentam de componentes unicamente nacionais. Em menor ou maior medida, integram insumos ou peças importadas. De um ano pra cá, com a queda de nossa moeda, tudo o que vem de fora ficou 50% mais caro, o que realimenta a inflação.

Os que vinham economizando, de olho naquela sonhada escapada ao exterior, murcharam. Convertidas em euros ou em dólares, suas economias minguaram. Do outro lado do espectro, boa parte dos três milhões de compatriotas estabelecidos fora da pátria remetem, todo mês, uns cobrinhos para ajudar a família. Tanto expatriados quanto familiares estão felizes: os mesmos dólares rendem muito mais reais.

Preços 1Em nova prova de que o crime compensa, mensaleiros e petroleiros – falo dos espoliadores que sugaram o fruto do trabalho de todos nós – estarão satisfeitos. Tirando a minoria que está na cadeia, os outros, que podem ser centenas ou até milhares, estão hoje mais ricos ainda. Convertidas em reais, fortunas bem guardadas no exterior cresceram.

Fronteira 3Mais prosaicamente, o comércio fronteiriço do sul do Brasil anda animado. A desvalorização do real diante da moeda de países hermanos esquentou o turismo de compras. Trata-se de movimento pendular, ora são os de cá que compram lá, ora o fluxo se inverte. Atualmente, são paraguaios, uruguaios e argentinos que levam vantagem fazendo compras no Brasil.

Segundo informa o jornal argentino Ámbito Financiero, vale a pena atravessar a fronteira para comprar desde laranja e cerveja até celular e ar condicionado. Contentes estão os que vivem pertinho do Brasil. Podem fazer as compras diárias de supermercado – com vantagem não desprezível – em nosso país.

É o Mercosul provando que é útil e eficiente. Exatamente como a «Pátria Educadora», poderoso instrumento que veio redimir nossa proverbial falta de cultura.

Insegurança de raiz

José Horta Manzano

Você sabia?

Insegurança é componente importante do espírito brasílico.

A desonestidade e a criminalidade geram insegurança e transformam o honesto cidadão em refém da violência de criminosos.

Caravela 2As artes da política transmitem tremenda insegurança – fica a impressão de que todos os do andar de cima, embora podres, sejam intocáveis.

A insegurança jurídica é proverbial. Vai-se dormir à noite sem ter certeza de que, no dia seguinte, leis e regulamentos ainda serão os mesmos.

Essas incertezas não vêm de hoje. Marcam a história do país desde o dia em que foi lavrada sua «certidão de nascimento». Falo da carta de Pero Vaz de Caminha, bordada com arte e carinho pelo escriba da esquadra de Cabral.

A missiva é cristalina ao datar a descoberta – ou o achamento, como prefiram – da terra tropical. Diz ela: «nos 21 dias de abril (…) topamos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho». No dia seguinte, foi avistado um «monte mui alto e redondo», além de serras e de terra chã com grandes arvoredos. Pronto o Brasil estava achado. E era 22 de abril.

Acontece que essa carta, devidamente guardada nalgum escaninho da burocracia lusa, não foi consultada durante 300 anos e acabou esquecida. Só viria a ressurgir no século XIX. Enquanto isso, o Brasil já se havia declarado independente da metrópole. Na complexa organização do novo país, foi buscada uma data de fundação. Na falta de informação segura, foi privilegiado o dia 3 de maio. E por quê?

Descobrimento 1A insegurança gerada pela ausência de provas documentais fez supor que o primeiro nome dado à terra – Vera Cruz – viesse do dia que a hagiologia católica consagra à celebração da verdadeira cruz, justamente o 3 de maio. (Entre parênteses: com o nome de Cruz de Mayo, esse dia ainda é festejado em alguns países da América Hispânica.)

Carta de Pero Vaz sobre o achamento

Carta de Pero Vaz sobre o achamento

Ao fixar os feriados oficiais, a República fundada em 1889 manteve a comemoração da chegada dos primeiros europeus em 3 de maio. Por essa altura, a carta de Pero Vaz já havia reaparecido – portanto, já se sabia que a verdadeira data não era aquela. Assim mesmo, por comodidade, deu-se preferência a manter a celebração no dia de Vera Cruz. Como o dia de Tiradentes, 21 de abril, já era dia de festa, não convinha impor dois feriados seguidos.

Não foi senão durante a ditadura de Getúlio Vargas que a História se rendeu oficialmente à evidência: estava-se comemorando no dia errado. De uma pedrada, derrubaram dois coelhos: o descobrimento passou a ser celebrado dia 22 de abril que, ao mesmo tempo, deixou de ser dia feriado.

Eu não seiMeus pais me contavam que o Brasil tinha sido descoberto em 3 de maio e eu não entendia por que, na escola, me ensinavam data diferente. A insegurança sobre as datas só se desfez muitos anos depois, quando eu descobri que eles me ensinavam tal como haviam aprendido na escola.

O distinto leitor há de convir que, numa terra que já começou com provas documentais desaparecendo de circulação, não espanta que a insegurança continue sobressaindo. Fazer sumir provas tornou-se esporte nacional. Decididamente, vivemos na terra do «eu não sabia de nada».

Futuro efervescente

José Horta Manzano

O jornal francês Le Figaro publicou relato sobre a viticultura no Brasil – o cultivo da uva para produção de vinho. Em matéria vinícola, a opinião de especialistas franceses costuma ser respeitada.

