Coisas boas do Brasil

José Horta Manzano

A plataforma que hospeda este blogue me informa diariamente quais foram os termos de busca através dos quais navegantes meio perdidos foram direcionados para este site. Como é compreensível, aqueles que escarafuncham assuntos um tanto específicos, sobre os quais pouca gente escreve além deste blogueiro, vêm parar aqui.

Um bom exemplo é «Rapaziada do Brás», um post que mandei ao ar há seis anos e que conta a história de uma valsa composta há mais de 100 anos. Quem busca essa música pelo título acaba caindo no Brasil de Longe. Há muitos outros exemplos de turistas que batem à minha porta depois de ter buscado termos pouco explorados por outros escribas.

No entanto, há uma expressão recorrente que, em vez de me alegrar por ver a casa cheia, me intriga e me entristece. Não se passa um dia sem aparecerem visitantes que chegam a esta casa após usarem, como termo de busca, a expressão «coisas boas do Brasil».

Me incomoda um bocado perceber que tanta gente entrega a um motor de busca a tarefa de encontrar as coisas boas do próprio país. Não acredito que os que agem assim façam isso por ingenuidade ou por preguiça. Portanto, a conclusão é uma só: está mesmo difícil encontrar coisas boas no Brasil de hoje. Sozinho e sem ajuda, um vivente não consegue. Será mesmo? Vamos ver.

É verdade que temos pobreza, desigualdade social, políticos desonestos, governantes incapazes, funcionários corruptos, criminalidade descontrolada, serviços públicos precários. Não é de hoje que vivemos num país atrasado, imbuído do espírito predador dos primeiros exploradores que aqui vinham pra enricar a todo custo, ainda que para isso tivessem de semear destruição e morte. Os exploradores do pau-brasil e os donos de escravos se foram, mas a índole predatória que os motivava ficou e está aí até hoje. O brasileiro carrega essa herança pesada, que atravanca e emperra o avanço do país. «Mateus, primeiro os teus» e «Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro» são ditos que combinam com o que acabo de dizer.

Mas nada disso é novidade! Nascemos e fomos criados nesse caldo. No fundo, a busca pelas «coisas boas do Brasil» pode até ser bom sinal. Pode ser o comecinho do despertar de uma consciência que andava anestesiada. O crescimento exponencial das redes sociais levou informação ao grande público. Nem sempre são novidades de qualidade. Há muito boato, muita notícia falsa, mas o fluxo contínuo de informação chacoalha uma população que, sem isso, se contentaria com a vizinha tagarela ou com o capítulo da novela.

Prefiro entender esses questionamentos como um despertar de consciência. Às favas a modéstia. Fico alegre em saber que aqueles que procuram «coisas boas do Brasil» sejam direcionados para a sala de visitas deste blogueiro, que escreve com sotaque de outros tempos. Talvez esse sotaque perdido seja justamente uma das portas de entrada do Brasil extraviado. Quem sabe.

Tripudiar

José Horta Manzano

Não há consenso sobre a origem do termo tripúdio. A corrente mais forte acredita que a palavra se componha de dois elementos: tri (do latim tres = três) + pud (do latim pes,pedis = pé). Teria origem em antiga dança festiva, organizada em regozijo por vitória conquistada. Era marcada com batidas de pé em compasso ternário, o que explica a presença do ‘tri’. Além disso, já foi proposta a hipótese de o verbo alemão atual trippeln (=trotar) ser descendente do tripúdio. O verbo trepar, presente nos falares ibéricos, é visto por alguns como membro da mesma família. Mas não há consenso.

Em português atual, a palavra tripúdio e o correspondente verbo tripudiar são muito raramente usados no sentido próprio de dançar saltitando ou sapateando. O uso mais frequente é no sentido figurado, com o significado bastante sádico de alegrar-se com a derrota do adversário ou com a desgraça de alguém, aproveitando a ocasião para debochar do infeliz. É verdadeiro sapateado em cima do caixão, imagem evocada por Noel Rosa, num momento de masoquismo, ao implorar pra ser tripudiado(*). O sentido de tripúdio é próximo do da palavra alemã Schadenfreude, que exprime a alegria que alguém sente com a desgraça alheia.

By R. Paschoal, ilustrador

Em entrevista a uma jornalista, doutor Bolsonaro tripudiou. Querendo fazer graça, veio com a conversa de que o embaixador do Brasil em Washington «tem que ser filho de alguém, então por que não pode ser meu?». O presidente debochou dos demais candidatos que, embora infinitamente mais bem qualificados para o cargo, não são filhos do presidente. Debochou da frustração dos que foram abandonados pelo caminho.

Pra piorar, disse, com todas as letras, que o embaixador é «um cartão de visitas» do Brasil. Não é. Embaixador é trabalhador da sombra. Há pouca gente capaz de se lembrar do nome dos três últimos ocupantes da chefia de nossa embaixada em Washington, a mais importante de todas. Embaixador, antes de ser ‘cartão de visitas’, é alto-funcionário, tarimbado, flexível quando é preciso, firme quando tem de sê-lo, profundo conhecedor do movimento contínuo entre as potências do planeta, a par das idas e vindas do mercado mundial. Tem de dispor de sólida formação em línguas, relações internacionais, macroeconomia, problemas brasileiros, cenário de trocas econômicas internacionais (exportação e importação de cada país). É muita coisa pra um inexperiente ‘filho de presidente’.

Enquanto doutor Bolsonaro tripudia, quem perde mesmo é o Brasil. Mas ele não está nem aí. Beneficiou o filho, que era o que interessava.

