Das duas, uma

José Horta Manzano

Não vi as imagens, mas li que doutor Bolsonaro andou de novo fazendo das suas. Foi ontem, por ocasião das manifestações que ele ajudou a convocar, e que serviam a dois propósitos: louvação do próprio convocador (o presidente) e execração dos ‘inimigos’ (que é como extremistas primitivos enxergm todos os que não pensam como eles).

Segundo o Estadão, doutor Bolsonaro teve contacto direto com 272 pessoas, manuseou 128 celulares alheios, apertou a mão de 140 pessoas! Nestes tempos de pandemia e confinamento, é atitude nojenta. Estamos acostumados às extravagâncias do capitão, mas ontem ele subiu mais um degrau da escada da estupidez.

Das duas, uma
Primeira suposição. Doutor Bolsonaro, apesar de usar máscara cirúrgica na última ‘laive’ que fez para seu clube, não acredita na ameaça do coronavírus. Continua certo de que é «invenção da grande mídia». Se assim for, está dando prova de viver num universo paralelo. O terrível exemplo que ele está dando tem o poder de contaminar meio Brasil. Os mais humildes, que viram as imagens, vão se dizer: «Ué, se ele pode, eu também». E a porteira estará aberta para a contaminação exponencial do povo brasileiro.

Segunda suposição. Doutor Bolsonaro sabe que está infectado. Não divulgou porque é contrário a seus interesses. Mesmo sabendo que está potencialmente contagioso, teve contacto voluntário com centenas de pessoas. Se assim for, temos na chefia do Executivo um perigoso delinquente que não merece o trono em que está sentado.

Aposentadoria ‘baby’

José Horta Manzano

Aposentadoria 2O jornal italiano La Repubblica, de Turim, publicou artigo interessante sobre inacreditáveis dispositivos que distorcem o sistema brasileiro de aposentadorias.

Os italianos falam de cátedra. Até 20 anos atrás, aquele país também concedia regalias fora do comum a determinadas categorias de cidadãos. Em alguns casos, 15 anos de contribuição bastavam para dar direito ao benefício para o resto da vida. A reforma de 1995, se não corrigiu todas as falhas, amenizou efeitos perniciosos.

A língua italiana tem até uma expressão para definir aposentadoria concedida aos que ainda estão longe de completar 65 anos. Dizem “baby pensioni” – aposentadorias de bebê. O diagnóstico de Anna Lombardi, autora do artigo, é de que essas pensões «de bebê» põem o Brasil de joelhos. E tem razão.

O estado já periclitante das finanças nacionais é agravado pelas larguezas do sistema de aposentadorias, verdadeiro poço sem fundo. Signora Lombardi explica a seus leitores o chamado «efeito Viagra».

Aposentadoria 1Segundo ela, muitos desses jovens aposentados se casam (ou se casam de novo) tarde, pelos 60 ou 70 anos. Escolhendo esposa de pouca idade, fazem da cônjuge a herdeira da aposentadoria, que lhe será paga por décadas. O sistema é perverso porque, em casos assim, dá benefício a quem ainda está em idade de trabalhar. Não é justo que toda a sociedade deva pagar.

Não sou especialista em assuntos previdenciários, mas confesso que, em meu círculo próximo, conheci casos surrealistas. Certas pensões são concedidas às filhas do falecido, sem limite de idade, desde que permaneçam solteiras. Há senhoras que, embora vivam com um companheiro, evitam casar-se para não perder o direito à pensão.

É curioso que o reconhecimento de uniões estáveis por parte do Estado brasileiro seja estrada de mão única. A união é aceita para acrescentar benefícios, mas não para coibir abusos. São coisas nossas.

Aposentadoria 3Uma das grandes oportunidades perdidas por Luiz Inácio da Silva – entre outras tantas – foi a reforma que nosso sistema de aposentadorias reclama há décadas. Quando ele estava no apogeu da popularidade, teria sido fácil. Hoje ficou bem mais complicado. É a herança problemática que ele recebeu dos antecessores e transmitiu, tal e qual, aos sucessores.

Seja como for, vista a desaceleração da taxa de crescimento da população, o pagamento de benefícios tende a tornar-se o quebra-cabeça maior das finanças nacionais. Do jeito que está, o sistema não aguenta mais dez anos.

Nosso guia, que julga ter ‘reinventado’ o Brasil, será lembrado por sua inação quando os ventos estavam favoráveis. É pena.

Falta espaço

José Horta Manzano

Quem já teve ocasião de chegar a Londres de avião deve ter reparado ― se o tempo estava claro e sem névoa, coisa rara por aquelas bandas ― que a metrópole britânica é composta de casinhas baixas, cada uma com seu jardinzinho e muitas com quintal.

Como é possível que uma aglomeração de mais de 12 milhões de almas possa se dar ao luxo de ter aquela multidão de casinhas, cada uma com seu terreno, sua grama e suas flores? É ainda mais intrigante se pensarmos que o Reino Unido, com uma superfície comparável à do Estado de São Paulo, abriga 60 milhões de habitantes.

E a Europa, então, com seus 750 milhões de viventes? Deveria ter a aparência de um formigueiro, mas não tem. Qual é o segredo?

Aglomeração urbana em pouco espaço

Aglomeração urbana em pouco espaço

Uma dispersão populacional lenta, como a Europa conheceu ao longo dos últimos dois milênios, favorece o estabelecimento dos habitantes de maneira pouco concentrada, mais equilibrada. Já o povoamento rápido que caracterizou o Brasil no século XX privilegiou o inchaço de aglomerações.

Entre 1900 e os dias atuais, a população europeia não chegou a dobrar ― seu aumento foi de 76%. No mesmo período, a população do Brasil mais que decuplicou, num aumento superior a 1000%. As cidades oferecem melhores perspectivas que o campo. É compreensível que os numerosos novos habitantes de nosso País, imigrantes ou nascidos na terra, tenham preferido aglomerar-se em meio urbano.

A enorme procura por espaço para morar, aliada à precariedade dos transportes, faz que o preço da terra suba às alturas. O resultado é que os terrenos oferecidos têm superfície ridiculamente exígua. Casas e prédios são construídos praticamente colados uns aos outros, dando esse aspecto apinhado, que lembra vagamente a China ou a Índia.

Nosso País é palco de contrastes difíceis de explicar a olhos estrangeiros. Latifúndios de milhares de hectares se estendem pelo interior das terras, vazios, sem um casebre para contar a história. Pode-se percorrer quilômetros sem encontrar vivalma. Os brasileiros se amontoam em aglomerações ultradensas, dentro de perímetros minguados, fato que contribui para estimular comportamentos agressivos e suas nefastas consequências.

Não só as pessoas vivem empilhadas, mas também as plantas, como nos mostra artigo publicado no Correio Braziliense.

Plantas em pirâmide Crédito: Correio Braziliense

Plantas em pirâmide
Crédito: Correio Braziliense

Alguns até podem encontrar uma certa beleza plástica nesse estado de coisas, mas não passa de estética. No fundo, o bom mesmo é viver em sua casinha, com seu jardinzinho, sem vizinho em cima, sem vizinho embaixo, com espaço para abrir os braços.

Infelizmente, a persistir o estado calamitoso do transporte público nas aglomerações brasileiras, a casinha com terreno generoso ainda é um sonho longínquo.