Vinho 1Apresentam o Brasil como quinto produtor de vinho do hemisfério sul, classificação aparentemente importante. Mas… pensando bem, os países do hemisfério não são numerosos. Os primeiros produtores, todos conhecem: Chile, Argentina, África do Sul e Austrália. Se o Brasil não fosse o quinto, quem poderia sê-lo? Zimbábue, Madagascar, Bolívia, Zâmbia?

As primeiras videiras foram trazidas já por Martim Afonso de Souza, o português que, em 1532, estabeleceu o primeiro povoado estável reconhecido por nossa história oficial. Falo daquela aldeia que evoluiu até tornar-se a cidade litorânea de São Vicente (SP), hoje conurbada com Santos.

Vinho 2No Brasil, os primeiros plantadores de uva não eram vinhateiros. A fruta era consumida ao natural. Foi preciso esperar um século até que padres jesuítas especialistas em viticultura dessem início ao fabrico de vinho em terras portuguesas da América. O primeiro objetivo foi garantir vinho de missa.

Até vinte e cinco anos atrás, vinho era bebida pouco conhecida no Brasil e seu consumo, limitado. O produto nacional era de qualidade rudimentar enquanto o importado custava os olhos da cara.

Vinho 3A liberação da importação, a partir dos anos 90, propiciou rápido aumento na oferta de vinho estrangeiro. Mais abordável, a bebida tornou-se mais frequente à mesa. Viticultores brasileiros aproveitaram a deixa para melhorar a qualidade de seu produto. Desenhou-se um círculo virtuoso: vinhos estrangeiros mais accessíveis incentivaram o fabrico de nacionais de qualidade superior. E vice-versa.

Depois de provar os espumantes do Rio Grande do Sul e de analisar a evolução vitivinícola nacional, os articulistas do Figaro chegam à conclusão de que os vinhos efervescentes brasileiros têm futuro brilhante. Temos boa reserva de gás.

Ocaso cruel

José Horta Manzano

Lula boné 1Tudo na vida tem um começo, um meio e um fim. Aquele que detecta o bom momento pra se lançar e, mais tarde, percebe que é hora de se afastar, dá mostra de inteligência, de contacto com a realidade e de simples bom senso.

Há quem carregue, embutido e de instinto, esse «timing», que os dicionários traduzem como sensibilidade para o momento propício de realizar ou de perceber a ocorrência de algo. Quem tem essa qualidade, tem. Quem não tem fica devendo.

Nosso guia, a quem muitos emprestam inteligência fora do comum – será? – não foi brindado pela natureza com esse dom. Seu decantado senso de oportunidade (ou de oportunismo, se preferirem) foi incapaz de detectar que, ao final do segundo mandato na presidência da República, tinha atingido o auge. Não se deu conta de que aquele era o momento ideal para recolher-se e sair de cena.

Chamada do Estadão, 25 nov° 2015

Chamada do Estadão, 25 nov° 2015

Rico, prestigiado, já beirando os setenta anos, deveria ter-se retirado. Teria conservado, intacto e para sempre, o fascínio que um dia havia despertado em meio Brasil. Uma palestra aqui, outra ali, talvez um livro de memórias ditado a um escriba de aluguel – essas teriam sido atividades condizentes com a aura que o circundava. É o que se espera de um ex-presidente.

Lula caricatura 2No entanto, um envaidecido Luiz Inacio acalentou a ilusão de onipotência e foi incapaz de se dar conta de que tudo o que sobe acaba caindo um dia. Tendo perdido o contacto com a realidade, pagou pra ver. E está vendo.

Para quem um dia andou de carruagem com a rainha da Inglaterra, há de ser terrível ter de viver recluso, longe do povo, fugindo de lugares públicos onde, certo como dois e dois são quatro, será vaiado. Restou-lhe enfiar um boné vermelho no cocuruto e deitar falação para plateias amestradas.

A confiar na mais recente pesquisa de opinião, nosso guia não tem esperança de voltar ao cargo maior. Se 55% não votariam nele de jeito nenhum, la messe est dite, como se diz na França: a missa acabou. Miserere nobis.

Aposentadoria ‘baby’

José Horta Manzano

Aposentadoria 2O jornal italiano La Repubblica, de Turim, publicou artigo interessante sobre inacreditáveis dispositivos que distorcem o sistema brasileiro de aposentadorias.

Os italianos falam de cátedra. Até 20 anos atrás, aquele país também concedia regalias fora do comum a determinadas categorias de cidadãos. Em alguns casos, 15 anos de contribuição bastavam para dar direito ao benefício para o resto da vida. A reforma de 1995, se não corrigiu todas as falhas, amenizou efeitos perniciosos.

A língua italiana tem até uma expressão para definir aposentadoria concedida aos que ainda estão longe de completar 65 anos. Dizem “baby pensioni” – aposentadorias de bebê. O diagnóstico de Anna Lombardi, autora do artigo, é de que essas pensões «de bebê» põem o Brasil de joelhos. E tem razão.

O estado já periclitante das finanças nacionais é agravado pelas larguezas do sistema de aposentadorias, verdadeiro poço sem fundo. Signora Lombardi explica a seus leitores o chamado «efeito Viagra».

Aposentadoria 1Segundo ela, muitos desses jovens aposentados se casam (ou se casam de novo) tarde, pelos 60 ou 70 anos. Escolhendo esposa de pouca idade, fazem da cônjuge a herdeira da aposentadoria, que lhe será paga por décadas. O sistema é perverso porque, em casos assim, dá benefício a quem ainda está em idade de trabalhar. Não é justo que toda a sociedade deva pagar.

Não sou especialista em assuntos previdenciários, mas confesso que, em meu círculo próximo, conheci casos surrealistas. Certas pensões são concedidas às filhas do falecido, sem limite de idade, desde que permaneçam solteiras. Há senhoras que, embora vivam com um companheiro, evitam casar-se para não perder o direito à pensão.