(*)Fita amarela
Noel Rosa
(…)
Se existe alma, se há outra encarnação
eu queria que a mulata sapateasse no meu caixão

Aqui na gravação original de 1933 por Francisco Alves e Mário Reis

Terrivelmente cristão

José Horta Manzano

Outro dia, doutor Bolsonaro usou o advérbio terrivelmente ao sugerir que poderia nomear um ministro de confissão neopentecostal para o STF. Declarou, sem pestanejar, que queria alguém ‘terrivelmente evangélico’. O grande público recebeu a notícia boquiaberto, mormente porque ele não pontuou a frase com o característico ‘talquei’.

O presidente reincidiu no último fim de semana. Falando ao público presente a um culto neopentecostal, confirmou que o advogado-geral da União é pastor e ‘terrivelmente evangélico’. Pra coroar o discurso, declarou-se ‘terrivelmente cristão’, sob uma chuva de aplausos do auditório cativo. E lá veio o ‘terrivelmente’ de novo. Gostaria de sugerir ao presidente modificar, da próxima vez, o palavreado, que me parece impróprio.

Terrível é palavra irmã de terror, ambas derivadas do verbo latino terreō, que significa fazer tremer, meter medo, causar terror. Propriamente, a boa definição do terror é o medo grande, assinalado pela cor pálida, que provoca tremedeira nos membros e faz dobrar os joelhos.

by Frédéric ‘Hephez’ Simon, desenhista francês

Quando doutor Bolsonaro se diz ‘terrivelmente cristão’, é de bom-tom acreditar que não tenha intenção de botar medo em ninguém, nem de causar tremedeira e obrigar o bom povo brasileiro a dobrar os joelhos. (Cá entre nós, ainda que ele tivesse esse desejo oculto, não ousaria externá-lo assim, sem mais nem menos, aos ouvidos de todos.)

Portanto, nem que seja pra salvar as aparências, sugiro ao presidente que, de uma próxima vez, abandone o ‘terrivelmente’. Pra ficar em família, pode usar outra derivação do mesmo verbo terreō: o particípio perfeito térritum, que deu em português as palavras intérrito e impertérrito. Concordo que são pouco usadas, mas valem o que valem. Ambas têm o mesmo significado: que não tem medo, que não sente terror, ousado, bravo, valoroso, intrépido, impávido, valente.

Se doutor Bolsonaro, ousado como é, se declarar ‘cristão impertérrito’ vai causar frisson. Jornalistas hão de correr para o dicionário pra ver o que é. Assim tudo termina em paz: ele acaba usando derivação do mesmíssimo verbo ao qual está acostumado e, de quebra, em vez de dizer que provoca terror, estará dizendo que não sente medo. É autovalorizante, não? Ele vai abafar, como se dizia antigamente. Declarar-se valente combina com o espírito do capitão. Convém não terminar a frase com o irritante ‘talquei’, senão estraga tudo.

Ícaro moderno

José Horta Manzano

Você sabia?

Franky Zapata é piloto profissional de jet ski. Apesar do nome de revolucionário mexicano, o moço é francês de Marselha. Tem uma coleção de medalhas conquistadas em campeonatos nacionais e internacionais.

Acontece que Monsieur Zapata é buliçoso e criativo. Com um grupo de amigos, trabalhou duro durante anos a fim de construir o que chamou de Flyboard. O nome da geringonça corresponde ao que ela faz: é uma prancha que voa. Desde 2012, ele comercializa exemplares de seu invento.

Trata-se de uma prancha de diminutas dimensões, sobre a qual cabe apenas um homem de pé. Debaixo estão instalados os turbopropulsores. O reservatório de combustível fica… adivinhem onde? Numa mochila, nas costas do piloto. Precisa ser meio maluquinho, não?

Bom de marketing, o rapaz achou que precisava dar ao mundo um exemplo marcante do funcionamento da engenhoca. A travessia do Canal da Mancha – 35km entre França e Inglaterra – é o sonho de todos os que inventam algum objeto voador. Desde que o pioneiro Blériot atravessou o canal com seu precário avião, em 1909, muitos seguiram sua iniciativa. Nosso campeão de jet ski sentiu que tinha chegado sua vez.

Franky Zapata de ‘Flyboard’

Depois de uma tentativa infrutifera em julho, Franky Zapata conseguiu atravessar o canal neste domingo 4 de agosto. Decolou de Sangatte, uma praia na costa francesa, e pousou em St. Margaret’s Bay (Inglaterra), 20 minutos mais tarde. Voou a uma altura de 15-20 metros, a uma impressionante velocidade média de 160-170km/h. Foi acompanhado por helicópteros. No meio do percurso, um barco estava a postos, esperando por ele. Chegando lá, o aventureiro pousou por alguns segundos, só pra apanhar nova mochila. Em outras palavras: reabasteceu.

Um grupo de cinegrafistas disse adeus ao piloto quando levantou voo na França e outro grupo saudou sua chegada à Inglaterra. O engenhoso inventor já foi sondado pelo exército francês, interessado na utilidade que o Flyboard possa ter para o Ministério da Defesa.

Ainda bem que o voo experimental ocorreu antes do Brexit. Se tivesse sido depois de 31 de outubro, Monsieur Zapata poderia até ser preso assim que pisasse solo inglês. Seria processado por ter entrado no país através de passagem fronteiriça não autorizada. E era bom que tivesse o passaporte no bolso, se não ia ser ainda pior.

Para ter uma ideia de como é ver um homem voando, assista à chegada do aventureiro à praia inglesa neste videozinho de um minuto.

