Coisas boas do Brasil

José Horta Manzano

A plataforma que hospeda este blogue me informa diariamente quais foram os termos de busca através dos quais navegantes meio perdidos foram direcionados para este site. Como é compreensível, aqueles que escarafuncham assuntos um tanto específicos, sobre os quais pouca gente escreve além deste blogueiro, vêm parar aqui.

Um bom exemplo é «Rapaziada do Brás», um post que mandei ao ar há seis anos e que conta a história de uma valsa composta há mais de 100 anos. Quem busca essa música pelo título acaba caindo no Brasil de Longe. Há muitos outros exemplos de turistas que batem à minha porta depois de ter buscado termos pouco explorados por outros escribas.

No entanto, há uma expressão recorrente que, em vez de me alegrar por ver a casa cheia, me intriga e me entristece. Não se passa um dia sem aparecerem visitantes que chegam a esta casa após usarem, como termo de busca, a expressão «coisas boas do Brasil».

Me incomoda um bocado perceber que tanta gente entrega a um motor de busca a tarefa de encontrar as coisas boas do próprio país. Não acredito que os que agem assim façam isso por ingenuidade ou por preguiça. Portanto, a conclusão é uma só: está mesmo difícil encontrar coisas boas no Brasil de hoje. Sozinho e sem ajuda, um vivente não consegue. Será mesmo? Vamos ver.

É verdade que temos pobreza, desigualdade social, políticos desonestos, governantes incapazes, funcionários corruptos, criminalidade descontrolada, serviços públicos precários. Não é de hoje que vivemos num país atrasado, imbuído do espírito predador dos primeiros exploradores que aqui vinham pra enricar a todo custo, ainda que para isso tivessem de semear destruição e morte. Os exploradores do pau-brasil e os donos de escravos se foram, mas a índole predatória que os motivava ficou e está aí até hoje. O brasileiro carrega essa herança pesada, que atravanca e emperra o avanço do país. «Mateus, primeiro os teus» e «Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro» são ditos que combinam com o que acabo de dizer.

Mas nada disso é novidade! Nascemos e fomos criados nesse caldo. No fundo, a busca pelas «coisas boas do Brasil» pode até ser bom sinal. Pode ser o comecinho do despertar de uma consciência que andava anestesiada. O crescimento exponencial das redes sociais levou informação ao grande público. Nem sempre são novidades de qualidade. Há muito boato, muita notícia falsa, mas o fluxo contínuo de informação chacoalha uma população que, sem isso, se contentaria com a vizinha tagarela ou com o capítulo da novela.

Prefiro entender esses questionamentos como um despertar de consciência. Às favas a modéstia. Fico alegre em saber que aqueles que procuram «coisas boas do Brasil» sejam direcionados para a sala de visitas deste blogueiro, que escreve com sotaque de outros tempos. Talvez esse sotaque perdido seja justamente uma das portas de entrada do Brasil extraviado. Quem sabe.