É curioso que o reconhecimento de uniões estáveis por parte do Estado brasileiro seja estrada de mão única. A união é aceita para acrescentar benefícios, mas não para coibir abusos. São coisas nossas.

Aposentadoria 3Uma das grandes oportunidades perdidas por Luiz Inácio da Silva – entre outras tantas – foi a reforma que nosso sistema de aposentadorias reclama há décadas. Quando ele estava no apogeu da popularidade, teria sido fácil. Hoje ficou bem mais complicado. É a herança problemática que ele recebeu dos antecessores e transmitiu, tal e qual, aos sucessores.

Seja como for, vista a desaceleração da taxa de crescimento da população, o pagamento de benefícios tende a tornar-se o quebra-cabeça maior das finanças nacionais. Do jeito que está, o sistema não aguenta mais dez anos.

Nosso guia, que julga ter ‘reinventado’ o Brasil, será lembrado por sua inação quando os ventos estavam favoráveis. É pena.

Boca torta

Dora Kramer (*)

Os comunistas antigamente diziam-se pautados pela “linha justa”. Os petistas atualmente demonstram se conduzir pela linha injusta. Entre outros exemplos, está a carga pesada feita contra os ministros da Fazenda e da Justiça.

Joaquim Levy e José Eduardo Cardozo desagradam ao PT não pelos defeitos, mas pelas qualidades. Levy segue a direção lógica do ajuste realista na condução de uma política econômica que, embora recessiva, é a única capaz de levar o País à correção do rumo perdido. Cardozo faz o que lhe cabe por dever de ofício e não procura interferir onde não pode: no trabalho da polícia, da Justiça e do Ministério Público.

Sinalização curva 2Na visão petista, quem faz o certo está errado e, por isso, deve deixar o governo. Por essa ótica, o ministro da Fazenda deveria ser irresponsável e o titular da Justiça, transgressor da Constituição.

O partido talvez pense assim por ter-se acostumado ao padrão de irresponsabilidade e transgressão estabelecido desde o governo Luiz Inácio da Silva – modelo este fundado na crença de que é permitido fazer tudo errado acreditando que no fim possa dar certo.

(*) Dora Kramer, em sua coluna do Estadão, 25 out° 2015

Falam de nós – 14

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Fosse um furacão, não causaria tanto estupor. Fosse um “malfeito” qualquer, ninguém se espantaria. Fosse uma roubalheira a mais, todos dariam de ombros, resignados. Mas quando algum problema ronda as festas de Natal, aí a coisa pega.

Em todo o Velho Continente – especialmente na Europa central – festas de Natal são sagradas. Menos por religiosidade, mais por tradição. Três fatores contribuem para reforçar a importância simbólica dos festejos natalinos:

Interligne vertical 121. Coincidem com o fim do ano civil, época em que muitos fazem exame de consciência e formulam propósitos virtuosos para o período seguinte.

2. No Hemisfério Norte, coincidem com o solstício de inverno, o período do ano em que os dias são mais curtos. O Natal prenuncia o alongamento da luz diurna e o renascimento da natureza.

3. A importância das festas é amplificada pelo marketing onipresente, obra de industriais e comerciantes.

Portanto, todo problema que possa perturbar a alegria e a paz do período provoca comoção.

Papai Noel 2Existe, no Rio de Janeiro, uma escola de Papai Noel, você sabia? Pois eu não. Fiquei sabendo pela profusão de artigos alarmantes publicados estes dias na imprensa europeia.

A escola oferece curso de 40 dias a homens de mais de 50 anos, de preferência corpulentos. Este ano, o aumento do desemprego fez dobrar o número de candidatos. Para todos eles, é importante ser contratado para representar o bom velhinho. É bico importante pra diminuir o sufoco habitual.

A perspectiva de que a crise político-financeira que atinge o Brasil possa prejudicar as festas natalinas é descrita com acentos de incredulidade e compaixão pela mídia daqui. Vejam só:

Jornal 20 Minutes (Suíça)
«La crise touche même le Père Noël au Brésil»
«No Brasil, a crise atinge até Papai Noel»

Canal de tevê BFM TV (França)
«Le Père Noël bientôt au chômage au Brésil?»
«Dentro em breve, Papai Noel desempregado no Brasil?»

Papai Noel 3Jornal Le Figaro (França)
«Le Père Noël touché para le chômage au Brésil»
«Papai Noel afetado pelo desemprego no Brasil»

Revista L’Hebdo (Suíça)
«Les temps sont durs pour le Père Noël au Brésil»
«Tempos difíceis para o Papai Noel no Brasil»

Jornal 24 Heures (Suíça)
«La crise touche même le Père Noël au Brésil»
«No Brasil, a crise atinge até Papai Noel»

Jornal La Libre Belgique (Bélgica)
«Au Brésil, la crise économique n’épargnera pas le Père Noël»
«No Brasil, a crise econômica não poupará Papai Noel»

Papai Noel 4Jornal Le Dauphiné Libéré (França)
«La crise touche même le Père Noël au Brésil»
«No Brasil, a crise atinge até Papai Noel»

Portal informativo Romandie (Suíça)
«Les temps sont durs pour le Père Noël au Brésil»
«Tempos difíceis para o Papai Noel no Brasil»

Jornal Tribune de Genève (Suíça)
«La crise touche même le Père Noël au Brésil»
«No Brasil, a crise atinge até Papai Noel»

Ponte dos espiões

José Horta Manzano

Ponte 2Pense num filme de espionagem, daqueles que se passam na época da Guerra Fria. Numa manhã fria e brumosa, um espião americano, desmascarado em Moscou, ensaia os primeiros passos da travessia duma ponte sobre rio fronteiriço entre as duas Alemanhas. No mesmo momento, um espião soviético, capturado meses antes em Washington, faz o mesmo gesto em sentido contrário.