Imagem denegrida

Eliane Cantanhêde (*)

Bolsonaro diz que os dados do Inpe sobre desmatamento “denigrem a imagem do Brasil lá fora”, mas muita gente boa acha que quem denigre é o próprio Bolsonaro, ao querer esconder a verdade, anunciar mineração americana em terras indígenas, cortar cabelo na hora da audiência a um

by Neltair ‘Santiago’ Rebés Abreu (1950-), desenhista gaúcho

ministro da França, demitir em seu próprio favor o fiscal que cumpriu seu dever ao multar pesca em área proibida e, enfim, ao dar tantos passos retrógrados numa área em que o Brasil é superpotência: o meio ambiente. A verdade dói, a mentira destrói.

(*) Eliane Cantanhêde é jornalista.

Falta de civilidade

«Não é de hoje que se nota uma deterioração das virtudes cívicas na sociedade brasileira. São vários os sintomas desse empobrecimento das relações humanas: a diminuição do respeito pelo outro, a grosseria com vestes de espontaneidade, a incapacidade de ouvir quem pensa de forma diferente, a desconsideração pelas gerações mais velhas, a indiferença com quem presta serviços mais humildes, o ataque pessoal diante da falta de argumentos no debate público e tantas outras manifestações que não apenas geram desgosto quando são presenciadas, mas produzem profunda desesperança com o futuro do País.»

Editorial Estadão, 4 agosto 2019. Para ler a continuação, clique aqui.

Exame para presidente

José Horta Manzano

Quando a gente escreve muito, não tem jeito, acaba se repetindo. Bom, tem uma coisa. Pra todo observador do mundo, há uma justificativa: escândalos, enormidades e bizarrices se repetem. Não passa um dia sem alguém voltar a dizer a mesma besteira, cometer a mesma asneira, tropeçar na mesma pedra. Assim é, não há como mudar. Vamos agora ao que interessa.

Será que o distinto leitor confiaria sua saúde aos cuidados de um indivíduo não formado, que não tivesse, pendurado na parede do consultório, diploma de habilitação para a profissão? Contrataria para defendê-lo no tribunal, numa causa cabeluda, um sujeito que não tivesse concluído uma faculdade de direito? Deixaria alguém que não tivesse cursado engenharia ou arquitetura construir seu sobrado? A resposta a todas essas perguntas é, sem dúvida, um sonoro não.

Pra dirigir um simples automóvel, a lei exige do condutor que tenha tido sucesso no exame de habilitação. Enfermeiro tem de ter estudo e diploma. Até para funções mais simples como faxineiro, vigia e operador de empilhadeira, exigem-se experiência anterior e referências.

Agora reflita um instante e diga-me se não é uma irresponsabilidade confiar o cargo mais importante do país – a Presidência da República – a alguém que não estudou para isso nem deu prova de estar preparado pra exercer o cargo. Em linguagem imaginária, pode-se dizer que essa pessoa vai dirigir o Brasil sem ter carteira de habilitação. Que vai cuidar dos males do país sem ter conhecimentos médicos. Que vai construir o futuro da nação sem a menor noção de engenharia. É loucura ou não é?

A meu ver, o voto de sei lá quantos milhões de eleitores não basta. Pra complicar, o voto no Brasil é obrigatório, fato que arranha a legitimidade do pleito. Quantos votaram por convicção e quantos compareceram unicamente pra não levar multa? Ninguém sabe. Seja como for, não são três ou quatro debates mambembes e engessados que permitem conhecer profundamente cada candidato.

Acredito que a Constituição deveria aumentar as exigências para os candidatos a presidente. Ser brasileiro nato e ter 35 anos é muito pouco. Tinham de enfrentar um exame, exatamente como qualquer brasileiro que pleiteia um emprego ou um diploma. Exame escrito e oral. Teriam de demonstrar que, além de serem alfabetizados, têm conhecimento básico de como funcionam as instituições, de como o Brasil se posiciona em meio às demais nações. Tinham de mostrar noções básicas de Geografia e História. Não me refiro a detalhes pontudos, falo de noções básicas.

Uma prova teria de ser exigida também de candidatos a outros cargos eletivos, mormente senadores e deputados federais. Um exame bem estruturado nos teria evitado os palhaços (profissionais e virtuais) que aparecem vez por outra. Um Lula, uma Dilma e um Bolsonaro não teriam como passar pela prova. A ausência desse trio infernal na chefia do Executivo teria evitado graves problemas que nos castigam agora e que continuarão a infernizar gerações inteiras de brasileiros.

Os prejudicados pela incapacidade de nossos dirigentes somos nós e nossos compatriotas inocentes. Estamos todos pagando caro pela incapacidade (apimentada pela má-fé) de dirigentes, indivíduos que bem podiam estar fazendo outra coisa na vida em vez de afundar o país.

Prezado Jair

Eduardo Affonso (*)

Prezado Jair,

Lula não inventou a corrupção nem Dilma, o ridículo. Tampouco é sua a invenção da falta de compostura, civilidade e empatia. Mas é preciso que se dê conta de que governa o Brasil, não a Bolsolândia. Que 57 milhões de brasileiros o escolheram porque queriam no poder um “homem comum”, com aqueles princípios morais tão escassos nos governos anteriores. E estes sete meses não fizeram jus a essa esperança.

O sentimento anti-PT ajudou a elegê-lo. A repulsa ao seu comportamento pode trazer o passado de volta. O senhor tem até outubro de 2022 para começar a se portar como um presidente. Não espere chegar lá para refrear esse falastrão descontrolado. Pode ser tarde demais.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro. A sequência do artigo está aqui.

Favas contadas?

José Horta Manzano

Quando foi anunciada, a provável nomeação de um dos bolsonarinhos para chefiar a representação diplomática mais importante do Brasil no exterior parecia boato. Ou ‘fake news’, como convém dizer hoje. Era tão fora de esquadro, que nem as carolas frequentadoras da capela dos Aflitos acreditaram.

O passar do tempo, que cicatriza feridas, serve também pra acostumar o homem a consentir com ideias que, ainda ontem, rechaçava. É o que se deduz da chamada de hoje do Estadão: o moço terá de completar uma tarefa antes de se mudar para o palacete de Washington. Está subentendido que a mudança está no papo, que são favas contadas. Será mesmo?

Chamada Estadão, 2 ago 2019

Não é tão garantido assim. Ainda tem ainda uma pedra no caminho. Ou o primeiro-filho contorna essa pedra, ou não passa. Refiro-me ao Senado da República. Como bem sabe o distinto leitor, os senadores são 81, três pra cada unidade federativa. Considerada a votação que receberam, são mais legítimos do que o próprio presidente da Republica. Enquanto doutor Bolsonaro recebeu em torno de 57 milhões de votos, o conjunto dos senadores foi eleito com mais de 100 milhões. Ou seja: aqueles 81 personagens representam a totalidade do eleitorado; estão lá pra defender todos os brasileiros.

Todo embaixador, antes de ser efetivado no cargo, tem de ser aprovado pela maioria dos senadores. Doutor Bolsonarinho, goste ou não, recém-casado ou não, filho de presidente ou não, fâ ardoroso de Trump ou não, respeitado fritador de hambúrguer ou não, ignorante de questões internacionais ou não, terá de passar pelo crivo dos sisudos senadores. Em votação secreta! Vamos ver se passa.

Inveja

José Horta Manzano

Nas aulas de catecismo, a gente aprendia que inveja era pecado feio, daqueles de mandar direto pro purgatório. Será que a meninada ainda tem aula de catecismo? Ou será que, do batismo, pulam direto ao pagamento do dízimo? Pouco importa – o fato é que inveja continua sendo, no mínimo, defeito do qual a gente deve se preservar. Ainda que, em certos momentos, não seja fácil seguir o preceito.

Será que o telefone celular do distinto leitor já foi algum dia invadido? Ou, como se costuma dizer atualmente, macaqueando a sintaxe inglesa: Será que o distinto leitor já ‘teve seu celular invadido’? De qualquer maneira que se pergunte, a resposta será mui provavelmente negativa. Não, nem o distinto leitor, nem este blogueiro jamais fomos atormentados por piratas informáticos.

É natural. Somos gente normal. Os ataques têm sido dirigidos contra extraterrestres tais como: deputados, ministros, procuradores, juízes, desembargadores, governadores, senadores. Até o presidente da República entra da lista das vítimas. Pelo que li, a turminha simpática de Araraquara pirateou a corte e os fidalgos de nossa maltratada República. Foi um amplo arrastão que derrubou todos os que ofereciam algum interesse aos piratas.

Só fico pensando naqueles que não foram pirateados. Já pensou? Com todos os seus colegas, conhecidos e vizinhos na lista dos atacados e você… neca! Ai, ai, ai. Deve dar uma inveja de roer unha. Imagine só: fica patente a desimportância do sujeito. Nem um piratinha de Araraquara se interessa por ele. É de doer.

Existe uma solução radical pra acabar de vez com esse problema. Basta renunciar ao celular. Dizem que não é fácil. Tenho até notícia de cursos, com personal coach e tudo, que cobram (caro) por um estágio de uma semana em período integral, sem smartphone. Parece que o vício desaparece. Os graduados da República vão ter de passar por isso. É a contrapartida exigida daqueles que subiram ao Olimpo. Ou será que têm intenção de continuar dizendo asneiras ao telefone?

Acordo Comercial Canadá-Europa

José Horta Manzano

Mais uma vez, agricultores e cidadãos franceses estão em pé guerra. Desta vez, o estopim foi a ratificação, pela Assembleia Nacional, do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Canadá. Para entrar em vigor, esse tratado, assinado anos atrás, precisa ser referendado por todos os estados-membros da UE. Agora foi a vez da França. Passou pela assembleia semana passada.

Dado que o presidente Macron conta com maioria no parlamento, o acordo foi aprovado sem problemas, ainda que alguns deputados do partido presidencial tenham votado contra. Ah, não deu outra. Dia seguinte, agricultores furiosos começaram a atacar sedes provinciais do partido governamental. Uma delas foi apedrejada. Outra, incendiada. Houve até uma que amanheceu murada – uma parede de tijolo tinha sido levantada na fachada! Já faz uma semana, mas a raiva ainda não desapareceu. Não se passa um dia sem que um deputado seja incomodado pelos descontentes.

CETA: Acordo contestado

Como o Brasil, o Canadá é país onde a agricultura segue padrões industriais, com plantações geneticamente modificadas, uso de pesticidas, semeadura e colheita mecanizadas. Isso assusta muita gente na velha Europa. A definitiva entrada em vigor do acordo com o Canadá periga demorar. Nem metade dos países europeus ratificou o acordo até agora. Foram só 13. Faltam ainda 14.

A acordo comercial UE-Mercosul vai pelo mesmo caminho. Quem achar que em um ou dois anos estará ratificado pelos 27 membros, pode tirar o cavalo da chuva. Se o Canadá assusta os agricultores europeus, o Brasil os apavora. Os produtos da agricultura brasileira são vistos como ameaça por diversas razões: concorrência devido ao baixo preço, risco para a saúde em decorrência do uso de sementes geneticamente modificadas (transgênicas), toxicidade aumentada em consequência do uso de pesticidas proibidos.