Avançam lentamente. Os caminhos se cruzam bem no meio da ponte. Sem se olhar nos olhos, cada qual continua reto até a margem oposta. «Pronto, elas por elas. Estamos quites» – suspiram aliviados os policiais e agentes que, armados até os dentes, tinham permanecido de cada lado da fronteira. Tudo correu bem. É o capítulo final de uma longa tratativa que se desenrolou nos bastidores, longe de toda publicidade.

Se o distinto leitor imagina que cenas como essa fazem parte de um passado poeirento e enterrado para sempre, convido-o a reconsiderar a questão. A imprensa italiana em peso afirma hoje que, sem a dramaticidade cinematográfica da travessia da ponte, nova troca de prisioneiros acaba de ocorrer.

Aeronave que transportou Pizzolato de SP a Brasília 23 out° 2015

Aeronave que transportou Pizzolato de SP a Brasília
23 out° 2015

A verdadeira história da extradição do mensaleiro Pizzolato, que acaba de chegar a Brasília para uma temporada na Papuda, é menos charmosa e bem menos jurídica do que se possa imaginar. Nosso mensaleiro interpreta o papel de um dos prisioneiros que atravessam a ponte. E quem é o outro?

Segundo a imprensa italiana, que deve ter seus fundamentos para afirmá-lo, a outra moeda da negociação chama-se Pasquale Scotti. É antigo membro da camorra (máfia napolitana), condenado à prisão perpétua por mais de 20 homicídios. Gente fina, como se vê. O bom moço estava no Brasil havia mais de 30 anos. Sob identidade falsa, vivia no Recife.

Ponte 1Foi capturado pela Polícia Federal em maio. Informada pela Interpol, a Itália logo pediu extradição do cidadão. O que se segue não foi publicado, mas pode ser imaginado. Autoridades italianas e brasileiras concluíram acordo na base do «eu te mando este, você me devolve aquele».

De fato, o STF autorizou a extradição de signor Scotti no dia 20 de outubro. Dois dias depois, a Itália entregou signor Pizzolato a agentes da PF brasileira. Baita coincidência, né não? Parece que a imprensa italiana sabe do que está falando.

Os detalhes da troca de prisioneiros estão na Agência Brasil (em português) e no jornal turinês La Repubblica (em italiano).

Ladrão? Eu?

José Horta Manzano

Chamada da Folha de São Paulo, 22 out° 2015

Chamada da Folha de São Paulo, 22 out° 2015

Conclusão lógica: os outros podem.

Foi seu mestre quem mandou. Esqueceu-se de que 90% dos brasileiros rejeitam o “modo petista de governar”.

Repare o distinto leitor que nosso guia já se resignou com o fato de correligionários serem adeptos da ladroagem. Só não admite ser tratado como tal por colegas de ofício.

São particularidades destes tempos estranhos.

Este mar é meu

José Horta Manzano

Você sabia?

A expressão águas territoriais define, em grandes linhas, a superfície marítima que pertence a cada país com saída para o mar. Até o século XIX, o assunto não aparecia entre as preocupações maiores. Considerava-se que as águas territoriais se estendiam até 3 milhas da costa (menos de 6km), distância que correspondia ao alcance de um tiro de canhão.

Brasil – Zona Econômica Exclusiva (clique para aumentar)

Brasil – Zona Econômica Exclusiva
(clique para aumentar)

O século XX trouxe outra visão de mundo. O litoral adjacente a cada país passou a ser olhado como zona de exploração econômica – para atividades pesqueiras principalmente. Convencionou-se então fixar o limite das águas territoriais em 12 milhas marítimas, cerca de 22km.

A partir dos anos 70, alguns Estados pressionaram para conseguir que sua zona de exploração fosse alargada. Depois de muita discussão, uma convenção foi assinada em 1982 em Montego Bay. Põe pingo nos ii, dá nome aos bois e fixa limites precisos. Define com precisão as expressões mar territorial, zona contígua, zona econômica exclusiva, plataforma continental e águas internacionais. Fixa em 200 milhas a contar da costa (370km) o limite da zona econômica exclusiva.

França – Zona Econômica Exclusiva (clique para aumentar)

França – Zona Econômica Exclusiva
(clique para aumentar)

O país «proprietário» exerce domínio exclusivo sobre as 200 milhas que lhe são atribuídas. Seus direitos englobam a coluna d’água e o subsolo sobre o qual ela se assenta. O dono é o único com direito a pescar e extrair o que bem entender. Está em casa.

Quando se fica sabendo dessas particularidades, entende-se melhor por que certos países beiram conflito armado pela posse de ilhotas desérticas e desabitadas. É o caso do diferendo entre a Rússia e o Japão sobre as Ilhas Curilas. A China é outro que batalha pela posse de ilhazinhas das quais ninguém nunca ouviu falar.