Agricultores e ecologistas europeus farão tudo o que estiver em poder deles pra frear a entrada em vigor do livre comércio com o Mercosul. Temos pela frente anos e anos de tergiversações.

Nota
O nome do acordo com o Canadá é C.E.T.A. Oficialmente, são as iniciais de Comprehensive Economic and Trade Agreement. Como essa expressão soa técnica demais, o acrônimo acabou sendo entendido como Canada-Europe Trade Agreement = Acordo comercial Canadá-Europa. Fica mais a gosto.

De helicópio

José Horta Manzano

Já ouvi gente que chama helicóptero de helicópio – o que, aliás, fica muito simpático. Helicópio é mais harmonioso que helicóptero, desliza mais suave, com menos estrépito. Helicóptero, com esse p-t malsoante aí no meio, parece que está com o motor rateando. E aeronave de um solitário motor depende desesperadamente do bom funcionamento do dito cujo. Melhor ir de helicópio mesmo.

Doutor Bolsonaro mandou um helicópio da FAB, um daqueles fortões, grande como um ônibus, buscar a família pra assistir à festança do casamento de um dos bolsonarinhos. O noivo é aquele que se prepara pra assumir a representação do Brasil junto aos Estados Unidos da América – uma senhora responsabilidade! Como seria bom se o simples ato de se casar trouxesse sabedoria e conhecimento ao jovem esposo… Vamos, chega de devanear. Vamos pôr os pés na terra.

Os jornais se lambuzaram com a notícia. Falo da carona que o presidente ofereceu à família. Falando nisso, que família linguaruda! Um dos primos não se conteve e, deslumbrado, filmou tudo e mandou para o éter (em português moderno = fez uma live). Pronto, estava arrumada a confusão.

Tirando o grotesco da situação, restam os fatos. Agora que Oropa, França e Bahia estão a par do que aconteceu, precisou explicar. Doutor Bolsonaro foi curto e grosso: «se eu vou e tem lugar sobrando, vou mandar minha família a pé?». Quem precisa de uma explicaçãozinha é ele.

Primeiro, o helicópio não é dele, é nosso. Portanto, haja lugar ou não, regras existem e têm de ser respeitadas. Segundo, o presidente pode muito, mas não pode tudo. Num país civilizado, ocorreria de outra maneira. Sem dúvida, desde que o presidente autorizasse, os convidados teriam permissão para viajar em sua companhia. Só que teriam de pagar a passagem. É isso mesmo.

Como se calcula? Não sou eu quem dirá. A FAB tem funcionários capacitados pra esse tipo de aritmética. Que custe caro ou barato, não cabe a nós, contribuintes (ou pagadores de impostos, como preferem alguns) arcar com as despesas de transporte da família que vai aos comes e bebes oferecidos pelo bolsonarinho. Que cada um pague de seu bolso.

Falando nisso, quem será que pagou a conta da comilança? Será que foi na base da carona também? Se minha avó estivesse viva, diante do deslumbramento dos parentes, havia de recitar:

Eu não vou na sua casa
Sua casa tem ladeira
Seus cachorro tão latindo
Sua família é faladeira.

É, doutor Bolsonaro, família não se escolhe. Que remédio?

Crista alta

José Horta Manzano

Talvez o distinto leitor já se tenha dado conta: doutor Bolsonaro está mais manso. Oh, não digo que se tenha civilizado de todo. Longe disso! Continua soltando coices, dando pinotes e relinchando feito potro bravo. Mas, aos poucos, vai-se amansando.

Lembram-se da bravata inicial, aquela da transferência da embaixada em Israel de Tel-Aviv pra Jerusalém? Essa provocou até a visita do premiê israelense, única personalidade não latino-americana presente à cerimônia de tomada de posse. Pois a veleidade já foi pra lata do lixo.

De lá pra cá, à força (ou por falta de força), fanfarronices e outras farofas têm sido varridas. A Cancún brasileira na baía de Angra dos Reis, em área de reserva natural? Pode esquecer! E por quê?

by Alisson Affonso (1979-), artista gaúcho

Porque, caso ele ousasse mandar tocar um projeto desse calibre, o mundo civilizado lhe desabaria sobre o cocuruto. Receberia ameaças de toda parte. Tratados de cooperação seriam denunciados. Ajuda financeira seria cortada. Retaliação pesada viria por aí.

O planeta tem regras, algumas escritas, outras habituais ainda que não contratuais – customary, como dizem os ingleses. Só quem pode passar por cima delas é quem tem muuuito poder. Donald Trump, por exemplo, que tem nas mãos as rédeas da maior potência do planeta.

Estados estão sujeitos a um emaranhado de leis, obrigações, dívidas, deveres. Não dá pra fazer de conta que o Brasil é um planeta à parte. Não é assim que funciona. Doutor Bolsonaro é café pequeno perto dessa gente graúda. Vai ter de se amansar, goste ou não.

Aliás, já deve estar se dando conta de que cada pronunciamento seu é um desastre que acaba sendo prejudicial pra ele mesmo. Embora não seja um luminar, tampouco é totalmente tapado. Portanto, aos poucos, de tanto levar pancada, vai acabar aprendendo. Vai baixar a crista e acabar se tornando um presidente comum. E que tome cuidado e ande na linha, que é pra não terminar em Curitiba, como um conhecido antecessor.

Uma pergunta

Ascânio Seleme (*)

Por que pessoas que operavam no mercado sofisticado de bitcoin guardavam quase R$ 100 mil em dinheiro vivo dentro de um armário? Não existe a menor possibilidade de alguém comprar a moeda digital mandando reais pelos Correios. Carregar malas de dinheiro pra lá e pra cá, transportar dólares escondidos na cueca e guardar cédulas em caixas dentro de casa é mais parecido com coisa da história recente da corrupção nacional.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. O texto integral foi publicado n’O Globo de 28 julho 2019.

Seres fictícios

Eduardo Affonso (*)

“Pela invasão do meu celular e pelas mensagens enviadas, imaginei que se tratasse de alguma armadilha montada por meus adversários políticos. Por isso, apesar de ser jornalista e por estar apta a produzir matérias com sigilo de fonte, repassei ao invasor do meu celular o contato do reconhecido e renomado jornalista investigativo Glenn Greenwald.”
(Manuela D’Ávila, ex-deputada pelo PCdoB e ex-candidata a vice-presidente da República).

Eu também sou assim.
Quando meu telefone é invadido, eu repasso ao invasor o contato de algum reconhecido e renomado jornalista investigativo, em vez de avisar à polícia e à operadora.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro. A sequência do artigo está aqui.

O telefone

José Horta Manzano

Minha avó contava que, lá pelos anos 1930, o povo desconfiava de telefone. Desconfiar não é o termo exato – ninguém via utilidade naquele aparelho esquisito, preto, de baquelite(*), com fios saindo daqui e dali. Pra ser instalado, a parede tinha de ser furada e estragada. E depois… pra falar com quem? Ninguém tinha telefone. E, mesmo que tivesse, era esquisito conversar sem ver a cara do interlocutor. O único caso que se assemelhava era quando a gente ia contar os pecados, ajoelhado no confessionário, situação em que o penitente não enxerga a cara do padre. Mas aí já é outra coisa, um preceito religioso. Não se compara.

Naquele tempo, operadora se chamava companhia telefônica. Havia várias, muito mais do que hoje. Algumas delas praticavam marketing agressivo. Propunham-se a instalar gratuitamente um aparelho na casa do freguês e lá deixá-lo por um período de experiência de uns três meses, absolutamente de graça. Caso o cliente desejasse, podia, ao final do período, tornar-se assinante. Se não quisesse, a companhia vinha recolher o aparelho. O buraco na parede ficava.

Com o passar das décadas, o telefone cresceu em importância. Popularizou-se. Vulgarizou-se. Vinte anos atrás, dispensou o fio e começou a entrar no bolso do cidadão. Ainda assim, continuava a funcionar como aparelho destinado a assegurar conversa vocal entre duas pessoas.

De uns dez anos pra cá, o progresso tecnológico despejou maravilhas sobre o telefone de bolso. Hoje, ele ainda fala, mas também escreve, faz contas, dá a previsão do tempo, permite a leitura do jornal, paga compra no supermercado. Exerce até as funções de diário íntimo. É o cofre-forte que encerra os tim-tins e os porquês da vida do cidadão. Um espanto!

Estes dias, o Brasil anda boquiaberto com a façanha de improváveis piratas de Araraquara. Eles nos ensinam que invadir telefone, o cofre-forte que encerra os tim-tins e os porquês da vida de cada cidadão, é fácil como roubar pirulito de criança. Eles arrombaram o baú de milhares de graúdos da República. Aos assaltados, restam os olhos pra chorar. E – espero – dinheiro no bolso pra contratar um bom advogado que os defenda quando o telefone invadido começar a desvelar eventuais ‘malfeitos’ que ali estavam armazenados.

É engraçado observar que todos cometemos ‘malfeitos’. Escondemos os nossos, mas adoramos quando os dos outros são expostos à luz dos holofotes.

Razão tinha minha avó de desconfiar do telefone.

(*) Baquelite é a primeira matéria plástica que apareceu no comércio. É o ancestral de todos os plásticos que povoam nosso mundo atual.

Observe que, nas primeiras décadas, a gente ainda se referia a esse produto com o respeitoso nome de «matéria plástica». Foi com o passar dos anos que a convivência diária trouxe intimidade e permitiu o encurtamento da expressão. A ‘matéria’ se perdeu e só sobrou a ‘plástica’. Que, aliás, mudou de gênero – virou ‘plástico’. Plástico pode, portanto, ser considerado palavra transgênero.

O curioso caso do vereador suíço

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 27 julho 2019.

Monsieur Patelli, cidadão suíço, é rapaz decidido. Seu caráter por vezes impulsivo costuma pregar-lhe peças. Arrebatado, perde rápido as estribeiras e se deixa subjugar pelo ardor que a juventude lhe concede. Anda pelos vinte e poucos anos, idade em que se acredita ter o poder e a missão de consertar o mundo – crença que leva a dar valor exagerado a causas menores.

Uma tarde de 2014, participou de manifestação de rua em protesto contra a violência policial. Tachar a polícia suíça de violenta é rematado exagero. Aos muito jovens, porém, há que relevar certos desacertos. Acontece que a marcha de protesto desandou e virou batalha campal. (Francamente, usar de violência numa marcha que se propõe a denunciar a violência é atropelo ao bom senso. Mas assim são as coisas, que não se pode exigir coerência de todo o mundo a todo instante.) Câmeras de segurança gravaram a arruaça e registraram imagens do jovem Patelli justamente quando mandava uma pedrada pra cima da polícia. Com tantos manifestantes, não foi possível identificar cada um de imediato. As investigações continuaram.