Chile – Zona Econômica Exclusiva (clique para aumentar)

Chile – Zona Econômica Exclusiva
(clique para aumentar)

Não fosse a Convenção de Montego Bay, o petróleo brasileiro de alto-mar poderia ser explorado pelo primeiro que chegasse. Isso inclui o hipotético pré-sal. Sem aquele acordo, nunca teríamos assistido ao assalto à Petrobrás. Nossos medalhões teriam de ter encontrado outras tetas obesas…

Japão 1A convenção de 1982 deixou uma brecha. Estabeleceu que a zona exclusiva de cada país pode ser prolongada até um máximo de 650km, caso o interessado assim o deseje. Só tem um porém: a partir de 200 milhas, o «proprietário» só tem direito a explorar o subsolo. A coluna d’agua é internacional, aberta a todos. A água e tudo o que ela contém naturalmente.

Valendo-se dessa brecha, a França acaba de estender sua zona exclusiva de exploração do subsolo marinho a 650km. Visto que possui pequenas ilhas espalhadas pelo globo, o país acrescentou meio milhão de quilômetros quadrados à superfície de que já dispunha.

Com isso, pelo critério de zona econômica exclusiva, os onze milhões e meio de quilômetros quadrados franceses ultrapassam todos os outros países. Nesse quesito, a França ocupa doravante o primeiro lugar. Surpreendente, não? O Brasil só aparece em 12° lugar, com pouco mais de 3,5 milhões de km2, atrás do Japão e até do Chile.

Petroleo 2Essa história de zona exclusiva pode parecer bobagem mas não é. A China anda construindo navios para exploração mineral em alto-mar. Ao longo da navegação, a água vai passando por sistema de filtragem que retém o que interessa: ouro, titânio ou qualquer outro mineral raro e precioso. Quem diria, não?

Estocada e fuga

José Horta Manzano

Obras 3Numa noite paulista da semana passada, uma moça dirigia seu automóvel. O céu estava escuro e a moça… embriagada. O que tinha de acontecer aconteceu. Atropelou dois homens que, em plena jornada de trabalho, cuidavam da pintura de sinalização no solo.

O estado em que ficou o carro prova que o choque foi violento e sugere que a velocidade fosse elevada. Apesar disso, a moça não se feriu no acidente. Contrariando todas as regras que a humanidade teceu desde que o primeiro hominídeo desceu da árvore, ela reagiu de modo torpe: abandonou o local às carreiras, sem se preocupar em prestar socorro aos que havia ferido.

Os dois homens morreram. Depois de duas noites presa, a automobilista foi acusada de homicídio não intencional e liberada sob fiança. Em liberdade, vai aguardar o julgamento.

Primeira consideração
Obras 2Em terras mais civilizadas, onde a vida humana tem mais valor que para-brisa estilhaçado, o desfecho teria sido diferente. Motorista que, em estado de embriaguês, atropela – e mata! – é considerado homicida intencional. Parte-se do princípio que, ao pegar no volante em estado de ebriedade, o piloto assume o risco de causar acidente.

E tem mais. Omissão de socorro já é passível de punição. Não socorrer vítimas de sua própria negligência é ato muito pior. Portanto, a moça seria acusada de homicídio doloso agravado por fuga da cena do crime e omissão de socorro a suas próprias vítimas. Aguardaria um bom tempo atrás das grades até que um júri decidisse sobre seu destino.

Acidente circulacao 3Segunda consideração
Imaginemos a cena ao contrário. Suponhamos que a moça estivesse trafegando de carro quando um operador de retroescavadeira, trabalhando sob efeito de álcool, fizesse um movimento brusco e abalroasse o automóvel.

Conjecturemos ainda que o carro, desgovernado, batesse num poste, e que a motorista se ferisse gravemente. Imaginemos que o operador da máquina abandonasse a cena do crime e fugisse imediatamente. Que aconteceria?

É impossível garantir como teria sido o que não foi. No entanto, é plausível que o operário fosse caçado, enjaulado e acusado de homicídio intencional. Pode-se imaginar que não lhe fosse sequer oferecida a possibilidade de comprar a própria liberdade por meio de pagamento de fiança.

Será que estou exagerando?

Obras 1Conclusão
Enquanto abutres se engalfinham no andar de cima disputando o butim de corrupção e de malversações, os cidadãos comuns perpetuam a tradição esquizofrênica de nossa sociedade. O 13 de maio não passa de dia comemorado nas escolas. Seu espírito ainda não foi assimilado pela população.

Sociedade civilizada é aquela que protege seus membros mais frágeis. Atenção: esmola não conta! Falo de mudança profunda de atitude. Ocorrências como essa provam que ainda falta muito.

A pátria em chuteiras

Myrthes Suplicy Vieira

Cabeçalho 2E estamos de volta aos permanentes embates entre o Direito e a Moralidade.

O time do Direito entra em campo confiante e, de peito estufado, entrega sua flâmula ao capitão da equipe adversária. Nela está escrito: “Nós não fazemos as leis, apenas zelamos por sua observância”.

Futebol 7O capitão do time da Moralidade adianta-se um passo, inclina-se para a frente, recolhe delicadamente a flâmula com as duas mãos, agradece com um sorriso e apresenta a sua. Nela pode-se ler: “Nós escolhemos nossos representantes com base nas condutas morais que a maioria dos funcionários e torcedores de nosso clube julga fundamentais e imprescindíveis para o exercício de qualquer mandato”.

O jogo começa. Os jogadores dos dois times ensaiam as melhores jogadas, procurando evitar a ocorrência de faltas que coloquem em risco desde muito cedo a estratégia elaborada pelos respectivos técnicos para vencer a partida. De repente, um jogador do time do Direito, posicionado dentro da área, recebe um passe irregular, vira-se e marca o primeiro gol. A equipe da Moralidade sai correndo em protesto e cerca o juiz: “O senhor não vai apitar nada? Ele estava claramente adiantado em relação à linha de impedimento!”

O juiz, que estava distraído durante a jogada, consulta rapidamente o bandeirinha, que se havia igualmente distraído durante o lance, e, sem apoio racional para outra decisão, decreta: “Vamos voltar a jogada”. O jogo recomeça, a bola é jogada para escanteio e, sem novos lances duvidosos, a partida termina no zero a zero.

Tribunal 7Um novo campeonato tem início. Desta vez, orientada por um novo técnico, a equipe do Direito consegue expressivos resultados positivos e assume a liderança em poucas partidas. O dirigente da equipe da Moralidade, acabrunhado, passa a contestar acidamente os lances duvidosos de cada uma das partidas, entrando com sucessivos recursos no Tribunal de Justiça Desportiva. Os desembargadores dão sempre o mesmo veredito: “Julgamos improcedente a demanda da Moralidade por falta de evidências na súmula das partidas de que os árbitros tenham exacerbado de suas funções”.

Realimentado em seus brios, o time do Direito dá prosseguimento a sua jornada vitoriosa, argumentando, sempre que contestado em juízo, que as mesmas jogadas foram feitas anteriormente pelo time vice-campeão, sem que tivesse havido qualquer punição.

Combalido, o dirigente da equipe da Moralidade demite o técnico, faz uma profunda reforma no time com contratação de novos jogadores e esforça-se por estabelecer laços mais estreitos com o Tribunal de Justiça Desportiva. Reúne-se com os advogados do clube e decide entrar com uma representação na Associação Nacional de Árbitros, propondo que doravante todas as partidas sejam filmadas e que os lances duvidosos sejam julgados em tempo real por um conselho de árbitros de plantão, a partir da revisão das imagens.

Futebol 1Uma luzinha trêmula começa a se acender no final do túnel. A Associação de Árbitros, já incomodada com o crescente volume de reclamações vindas de várias outras equipes, acolhe favoravelmente a proposta e compromete-se a estudar a possibilidade de que ela passe a ser incorporada em caráter experimental. Os torcedores do time da Moralidade saem às ruas, dançando e cantando, para celebrar a chegada de novos tempos.

Quando informado da decisão da Associação de Árbitros, o dirigente da equipe do Direito contrata a peso de ouro os mais eminentes advogados e entra com recurso no Tribunal de Justiça Desportiva alegando que “não se podem alterar as regras depois de começado o jogo”.

A argumentação apresentada em corte pelo advogado-chefe do time do Direito é considerada brilhante e empolga a todos: “Toda essa lamúria dos times perdedores do campeonato é pura empulhação. Por falta de habilidade técnica dos jogadores e por falhas de planejamento de seus respectivos técnicos, o que eles estão querendo, de fato, é ganhar ‘no tapetão’. Ora, senhores, nenhum juiz está autorizado a apitar ‘perigo de gol’, já que essa figura jurídica não existe em nossa Constituição”.

Futebol 8Acabrunhado, o dirigente da equipe da Moralidade reúne-se em caráter emergencial com seus advogados. O clima é tenso. Com voz trêmula, o dirigente expõe seus pontos de vista: “É bem verdade que ninguém pode ser condenado com base em regras que ainda não existiam quando o campeonato começou. Mas não dá para esquecer que o próprio time do Direito já havia manifestado publicamente seu irrestrito apoio às novas regras propostas muito antes de serem sagrados campeões. Para sorte deles, as regras simplesmente não foram implementadas a tempo, uma vez que os representantes de sua base aliada conseguiram bloquear a votação. Cabe a nós, agora, demonstrar que essas pessoas não nos representam. Ao contrário, elas ferem nossa própria essência, que está alicerçada no fato incontestável que nem tudo que é legal é moral”.

O advogado-chefe levanta-se e, hesitante, apresenta seu raciocínio jurídico para encontrar uma saída legal para o conflito: “De fato, forçoso é admitir que parte da razão está com nossos adversários. Não se pode mudar as regras depois de apitado o início do jogo, mas, se os senhores pensarem bem, verão que também não é defensável que um time entre em campo com 13 jogadores para enfrentar os 11 habituais do time adversário. E, fazendo uma analogia com o jogo político, fica claro que o instituto da reeleição (considerando que nossos adversários foram campeões nas duas últimas rodadas) equivale a impor a regra espúria de que eles têm o direito de entrar em campo com mais jogadores do que o permitido. Além disso, nossos adversários foram os responsáveis pela indicação de muitos dos juízes encarregados de deliberar sobre quaisquer lances duvidosos neste campeonato. Temos de buscar na história dos julgamentos desportivos momentos de exceção em que as regras puderam ser revistas, sem comprometer o Estado de direito. Isso nos auxiliará a provar que já há jurisprudência formada a nosso favor”.

Futebol 9Comovidos, quase às lágrimas, os participantes da reunião abraçaram-se e concordaram em entrar com uma última representação na Associação Nacional de Árbitros, solicitando que as regras da Moralidade Pública, aprovadas na gestão anterior, fossem finalmente implementadas e já passassem a valer para o campeonato seguinte.

Após algumas semanas de tensão à espera do veredito dos desembargadores, alívio geral. O juiz responsável pelo caso havia registrado sua decisão em tom poético: “Julgo procedente a demanda apresentada pela turma da Moralidade. Ainda que não exista a figura jurídica de impedimento por falta de representatividade, as possibilidades de enquadramento jurídico para a decretação do impedimento são várias: abuso de poder econômico e político, erro de pessoa, falsidade ideológica, falta de decoro, improbidade administrativa, perturbação da ordem pública, etc. Um ditado coreano diz que, quando dois elefantes brigam, quem paga o preço é a floresta. Orgulho-me em dizer que sou também parte responsável pela preservação da floresta”.