Quatro anos mais tarde, a identidade do jovem foi descoberta. A vida tinha corrido e ele já havia progredido. Tinha-se candidatado às eleições municipais da cidadezinha onde vive. Eleito, é agora vereador. Mas ‒ que fazer? ‒ o gesto de quatro anos antes tinha de ser sancionado. Monsieur Patelli foi condenado a passar três meses em prisão domiciliar. Para controlar seus passos, leva uma tornozeleira.

Monsieur Patelli fotografado de tornozeleira na entrada da república onde mora.
Imagem: V.Cardoso, 24 Heures, Lausanne

Menos comum do que no Brasil, o caso do vereador suíço enrolado com a justiça trouxe à pauta a questão da compatibilidade entre as duas condições ‒ a de eleito e a de condenado. Tivesse a infração sido cometida depois da eleição, o mandato seria cassado de ofício, sem recurso possível. Mas o delito tinha ocorrido antes da eleição, de modo que não houve quebra do juramento que todo parlamentar faz de jamais infringir a lei. Monsieur Patelli se encontra agora na bizarra condição de condenado que cumpre pena de cerceamento de liberdade sendo, ao mesmo tempo, vereador em pleno exercício. Se, em outras terras, casos assim não surpreendem, na Suíça deu manchete na imprensa.

A Justiça do país não dá moleza pra quem está em prisão domiciliar. Os controles são rigorosos. Para seguir seus estudos, o jovem tem direito a deixar somente três vezes por semana a república onde vive em comunidade, com destino à faculdade. Para ir ao supermercado, tem de pedir autorização prévia. A licença virá com hora pra sair e hora pra voltar, com tolerância zero para atrasos. Se quiser comparecer a uma das três sessões semanais da Câmara, terá de renunciar a uma ida à faculdade. O que mais o aborrece, no fundo, é a proibição rigorosa de participar de protestos e passeatas, sua paixão.

O caso do jovem suíço que, por um lado paga pena por ter transgredido às regras da sociedade e, por outro, é legítimo representante dessa mesma sociedade, convenhamos, é extravagante. Raras no passado, não há mais como esquivar tais ocorrências nestes tempos de internet planetária, redes sociais abelhudas, pirataria informática e câmeras de segurança onipresentes. Singularmente, a Justiça suíça entende que, tendo o malfeito sido cometido antes da eleição, o condenado conserva o mandato que o povo lhe confiou. Recentemente, a Justiça espanhola mostrou ser da mesma opinião ao conceder a dirigentes catalães, procurados pela polícia mas exilados no exterior, o direito de candidatar-se às eleições para o Parlamento europeu.

No Brasil temos tido casos parelhos. Aqui e ali, vozes se alevantam pra denunciar incompatibilidade entre o estatuto de condenado e o de eleito. Em minha opinião, no caso de o fato delituoso ter ocorrido antes da eleição, a cassação automática do mandato seria pena abusiva. Com o cerceamento do direito de ir e vir, o indivíduo já está ressarcindo a sociedade dos prejuízos causados. Se já está a pagar o débito, não é justo aplicar-lhe pena extra. Por seu lado, é importante, isso sim, reforçar a caça aos eleitos que, embora tenham cometido ‘malfeitos’ – quiçá durante o mandato corrente! – continuam livres, leves, soltos, sem processo, sem julgamento, sem embaraço e sem pudor.

Agrément

José Horta Manzano

Mandando às favas toda a tradição diplomática, doutor Bolsonaro anunciou urbi et orbi – à cidade e ao mundo – que nomearia um dos bolsonarinhos para a chefia da embaixada do Brasil em Washington, o posto mais cobiçado da carreira, de costume reservado a profissional calejado e ultraexperimentado. O anúncio causou frisson. A memória do Itamaraty não registra caso de nome divulgado antes da obtenção do agrément. É que, caso ele não seja concedido, a estrepolia resultará num tapa na cara do Estado brasileiro, uma senhora afronta. Não convém facilitar. Mas o que é mesmo esse tal de agrément?

Como costuma ocorrer em matéria diplomática, a palavra é francesa. Foi importada tal e qual, com a grafia original. O acento que aparece sobre o é não é nosso acento tônico. Segue a ortografia francesa. É que a letra e, em francês, pode ter três sons diferentes. O acento tônico indica que, neste caso, o e tem som fechado, como nosso ê. A palavra inteira, para nossos ouvidos, soará oxítona, com acento tônico na última sílaba – algo próximo a «agremã».

O agrément é o reconhecimento emanado de uma autoridade oficial. Na França, onde seu uso é mais amplo, atesta que o indivíduo tem a formação e as qualidades necessárias para exercer a função que pleiteia. Em português, o campo semântico se estreitou. O agrément é usado exclusivamente em linguagem diplomática. Emitido por um Estado, significa que ele concorda com receber determinado indivíduo como representante de outro Estado.

Rei Luís XIV recebe o embaixador da Pérsia – Versailles, 1715
by Antoine Coypel (1661-1772), pintor francês

A palavra deriva do verbo agréer (= acolher favoravelmente, aceitar). Por sua vez, esse verbo descende de gré, que é a forma francesa do adjetivo latino gratus (=grato). E aí chegamos ao ancestral comum. Se não temos, em nossa língua, palavra correspondente ao agrément francês, temos uma coleção de primos próximos e afastados. Grato, gratidão, malgrado, agradecer, grado, gratificar, congratular, grátis, graça, gratuito. Todas essas palavras carregam, de perto ou de longe, um sentido de gratidão.