Interligne 18h

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora. O título do artigo faz alusão ao livro homônimo de Nélson Rodrigues.

A desgraça de uns…

José Horta Manzano

Colombia 3A economia brasileira, hoje sabemos, começou a ser maltratada no segundo governo do Lula. Desde que dona Dilma assumiu o trono, a coisa piorou. Com a implantação, à força, de regras obsoletas às quais ela deu o nome de «nova matriz», a economia nacional passou a ser pisoteada.

Foi falta de tino. A chance de uma experiência econômica já fracassada em outros países dar certo no Brasil era nula. Deu no que deu. Estamos hoje, pires na mão, fazendo novena pra espantar o perigo de agências de classificação de risco rebaixarem ainda mais nossa nota.

Seja como for, o mal está feito. Como parecem longínquos aqueles primeiros anos do Lula em que, à custa de pesado investimento em marketing, o mundo nos tinha lançado um olhar surpreso e interessado. Àquela altura, alguns chegaram a acreditar que o gigante havia despertado. Iludiram-se. Infelizmente, era voo de galinha. O balão desinchou rápido.

Bogotá – centro antigo

Bogotá – centro antigo

Enquanto amargamos nós o risco iminente de descrédito e de fuga de capitais estrangeiros, há fila de países torcendo pra isso acontecer. O primeiro deles é nossa vizinha Colômbia. Este domingo, o diário El Espectador, de Bogotá, publicou análise sobre o assunto.

A agência Standard & Poor’s rebaixou a classificação do Brasil. A agência Fitch fez o mesmo. O periódico colombiano considera que falta pouquíssimo para o Brasil desaparecer da carteira do banco de investimento JP Morgan. Muitos fundos seguem a cartilha desse banco. Se nosso país deixar de ser recomendado, muito dinheiro vai bater em retirada.

Colombia 2E é justamente aí que entra a Colômbia. Com seus quase 50 milhões de habitantes, o país vizinho está longe de ser um zero à esquerda. É a terceira economia da América do Sul. Por enquanto, nossos dois países estão empatados na avaliação dos peritos. Caso o Brasil desça um degrau – basta unzinho só – sem arrastar a Colômbia na queda, bilhões de dólares sairão daqui para encher os cofres de lá.

Em Bogotá, também rezam novenas e trezenas.

Lula perdeu

Fernão Lara Mesquita (*)

Explosao 1Dilma manda avisar, a quem interessar possa, que Joaquim Levy fica e que “a opinião do maior partido da coalizão não é necessariamente a opinião do governo”, que a CPMF é imprescindível e coisa e tal…

Ela estava reagindo à entrevista de Rui Falcão à Folha de São Paulo, na qual esse cara que ninguém elegeu diz aos brasileiros como ele quer que o Brasil seja governado. Ficou claro que ele não falava só por ele. Tem as costas mais que quentes.

Essa separação governo ↔ PT é um marco. A gastança não vai recuar, o que seria pedir demais, mas descarta-se inflá-la a ponto de provocar explosão imediata, o que desaguaria inevitavelmente no golpe.

Era o que Lula queria. Lula perdeu.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista e editor do blogue Vespeiro.

Arrecadação recorde

Cláudio Humberto (*)

Moeda realAo contrário do que alardeia a presidente Dilma, o total das receitas realizadas pelo governo federal este ano já supera o recorde histórico de R$ 2,2 trilhões estabelecido em 2014. O valor equivale a tudo que o governo Dilma conseguiu embolsar desde janeiro com impostos, taxas, ações na justiça, multas, etc. É ainda mais expressivo por ser 50% maior que o R$ 1,4 trilhão arrecadado em 2010, último ano do Lula.

Se mantiver o ritmo (e o mandato) até o final do ano, o governo Dilma vai chegar a R$ 2,8 trilhões embolsados do contribuinte.

O governo Dilma se tornou uma máquina de arrecadar desde a posse da presidente em 2011. Em cinco anos, superou R$ 10 trilhões.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Buscando a receita

José Horta Manzano

Há males que vêm pra bem é expressão conhecida e usada com frequência. Em contraposição, também há casos em que coisas boas acabam atrapalhando a vida e infernizando a existência.

Company logo 6No caso de males que, no final, se revelam úteis, há exemplos aos montes. Guerras, se trazem destruição, desgraça e morte, contribuem para o progresso. Os grandes conflitos do século XX são responsáveis pela invenção ou pelo desenvolvimento de técnicas de grande utilidade. Falo da radiologia, da traumatologia de reconstituição, do avião a jato, dos antibióticos e de numerosos outros «subprodutos».

Bens, quando chegam de repente e sem que o beneficiado tenha tido de fazer grande esforço, podem causar transtorno. É o caso daqueles que tiraram a sorte grande nalguma loteria, enricaram, e… acabaram se perdendo. Escritos bíblicos já contavam a história do filho pródigo, aquele que dissipou num piscar de olhos a fortuna recebida de mão beijada.

Company logo 2No Brasil, desde que a gente é criança, nos convencem de que o País é rico, que tem enorme riqueza mineral, a maior floresta do mundo, clima excelente, povo cordial, diversidade biológica fantástica, petróleo, litoral extenso, vizinhos amigos, paz social, habitantes talentosos, as mais lindas praias, terras ainda não desbravadas, subsolo riquíssimo, água à vontade, território livre de terremotos e tsunamis. Em três palavras: um paraíso terrestre.