Ao receber o agrément do Estado que o acolherá, o novo embaixador passará a ser persona grata, ou seja, pessoa acolhida de bom grado, de boa vontade, sem objeção. Se o agrément lhe devesse ser negado, o infeliz se tornaria persona non grata, vexame pelo qual ninguém quer passar.

Doutor Bolsonaro assumiu pesado risco ao tornar pública a nomeação do bolsonarinho antes de receber o agrément de Washington. Traquinagem de gente inexperiente. Mas observadores atentos garantem que o “de acordo” virá. Por seu lado, muitos acham que o desterro de um dos problemáticos filhos do presidente só pode ser benéfico para o Brasil, na medida que doutor Bolsonaro perderá um dos tripés que o sustentam. Pessoalmente, não sou dessa opinião.

Acredito que a embaixada em Washington é muito mais do que um festival de mundanidades, com um coquetel aqui, uma visita ali, uma recepção acolá. A chefia da embaixada tem de ser entregue a um profissional ultraexperiente, o que não é o caso do bolsonarinho. Que os filhos em torno do presidente sejam dois ou três, pouca diferença faz: o desvario do pai será o mesmo. Um dos rebentos enxertado na embaixada de Washington pode causar estrago maior.

La famiglia
O distinto e culto leitor certamente conhece o verbo inglês to agree (=concordar) assim como o substantivo agreement (=acordo). Agora já se deve ter dado conta de que são empréstimos tomados diretamente do francês. To agree vem do verbo agréer. E o agreement inglês é o exato correspondente do agrément francês.

O pirata maluquinho

José Horta Manzano

Acabo de ler a notícia. Um dos cidadãos detidos sob suspeita de terem pirateado numerosos celulares, entre os quais o de doutor Moro, confessou o crime. Réu confesso, minha gente! Cenário ao qual a Justiça brasileira não está mais acostumada. Réu confesso! Como é que pode?

Imediatamente, seu advogado(*) asseverou que o cliente tem problemas psiquiátricos. Ato contínuo, correu às dependências da Polícia Federal com cobertor e remédios próprios para controlar a saúde de doentes mentais.

crédito: Ziraldo Alves Pinto

Faz sentido. No Brasil deste século 21, só quem não bate bem da bola confessa crime. Condenados em primeira instância negam ter delinquido. Condenados em segunda instância fincam pé no brado de inocência. Até um conhecido condenado em terceira instância continua a considerar-se ‘a alma mais pura dessepaiz’.

Réu que confessa antes mesmo de ser julgado só pode ser débil mental. Onde é que já se viu?

(*) É de se perguntar como é possível que um indivíduo – ao que se saiba, virgem de antecedentes criminais – disponha de advogado criminalista assim, imediatamente, ao alcance da mão. Quem encontrou? Quem contratou? Quem paga?

Só mais uma pergunta. Não pode ofender.
Por que, diabos, um individuo ‘com problemas psiquiátricos’ se poria a piratear telefone de altas autoridades da República? Piratagem informática não é jogo da velha. Exige formação pontuda e rigorosa.

Quem desvendar o mistério ganha a eterna gratidão de doutor Moro. Cartas para o Ministério da Justiça, Brasília.

Círculo Polar

José Horta Manzano

Nos últimos dias de junho, fomos castigados por uma onda de calor vinda direto do Saara. Aquela bola de fogo estacionou sobre a Europa central. Bem na época do solstício, em que os dias são mais longos, tivemos 8 dias de sufoco, sem vento, sem nuvens, com céu azul e sol brilhando das 5h da madrugada até as 9h30 da noite.

Nem no Piauí, nem no Ceará, nem no Tocantins faz calor assim. Duvida? Pois saiba que o Serviço Nacional de Meteorologia francês acaba de corrigir um dos dados publicados naqueles dias. O recorde de temperatura registrado no país não foi de 45,9°, mas exatamente de 46°. Quase cinquenta graus à sombra! Naturalmente, ninguém é obrigado a ficar à sombra.

Passados os primeiros dias de julho, acalmou. Não digo que esfriou, mas o tempo voltou ao habitual para esta época do ano. Quando todos já estavam guardando ventiladores e ventarolas no porão, catapum! Lá veio outra onda saariana. Começou anteontem e deve durar até sábado. De novo, noites mal dormidas, vegetação morrendo, racionamento de água, hospitais em alerta máximo. Em Paris, está previsto que o termômetro supere 40° hoje e amanhã. Em Genebra, 35°. Em vastas regiões da Alemanha, da Holanda e da Bélgica, 38°.

Escandinávia, 24 julho 2019
Temperaturas por volta do meio-dia

Até o extremo norte do continente está transpirando. Lá na Lapônia, no norte da nevosa Finlândia, pelas bandas onde Papai Noel vive, estão todos transpirando, inclusive as renas que servem ao bom velhinho. Coisa do outro mundo. Pra lá do Círculo Polar, a 70° de latitude, está fazendo hoje um calor de 29° ou 30°, fato jamais registrado. É a um pulinho do Polo Norte, minha gente! Muito impressionante.

Enquanto isso, com o planeta derretendo, o desmatamento da Amazônia come solto. E tudo segue tranquilo, sob a batuta de um Bolsonaro instalado em palácio, alheio ao que ocorre no mundo real, aplaudido e instigado pela corte de bajuladores.

Do jeito que vai, uma coisa parece certa: o presidente só tem alguma chance de ser reeleito se o adversário for um político identificado com o lulopetismo. Sempre que o planeta não se tenha incendiado daqui até lá, naturalmente.