Company logo 4Nosso País é um dos raros capazes de exibir certificado de nascimento. Falo da carta que Pero Vaz de Caminha escreveu a Dom Manuel dando notícia do achamento de novas terras. Quando o escrivão previu: «a terra é de tal maneira tão maravilhosa que em se plantando dar-se-á nela tudo», estava, sem se dar conta, vaticinando o futuro da nação.

O chato é que as gerações que se seguiram passaram por cima da condição (em se plantando) e se aferraram direto à conclusão (dar-se-á nela tudo). Faz 500 anos que a característica nacional é permanecer, mão estendida, à espera do fruto que a terra bendita nos vai fazer cair na palma da mão.

Company logo 3As benesses inerentes à terra brasileira atrapalham mais que ajudam, acreditem. Nações menos aquinhoadas nos dão a prova. Senão, vejamos.

Estes dias, dona Dilma está viajando pela Europa do Norte: a Suécia primeiro, a Finlândia depois. São nações com escassas riquezas minerais, clima rude, pouca diversidade biológica, agricultura quase impossível, nem uma gota de petróleo, praias frias e infrequentáveis, vizinhos nem sempre cordiais – a Finlândia é colada à Rússia, da qual, aliás, já foi província.

Company logo 1No entanto… são países ricos. Em 2013, a Suécia registrou 58 mil dólares de PIB por habitante, enquanto a Finlândia chegou a 49 mil dólares. Para efeito de comparação, o Brasil não passou de 11 mil dólares. E como é possível que territórios pouco habitados e abandonados pela natureza possam enriquecer dessa maneira?

Company logo 5Dona Dilma há de ter escrito um lembrete na caderneta pra não esquecer de perguntar isso a eles. Aos figurões suecos, ela vai indagar como é possível um país de natureza pobre, com menos de 10 milhões de habitantes, ter 220 empresas(!) implantadas em solo brasileiro, que dão emprego a 50 mil conterrâneos. Na pequena Finlândia, ela perguntará como fez um país de pouco mais de 5 milhões de almas, onde mal e mal se cultiva um pé de repolho, para estabelecer 50 empresas(!) em solo tupiniquim.

Quem sabe ela não trará a receita pra nos tirar do buraco? Há que ser otimista, camaradas!

Pixuleco

José Horta Manzano

Pixuleco 1Quando Luiz Inácio da Silva, o Lula, chegou ao posto máximo do Executivo, o sorriso abriu-se-lhe de orelha a orelha. Sentiu-se numa nuvem. Deu-se conta de que, mais ainda do que já estava acostumado, bastava levantar um dedinho pra que todos se curvassem à sua vontade. E a seus caprichos. Era paparicado por grandes e pequenos, por ricos e pobres. Um verdadeiro estado de graça.

Não sei quanto tempo terá durado o inebriamento. Terão sido alguns meses. Passado o encanto inicial, o figurão investiu-se, corpo e alma, na batalha da reeleição. Precisava porque precisava garantir a permanência no trono. Aquilo era bom demais pra ser descurado.

Pixuleco 4Embora a expressão ainda não estivesse na moda, «fez o diabo». Paralelamente à distribuição de bolsas variadas a clientela cativa, cuidou de alimentar oportunistas e aliados de circunstância. Cargos, sinecuras, benesses, mensalões e petrolões estão aí pra provar.

Reeleito, deu-se conta de que o horizonte de número um se fecharia em quatro anos. Passado esse tempo, impossibilitado de competir mais uma vez, teria de ceder o lugar. A perspectiva não há de lhe ter agradado.

Pixuleco 6Que não fosse por isso. Faria o necessário para escolher um sucessor sem graça, sem carisma, sem potencial para fazer-lhe sombra. Arregaçou as mangas e mandou pra escanteio – para usar sua costumeira metáfora futebolística – todos os postulantes que lhe pudessem prejudicar a popularidade. Foi assim que optou por dona Dilma, aquela que as más línguas chamaram de poste.

Nosso líder fez bem questão de colar seu nome ao dela. Deixou bem claro que, por detrás da desconhecida, continuaria ele dando as cartas. Gente simples chegou a convencer-se de que aquela era «a muié do Lula».

Pixuleco 5Durante todo o primeiro mandato do «poste», o Lula chamou para si os holofotes. Não faltou a cerimônias, inaugurações, seminários, convenções e palanques. Reforçou a ideia de que a «muié» fazia tudo o que o «marido» mandava. Ele e ela eram a mesma coisa.

Nenhuma alegria é eterna. Não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe, como diziam os antigos. Um belo dia, já no segundo mandato da «muié do Lula», o desastre ficou evidente: inflação, desemprego, carestia, roubalheiras, corrupção, obras inacabadas, promessas não cumpridas, um pandemônio.

Faz quase um ano que nosso guia vem tentando descolar sua imagem da do «poste». É missão doravante impossível. O demiurgo, a pupila, o partido e até aliados oportunistas caíram no mesmo pote de cola. O mesmo visgo os envolve e os iguala.

Pixuleco 3Se faltasse uma prova, que se observem os pixulecos, aqueles bonecos que vêm se tornando símbolo da bandalheira. A atual presidente, o governador de Minas, o prefeito de São Paulo já foram homenageados com a própria imagem inflada e elevada às alturas.

Pixuleco 2Mas reparem bem: o pixuleco mais importante nunca está muito longe. Para o bem ou para o mal, o Lula continua exercendo seu papel de puxador de cordão.

O futuro chegou e, como havia almejado, nosso guia continua debaixo dos holofotes. Não exatamente como ele tinha sonhado, é verdade.

Mas, que diabo, não se pode ter tudo na vida! Ou não?